Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
domingo, 16 de março de 2025
Artur Queiroz - Angola | A ÁGUA QUE MATOU ZITA
quinta-feira, 11 de janeiro de 2024
Nuno Gomes dos Santos - Ruy Mingas: o bom camarada
* Nuno Gomes dos Santos
Ruy Mingas foi desportista,
professor, músico, político e diplomata
Um dia apareceu no programa
Zip-Zip (de Carlos Cruz, Raul Solnado, Fialho Gouveia e José Nuno Martins,
RTP, 1969), que foi inovador na televisão portuguesa e revelou talentos
(Manuel Freire, Francisco Fanhais, José Manuel Osório, Introito, Pedro Barroso
e José Barata Moura, por exemplo, juntando-lhes Tonicha ou Lenita Gentil)
da canção que por cá se praticava. Ruy Mingas estava lá, atento ao conselho
que Carlos «Liceu» Vieira Dias, seu tio e grande percursor da nova canção angolana,
lhe dera: «cultiva o teu ouvido musical.» Grande êxito e, desde logo, uma
carreira de cantor e grande divulgador da canção de raízes angolanas, que
caminhavam de braço dado com ideias políticas progressistas e empenhadas
na denúncia do colonialismo e na luta do povo angolano, no seu caso a
luta do MPLA.
Mingas musicou e interpretou,
num exemplo que sintetiza o que se acaba de escrever, o poema Monangambé (em
kimbundu, «filho de escravo», que trabalha no duro e leva «porrada se refilar»),
de António Jacinto («Naquela roça grande / não tem chuva / é o suor do meu
rosto / que rega as plantações (…). Quem faz o branco prosperar? Monangambé!»).
Pode dizer-se que Ruy Mingas, enquanto
músico, escreveu as suas próprias canções e musicou poemas de grandes poetas
angolanos, como Agostinho Neto e Viriato da Cuz, para além do já citado António
Jacinto. O que culminou na canção heróica que compôs com base num poema de
Manuel Rui Monteiro – Angola Avante! – e que foi escolhida
como Hino da Angola.
Sempre muito ligado a Portugal,
Mingas deu aulas de Educação Física na Escola D. António da Costa, em Almada.
Era, por alturas do 25 de Abril, o principal membro do corpo diplomático
do MPLA, desempenhando importante papel nas negociações pela independência
angolana com os oficiais do MFA.
Em Angola foi secretário de Estado
para a Educação Física e Desporto, com estatuto de ministro, e acabou por
ser ministro durante dez anos, após os quais foi nomeado embaixador de Angola
em Portugal, cargo que exerceu entre 1989 e 1995 e que esteve na origem da
condecoração – Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique – com que foi agraciado.
Em 2014 a Sociedade Portuguesa
de Autores distinguiu-o com o Prémio Autor Internacional.
Durante as suas andanças pelo
nosso país, longe ainda de sonhar atingir o topo da sua carreira profissional,
que na música quer na política, o Ruy Mingas era um amigo divertido, talentoso,
dono de uma voz profunda e de uma não menos profunda determinação em lutar
pelos seus ideais.
No Zip-Zip e nos tempos que se lhe
seguiram, tocando e cantando sozinho ou, como no seu segundo álbum, por
exemplo, acompanhado pelo seu irmão André, pelo percussionista francês Daniel
Louis, com o brasileiro Marcos Resende ao piano e a direcção musical de
Thilo Krasmann, era um foco de alegria e boa disposição, excelente conversador
e amigo do seu amigo.
Digamos que Ruy Mingas era,
também na intimidade, o que sempre foi na vida, em todas as acepções da palavra:
um bom camarada!
https://avante.pt/pt/2615/argumentos/174261/Ruy-Mingas-o-bom-camarada.htm
sexta-feira, 5 de janeiro de 2024
Rui Mingas (1939 / 2024)
terça-feira, 2 de janeiro de 2024
Artur Queiroz - Quando For Grande Quero Ser Historiador
sábado, 21 de outubro de 2023
Daniel Oliveira - Para Gaza, rapidamente e em força!
