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sexta-feira, 12 de junho de 2026

Daniel Oliveira - A bebedeira suicida do PSD

* Daniel Oliveira

Montenegro está a cavar uma crise de identidade no PSD. Sim, pode matá-lo. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca política

11 junho 2026  

Ométodo diz da função. Em poucas semanas, o Governo multiplicou-se em chico-espertices que sintetizam a carreira da inseparável parelha Montenegro-Soares. A votação da lei laboral foi marcada para meio do Mundial, para facilitar a negociação com o Chega, que está mortinho por aprová-la. Uma autorização legislativa sobre a Prestação Social Única (PSU) retira ao Parlamento o essencial do debate, impondo a chantagem do risco de perder €620 milhões do PRR por um prazo que o Governo conhecia há anos. O Chega apresentou a sua proposta de revisão constitucional, a lei dava um mês para outros o fazerem, mas Aguiar-Branco, para permitir a negociação com o PSD, não a admitiu e criou o precedente de ser ele a definir quando começam a contar os prazos. Votar pela calada, chantagear com urgências fabricadas, dobrar regras que incomodam.

Quanto à política, depois dos de baixo da imigração, chegou a vez dos de baixo da pobreza. O padrão é excitar o ressentimento que rende. Na lei da imigração o Governo recorreu à demagogia das “portas escancaradas” e as primeiras consequências, segundo notícias, estão a ser a partida de imigrantes de que a economia depende. Na PSU o alvo mudou, mas a lógica mantém-se. A ideia era, unificando 13 prestações, simplificar o acesso, reduzir a estigmatização, tornar o sistema mais legível. O Governo complexificou o acesso, introduziu novas formas de exclusão e transformou a reforma num instrumento de controlo. Num país desigual, que gasta em proteção social menos percentagem do PIB do que a Europa, a pobreza é tratada como um vício de que se suspeita, se vigia e se pune. Está prevista uma equipa para gerir denúncias de vizinhos sobre quem tem carro, usa smartphone e pede apoio, nada para mais acompanhamento ou inserção. E propõe-se trabalho social obrigatório sem qualquer estratégia de empregabilidade. Só trabalho sem salário, sem direitos, sem contrato, sem horizonte. Não quebra nenhuma espiral de dependência com formação e acesso a oportunidades, apenas pune quem nela está.

A política do ressentimento pode garantir aplausos, mas não constrói um perfil de governo sustentável. O PSD parece acreditar que, pegando nas bandeiras mais populares do Chega, disputa os seus eleitores. Só que as pessoas vão aprendendo a farejar o oportunismo. Quem queria um Governo com a agenda do Chega votou no Chega. Do PSD esperava resultados na habitação e no SNS, duas das três principais preocupações dos portugueses, depois da corrupção, onde a imagem também não é a melhor. A última sondagem para o Expresso exibe o equívoco de Montenegro. Os eleitores do PSD avaliam o Chega com 2,8 em 10 — pior do que o BE e o PCP (2,9) e muito pior do que o PS (4,5). E quando se lhes pede uma palavra para descrever os apoiantes do Chega, 23% escolhem “ameaça extremista”, 41% usam termos como “fascistas”, “extremistas”, “corruptos” ou “malucos”. Montenegro está a fazer política para um eleitorado que os seus eleitores consideram uma ameaça. Há, claro, a possibilidade de o taticismo ser ainda mais retorcido e, depois do bruaá, recuar na PSU para ter o voto do PS, aprovar a lei laboral com o Chega e, limitando-se a apresentar o modelo inicial da prestação, dar a ideia de equidistância. À hora que escrevo não o sei. Sei que é sempre o mesmo: tática, tática e mais tática.

Costa desbaratou a maioria absoluta de 2022 porque o cálculo esteve sempre à frente de qualquer desígnio. O resultado foi o desastre que se seguiu e uma dificuldade do PS em recuperar os eleitores que perdeu. De tal forma que se pôs a hipótese de o declínio ser irreversível. Montenegro está a cometer o mesmo erro, com um taticismo ainda mais desalmado. Só que o contexto é mais instável, o espaço político à sua direita está em rapidíssima mutação e as consequências podem ser mais destrutivas. O problema não é apenas estar a governar mal, ao ponto de, ao fim de dois anos, Carneiro o ter ultrapassado nas sondagens. É estar a cavar uma crise de identidade no PSD. Conhecemos este filme noutros países europeus: partidos de centro-direita (e até de centro-esquerda) que tentaram competir com a extrema-direita no seu próprio terreno acabaram por perder dos dois lados. E o esvaziamento do PSD é até mais fácil de consumar do que o do PS: à direita há vários partidos prontos a absorver os fugitivos e o PS pode facilmente ocupar o centro deixado vago. Ou então o cenário alternativo, porventura mais perigoso: um Chega com eleitorado sólido e fidelizado, enquanto PS e PSD se vão esburacando e alternando no poder. Sim, Montenegro pode matar o PSD. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca política.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-06-11-a-bebedeira-suicida-do-psd 


quinta-feira, 4 de junho de 2026

António Filipe - Anatomia de um golpe inconstitucional PSD/Chega/Aguiar Branco

 * António Filipe

“Estamos perante uma golpada que torna muito claro que o regime democrático corre um perigo muito sério.

O partido Chega apresentou um projeto de revisão constitucional no dia 7 de maio. Como se sabe, nos termos da Constituição (artigo 285.º) apresentado um projeto de revisão constitucional, quaisquer outros terão de ser apresentados no prazo de 30 dias.

Segundo o Regimento da Assembleia da República (artigo 118.º, n.º 2), uma vez findo esse prazo, é constituída uma Comissão Eventual de Revisão Constitucional.

Daqui decorre inevitavelmente que, iniciado um processo de revisão constitucional por um qualquer grupo parlamentar ou deputado, só podem ser considerados nesse processo os projetos que sejam apresentados dentro do prazo de 30 dias. Se, por hipótese, nenhum outro projeto for apresentado, a Comissão Eventual será obrigatoriamente constituída e o projeto, se não for retirado, terá de ser apreciado para o processo seja concluído. Sem que se dê essa conclusão, nenhum outro projeto poderá ser admitido, dado que, obviamente, este regime constitucional impede o decurso de dois processos de revisão constitucional em simultâneo.

Este regime não foi estabelecido por acaso. Entenderam os constituintes que desencadeado um processo de revisão constitucional o país não poderia ficar demasiado tempo com uma espada pendente sobre a sua lei fundamental, pondo em causa a estabilidade constitucional necessária para a normalidade da vida política, económica e social.

Sucede que, questionado o presidente da Assembleia da República sobre qual o prazo relevante para o início da contagem do prazo de 30 dias, este emitiu um despacho, baseado num parecer que solicitou, segundo o qual, o prazo não começa a contar a partir da apresentação do projeto, mas apenas a contar da sua admissão pelo presidente.

Para além de ser discutível que o termo usado pela Constituição, “apresentado” possa ser interpretado como “admitido”, a questão assume outros contornos quando, como é o caso, o presidente da Assembleia da República decidiu protelar a “admissão” sem qualquer fundamento razoável, interferindo assim diretamente no processo de revisão constitucional.

Nos termos de um segundo despacho de Aguiar Branco, a admissibilidade do projeto de revisão constitucional do Chega suscitaria problemas quanto à sua admissibilidade pelo facto de não respeitar limites materiais de revisão constitucional. Isso é razoável, o que já não o é, é que o Presidente da Assembleia da República em vez de tomar uma decisão tenha solicitado um parecer, sem prazo, ao auditor jurídico da Assembleia da República que não tem qualquer competência legal para o efeito, suspendendo assim a admissão do projeto de revisão constitucional e consequentemente suspendendo sine die de forma inconstitucional o início do prazo para a apresentação de projetos de revisão constitucional, deixando o processo num “banho-maria” inconstitucional muito conveniente para o Chega e para o PSD.

O problema assume, entretanto, contornos mais graves com a apresentação de um requerimento conjunto do PSD e do Chega propondo que a contagem do prazo para a apresentação dos projetos de revisão só se iniciasse em dezembro e assumindo o Chega a possibilidade de alterar o projeto de revisão constitucional que já apresentou.

Perante tal requerimento manifestamente inconstitucional, a menos que o Chega retirasse o seu projeto, Aguiar Branco decide dar como adquirido que o projeto do Chega não é para levar a sério, retira o pedido de parecer ao auditor jurídico, e fica à espera que o Chega reformule o seu projeto de revisão para tomar uma decisão sobre a sua admissão e então aí estabelecer o prazo para a apresentação dos demais projetos.

Perante isto, não estamos perante uma simples trapalhada. Estamos perante o anúncio público e formal de que o PSD e o Chega pretendem levar a cabo uma revisão constitucional que pode fazer desabar traves-mestras do regime democrático, como estamos perante um procedimento que configura uma golpada inconstitucional tripartida que envolve o PSD, o Chega e Aguiar Branco.

Sintetizemos:

1.º Perante a apresentação de um projeto de revisão constitucional, o presidente da Assembleia tem de tomar uma decisão. Não pode fazer veto de gaveta a uma iniciativa apresentada e muito menos gerir o momento da admissibilidade por razões de conveniência política, tanto mais quando o decurso de um prazo resulta de um imperativo constitucional.

