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domingo, 26 de abril de 2026

Graça Castanheira - E o porco gosta

 * Graça Castanheira

 A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa.

A frase de Bernard Shaw que se associou ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura é mais interessante do que a sua leitura moral sugere. Quem a cita fica-se geralmente pelo primeiro movimento — não lutes com um porco, porque te sujas — e esquece o segundo, que é decisivo: e o porco gosta. Gostar, aqui, significa que o terreno da lama é o habitat do adversário, aquele em que ele se move com desenvoltura e onde qualquer gesto do antagonista, mesmo o mais justo, se dissolve no lamaçal.

O problema não é só a sujidade, é a impossibilidade de enquadramento. É aqui que a questão se torna cinematográfica. Há uma diferença de dispositivo entre o combate e o retrato. O combate é um campo-contracampo, exige duas presenças, uma alternância que produz equivalência mesmo quando as posições são assimétricas. Foi este o princípio que o cinema entendeu desde cedo: ao alternar dois planos, o espectador é levado a ler as duas figuras como termos comparáveis de uma mesma equação, independentemente daquilo que cada uma diz. O debate televisivo herda esta gramática, e por isso, antes de qualquer conteúdo, concede ao adversário metade do que ele precisa, que é o estatuto de interlocutor legítimo — e é exatamente esta concessão que se critica a Pacheco Pereira. A alternativa que o cinema conhece é o plano-sequência, e em particular o plano fixo, que obriga a figura a habitar sozinha o enquadramento até a retórica se desmontar pela duração. É a estratégia de muitos documentários observacionais, e a extrema-direita tende a receá-los porque precisa da contracena para a poder interromper e sabotar.

Acontece que o retrato exige condições que se foram perdendo: um espectador disponível para a duração, uma pedagogia do olhar, um espaço de escuta. Num sistema que premeia o fragmento contra a duração, o plano fixo do porco não compete pela atenção política em tempo real. Quem defende o plano sustentado contra o combate televisivo está a defender um recurso cultural que em escala pública já não existe. Entre dois dispositivos imperfeitos, o combate tem pelo menos a virtude de ocupar o terreno; o retrato, na atual paisagem política, corre o risco de não passar de uma forma elegante de desdém.

Foi a forma como André Ventura reagiu — as torções, as fugas, as falsas equivalências, a invenção de uma história sem PIDE, os bebés mortos como licença para a brutalidade colonial, a ridícula acusação de o seu interlocutor estar contra as Forças Armadas — que produziu o conteúdo que circulou a seguir. E é aqui que está o ganho real do debate: na revelação involuntária que o dirigente do Chega fez de si próprio, sob a pressão de ter de defender em tempo real o seu ponto de vista. A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — no campo-contracampo, na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa. À saída do debate, esses momentos tornaram-se cultura pop, contraditório partilhável, companhia argumentativa. Duas semanas passadas, abriram-se discussões laterais que de outro modo não teriam acontecido — a reflexão sobre a crueldade como linguagem política foi uma delas, e não a menor.

A frase de Shaw é uma observação de classe: pressupõe a possibilidade de nos mantermos limpos. E essa hipótese, hoje, em democracias sob pressão como as nossas, é precisamente o privilégio de que se deve duvidar. Pacheco Pereira ter-se-á enlameado, mas transformou a sujidade em prova pública — a lama como revelador fotográfico.

26 de Abril de 2026

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Entrevista a Pedro Lauret: “Há uma intenção política clara de obliterar o 25 de Abril”

Aos 77 anos, em entrevista ao Expresso, o Capitão de Mar e Guerra na reforma lembra o que provocou a Revolução e o trabalho feito pelos militares de Abril para pôr de pé os alicerces do Estado democrático. Um trabalho “sem paralelo” na História que considera nunca ter sido devidamente reconhecido

* Joana Pereira Bastos, Jornalista

Pedro Lauret tinha 25 anos quando se juntou à conspiração de militares que levou ao 25 de Abril, integrando o primeiro grupo de ligação da Marinha ao Movimento dos Capitães. E fez parte da pequena comissão que redigiu o Programa do Movimento das Forças Armadas, no qual ficou escrito o rumo a seguir no país: liberdade e democracia, paz e descolonização. Aos 77 anos, em entrevista ao Expresso, o Capitão de Mar e Guerra na reforma lembra o que provocou a Revolução e o trabalho feito pelos militares de Abril para pôr de pé os alicerces do Estado democrático. Um trabalho “sem paralelo” na História que considera nunca ter sido devidamente reconhecido. E que acusa de estar agora a ser intencionalmente menorizado pelo Governo.

Como interpreta o bloqueio do Governo ao Museu do 25 de Abril?

O 25 de Abril é uma das datas mais importantes da História de Portugal, porque derruba uma ditadura longuíssima, quebra o ciclo colonial e permite que, pela primeira vez, se realizem eleições livres e se institua uma democracia. Era fundamental ter um espaço museológico que preservasse esta memória, mas o Governo não quer que isso aconteça. Há uma intenção política clara de obliterar o 25 de Abril e branquear a ditadura, porque este Governo tem na extrema-direita o seu aliado preferencial e, para isso, convém-lhe menorizar a Revolução. Tudo o que seja feito para enaltecer o 25 de Abril não lhe interessa. Mas este apagar da História é criminoso. E os capitães de Abril, então, estão a ser completamente votados ao esquecimento. Mas isso já acontecia, mesmo antes desta conjuntura

Porque diz isso?

Nunca houve um grande reconhecimento do poder político, no geral, em relação aos capitães que fizeram o 25 de Abril. E isso vê-se em várias coisas. Por exemplo, até ao final do mandato de Jorge Sampaio tinham sido condecorados apenas os militares que fizeram parte do Conselho da Revolução e da Comissão Coordenadora [do MFA] e, mesmo no último dia do mandato, foram condecorados mais 15, que foram os comandantes das unidades que saíram no dia 25 de Abril. O Mário Soares não condecorou, individualmente, um único, mas apenas os estandartes das unidades. E a maioria continua até hoje sem ter a Ordem da Liberdade. Por outro lado, se olharmos para a toponímia de Lisboa, as ruas estão cheias de referências aos heróis do Liberalismo e da República, mas não se veem ruas com nomes dos militares de Abril. As nossas carreiras militares foram todas feitas em cacos. E hoje em dia considera-se que os ‘pais da democracia’ são o Mário Soares, o Freitas do Amaral, o Sá Carneiro... e os capitães são esquecidos. No discurso político e mediático, é como se não existissem. E mesmo no âmbito das Comemorações dos 50 anos, houve muito pouco envolvimento dos capitães no programa. Tudo isto entristece-nos e revolta-nos bastante. E não é por vaidade, mas por uma questão de justiça e de verdade histórica.

A que acha que se deve essa falta de reconhecimento por parte do poder político?

Acho que há razões profundas. A oposição civil à ditadura sempre esteve muito dividida e nunca teve uma estratégia consistente para derrubar o regime. E foram os militares que, sozinhos, conseguiram fazê-lo. Um grupo de miúdos com 25, 30 anos que em nove meses fizeram uma conspiração e em 18 horas deitaram abaixo a ditadura. Acho que os políticos da altura sempre tiveram algum ciúme em relação a isso. E apesar de já terem passado uma ou duas gerações, isso permanece. Para os políticos, os militares são um incómodo. Mas o que fizemos é notável e não há, na história mundial, nenhum outro exemplo de militares que tenham feito um golpe e não tenham querido ficar com o poder. Tal como prometemos, um ano depois fizeram-se as primeiras eleições livres. E tivemos de fazer tudo para as pôr de pé, montando uma operação extraordinária para fazer o recenseamento e os cadernos eleitorais.

A instauração da democracia era consensual entre todos os militares de Abril?

Os militares eram pouco politizados, de um modo geral. Para ser sincero, muitos nem sabiam bem o que era isso da democracia. A vida de um oficial do Exército era muito difícil. Estava dois anos em comissão [na guerra], vinha para cá um ano e pouco e voltava novamente. Uma vida destas não dava para fazer grandes reflexões políticas. A preocupação era sobreviver. O que motivou os militares para o golpe foi a necessidade de acabar com a guerra, a partir do momento em que se tornou evidente que ela estava perdida.

“Os militares eram pouco politizados, de um modo geral. Para ser sincero, muitos nem sabiam bem o que era isso da democracia”

Em que momento isso aconteceu?

