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quinta-feira, 6 de outubro de 2022

1906 – Nasce Mario Quintana


 Mário Quintana - Acervo IMS (Instituto Moreira Salles)

«O mi­lagre não é dar vida ao corpo ex­tinto, / Ou luz ao cego, ou eloquência ao mudo... / Nem mudar água pura em vinho tinto... / Mi­lagre é acre­di­tarem nisso tudo!» – eis um belo tes­te­munho da po­esia de Mario (sem acento, que assim foi re­gis­tado) Quin­tana, poeta, tra­dutor e jor­na­lista bra­si­leiro, o «poeta das coisas sim­ples». Nas­cido em Ale­grete, no Rio Grande do Sul, pu­blica os pri­meiros versos na re­vista li­te­rária dos alunos do Co­légio Mi­litar de Porto Alegre, que fre­quenta até aos 18 anos. Co­meça a tra­ba­lhar como tra­dutor em 1929, no jornal O Es­tado do Rio Grande. Traduz au­tores como Vol­taire, Vir­ginia Woolf e Marcel Proust, in­cluindo a mo­nu­mental obra deste úl­timo «Em Busca do Tempo Per­dido». Em 1940, Mario Quin­tana pu­blica o pri­meiro livro de so­netos: «A Rua dos Ca­ta­ventos». Se­guem-se ou­tras obras, mas o re­co­nhe­ci­mento de Quin­tana, hoje con­si­de­rado como um dos mai­ores po­etas do séc. XX, vem mais tarde. Três vezes re­jei­tado pela Aca­demia Bra­si­leira de Le­tras, virá a de­clinar o con­vite que fi­nal­mente lhe fazem. Mestre da sín­tese poé­tica, re­cebe em 1980 o Prémio Ma­chado de Assis da ABL e em 1981 o Prémio Ja­buti. Morre em 1994, mas o seu humor re­siste ao tempo: «Todos esses que aí estão /Atra­van­cando o meu ca­minho,/ Eles pas­sarão... / Eu pas­sa­rinho!».

https://www.avante.pt/pt/2549/memoria/169133/1906-%E2%80%93-Nasce-Mario-Quintana.htm?

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Mario Quintana Apresentação
Curiosamente, Quintana, que se celebrizaria como poeta, estreou com o conto “A sétima personagem”, publicado no Diário de Notícias, de Porto Alegre, em 1926. Só no ano seguinte ele teria um poema publicado. Antes do primeiro livro de versos editado pela Globo, foi com a tradução de Palavras e sangue, de Giovanni Papini, de 1934, que ele estreou na editora gaúcha. Deve-se, em parte, ao seu trabalho de tradutor em tempo integral o êxito da casa em introduzir autores estrangeiros no panorama literário brasileiro. Ainda no fecundo ano de 1934, ele iniciou colaboração, que se revelaria longa, no Correio do Povo, de Porto Alegre. Quintana não teve filhos e sempre preferiu os quartos de hotel ao aconchego de uma casa ou um apartamento. Doce no trato e no temperamento, não deixava de surpreender: na revolução de 1930, que levou Getúlio Vargas ao poder, apresentou-se como voluntário e marchou para o Rio de Janeiro, onde ficou seis meses como integrante do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre. Na verdade, era encarregado do diário da tropa. Em 1940, por insistência de um de seus irmãos e de Erico Verissimo, publicou, pela Globo, seu primeiro livro: a coleção de 35 sonetos intitulada A roda dos cata-ventos, recheada da presença provinciana de Porto Alegre, ainda que com transposições, como em “Quando eu morrer e no frescor da lua/ Da casa nova me quedar a sós,/ Deixai-me em paz na minha quieta rua.../ Nada mais quero com nenhum de vós!”. Com os textos curtos e poéticos publicados na coluna “Do Caderno H”, ele iniciou, em 1945, colaboração na revista Província de São Pedro. Muitos textos nesse estilo seriam publicados ao longo de sua fiel colaboração no Correio do Povo, o que não o impediu de lançar o segundo livro de versos, Canções, em 1946, em que, diferentemente do primeiro, se revela moderno, gozando de plena liberdade da forma. A este livro se seguiria Sapato florido, de 1948, com prosa poética e alguns aforismos: “Amar é mudar a alma de casa”, escreveu o poeta nesse livro que precedeu O aprendiz de feiticeiro, de 1950, e Espelho mágico, do ano seguinte. Estes são apenas alguns títulos de uma extensa obra que, não só por extensão, mas por mérito, levou-o a se candidatar a uma vaga na Academia Brasileira de Letras em 1981. Derrotado pelo professor Eduardo Portella, concorreria ainda duas vezes, sem sucesso. “Ainda vou ter a minha imortalidadezinha”, garantia ele à sobrinha, Helena, a quem confiou os papéis de que hoje se compõe seu arquivo. Quintana colecionou dezenas de cadernos em que fermentavam aforismos, muitos deles posteriormente reunidos em livros. “Quinta-essência de cantares…/ Insólitos, ingulares…/ Cantares? Não! Quintanares!”. Assim preferiu se referir Manuel Bandeira aos versos do poeta gaúcho, considerando-os “insólitos, singulares”. Quintana, porém, achava que mais se aproximavam da música angustiada de Mahler. De um modo ou de outro, o autor de Canções pararia de cantar. Antes disso, a prefeitura de Alegrete, sua cidade natal, homenageou-o com uma placa de bronze, para a qual o poeta enviou a seguinte mensagem de inscrição: “Um engano em bronze é um engano eterno”. Certamente não passou de mais de uma de suas divertidas ironias.