2.º O PSD e o Chega não podem pretender alterar um prazo constitucionalmente estabelecido por razões de conveniência política. Ou o Chega retira o projeto que apresentou ou tem de haver uma decisão sobre a sua admissão e o prazo de 30 dias para a apresentação de outros projetos tem de decorrer.

3.º O Presidente da Assembleia da República não pode deixar de assumir as suas obrigações constitucionais na base do pressuposto de que o Chega vai alterar o projeto que apresentou. O presidente da Assembleia da República tem a obrigação de tomar decisões sobre as iniciativas que tenham sido apresentadas, não pode tomar decisões baseadas em iniciativas hipotéticas. Se o Chega não retirar o projeto que apresentou, Aguiar Branco vai continuar a fingir que ele não existe?

4.º Estamos perante uma golpada que torna muito claro que o regime democrático corre um perigo muito sério. É bom que todos os democratas acionem os sinais de alarme.”

4 de Junho de 2026

https://www.publico.pt/2026/06/04/opiniao/opiniao/anatomia-golpe-inconstitucional-psdchegaaguiar-branco-2177107

segunda-feira, 19 de maio de 2025

Bruno de Carvalho - Sobre as Legislativas 2025

* Brkuno de Cargvalhoç


Não se desenganem. O Chega vem mesmo para mudar o país. Para pior. O partido de André Ventura é o sonho molhado dos grandes grupos económicos e financeiros. Poder, finalmente, ajudar contas, de forma aberta e sem pudor, com as conquistas sociais da revolução de Abril é o desígnio do Chega. Ontem à noite, na RTP, João Cotrim Figueiredo, da Iniciativa Liberal, e Pedro Frazão, do Chega, admitiam juntos que querem mudar a Constituição da República Portuguesa para acabar com o seu preâmbulo e alterar a parte que define a organização económica do país porque, e cito, atribui ao Estado “a obrigação de ser ele o prestador dos serviços públicos” (ao fundo ouve-se Pedro Frazão a gritar “exactamente!”).

O desmantelamento das funções sociais do Estado é, sem dúvida, uma hecatombe mas vem já sendo operada ao longo de décadas pelo PS e PSD. Essa é, aliás, uma das principais razões para a votação avassaladora no Chega. Os partidos que até agora nos governaram, fingindo defender a democracia, favoreceram sempre as elites. O partido de André Ventura, fingindo estar contra este sistema, quer favorecer as mesmas elites. O povo que se lixe.

Eu dizia, há uns dias, que antes de melhorar isto ainda vai piorar. Mas só vai melhorar com a resistência dos trabalhadores (sim, também com muitos dos que votaram no partido de André Ventura). Muita gente vota no Chega porque sente que esse é o voto de protesto contra a sua vida miserável. E sim, é absolutamente chocante que haja mais de um milhão de eleitores de um partido abertamente fascista e que muitos tenham como objectivo expulsar indostânicos, tornar a vida num inferno aos portugueses ciganos e retirar direitos às mulheres. Tudo menos tocar nos interesses de quem de facto é responsável pelas nossas vidas miseráveis: os grandes grupos económicos e financeiros. Acreditam que André Ventura está mesmo contra este sistema. 

Que votem num partido de ladrões, corruptos e pedófilos, de aldabrões encartados que dizem uma coisa hoje e amanhã o seu contrário, não significa que não tenham razão em estar revoltados. Sabemos bem que o Chega foi levado em ombros pela comunicação social que, de forma irresponsável, mas consciente e deliberada, virou todos os focos para a extrema-direita, dando gás ao seu discurso racista e xenófobo. Os donos de jornais, rádios e televisões nunca o fizeram com o PCP, por exemplo, porque sabiam que os comunistas, ao contrário do Chega, estão de facto contra este sistema.

É certo, a palavra esquerda significa, hoje, pouco para os portugueses porque a identificam com partidos como o PS que sempre disseram uma coisa e fizeram outra. Muitos identificam-na também com uma esquerda folclórica que sempre preferiu viver mais da estética do que do conteúdo, que prefere priorizar direitos individuais e secundarizar direitos colectivos, cavalgando a onda liberal, procurando a divisão da classe trabalhadora.

Os sinos têm de tocar a rebate porque a gravidade é evidente. PS e PSD tenderão, como noutros países, a convencer-nos de que a democracia se defende votando neles. Não, a democracia defende-se melhorando as condições de vida dos trabalhadores, das mulheres, dos jovens e dos reformados. A tarefa do futuro é a construção de uma resistência onde caibam todos os que queiram verdadeiramente lutar contra este sistema. Devemos apontar o dedo ao Chega mas também aos que nos trouxeram aqui: as políticas do PS e PSD, a comunicação social e as redes sociais. Para lá da internet, onde também é importante saber comunicar, temos de reconstruir a nossa vida colectiva onde ela mais importa: conectando-nos com outros nos locais de trabalho, no sindicato, na colectividade, na associação de moradores, etc.

O tempo que vivemos é de resistência. Num dos seus poemas, Manuel Gusmão perguntou “quem somos nós?” e respondeu, em relação aos comunistas, que “somos a esperança que não fica à espera”. Muitos só vão perceber o engodo do Chega quando a nossa vida piorar ainda mais. Vão ter de bater de frente com os sindicatos mas os sindicatos sem trabalhadores não são mais do que quatro paredes e um telhado. É importante que entendamos que a resistência se faz connosco. Não se faz apenas nas redes sociais. Faz-se nas ruas e nos locais de trabalho. Muitos direitos vão ficar em causa, sobretudo dos trabalhadores e das mulheres, e cabe-nos mostrar que somos muitos e capazes de colectivamente enfrentar as ameaças. Mas defender o que temos não basta. Precisamos de assentar as bases para que no futuro nos tenhamos a todos, lado a lado, a construir um país soberano, socialmente justo e de progresso.

2925 05 19

https://www.facebook.com/pedro.bala

segunda-feira, 3 de março de 2025

José Simões - As coisas como elas foram, as coisas como elas são


* josé simões

António Costa, por ter menos de 41 mil euros no banco e por isso estar dispensado de declarar qualquer conta à ordem, foi alvo de uma ataque cerrado da parte de ilustres - anteriormente conhecidos por "barões, comentadeiros, conhecidos e anónimos do PSD. Um fartote nas redes.

Luís Montenegro usou cinco contas distintas, todas abaixo dos 41 mil euros, para comprar uma casa no valor de 116 mil euros, o silêncio total. Se calhar ainda é elogiado pela "engenharia financeira."

 

O Ministério Público, que avançou com uma investigação a Mariana Mortágua por alegadamente violar o regime de exclusividade pelos escritos que publicava num jornal, nunca ouviu falar da chico-espertice que é Luís Montenegro receber avenças de entidades privadas enquanto primeiro-ministro de uma empresa que não era dele por ter vendido a quota à mulher com quem vive em comunhão de adquirido.

 

Marcelo, que aparecia a cada 5 minutos em todos os telejornais para comentar todos os assuntos da governação em temas onde nem sequer o ministro da tutela aparecia e que achou gravíssimo um assessor ter atropelado um vidro no ministério com uma bicicleta, acha agora natural Luís Montenegro ter na folha o pagamento de várias empresas para a sua morada e número de telemóvel.

 

Luís Marques Mendes, o candidato presidencial de Luís Montenegro, na calha para suceder a Marcelo, que enquanto comentadeiro na televisão do militante n.º 1 do PSD nunca se coibiu de surfar e amplificar a onda anti-Costa com origem na Santa à Lapa, agora acha uma irresponsabilidade a queda de um governo minoritário por causa do PRR e da "incerteza europeia e mundial", questões que não se colocavam ao governo de maioria absoluta PS, sem PRR para executar e sem guerra na Ucrânia, só certezas.

 

Marcelo, que na falta de tocar às campainhas andava feito criança pelo beco dos Távoras, pela máquina multibanco na Rua de Belém, a calcetar a esquina dos pasteis de Belém com os calcanhares, fez saber à televisão do militante n.º 1 que está irritadíssimo com Luís Montenegro, não pelas trafulhices que todos os dias vêm a público mas por não lhe ter comunicado que ia falar ao país. O nome do meio de Marcelo é Cardinali.

 2025 03 03

[Imagem retirada do site do PSD]

 https://derterrorist.blogs.sapo.pt/as-coisas-como-elas-foram-as-coisas-6266539

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Carlos Matos Gomes - A cultura das tias de Cascais

* Carlos Matos Gomes -


Quem não tem vergonha todo o mundo é seu. Pinto Balsemão não é conhecido por ser uma personalidade coerente, nem ter um pensamento político estruturado, nem sequer por se orientar por princípios. 

A cultura das tias de Cascais e dos meninos da Quinta da Marinha não produz exemplares de caráter. Nem fiáveis. É malta mais de canapés do que de boa fé. Mais de valores da bolsa do que dos de inteligência moral. 