Em março de 1973, na Guiné, quando o PAIGC [movimento independentista da Guiné] adquiriu à União Soviética uma nova arma que mudou tudo: os mísseis antiaéreos. No mesmo mês abateram dois Fiat, que eram os nossos aviões mais sofisticados, e logo em maio abateram três no mesmo dia. A partir daí, a nossa Força Aérea deixou de conseguir, com a mesma eficácia, contrariar os ataques e fazer a evacuação de feridos. A guerra estava perdida e não estávamos dispostos a ser sacrificados. Além disso, o regime foi incompetente e criou uns decretos que punham os milicianos à frente dos outros, o que criou ainda mais descontentamento, mas a questão central não foi essa. Foi acabar com a guerra. E, a dada altura, percebemos que a única maneira de o fazer era derrubando o regime. Foi isso que motivou a conspiração.

Participou na conspiração desde o início?

Sim. Fiz parte do primeiro grupo de ligação da Marinha ao movimento dos capitães. O planeamento militar do golpe não teve dificuldade nenhuma e correu rapidamente. Em janeiro de 1974, a estratégia estava delineada. Depois faltava a parte política, que foi mais complicada. Só se começa a falar disso em fevereiro ou março, já às portas do 25 de Abril. E enquanto que a ordem de operações foi muito falada e discutida, o programa [político] foi muito restrito e feito por um núcleo muito pequeno. O Melo Antunes, que era dos oficiais do Exército mais politizados, e alguns oficiais da Marinha, nomea­damente o Martins Guerreiro, o Almada Contreiras e eu próprio, trabalhámos no documento político quase clandestinamente dentro do próprio movimento.

O programa político foi facilmente aceite por todos?

A grande maioria dos militares envolvidos no 25 de Abril não teve conhecimento do programa político até ao golpe. Mas nunca houve nenhuma contestação. A partir do momento em que se dá o 25 de Abril, o programa foi assumido por todos. Foi à militar: “Este é o nosso programa, temos de o cumprir.” E cumprimos. No programa do MFA estava escrito: no prazo máximo de um ano tem de ser eleita uma assembleia constituinte para fazer uma nova Constituição; quando ela estiver pronta, serão eleitos os órgãos de soberania que nela estiverem previstos. Assim foi. No dia 25 de Abril de 1975 formou-se a Assembleia Constituinte por sufrágio universal, no ano seguinte estava pronta a Constituição, que fez este mês 50 anos, e foi eleita a primeira Assembleia da República, o primeiro Presidente da República democraticamente eleito, os Governos Regionais dos Açores e da Madeira e os órgãos das autarquias locais. E os militares saíram de cena. Mas fomos nós que construímos os alicerces da democracia e isso nunca foi devidamente reconhecido. E hoje menos ainda.

23 abril 2026  

https://expresso.pt/politica/2026-04-23-

domingo, 19 de abril de 2026

O pecado original de Pacheco Pereira

Pacheco Pereira não se arrepende do frente-a-frente com Ventura: “Se fosse hoje, repetiria”

Em declarações ao DN, José Pacheco Pereira defende sem hesitações a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeita as críticas de quem considera que saiu a perder. Para o historiador, discutir o populismo à distância é um erro: “Tem mesmo de se meter a mão na massa”, diz, depois de ter enfrentado o líder do Chega. E recusa uma “espécie de snobismo intelectual”.

Alexandra Tavares-Teles

16 Abr 2026,  

“Estou muito contente com o que fiz e se fosse hoje repetiria”. José Pacheco Pereira defende sem reservas a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeitou as críticas de quem entende que o historiador perdeu ao aceitar o frente-a-frente transmitido pela CNN Portugal na noite de 13 de abril, depois de Ventura ter insistido na tese de que houve mais “presos políticos” após o 25 de Abril do que em vésperas da revolução, afirmação que Pacheco Pereira classificou publicamente como uma “comparação absurda”.

Sim, tem mesmo de se meter a mão na massa”, afirmou, sublinhando que não aceita a ideia de que o combate político ao populismo se faça à distância. “Não alinho nessa posição. Se as pessoas têm pruridos em sujar as mãos, fazem mal. Em casos destes, é preciso sujar as mãos”, acrescentou.

O historiador respondeu assim à metáfora, repetida nos últimos dias em artigos de opinião e comentários nas redes sociais, de que “nunca se deve lutar com um porco”, fórmula usada por vários observadores para criticar o tom do confronto com o líder do Chega,  com comentadores a argumentarem que o frente-a-frente acabou por arrastar Pacheco Pereira para o terreno preferido de Ventura.

Mas o antigo dirigente do PSD recusa a conclusão. “A ideia de que não devemos rebaixar-nos tem a ver com medo. Há muito medo”, diz o historiador. E vai mais longe: “A história diz-nos que, nos anos 30 e, mais recentemente, em França, com a Frente Nacional, esse caminho, inicialmente seguido,  foi depois revertido por uma razão: não se pode deixar que digam certas coisas sem reação.”

Para Pacheco Pereira, o erro está precisamente em deixar o espaço público livre para esse tipo de discurso. “Há uma esquerda que assume uma espécie de snobismo intelectual - eles são maus, discutem à bruta e, portanto, não se fala com eles. Sabe qual é o efeito que isso tem? Encontro esse efeito na rua, nas pessoas que me abordam depois daquele debate”, relatou. “É um número muito significativo de pessoas que vem ter comigo, que saem da mesa do restaurante para me cumprimentar. Não são apenas pessoas da elite. São pessoas  que não se sentem representadas.”

Segundo o historiador, a reação popular ao debate mostrou que existe um sentimento de vazio no campo democrático perante a ascensão do discurso populista. “Vêm ter comigo com uma certa dose de emoção e essa emoção tem a ver com o facto de não se sentirem representadas nesses outros debates”, afirmou, defendendo que o confronto direto é uma forma de responder a esse mal-estar.

Pacheco Pereira considera ainda que o frente-a-frente teve uma utilidade concreta: "expor afirmações de Ventura sobre o 25 de Abril que nunca tinha dito. E só isso foi uma enorme vantagem”, concluiu Pacheco Pereira, sustentando que o debate permitiu tornar visível, de forma mais nítida, a leitura que o líder do Chega faz da democracia saída da Revolução dos Cravos. Ainda que lamente: “O mais grave é que as frases mais significativas que o Ventura disse, inclusivamente que o 25 de Abril era miserável, ninguém as reproduziu”.

https://www.dn.pt/pol%C3%ADtica/pacheco-pereira-no-se-arrepende-do-frente-a-frente-com-ventura-se-fosse-hoje-repetiria#google_vignette

 

Opinião DN

O pecado original de Pacheco Pereira

Paulo Guinote, Professor do Ensino Básico

16 Abr 2026

Não sou dos que acha que não vale a pena “debater com fascistas”, estando em causa André Ventura. Porque ele é, antes de mais, um político oportunista, demagogo mais do que populista (ele só promete tudo às “pessoas de bem”, o que reduz muito o universo…) e porque, em alguns contextos, é essencial desmascarar as mentiras e mistificações que algumas figuras apresentam como verdades irrevogáveis e, nesse particular, Ventura está longe de ser o único mistificador no activo.

André Ventura só é “fascista” nos momentos em que esse tipo de discurso ou atitude se revelam vantajosos para a angariação de votos. Ou de apoios de bastidores. Ou de financiamentos. Porque já o vimos ser um pouco de tudo: cristão devoto (mais ou menos católico), proto-sindicalista empedernido (do apoio a sindicatos de polícias, ao esquecido anúncio da criação de uma nova federação sindical), nacionalista dos quatro costados, a par de atlantista bissexto. Pactua com grupos neo-nazis, desde que isso não ganhe destaque público e é acérrimo inimigo dos corruptos, a menos que lhe facilitem ancoragem financeira. Ora, qualquer “fascista” digno desse apodo teria vergonha de colocar cartazes com mensagens que depois se tentam reinterpretar de forma manhosa.

O “verdadeiro fascista” não pratica o toca-e-foge ou o desdisse-o-que disse. Ventura é apenas um simulacro para os tempos que temos, marcados pela promoção de produtos para consumo mediático de massas, se possível com aroma a “sangue”, não interessando se é coerente no percurso, desde que pareça “assertivo” de cada vez que faz uma curva ou inversão de marcha. Se pode ser perigoso, chegando-se muito ao poder? Sim, se isso corresponder ao abrir de portas à peculiar confederação de interesses que congregou graças ao seu sucesso no mercado político-mediático.

Pacheco Pereira sabe isto, pois foi claro quando declarou que nunca qualificou Ventura como fascista. Mas equivocou-se ao considerar que um debate entre os dois serviria para algo mais do que produzir audiências ao canal anfitrião. Porque podem muitos bater no peito que nunca assistiriam a tal confronto que a curiosidade mórbida vence quase sempre essas proclamações. O único “vencedor” do debate foi, pois, a CNN Portugal.

