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domingo, 16 de março de 2025

Artur Queiroz - Angola | A ÁGUA QUE MATOU ZITA


domingo, 16 de março de 2025

<> Artur Queiroz*, Luanda ---

Oficialmente hoje é o dia da expansão da Luta Armada de Libertação Nacional. Para mim é o dia da Grande Insurreição Popular que varreu o Norte de Angola, de Sacandica aos Dembos. Na minha terra só existia escola primária e tive de ir estudar para a cidade do Uíje, no ensino secundário. Regime de internato. Tínhamos um líder, o Beto Martins, ao qual chamávamos, exactamente por ser um líder, Beto Lumumba. 

Naquele ano tínhamos exame e por isso não fomos a casa nas férias da Páscoa. Aulas de reforço, para não fazermos má figura e o colégio não ter “chumbos” no currículo.

Arlindo era o aluno mais velho do internato, 17 anos. Esteve vários anos sem estudar e retomou os estudos quando os pais puderam pagar-lhe o internato. 

No ano lectivo de 1960/1961 apareceu no internato um menino que ainda andava no ensino primário. Chamava-se Jorge Gonçalves e vinha de Sacandica, onde o pai era comerciante. Adoptado como nosso mascote. Todos o protegíamos. Muitos anos mais tarde ele foi presidente do Sporting Clube de Portugal. As voltas que o mundo dá!

No internato tínhamos um sapateiro que remendava os nossos sapatos. Veio do Cuanza Norte e o seu sonho era chamar a esposa e filhos À noite fazia de guarda. Aos fins de semana saltávamos a janela e íamos para as farras do Candombe. O guarda era conivente com os fugitivos. Um amigo do peito.

Lá na farra dançávamos a noite inteira. As meninas do bairro eram gentis, bonitas e bailarinas elegantes. Uma delas, por feliz coincidência, arranjou trabalho como ajudante da Candidinha, senhora que cozinhava para os alunos internos.

No dia 15 de Março, os guerreiros da UPA atacaram as fazendas do norte e mataram os brancos. Mas também trabalhadores “bailundos”. Nas pequenas vilas isoladas também atacaram com canhangulos, catanas e paus. Avançavam gritando maza, maza, maza quando os colonos disparavam as suas caçadeiras e carabinas sobre os atacantes. Quem aderiu à insurreição recebeu uma muxinga e um pau. Usando aqueles amuletos ficavam invulneráveis. As balas dos brancos eram água!

Essa água matou o sapateiro e guarda do internato. Há quem estivesse na cidade do Uíje e não visse nada. Eu vi mas preferia não ter visto. A água que matou o sapateiro também me matou. 

A Candidinha, no dia 16 de Março, gritava desalmadamente. Fomos saber o que tinha acontecido. A água matou Zita, a menina do Candombe, bailarina, alegre, gentil. A água naquele dia matou centenas de negros nas ruas da cidade do Uíje. Em frente ao internato havia um descampado. Estava juncado de cadáveres. Gente que levava as imbambas. Iam fugir da água. Há quem não tivesse visto nada, vivendo no Uíje. Eu vi. Antes não visse.

O Beto Martins é mestiço. Vivia com os padrinhos brancos. Durante uma semana desapareceu. A água matou-o? Não. Ficou aterrorizado com a fúria assassina das milícias dos colonos. O nosso líder ficou com medo da água. Só queria sair dali. Em Maio saímos todos. Fomos em viaturas militares até à Base Aérea do Negage e apanhámos um avião de carga, o Nordatlas. Em Luanda instalaram-nos num centro de refugiados e retomamos as aulas no Liceu Salvador Correia. Aprovamos todos nos exames!

A água do 15 de Março 1961, data da Grande Insurreição Popular no Norte de Angola matou milhares de inocentes. Pôs milhões em fuga para o Congo. 

Há quem não tivesse visto nada. Eu vi. Antes não visse. 

Hoje é o dia em que me lembro da água que matou Zita. A água que nos matou a juventude.

* Jornalista

at março 16, 2025 

https://paginaglobal.blogspot.com/2025/03/angola-agua-que-matou-zita-artur-queiroz.html

quinta-feira, 11 de janeiro de 2024

Nuno Gomes dos Santos - Ruy Mingas: o bom camarada

 

* Nuno Gomes dos Santos

Ruy Mingas foi des­por­tista, pro­fessor, mú­sico, po­lí­tico e di­plo­mata


Muita gente conhece a canção Me­ninos de Hu­ambo («os meninos à volta da fogueira…»), mas poucos sabem que essa cantiga, que Paulo de Carvalho divulgou amplamente e com grande sucesso, foi escrita pelos autores… do Hino Nacional de Angola! Vem isto a propósito da homenagem que aqui se quer prestar a Ruy Alberto Vieira Dias Rodrigues Mingas, que conhecemos como Ruy Mingas, angolano que se notabilizou como atleta (foi recordista de salto em altura, em Portugal, em 1960), músico e político.

Um dia apa­receu no pro­grama Zip-Zip (de Carlos Cruz, Raul Sol­nado, Fi­alho Gou­veia e José Nuno Mar­tins, RTP, 1969), que foi ino­vador na te­le­visão por­tu­guesa e re­velou ta­lentos (Ma­nuel Freire, Fran­cisco Fa­nhais, José Ma­nuel Osório, In­troito, Pedro Bar­roso e José Ba­rata Moura, por exemplo, jun­tando-lhes To­nicha ou Le­nita Gentil) da canção que por cá se pra­ti­cava. Ruy Mingas es­tava lá, atento ao con­selho que Carlos «Liceu» Vi­eira Dias, seu tio e grande per­cursor da nova canção an­go­lana, lhe dera: «cul­tiva o teu ou­vido mu­sical.» Grande êxito e, desde logo, uma car­reira de cantor e grande di­vul­gador da canção de raízes an­go­lanas, que ca­mi­nhavam de braço dado com ideias po­lí­ticas pro­gres­sistas e em­pe­nhadas na de­núncia do co­lo­ni­a­lismo e na luta do povo an­go­lano, no seu caso a luta do MPLA.

Mingas mu­sicou e in­ter­pretou, num exemplo que sin­te­tiza o que se acaba de es­crever, o poema Mo­nan­gambé (em kim­bundu, «filho de es­cravo», que tra­balha no duro e leva «por­rada se re­filar»), de An­tónio Ja­cinto («Na­quela roça grande / não tem chuva / é o suor do meu rosto / que rega as plan­ta­ções (…). Quem faz o branco pros­perar? Mo­nan­gambé!»).

Pode dizer-se que Ruy Mingas, en­quanto mú­sico, es­creveu as suas pró­prias can­ções e mu­sicou po­emas de grandes po­etas an­go­lanos, como Agos­tinho Neto e Vi­riato da Cuz, para além do já ci­tado An­tónio Ja­cinto. O que cul­minou na canção he­róica que compôs com base num poema de Ma­nuel Rui Mon­teiro – An­gola Avante! – e que foi es­co­lhida como Hino da An­gola.

