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sábado, 23 de maio de 2026

Eduardo Maltez Silva - Uma opinião sobre Sócrates e o futuro do PS

 


* Eduardo Maltez Silva

Esta é uma opinião controversa — e convém dizê-lo logo à partida: nada disto desculpa, apaga ou relativiza a mancha negra de corrupção que paira sobre José Sócrates.

Quem quer defender a verdade histórica não precisa de branquear a ferida democrática que esse caso abriu. Isso fica claro.

Mas reduzir todo o ciclo Sócrates à corrupção é intelectualmente desonesto.

Porque, goste-se ou não, houve ali uma coisa que hoje quase desapareceu da política portuguesa:

VISÃO DE PAÍS.

Sócrates teve vícios, arrogância, erros, obras discutíveis e uma relação perigosa com o poder económico. Mas também teve uma ideia de modernização nacional.

E muitas das coisas que, na altura, foram ridicularizadas, atacadas ou tratadas como propaganda são hoje absolutamente essenciais.

Foi assim com o Cartão de Cidadão.

Hoje, ninguém imagina voltar ao tempo em que cada pessoa andava com bilhete de identidade, cartão de contribuinte, cartão da Segurança Social, cartão de eleitor e cartão de utente separados. Mas, quando surgiu, foi apresentado como mais uma “mania modernizadora”.

O mesmo vale para o Simplex, a Empresa na Hora, o Documento Único Automóvel e a desmaterialização dos serviços públicos. Hoje parece banal. Na altura, era um gasto.

Foi assim com o Magalhães e com a escola digital.

O computador foi gozado até à exaustão. Era o “computadorzinho”, era a “propaganda”, era a “modernice”que só servia para jogarem jogos.

Mas a ideia era simples: pôr tecnologia nas mãos dos alunos, reduzir a desigualdade digital e aproximar a escola pública do futuro.

Hoje, quando o Estado distribui computadores a alunos e professores, ninguém acha isso uma loucura.

A forma podia ser discutível. A direção estava certa.

Foi assim com a lei do tabaco. Proibir fumar em restaurantes, cafés e locais de trabalho parecia, para muitos, uma violência contra a liberdade individual. Vieram os discursos do costume: “já não se pode fazer nada”, “é o Estado a meter-se na vida das pessoas”.

Hoje, entrar num restaurante cheio de fumo parece pré-histórico.

Foi assim com a escolaridade obrigatória até aos 18 anos e com a universalização do pré-escolar a partir dos 5 anos.

Hoje parece óbvio. Na altura, foi uma decisão política de fundo — com muitas críticas.

Foi assim com direitos civis.

A interrupção voluntária da gravidez foi despenalizada em 2007; o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado em 2010.

Hoje, para uma parte significativa do país, isto já é normalidade democrática.

Na altura, a histeria conservadora dizia que vinha aí o colapso moral da família, da sociedade e da civilização.

Não veio. Veio apenas mais liberdade, mais dignidade e mais igualdade perante a lei.

Foi assim com o Complemento Solidário para Idosos, criado para combater a pobreza entre os mais velhos com rendimentos mais baixos.

Hoje, ninguém sério deveria achar estranho que o Estado proteja idosos pobres.

Mas é precisamente o tipo de política que a direita económica detesta em silêncio — porque prova que o Estado social não é uma abstração ideológica.

É comida, aquecimento, medicamentos e dignidade na vida concreta das pessoas.

Foi assim também com a reforma dos cuidados de saúde primários e com as Unidades de Saúde Familiar.

Não resolveu tudo, não impediu a degradação posterior do SNS, mas introduziu uma lógica mais próxima, organizada e eficaz nos cuidados de primeira linha.

E depois há as energias renováveis.

Hoje, Portugal é elogiado como uma das histórias solares e renováveis mais interessantes da Europa. Mas isto não caiu do céu.

A viragem começou antes. Em 2007, o Governo Sócrates assumia a meta de 45% da eletricidade consumida a partir de fontes renováveis até 2010.

Em 2010, a Estratégia Nacional para a Energia 2020 afirmava expressamente que Portugal queria reforçar o seu estatuto de referência nas renováveis e na eficiência energética. A potência eólica instalada passou de 537 MW em 2004 para mais de 3500 MW em 2009.

Portugal não se tornou líder nas renováveis por acidente.