domingo, 10 de maio de 2020
Agostinho Neto - Meia noite na quitanda
- Cem reis de jindungo
Sá Domingas
O sol
entrega Sá Domingas à luanas quitandas dos musseques
E a quitandeira esperando
- Cinquenta reis de tomate
três tostões de castanha de cajú
Um doce de coco
Sá Domingas
Ela vende na quitanda à meia noite
que o filho
está na estrada
precisa de cem mil reis
para pagar o imposto
O sol deixa Sá Domingas
na quitanda
e ela deixa o luar
Um tostão
dois tostôes
três tostões
que o coração de Sá Domingas
sofre mais do que o corpo na quitanda
terça-feira, 16 de julho de 2019
Adrienne Savazoni: Mito e luta na poesia do angolano N’dualu Polo
Um poeta é um grande poeta quando consegue ultrapassar a sua realidade local, para falar do universal e do que pertence a todos. Nesse sentido, não é difícil se enxergar nas poesias de Esperança no Musseque – Poemas sobre Angola, primeiro livro de N’dualu Polo, pseudônimo de Fontes Nuno Eduardo Paulo, poeta angolano, biólogo, radicado no Brasil.
Por Adrienne Kátia Savazoni Morelato*
quinta-feira, 4 de julho de 2019
Claudio Daniel: A poesia angolana hoje
Dia: 04/07/2019 às 01:38:10
Por Claudio Daniel*
Apresentamos aqui um pequeno quadro desse rico florilégio, com poemas de cinco autores significativos das letras angolanas: Paula Tavares, Maria Alexandre Dáskalos, Lopito Feijoó, Abreu Paxe, José Luís Mendonça e Jorge Arrimar.
Cresce comigo o boi com que me vão trocar
Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa
Filha de Tembo
organizo o milho
Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...
Sou do clã do boi –
Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo de deserto.
A falta de limite...
Da mistura do boi e da árvore
a efervescencia
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar
Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes.
(Do livro Ritos de Passagem, 1985)
O lago da lua
No lago branco da lua
lavei meu primeiro sangue
Ao lago branco da lua
voltaria cada mês
para lavar
meu sangue eterno
a cada lua
No lago branco da lua
misturei meu sangue
e barro branco
e fiz a caneca
onde bebo
a água amarga da minha sede sem fim
o mel dos dias claros
Neste lago deposito
minha reserva de sonhos para tomar
* * *
Aquela mulher que rasga a noite
com o seu canto de espera
não canta
Abre a boca
e solta os pássaros
que lhe povoam a garganta
* Ana Paula Ribeiro Tavares (Lubango, província da Huíla, Angola, 30 de Outubro de 1952) é uma historiadora e poeta angolana. Cursou História na Faculdade de Letras do Lubango (hoje ISCED, Instituto Superior de Ciências da Educação do Lubango), terminando-o em Lisboa. Em 1996 concluiu o mestrado em Literaturas Africanas. Atualmente, vive em Portugal, lecionando na Universidade Católica de Lisboa. Tanto a prosa como a poesia de Ana Paula Tavares estão presentes em várias antologias publicadas em Portugal, no Brasil, em França, na Alemanha, em Espanha e na Suécia. No Brasil, foi publicado um volume com a sua poesia completa, Amargos como os Frutos.
nada sabia dessa água
até encontrar as margens
desta escrita
que quis fosse lisa
como pedra mármore
***
Um homem ao crepúsculo
sabe que os poetas e as mulheres
percorrem as ruas da cidade
na peregrinação dificílima do amor.
Esperam-nos em caves secretas
unguentos e odores tropicais
então, um homem tranquilo torna fácil a nudez.
***
O garoto corria corria
Não podia saber
Da diferença entre as flores.
O garoto corria corria
Fugia.
Ninguém lhe pegou ao colo
Ninguém lhe parou a morte.
***
E agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz – esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.
Os deuses não assistiram a isto.
* Maria Alexandre Dáskalos, poeta angolana, nasceu em Huambo, em 1957, filha do poeta e intelectual nacionalista Alexandre Dáskalos. Estudou nos colégios Ateniense e de São José de Cluny, formando-se em Letras. Em 1992, durante a guerra civil, mudou-se para Portugal, com a mãe e o filho. Atualmente, é jornalista na RDP África e mestranda em História Contemporânea. Publicou Do Tempo Suspenso (1998), Lágrimas e Laranjas (2001) e Jardim das Delícias (2003).
Fundo um país com os fonemas imprevistos
no roteiro do teu corpo de mulher.