Sempre muito li­gado a Por­tugal, Mingas deu aulas de Edu­cação Fí­sica na Es­cola D. An­tónio da Costa, em Al­mada. Era, por al­turas do 25 de Abril, o prin­cipal membro do corpo di­plo­má­tico do MPLA, de­sem­pe­nhando im­por­tante papel nas ne­go­ci­a­ções pela in­de­pen­dência an­go­lana com os ofi­ciais do MFA.

Em An­gola foi se­cre­tário de Es­tado para a Edu­cação Fí­sica e Des­porto, com es­ta­tuto de mi­nistro, e acabou por ser mi­nistro du­rante dez anos, após os quais foi no­meado em­bai­xador de An­gola em Por­tugal, cargo que exerceu entre 1989 e 1995 e que es­teve na origem da con­de­co­ração – Grã-Cruz da Ordem do In­fante D. Hen­rique – com que foi agra­ciado.

Em 2014 a So­ci­e­dade Por­tu­guesa de Au­tores dis­tin­guiu-o com o Prémio Autor In­ter­na­ci­onal.

Du­rante as suas an­danças pelo nosso país, longe ainda de so­nhar atingir o topo da sua car­reira pro­fis­si­onal, que na mú­sica quer na po­lí­tica, o Ruy Mingas era um amigo di­ver­tido, ta­len­toso, dono de uma voz pro­funda e de uma não menos pro­funda de­ter­mi­nação em lutar pelos seus ideais.

No Zip-Zip e nos tempos que se lhe se­guiram, to­cando e can­tando so­zinho ou, como no seu se­gundo álbum, por exemplo, acom­pa­nhado pelo seu irmão André, pelo per­cus­si­o­nista francês Da­niel Louis, com o bra­si­leiro Marcos Re­sende ao piano e a di­recção mu­sical de Thilo Kras­mann, era um foco de ale­gria e boa dis­po­sição, ex­ce­lente con­ver­sador e amigo do seu amigo.

Di­gamos que Ruy Mingas era, também na in­ti­mi­dade, o que sempre foi na vida, em todas as acep­ções da pa­lavra: um bom ca­ma­rada!

 

https://avante.pt/pt/2615/argumentos/174261/Ruy-Mingas-o-bom-camarada.htm

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Rui Mingas (1939 / 2024)




Ruy Mingas (1939-2024), músico lutador pela liberdade, cantor feito homem político

Nome maior da música angolana, co-autor de Meninos do Huambo, Ruy Mingas foi antes atleta recordista, foi depois ministro e embaixador da Angola independente. Tinha 84 anos.


4 de Janeiro de 2024, 19:03




Foto

Ruy Mingas foi nos anos 1980 e 1990 ministro da Educação Física e Desportos e embaixador de Angola em Portugal DR

O seu percurso de vida está intimamente ligado ao de Angola independente. Foi, afinal, co-autor do hino de Angola com o escritor e dramaturgo Manuel Rui e foi também ministro da Educação Física e Desportos angolano entre 1979 e 1989 e, entre 1990 e 1995, embaixador da nação africana em Portugal. Homem de talentos multifacetados, Ruy Mingas, falecido esta quinta-feira em Lisboa, aos 84 anos, foi também recordista português do salto em altura. Mas foi, acima de tudo, poeta, cantor e compositor, um nome maior da música angolana e co-autor, por exemplo, da Meninos do Huambo popularizada em 1985 por Paulo de Carvalho.

Nascido em Luanda a 12 de Maio de 1939, Ruy Mingas destacou-se primeiro no desporto. Atleta do Benfica nas categorias de 110 metros barreiras e salto em altura, bateria o recorde nacional da segunda em 1960. Porém, tal como outro angolano seu contemporâneo em Lisboa, Barceló de Carvalho, que conhecemos hoje como Bonga, mas que foi também campeão de atletismo, pelo mesmo clube, na década de 1960, Ruy Mingas seguiria outra musa. No seu caso, podemos mesmo afirmar que houve uma certa inevitabilidade na sua dedicação à música e ao seu envolvimento empenhado na luta independentista e anticolonialista angolana.

Ruy Mingas era, afinal, sobrinho de Liceu Vieira Dias, figura fundamental da música popular angolana, co-fundador dos míticos N’Gola Ritmos no final dos anos 1940, um lutador contra a opressão colonial portuguesa que o Estado Novo encarcerou durante vários anos no Tarrafal, o temido campo de concentração para presos políticos em Cabo Verde.

Desse exemplo familiar bebeu abundantemente Ruy Mingas, como o comprovam uma canção como Monangambé (1974), sob poema de António Jacinto ("Naquela roça grande tem café maduro/ e aquele vermelho-cereja/ são gotas do meu sangue feitas seiva"), ou álbuns como Angola (1970) e Temas Angolanos (1974). Neles, como escrevia Kalaf Epalanga em 2020, numa crónica para a revista brasileira Quatro Cinco Um, ouvíamos “o homem que deu voz às aspirações do povo angolano e cantou como poucos nossa dor e ânsia por liberdade”.

O grande público contactou pela primeira vez com Ruy Mingas em Portugal quando actuou em 1969 no Zip Zip, o histórico programa da RTP apresentado por Fialho Gouveia, Raul Solnado e Carlos Cruz – a acompanhá-lo nas percussões estava Bonga. No ano seguinte, editou o seu primeiro álbum, Angola, que viria a ser lançado, além de Portugal, em Itália, Espanha ou França – o seu prestígio neste país levou mesmo à sua distinção, em 2010, com o Prémio de Arte, Cultura e Letras da Academia Francesa de Educação.

Sem que o público português o soubesse, porém, Ruy Mingas já interviera de forma marcante na música portuguesa, ainda que por interposta pessoa: foi ele a apresentar aos Sheiks de Carlos Mendes e Paulo de Carvalho o clássico Summertime, de George Gershwin, que a grande banda do yé yé português gravou em 1965 como o seu primeiro single. Nesse período, movendo-se no seio dos estudantes africanos em Portugal, desenvolveu a sua consciência e actividade política e integrou os Ngola Kizomba, banda emanada da Casa dos Estudantes do Império na Capital Portuguesa.

Através das suas composições, musicando poetas da luta independentista angolana como Viriato Cruz, o supracitado António Jacinto ou o futuro Presidente da República Agostinho Neto, ou colaborando com Manuel Rui (além do hino de Angola, compuseram em conjunto, em 1976, Meninos do Huambo, entre outras), Ruy Mingas legou à música angolana, na sua voz cheia, expressiva e ponderada, temas como Birin birin, Ixi ami, Poema da farra, Adeus à hora da largada ou a já referida Monangambé.

Após o 25 de Abril e a independência de Angola, vestiu a farda de político e tornou-se ministro, primeiro, e depois embaixador. Em 1995, foi agraciado por Portugal com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. No início deste século, defensor da educação como alavanca decisiva para a prosperidade do seu povo, impulsionou a fundação da Universidade Lusíada em Angola, a primeira instituição de ensino superior privada no país, com pólos em Luanda, Cabinda e Benguela. A música, porém, continuava presente.