Pinto Balsemão abrilhantou com um toque de modernidade e burguesia pós II Guerra a ditadura do Estado Novo. Foi deputado de uma ditadura. Fundou um jornal importante para lavar a cara da ditadura. Mas quanto a ditaduras e Balsemão, ele deve estar convenientemente esquecido que foi chefe do 8º governo constitucional de 1983 a 1985. Não viu qualquer inconveniente em defender regimes como a ditadura brasileira (1964-1988) e a do Chile (1973-1990) e de defender o regime de ditadura teocrática da Arábia Saudita.

É fruste a justificação que Pinto Balsemão dá para apoiar a aliança do partido que começou por ser Popular e nunca chegou a ser Social Democrata (aonde se acolheram os órfãos da União Nacional, crismada Ação Nacional Popular) com os fascistas do Chega, de o PCP defender o regime da Coreia do Norte (o que é falso tanto quanto li nos escritos do PCP que se limita a defender o direito da Coreia do Norte a existir num contexto muito complexo, entre a China e os EUA - mas o que interessa a verdade?).

É fruste, mas revela as fracas raízes democráticas de Balsemão (como de alguns dos fundadores do PPD/PSD) e essa fraqueza de princípios dos mentores de um dos  partidos mais  importantes do regime após o 25 de Abril de 1974 explica muitas das dificuldades de implantação de Estado de direito e e de justiça. Explica fenómenos desviantes como os de Cavaco Silva ou de Passos Coelho...  

É que se os mais asseadinhos e ilustradinhos dos fundadores do PPD/PSD (expressão de outro produto da mesma frutaria) está disposto a estes convívios com os sucessores dos antigos legionários e graduados da MP, como será o maralhal da geral? 

2024 11 29
https://foicebook.blogspot.com/2024/11/a-cultura-das-tias-de-cascais.html

segunda-feira, 11 de março de 2024

Banqueiros, governo psd/cds e fascismo



 
quarta-feira, 5 de julho de 2023


Quando dava o fanico a Cavaco, o BES já em falência e o governo aumentava a austeridade e a repressão, se previa o desaparecimento do CDS, a vitória do PSD sem maioria e a possibilidade do PS ir para o governo e mais tarde a necessidade de maioria absoluta. Estávamos em 2014

Banqueiros e governo almejam o fascismo

Foi o presidente do BPI, como tem sido habitual em situações semelhantes, um dos primeiros a vituperar a decisão dos juízes do Tribunal Constitucional em chumbar as normas ilegais da Lei do Orçamento de Estado que levaram aos cortes dos salários dos trabalhadores da função pública, utilizando argumentos falaciosos, em sentido análogo ao dos governantes e dirigentes do psd, querendo justificar os interesses da classe dos banqueiros a todo o custo. Custo da política de austeridade que continua e irá redobrar no horizonte mais próximo, certo e sabido até 2019 (é o incontornável governador do Banco de Portugal que o afirma, mais uma vez bota palavra), e assacado ao povo português.

Conta que irá agravar-se, nem que seja por razões “nacionais”, por exemplo, o banco do regime, o também inconfundível BES, desvenda mais um pouco o buraco em que se encontra: o BES Angola apresenta um rombo de 5,7 mil milhões de dólares, resultante de empréstimos concedidos a altas figuras do regime corrupto daquele país, mas que a gerência diz não saber bem onde foi parar o dinheiro, numa demonstração clara de impunidade e de confiança de quem alguém (o povo português e possivelmente o povo angolano) irá pagar o desfalque.

O fascismo é o governo exercido pelos banqueiros

Nunca se tinha visto banqueiros e governadores do BdP, para além dos habituais economistas, ex-ministros e outros comentadores/paineleiros, a botar faladura com tanta frequência e prosápia sobre política e, principalmente, sobre as contrariedades governativas. Os argumentos são mais que falaciosos, são demagógicos, mentirosos, deliberadamente confusos e enganadores para a opinião pública.

Argumentar que o TC está a imiscuir-se na actividade legislativa e que “assuntos económicos” não são da sua competência, e vão para além da questão jurídica, é dizer, através de uma fraseologia pretensamente técnica, que vale tudo, que o Parlamento, nas mãos do executivo, pode decidir a bel-prazer, ou seja, se pode governar em ditadura, desta vez sem fechar o Parlamento como já aconteceu em outros períodos de profunda crise política da história do povo português, estamos lembrados da ditadura de João Franco, em véspera do regicídio e do imediato fenecimento da monarquia.

Não há dúvidas de que os banqueiros controlam abertamente o governo, sem intermediários e disfarces, só falta serem eles os ministros, como acontece na actual fascista Ucrânia em que os principias governantes, desde o Presidente da República recentemente eleito em eleições fantoches aos governadores das regiões, são os indivíduos mais ricos do país, enriquecidos, diga-se de passagem, pelo saque das empresas públicas que foram “vendidas” dez vezes mais baixo que o seu real valor.

E se há partidos e gente que faz o frete não será somente por serem corruptos e de estarem à espera de boa recompensa em lugares de conforto nos conselhos de administração dos bancos e de outras empresas que enriqueceram à custa dos negócios com o estado, mas porque a nossa burguesia e os partidos que a servem fizeram profissão de fé aliarem-se ao grande capital financeiro europeu, com o alemão em posição dominante, com o duplo objectivo de sobreviverem e de sobre-explorarem os trabalhadores e o povo português.

Os fanicos do senhor Silva




Enquanto o povo caminha a passos largos para a miséria e o país para bancarrota, sendo indisfarçável a necessidade de um segundo resgate e daí o preparar da opinião pública para tal, ao PR senhor Silva dá-lhe o fanico em situação de contestação pública e em dia de comemoração da “raça”, e ao PS, o “principal partido da oposição”, dá-lhe a guerra intestina pela disputa do pote e para salvação do regime e dos banqueiros e capitalismo nacionais.

O fanico do senhor Silva, ao que consta é o terceiro (e não o segundo, o primeiro foi quando os estudantes uma vez irromperam pelo gabinete quando era professor) desde que se meteu na política, vale pelo simbolismo, ele é também a falência do governo psd-cds e do próprio regime de democracia de opereta. Os espasmos vagais são resultantes não de uma hipotética doença de Alzheimer, como alguém quer fazer crer, mas próprios de personalidades histriónicas que não admitem a contrariedade nem a frustração, são expressão de um mau carácter, de quem deseja e prepara o fascismo; que bem pode vir pela mão de um ps, com ou sem o Costa.

Porque a revolta do povo a isso obrigará, fazendo com que a burguesia adopte formas de governo mais musculadas que, por sua vez, irão precipitar e provar sem margem para dúvidas que a única alternativa que os trabalhadores têm para a saída da crise do capitalismo é o socialismo.

Enquanto se adensam no horizonte próximo as nuvens da austeridade levada a expoente máximo, o tal de “principal partido da oposição” desintegra-se em disputas internas em vez de envidar todos os esforços e recursos para o derrube do governo fascista psd/cds. Contudo a verdadeira natureza das pretensas divergências internas torna-se clara e evidente: não se pretende um ps com uma direcção forte para fazer inverter a 180 graus a política defendida e aplicada pelo psd/cds, mas para impor a mesma política em grau redobrado.

O PS como tábua de salvação do capitalismo

Não será um ps sem maioria absoluta, e com a impossibilidade de se aliar mais uma vez com o cds, que irá ser reduzido à sua expressão mais simples em termos eleitorais, que conseguirá colocar em prática as medidas económicas que mantenham ou venham mesmo aumentar a exploração do povo português para salvação do capitalismo nacional e para benefício dos lucros e da concentração do grande capital financeiro europeu e internacional (norte-americano, mais precisamente, via FMI).

O partido que foi fundado pelos herdeiros da I República e com os marcos da social-democracia alemã será ainda o único capaz de trazer de novo o apoio da dita “classe média” causticada pela política de austeridade do governo ainda em funções a uma política de pretensa “salvação nacional”, mas para tal precisará de maioria absoluta. O resultado das eleições europeias revelaram que não só o ps não consegue formar governo sozinho, como o cds irá desaparecer do mapa, como o psd também pode ganhar as eleições mas também sem maioria e sem possibilidade de repetir a aliança com o actual parceiro, e que só duas saídas estarão disponíveis: ou a aliança de ps com psd, tão de agrado do senhor Silva e de alguns altos dirigentes do ps, ou ps terá de criar uma maioria que não sabemos como conseguirá atendendo a que o povo português, apesar de ser acusado frequentemente de amnésia, ainda está bem recordado do que foi o governo ps/engº Sócrates.

Caso o Costa de Lisboa alcance o poder dentro do partido e venha a ser o primeiro ministro de Portugal a seguir a 2015, e as eleições terão que ser realizadas na data prevista para que haja tempo para o assalto ao castelo, daí o ps nunca se ter empenhado em derrubar o governo, virá a revelar-se um “filho da puta” (estamos a falar em termos políticos, como é óbvio) muito parecido senão pior que o dito “engenheiro Sócrates”. Ele igualmente bom para ir buscar o fascismo, pese o rótulo de “democrata” colado pela extrema-esquerda, ansiosa de também aceder à gamela do orçamento e do aparelho da administração burguesa.