Ao desafiar Ventura, Pacheco Pereira cometeu um duplo erro de cálculo: concedeu ao seu interlocutor um estatuto de equivalência intelectual que, gostemos mais ou menos do trajecto de JPP, muito poucos reconhecem e achou que seria possível uma espécie de “duelo de cavalheiros”. Achou que apresentando “regras”, isso impediria o atropelamento no discurso ou o escorregar para a luta na lama retórica. Acreditou que apelando à apresentação de “factos” isso teria o mesmo significado para o seu oponente. Considerou que levando livros e documentação variada conseguiria “provar” uma verdade, cuja validade a outra parte não reconhece. A Ventura chega um punhado de fotocópias para fazer o seu número e exibir indignação. Pacheco Pereira pensou que a racionalidade calma venceria a emoção encenada. Enganou-se.

Todos cometemos erros, por arrogância intelectual, por inconsciência das circunstâncias ou má avaliação das qualidades, próprias e alheias. Pacheco Pereira parece não ter percebido que nada tinha a ganhar com este debate e Ventura nada a perder. Foi esse o seu pecado original.

Escreve sem aplicação do novo Acordo Ortográfico

https://www.blogger.com/blog/post/edit/7624295442706210520/3893848410623296261


Ventura sabe que mentiu?

Pedro Tadeu, Jornalista

17 Abr 2026,  

No debate, segunda-feira na CNN, com Pacheco Pereira, André Ventura disse que os políticos “do sistema” não admitem os crimes políticos do pós-25 de Abril e citou conclusões do Relatório da Comissão de Averiguação de violências sobre presos sujeitos às autoridades militares”, o chamado “Relatório das Sevícias” – mas ao fazê-lo desmentiu-se a si próprio.

Esse relatório, publicado em julho de 1976, foi elaborado por indicação do Conselho da Revolução no rescaldo do 25 de Novembro de 1975. Este facto foi omitido por Ventura.

O documento foi um instrumento político dos vitoriosos desse último golpe e muito do que lá se diz não está devidamente sustentado, nem inclui a defesa das pessoas e instituições acusadas de serem autoras das ditas sevícias. É parcial e duvidoso, mas, sem dúvida, também conterá verdades.

O ponto central para esta discussão não é esse. O ponto é que, ao contrário do argumento de Ventura, o regime democrático que o 25 de Abril criou em 1974 já discutia abertamente, a nível oficial e menos de dois anos depois, os abusos que o próprio regime teria cometido, coisa que durante 48 anos de fascismo português nunca aconteceu – de resto, o dito relatório está disponível, para toda a gente, no site da Presidência da República, não está escondido.

Portanto, quando André Ventura afirma que em 50 anos de democracia a classe política dominante não admitiu a existência de abusos de Direitos Humanos no pós-25 de Abril está a mentir e contradiz-se quando apresenta como prova um relatório que até foi elaborado por alguns atores do dia 25 de Abril de 1974, como, por exemplo, o jornalista Francisco Sousa Tavares.

Outra manipulação de André Ventura é a de dizer que nunca Salazar e Caetano assinaram ordens de prisão, o que só teria acontecido no pós-25 de Abril.

Nem Salazar, nem Caetano precisavam de escrever ordens de prisões políticas porque as davam verbalmente. Por exemplo, Silva Pais, que foi diretor da PIDE a partir de 1962, aparece mencionado 119 vezes nas agendas de audiências individuais de Salazar, que saiu do poder seis anos depois. Dá quase 20 vezes por ano.

Ventura queixou-se de que houve três mil presos políticos a seguir ao 25 de Abril e que 30 mil pessoas fugiram do país.

Em 1974, segundo a Comissão de Extinção da PIDE/DGS, havia 3000 agentes da polícia política e mais de 20 mil informadores (os chamados “bufos”). Se a isto somarmos vários militares, polícias, membros da Legião Portuguesa, muitas outras autoridades como governadores civis, ministros, secretários de Estado, altos funcionários públicos, quadros das comissões de censura, juízes dos tribunais plenários e alguns outros milhares de pessoas que participavam ativamente, mesmo de forma indireta, nas estruturas de repressão política do regime fascista, teremos de perguntar: “Poderia uma revolução que deita abaixo um regime repressor manter as pessoas que exerciam essa repressão em liberdade?”

Na verdade, até seria de esperar que houvesse mais prisões e mais fugas, mas, apenas 17 meses depois, tal como André Ventura acabou por dizer, quase todos estavam livres ou começavam a voltar. E isso demonstra a tolerância do 25 de Abril.

Mais de 30 mil resistentes e patriotas não tiveram essa sorte durante o fascismo. Álvaro Cunhal, por exemplo, amargou mais de 11 anos na cadeia e só se libertou porque fugiu do Forte de Peniche. Esteve 14 anos fora do seu país... até ao 25 de Abril.

Como é que se pode comparar uma coisa com a outra?!

https://www.dn.pt/opiniao-dn/ventura-sabe-que-mentiu

domingo, 8 de março de 2026

Carlos Coutinho - [António Lobp Antunes]

* Carlos Coutinho
 ·
Está agora sepultado no Cemitério de Benfica, em Lisboa, um extraordinário escritor que muito admiro e que muito me ensina ainda hoje, alguém que, inusitadamente, teve no Mosteiro dos Jerónimos as cerimónias fúnebres (o “velório”, no dizer de um repórter de alfurja de um canal de TV de crimes e escândalos, abaixo de qualquer respeito) um tal António Lobo Antunes que deixou uma profunda marca na escrita de autores que começaram a publicar depois dele e que, sendo o inverso de José Saramago, outro gigante também já falecido e nobelizado, contra ele combateu, por mal disfarçada inveja. 

   Diferente dele, ideológica e filosoficamente, este Lobo feroz, execrou-o por ter sido ele o galardoado com o Prémio sueco para a Literatura que o infeliz psiquiatra tanto desejou em vão.

   Regressando da guerra colonial em Angola, onde penou e trabalhou como alferes miliciano médico, o António Lobo Antunes publicou em 1978 “Memória de Elefante”, uma estreia que surpreendeu críticos e acadêmicos, logo seguida por “Os Cus de Judas” e abrindo caminho a uma recepção fulgurante de “A Explicação dos Pássaros” e de “O Manual dos Inquisidores”, além do fabuloso “Fado Alexandrino” que ainda trina e ecoa por todo o lado.

   O mais alto Poder homenageou-o e acrescentou aos muitos prémios em vida recebidos, nacionais e estrangeiros, um galardão póstumo, a poucos metros do homérico túmulo vazio de Luís de Camões, seguindo hoje o seu esquife para um cemitério alfacinha que recebe urnas e caixões de gente de todos os credos classes sociais. 

   Muito perto dele está enterrado, há meia década, um cunhado meu, comerciante de Benfica, e logo ao lado um jornalista que foi meu chefe. 

   Dulce Maria Cardoso, outra grande romancista que escreeu “O Retorno” e também entrou no que chama “literatura colonial”, confessa que a influência de Lobo Antunes também nela foi “enorme” e frisa: “Não conheço quem escreva tão bem em língua portuguesa. (…) Leio-o como um garimpeiro à procura de pepitas de ouro.”

   Para Gonçalo M. Tavares, outro aedo nobelizável com prestígio internacional, há em Lobo Antunes “uma síntese filosófica de uma ideia formulada” pelo filósofo José Gil: o “medo dc existir”

   Agustina Bessa Luís, que muito dele gostava, disse-lhe um dia:  “Sabes, filho, eu devia ter-me casado contigo ou com o Camilo.”

    Já Maria Alzira Seixo, que o estudou meticulosamente escreveu:

“Entre todos os motivos literários (…), um dos mais fortes é o do espelho, porque caracteriza o narrador na presença irrecusável de si a si próprio, dando conta das coincidências entre volição e pragmática, entre desejo e remissão à incompletude.”

   O jornalista e escritor Rui Cardoso Martins, que acompanhou Lobo Antunes numa ida a Nova Iorque, ouviu-lhe numa entrevista: ”Pedi ao sujeito da pensão que me levasse ao sótão, onde morava Deus.”

   Aliás, já tinha escrito numa crónica na revista “Visão”:

“Deus, estou zangado contigo. Suponho que já Te habituaste às minhas zangas como Te habituaste às minhas dúvidas, aos meus afastamentos, aos meus regressos a fingir que não venho, aos momentos de harmonia que de vez em quando existem entre nós, à minha incompreensão de tanta coisa que fazes ou não fases, aos meus ralhetes, aos meus amuos, ao que considero as Tuas injustiças, a Tua crueldade e se calhar não é injustiça, se calhar não é crueldade, sou parvo, não ligues, não consigo entender as Tuas profundezas e os Teus caminhos, o significado dos Teus gestos. Só que ultimamente, tenho exagerado: o ano ainda mal começou e já desataste a despovoar o mundo à minha volta.”