Em 2011, o pai da cantora Katila Mingas e da modelo Nayma, editou Memória, álbum em que compilou originais e novas versões das suas canções, qual testemunho artístico feito ponte entre o passado e o presente.


terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Artur Queiroz - Quando For Grande Quero Ser Historiador

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

* Artur Queiroz


Se eu tivesse formação em História fazia tudo para que o Presidente João Lourenço compreendesse a diferença entre a notícia e narrativa histórica. A mensagem informativa só existe se tiver actualidade. O tempo é a sua marca distintiva. Os fragmentos de informação, devidamente recortados, são a matéria-prima. Os jornalistas sabem fazer isso. Os repórteres vão mais longe contando como aconteceu e porque aconteceu. Os jornalistas trabalham o acontecimento. 

Os historiadores consultam pacientemente as fontes. Mergulham no passado longínquo, usando ferramentas que permitam estudar o Homem e as suas actividades no tempo e no espaço. Analisam cientificamente processos ocorridos no passado. A História não é o tempo real dos meios audiovisuais. Não é o dia dos jornais diários. Não é a semana dos semanários. Não é o directo da Rádio e da Televisão. 

Se já soubesse estas coisinhas, o Presidente João Lourenço nunca teria dito que a guerra na Ucrânia começou no dia 24 de Fevereiro de 2022. Isso dizia eu, que sou repórter e mesmo a cair da tripeça ainda vivo em cima do acontecimento, sempre pronto para a notícia e a reportagem. Mesmo nessa pele velha e endurecida, se produzisse uma mensagem informativa sobre o acontecimento, sempre referia como lastro e “enquadramento” os movimentos “Euromaidan” em Kiev, iniciados no ano de 2014 e orquestrados pela CIA. O golpe de estado que depôs o presidente eleito, Viktor Yanukovych.

Eu, repórter, ao noticiar os acontecimentos ocorridos no dia 24 de Fevereiro na Ucrânia, dedicava pelo menos um parágrafo ao massacre da Casa dos Sindicatos em Odessa, executado pelos grupos de extrema-direita, assumidamente nazis. Referia a guerra no Donbass contra as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e de Luhansk. Fazia uma referência ao relatório da Agência da ONU para os Direitos Humanos que denunciou uma limpeza étnica de hordas nazis no Leste da Ucrânia. Em Kiev mandam os nazis do Sector Direita, Bandera e Batalhão Azov. Referia os Acordos de Minsk e como eles foram rasgados.

Um repórter decente não produzia uma mensagem informativa sobre a “guerra na Ucrânia” sem referir o avanço das bases da OTAN (ou NATO) rumo às fronteiras da Federação Russa. Apesar da guerra, já chegaram à fronteira com a Finlândia e brevemente com a Suécia, tornando o Mar Báltico um espaço exclusivo do bloco militar ao serviço dos EUA. Um historiador medíocre, com o diploma comprado no Mercado dos Congoleses, ao pronunciar-se sobre a “operação militar especial” iniciada em 24 de Fevereiro de 2022 pelas tropas russas, só escrevia sobre o assunto, indo às origens do conflito.

Um político decente só abre a boca sobre a guerra na Ucrânia depois de cruzar as fontes, consultar documentos e recolher testemunhos. Só assim pode falar dessa carnificina com propriedade e devidamente informado. A não ser que seja boca de aluguer do estado terrorista mais perigoso do mundo, da União Europeia, da OTAN (ou NATO) e do Reino Unido, a coligação que assumidamente quer infringir à Federação Russa “uma derrota estratégica”. Fica mal a qualquer Chefe de Estado desempenhar esse papel. E particularmente ao Presidente da República de Angola. Quanto mais não seja, por uma questão de respeito pelos 48 anos de Independência Nacional e os 13 anos de Luta Armada de Libertação. 
O Presidente João Lourenço desejou paz na República Democrática do Congo, no Sudão, na Ucrânia, na Palestina e em Israel. A Federação Russa foi excluída. Se eu fosse seu assessor ou consultor explicava-lhe que essa exclusão é ofensiva e inamistosa para o Povo Russo, que tanto deu ao Povo Angolano durante a primeira e a segunda Luta Armada de Libertação Nacional e na Guerra pela Soberania e Integridade Territorial.

Os russos são vítimas de uma guerra imposta pelo “ocidente alargado” por procuração passada à Ucrânia. Atenção! Os mentores dessa agressão anunciaram que o objectivo é infringir ao país amigo do Povo Angolano uma “derrota estratégica”. Qualquer político medíocre, mesmo o Adalberto da Costa Júnior e todos os outros sicários da UNITA, sabe o que isso significa: Pôr fim à existência da Federação Russa. João Lourenço está do lado errado da História. Colocou Angola e o Povo Angolano contra os amigos de sempre e ao lado dos inimigos que hoje fingem ser “parceiros estratégicos”.

João Lourenço desejou paz na Palestina e em Israel. Esta parte é inexplicável. Incompreensível. Mas fazendo um esforço chego a esta conclusão: O Presidente da República persiste no erro de olhar para a História como se tratasse do ontem. No dia 7 de Outubro, combatentes palestinos atacaram unidades militares e estruturas militarizadas (Kibutz) em Israel e já está! Começou uma guerra entre Israel e a Palestina. 

Marcelo Rebelo de Sousa disse ao embaixador da Palestina em Lisboa: “Foram vocês que começaram a guerra no dia 7 de Outubro”. Quando ele era menino os fascistas, em casa, na rua, na escola, na sacristia, fizeram-lhe a cabeça, é natural que pense assim. Mas João Lourenço é uma vítima do colonialismo e do imperialismo. Ouvi dizer que tem uma licenciatura em História. Por essas e por outras devia saber que a guerra entre Israel e a Palestina começou há mais de 70 anos. Israel ocupa a Palestina há quase 60 anos! 

Os nazis de Telavive fizeram da Faixa de Gaza uma imensa prisão a céu aberto. Instalam “colonatos” na Cisjordânia. Rasgaram o Acordo de Oslo. Com a tomada de posse do actual governo, dominado por sionistas nazis, foi posta em marcha uma operação para expulsar os palestinos de Gaza e da Cisjordânia. A resistência era inevitável. 

Depois do dia 7 de Outubro, os nazis de Telavive cortaram a água, energia, medicamentos, energia e alimentação à Faixa de Gaza. Estão a matar milhões de palestinos à fome, à sede, com doenças. Bombardeiam diariamente o território sabendo que uma bomba que cai na região mata seguramente civis indefesos. Fazem incursões nos campos de refugiados, matando mulheres e crianças. Matam jornalistas para não existirem testemunhas. Matam funcionários da ONU deliberadamente porque o secretário-geral não se calou ante o genocídio em curso. Matam médicos e outro pessoal da Saúde. 

Israel ocupa a Palestina. Israel extermina os palestinos. Israel tem legislação que oficializa um regime de apartheid. Só por sabujice alguém deseja paz aos genocidas e às suas vítimas. Só obedecendo cegamente aos amos de Washington um político ofende tão cruelmente um povo vítima da ocupação estrangeira. Os ocupantes em menos de três meses já mataram 21 mil civis indefesos, mais de 70 por cento crianças e Mamãs.