São mais que numerosos os sinais enviados pelo psd/cds e seus amos banqueiros para o regresso do fascismo em Portugal e em curto prazo de tempo. O senhor Silva não enviou a Lei do Orçamento para o Tribunal Constitucional porque os pareceres que lhe apresentaram não detectaram qualquer inconstitucionalidade e o senhor Coelho depois do chumbo do TC quer mudar os critérios de nomeação dos juízes daquela instituição apesar de dos 13 juízes 10 serem de nomeação partidária. É o oitavo chumbo do TC, os dirigentes dos psd e cds eriçam-se porque não podem cumprir a tarefa de transferência da riqueza do trabalho para o capital sem obstáculos, querem tomar as medidas que bem entendem, fazendo do Parlamento, o órgão por excelência e símbolo da democracia dos cravos, um simples ornamento.

O fascismo é sempre bem-amado pela elite

Querem o fascismo, a acumulação do capital não se compraz com democracias quando se tornam um estorvo, estas servem só na justa medida em que permitem uma mais fácil ilusão dos trabalhadores a fim de se deixaram explorar mais docilmente. Quando isto começa a deixar de resultar, então o mais prático e rápido é o fascismo; a Ucrânia é neste momento a melhor prova desta mudança de actuação do grande capital. E a exemplo do que se passa na União Europeia, onde os órgãos eleitos mais não passam de decoração de um regime autoritário onde tudo o que é essencial é decidido em órgãos não eleitos. Razão que justifica em grande medida a enorme abstenção nas eleições do passado dia 25 de Maio.

E a par da abstenção assistiu-se à subida dos partidos da extrema-direita e dos ditos eurocéticos, em geral, que, no dizer de certa esquerda nacional (resistir.info) até apresentou “propostas perfeitamente razoáveis, corajosas e até meritórias”, ou seja, o caminho a seguir será o da “saída do euro, defesa da indústria nacional, ruptura com a globalização e a independência”, tout court. 

Em suma, entre a extrema-direita e a esquerda que ainda se arvora oficialmente do comunismo, como é no caso presente, não há diferença de monta, depois não venham queixar-se da ascensão eleitoral dos partidos da extrema-direita e a quebra (ou inútil ténue subida) dos PC's ortodoxos de ex-tendência soviética, já para não falar do quase desaparecimento de BE's (o grego Syriza será a excepção, porque ocupando o lugar do Pasok). Esta gente, e não terá sido só o ps, meteu o socialismo na gaveta, e pior ainda, enfiaram o socialismo e o comunismo em cova bem funda, ficando-se pela social-democracia, o quer dizer, o aperfeiçoamento e regulação do capitalismo, de preferência, um capitalismo com cor nacional; que é onde conduzem as medidas avançadas por um FN da família le Pen.

O caminho é o socialismo/comunismo

Quando o capitalismo se encontra na sua fase última de vida, em estertor que, e apesar e por isso mesmo, pode ser demorado e doloroso para o mundo do trabalho, esta gente não aponta abertamente para uma solução socialista, porque presas aos medos e complexos da classe de onde provém a maioria dos dirigentes destes partidos, a classe média, melhor dizendo, a pequena-burguesia que tem mais medo do comunismo que do fascismo. Querem pôr a roda da história a andar para trás, depois não venham queixar-se do regresso do fascismo ou de soluções populistas, do género Marinho e Pinto, que a prazo conduzem ao mesmo.

O caminho é o do socialismo/comunismo e não das pretensas “democracias do século XXI” ou das “revoluções democratas e patrióticas” chinesas, como se a situação na Europa meridional e periférica (PIIGS) fosse ainda semelhante à que existia no mundo não industrializado da primeira metade do século passado. Neste mundo globalizado capitalista a alternativa é o socialismo/comunismo, não há etapas intermédias, estas servem para empatar e dar mais fôlego à burguesia e prolongar o capitalismo. Cada vez mais se sente a necessidade de uma alternativa socialista e revolucionária, ou seja, o comunismo.

15 Junho 2014

www.osbarbaros.org

Postado por O BÁRBARO às 14:53 
https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2023/07/banqueiros-governo-psdcds-e-fascismo.html

A Economia em estado comatoso, o fascismo brando e o PS em fim de linha

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

 

cartoon de João Abel Manta 

O alarme, o medo, o estado de emergência, com a mentira e a manipulação pelo meio, têm sido a estratégia do governo PS/Costa neste segundo mandato para impôr uma segunda vaga de austeridade, agora em dose maciça. Para atingir o objectivo há que amedrontar o povo e os trabalhadores e atirar com a responsabilidade para uma falsa pandemia, por sua vez, amplificada por uma imprensa subserviente, paga por muitos milhões de euros através de contratos de publicidade institucional e que agora, em final de Novembro, serão renovados, para continuar a propagar a mentira e induzir o medo. A declaração de estado de emergência, com o apoio servil da Assembleia da República, cada vez mais secundarizada para o papel de caixa de ressonância do executivo, e sob o alto patrocínio do PR Marcelo, que em segundo mandato irá mostrar os dentes, tal como o faz presentemente o Costa, e a explicitação em reunião extraordinária de ministros das medidas concretas que enformam a situação de suspensão de algumas liberdade e direitos dos cidadãos foram antecedidas, acompanhadas e seguidas por números manipulados e até falsos com um único fito de lançar o pânico e levar à aceitação de uma inevitabilidade, como se a vida de cada português estivesse em causa com uma virose que não mata mais do que qualquer outra patologia de causa infecto-contagiosa já existente em Portugal.

Os números apresentados são para isso mesmo, para aterrorizar, os títulos da imprensa o dizem: “Nunca em Portugal se registaram tantos casos em 24 horas: mais 5.550 infetados, a maioria no Norte (3.006)“ (DN, 06), “Pico de 6500 casos por dia de covid-19 esperado para o fim de Novembro” (JN, 07), “COVID-19: Portugal com novo recorde de óbitos. Mais 63 mortes e 4.096 infetados em 24 horas” (DN, 09), “Portugal ultrapassa as 3 mil mortes, com mais 62 nas últimas 24 horas” (DN,11), contudo a imprensa passa ao de leve ou não fala de todo que se em Março se começou a testar 800 pessoas se passou em Novembro (dia 05) a testar mais de 40 mil por dia, o que prova que a letalidade é pequena (1,7%), mas o medo devido ao matraquear constante dos números fica. Números que afinal até serão falsos, como denunciam os 12 investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto em estudo publicado que aponta que os dados do Sistema Nacional de Vigilância Epidemiológica (SINAVE) que têm sido fornecidas à comunidade científica, nos últimos meses, sobre os casos de Covid-19, “têm uma qualidade baixa, erros, inconsistências e muita informação em falta”, onde são encontrados “casos de um doente com 134 anos e três homens classificados como 'grávidos', bem como 19 doentes que supostamente teriam tido a doença antes do primeiro caso que se sabe que foi diagnosticado em Portugal”, colocando por terra a fiabilidade de todos os dados. O governo pode mentir uma vez e mais vezes, mas não conseguirá mentir sempre de molde a continuar com a intimidação, os factos são a contraprova da mentira e o povo mais cedo ou mais tarde abrirá os olhos e enviará o PS para o sítio onde já deveria estar, a história do lixo político.

A economia nacional encontra-se em estado comatoso

Por que é que o governo do Costa e do PS se encarniça na mentira e decretou o estado de emergência, não foi para “controlar e reprimir a pandemia” ou “apoiar os profissionais de saúde”, como Costa não se cansa de afirmar? Por uma simples razão, é que a economia nacional se encontra em estado comatoso, se em 2010 eram os bancos que se encontravam à beira da falência, agora são as empresas em geral que vêem os lucros a estagnar, muitas delas estão descapitalizadas e com o mercado a não conseguir consumir o excesso de produção do capitalismo devido à diminuição dos rendimentos dos trabalhadores – uma das contradições do capitalismo. As medidas que irão ser aplicadas daqui para frente, na continuidades das que foram no quadro do primeiro estado de emergência, serão para salvar as grandes empresas, os grandes capitalistas e patrões, não os pequenos e mesmo médios, como diz Costa: “"as medidas... não são alternativas ao layoff, somam-se ao layoff", reforçando que "o layoff continua a existir, quer o geral como a medida de apoio à retoma que substituiu o layoff simplificado", e já foram 1.550 milhões de euros, para além da “bazuca” que já está a caminho, são 750 milhões em subsídios a fundo perdido para as ditas “micro e pequenas empresas” que apresentem uma quebra de facturação de pelo menos 25% nos primeiros nove meses deste ano. Ora, iremos ver muitas empresas a apresentar subfacturação sem necessitar de ajudas e outras já com a corda ao pescoço a falirem inapelavelmente. Costa não acredita que seja possível "impedir a insolvência de todas as empresas" e assim estaria a pensar, já depois do estado de emergência em vigor e com o seu ar de hipócrita crónico, nas medidas mais adequadas, que irão sobretudo para os grandes hoteleiros e cadeias de restauração... um dia destes quem quiser tomar uma refeição pouco mais terá para além de um McDonald's ou de um Burger King e em centros comerciais. O pequeno comércio de rua terá desaparecido por força da prisão domiciliária dos portugueses , e em especial aos fins de semana!