Houve uma decisão política deliberada: pegar num país sem petróleo, sem gás, sem carvão competitivo, mas com sol, vento, água, território e capacidade técnica, e transformar isso em soberania energética.

Durante anos, a direita gozou com isto. Chamou-lhe fantasia verde, custo excessivo, capricho ideológico.

Em 2024, as renováveis abasteceram 71% do consumo elétrico nacional. Que falem agora.

Também no turismo houve visão.

Sócrates não inventou a promoção turística. Mas o Plano Estratégico Nacional do Turismo, aprovado em 2007, tratou o setor como estratégico a sério: marcas, mercados, produtos, qualificação, inovação, articulação entre Estado e empresas.

E até no aeroporto a história tem uma ironia brutal.

A localização em Alcochete, decidida em 2008, foi atacada, adiada, enterrada, ressuscitada, trocada pelo Montijo e novamente discutida — e, no fim, muitos anos e muitos milhões desperdiçados depois, o país voltou exatamente ao mesmo ponto.

Em 2024, o Governo Montenegro anunciou o novo Aeroporto Luís de Camões no Campo de Tiro de Alcochete.

A decisão que tantos trataram como delírio era, afinal, a solução estrutural.

O atraso custou tempo, capacidade, competitividade, dinheiro e décadas de saturação na Portela. Parabéns a todos.

Depois veio 2008.

E aqui também é preciso limpar a propaganda de uma vez por todas.

A crise não nasceu em Lisboa.

Não nasceu porque Portugal deu computadores a crianças.

Não nasceu porque se investiu em eólicas, escolas, tecnologia, cartões digitais ou modernização administrativa.

A crise nasceu na banca desregulada dos Estados Unidos, no subprime, na engenharia financeira tóxica, no colapso de confiança que atravessou o Atlântico e rebentou na zona euro.

Portugal tinha fragilidades? Tinha.

Défices, dívida a subir, dependência externa, PPP, problemas de competitividade. Tinha.

Mas transformar tudo numa historinha infantil sobre “Sócrates gastou demais e, por isso, veio a troika” sempre foi propaganda — e a prova disso foi a forma desastrosa como a austeridade de Passos Coelho empobreceu o país e agravou a dívida em percentagem do PIB, precisamente a dívida que dizia combater.

Em 2025, segundo o Banco de Portugal, a dívida pública ainda representava 89,7% do PIB.

Temos mais dívida hoje do que no tempo de Sócrates, mas hoje somos vistos com uma das melhores economias no mundo...embora extremamente desigual.

Muitos países que estavam a investir no futuro foram apanhados pela mesma tempestade financeira global. Uns estavam mais preparados, outros menos. Portugal estava vulnerável.

Mas não foi um Governo português que inventou o subprime, a banca-sombra, os derivados tóxicos, o colapso do Lehman Brothers ou a arquitetura europeia inflexível que transformou uma crise bancária numa crise de Estados.

O que a direita fez depois foi genial do ponto de vista propagandístico: pegou numa crise global, numa zona euro mal desenhada, em fragilidades portuguesas reais, em erros do Governo Sócrates e na podridão posterior da Operação Marquês, misturou tudo numa panela e vendeu uma moralina simples: “o socialismo destruiu Portugal”.

Só que esse “socialismo” nem sequer existia.

O que existia era social-democracia reformista — com defeitos, vícios e alguns erros —, mas também com uma ideia clara: modernizar o Estado, digitalizar serviços, qualificar a escola, apostar em renováveis, proteger direitos civis, combater a pobreza, planear o turismo, pensar infraestruturas e tentar colocar Portugal no século XXI.

Compare-se isso com o que temos hoje.

Com todos os seus defeitos, Sócrates tinha uma ideia de país. Podia falhar. Podia exagerar. Podia construir mal. Mas queria construir.

Hoje, temos um Governo que parece não querer construir nada.

Gere o dia a dia.

Faz conferências de imprensa. Distribui slogans. Chama “reforma” a cortes. Chama “responsabilidade” à resignação. Chama “modernização” a entregar o país aos mesmos de sempre.

E há uma diferença simbólica terrível entre a corrupção de ontem e a zona cinzenta de hoje.

No caso Sócrates, a imagem pública ficou associada a envelopes com dinheiro, motoristas, contas na Suíça, amigos e dinheiro escondido.