O Governo da África do Sul, em sentido contrário, apresentou uma queixa contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça das Nações Unidas por violação das obrigações que constam na Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio. As voltas que o mundo dá! Os angolanos em armas ajudaram Namíbia, Zimbabwe e África do Sul a libertarem-se do criminoso regime de apartheid. Hoje os sul-africanos libertados dão-nos lições de dignidade e de como respeitar a Liberdade e os Direitos Humanos.

Com a conivência dos poderes públicos, o embaixador de Israel em Angola, Shimon Solomon, faz propaganda do regime nazi e apartheid de Telavive. Qual não foi o meu espanto quando vi na manchete do Jornal de Angola “online” esta notícia: “Embaixada de Israel em Angola e IESA Preparam Acordo de Cooperação”. 

A Igreja Evangélica Sinodal de Angola (IESA) e os nazis de Telavive, segundo o Jornal de Angola, “vão dinamizar projectos sociais nas comunidades”. E transportar para Angola as experiências dos genocidas. Esta é a resposta à recente declaração da direcção do MPLA na qual se solidariza com a Palestina. Não é melhor explicar ao Presidente Lourenço que Angola é um país independente há 48 anos? Nem o sobado do Dambi alinha em tão graves irresponsabilidades.

Feliz Ano Novo. Estou em festa, Mais um dia de vida!

* Jornalista

at janeiro 01, 2024 

sábado, 21 de outubro de 2023

Daniel Oliveira - Para Gaza, rapidamente e em força!

SEMANÁRIO#2660 - 20/10/23

* Daniel Oliveira  

“Esta é a prova nua e nauseante da selvajaria inacreditável dos terroristas que atravessam a fronteira do Norte de Angola para degolar, violar e mutilar as nossas mulheres e crianças por todas as fazendas e aldeias indefesas em que passavam, sem a menor provocação (...). Não importa quanto gritam sobre a repressão portuguesa, sobre a exploração portuguesa, (...) a prova nua está aqui, demasiado nauseante para ser olhada.” Este foi o discurso do embaixador português Vasco Garin na ONU, exibindo ao Conselho de Segurança algumas das horrendas fotografias do massacre da UPA, em 1961. Como o jornalismo tem a tentação para o eterno começo, socorro-me, para grande parte deste texto, de um artigo académico do historiador de arte Afonso Dias Ramos, “Angola 1961, o horror das imagens”, do livro coletivo de 2014 “O Império da Visão”. É quase desnecessário explicar o que foram os massacres de março de 1961, no Norte de Angola, liderados pela UPA. As horrendas fotografias criaram um trauma. E quem não tem essa memória encontrará numa busca rápida os cadáveres profanados e desmembrados, com intestinos de fora, crânios rebentados, caras desfiguradas, genitália serrada. Barrado o acesso da imprensa internacional, o regime colonial enviou fotógrafos e operadores de câmara para captar imagens dos cadáveres em decomposição, só depois enterrados pelos soldados. Recolhia-se material de guerra: imagens.

Ao contrário do habitual, não se impuseram restrições à circulação das fotos. Foram publicadas em toda a imprensa, incluindo no estrangeiro. Nem ao seu conteúdo, ultrapassando as regras vigentes sobre nudez, sexo ou morte. Foram colocadas ampliações nas vitrinas do Palácio Foz e a Sociedade de Geografia organizou uma exposição com mais de 50 mil visitantes. Foram publicados dezenas de livros, alguns com mais de dez edições. Corriam de mão em mão. Há relatos de carrinhas de propaganda em aldeias remotas. Viriam a ser mostradas aos soldados, nos anos seguintes, e havia quem as levasse na carteira para combater. Fora de portas, grupos ultraconservadores e supremacistas dos EUA distribuíram as imagens, ligando Martin Luther King a Holden Roberto. Um folheto sobre o “genocídio” foi enviado a todos os congressistas, alertando contra quem queria “destruir a NATO e o mundo livre”.

“Vamos para combater, não contra seres humanos, mas contra selvagens. Vamos enfrentar terroristas que devem ser abatidos como animais.” Haverá muitas diferenças. Mas a semelhança entre as palavras do ministro do Exército português, em 1961, e as do ministro da Defesa israelita, em 2023, depois de massacres, não é coincidência

“Se a circulação das imagens violava todas as convenções, apelava igualmente a uma resposta inconvencional, suspendendo códigos morais e legais na eliminação do mal”, escreve Afonso Dias Ramos. Foi o choque emocional que disparou o gatilho da guerra, com a famosa ordem de Salazar: “Para Angola, rapidamente e em força.” As imagens uniam os portugueses em torno de um inimigo que decapitava crianças, violava mulheres, castrava homens. A desumanização do inimigo foi eficaz e há relatos bem horrendos da carnificina da reação. Como escreveu o jornalista John Frederick Walker, “as fotografias da vingança teriam conseguido facilmente igualar o horror das do levantamento”. Dessas não ficaram registos públicos (haverá privados). Ainda assim, foram apresentadas na ONU, por iniciativa da Guiné, fotografias-troféu de cabeças de negros espetadas em paus erguidos por militares sorridentes. Como escreve o historiador, as fotografias “inspiravam um horror cego e cegavam horrores perpetrados em seu nome”. A despolitização do conflito, através do trauma, como se tudo tivesse começado a 15 de março, também funcionou internamente. Lá fora, um documentário da NBC complementava as imagens da chacina com o massacre da Baixa do Cassanje ou a violência do trabalho forçado. O imperdoável “mas” a que chamamos contexto.

“Vamos para combater, não contra seres humanos, mas contra feras e selvagens. Vamos enfrentar terroristas que devem ser abatidos como animais selvagens.” Qualquer semelhança entre as palavras do ministro do Exército, em 1961, e as do ministro da Defesa israelita, em 2023, não é coincidência. E a minha escolha do massacre de março de 1961 para ocupar quase todo este texto também não. Se alguém, a esta distância, perguntasse o que podia fazer o governo português perante aquela selvajaria se não iniciar uma guerra sangrenta, os sensatos responderiam que, independentemente do horror e da resposta, aquilo era um aviso para a urgência de iniciar a descolonização.