Não será só o pequeno comércio ligado ao turismo, mas serão todas as pequenas e empresas que terão de fechar, no processo pandémica acelerado da concentração do capital, e é entidade insuspeita, agência Moody's, que o revela de forma insofismável: “Portugal é dos países que poderá ter maior destruição económica”. E em função disso, e não só, será um dos países que terá mais dificuldade em sair da crise económica e se alguma vez o conseguir fazer, porque economia dependente e subsidiária dentro da UE, onde faz 70% das suas trocas comerciais. E, mais importante ainda, a dívida pública que irá subir para os 135,1% do PIB, segundo perspectiva da Comissão Europeia, acima dos 134,8% previstos pelo Governo no OE 2021 – uma dívida cada vez mais impagável. E não será apenas Portugal, como todos os países do sul, Grécia e Itália, a que se pode acrescentar Espanha, com a maior quebra do PIB neste momento, devido ao grande número de pequenas empresas e, por essa razão, “de reduzida dimensão, possuem menores alternativas de financiamento e menores horizontes”. Uma perspectiva de uma situação que, segundo o relatório “Perpectivas Mundiais dos Soberanos (estados)”, que se irá estender por 12 a 18 meses. Será ainda mais grave no nosso país porque não há indústria nem o país se poderá reindustrializar no quadro da União Europeia, como a emigração, escape para a mão-de-obra excedentária, se encontra bloqueada na justa medida em que os países mais ricos e industriais, Alemanha e França, ou tradicionais destinos da emigração portuguesa, se encontram igualmente em crise (o Reino Unido já não faz parte da UE) e as suas necessidades de mão-de-obra barata e dócil já foram supridas pela imigração de refugiados.

Daqui para a frente será mais desemprego e mais miséria sem que o sistema económico consiga dar solução, já que a reorganização e possível recuperação do capitalismo será sempre com menos mão-de-obra e salários mais baixos, a robotização anunciada, tal como a introdução da máquina a vapor nos primórdios do capitalismo, será feita com mais desemprego (espera-se que um robot faça o trabalho de pelo menos três trabalhadores) e miséria para os trabalhadores, agora para todos e não apenas para os operários, daí a proletarização da pequena-burguesia que vai dando terreno para o medrar dos populismos e da extrema-direita. E os números não metem: a diferença do rendimento médio bruto por agregado entre aquele com maior rendimento (IRS) e o com menor rendimento era, em 2011, de 171 vezes, em 2015 de 174 vezes e, em 2018, era já de 182 vezes; no 4º trimestre de 2019 havia 522.300 desempregados, no 3º trimestre de 2020 são já 655.100, sendo o desemprego é a causa mais importante da pobreza no país; antes da pandemia, 47,5% dos desempregados estavam no limiar da pobreza e a maioria dos desempregados não recebe o subsídio de desemprego porque a lei os exclui; no fim do 3º trimestre de 2020, o teletrabalho já abrangia 681.900 trabalhadores, segundo o INE, e a partir da imposição do segundo estado de emergência com a sua obrigatoriedade, irá disparar, o que significa menos rendimentos para os trabalhadores e mais lucros para os patrões. A pandemia traz mais pobreza e miséria enquanto permite aos ricos ficarem cada vez mais ricos.

A pandemia do medo como distracção

A pandemia do medo tem outra finalidade, além do resultado de justificar a miséria, o de distrair os trabalhadores e o povo de assuntos que neste momento são questões de primordial importância para a sobrevivência de quem trabalha e produz, como é a discussão e aprovação do Orçamento de Estado para 2021. Em artigo anterior já denunciáramos o facto da disputa entre as diversas cliques da classe dominante e outras clientelas dependentes dos dinheiros públicos era o pote não ser suficiente, para mais em tempo de vacas magras, e não é que, sem surpresa para nós, que o incontornável advogado dos negócios e ministro da Economia veio desabafar para a opinião pública que “Ninguém está satisfeito; à mesa do Orçamento, todos acham que é insuficiente aquilo que lhes toca". O homem, para além de verberar que “todos acham que é insuficiente aquilo que lhes toca”, deixa claro que “o Governo tem de gerir aquilo que tem” e será neste cuidado que o governo e o ministro não deixarão de dar às grandes empresas, onde se inclui a banca, o maior quinhão, abrangendo todos aqueles que à mama da pandemia vão enchendo os bolsos: 496 milhões de euros para testes, equipamentos e outros serviços.

Perante a pressão dos lóbis, foi dado como garantido pela ministra da Saúde, e já orçamentado, mais 35 milhões de euros para os hospitais privados pela ocupação de umas, por enquanto, largas centenas de camas para doentes não só covid-19, como para de outras patologias, tendo ordenado o fecho, alegando caso de necessidade, dos serviços do SNS no atendimento dos casos não covid-19, o que irá engrossar as listas já de si enormes para cirurgias, consultas, exames complementares de diagnóstico e outros cuidados de saúde, incluindo os de enfermagem. Não deixa de ser curioso assistir ao perorar de um Marques Mendes, o conhecido recadeiro de Marcelo, na televisão do sócio nº1 do PSD, contra as dificuldade do SNS, já que o homenzinho é responsável máximo de um dos mais importantes grupos económicos privados da saúde, a Lenitudes! No entanto, os cuidados prestados no privado não serão de qualidade e haverá sempre o risco de o sector também estourar como o público, porque a maior parte dos enfermeiros e médicos que ali trabalham ser constituída por funcionários públicos que acumulam os dois lados. É todo o SNS que está a ser degradado e sem haver uma resposta de qualidade e à altura por parte do sector privado ou social, estando aí outros casos a comprová-lo: "desde 29 de outubro foram detetados 64 casos de legionella no norte do país", com 6 mortes, não se conhecendo exactamente qual a fonte do contágio. Outros casos surgirão, o concentrar de meios no pretenso combate à pandemia irá fazer com que outras patologias atinjam números que não existiam até agora, estando aí o número de mortes a mais para o atestar.

A pandemia como meio para endurecer as medidas de controlo e de repressão dos trabalhadores

A pandemia é, a par do espantalho do terrorismo, um bom pretexto para endurecer as medidas de controlo e de repressão dos trabalhadores e do cidadão em geral, é com o recolher obrigatório, ainda circunscrito a 121 concelhos em Portugal, mas que facilmente se prevê que será estendido a todo o território continental, visto que o número de infectados aumentará em proporção ao número de testes diários e de mortes, que poderão atingir as 100 por dia, e não será preciso ser matemático para ver isto, já que não se está a proteger os grupos mais vulneráveis, idosos e doentes crónicos que agora vêm as portas do SNS a fechar, e se testa inclusivamente os mortos suspeitos de terem tido contacto com alguém com teste positivo apesar de não sintomático, chegando-se ao cúmulo de se considerar “paciente assintomático” as pessoas saudáveis.

Mais liberdades, direitos e garantias reprimidas pelo governo a nível interno e mais limitação de entrada de imigrantes é a política que vai prevalecer em todos os estados da UE, e as medidas estão aí a começar por alguns países: o presidente francês Macron anunciou reforço de patrulhas fronteiriças e quer reforma de Schengen e o chefe da diplomacia italiana, Luigi Di Maio, propôs um `Patriot Act` europeu, semelhante à lei antiterrorista nos EUA. Qualquer indivíduo pode ser detido por tempo indeterminado desde que acusado de “terrorismo”, sabendo nós que estes grupos de mercenários foram criados pelos países do Ocidente para fazerem o trabalho sujo das suas forças armadas, como ficou bem provado na Síria. Como se acaba com a democracia, sob pretexto de se querer defender a vida dos cidadãos a nível da saúde e da segurança física! Costa já o afirmou, o estado de emergência poderá ir até ao fim da pandemia, e a Ordem dos Médicos concorda com o estado de emergência. Os portugueses ficarão em prisão domiciliária até quando calhar!

A par da repressão pelo cacete, a repressão sobre aqueles que pensam diferente, independentemente de ser por boas ou más razões, há muito, ainda antes da pandemia, se faz sentir: são os facebook ou twitter que fazem censura sobre as opiniões politicamente incorrectas, estejam mais à esquerda ou mais à direita, ou os artigos de opinião pagos a milhares de euros para descredibilizar quem contesta os dados e o discurso apresentados pelo governo, taxando de nagacionistas e de ignorantes e de outros impropérios mais violentos os que desalinham, ou são as televisões do império que cortam a palavra ao candidato que se pretende derrotado. O dito quarto poder cada vez com mais força para controlar a mente e o comportamento dos cidadãos. São as televisões que anunciam oficialmente o candidato vitorioso, ainda antes da instituição do estado que tem essa missão, são as televisões que vendem um candidato Marcelo que ganha sem precisar de fazer campanha no tempo próprio, são as televisões que lançam o impedimento de presidentes democraticamente eleitos quando deixam de ser convenientes para o sistema, são as televisões que amplificam os números deturpados da DGS, são as televisões de difundam o medo e criam o alarmismo, são as televisões que promovem a bufaria, sendo frequente ver pessoas na rua a olhar desconfiadas para outras que não usam a máscara, ou a telefonar para a polícia porque há um grupo de jovens em alegre farra em casa ou em bar já fora de horas. As televisões, nas mãos de grandes grupos económicos financiados com dinheiros públicos ou públicas dirigidas por ex-deputados e dirigentes do partido da oposição são os olhos do Big Brother. Em Dezembro irão receber outros 15 milhões de euros.