Era a corrupção clássica, clandestina, subterrânea, cinematográfica.

Hoje, a corrupção modernizou-se.

Já não precisa de envelope entregue às escondidas, nem escondidos em caixas de vinho.

Pode aparecer com fatura, empresa familiar, avenças, consultoria, clientes, sigilo profissional e “trabalhos” que o cidadão comum nunca consegue verdadeiramente escrutinar.

A única coisa que se modernizou verdadeiramente foi a sofisticação da zona cinzenta.

Foi o Simplex da corrupção.

E, enquanto isto acontece nos bastidores, a sociedade foi domesticada para odiar um “socialismo” que nunca existiu.

Confundiram socialismo com social-democracia. Confundiram proteção social com preguiça. Confundiram Estado social com desperdício. Confundiram direitos com privilégios.

Criaram medo e ódio pelos de baixo para proteger os de cima — e assim convenceram muita gente a votar contra aquilo que a protege: SNS, escola pública, pensões, salários dignos, habitação acessível, direitos laborais, serviços públicos.

Sempre foi assim.

Disseram que o divórcio destruía a família. Disseram que a IVG destruía a moral.

Disseram que o casamento entre pessoas do mesmo sexo destruía a sociedade.

Disseram que não fumar em restaurantes destruía os cafés.

Disseram que computadores nas escolas eram propaganda.

Disseram que as renováveis eram fantasia e desperdício.

Disseram que o Estado digital era mania tecnocrática.

Depois, o país avança, o avanço torna-se normal e os mesmos que gritaram contra acabam a viver dentro do mundo que outros tiveram a coragem de construir.

Sem nunca agradecer.

Sem nunca assumir que estavam errados.

Por isso, está na hora de recuperar a palavra sem medo.

Não como dogma. Não como nostalgia.

Mas como aquilo que fez dos países mais livres, mais justos e mais desenvolvidos do mundo sociedades decentes: uma social-democracia corajosa, reformista, popular e democrática.

O novo PS tem de deixar de parecer uma versão educada da direita.

Tem de abandonar essa moderação bafienta que chama responsabilidade à resignação.

Tem de deixar de pedir licença aos mercados, aos comentadores, às televisões e aos salões onde nunca falta nada a ninguém.

O PS tem de voltar a ser progressista, popular, democrático e combativo: com a coragem de Pedro Nuno, o reformismo de Sócrates sem os seus vícios, a inteligência de Costa, a honestidade de Sampaio, o punho erguido de Mário Soares e o sentido social de Guterres.

Tem de parar de olhar para as elites — para os mercados, para os equilíbrios de salão, para os donos disto tudo — e voltar a olhar para baixo e para o meio: para quem paga renda, para quem espera no SNS, para quem educa filhos com salários curtos, para quem trabalha uma vida inteira e continua sem segurança.

Um PS que faz a diferença não pede desculpa por proteger as pessoas.

Reforma o Estado.

Enfrenta privilégios.

Combate desigualdades.

Investe no futuro.

Protege os serviços públicos.

Moderniza sem entregar o país aos privados.

Simplifica sem fragilizar o interesse público.

Cresce sem abandonar quem trabalha.

Precidamos de visão para o país...e ela nunca virá da direita.

Make social democracy great again.


2026  05 23

 https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva/posts/

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Eduardo Maltez Silva - “Reclusos vão limpar florestas”