Um tigre espreita
a inocente plumagem de um pássaro
poisado na colina do teu púbis.
Os teus seios forjam nos meus lábios
o paladar íngreme da pedra subterrânea.
Então nasço asas nos ombros como as tangerinas mecânicas
que Leonardo da Vinci anteviu nos seus esquissos.
Diamante de carne que as redes do tempo cristalizaram
na geometria incisiva dos meus versos.
Coral de azeite finíssimo.
Demorada galáxia de metal ideográfico.
Marcaste o meu destino com o traço de sal nocturno e luminoso
do teu andar de rumba.
País selvagem
que o trote mitológico da savana anuncia
sobre o verão alucinante do asfalto
me derrotas com as armas da tua cópula fulminante
e me sepultas como um faraó calcinado
no sarcófago apertado do teu sexo
onde navega um concerto de peixes doces como o mar
branquiando a palavra nascitura entre as vogais do meu esperma.
Pode ser que o mundo acabe na semana que vem
Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.
O que é que eu posso fazer senão conhecer até à exaustão
todas as coisas que fazem de ti um verão denso e humífero?
Cantar sem vacilar por exemplo esse teu ar breve
de pequena vissapa de luz.
A mim pouco importa o destino do universo
saber se os planetas estão na mão de algum deus subatómico
ou se um meteorito beija a Terra por amor ou por acaso.
Pode ser até que o mundo se acabe na semana que vem.
A mim basta conhecer
uma a uma essas colónias de sede e de êxtase
que o teu sangue construiu com apoteose e presciência
em cada ossatura do teu porte
uma a uma essas luas térreas de sedução
que a savana do teu riso faz refém em cada sequência do teu
andamento galáctico.
A mim basta saber que a simples historicidade do teu cio
sempre desenha um pendor de pássaro
na frágil película da minha humanidade.
Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.
Macacos me mordam se mesmo assim eu não te levo (hoje ainda)
nos meus ombros a chupar gelado de múcua
para espanto crucial da cidade.
Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.
No grau zero da escrita ainda a vogal preta dos teus olhos
erguerá a sua esfinge
e o enigma dos nossos ventres siameses ainda
levantará as areias inverosímeis do deserto.
* José Luís Mendonça nasceu em 1955, no Golungo Alto, província do Kwanza Norte, Angola. Poeta e jornalista, é funcionário da Unicef em Angola, onde exerce o cargo de assistente de informação. Colabora em diversas publicações de seu país e no Jornal de Letras, Artes e Ideias, de Portugal. Ingressou na União dos Escritores Angolanos em 1984. Publicou os livros de poesia Chuva Novembrina (1981), Gíria de Cacimbo (1987), Respirar as Mãos na Pedra (1991), Quero Acordar a Alva (1996), Se a Água Falasse (1997), Logaríntimos da Alma - Poemas de Amar (1998) e Ngoma do Negro Metal (2000).
não sei de que montanha sou
se daquela que transporto em mim, toda em mim,
um meteoro vindo do espaço há mil anos
se daquela que me habita há um segundo,
o segundo tempo depois do primordial (es)pasmo
2. álbum de recordações
uma velha buganvília
a embeber tudo numa névoa roxa
e minha bisavó sentada no terreiro
a refrescar-se nas tardes mornas
com leques de bambu e palma
3. infância
o deserto que atravessamos
não é nosso. somos estrangeiros
nas suas dunas. só os cactos
vieram connosco, agarrados
aos pés da infância
4. Esconderijo
entre ábacos de ébano
e dados de marfim
um velho chinês procura-me
com dedos de bambu
o carácter que me possui
é um esconderijo de silêncios
5. Imbondeiro
há frutos
nos ramos do imbondeiro
a penugem que libertam
cobre os pássaros que voam para o céu
da boca
6. ressureição da dança
é da terra que chega a seiva,
o sangue das plantas que, morrendo,
mais se enraízam.
da próxima vez que te vir
de pés nus a lavrar o chão
acertarei o passo contigo
na dança
dos homens que estão antes
dos mais antigos que a memória guarda
* Jorge [Manuel de Abreu] Arrimar nasceu em S. Pedro da Chibia, Angola. Publicou dez títulos de poesia e cinco de ficção. Encontra-se representado em diversas antologias, nomeadamente Antologia de Poetas de Macau (Macau), Divina Música (Portugal), Ovi-sungu – 13 Poetas de Angola (Brasil), Poetas da Ásia Portuguesa (EUA); participa em várias revistas literárias, das quais se destacam Eufeme (Portugal), Seixo Review (Canadá), Literatas (Moçambique), Textos & Pretextos (Portugal), Zunái (Brasil).