Mario Quintana morreu em 5 de maio de 1994, em Porto Alegre.

https://ims.com.br/2017/06/01/sobre-mario-quintana/

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Mário Quintana - Os poemas são pássaros que chegam

* Mário Quintana

Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão.
Eles não têm pouso
nem porto;
alimentam-se um instante em cada
par de mãos e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhado espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

domingo, 29 de janeiro de 2017

Poesia em torno dos gatos

 *   Pablo Neruda - Ode ao gato

Os animais foram
imperfeitos,
compridos  de rabo, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco se foram
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo pintas, graça, vôo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
anda sozinho e sabe o que quer.
O homem quer ser peixe e pássaro
a serpente quisera ter asas,
o cachorro é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta trata de imitar a mosca,
mas o gato
quer ser só gato
e todo gato é gato
do bigode ao rabo,
do pressentimento à ratazana viva,
da noite até os seus olhos de ouro.

Não há unidade
como ele,
não tem
a lua nem a flor
tal contextura:
é uma coisa só
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha em seu contorno
firme e sutil é como
a linha da proa
de uma nave.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para jogara as moedas da noite

Oh pequeno
imperador sem orbe,
conquistador sem pátria
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
das telhas eróticas,
o vento do amor
na imterpérie
reclamas
quando passas
e pousas
quatro pés delicados
no solo,
cheirando,
desconfiando
de todo o terrestre,
porque tudo
é imundo
para o imaculado pé do gato.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginástico
e alheio,
profundissimo gato,
polícia secreta
dos quartos,
insignia
de um
desaparecido veludo,
certamente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
todo o mundo sabe de ti e pertence
ao habitante menos misterioso,
talvez todos acreditem,
todos se acreditem donos,
proprietários, tios
de gatos, companheiros,
colegas,
díscipulos ou amigos
do seu gato.

Eu não.
Eu não subscrevo.
Eu não conheço o gato.
Tudo sei, a vida e seu arquipélago,
o mar e a cidade incalcullável,
a botânica,
o gineceu com os seus extrávios,
o pôr e o mesnos da matemática,
os funis vulcânicos do mundo,
a casaca irreal do crocodilo,
a bondade ignorada do bombeiro,
o atavismo azul do sacerdote,
mas não posso decifrar um gato.
Minha razão resvalou na sua indiferença,
os seus olhos tem números de ouro.

(Navegaciones y Regresos, 1959)


* Mário Quintana - Onírica

Os gatos moles de sono 
rolam laranjas de lã.


* António Gedeão - Poema do Gato

Quem há-de abrir a porta ao gato 
quando eu morrer?
Sempre que pode 
foge prá rua, 
cheira o passeio 
e volta pra trás, mas ao defrontar-se com a porta fechada 
(pobre do gato!) 
mia com raiva desesperada.
Deixo-o sofrer 
que o sofrimento tem sua paga, 
e ele bem sabe.
Quando abro a porta corre pra mim 
como acorre a mulher aos braços do amante. 
Pego-lhe ao colo e acaricio-o 
num gesto lento, 
vagarosamente, 
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele olha-me e sorri, com os bigodes eróticos, 
olhos semi-cerrados, em êxtase, 
ronronando.
Repito a festa, 
vagarosamente. 
do alto da cabeça até ao fim da cauda. 
Ele aperta as maxilas, 
cerra os olhos, 
abre as narinas. 
e rosna. 
Rosna, deliquescente, 
abraça-me
e adormece.
Eu não tenho gato, mas se o tivesse


quem lhe abriria a porta quando eu morresse?