Haverá muitas diferenças. Entre a UPA e o Hamas, entre combatentes que cometem atrocidades e organizações terroristas, apesar deste terrível episódio ter marcado para sempre a reputação de Holden Roberto. Entre um conflito colonial ultramarino e uma disputa de território. Mas a maior diferença, neste episódio, é o que torna a comparação interessante. Enquanto as imagens do massacre da UPA foram usadas exclusivamente por Portugal, para alimentar a sede de vingança e obliterar o contexto político, as imagens do massacre do Hamas foram captadas pelo próprio Hamas e divulgadas por ele e por Israel. O massacre do Hamas pretendeu provocar uma reação, numa aliança pelo caos entre Hamas e Netanyahu. O padrão é o mesmo: a utilização do trauma para tornar inevitáveis os crimes que se seguem, criando “um momento zero” num conflito longo. Sem “mas”.

https://expresso.pt/opiniao/2023-10-20-Para-Gaza-rapidamente-e-em-forca-d996145d


domingo, 10 de maio de 2020

Agostinho Neto - Meia noite na quitanda

* Agostinho Neto


- Cem reis de jindungo
Sá Domingas
O sol
entrega Sá Domingas à lua
nas quitandas dos musseques
E a quitandeira esperando
- Cinquenta reis de tomate
três tostões de castanha de cajú
Um doce de coco
Sá Domingas
Ela vende na quitanda à meia noite
que o filho
está na estrada
precisa de cem mil reis
para pagar o imposto
O sol deixa Sá Domingas
na quitanda
e ela deixa o luar
Um tostão
dois tostôes
três tostões
que o coração de Sá Domingas
sofre mais do que o corpo na quitanda

gravura: Quitandeira, por Neves e Sousa


terça-feira, 16 de julho de 2019

Adrienne Savazoni: Mito e luta na poesia do angolano N’dualu Polo

Um poeta é um grande poeta quando consegue ultrapassar a sua realidade local, para falar do universal e do que pertence a todos. Nesse sentido, não é difícil se enxergar nas poesias de Esperança no Musseque – Poemas sobre Angola, primeiro livro de N’dualu Polo, pseudônimo de Fontes Nuno Eduardo Paulo, poeta angolano, biólogo, radicado no Brasil.


Por Adrienne Kátia Savazoni Morelato*

N’dualu Polo se propõe, em seu exílio, contar a história e falar dos problemas do seu país como se lá estivesse, ao mesmo tempo em que está aqui no Brasil. Pois esses problemas não serão diferentes dos daqui em nosso país. Esperança no Musseque pretende ser a voz dos excluídos, representando toda e qualquer periferia no mundo. A voz dos marginalizados que habitam os musseques e que se recheiam ainda de esperança.

“Os representantes do povo são deputados do luxo” é um verso do poema Assembleia Insensível de Angola, que poderia servir totalmente para o nosso país. Ao falar da Angola, Fontes Paulo/N’dualu Polo não deixa de falar do Brasil. Há uma conexão estreita entre os dois países que é explorada no livro, principalmente quando o autor quer redescobrir suas raízes e mostrar as origens da cultura afro-brasileira, sua ancestralidade: “Voltar à terra, à cultura e às nossas tradições” porque “a origem é a origem da humanidade”, o que faz com que o poeta conclua que foi o seu povo que colonizou o mundo.

Angola é o sétimo maior país em território da África, seu segundo maior produtor de petróleo e o quarto maior produtor de diamantes do mundo. Apesar de toda essa riqueza, é um país com uma grande desigualdade social. A maioria de sua população vive nos musseques, a poucos minutos do centro comercial, lugar sem infraestrutura e sem saneamento básico. 

Mas, mesmo com tantas dificuldades, N’dualu Polo descreve que o seu povo, os do musseque, tem um jeito próprio de olhar a vida que se traduz em alegria e esperança: “Minha história é linda”, diz o título do poema, que continua: “povo que preserva as raízes da nossa identidade / Somos o povo do continente da diversidade / Cultural, de etnias entrelaçadas numa unidade. Ubuntu”. E é a palavra Ubuntu, a qual não tem tradução em nossa língua, a que expressará melhor a mensagem desse livro.

Esperança no Musseque é, antes de tudo, um livro de poesias que critica essencialmente os valores individualistas e materialistas do mundo ocidental, na qual o indivíduo se sobrepõe ao coletivo: “Oh! Mundo tão moderno... / Que fica difícil achar alguém fraterno...”. Ubuntu é exatamente o contrário – é a força da coletividade e a ligação que o indivíduo tem com o seu todo, com o seu lugar e com as pessoas. Todos são o que são porque estão intimamente ligados – você só tem um eu quando se junta ao outro.

Por isso, N’dualu Polo procura em seus poemas valorizar a cultura ancestral africana, aquela que nos deu o cafuné, o moleque, o borocoxô, o quitute, o samba e as miçangas, nosso jeito corporal de ser, de aproximar, de dançar e de tocar. Chegou a hora, como ele mesmo diz, de reverter o jogo, descolonizar também na literatura, algo que pode fazer surtar a Casa-Grande: “Agora é o afrocentrismo”. 

Pulsa o corpo negro em seus poemas, há gingado, há o batuque, o ritmo marcado na pele, traços do fenótipo mais lindo, voz que não se cala e o cabelo carapinha que se torna chique, valorizando o que se deve e o que merece ser valorizado: “A nossa história foi interrompida / nosso corpo e alma despida”. Enquanto isso, a dor e o sofrimento são vencidos tanto pelo ritmo da dança e da música quanto pela poesia. Esperança no Musseque é esse grito de luta, resistência – canto de um poeta com o seu povo e também com o nosso povo!

Leia abaixo três poemas de Esperança no Musseque: 
 

ESPERANÇA E CONFIANÇA
O mar do oceano que nos separou
É apenas um detalhe em nossas trajetórias
O passado glorioso de nossas histórias
Sempre nos ligam no presente…

O tempo nos empurra para frente
A nossa história foi interrompida
Nosso corpo e alma despida
Das mazelas e cicatrizes dos crimes
Hediondos contra nossa humanidade

Resistimos em nome de nossa unidade
Vencemos toda vossa crueldade
E as lutas dos ancestrais orgulham nossa identidade
Por essa razão veneramos a ancestralidade…
Espalhando paz, amor e muita esperança
Essa é a nossa maior herança…


A VIDA NO QUIMBO
Uma vida simples, vivida no campo
De origem humilde da zona rural
Um estilo de vida sem excesso
Moradia de pau-a-pique

Que não precisa de bens de luxo
Um fogão a lenha
Para fazer os quitutes da terra

Um quimbo que produz
Seu próprio sustento

Comida orgânica e saudável
O Quimbo é um luxo à parte
Tudo aqui é feito com carinho e amor

O Quimbo é resistência da nossa cultura
De um modo de vida ancestral
Onde o ancião é sempre uma referência
Dentro da comunidade
As nossas tradições resistem…!!!


CARAPINHA CHIQUE
A elegância e essência da carapinha chique
Faz parte de sua origem
Ela define sua essência
Seu cabelo, carapinha chique é resistência

Ela ressignifica a sua cultura
Resiste à violência
É um traço cultural, é nossa vivência
Tranças corrediças com vários adereços
Suas missangas ao longo dos carrapitos

Tranças corridinhas exaltam a beleza natural
Carrapitos que definem o seu belo
Carapinha é obra rara
Que tem a ver com sua identidade
Herança de nossa ancestralidade
Tem um acabamento incomparável

Chama atenção e é inigualável

Carapinha chique
Cabelos naturais, símbolo de nossa beleza
É a mãe África, ela significa:
Resistência
Existência,
É o belo de nossa negritude.

* Adrienne Kátia Savazoni Morelato, mestre e doutora em Estudos Literários pela Unesp, é professora da rede estadual de São Paulo

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Claudio Daniel: A poesia angolana hoje


* Cláudio Daniel

Dia: 04/07/2019 às 01:38:10

A poesia angolana contemporânea aborda temas como o desencanto do mundo pós-utópico, as cicatrizes da guerra civil, as contradições sociais, a emancipação da mulher, o erotismo, a beleza das paisagens naturais, a herança dos mitos e práticas tribais na sociedade moderna e, claro, a própria linguagem poética. 