   E em 2018, numa entrevista com uma só pergunta do “Diário de Notícias”, respondeu: “Quero que o Nobel se foda.”

8 Março 2026

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

sábado, 6 de dezembro de 2025

Jaime Nogueira Pinto - Outra História

Jaime Nogueira Pinto

Colunista do Observador

A História oficial, sobretudo quando não prima pela verdade, tende a ser efémera. E pode sempre rever-se e refazer-se.

06 dez. 2025,  

Não há quem não saiba que a História é feita pelos vencedores. Aqui e em todo o lado. Mas sabe-se também que a História oficial, sobretudo quando não prima pela verdade, tende a ser efémera. E pode sempre rever-se e refazer-se.

Sobre o 25 de Novembro, cuja celebração parece causar grande consternação à esquerda e na Esquerda e motivar jogos florais, já escrevi o que tinha a escrever – mais recentemente, num livro organizado por Jerónimo Fernandes, que reúne um tenebroso conjunto de 32 autores de “extrema-direita”, digamos que uma Hidra de 32 cabeças onde, entre “passistas” e outros perigosos fascistas e extremistas, até cabeças (!) do Chega serpenteiam.

Apesar de terem sido os Comandos de Jaime Neves – entre os quais os Convocados, ou seja, os que tinham servido no Ultramar e voltaram às fileiras para parar a Esquerda radical – a fazer o 25 de Novembro, o que resultou do dia foram 50 anos de Centrão, isto é, de poder repartido entre o PS (mais à esquerda e por mais tempo) e o PSD (menos à esquerda e por menos tempo). Ficaram também como eternos cronistas da República historiadores e intelectuais de esquerda, nas suas várias sensibilidades e modalidades, assistindo-se ainda à súbita conversão à democracia eleitoral e à respeitabilidade democrática do Partido Comunista Português.

Sem o 25 de Novembro, sem os Comandos, sem os Convocados e a Força Aérea que, no terreno, evitaram a vitória da Esquerda radical, não teríamos em Portugal democracia liberal. Teríamos um regime comunista com alguns esquerdistas festivos no poder, bons rapazes, simpatizantes de Trotsky e dos maoistas, como os que torturaram presos políticos no RALIS e na Polícia Militar e se dedicaram a fuzilamentos simulados em vários aquartelamentos. Tudo boa gente. De qualquer forma, com Ialta em vigor, com o “povo do Norte” em alvoroço e uma coligação negativa, da extrema-direita o Grupo dos Nove e ao PS, a festa nunca iria durar muito. Mas os estragos e o prejuízo seriam consideráveis.

Não digo que o Centrão e militares como Vasco Lourenço ou outros do Grupo dos Nove alinhassem nas veleidades, barbaridades e festividades da esquerda radical, mas se não fossem, no terreno, os Comandos de Neves, os oficiais da Força Aérea e os paraquedistas do brigadeiro Almendra chegados de Angola, não sei bem quem tiraria do poder os revolucionários. Costa Gomes e os “moderados”? Duvido.

O Dr. Soares, quando percebeu que o PREC e a Extrema-Esquerda não queriam fazer a festa só contra os “fascistas” e os “reaccionários”, também teve um papel na resistência. A política é assim: o Inimigo nem sempre faz o Amigo, mas faz muitas vezes o aliado útil e objectivo.

fEsquerdas e direitas radicais

Estou à vontade quanto ao Estado Novo, onde não tive cargos ou responsabilidades. Nem eu, nem os meus companheiros do Jovem Portugal e depois da Política, nem tão pouco os nossos amigos do Grupo de Coimbra fomos alguma vez salazaristas. O nosso empenho era a defesa do então Ultramar, talvez porque gostávamos de ser cidadãos de uma nação grande, independente, plurirracial, com uma identidade forte. Uma nação que, na Europa e em África, crescia economicamente, apesar da guerra. Havia polícia política e censura prévia, mas nós não gostávamos nem precisávamos delas. Porém, havia uma guerra, em África, e não tinham as democracias na 2ª Guerra Mundial censura? Não tinham também neutralizado os suspeitos de colaboração com o inimigo, e sem sequer lhes perguntarem de que lado estavam (fizeram-no os americanos com os nipo-americanos e os ingleses com os militantes da British Union of Fascists de Oswald Mosley)?

Depois, que autoridade moral têm os militantes da esquerda radical, que admiravam Mao Tsé-Tung ou até Pol Pot e os desviacionistas trotskistas, para criticar, os que, aos vinte anos, queríamos transformar o império português numa grande nação euro-africana, com igualdade, e integração racial, desenvolvida economicamente? Talvez tivéssemos então, nas referências históricas, os nossos excessos, mas não éramos nós que fazíamos das faculdades um Estado autoritário, censório e policiado, onde era obrigatório ser “alinhado”.

E convém também lembrar que o Estado Novo não foi só a PIDE, a Censura e a mortalidade infantil. Foi também um tempo em que, pela primeira vez em Portugal houve mais gente a saber ler e escrever que os que não sabiam; um tempo em que se executou o maior rol de obras públicas depois do fontismo e se fez a segunda revolução industrial. Foi ainda nos últimos anos do regime que Portugal se aproximou em números de capitação e renda dos países economicamente mais desenvolvidos da Europa. Pela primeira e última vez.

Ao longo de quase 50 anos de poder, entre a Ditadura Militar (1926-1933) e o Estado Novo (1933- 1974), houve abusos, saneamentos, prisões, gente a morrer nas cadeias? Houve casos de corrupção e de favoritismo? Com certeza que houve. Mas tinham acontecido piores abusos contra os católicos, os monárquicos e os sindicalistas na Primeira República, e repetiram-se contra a direita patriota e ultramarinista depois de Abril, no 28 de Setembro e no 11 de Março. Depois do 25 de Abril, quando andaram a investigar a corrupção na “longa noite fascista”, ainda conseguiram descortinar uns gastos fora da caixa de um ex-presidente da RTP, mas foi um Nuremberg bastante modesto, convenhamos.

Há muitos anos, quando discutia com o Dr. Cunhal estes desmandos numa entrevista na Rádio Renascença, e lhe disse que eles, comunistas, tinham feito como o Estado Novo e a PIDE quando puderam, perguntou-me se eu queria comparar umas centenas de fascistas e reaccionários uns meses na cadeia com os muitos anos dos comunistas nas prisões do fascismo. Respondi-lhe, com todo o respeito que me merecia um velho e coerente lutador como ele, que a única razão pela qual só tinham sido meses fora o 25 de Novembro. Senão, teriam sido muitos anos e muitos mortos, torturados ou liquidados, a avaliar pelo modus operandi dos comunistas quanto a reais ou supostos inimigos em todos os países onde o comunismo se tinha instalado. Com uma agravante: enquanto os regimes autoritários e até as ditaduras da direita permitiam igrejas, comunidades religiosas e propriedade privada, o comunismo perseguia e proibia as religiões e a propriedade privada, acabando com a sociedade civil.

O 25 de Novembro e a Liberdade

E se não fosse o 25 de Novembro, também não haveria liberdade em Portugal. Não era o slogan dos “abrilinos” mais ortodoxos “não há liberdade para os inimigos da liberdade” (sabendo nós – e eles – perfeitamente quem definiria os “inimigos da liberdade”)?

Na história do 25 de Novembro há um ponto importante e interessante que discuti há dias com a Irene Flunser Pimentel na Radio Comercial: a envolvente internacional. É uma envolvente que explica a neutralidade do PCP, que não pôs o seu peso militar e civil na balança no 25 de Novembro. A URSS não queria quebrar as regras de Ialta de partilha da Europa com os Estados Unidos (confirmados no Verão de 1975 em Helsínquia) e o Dr. Cunhal e a cúpula do PCP eram disciplinados.

Também estou convencido que se houvesse uma guerra civil, embora pudesse hipoteticamente constituir-se uma Comuna de Lisboa (talvez sem o fuzilamento de bispos e padres da Comuna de Paris), os comunistas e a esquerda radical acabavam vencidos. E em risco de serem outra vez proibidos.