A democracia parlamentar burguesa está suspensa e dará lugar ao fascismo brando

É toda uma política económica de impôr a austeridade sobre os trabalhadores, uma política de repressão e de silenciamento, atentatória dos mais elementares direitos individuais, sobre o povo em geral, políticas impostas por um governo, cingindo-nos agora ao nosso país, por um governo que se diz de esquerda e que fará com que o próximo governo seja um governo aberta e formalmente de direita, aproveitando demagogicamente de uma política que facilmente terá sido identificada de “esquerda”, na medida em que foi aplicada por um governo também dito de “esquerda” e apoiado por toda a esquerda bem comportada do regime, pese toda a desculpabilização pela pandemia. Ninguém se admire que este governo PS/Costa não chegue ao fim de mandato por diversas razões, porque a mentira não dura sempre e Costa será escorraçado pela falsidade e pelo agravamento inaudito das condições de vida do povo português e porque Marcelo já em segundo mandato fará a este governo bem pior que o seu antecessor fez ao governo Sócrates/PS e não descansará de pôr na governação o seu partido e mais uns acrescentos. A democracia parlamentar burguesa está suspensa, dará lugar ao fascismo brando, porque o capitalismo se encontra falido.

Os resultados das eleições para a Assembleia Regional dos Açores marcam o princípio do fim de linha do PS,

porque já deixaram indício do que poderá acontecer no Continente, quando a miséria aqui igualar a miséria no arquipélago, esta agora ainda a vários pontos acima no que concerne a privação material severa, beneficiários do RSI e taxa de desemprego, será uma geringonça de direita, com o ainda principal partido da burguesia nacional a aliar-se com a extrema-direita; extrema-direita essa que apenas teve o trabalho de se mostrar porque sempre esteve lá dentro, desde que o PPD foi fundado. E ninguém se admire com a participação do partido de extrema-direita no governo, que irá sendo entretanto normalizado, quer pelo PR Marcelo quer por toda a imprensa de referência, com o seu dirigente-comentador-desportivo-televisivo a sobraçar alguma pasta mais importante, género Administração Interna ou Defesa. Se isto vier a acontecer, a exemplo do que está a suceder por essa Europa fora, devemos agradecer a um PS, com a sua política de direita a destruir a sua base de apoio, e aos partidos de dita “esquerda”, BE, ansioso em ir para o governo, e PCP, com as suas oportunistas abstenções e votos contras a pensar no próximo acto eleitoral, aplanaram o caminho para o fascismo - como já aconteceu no passado. De nada valerão as lágrimas de crocodilo dos falsos democratas nem os abaixo-assinados-cordões-sanitários... porque é da sobrevivência do capitalismo, e da burguesia, que se trata.

À medida que os campos se extremam, a luta de classes se intensifica, a revolução comunista surge como iminente e necessária.

Postado por O BÁRBARO às 10:42 
https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2020/11/a-economia-em-estado-comatoso-o.html? 

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

JM Correia Pinto - UMA SÍNTESE DA CRISE E SUA EXPLICAÇÃO

 domingo, 31 de outubro de 2021

 * JM Correia Pinto,

* (Texto publicado hoje, 31/10/2021, no Facebbok)

Vou tentar fazer aqui uma breve síntese das motivações da crise e do que verdadeiramente subjaz à actuação os diversos intervenientes.

Contrariamente ao que tem acontecido com os postes anteriores em que faço o possível por ser fiel aos factos, embora dê deles a minha interpretação, neste post, baseado nas minhas percepções, actuarei com mais liberdade, não relativamente aos factos, que continuarei a respeitar, mas à sua interpretação e acima de tudo às conclusões que deles tiro. 

Assim, hoje estou inclinado a supor que toda a actuação do Governo foi ditada pelo propósito de ir para eleições. Costa estava cansado das reivindicações e propostas que os seus parceiros lhe vinham apresentando e que estavam a constituir um verdadeiro empecilho à sua governação e aos seus propósitos futuros. 

Quanto ao Bloco, Costa já o tinha deixado “cair”, desde que terminou a última legislatura, não dando seguimento a nenhuma das suas demandas. Enquanto continuasse a conseguir ter o PCP a seu lado, não precisava de Bloco para nada.

Quanto ao PCP, Costa percebeu que passada formalmente a situação pandémica, o PCP iria ser mais assertivo no cumprimento dos compromissos assumidos e formular novas exigências que ele já não estaria disposto a satisfazer, principalmente por terem um fundo ideológico contrário ao fundamentalismo neoliberal de Bruxelas, não tanto pelo seu peso orçamental, nulo em alguns casos, mas mais por colocarem o PS numa rota ideológica não inteiramente coincidente com a de Bruxelas. Por outro lado, Costa consolidou uma ideia que factos anteriores já indiciavam consubstanciada no seguinte: se o Governo Socialista continuar a elogiar o entendimento à esquerda, se continuar a fazer a apologia deste tipo de experiência, com elogios variados mas significativos ao PCP, o PS (por intermédio do seu Governo) adquirirá à esquerda uma respeitabilidade e consideração que nunca antes tivera. E isso, como se está a ver, rende votos, muitos votos, entre o eleitorado de esquerda, entre o povo de esquerda. Portanto, a melhor forma de tentar ganhar a maioria absoluta, é ir agora para eleições, como desfecho “pesaroso”, que o Governo não deixará de “lamentar”, como muito “lamenta” esta divergência à esquerda por ser uma  das mais belas experiências políticas que em Portugal se viveram depois do 25 de Abril. É isto que, por palavras dele, ouvimos de Costa e vamos continuar a ouvir até ao último dia da campanha eleitoral.

Com este avanço à esquerda, o que ao PS interessará é também conservar o centro. Um argumento importante para conservar o centro é deixar passar a ideia de que, no interesse do país, não cedeu nem satisfez as exigências despesistas da esquerda. E a outra forma de conservar o centro é deixar fazer subir o Chega à custa do PSD. E mesmo que Rio porventura saia, esse centro também não estará em causa por o discurso de Rangel ser, como se já viu, suficientemente à direita para assustar a parte do centro tradicionalmente PS.

E por tudo isto estou hoje levado a supor que é por Marcelo ter intuído esta manobra que as eleições antecipadas não serão verdadeiramente do seu agrado. Tanto por uma questão de correlação de forças entre ele e o PM como entre a direita e o PS. Daí também as ameaças e diligências, umas atabalhoadas e até contraproducentes, e outras de autêntico “queijo Limiano” na versão “bailinho da Madeira”, umas e outras ditadas pela preocupação de impedir a rejeição do orçamento.

Do lado da direita, toda partida interiormente, este era o único momento que verdadeiramente lhe não convinha para haver eleições, salvo para se conservarem no poder aqueles que o têm ameaçado. Embora as contas que tenham que prestar no dia seguinte ao das eleições sejam bem mais difíceis de aceitar do que aquelas que prestariam na situação em que agora se encontram. Mas como não tinham alternativa, tiveram que votar contra.

Do lado do Bloco a decisão parece já estar tomada desde o ano passado e ela assenta na ideia muito simples de que lhe rende muito mais estar na oposição a um governo PS pontualmente mantido no poder com o apoio do PCP do que estar a fazer grandes esforços e cedências para se manter na periferia da governação.

A posição do PCP era a mais difícil. O PCP percebia o que se estava a passar e os prejuízos que a sua atitude lhe acarretava, mas sabia também que este “canto de sereia” do Governo, além de lhe assegurar uma respeitabilidade numa parte muito significativa da população portuguesa, embora não traduzível em votos, lhe permitia aqui e ali impedir o que de mais grave de outro modo poderia acontecer, mais do que as vantagens directas que colhia da sua posição. Dai que todas as contas feitas tenha também facilmente chegado à conclusão de que os prejuízos que o seu afastamento agora lhe poderia trazer serão muito inferiores aos que teria se continuasse com o PS até ao fim da legislatura. Assim, deixa uma mensagem muito clara de que não poderá o PS contar mais com ele nas mesmas condições em que tem contado desde o fim de 2015 até hoje, mas, por outro lado, como se foi vendo tanto no Parlamento como nos múltiplos debates em que participou, deixou a porta aberta para outro tipo entendimentos mais avançados com o PS na base de compromissos mutuamente aceites e respeitados.

Publicada por JM Correia Pinto à(s) 18:04 

https://politeiablogspotcom.blogspot.com/2021/10/uma-sintese-da-crise-e-sua-explicacao.html


sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

António Guerreiro -- A política e o grotesco

 CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

As televisões adoram congressos partidários. O líder representa um papel de clown e suscita dos seus adversários respostas igualmente clownescas.

António Guerreiro

1 de Dezembro de 2023, 10:30

As televisões adoram congressos partidários e os congressistas adoram as televisões. Tão grande amor estaria condenado a desvanecer-se se não fosse estimulado por um imaginário erótico comum, que a ambos excita. A fonte da excitação não é sempre a mesma, muda com o tempo, de congresso para congresso, de partido para partido.