* Bocage - Os dois gatos


Dois bichanos se encontraram 
Sobre uma trapeira um dia: 
(Creio que não foi no tempo 
Da amorosa gritaria).
De um deles todo o conchego 
Era dormir no borralho; 
O outro em leito de senhora 
Tinha mimoso agasalho.

Ao primeiro o dono humilde 
Espinhas apenas dava; 
Com esquisitos manjares 
O segundo se engordava.

Miou, e lambeu-o aquele 
Por o ver da sua casta; 
Eis que o brutinho orgulhoso 
De si com desdém o afasta.

Aguda unha vibrando 
Lhe diz: ''Gato vil e pobre, 
Tens semelhante ousadia 
Comigo, opulento, e nobre?

Cuidas que sou como tu? 
Asneirão, quanto te enganas! 
Entendes que me sustento 
De espinhas, ou barbatanas?

Logro tudo o que desejo, 
Dão-me de comer na mão; 
Tu lazeras, e dormimos 
Eu na cama, e tu no chão.

Poderás dizer-me a isto 
Que nunca te conheci; 
Mas para ver que não minto 
Basta-me olhar para ti.''

''Ui! (responde-lhe o gatorro, 
Mostrando um ar de estranheza) 
És mais que eu? Que distinção 
Pôs em nós a Natureza?

Tens mais valor? Eis aqui 
A ocasião de o provar.'' 
''Nada (acode o cavalheiro) 
Eu não costumo brigar.''

''Então (torna-lhe enfadado 
O nosso vilão ruim) 
Se tu não és mais valente, 
Em que és sup'rior a mim?

Tu não mias?'' - ''Mio.'' - ''E sentes 
Gosto em pilhar algum rato?'' 
''Sim.'' - Eo comes?'' - ''Oh! Se como!...'' 
''Logo não passa de um gato.

Abate, pois, esse orgulho, 
Intratável criatura: 
Não tens mais nobreza que eu; 
O que tens é mais ventura.''

                                                     

in BOCAGE Poemas, Editora Nova Fronteira S/A, 1987 
Envio: Sérgio Gerônimo



* Millôr Fernandes

Gato ao crepúsculo
Poeminha de louvor ao pior inimigo do cão

Gato manso, branco, 
Vadia pela casa, 
Sensual, silencioso, sem função.

Gato raro, amarelado, 
Feroz se o irritam, 
Suficiente na caça à alimentação.

Gato preto, pressago, 
Surgindo inesperado 
Das esquinas da superstição.

Cai o sol sobre o mar.

E nas sombras de mais uma noite, 
Enquanto no céu os aviões 
Acendem experimentalmente suas luzes verde-vermelho-verde, 
Terminam as diferenças raciais.

Da janela da tarde olho os banhistas tardos 
Enquanto, junto ao muro do quintal, 
Os gatos todos vão ficando pardos.


*   Ferreira Gullar - O ronron do gatinho

O gato é uma maquininha 
que a natureza inventou; 
tem pêlo, bigode, unhas 
e dentro tem um motor.
Mas um motor diferente 
desses que tem nos bonecos 
porque o motor do gato 
não é um motor elétrico. 

É um motor afetivo 
que bate em seu coração 
por isso faz ronron 
para mostrar gratidão.

No passado se dizia 
que esse ronron tão doce 
era causa de alergia 
pra quem sofria de tosse.

Tudo bobagem, despeito, 
calúnias contra o bichinho: 
esse ronron em seu peito 
não é doença - é carinho.

     
* Charles Baudelaire - O Gato (Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux)


   Vem cá, meu gato, aqui no meu regaço; 
   Guarda essas garras devagar, 
   E nos teus belos olhos de ágata e aço 
   Deixa-me aos poucos mergulhar.
   Quando meus dedos cobrem de carícias 
   Tua cabeça e o dócil torso, 
   E minha mão se embriaga nas delícias 
   De afagar-te o elétrico dorso,

   Em sonho a vejo. Seu olhar, profundo 
   Como o teu, amável felino, 
   Qual dardo dilacera e fere fundo,

   E, dos pés a cabeca, um fino 
   Ar sutil, um perfume que envenena 
   Envolvem-lhe a carne morena. 
  