Rectificações históricas

A acabar, duas explicações e rectificações: a história da bandeira a meia-haste, na morte de Hitler, ouvi-a contar e explicar por Franco Nogueira, um “patriota da Rotunda” convertido ao Estado Novo pelo lado do patriotismo ultramarino. Em 3 de Maio de 1945, no terceiro dia depois do suicídio de Hitler em Berlim, a bandeira nacional apareceu a meia-haste nos edifícios públicos: Portugal era neutral no conflito, por isso, e uma vez que morrera um chefe de Estado, o Secretário-Geral do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Luís Teixeira de Sampaio, dera instruções nesse sentido, de acordo com o Protocolo. Depois, perante algum barulho dos Aliados e das oposições, Teixeira de Sampaio quis demitir-se, arcando com as responsabilidades de um erro político, na consequência da observação cega do Protocolo. A meia-haste não tinha, assim, nada de ideológico – Salazar fora crítico do nazismo, bem antes da sua derrota. Teixeira de Sampaio estava contrito perante os clamores que causara e disposto a ser o bode expiatório. Mas Salazar, ministro dos Estrangeiros desde 1936, conteve-lhe o gesto, e mandou-lhe um dos seus habituais bilhetinhos – “De hora a hora, Deus melhora”…

Quanto à morte do general Humberto Delgado, assassinado em Espanha pelo agente da PIDE Casimiro Monteiro, no que apareceu como uma dupla armadilha – o general Delgado pensava que se ia encontrar com oposicionistas, os agentes da PIDE pensavam que Delgado se vinha entregar ou estavam ali para o deter – há várias teses. Mas não creio que Salazar tivesse alguma coisa que ver com o crime. Alberto Franco Nogueira, ministro dos Estrangeiros ao tempo, contava-me, anos depois, que nunca tinha visto ninguém tão aflito como o director da PIDE, major Silva Pais, quando lhe pediu conselho sobre como havia de comunicar a Salazar o assassinato. Salazar não mandava assassinar opositores.

De resto, o general Delgado, como demonstram os livros publicados sobre os emigrados em Argel, era um factor de divisão entre os oposicionistas residentes – republicanos do Reviralho, soaristas e comunistas; era, acima de tudo, um elemento de divisão das várias famílias da oposição. Só depois de morto se tornou um símbolo unitário.

A propósito, na nota biográfica de Humberto Delgado, no suplemento ao Dicionário de História de Portugal, coordenado por António Barreto e Maria Filomena Mónica, escreve David Lander Raby, sobre os últimos tempos de Humberto Delgado:

“De volta do Brasil, acabou por aceitar a colaboração que permitiu a formação em Dezembro de 1962 da Frente Patriótica de Libertação Portuguesa, e finalmente chegou a Argel (onde a Frente tinha o apoio do Presidente Ben Bella) em Junho de 1964. Mas em menos de dois meses estava praticamente de relações cortadas com a maioria dos membros da Junta e acabou por separar-se completamente da FPLN em Outubro, criando a sua própria “Frente Portuguesa de Libertação Nacional”, que nunca chegou a ter uma existência real. O rompimento com a FPLN foi o princípio do fim para HD; não era possível reconciliar a sua vontade de acção armada a curto prazo e a perspectiva cautelosa da maioria da oposição. Cada vez mais abandonado, HD caiu na armadilha montada pela PIDE, entrando em Espanha com a sua secretária brasileira, Arajaryr de Campos, acreditando que ia encontrar-se na fronteira com oficiais do exército português dispostos a levantarem-se contra o regime.”

A partir daqui, surgem narrativas fantasiosas ou, pelo menos, pouco verosímeis, que avançam com uma cumplicidade ou mesmo com um complot entre o “bando de Argel” e a PIDE para liquidar o “general sem medo”.

Do julgamento do caso em Portugal, e mesmo das narrativas hostis, infere-se sempre o desconhecimento de Salazar da “operação Outono”. A versão que sempre ouvi de quem sabia alguma coisa por ter conversado com elementos envolvidos no crime, foi que Delgado, convencido que se ia encontrar com militares oposicionistas, quis reagir, quando se deu conta que caíra na armadilha da PIDE. Ia armado e puxou da pistola ou do revólver, mas Casimiro Monteiro foi mais rápido e matou-o. Também no filme realizado por Bruno de Almeida e Frederico Delgado Rosa, Operação Outono, há uma implícita absolvição de Salazar quando, numa discussão de responsáveis da PIDE, surge a pergunta: “E como vamos dizer ao Doutor Salazar?” – “Dizemos-lhe que foram os comunistas!”

Não foram, embora talvez não tivessem ficado particularmente consternados. Mas isso é outra história.

https://observador.pt/opiniao/outra-historia/

domingo, 22 de junho de 2025

Luís Francisco - Quantos morreram na Guerra Colonial?


* Luís Francisco


Fotografia de uma condecoração póstuma (habitual no dia 10 Junho) de militares mortos na GUERRA COLONIAL

Sempre que ouvia a estimativa de 8.000 mortes portuguesas na Guerra do Ultramar, Pedro Marquês de Sousa, tenente-coronel do Exército, sentia-se desconfortável. Quase cinco décadas após o fim do período colonialista, Portugal continuava a não ter, sequer, um balanço fiável das vítimas mortais do conflito que desgastou o País durante mais de uma década e esteve, em última análise, na origem do movimento militar que depôs o regime do Estado Novo, em 1974. Depois de muito trabalho de investigação, o investigador e também professor na Academia Militar chegou a números bem mais pesados: morreram quase 10.500 militares portugueses em Angola, Guiné e Moçambique. No total, incluindo as baixas dos movimentos independentistas e entre a população civil, a guerra em África fez quase 45 mil mortos e 53 mil feridos. "E podem ser mais", assegura o autor do livro Os Números da Guerra de África, publicado pela Guerra & Paz. Uma obra que compila de forma exaustiva números durante tanto tempo esquecidos ou varridos para debaixo do tapete da burocracia. "Enquanto professor na Academia Militar, sempre incentivei os meus alunos a debruçarem-se sobre a Guerra Colonial. Eu próprio senti a necessidade de mergulhar no assunto. A estimativa de 8.000 mortes era injusta; não cobria, sequer, as baixas militares portuguesas, muito menos as perdas entre os movimentos independentistas e na população civil. "Pelas contas de Pedro Marquês de Sousa morreram 10.425 militares portugueses, 6.000 civis e 28.226 elementos dos movimentos separatistas. As estimativas de feridos graves apontam para 31.300 na tropa lusitana, 12.200 entre os civis e 9.450 nos movimentos de libertação.Estes números não são – nem podiam ser – definitivos, mas são uma base de trabalho fiável, construída com a consulta dos documentos da época disponibilizados pelas hierarquias militares – embora na Marinha haja ainda documentos classificados, a que os investigadores não têm acesso. É inevitável a perplexidade: como é que nunca tinha sido feito um levantamento rigoroso das baixas na Guerra de África? "Eu já não estou no ativo e não passei pela guerra – tenho 53 anos –, mas como militar há um embaraço… A sociedade portuguesa não conhece bem este conflito. Talvez não tenha ainda decorrido tempo suficiente para se criar um distanciamento que permita a abordagem científica do tema."A força dos números

A guerra em África foi o maior conflito da História recente de Portugal e teve um peso impressionante sobre o desenvolvimento do País nas décadas de 60 e 70 – a compra de corvetas para a Marinha implicou pagamentos até 1981. Na fase final do conflito, estavam destacados 163 mil militares no Ultramar, um esforço de guerra nunca visto num País que na altura tinha cerca de 8,5 milhões de habitantes. Pedro Marquês de Sousa faz a radiografia da organização, da logística, das atividades e das baixas desta imensa força militar. Mas analisa também o efeito que a guerra teve na metrópole, nas contas públicas (mais de 3% do Orçamento era encaminhado para o esforço militar e em 1973 o conflito absorveu cerca de 3,5 mil milhões de euros, feita a conversão para a moeda e a realidade atual), na sociedade portuguesa. Até em aspetos que pouco pareceriam ter a ver com o conflito: os casamentos de homens com menos de 20 anos, por exemplo, duplicaram após o início da guerra, em Angola, corria o ano 1961. A ideia era evitar o destacamento para África por ter uma família para sustentar, mas não funcionou.Em 1962, mais de 15% dos incorporados eram analfabetos. Um número que caiu para menos de metade no fim da década, mas com efeitos perversos, do ponto de vista do Estado Novo. Explica o autor: "À medida que o conflito se foi prolongando, os oficiais milicianos [o serviço militar obrigatório era responsável por 90% do contingente das unidades regulares] já tinham cultura política, absorvida nas universidades numa década muito ativa a esse nível. Ora pôr

estes homens a liderar unidades de combate numa guerra em que não acreditavam não podia dar bom resultado…"

230 mil "fugiram" à guerra

E estes eram os que iam para a guerra. Porque um dos dados que mais surpreenderam o investigador foi mesmo o de faltosos e desertores. O regime escondeu durante muito tempo a verdadeira dimensão desta recusa de pegar em armas, que explica também a dimensão avassaladora de outro fenómeno que marcou a demografia portuguesa neste período: a emigração (triplicou no período da guerra). Na década de 70, um em cada cinco jovens (20%) que deveriam apresentar-se à inspeção militar já não se encontravam em Portugal. Registaram-se 202 mil faltosos, a que se juntam 20 mil refratários e cerca de 9.000 desertores – ou seja, quase um quarto de milhão de jovens portugueses (230 mil) "fugiram" à tropa.Nos teatros de operações, e apesar do recrutamento maciço, havia, ainda assim, poucos soldados, na maioria mal treinados, mal armados e equipados, sujeitos a condições miseráveis e a uma máquina de guerra obsoleta e incompetente. "Os militares sentiram na pele a incapacidade do poder político para gerir a guerra. Não é por acaso que foram eles a depor o regime, aliás como já tinha acontecido depois da I Guerra Mundial, embora aí num sentido político completamente inverso", analisa