* Eduardo Maltez Silva

“Reclusos vão limpar florestas.” Vendido como se fosse uma mudança revolucionária, quando na verdade é apenas mais um episódio clássico de populismo punitivo e inútil, embrulhado como “novidade” para agradar aos cheganos.
A ideia é simples — não porque funcione, mas porque excita um certo reflexo emocional: alguém tem de ser punido, alguém tem de sofrer, alguém tem de “pagar” pela minha vida frustrada.
Décadas de investigação em psicologia social mostram que uma parte das marionetas do populismo tem forte adesão à crença do “mundo justo”: a necessidade quase visceral de acreditar que quem está mal alguma coisa fez para o merecer.
Quando essa crença é ativada — por medo, insegurança económica ou ansiedade social — cresce o apoio a soluções punitivas, mesmo quando são contraproducentes e até inúteis.
Não é racional. É emocional.
E emoções dão votos.
É por isso que estes partidos perdem mais tempo a falar de punir quem comete crimes do que a falar em prevenir o crime.
Porque prevenir o crime exige mais Estado, melhores escolas, melhor polícia, melhor justiça, melhor apoio social, melhor saúde mental, menos guetos, menos desigualdade… e isso incomoda as elites económicas.
O populismo sabe isto de cor. Qualquer manual de propaganda dos anos 30 já o sabia.
Por isso repetem esta coreografia moral: reclusos, beneficiários de RSI, desempregados, imigrantes — tudo embrulhado na mesma narrativa de suspeição e punição.
O objetivo não é resolver problemas estruturais. É oferecer catarse barata a quem precisa de sentir que alguém está a ser posto “no lugar”.
Mas vamos aos factos, porque a propaganda vive da ignorância.
Em Portugal, os reclusos sempre puderam trabalhar e ter formação.
Sempre. Vou repetir: SEMPRE.
Está na lei há anos. Faz parte do modelo de reinserção social.
Existem oficinas prisionais, serviços internos, cantinas, programas profissionais e até trabalho no exterior em regimes específicos.
Não, não estavam proibidos de trabalhar. Nunca estiveram.
Aliás, no final de 2024 havia perto de 43% da população prisional em actividade laboral. (fora os que estavam em formação)
O que existe — e existe há décadas — é um sistema onde a maioria dos reclusos que trabalha dentro da prisão recebe valores na ordem dos 2 a 3 euros por dia. Sim, por dia.
Quando se converte isto em horas de trabalho, estamos a falar de cêntimos por hora.
Isto não nasceu ontem.
Isto não foi agora descoberto.
A possibilidade sempre existiu.
O que mudou foi outra coisa: a propaganda.
De repente, vender trabalho prisional como se fosse uma invenção musculada rende cliques e rende votos num eleitorado que vibra com soluções simplistas servidas em tom de taberna.
Mas há um pequeno problema que o marketing político esconde.
Trabalho exterior de reclusos não é apenas mandar pessoas para o mato com uma enxada para apaziguar o instinto punitivo.
Para colocar reclusos fora dos muros é preciso:
– guardas prisionais
– transporte
– logística
– alimentação
– seguros
– formação para operar maquinaria
– segurança permanente
– protocolos formais com empresas e associações
Tudo isto custa dinheiro. Muito dinheiro.
E, na prática, o impacto nas florestas é altamente discutível.
Reparem: estamos a falar de um sistema onde o próprio sindicato do setor aponta para uma falta estrutural próxima dos 1.500 guardas prisionais.
Ou seja, enquanto se vende a imagem bonita da “limpeza das matas”, o custo real é empurrado para debaixo do tapete... mais recursos de segurança desviados para operações de impacto estrutural reduzido.
Mas isso é detalhe técnico.
E detalhe técnico não ganha votos.
Há outro ponto ainda mais incómodo neste populismo de taberna.
Quando o Estado começa a disponibilizar mão-de-obra prisional em larga escala, o risco — já observado noutros países — é criar pressão em baixa sobre os custos laborais e abrir espaço a modelos de negócio dependentes de trabalho ultra-barato supervisionado pelo erário público.
O mecanismo é perverso:
– o Estado paga a vigilância
– o Estado assume o risco
– o Estado mobiliza recursos escassos
– e terceiros beneficiam de custos mais baixos
Isto não é teoria da conspiração.
A literatura internacional sobre economias prisionais mostra precisamente este risco: o foco pode deslizar da reinserção para a utilidade económica do trabalho barato.
E é aqui que o populismo revela o truque.
Não é política pública séria.
Não é reforma estrutural.
Não é estratégia florestal.
É ilusionismo político.
Pega-se numa medida que já existia, dá-se verniz musculado, vende-se como novidade,
esconde-se os custos e a utilidade real da ação.
Ao mesmo tempo, alimenta-se a narrativa moral de que o problema do país são sempre os de baixo — o recluso, o beneficiário, o desempregado — nunca as falhas estruturais que dão muito mais trabalho resolver.
Convém relembrar o óbvio.
Quem recebe RSI já tem obrigações legais.
Quem está desempregado já tem deveres de procura ativa de trabalho.
Reclusos já trabalham no sistema prisional.
O Estado social moderno não funciona à base de chicote.
Funciona criando condições, incentivos e percursos de reinserção com racionalidade económica e social.
Tudo o resto é teatro punitivo...é performance...é maquilhagem, cabeleireiro e chuva digital.
Há trabalho prisional que pode e deve existir com dignidade, formação real e verdadeiro valor público — trabalho para reintegrar, não para alimentar oportunismos.
O que não precisamos é de políticas desenhadas para provocar aplausos fáceis enquanto desviam recursos escassos, colocam em causa a nossa segurança e vendem soluções simplistas a quem confunde punição com reinserção.
O país já paga caro demais por políticas feitas ao som de berros de taberna… e ainda assim votámos nesta porcaria.
Resultado? O que estava mal piorou.
O que estava bem, conseguiram estragar.
Por isso a distração faz parte do plano.
Não se distraiam...Não se deixem enganar.