Viens, mon beau chat, sur mon coeur amoureux; 
Retiens les griffes de ta patte, 
Et laisse-moi plonger dans tes beaux yeux, 
Mêlés de métal et d'agate.
Lorsque mes doigts caressent à loisir 
Ta tête et ton dos élastique, 
Et que ma main s'enivre du plaisir 
De palper ton corps électrique,

Je vois ma femme en esprit. Son regard, 
Comme le tien, aimable bête, 
Profond et froid, coupe et fend comme un dard,

Et des pieds jusques à la tête, 
Un air subtil, un dangereux parfum, 
Nagent autour de ton corps brun.



* Charles Baudelaire - Le Chat (Dans ma cervelle se promène) 


Dans ma cervelle se promène, 
Ainsi qu'en son appartement, 
Un beau chat, fort, doux et charmant. 
Quand il miaule on l'entend à peine,

Tant son timbre est tendre et discret; 
Mais que sa voix s'apaise ou gronde, 
Elle est toujours riche et profonde. 
C'est là son charme et son secret.

Cette voix, qui perle et qui filtre, 
Dans mon fonds le plus ténébreux, 
Me remplit comme un vers nombreux 
Et me réjouis comme un philtre.

Elle endort les plus cruels maux 
Et contient toutes les extases; 
Pour dire les plus longues phrases, 
Elle n'a pas besoin de mots;

Non, il n'est pas d'archet qui morde 
Sur mon coeur, parfait instrument, 
Et fasse plus royalement 
Chanter sa plus vibrante corde,

Que ta voix, chat mystérieux, 
Chat séraphique, chat étrange, 
En qui tout est, comme en un ange, 
Aussi subtil qu'harmonieux!

- De sa fourrure blonde et brune 
Sort un parfum si doux, qu'un soir 
J'en fus embaumé, pour l'avoir 
Caressée une fois, rien qu'une.

C'est l'esprit familier du lieu; 
Il juge, il préside, il inspire 
Toutes choses dans son empire; 
Peut-être est-il fée est-il dieu?

Quand mes yeux, vers ce chat que j'aime 
Tirés comme par un aimant, 
Se retournent docilement 
Et que je regarde en moi-même,

Je vois avec étonnement 
Le feu de ses prunelles pâles, 
Clairs fanaux, vivantes opales, 
Qui me contemplent fixement.

                                                                  *                

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

outono na poesia e nas canções


foto Victor Nogueira - Cela (Coutos de Alcobaça) 
 pôr-do-sol na herdade que foi do General Humberto Delgado

Outono, dos contrastes: dias cálidos ou frígidos, soalheiros ou pluvientos, risonhos ou cinzentonhos, dos poentes tingidos de vermelho ou laranja e as árvores, despindo-se em tons de amarelo, atapetando ruas e jardins de melancólicas folhas secas, esquálidos e despidos ramos erguendo-se por aqui e por ali, com a noite crescendo à custa da diurna claridade minguando.

 Deixo-vos uma selecção do "outono na poesia e nas canções" 

Os poetas ...

Olavo Bilac - Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas 
Ricardo Reis - Quando, Lídia, Vier o Nosso Outono
Eugénio de Andrade - Outono
David Mourão-Ferreira - Outono
Fernando Pessoa - Uma névoa de Outono o ar raro vela
Miguel Torga - Outono
Mário Quintana - Outono
Cecília Meireles - Canção de Outono
José Afonso - Balada de Outono

... e as vozes
Eric Clapton
Yves Montand
Leo Ferré
Juliette Greco
Chet Baker e Paul Desmond 
Natalie Cole
José Afonso



* Olavo Bilac


Outono. Em frente ao mar. Escancaro as janelas 
Sobre o jardim calado, e as águas miro, absorto. 
Outono... Rodopiando, as folhas amarelas 
Rolam, caem. Viuvez, velhice, desconforto... 

Por que, belo navio, ao clarão das estrelas, 

Visitaste este mar inabitado e morto, 
Se logo, ao vir do vento, abriste ao vento as velas, 
Se logo, ao vir da luz, abandonaste o porto? 

A água cantou. Rodeava, aos beijos, os teus flancos 

A espuma, desmanchada em riso e flocos brancos... 
Mas chegaste com a noite, e fugiste com o sol! 

E eu olho o céu deserto, e vejo o oceano triste, 

E contemplo o lugar por onde te sumiste, 
Banhado no clarão nascente do arrebol... 

Olavo Bilac, in "Poesias" 

* Ricardo Reis

Quando, Lídia, vier o nosso outono 
Com o inverno que há nele, reservemos 
Um pensamento, não para a futura 
Primavera, que é de outrem, 
Nem para o estio, de quem somos mortos, 
Senão para o que fica do que passa 
O amarelo atual que as folhas vivem 
E as torna diferentes. 