Pedro Marquês de Sousa. O autor adianta que fica ainda por fazer o trabalho de comparar a guerra de África com outros conflitos similares, envolvendo tropa regular de um lado e forças de guerrilha do outro. Como o do Vietname, por exemplo.Mas há números que nos dão algumas pistas também nessa vertente. Em Angola, Guiné e Moçambique havia 5 soldados portugueses para cada combatente dos movimentos de libertação. No Vietname (EUA vs. guerrilha norte-vietnamita), essa relação chegou a ser de 9 para 1, na Argélia (França vs. independentistas argelinos) era de 50 para 1. E em nenhum destes conflitos as forças regulares levaram a melhor. Mesmo recorrendo a meios de ética militar muito para lá do duvidoso. "Não se falava muito nisso, mas quando se perguntava se as tropas portuguesas usaram napalm nos teatros de guerra em África, a resposta era normalmente ‘nim’…", salienta Pedro Marquês de Sousa. "Neste livro, pelos números apresentados, fica bem evidente que se utilizou. Muito."

Fonte: Luís Francisco, artigo em 10/10/2021 (Visão)

https://www.sabado.pt/vida/detalhe/quantos-morreram-na-guerra-colonial

domingo, 16 de março de 2025

Artur Queiroz - Angola | A ÁGUA QUE MATOU ZITA


domingo, 16 de março de 2025

<> Artur Queiroz*, Luanda ---

Oficialmente hoje é o dia da expansão da Luta Armada de Libertação Nacional. Para mim é o dia da Grande Insurreição Popular que varreu o Norte de Angola, de Sacandica aos Dembos. Na minha terra só existia escola primária e tive de ir estudar para a cidade do Uíje, no ensino secundário. Regime de internato. Tínhamos um líder, o Beto Martins, ao qual chamávamos, exactamente por ser um líder, Beto Lumumba. 

Naquele ano tínhamos exame e por isso não fomos a casa nas férias da Páscoa. Aulas de reforço, para não fazermos má figura e o colégio não ter “chumbos” no currículo.

Arlindo era o aluno mais velho do internato, 17 anos. Esteve vários anos sem estudar e retomou os estudos quando os pais puderam pagar-lhe o internato. 

No ano lectivo de 1960/1961 apareceu no internato um menino que ainda andava no ensino primário. Chamava-se Jorge Gonçalves e vinha de Sacandica, onde o pai era comerciante. Adoptado como nosso mascote. Todos o protegíamos. Muitos anos mais tarde ele foi presidente do Sporting Clube de Portugal. As voltas que o mundo dá!

No internato tínhamos um sapateiro que remendava os nossos sapatos. Veio do Cuanza Norte e o seu sonho era chamar a esposa e filhos À noite fazia de guarda. Aos fins de semana saltávamos a janela e íamos para as farras do Candombe. O guarda era conivente com os fugitivos. Um amigo do peito.

Lá na farra dançávamos a noite inteira. As meninas do bairro eram gentis, bonitas e bailarinas elegantes. Uma delas, por feliz coincidência, arranjou trabalho como ajudante da Candidinha, senhora que cozinhava para os alunos internos.

No dia 15 de Março, os guerreiros da UPA atacaram as fazendas do norte e mataram os brancos. Mas também trabalhadores “bailundos”. Nas pequenas vilas isoladas também atacaram com canhangulos, catanas e paus. Avançavam gritando maza, maza, maza quando os colonos disparavam as suas caçadeiras e carabinas sobre os atacantes. Quem aderiu à insurreição recebeu uma muxinga e um pau. Usando aqueles amuletos ficavam invulneráveis. As balas dos brancos eram água!

Essa água matou o sapateiro e guarda do internato. Há quem estivesse na cidade do Uíje e não visse nada. Eu vi mas preferia não ter visto. A água que matou o sapateiro também me matou. 

A Candidinha, no dia 16 de Março, gritava desalmadamente. Fomos saber o que tinha acontecido. A água matou Zita, a menina do Candombe, bailarina, alegre, gentil. A água naquele dia matou centenas de negros nas ruas da cidade do Uíje. Em frente ao internato havia um descampado. Estava juncado de cadáveres. Gente que levava as imbambas. Iam fugir da água. Há quem não tivesse visto nada, vivendo no Uíje. Eu vi. Antes não visse.

O Beto Martins é mestiço. Vivia com os padrinhos brancos. Durante uma semana desapareceu. A água matou-o? Não. Ficou aterrorizado com a fúria assassina das milícias dos colonos. O nosso líder ficou com medo da água. Só queria sair dali. Em Maio saímos todos. Fomos em viaturas militares até à Base Aérea do Negage e apanhámos um avião de carga, o Nordatlas. Em Luanda instalaram-nos num centro de refugiados e retomamos as aulas no Liceu Salvador Correia. Aprovamos todos nos exames!

A água do 15 de Março 1961, data da Grande Insurreição Popular no Norte de Angola matou milhares de inocentes. Pôs milhões em fuga para o Congo. 

Há quem não tivesse visto nada. Eu vi. Antes não visse. 

Hoje é o dia em que me lembro da água que matou Zita. A água que nos matou a juventude.

* Jornalista

at março 16, 2025 

https://paginaglobal.blogspot.com/2025/03/angola-agua-que-matou-zita-artur-queiroz.html

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Entrevista a João Paulo Guerra



Cultura

24 de julho 2016 - 16:15

O segundo romance do jornalista e escritor João Paulo Guerra conta uma história ficcional baseada numa doença real, a Perturbação Pós-Stresse Traumático. É uma doença crónica e contagiosa, que só foi reconhecida em Portugal em 1995, vinte anos depois do fim da guerra colonial. Entrevista de Joana Louçã.

porJoana Louçã

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"Era uma vez uma mulher que viu um filho partir para a guerra. E quando o filho regressou, a mãe não era a mesma mulher e o próprio filho era outro, embora não o soubesse." Assim começa o segundo livro de João Paulo Guerra, que serviu de mote a esta entrevista, que pode ser vista, parcialmente, em vídeo aqui e lida na íntegra em baixo.

Quando a Perturbação Pós-Stresse Traumático foi diagnosticada, chamaram-lhe “corações irritáveis”, nome que deu origem ao título do seu romance. De onde surgiu a ideia deste livro?

A ideia de escrever este livro surgiu a partir de trabalho que fiz como jornalista. Fiz, nos anos 90, uma série de entrevistas em que consegui entrevistar stressados de guerra que tinham muita relutância em falar, eu também não queria violentar a sua privacidade, queria respeitar a sua privacidade. Mas através de contactos com os médicos que os tratavam, escolhemos alguns stressados que podiam falar e aos quais até faria bem da sua doença.

Tive longas conversas com eles, para perceber bem os mecanismos, como é que funcionava, como é que tinham adquirido aqueles sintomas, porque de alguma forma tinha assistido a manifestações primárias daquela doença no tempo em que fiz o serviço militar, em Moçambique. Assisti a cenas que me mostraram que as pessoas se transformam, se transtornam, fica perturbadíssimas. Cenas de pancadaria por coisa nenhuma. Num café em Vila Cabral [atualmente chamada Lichinga] assisti a uma cena de extrema violência com soldados a agredirem-se, a atingirem-se uns aos outros com latas de cerveja que rebentavam e explodiam, uma coisa de uma violência extrema depois saíam todos amigos dali, era só deitar cá para fora qualquer coisa que tinham muito reprimida dentro deles. 

Num café em Vila Cabral assisti a uma cena de extrema violência com soldados a agredirem-se e depois saíam todos amigos dali, era só deitar cá para fora qualquer coisa que tinham muito reprimida dentro deles. 

Tinha esses vislumbres do tempo em que estive em Moçambique, no tempo da guerra colonial, e interessei-me mais ainda por aqueles casos e fiz uma série de entrevistas e de reportagens, algumas das quais dolorosas para os entrevistados e para mim, e provavelmente mais perturbadoras mais para mim do que para eles. Na altura, trabalhava na TSF e fiz uma grande emissão num dia 25 de abril, a TSF tinha adotado o lema para aquele dia de comemorações do 25 de abril o facto de fazer 20 anos de ter acabado aquela guerra e eu perturbava aquela paz, dizendo que a guerra ainda não acabou.