Por Claudio Daniel*

É uma poesia plural, diversificada, que utiliza recursos como o humor, os provérbios locais, a mescla do português com palavras de dialetos tribais e o diálogo intertextual com a poesia ocidental, destacando-se no quadro das literaturas africanas em língua portuguesa.

Apresentamos aqui um pequeno quadro desse rico florilégio, com poemas de cinco autores significativos das letras angolanas: Paula Tavares, Maria Alexandre Dáskalos, Lopito Feijoó, Abreu Paxe, José Luís Mendonça e Jorge Arrimar.


PAULA TAVARES

Rapariga

Cresce comigo o boi com que me vão trocar
Amarraram-me já às costas, a tábua Eylekessa

Filha de Tembo
organizo o milho

Trago nas pernas as pulseiras pesadas
Dos dias que passaram...

Sou do clã do boi –

Dos meus ancestrais ficou-me a paciência
O sono profundo de deserto.

A falta de limite...

Da mistura do boi e da árvore
a efervescencia
o desejo
a intranquilidade
a proximidade
do mar

Filha de Huco
Com a sua primeira esposa
Uma vaca sagrada,
concedeu-me
o favor das suas tetas úberes.

(Do livro Ritos de Passagem, 1985)


O lago da lua

No lago branco da lua
lavei meu primeiro sangue
Ao lago branco da lua
voltaria cada mês
para lavar
meu sangue eterno
a cada lua
No lago branco da lua
misturei meu sangue
e barro branco
e fiz a caneca
onde bebo
a água amarga da minha sede sem fim
o mel dos dias claros
Neste lago deposito
minha reserva de sonhos para tomar

* * *

Aquela mulher que rasga a noite
com o seu canto de espera
não canta
Abre a boca
e solta os pássaros
que lhe povoam a garganta

* Ana Paula Ribeiro Tavares (Lubango, província da Huíla, Angola, 30 de Outubro de 1952) é uma historiadora e poeta angolana. Cursou História na Faculdade de Letras do Lubango (hoje ISCED, Instituto Superior de Ciências da Educação do Lubango), terminando-o em Lisboa. Em 1996 concluiu o mestrado em Literaturas Africanas. Atualmente, vive em Portugal, lecionando na Universidade Católica de Lisboa. Tanto a prosa como a poesia de Ana Paula Tavares estão presentes em várias antologias publicadas em Portugal, no Brasil, em França, na Alemanha, em Espanha e na Suécia. No Brasil, foi publicado um volume com a sua poesia completa, Amargos como os Frutos.


MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS

Nasceu em mim uma fonte
nada sabia dessa água
até encontrar as margens
desta escrita
que quis fosse lisa
como pedra mármore

***

Um homem ao crepúsculo
sabe que os poetas e as mulheres
percorrem as ruas da cidade

na peregrinação dificílima do amor.
Esperam-nos em caves secretas
unguentos e odores tropicais
então, um homem tranquilo torna fácil a nudez.

***

O garoto corria corria
Não podia saber
Da diferença entre as flores.
O garoto corria corria
Fugia.
Ninguém lhe pegou ao colo
Ninguém lhe parou a morte.

***

E agora só me restam
os poetas gregos.
O silêncio diz – esquece.
E o espinho da rosa enterrado no peito
é meu.

Os deuses não assistiram a isto.

* Maria Alexandre Dáskalos, poeta angolana, nasceu em Huambo, em 1957, filha do poeta e intelectual nacionalista Alexandre Dáskalos. Estudou nos colégios Ateniense e de São José de Cluny, formando-se em Letras. Em 1992, durante a guerra civil, mudou-se para Portugal, com a mãe e o filho. Atualmente, é jornalista na RDP África e mestranda em História Contemporânea. Publicou Do Tempo Suspenso (1998), Lágrimas e Laranjas (2001) e Jardim das Delícias (2003).


JOSÉ LUÍS MENDONÇA

Esse país chamado corpo de mulher

Fundo um país com os fonemas imprevistos
no roteiro do teu corpo de mulher.
Um tigre espreita
a inocente plumagem de um pássaro
poisado na colina do teu púbis.
Os teus seios forjam nos meus lábios
o paladar íngreme da pedra subterrânea.
Então nasço asas nos ombros como as tangerinas mecânicas
que Leonardo da Vinci anteviu nos seus esquissos.
Diamante de carne que as redes do tempo cristalizaram
na geometria incisiva dos meus versos.
Coral de azeite finíssimo.
Demorada galáxia de metal ideográfico.
Marcaste o meu destino com o traço de sal nocturno e luminoso
do teu andar de rumba.
País selvagem
que o trote mitológico da savana anuncia
sobre o verão alucinante do asfalto
me derrotas com as armas da tua cópula fulminante
e me sepultas como um faraó calcinado
no sarcófago apertado do teu sexo
onde navega um concerto de peixes doces como o mar
branquiando a palavra nascitura entre as vogais do meu esperma.


Pode ser que o mundo acabe na semana que vem

Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.
O que é que eu posso fazer senão conhecer até à exaustão
todas as coisas que fazem de ti um verão denso e humífero?
Cantar sem vacilar por exemplo esse teu ar breve
de pequena vissapa de luz.
A mim pouco importa o destino do universo
saber se os planetas estão na mão de algum deus subatómico
ou se um meteorito beija a Terra por amor ou por acaso.
Pode ser até que o mundo se acabe na semana que vem.
A mim basta conhecer
uma a uma essas colónias de sede e de êxtase
que o teu sangue construiu com apoteose e presciência
em cada ossatura do teu porte
uma a uma essas luas térreas de sedução
que a savana do teu riso faz refém em cada sequência do teu
andamento galáctico.
A mim basta saber que a simples historicidade do teu cio
sempre desenha um pendor de pássaro
na frágil película da minha humanidade.
Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.
Macacos me mordam se mesmo assim eu não te levo (hoje ainda)
nos meus ombros a chupar gelado de múcua
para espanto crucial da cidade.
Pode ser que o mundo acabe na semana que vem.
No grau zero da escrita ainda a vogal preta dos teus olhos
erguerá a sua esfinge
e o enigma dos nossos ventres siameses ainda
levantará as areias inverosímeis do deserto.

* José Luís Mendonça nasceu em 1955, no Golungo Alto, província do Kwanza Norte, Angola. Poeta e jornalista, é funcionário da Unicef em Angola, onde exerce o cargo de assistente de informação. Colabora em diversas publicações de seu país e no Jornal de Letras, Artes e Ideias, de Portugal. Ingressou na União dos Escritores Angolanos em 1984. Publicou os livros de poesia Chuva Novembrina (1981), Gíria de Cacimbo (1987), Respirar as Mãos na Pedra (1991), Quero Acordar a Alva (1996), Se a Água Falasse (1997), Logaríntimos da Alma - Poemas de Amar (1998) e Ngoma do Negro Metal (2000).