2026 02 24

https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva

Eduardo Maltez Silva - Que belos cromos à pala do orçamento

 


* Eduardo Maltez Silva

in Facebook, 23/02/2026, Revisão da Estátua

O Governo contrata por 11 mil euros, em ajuste direto, maquilhadores e cabeleireiros para embelezar a imagem do Governo. (é mesmo verdade, não é sátira, ver notícia aqui).

Porque quando a substância falha, entra a maquilhagem. Quando a política rebenta tudo, entra o styling. Quando a governação é incompetente, entra o verniz.

Este executivo especializou-se nisso: Cosmética Política.

Pegou no que estava a funcionar e implodiu. Pegou no que já estava frágil e deixou degradar.

E, no meio disto tudo, investe na única área onde tem mostrado verdadeira consistência: gestão de imagem e PowerPoints.

Tal como a Spinumviva operava na lógica do balcão de interesses, este Governo move-se com a mesma fluidez entre o público e o privado — sempre com uma bússola muito clara: quem ganha com isto no topo da pirâmide?

Enquanto isso:

— a saúde pública ficou muito pior.

— as negociatas e transferência de dinheiro da classe média para os mais ricos está nos máximos.

— os pacotes laborais para esmagar quem trabalha em nome dos lucros de quem manda são desenhados às escondidas.

— a habitação transforma-se num parque de extração para especuladores e bilionários.

Mas calma — a franja está impecável para a conferência de imprensa.

Isto não é governar…tal como a chuva falsa nos vídeos do CHEGA, isto é performance para enganar patetas.

Muito ruído. Muito enquadramento. Muito spin. Muito “a culpa era dos outros” E cada vez menos Estado a funcionar.

No fim do dia, a mensagem implícita é simples: não te veem como cidadão — veem-te como dador de votos que precisa de uma boa imagem no ecrã para não olhar demasiado para os números.

É o CHEGA 2.0, com menos tom de taberna, mais bem barbeado e com melhor maquilhagem.

https://estatuadesal.com/2026/02/24/que-belos-cromos-a-pala-do-orcamento/

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Eduardo Maltez Silva - Joana ODEIA o socialismo que nem sequer existe.

 


Não sabe bem porquê.