No congresso do PSD, a grande fonte de excitação a alimentar uma demagógica dilatação e endurecimento do discurso do líder foi o grotesco. Entendo aqui por grotesco a atitude e o discurso que, numa versão ainda tímida, ensaiam uma mimese da carnavalização da política, tal como ela tem sido exercida por uma nova categoria de políticos-palhaços que conquistaram a governação em vários países: o último da série, aquele que eleva o grotesco ao seu mais alto grau, é o recém-eleito Presidente da Argentina. Essa atitude clownesca não se manifesta só no discurso, mas também numa gestualidade patética.

Ainda não temos isso por cá, mas, tal como muitas outras coisas de que nos orgulhávamos de não ter acabaram por chegar atrasadas e em força, já ouvimos os seus passos ao longe, a correr para nós. Uma das aproximações do grotesco deu-se neste fim-de-semana, num cenário de espectáculo: o congresso. Aí, o líder proclamou perante o seu auditório, mas para que todo o país ouvisse (a relação amorosa com a televisão e os media em geral é, por definição, pública), que “o mais fanático defensor do gonçalvismo” se chama “camarada Pedro e tem uma Cinderela chamada camarada Mortágua”. E disse mais coisas no mesmo tom.

Entramos assim em pleno domínio do cómico. O líder representa um papel de clown e suscita dos seus adversários respostas igualmente clownescas. Talvez ele se tenha convencido de que representar esse papel é produtivo e eficaz na comunicação fusional com os eleitores. Mas se já se impôs a alguns líderes políticos esta convicção é porque nos estamos progressivamente a aproximar do mundo tirânico da palhaçada, à espera de que se instale definitivamente o que um escritor e ensaísta francês chamado Christian Salmon caracterizou e analisou como “poder grotesco”, em expansão.

Este poder grotesco faz parte da mesma constelação a que pertence a vaga de violência, vinda sobretudo da extrema-direita, que se está a difundir por todo o lado. Há um processo assustador de regressão em curso, de comportamentos colectivos já excluídos da nossa “civilização” e contra os quais nos julgávamos imunizados, que tem dado azo a analogias com o percurso que conduziu aos fascismos. Estas comparações entre épocas históricas diferentes merecem sempre muitas reservas, mas também incitam a muitas cautelas.

Ousei escrever a palavra “civilização” não para a opor, como se faz muitas vezes, à barbárie (na verdade, já Burckhardt, o historiador suíço, mostrou, no final do século XIX, que tal oposição era destituída de pertinência), mas para lembrar uma palavra de que o Presidente francês Emmanuel Macron se serviu, num discurso pronunciado no final de Maio, para fazer um diagnóstico da “doença” que, segundo ele, está a afectar não apenas a França: décivilisation. Tal palavra suscitou um enorme interesse e imediatamente toda a imprensa foi procurar a sua origem. Não foi difícil: ela vem do sociólogo Norbert Elias, o autor de O Processo Civilizacional, que no seu último livro, publicado em 1990, pouco antes da sua morte, estudou a emergência do nazismo, na Alemanha, como uma ruptura no processo da civilização (esse processo de progressiva pacificação do espaço social, desde o final da Idade Média). Esses “estudos sobre os alemães” (assim reza o título do livro) pode ser classificado, no seu género, como uma psicologia histórica. É aí que Norbert Elias dedica um capítulo ao “colapso da civilização”, à “descivilização” (Entzivilisierung).

Acontece, porém, que essa palavra já tinha servido, em 2011, para título de um livro do escritor de extrema-direita Renaud Camus, o autor da teoria xenófoba da “grande substituição” a que, segundo ele, está a ser submetida a “civilização” francesa. As críticas que então foram então feitas a Macron lembravam que a palavra tinha acumulado um outro sentido que não era o do estudo de Elias. Ela vinha carregada com um sentido que, no fundo, legitimava a vaga de violência e a emergência das sombras negras que pairam sobre a Europa e o mundo. O grotesco, para além dos líderes partidários e congressos, é a inclinação funesta deste nosso tempo.

Livro de Recitações

“Assassinadas 25 mulheres em Portugal até 15 de Novembro”
In PÚBLICO, 22/11/2023

Para este crime, não há ainda um nome fixado para o designar: ora se escreve “femicídio”, ora se escreve “feminicídio”. Mas esta hesitação no nome significa que tal crime só recentemente foi categorizado. “Homicídio”, que poderia designar o assassínio dos homens pelas mulheres, designa o assassínio de qualquer ser humano, independentemente do género (oh, a universalidade masculina!). E parece que rara é a utilização da palavra “androcídio”.

Trata-se pois de um problema que tem a sua origem quase exclusivamente no universo masculino. Esta doença que leva os homens a matar as mulheres, quase sempre por ciúmes e porque acham que só as aniquilando redimem a perda do poder de propriedade sobre elas, é um flagelo em todo o lado.

Por estes dias, um crime hediondo de “feminicídio” tinha sido perpetrado em Itália por um “bravo ragazzo” de 22 anos, de boas famílias, o que pôs muitos cronistas, nos jornais, a dissertar sobre a masculinidade, sobre as suas fraquezas que se manifestam na prática de crimes hediondos, às vezes seguidos de suicídio. Mas porque é que eles não decidem suicidar-se antes de matar?

 https://www.publico.pt/2023/12/01/culturaipsilon/cronica/politica-grotesco-2071843


sábado, 12 de novembro de 2022

José Pacheco Pereira - Mais uma vez a “peste grisalha” – uma “justiça” que é uma injustiça


* José Pacheco Pereira   
12 de Novembro de 2022

Um partido que aspira a governar, no seu afã de combater o actual Governo, está a fazer uma cama em que se tem de deitar e, nessa cama, passar o seu tempo a litigar com o Tribunal Constitucional.

Em 2013, num artigo de jornal, um deputado do PSD escreveu: “A nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha.” A frase suscitou uma furiosa discussão, chegou ao debate parlamentar e foi objecto de processos judiciais. Um reformado que reagiu com veemência à sua classificação como pestífero, e foi por isso processado pelo deputado, ganhou no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e teve direito a uma indemnização. Numa das colunas de verificação de factos confirmou-se a veracidade da frase e do seu autor, “mas” considerou-se uma atenuante que a expressão “peste grisalha” era usada em estudos académicos e não era de sua autoria.

Na verdade, no caso português, toda a frase é sinistra, porque a escolha de palavras densas como “pátria” e “contaminar” não iludem sobre o sentido pejorativo que se pretendia dar à “peste grisalha”. O contexto também não engana: estamos em plena ofensiva do Governo Passos-Portas-troika contra os direitos dos pensionistas e reformados e é a eles que se dirige o amável epíteto de “peste”. Essa ofensiva só não foi mais longe porque o Tribunal Constitucional a impediu.

O contexto da época ainda se torna mais esclarecedor, quando a JSD começou a falar de uma coisa a que chamava “justiça geracional”, considerando que os mais velhos, com as suas reformas e pensões, “roubavam” os mais novos que as tinham de pagar sem ter a garantia de vir a ter idêntico tratamento no futuro. O discurso “geracional”, mais uma variante dos discursos antidemocráticos que circulam nos dias de hoje, estruturalmente semelhante aos discursos “identitários”, era à época uma forma de legitimar a ofensiva contra a “peste”. O que é grave é que ele aparece de novo no actual projecto constitucional do PSD.

O que sabemos sobre esse projecto são as 40 propostas de alteração à Constituição, mais um programa de governo do que um projecto de revisão constitucional, com uma ou outra ideia razoável, mas muitas más. As propostas, que ainda não são o texto da revisão, tornam a Constituição um texto complexo e confuso, dominado pela preocupação de limitar o poder actual do PS, esquecendo-se que, a seu tempo, o PSD terá de governar com uma Constituição que torna a governação quase impossível. A Constituição tornar-se-á gigantesca, cheia de direitos abstractos, escritos na linguagem da moda “do século XXI”, num país que está longe de garantir sequer os direitos do século XIX. Um partido que aspira a governar, no seu afã de combater o actual Governo, está a fazer uma cama em que se tem de deitar e, nessa cama, passar o seu tempo a litigar com o Tribunal Constitucional.

Uma das ideias perigosas é exactamente essa da “justiça intergeracional”. Ela está a expressa nos seguintes pontos:

Justiça intergeracional, combate à sub-representação dos jovens no processo democrático e valorização de todas as gerações:

a. Inclusão entre as tarefas fundamentais do Estado da promoção da justiça entre gerações;
b. Criação do Conselho da Coesão Territorial e Geracional como um órgão que assegura uma representação paritária das diferentes regiões do território e gerações, (…)
c. Alteração da idade legal para exercer o direito de voto: a partir dos 16 anos;
d. Reforço da dignidade na terceira idade.

Percebe-se muito bem que quem redigiu este ponto não diz ao que vem. A última alínea – “reforço da dignidade na terceira idade”, numa formulação de slogan, está lá apenas por razões cosméticas, porque o essencial está antes disfarçado em afirmações confusas. O que é que significa o “combate à sub-representação dos jovens no processo democrático”? Quotas? Direitos de preferência? A mais importante é a frase “Inclusão entre as tarefas fundamentais do Estado da promoção da justiça entre gerações”. Muito bem, podemos é perguntar quais são as “injustiças” actuais, porque aí é que se percebe melhor o alvo.