Vende-se uma pátria incompleta
chamam-lhe
país que estamos com ele.
Carcaça com centro. Sem norte nem sorte
pois a bota nunca bate com a perdigota
no atribulado e atropelado sul do sul.
CONSELHO: Leve somente a geofísica
a parte material está destroçada
a espiritual em fios de recuperação!
Sabedoria XVI
Os sábios nem tudo sabem
os deuses têm deuses também
os corruptos facilmente corroem
e as víboras vigiam novinhas vizinhas.
Quem rouba não rouba tudo
quem mata não mata o todo
quem perde ganha também
e quem ganha nem tudo apanha.
Os sábios os deuses e os corruptos
urgentes, mais as víboras dementes
por demais impacientes…
eternamente neste mundo de inocentes!
Sabedoria XXX
Homem que é homem não amiga jacaré
Mulher de verdade não saltita na maré.
Toda vaidade implica os cabelos no lugar
limpa, rendilhada e arrumada, varanda
Temperada e asseada cozinha humilde.
Homem velho é pau de embondo. Então:
encosta-te ao velho homem enquanto SER
saberás de muitos, passados e dolorosos anos.
Qualquer sóbria mulher tem
só o tamanho dos profundos universos
não amiga jacaré nem saltita na maré
do alto da sua pegajosa vaidade, guiar-te-á
santificando o nobre, caminho das estrelas!
* Lopito Feijoó, nome literário de João André da Silva Feijó, nasceu em Malanje (Angola) em 1963. Estudou Direito em Luanda, na Universidade Agostinho Neto (UAN). É deputado (reformado) da Assembleia Nacional de Angola. Publicou diversos livros de poesia, entre eles Me Ditando (1987), Rosa Cor-de-Rosa (1987), Cartas de Amor (1990), Na Idade de Cristo. Poesia Declamada em CD (1997), O Brilho do Bronze – Haikais (2005) e Imprescindível Doutrina Contra (2017). Tem livros traduzidos para o francês, inglês e italiano e colaborou publicações de Angola, Portugal, França, Espanha, Brasil, Estados Unidos e outros países.
Nkalu a maza: Tigela de sentidos
descalçadas e fraternos no aço há braços e botas também o carvão preto
aceso em brasa vermelho nos cristais dum denso signo a mbuta enquanto saliva
se levantam essas águas do rio correm para o sul as fontes precisam de
montanhas
os vales de um banho seco prisioneiro bavova vo as bactérias
desta garrafa da taça de vinho comia de botas vermelhas de ferida
e tudo começa com os olhos destas bocas destas espingardas desta guerra
ouro preto benigna meu mundo congelado o seu lugar de tanque a cama no lugar
da geografia do meu desenhado espaço jardins todo o gesso requerido
Sul e Norte a mina mu-ntu o distante e perto Oeste e Este as linhagens
ampliam-se
feito artérias tomam o corpo por inteiro e nele abrem os ventrículos e
as aurículas
circulam todas as frutas e sabores no vale e nas montanhas por exemplo
mangas, mamões,
bananas, testículos, seios, pénis, vagina o arquejante altar os mais
velhos disseram assim.
Kuna ketwalwaka ko
eu e a estela mais escuros estes ventos claros no nilo clara a cerveja
loira não mexia na minha panela garantia que se contém como deus pagão
o texto de música muito delicada a página a pauta violando ordens tácitas
do dia da noite escava pressentida carne a terra árvores de mim
eemente clara convém e contém o escuro escorre e não nos impede de sonhar
feito sol a noite do dia cinzento morcego inflama nos ossos das dentadas
transfigura o metal reside kuna ketwalwaka kó a chegada além uma nova
expectativa
escuta tudo sobre onde ainda nós não chegamos
como quem vem dum cruel lugar incontinente unifico todos os gritos de lá
Zulu dya bwa
mezaya e palantada falava sem sol com o sol da luz
esticando um gato fio de seduções os sonhos todos sem arrumação
essa esquina se não é atum é sovaco de manga outra vez
esse atum que não é esquina ou toque de cabritos obrigação diária
uma página uma janela uma paisagem desestruturados todas
enquanto boca os vidros desvendados pontual um só dedo
espelhos os corpos intervalos não coagulados de estrume, nem de esterco
o céu em queda se lhe contassem fechaduras
mezaya falava palantada que era a lâmpada a passagem de luz
fontes de obtenção de conhecimentos visuais esses Límpidos lampejos
teu sono os braços de luz teu leito ainda descortinado.