Aprendeu a odiar — entre reels, comentários indignados e frases que lhe apareciam no feed, noite após noite.
O que nunca lhe explicaram é que o SNS onde leva os filhos, o subsídio de férias que recebe, o abono de família de que já beneficiou, a licença de maternidade que um dia lhe deu descanso, o salário mínimo que puxa o mercado para cima — tudo isso nasceu do mesmo socialismo que lhe ensinaram a odiar.
Disseram-lhe que o problema eram “os impostos socialistas”. Não lhe disseram que, sem escalões de IRS, quem ganha como ela pagaria mais para que os de cima pagassem menos.
Joana acredita que é mais livre se pagar 200 euros por mês em seguros de saúde e mais 400 em propinas para garantir o básico aos filhos, enquanto o senhorio beneficia de isenções fiscais com as rendas absurdas que ela paga.
Acredita mesmo.
Porque ninguém lhe explicou que há modelos em que se paga menos no total — apenas de forma coletiva. E, quando não se explica, o medo faz o resto.
Ensinaram à Joana que o perigo tem nacionalidade. Que a criminalidade tem etnia. Que, ao apontar o dedo a imigrantes, ciganos ou a multar mulheres de burca, está a defender-se.
O que Joana ainda não percebeu é que esta é a forma mais barata de gerir um país desigual: quando se colocam pobres contra pobres, não é preciso tocar nos privilégios de quem está verdadeiramente no topo.
Divide-se. Distrai-se. Juntam-se criminosos e inocentes na mesma caixa e tudo parece resolvido.
Joana também aprendeu a odiar Mariana Mortágua...nunca falou com ela, mas odeia como nunca odiou ninguém.
Uma mulher a odiar outra mulher — porque “não sabe estar”, porque “fala alto”, porque “é radical”.
Nunca lhe contaram o resto da história.
Que Mariana se licenciou em Economia aos 22 anos.
Que, aos 23, já desempenhava trabalho técnico no Parlamento.
Que concluiu o mestrado aos 25, enquanto trabalhava.
Que ainda nos vinte e poucos anos já lecionava no ISCAL.
Que fez doutoramento na SOAS, com investigação sujeita a peer review internacional.
Que publicou, investigou e construiu um currículo verificável antes e durante a atividade política.
Não encaixa na caricatura que ensinaram à Joana — por isso, é mais fácil odiar.
Na política, Mortágua ficou conhecida onde menos convinha aos poderosos: nas comissões de inquérito à banca — BES, Banif, CGD — abrindo dossiês que muitos preferiam manter fechados.
Nunca precisou de empresas familiares para prestar consultoria a elites. Nunca viveu de cargos decorativos. Nunca surgiu associada a avenças opacas com grandes grupos económicos.
As elites nunca perdoaram...
Mas Joana não percebe isto… só ouve “Venezuela”..."Esquerdalha"...
No entanto, grande parte das medidas que, em Portugal, se rotulam como de “extrema-esquerda” existem em países nórdicos e até na Suíça.
Joana diz preferir o tom grave e sério de Passos Coelho.
Parece mérito. Parece autoridade. Parece ordem.
Ignora que o “campeão do mérito” só concluiu a licenciatura aos 37 anos, a pagar. E que a carreira empresarial surgiu de forma quase instantânea dentro do círculo partidário.
Ignora o episódio dos recibos verdes e da Segurança Social — aquele momento em que o discurso do sacrifício colidiu com a realidade de alguém com formação em Economia que afirmou não saber que tinha de pagar contribuições para a Segurança Social.
Mas a imagem fala mais alto do que os factos, quando o algoritmo já decidiu por nós.
Depois, Joana olha para Luís Montenegro e vê normalidade institucional.
Não repara no padrão clássico do “Portugal dos pareceres”: carreiras feitas em gabinetes onde o valor do trabalho invisível atinge centenas de milhares de euros.
Tudo pode estar formalmente legal — e muitas vezes está —, mas, para quem entra às 9 e sai às 18, sobra sempre a mesma pergunta: o que produziu realmente? E quem vive da proximidade ao poder decisor pode ser considerado um trabalhador como nós? Ou é apenas um facilitador chico-esperto?
E, no topo do sonho meritocrático de Joana, surge André Ventura.
O homem que berra contra quem “não faz nada”, mas cuja própria carreira raramente passou pela rotina esmagadora que milhões conhecem.
Comentário televisivo, consultorias fiscais para as elites e algumas horas semanais de docência — e um talento especial para transformar indignação em carreira. Uma vida profissional distante da experiência laboral da maioria, sustentada por subsídios públicos e partidários.
Joana ouve. Joana repete. Joana partilha.
Porque Joana está cansada.
Trabalha num horário desajustado num centro comercial, conduz um Opel Corsa a cair aos bocados e sente — com razão — que a vida nunca lhe deu grande folga. E, quando a vida aperta, as respostas simples parecem sempre mais verdadeiras.
O problema é que, enquanto Joana culpa os de baixo para se sentir um pouco mais alta, há sempre alguém muito mais acima a rir-se do espetáculo.
Joana acha que foi convidada para o jantar das elites económicas que financiam esses partidos.
Mas ninguém teve coragem de lhe dizer:
Ela não está sentada à mesa — está na cozinha a lavar os pratos.

https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva

quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Eduardo Maltez Silva - É sempre assim que começa ...




*   Eduardo Maltez Silva
 
 ·
É sempre assim que começa: não com um ditador a bater à porta, mas com pequenos sinais que a sociedade finge não ver.