JORGE ARRIMAR
 
1. de que montanha?

não sei de que montanha sou
se daquela que transporto em mim, toda em mim,
um meteoro vindo do espaço há mil anos
se daquela que me habita há um segundo,
o segundo tempo depois do primordial (es)pasmo


2. álbum de recordações

uma velha buganvília
a embeber tudo numa névoa roxa
e minha bisavó sentada no terreiro
a refrescar-se nas tardes mornas
com leques de bambu e palma

3. infância
o deserto que atravessamos
não é nosso. somos estrangeiros
nas suas dunas. só os cactos
vieram connosco, agarrados
aos pés da infância

4. Esconderijo
entre ábacos de ébano
e dados de marfim
um velho chinês procura-me
com dedos de bambu
o carácter que me possui
é um esconderijo de silêncios

5. Imbondeiro
há frutos
nos ramos do imbondeiro
a penugem que libertam
cobre os pássaros que voam para o céu
da boca

6. ressureição da dança
é da terra que chega a seiva,
o sangue das plantas que, morrendo,
mais se enraízam.
da próxima vez que te vir
de pés nus a lavrar o chão
acertarei o passo contigo
na dança
dos homens que estão antes
dos mais antigos que a memória guarda

* Jorge [Manuel de Abreu] Arrimar nasceu em S. Pedro da Chibia, Angola. Publicou dez títulos de poesia e cinco de ficção. Encontra-se representado em diversas antologias, nomeadamente Antologia de Poetas de Macau (Macau), Divina Música (Portugal), Ovi-sungu – 13 Poetas de Angola (Brasil), Poetas da Ásia Portuguesa (EUA); participa em várias revistas literárias, das quais se destacam Eufeme (Portugal), Seixo Review (Canadá), Literatas (Moçambique), Textos & Pretextos (Portugal), Zunái (Brasil).


LOPITO FEIJOÓ

Sabedoria VIII

Vende-se uma pátria incompleta
chamam-lhe
país que estamos com ele.

Carcaça com centro. Sem norte nem sorte
pois a bota nunca bate com a perdigota
no atribulado e atropelado sul do sul.

CONSELHO: Leve somente a geofísica
a parte material está destroçada
a espiritual em fios de recuperação!


Sabedoria XVI

Os sábios nem tudo sabem
os deuses têm deuses também
os corruptos facilmente corroem
e as víboras vigiam novinhas vizinhas.

Quem rouba não rouba tudo
quem mata não mata o todo
quem perde ganha também
e quem ganha nem tudo apanha.

Os sábios os deuses e os corruptos
urgentes, mais as víboras dementes
por demais impacientes…
eternamente neste mundo de inocentes!


Sabedoria XXX

Homem que é homem não amiga jacaré
Mulher de verdade não saltita na maré.
Toda vaidade implica os cabelos no lugar
limpa, rendilhada e arrumada, varanda
Temperada e asseada cozinha humilde.

Homem velho é pau de embondo. Então:
encosta-te ao velho homem enquanto SER
saberás de muitos, passados e dolorosos anos.

Qualquer sóbria mulher tem
só o tamanho dos profundos universos
não amiga jacaré nem saltita na maré
do alto da sua pegajosa vaidade, guiar-te-á
santificando o nobre, caminho das estrelas!

* Lopito Feijoó, nome literário de João André da Silva Feijó, nasceu em Malanje (Angola) em 1963. Estudou Direito em Luanda, na Universidade Agostinho Neto (UAN). É deputado (reformado) da Assembleia Nacional de Angola. Publicou diversos livros de poesia, entre eles Me Ditando (1987), Rosa Cor-de-Rosa (1987), Cartas de Amor (1990), Na Idade de Cristo. Poesia Declamada em CD (1997), O Brilho do Bronze – Haikais (2005) e Imprescindível Doutrina Contra (2017). Tem livros traduzidos para o francês, inglês e italiano e colaborou publicações de Angola, Portugal, França, Espanha, Brasil, Estados Unidos e outros países.


ABREU PAXE


Nkalu a maza: Tigela de sentidos
A mbuta bavova vô

descalçadas e fraternos no aço há braços e botas também o carvão preto

aceso em brasa vermelho nos cristais dum denso signo a mbuta enquanto saliva

se levantam essas águas do rio correm para o sul as fontes precisam de

montanhas

os vales de um banho seco prisioneiro bavova vo as bactérias

desta garrafa da taça de vinho comia de botas vermelhas de ferida

e tudo começa com os olhos destas bocas destas espingardas desta guerra

ouro preto benigna meu mundo congelado o seu lugar de tanque a cama no lugar

da geografia do meu desenhado espaço jardins todo o gesso requerido

Sul e Norte a mina mu-ntu o distante e perto Oeste e Este as linhagens

ampliam-se

feito artérias tomam o corpo por inteiro e nele abrem os ventrículos e

as aurículas

circulam todas as frutas e sabores no vale e nas montanhas por exemplo
mangas, mamões,

bananas, testículos, seios, pénis, vagina o arquejante altar os mais
velhos disseram assim.


Kuna ketwalwaka ko

eu e a estela mais escuros estes ventos claros no nilo clara a cerveja

loira não mexia na minha panela garantia que se contém como deus pagão

o texto de música muito delicada a página a pauta violando ordens tácitas

do dia da noite escava pressentida carne a terra árvores de mim

eemente clara convém e contém o escuro escorre e não nos impede de sonhar

feito sol a noite do dia cinzento morcego inflama nos ossos das dentadas

transfigura o metal reside kuna ketwalwaka kó a chegada além uma nova

expectativa

escuta tudo sobre onde ainda nós não chegamos

como quem vem dum cruel lugar incontinente unifico todos os gritos de lá


Zulu dya bwa

mezaya e palantada falava sem sol com o sol da luz

esticando um gato fio de seduções os sonhos todos sem arrumação

essa esquina se não é atum é sovaco de manga outra vez

esse atum que não é esquina ou toque de cabritos obrigação diária

uma página uma janela uma paisagem desestruturados todas

enquanto boca os vidros desvendados pontual um só dedo

espelhos os corpos intervalos não coagulados de estrume, nem de esterco

o céu em queda se lhe contassem fechaduras

mezaya falava palantada que era a lâmpada a passagem de luz

fontes de obtenção de conhecimentos visuais esses Límpidos lampejos

teu sono os braços de luz teu leito ainda descortinado.

* Abreu Castelo Vieira dos Paxe nasceu em 1969 no vale do Loge, município do Bembe (Angola). Licenciou-se no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED), em Luanda, na especialidade de Língua Portuguesa. É docente de Literatura Angolana nesta mesma instituição e membro da União dos Escritores Angolanos (UEA), onde é secretário para as atividades culturais. É técnico de comércio externo pela escola de comércio. Publicou A Chave no Repouso da Porta (2003), que venceu o Prêmio Literário António Jacinto. No Brasil, foi publicado nas revistas Dimensão (MG), Et Cetera (PR) e Comunità Italiana (RJ), e em Portugal, na antologia Os Rumos do Vento (Câmara Municipal de Fundão).




quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Angola e Francisca Van Dunem

FRANCISCA VAN DUNEM IN
" (...)
Fez todos os estudos liceais em Luanda?
Sim, no liceu feminino Guiomar de Lencastre.