A verdade nua e crua, e que muita gente não gosta de ouvir, é que ser jovem é, sob todos os pontos de vista, melhor do que ser velho. Não há sequer comparação possível entre as oportunidades de quem tem futuro e quem só tem passado. Pode ter dificuldades em arranjar emprego, mas não são certamente maiores do que as de uma pessoa que nem precisa de ser velho, basta ser de meia-idade. Pode ter salários mais baixos e precariedade, sem dúvida, mas ser desempregado de um dia para o outro com família constituída e receber o subsídio de desemprego por uns meses é um drama maior.

E, se há injustiça é a invisibilidade social da condição de velho, a que se soma a condição terrível de ser velho e pobre, e que a sociedade, obcecada pela moda da juventude – os jovens têm sempre boa imprensa –, pura e simplesmente ignora por comodidade e desatenção. As ruas das cidades nunca foram tão hostis aos velhos, que podem tropeçar numa trotinete atirada ao chão em qualquer lado, ser atropelados por uma bicicleta em sentido contrário ou a andar nos passeios, ser obrigados a ler em ecrãs sem resolução para quem já vê mal, a subir e descer escadas em prédios em que o condomínio desde a troika a primeira coisa que deixa de compor são os elevadores, com correios que obrigam a deslocações e perda de tempo para receber a reformas ou pagar as contas, com transportes inadequados e difíceis de apanhar. Habituem-se, modernizem-se, chamem um Uber… E a enorme solidão que o egoísmo crescente de famílias e vizinhos traz numa sociedade em que as relações sociais são substituídas por simulacros virtuais. E ser velho hoje é insulto, e não é preciso ir mais longe para o ver do que as caixas de comentários deste jornal.

Sim, há “injustiça geracional”, só que num sentido diferente daquele que o PSD coloca nas suas propostas de revisão constitucional. Há uma parte que vem da natureza e pode ser minimizada, mas não eliminada, e outra que vem de uma sociedade dominada pela moda, pelo egoísmo e pela falta daquilo a que Shakespeare chamava “the milk of human kindness”.

O autor é colunista do PÚBLICO

https://www.publico.pt/2022/11/12/opiniao/opiniao/peste-grisalha-justica-injustica-2027439?ref=hp&cx=manchete_2_destaques_0

quarta-feira, 10 de março de 2021

Maria João Marques - Ajudem o PSD a descobrir mulheres

OPINIÃO 

*  Maria João Marques  -  
 
Tenho para mim que a política autárquica é muito apetecível para mulheres. Porém o PSD entendeu dizer a metade do eleitorado (as mulheres, precisamente) que não as considera suficientemente boas para candidatas do partido.

Permitam-me regressar à minha muito favorita série televisiva Sim, Senhor Ministro. Num dos episódios, os vários secretários permanentes de cada ministério reúnem-se para debater a necessidade de mais mulheres nos lugares cimeiros da função pública. Todos concordavam com o princípio (na teoria, claro está) da necessidade discriminação positiva.

Sucede que nos Negócios Estrangeiros não podia ser, porque os muçulmanos e os líderes de países subdesenvolvidos (ao contrário do Ocidente, fica bom de ver) não lidavam bem com mulheres. No Ministério do Trabalho também não, que os líderes sindicais eram intratáveis. Na Segurança Interna, bem, não se colocaria uma mulher a tratar de prisões e polícias, certo? Na Defesa nem pensar – Forças Armadas masculinas. Sir Humphrey, o protagonista, às tantas também se manifesta contra as quotas, garantindo que se tem de escolher ‘o melhor homem para cada lugar, independentemente do sexo’. Apetece dizer: quite.


Sim, Senhor Ministro é dos anos 80. Podemos todos, portanto, alegrarmo-nos pelo slogan de Sir Humphrey Appleby parecer nortear a escolha dos candidatos a presidentes de câmara do PSD quarenta e um anos depois da série estrear na BBC. E já com uma lei da Paridade em vigor que garante representação feminina nas listas eleitorais, impedindo assim que mulheres qualificadas sejam liminarmente preteridas em função de homens com menos qualificações. (Não é má vontade minha. Há homens excelentes na política, claro. No entanto os estudos existentes mostram que a qualificação média dos políticos aumenta quando se obriga à escolha de mulheres através de sistemas de quotas.)

Na semana passada – amargamente perto do Dia Internacional da Mulher – o PSD apresentou 102 candidatos às presidências de câmara para as autárquicas deste ano. Cerca de um terço do total de candidatos. Nestes 102 candidatos, três (repito: três) são mulheres. E com todo o respeito por estes municípios, nem sequer são capitais de distrito ou grandes autarquias.

A minha primeira resposta a estes números – três mulheres em 102 candidatos – foi de incredulidade. Tive de ir consultar a lista completa para acreditar. Como é possível em 2021 – depois do Me Too, de todas as discussões de Trump menorizando mulheres, com uma nova direita que tem no centro nevrálgico o machismo politicamente institucionalizado, os temas da representatividade e da inclusão todos os dias nos media e nas redes sociais – um dos dois maiores partidos portugueses estar tão desligado da realidade, tão dentro da caixa do passado, tão prisioneiro da visão masculina do poder? Pior: tão desfasado dos valores dos eleitores?

Três pormenores tornam tudo mais intragável. Um. O PSD é um partido com uma enorme percentagem de mulheres militantes. Dizem-me que mais de 50%. Não há falta de mulheres podendo candidatar-se. Donde, é espantoso Rui Rio afirmar ‘Nós queremos ter mulheres nas listas, nós queremos dar destaque às mulheres e, no entanto, chegamos à realidade e batemos de frente com a realidade: é que há muito poucas mulheres que estão na política, para não falar nas que estejam disponíveis para a atividade autárquica’.

Curiosamente, conheço várias mulheres no PSD, bastante qualificadas, que se prontificaram já várias vezes a candidatarem-se em variadas eleições – e são preteridas. De facto, é fácil concluir que não existem mulheres na política: basta os homens com poder de decisão não olharem para elas, não as indicarem para estruturas e listas, fingirem que não existem. E, no fim de as relegarem para a invisibilidade, garantem que não há mulheres. Alguém está a ver alguma? Onde?

Esta é a mais velha estratégia para lidar com contributos públicos e profissionais de mulheres, em qualquer área. Ignoram-se, ou atribuem-se a homens, e no fim assevera-se a inexistência.

De há uns três ou quatro anos, em Londres, as estrelas das feiras de arte como a Frieze ou a Masterpiece são mulheres artistas. A curiosidade? Artistas bem entradas na idade, finalmente com o mercado e o público a aplaudir. Toda a gente descobre agora que são ótimas, mas só depois de décadas pretendendo que não existiam ou não possuíam grande talento comparando com os pares homens. E com os preços das obras (o que mais conta) incorporando o desconto relativo ao sexo das autoras.

É hábito transversal, das artes às ciências, passando pela política. A história famosa da pesquisa sobre o DNA de Rosalind Franklin – inteiramente atribuída, com Nobel e tudo, aos homens que usaram o seu trabalho – não é caso único de mulheres a quem foi roubado o crédito do seu trabalho. Afinal quem acredita que mulheres consigam descobrir coisas?

Não são as mulheres que não existem ou não fazem contributos de qualidade. São os homens com poder de decisão que não as querem incluir. E por isso dizem que não existem mulheres. Pronto, está decidido. Os donos da verdade falaram. O problema está no mundo atual, na documentação abundante da discriminação passada, na visibilidade que as mulheres já têm através de redes sociais e media. Torna-se (nesta área como noutras) impossível manter a ficção de mulheres não se interessarem por política e não quererem participar.

O segundo. Tenho para mim, por convicção pessoal, que a política autárquica é muito apetecível para mulheres. Porque implica pragmatismo, capacidade organizativa, pouco tempo perdido com guerrilhas ideológicas, vontade de resolver os problemas concretos das pessoas. Tudo áreas onde as mulheres têm milénios de experiência. É, então, ainda mais escandaloso que se pretenda não se encontrarem mais de três candidatas a câmaras municipais.

Três. A participação de mais mulheres na política diminui o nível de corrupção. Por fatores variados: desde maior aversão a comportamentos arriscados pelas mulheres até ao maior escrutínio a que são sempre sujeitas. Ora um líder político que até já falou em ‘banho de ética’ só poderia estar atento às tendências preventivas das práticas de corrupção, não?

Porém o PSD entendeu dizer a metade do eleitorado (as mulheres, precisamente) que não as considera suficientemente boas para candidatas do partido. (A retribuição do eleitorado feminino virá em forma de votos.) E às suas muitas militantes que só servem para claque dos grandes líderes masculinos sociais-democratas, nada de ideias de voos próprios.

As listas autárquicas do PS veremos como são. E os restantes duzentos candidatos do PSD. Mas, neste caso, aplica-se o dito: não há segunda oportunidade para uma boa primeira impressão.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico

10 de Março de 2021, 0:10
Economista

https://www.publico.pt/2021/03/10/opiniao/opiniao/ajudem-psd-descobrir-mulheres-1953730