Começava a minha parte naquele programa com uma conversa, e uma montagem, com stressados de guerra, clínicos, terapeutas, pessoas que conviviam com eles, os seus pesadelos. Foi aí que me interessou. E com esta bagagem que tinha, os conhecimentos que tinha, até de pessoas, de escritos, assisti a muitas palestras dos psiquiatras que se dedicaram à doença e de associações que se formaram, como a Apoiar, uma associação de apoio aos stressados de guerra. Assisti a muitas conferências e debates promovidos por eles e tinha muito conhecimento disto. Achei que o conhecimento que eu tinha merecia que eu dedicasse alguma coisa a esta causa, que é falar deste problema, é uma sobrevivência de uma guerra que todas a gente pensa que acabou, mas para estes homens não acabou, continua e entretanto se transmite às mulheres e aos filhos.

A primeira vez que o stress de guerra foi identificado foi no século XIX. Em que circunstâncias se deu o primeiro diagnóstico médico da doença em Portugal?

Em Portugal a doença foi identificada muito tardiamente. Durante a guerra evitou-se sempre classificar estes homens, identificar que doença tinham, eram simplesmente internados no hospital militar. Em Luanda, no hospital, os casos mais graves, que se manifestavam de forma mais exuberante, eram “tratados” com choques elétricos. Foi sempre tentado não levantar ondas com esta doença.

A lei que reconhece a doença do stress de guerra só foi publicada em Portugal em 1995 e tem tantos alçapões, que, um homem que sofra do stress de guerra, desde que se queixa até ao momento em que começa a ser tratado, terão passados 15 anos.

Foi através dos próprios doentes que o Estado foi obrigado a reconhecer a doença. Levou muito tempo, a lei que reconhece a doença do stress de guerra, que já era reconhecida pela Organização Mundial de Saúde e que já era reconhecida nos Estados Unidos desde o século XIX, só foi publicada em Portugal em 1995. E foi publicada com tantos alçapões, com tantas dificuldades que, aplicando aquela lei, um homem que sofra do stress de guerra, desde que se queixa até ao momento em que começa a ser tratado, terão passados 15 anos.

É preciso que ele vá buscar uma certidão de onde esteve e que tipo de serviço militar prestou, depois que vá ao médico de família, depois que vá ao médico militar, depois que vá a uma Junta que nunca mais o chama e com isto passam-se 14, 15 anos. Foi a revelação deste prazo enorme e desumano que tive conhecimento numa sessão de divulgação desta doença e sobre a situação destes doentes, foi uma das coisas que me motivou para ajudar, de alguma forma. E a forma que tenho de ajudar os outros é escrevendo.

A experiência de viver uma guerra, no caso do seu livro a guerra colonial, é algo definidor da vida das pessoas que o experienciam. À pergunta se o marido “fez” a guerra (e note-se a utilização do verbo fazer e não “estar”), a mulher do personagem responde “não, a guerra é que o fez a ele”. A guerra passa a ser “a guerra infinita”, “a guerra dele não acabou” como refere no livro.

Uma personagem diz “esta doença é uma bomba ao retardador. Por vezes manifesta-se ou degenera alguns anos após os acontecimentos traumatizantes. Também acontece que os traumas ficam adormecidos e, por esta ou por aquela razão, despertam.” O que pode levar a este despertar e, uma vez despertos os traumas, as pessoas conseguem levar uma vida independente, quotidiana?

Em primeiro lugar, quero falar sobre a questão se ele fez a guerra ou se a guerra é que o fez a ele. Quando comecei a escrever este livro, achei que já se tinham escrito muitos romances sobre a guerra colonial. O Lobo Antunes, o João Aguiar, muita gente escreveu, as pessoas que passaram por lá deixaram os seus testemunhos, etc. E eu pensei que um dos meus objetivos era não escrever sobre os homens que fizeram a guerra, o sofrimento, o que eles passam. Não, pensei, não vou escrever um livro sobre os homens que fizeram a guerra, vou escrever sobre o que a guerra fez aos homens, que é o que é este livro, o que é que a guerra fez a estes homens, a estes, e a outros. 

E eu pensei que um dos meus objetivos era não escrever sobre os homens que fizeram a guerra, o sofrimento, o que eles passam. Não, pensei, vou escrever sobre o que a guerra fez aos homens, que é o que é este livro, o que é que a guerra fez a estes homens. 

Porque uma das características desta doença é que há um número estimado de doentes, que é grande, são dezenas de milhares de doentes portugueses em resultado da sua participação na guerra colonial. Entretanto, muitos já morreram, mas o número ainda é muito alto. Mas a maior parte deles nem tem consciência que tem a doença. São pessoas de quem a família diz, “ah, ele quando voltou da guerra veio diferente, passou a ser outra pessoa, tornou-se mais irascível, tem menos paciência para mim, bebe mais, dorme menos”. As pessoas começam a referir os sintomas como uma coisa que lhe aconteceu e não como uma doença que ele tem e que se pode tratar ou, pelo menos, que se pode acompanhar e que se pode minimizar. É isso que a medicina faz, porque isto é uma doença e nesse caso deve ser a medicina que trata dela, nesse caso, a medicina mental, a saúde mental que deve tratar estes doentes.

Muitas destas pessoas começaram a dar por isso, porque tinham reações despropositadas a alguns acontecimentos, bate uma porta e atiram-se para o chão, vão na rua e ao estrondo de um escape de um automóvel atiram-se para o chão, aterrorizam-se. Começaram a perceber que isto não era um susto que apanharam uma vez ou outra, é uma coisa sistemática, que está com eles, que reside neles, na cabeça deles. Alguns destes homens começaram a procurar auxílio médico.

Em Portugal, os primeiros foram os primeiros a ser encaminhados para o serviço de psicoterapia temperamental do Hospital Júlio de Matos, com o Dr. Afonso de Albuquerque e a Dra. Fanny Lopes e muitos outros, mas foram estes os primeiros. Ele diagnosticou rapidamente o que tinham porque quando o médico tenta fazer o diagnóstico, não vai só perguntar “de que é que se queixa?”, “queixo-me que quando bate uma porta, eu atiro-me para o chão”. E o médico pergunta “ah, sim, e por onde é que você andou ao longo da sua vida?”. E vai encontrar que esteve na guerra, e que esteve debaixo de fogo, por exemplo, e que ouviu explosões de minas, ou de obuses, ou de outra coisa qualquer. E o médico vai identificar a causa e o que são os efeitos que estão a acontecer.

Foi isto que foi acontecendo em Portugal e depois uns combatentes diziam a outros, há muitas associações de combatentes e muita proximidade. Aquilo foi uma experiência tão violenta na vida das pessoas que elas procuram-se muito umas às outras, é umas com as outras que desabafam, então estas que têm marcas na sua vida, como é este caso. E começaram a falar uns aos outros, houve uma altura em que havia já 200 doentes a receber tratamento médico no Hospital Júlio de Matos em Lisboa.

Muitas destas pessoas começaram notar que tinham reações despropositadas a alguns acontecimentos, bate uma porta e atiram-se para o chão, começaram a perceber que isto é uma coisa sistemática, que está com eles, que reside neles, na cabeça deles. Alguns destes homens começaram a procurar auxílio médico.

Um dos grandes problemas que se deparou é que isto não saía de Lisboa, do Hospital Júlio de Matos, até que esta lei de 1995 criou apoios para os doentes, ligados aos Centros de Saúde, mas há um número ínfimo de serviços a funcionar e, se alguém experimentar ir a um Centro de Saúde e queixar-se, o mais certo é que não havia nenhum serviço organizado para o acolher e o tratar. 

“Na guerra que estes homens travam, os inimigos são agora eles próprios”, afirma uma personagem no livro. “Eles sofrem porque são humanos. A sua humanidade não suporta os horrores que viram”, esclarece outra. O que é que alguém com esta doença pode fazer, que tipo de acompanhamento há?

O tratamento, tal como com outras doenças mentais, é um tratamento de grande persistência, entrar no mais íntimo que as pessoas têm, as suas memórias e recordações, más ou boas, o seu temperamento, a sua maneira de reagir às coisas, de estar com os outros, tudo isto, e tentar corrigir o que está mal por motivo da doença que o doente tem. Claro, também é tratado com meios químicos e com sessões de tratamento de psicoterapia de grupo. Há casos em que é útil que eles falem, há outros em que falar os perturba, portanto, o médico diagnostica o que é melhor para ele e segue esse tratamento.

Ela “não soube, mas a partir daquele dia começou a interiorizar, sem o ter vivido, o estrondo das explosões e o silêncio das esperas, o fogo das armas e o terror de matar, tudo isso e mais todos os delírios e alucinações de uma mente perturbada e de um coração irritável, tudo isso ela veio a assumi-lo com efeitos devastadores”. Os investigadores concluíram que o stress de guerra não só é crónico, como contagioso. Como se dá esse contágio?

Ligando estas duas informações, que o tratamento existe na lei, mas que é muito demorado e que entretanto as mulheres e os filhos vão ficando também contagiados, isto torna esta doença quase uma epidemia.

Isso foi uma das coisas que aprendi frequentando sessões de divulgação sobre a doença e os doentes, concretamente esse foi uma sessão da associação Apoiar, em que uma psicóloga deu esses dados, que na altura eram uma novidade, que é que a doença é crónica e é contagiosa. No caso, inicialmente só havia doentes homens, porque esta guerra foi feita por homens. Naquele tempo a incorporação militar era de homens, as mulheres que participavam na guerra eram voluntárias e participavam como enfermeiras, como enfermeiras paraquedistas, etc. Tinham funções subsidiárias, não propriamente em combate. Portanto, os stressados de guerra conhecidos são homens. Stressados dessa guerra, porque agora já há stressados portugueses das guerras do Afeganistão, e do Kosovo, estamos sempre metidos em todas essas coisas.

Ligando estas duas informações, que o tratamento existe na lei, mas que nunca mais acontece, é muito demorado, que é uma questão de sorte ser tratado, dar com o médico certo e com o tratamento certo. Sendo que isto demora este tempo todo e que entretanto as mulheres e os filhos vão ficando também contagiados, isto torna esta doença quase uma epidemia. Porque não são só uma alguns dos antigos combatentes que apresentam sintomas desta doenças, mas são já as famílias que começam a manifestar os sintomas e a receber tratamento e a viverem com isto.

“O país estava em guerra, uma guerra civil não declarada. Uma guerra quase desconhecida e que o país institucional, o país comodamente sentado, acomodado, amodorrado, conhecia mas ignorava.” Em Portugal, há alguma estimativa da dimensão da doença? 

Os números variam muito, porque não há, verdadeiramente, estatísticas, há estimativas. A primeira que houve foi porque havia estatísticas nos EUA sobre a guerra do Vietname e fez-se uma comparação. Quantos homens estiveram mobilizados para a guerra do Vietname, quantos soldados militares estiveram mobilizados para a guerra do Vietname e quantos estiveram mobilizados para a guerra de Portugal em Angola, Guiné e Moçambique. Em função do numero de estressados que existiam nos EUA, estimou-se um numero que poderia haver para os stressados que haveria em Portugal. E estamos só a falar de Portugal, não estamos a falar do outro lado. A Portugal, provavelmente, já não lhe competia ter atenção aos doentes do outro lado, mas deveria ter atenção aos africanos que combateram no exército português e que eventualmente poderão também sofrer da doença. 

Fazendo a comparação com o número de stressados que havia nos EUA por causa da guerra do Vietname, o número em Portugal seria cerca de 140, 150 mil. Nunca se chegou próximo de identificar esse número de casos.

Os números variam muito, são muito incertos. Houve uma altura em que se falava em 140, 150 mil. Em Portugal tinham sido mobilizados para as três guerras coloniais perto de um milhão de jovens portugueses, ou militares de carreira. Fazendo a comparação com o número de stressados que havia nos EUA por causa da guerra do Vietname, o número em Portugal seria esse. Nunca se chegou próximo de identificar esse número de casos.

O número de casos identificado foi sempre variando, começou a haver mais pessoas a irem ao médico e a queixarem-se desta doença. Isto começou a permitir outras extrapolações para outros números em Portugal. Os últimos números que ouvi são bastante diferentes, um anda à volta dos cem mil, outro anda à volta dos cinquenta mil, mas são todos estimativas, não são estatísticas.

A que tratamento tem acesso quem vive fora de Lisboa?

Quem vive fora de Lisboa tem que vir a Lisboa, se pensar em alguém que vive numa pequena terriola no interior que tenha um Centro de Saúde e que vá lá e que se queixe que não dorme, que diga que acorda com pesadelos, “mas não dorme porquê, tem pesadelos porquê?”. “Ah, estive na guerra”… se lá chegar! Porque não há meios, porque os meios não foram criados. A lei que reconhece a doença deveria ter sido acompanhada pela criação de uma estrutura que seguisse a par do SNS e que permitisse que o SNS atendesse estes doentes, com especialistas.

Porque não há meios, porque os meios não foram criados. A lei que reconhece a doença deveria ter sido acompanhada pela criação de uma estrutura que seguisse a par do SNS e que permitisse que o SNS atendesse estes doentes, com especialistas.

 

Numa sessão em que estive recentemente da Apoiar, em que ouvi falar não só ex militares stressados, mas mulheres stressadas e filhos stressados pela guerra que os pais fizeram, nessa sessão, foi dito por algumas pessoas que chegam a ser tratadas com algum desprezo, as pessoas que se vão queixar a um Centro de Saúde, a dizer “então, ainda não me deram resposta”, “lá vem este”… as pessoas ouvem, lá por estarem perturbadas não deixam de ouvir os comentários depreciativos que fazem a seu respeito. Dizerem isto não só não contribui para a melhoria do seu estado de saúde, como com certeza contribui para que piore.

As pessoas contagiadas, mas que não estiveram na guerra também têm acesso ao tratamento?

Sim, se os ex combatentes da sua família tiverem a ser acompanhados. Mas depois há coisas quase perversas. Se uma mulher apresentar sintomas do stress de guerra e o marido estiver a ser acompanhado, ela tem direito ao acompanhamento. Mas se o marido morrer, a mulher perde o direito ao acompanhamento. Porque o direito não é um direito dela, é um direito do marido, extensivo a ela. E, portanto, morrendo o marido, acaba-se o direito a que ela tem por tabela, não por direito próprio.

No livro há a referência a um jornalista, Carlos Gualdino, é uma representação de si próprio? 

Não, pode ter algumas referências, por exemplo, estar com frequência desempregado, fui despedido tantas vezes ao longo da vida profissional como jornalista! Pode ter alguma coisa de muitos jornalistas que conheci, e conheci muitos. Quando comecei a trabalhar no Rádio Club Português, trabalhava com pessoas que eram os seus fundadores, das primeiras pessoas que falaram ao microfone, estavam ali, trabalhavam comigo. Eu tinha 20 anos e eles 50, 60.

Acho que é bom escrever-se com lágrimas nos olhos, com sentimentos, porque as pessoas não são máquinas, e o código deontológico não pode ser um espartilho para as pessoas deixarem de ter sentimentos e passarem a ser autómatos. Eu sofro com o sofrimento dos outros e ponho esse sofrimento naquilo que escrevo.

 

Nela posso estar eu e podem estar muitos outros jornalistas que conheço e que conheci ao longo da minha vida profissional. Sobre a personagem, usei a frase e atribuí-a a Batista Bastos, o autor, dizendo que “escreveu uma reportagem com lágrimas nos olhos”. Porque acho que é bom escrever-se com lágrimas nos olhos, com sentimentos, porque as pessoas não são máquinas, e o código deontológico não pode ser um espartilho para as pessoas deixarem de ter sentimentos e passarem a ser autómatos, amorfos e indiferentes ao sentimentos dos outros. Não, eu sofro com o sofrimento dos outros e ponho esse sofrimento naquilo que escrevo.

Também fez o serviço militar em Moçambique, o que o levou a focar-se nesta temática?

Não foi tanto por mim, por ter estado na guerra, que até tive uma guerra um bocado “exótica”, a saltar de uns lados para os outros, desde o Grupo Recreativo das Forças Armadas, coisas assim. Não foi tanto por isso, mas porque acho que foi o acontecimento mais importante da segunda metade do século XX em Portugal, para Portugal. A guerra e, depois, o fim da guerra. Com a consequência de o fim da guerra ter trazido consigo a democracia. Para acabar com a guerra, foi preciso implantar a democracia em Portugal.

Estes acontecimentos conjugados, a teimosia da guerra, que foi levar um milhão de jovens para uma guerra que os profissionais chegaram à conclusão que não era possível vencer, que militarmente não tinha solução, e com isto morreram milhares de pessoas, foi um acontecimento muito importante na história de Portugal, que depois se resolveu, quando os próprios militares puseram fim à guerra e puseram fim à ditadura. Isso é um acontecimento importantíssimo em Portugal e eu tenho sempre muito gosto em ser testemunha, naquilo que digo, faço e escrevo, foi um acontecimento que tive a felicidade de viver.


Sobre o/a autor(a)

Joana Louçã

Doutorada em sociologia da infância

https://www.esquerda.net/artigo/entrevista-joao-paulo-guerra-sobre-o-livro-coracoes-irritaveis/43780