Ricardo Reis, in "Odes" 


Heterónimo de Fernando Pessoa 

* Eugénio de Andrade

Outono

O outono vem vindo, chegam melancolias, 
cavam fundo no corpo, 
instalam-se nas fendas; às vezes 
por aí ficam com a chuva 
apodrecendo; 
ou então deixam marcas; as putas, 
difíceis de apagar, de tão negras, 
duras. 

Eugénio de Andrade, in 'O Outro Nome da Terra"

* David Mourão-Ferreira

Outono

Mas quem diria ser Outono
se tu e eu estávamos lá?
(Tínhamos sono…Tanto sono!
É bom dormir ao deus-dará…)

E sobre o banco do jardim,
ante a cidade, o cais e o Tejo,
seria bom dormir assim,
ao deus-dará, como eu desejo…

Mas o teu seio é que não quis:
tremeu de mais sob o meu rosto…

Seria Outono aquele dia,
nesse jardim, doce e tranquilo…?

                         Mas havia
todo o teu corpo a desmenti-lo.

in Obra Poética

* Fernando Pessoa

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.
Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.
Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta               [...]

5-11-1932
Poesias Inéditas (1930-1935). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1955 (imp. 1990).  - 104.


*  Miguel Torga

​​Outono

Tarde pintada 
Por não sei que pintor. 
Nunca vi tanta cor 
Tão colorida! 
Se é de morte ou de vida, 
Não é comigo. 
Eu, simplesmente, digo 
Que há fantasia 
Neste dia, 
Que o mundo me parece 
Vestido por ciganas adivinhas, 
E que gosto de o ver, e me apetece 
Ter folhas, como as vinhas. 

in Diário X, s/editora, 1966, Coimbra

* Mário Quintana

Outono

O outono toca realejo
No pátio da minha vida.
Velha canção, sempre a mesma,
Sob a vidraça descida…

Tristeza? Encanto? Desejo?
Como é possível sabê-lo?
Um gozo incerto e dorido
De carícia a contrapelo…

Partir, ó alma, que dizes?
Colher as horas, em suma…
Mas os caminhos do Outono
Vão dar em parte nenhuma!


(Poema publicado originalmente no livro Canções, retirado de Poesia Completa – Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2005, p. 131) – contribuição de Sonia Regina Villarinho


* Cecília Meireles

Canção de Outono

Perdoa-me, folha seca, 
não posso cuidar de ti.
Vim para amar neste mundo, 
e até do amor me perdi.
De que serviu tecer flores
pelas areias do chão 
se havia gente dormindo 
sobre o próprio coração?

E não pude levantá-la!
Choro pelo que não fiz.
E pela minha fraqueza
é que sou triste e infeliz.
Perdoa-me, folha seca!
Meus olhos sem força estão
velando e rogando aqueles 
que não se levantarão...

Tu és folha de outono 
voante pelo jardim.
Deixo-te a minha saudade
- a melhor parte de mim.
E vou por este caminho,
certa de que tudo é vão.
Que tudo é menos que o vento,
menos que as folhas do chão...

in Poesia completa: Volume 2. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 2001

* José Afonso 

Balada de Outono

Águas passadas do rio
Meu sono vazio
Não vão acordar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Águas do rio correndo
Poentes morrendo
P'ras bandas do mar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar

Rios que vão dar ao mar
Deixem meus olhos secar
Águas das fontes calai
Ó ribeiras chorai
Que eu não volto a cantar











quarta-feira, 8 de junho de 2016

poemas sobre a amizade

* Vinícius de Moraes

Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...


* Mário  Quintana

DA DISCRIÇÃO

Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...
 
Shakespeare
SONETO CV

Não chame o meu amor de Idolatria 
Nem de ídolo realce a quem eu amo, 
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo. 
É hoje e sempre o meu amor galante, 
Inalterável, em grande excelência; 
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença. 
'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo; 
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento; 
E em tal mudança está tudo o que primo, 
Em um, três temas, de amplo movimento. 
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora; 
Num mesmo ser vivem juntos agora. 

Carlos Drummond de Andrade
Sociedade 

O homem disse para o amigo:
- Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.

O amigo enfeitou a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.

O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.

Quando foi a hora de sair,
o amigo disse para o homem:
- Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.

No caminho o homem resmunga:
- Ora essa, era o que faltava.
E a mulher ajunta: - Que idiota.

- A casa é um ninho de pulgas.
- Reparaste o bife queimado ?
O piano ruim e a comida pouca.

E todas as quintas-feiras
eles voltavam à casa do amigo 
que ainda não pôde retribuir a visita.