* Abreu Castelo Vieira dos Paxe nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe (Angola). Licenciou-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda, na especialidade de Língua Portuguesa. É docente de Literatura Angolana nesta mesma instituição e membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), onde é secretário para as atividades culturais. É técnico de comércio externo pela escola de comércio. Publicou A Chave no Repouso da Porta (2003), que venceu o Prêmio Literário António Jacinto. No Brasil, foi publicado nas revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR) e Comunità Italiana (RJ), e em Portugal, na antologia Os Rumos do Vento (Câmara Municipal de Fundão).
quarta-feira, 13 de dezembro de 2017
Angola e Francisca Van Dunem
Sim, no liceu feminino Guiomar de Lencastre.
Quando pensou em optar por Direito, isso não terá sido um grande motivo de alegria na família...
Foi terrível. Eu tenho uma família com uma estrutura muito patriarcal, em que o irmão mais velho do meu pai, o meu tio José, funcionava como o verdadeiro chefe da família. O seu filho, Fernando, que é meu padrinho de batismo e foi embaixador de Angola em Portugal, tinha vindo para Coimbra estudar Direito e exilou-se, saindo de Portugal numa leva de estudantes das colónias no início dos anos 60. O meu tio tinha uma grande desconfiança em relação às possíveis consequências das vindas para a então “metrópole” estudar Direito. Achava que o ambiente académico na área do Direito acabava por nos associar a atividades políticas. Sobretudo achava que eu, sendo mulher, não devia correr esse risco. E depois, como o meu avô tinha sido deportado várias vezes, por razões políticas, o meu tio entendia que devíamos tirar cursos técnicos, porque nos permitiam trabalhar em qualquer lugar. Devíamos ser médicos, engenheiros e não nos metermos no que achava serem aventuras perigosas.
Como é que conseguiu convencer a família?
Com 15 anos, ao chegar ao sexto ano do liceu, inscrevi-me na alínea E, que era a de Direito. Cheguei a casa, disse ao meu pai, que ficou triste e disse-me que eu tinha de ir falar ao meu tio. E eu fui.
E o seu tio...
O meu tio reagiu como seria de prever, mas não me proibiu. Perguntou-me coisas como: “A senhora pensa que fazer um curso de Direito é fazer alguma coisa? A senhora não tem ideia de que o curso de Direito não serve rigorosamente para nada? A senhora não acha que um curso de Medicina, de Engenharia, de qualquer outra coisa seria muito mais útil? Os senhores têm devaneios...” Eu ouvi respeitosamente, como devia fazer, e no fim ele disse-me: “Bem, a senhora está inscrita, está inscrita. Só veio cá dizer que se inscreveu.” Eu aquiesci, dando-lhe razão, e fui para casa de cabeça baixa. Esperava que me proibisse. Que me obrigasse a alterar a inscrição. A sua reação desorientou-me. Tinha levado todos os argumentos para uma batalha que não chegou a acontecer. O meu tio viveu cá os últimos anos da vida dele e tinha comigo uma relação de intensa afetividade. Gostava muito de mim, e eu gostava muito dele. A circunstância de me ter atrevido a afirmar-me contra o que sabia ser a sua vontade, de lhe ter ido dizer o que ia fazer, deu-lhe a ideia de que eu tinha a coragem dele. E ficámos muito próximos. Quando comecei a trabalhar no MP, não tinha cuidado com os registos oficiais: a nomeação, as promoções que saíam no “Diário da República”. Ele organizava tudo numa pastinha que me entregou e que se encarregava de atualizar. Depois, foi para Luanda e acabou por morrer lá. Vivemos aqui uma relação de uma enorme proximidade. Foi uma pessoa de quem eu na infância tinha medo e com quem depois acabei por ter uma relação afetiva muito profunda.
(...)
NICOLAU SANTOS

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