Quando pensou em optar por Direito, isso não terá sido um grande motivo de alegria na família...
Foi terrível. Eu tenho uma família com uma estrutura muito patriarcal, em que o irmão mais velho do meu pai, o meu tio José, funcionava como o verdadeiro chefe da família. O seu filho, Fernando, que é meu padrinho de batismo e foi embaixador de Angola em Portugal, tinha vindo para Coimbra estudar Direito e exilou-se, saindo de Portugal numa leva de estudantes das colónias no início dos anos 60. O meu tio tinha uma grande desconfiança em relação às possíveis consequências das vindas para a então “metrópole” estudar Direito. Achava que o ambiente académico na área do Direito acabava por nos associar a atividades políticas. Sobretudo achava que eu, sendo mulher, não devia correr esse risco. E depois, como o meu avô tinha sido deportado várias vezes, por razões políticas, o meu tio entendia que devíamos tirar cursos técnicos, porque nos permitiam trabalhar em qualquer lugar. Devíamos ser médicos, engenheiros e não nos metermos no que achava serem aventuras perigosas.

Como é que conseguiu convencer a família?
Com 15 anos, ao chegar ao sexto ano do liceu, inscrevi-me na alínea E, que era a de Direito. Cheguei a casa, disse ao meu pai, que ficou triste e disse-me que eu tinha de ir falar ao meu tio. E eu fui.

E o seu tio...
O meu tio reagiu como seria de prever, mas não me proibiu. Perguntou-me coisas como: “A senhora pensa que fazer um curso de Direito é fazer alguma coisa? A senhora não tem ideia de que o curso de Direito não serve rigorosamente para nada? A senhora não acha que um curso de Medicina, de Engenharia, de qualquer outra coisa seria muito mais útil? Os senhores têm devaneios...” Eu ouvi respeitosamente, como devia fazer, e no fim ele disse-me: “Bem, a senhora está inscrita, está inscrita. Só veio cá dizer que se inscreveu.” Eu aquiesci, dando-lhe razão, e fui para casa de cabeça baixa. Esperava que me proibisse. Que me obrigasse a alterar a inscrição. A sua reação desorientou-me. Tinha levado todos os argumentos para uma batalha que não chegou a acontecer. O meu tio viveu cá os últimos anos da vida dele e tinha comigo uma relação de intensa afetividade. Gostava muito de mim, e eu gostava muito dele. A circunstância de me ter atrevido a afirmar-me contra o que sabia ser a sua vontade, de lhe ter ido dizer o que ia fazer, deu-lhe a ideia de que eu tinha a coragem dele. E ficámos muito próximos. Quando comecei a trabalhar no MP, não tinha cuidado com os registos oficiais: a nomeação, as promoções que saíam no “Diário da República”. Ele organizava tudo numa pastinha que me entregou e que se encarregava de atualizar. Depois, foi para Luanda e acabou por morrer lá. Vivemos aqui uma relação de uma enorme proximidade. Foi uma pessoa de quem eu na infância tinha medo e com quem depois acabei por ter uma relação afetiva muito profunda.

(...)
P. - Não havia Direito em Luanda. O choque foi muito grande quando chegou a Lisboa?
R. - O choque foi tremendo. Tinha 17 anos. Luanda era uma cidade aberta. Lisboa era uma cidade fechada e sombria nesse tempo. Fechada nos costumes, havia grupos muito fechados, e era uma cidade cinzenta. Eu vinha de Luanda descontraidamente. As pessoas estavam habituadas a falar com toda a gente, a vestir-se sem nenhuma preocupação, não só pelas questões do clima mas por influência da África do Sul e de Moçambique. As raparigas tinham uma forma de vestir mais solta. Eu trazia umas saias que eram curtíssimas para cá, mas eu não sabia. Não tinha a mínima noção.

P. - Era o tempo em que uma mulher era mal vista se ia a um café...
R. - Não. Nessa altura ia-se muito aos cafés. Havia muitos cafés de estudantes. Mas até a isso eu não estava habituada, àquele ambiente escuro em que as pessoas estavam vergadas sobre os livros, a fumar. Naquele tempo fumava-se muito. Era um ambiente um pouco surreal, era como se entrasse de repente num filme fantástico. Eu estava habituada ao ar livre, às esplanadas, ao sol... Essa entrada inicial foi de facto um pouco traumática.
(...)
P.- Ele decidiu regressar e vive hoje em Angola. E o seu irmão João decidiu também regressar a Luanda para o apoiar. Como é que viu essa decisão?
R. - O João era a minha alma gémea. Eu vi com bons olhos o regresso do João. Embora ele tivesse uma carreira bem sucedida na BBC, chefiava a secção de língua portuguesa, sentia nele sempre um espaço de vazio. E o grande espaço de vazio que tinha era Angola. Angola fazia-lhe falta. Tinha necessidade física. E a sua ida acabou por ser associada à ida do Che.

P. - E, apesar de serem almas gémeas, a Francisca não tem esse espaço vazio em relação a Angola?
R. - Eu tenho. Fica sempre. Há sempre um lugar em nós, um bocado em nós que está perdido algures, não no espaço cósmico. Sabemos onde está. Mas nestas coisas tem de haver alguma racionalidade. No jogo entre o espaço do possível, do fazível e do desejável, é preciso encontrar algum realismo. A minha mãe tem 93 anos e vive comigo. Eu tenho uma carreira feita aqui que não me passa pela cabeça abandonar de um dia para o outro. A partir de uma certa altura, foi uma escolha que fiz. E foi uma escolha consciente.
(...)
P. - Acha que morreu de desgosto?
R. - O meu pai morreu de tristeza. Interiorizava muito as coisas. Escrevia muita poesia. Tinha uma vida interior muito intensa. Acabou por ficar num estado de tristeza e de desconsolo que não teve retorno.
(...)"

Quando regressou a Angola?
A primeira vez que regressei a Angola fui com o então procurador-geral da República, conselheiro Cunha Rodrigues, em 1997, depois voltei lá com outro procurador-geral, o conselheiro Pinto Monteiro, e depois a seguir à morte do João. Ele foi enterrado cá, mas as cerimónias do sétimo dia foram feitas lá. Depois disso fui lá mais uma vez.

Que país é que encontrou?
Encontrei o suficiente para ficar em paz com a minha identidade, mas obviamente encontrei um país diferente daquele que deixei há quase 40 anos. As coisas mudam. Há uma evolução necessária em Angola como em qualquer outro lugar. O que me faz alguma confusão às vezes é não encontrar os lugares que conheci. Passar por uma rua e não a reconhecer. Há muros muito altos por razões de segurança e há zonas muito descaracterizadas.

A casa onde vivia ainda existe?
As casas onde vivi ainda existem. A casa onde passei a infância, aquela a que estou mais ligada, é uma casa na Rua João das Regras.





Há coisas mais importantes do que o sucesso na carreira: como é que se faz as pazes com o país que nos matou o irmão? Como é que se conta a um miúdo de três anos que os pais foram assassinados?
EXPRESSO.SAPO.PT

***
NICOLAU SANTOS


Texto