Uma criança brasileira entra na escola e sai dela sem dois dedos, depois de meses a pedir ajuda que ninguém quis ouvir, a direção encolhe os ombros. 

Um jovem bombeiro é violado num quartel que deveria ser símbolo de coragem, com os seus superiores a gravar o vídeo da humilhação. 

Centenas de imigrantes são empurrados pelo Estado para a ilegalidade, para alimentarem máquinas de lucro de máfias que corrompem funcionários do estado. 

Militares da GNR são detidos por proteger redes que transformam pessoas desesperadas em escravos descartáveis.

Empresários sem escrúpulos pagam 80 euros por mês a um imigrante que o próprio Estado força a permanecer ilegal, apenas para alimentar os apetites de ódio que nos mergulharam nesta desumanização do outro.

Nada disto acontece porque “algo correu mal”. 

Acontece precisamente porque está a correr como alguns querem: uma sociedade desenhada para que os de cima pisem os de baixo, para que a violência pareça normal e a indiferença, inevitável.

E esta normalização do mal não nasceu do nada.

Foi semeada, regada e fertilizada por um discurso político que, há anos, ensina o país a culpar os mais fracos em vez de olhar para cima.

Há um padrão a consolidar-se, a humilhação dos fracos pelos fortes. 

Uma hierarquização moral, racial, económica, étnica e ideológica.

A paranoia colectiva repete sempre o mesmo refrão: o inimigo é o imigrante, o cigano, o pobre, a mãe solteira, o sem-abrigo, a pessoa que chega sem nada.

É nesses alvos — e nunca nos verdadeiros predadores — que a extrema-direita treina a raiva do país.

Quem está em baixo é convidado a pisar quem está ainda mais em baixo, com a promessa que assim sobe mais alto.

E assim, a crueldade pinga da política para a sociedade, e da sociedade para as instituições.

Nada disto é acaso; tudo isto é ideologia em prática.

Quando a extrema-direita repete que há “pessoas que valem menos”, que há “portugueses de primeira” e “intrusos”, que os problemas do país se resolvem “limpando” quem está em baixo, está a ensinar uma ética perversa.

Essa ética infiltra-se nos corredores das escolas, nos balneários dos quartéis, nas empresas de trabalho temporário, nas esquadras e até nos partidos que antes se diziam moderados.

De repente, já ninguém estranha um pacote laboral feito para o topo esmagar o fundo, nem uma reforma fiscal criada para aliviar os muito ricos e sufocar quem depende da escola pública ou do SNS.

O Estado desprotege imigrantes, impedindo a sua legalização para que possam ser explorados. 

Os impostos descem para quem tem mais, os serviços descem para quem tem menos. 

A justiça torna-se suave para os poderosos e brutal para os vulneráveis. 

As escolas dividem-se entre as dos meninos ricos e as dos meninos pobres.

Dividir. Hierarquizar. Dominar.

E a tragédia maior é que muitos dos que repetem estas ideias não percebem que estão a entregar a própria vida aos poderosos.

Defendem bilionários que nunca conhecerão, atacam trabalhadores iguais a si, culpam imigrantes que fazem os empregos que eles recusam e entregam o país a elites que só prosperam porque há uma massa de gente ocupada a odiar-se mutuamente.

O fascismo funciona sempre assim: recruta os fracos para proteger os fortes, oferecendo apenas a ilusão de poder — o poder de pisar alguém.

A sociedade dá sinais antes de implodir. Os partidos sociais-democratas e humanistas perdem eleições, nasce um ódio visceral por tudo o que seja socialismo, sem que a maioria perceba o que isso quer dizer.

A democracia vai sendo abafada por algoritmos, por TikToks de ódio, por influencers políticos que transformam racismo, xenofobia e violência num produto viral.
 
Os berros abafam a lógica.   

E esse veneno espalha-se até contaminar tudo: famílias, escolas, instituições, partidos, a linguagem do dia-a-dia... as nossas próprias crianças e jovens.

Quando finalmente acordamos, já a crueldade deixou de chocar. Já o discurso hierarquizante se tornou norma. Já a exploração passou a ser tratada como inevitável.

E um país que se habitua a esmagar os mais fracos não tarda a descobrir que a esmagadora maioria vive do lado dos esmagados... mas, nessa altura, será tarde demais.

2025 11 26
https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva