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quinta-feira, 23 de julho de 2026

Daniel Oliveira - Os Estados Unidos eram mesmo um modelo de democracia?

* Daniel Oliveira

"A shining city upon a hill." Era assim que os Estados Unidos se viam e queriam que o mundo os visse — um modelo, um farol, uma democracia exemplar. Durante décadas, o mundo acreditou. Trump não criou as fragilidades que esta narrativa escondia. Mas tornou impossível continuar a ignorá-las. Um exercício de memória e de factos sobre o maior mito político do século XX

"City upon a hill." A expressão vem de um sermão de 1630, antes ainda de existir nação. John Winthrop usou-a para descrever uma comunidade cristã exemplar. Ronald Reagan ressuscitou-a, acrescentou-lhe “shining” e transformou-a em marca geopolítica: os Estados Unidos como farol do mundo livre, modelo que os outros deviam imitar. Durante décadas, o mundo — e os próprios americanos — aceitou a narrativa com uma deferência que raramente se concede a outros países. Havia razões para isso.

domingo, 10 de março de 2024

António Guerreiro – As sondagens: modo de usar

 CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

* António Guerreiro

 7 de Março de 2024 

 

A política-espectáculo cresce à medida que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que é cada vez menos soberano.

 

Um dos slogans inventados no Maio de 68, às vezes recordado como uma peça de arqueologia revolucionária, como muitos outros surgidos nesse tempo, desdenhava alegremente do acto essencial da afirmação da democracia: “Élections, piège à cons”. Traduzido em português nunca funcionaria porque perde a rima e o ritmo prosódico: “Eleições, armadilha para imbecis”.

 

Actualmente, não existe no espectro político nenhum extremo que ouse pôr em causa o formalismo democrático do voto. “Porquê votar?” não é pergunta que hoje se faça publicamente e com um alcance político programático. Em contrapartida, tem aumentado incessantemente os que se interrogam – “Em quem votar?” – até ao momento de colocar a cruz no boletim e os que, incapazes de decidir, engrossam as fileiras dos abstencionistas.

 

Os “indecisos” tornaram-se uma categoria decisiva. Por isso é que as sondagens, outrora tão fiáveis, se tornaram um deficiente instrumento de medição do resultado final. Podemos pressentir que se deu um fenómeno de inversão ou de reversibilidade: as sondagens, que dantes calculavam com precisão as intenções de voto sem interferir nelas de maneira significativa, tornaram-se um elemento que determina, em última instância, a escolha do eleitor. O eleitor informado toma as sondagens para calcular o sentido do seu voto.

 

Evidentemente, isso deu-se à medida que se multiplicaram as sondagens pré-eleitorais e que os cidadãos aprenderam a lê-las e a avaliá-las na sua dimensão performativa, isto é, enquanto acção pragmática. Mas tal aconteceu porque aumentou o voto estratégico que oscila em função das configurações da paisagem eleitoral, das posições dos partidos nos rankings. Isto significa que as sondagens, através deste processo de retroacção, entram ilegitimamente no jogo eleitoral? Se elas, afinal, são um instrumento do cálculo do eleitor e não a sua instrumentalização, então não devemos tirar essa conclusão. O problema está noutro lado: na modalidade do discurso político que engendrou este cidadão-termostato cuja acção é profundamente uma reacção.

 

Vivemos colectivamente (refiro-me ao espaço público mediático), durante estas últimas semanas, sob o primado da política dos políticos e da política dos media. A cena política, em momentos como este, transforma-se numa arena onde cada um exibe uma virtual potência de decisão em todos os domínios da sociedade. Sabemos, no entanto, que tanta vontade e preparação para fazer mil e uma coisas não passa de tagarelice por várias razões: porque quem chega ao poder governamental tem de se conformar com uma fraca soberania, só pode agir respeitando os poderes formais e informais das instituições europeias, das contingências internacionais do mundo globalizado (as guerras, as crises económicas, os ditames da grande finança mundial, etc.); porque a classe política, por mais que tenha a seu cargo a acção administrativa e gestionária, não consegue realizar o que propõe nos seus discursos porque se confronta com o condicionamento dos poderes burocráticos.


Há uma regra que não devemos esquecer: a política-espectáculo cresce à medida que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que é cada vez menos soberano.

 

Este discurso funciona sob o signo da infantilização. Por todo o lado a política é vista como uma vulgata para crianças retardadas. E as campanhas eleitorais não são mais do que um simulacro. Mas talvez esta seja uma condição benévola: muito pior seria que não se cumprissem os protocolos para salvar as aparências que asseguram, apesar de tudo, alguma estabilidade do sistema.

 

Seria, no entanto, muito interessante saber em que acreditam verdadeiramente os protagonistas políticos, quando já estão fora do jogo eleitoral. Ao contrário do que se passa noutros domínios de actividade, este é um campo onde raramente se pratica o metadiscurso, o desdobramento reflexivo: há um pathos de primeiro grau que sobrevive e se torna duro como pedra em quem ocupou cargos políticos de relevo. Entre nós, Cavaco Silva ilustra com uma rara intensidade expressiva esta persistência do discurso naïf de primeiro grau.

 

Livro de Recitações

“Travar a crise climática não está na mesa de voto

Slogan do movimento máximo

 

Entre as várias razões que tornam inadequado e até contraproducente alguns aspectos do discurso e da acção destes “activistas” (tratarei de analisar em breve esse discurso) está o uso da expressão “crise climática”.

 

É certo que ela chega até nós mediada por muitas instâncias e entrou na linguagem corrente. Mas quem assumiu a missão – louvável e grandiosa – de alertar a opinião pública para este problema e levar os poderes políticos e económicos a agir de modo a interromper uma desastrosa corrida tem de começar por rejeitar a linguagem que neste campo é acriticamente usada e transmitida: a metáfora da “crise”, que até na política e na economia tem muitas vezes um objectivo de ocultação, revela-se pouco certeira para designar as alterações climáticas. As crises são momentos breves no curso das sociedades, correspondem a situações temporárias em que se dá uma perturbação do que antes dela era a normalidade.

 


A saída de uma crise implica, em maior ou menor grau, uma metamorfose. Ora, aquilo que é designado como “crise climática” afecta o receptáculo de todas as nossas actividades, não é uma “crise” particular e localizada.

 

 E, ainda mais importante, a temporalidade dos acontecimentos ambientais não tem nada que ver com a temporalidade das perturbações sociais e políticas que a palavra “crise” designa: trata-se de uma temporalidade que se situa numa escala geológica. 

  

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Francisco Louçã - O pensamento mágico

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7 de Abril de 2017, 10:46

Por

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O pensamento mágico

P
aulo Portas terá dito recentemente a uma ilustre plateia: “Quanto mais vejo referendos, primárias e directas e as suas consequências, mais admiro o método cardinalício: um colégio de 120 pessoas, todos nomeados e nenhum eleito, mas com a ajuda do Espírito Santo, foram capazes de eleger papas como Wojtyla e Francisco quando foi necessário mudar o mundo”. Escândalo? Manifesto anti-democrático? Teocracia reinventada? Voltamos à Idade Média? Calma, parem as sirenes, era uma piada.
Nada indica que a direita, pese embora as disfarçadas inclinações monárquicas e teocráticas que povoam o CDS, se oriente para um modelo constitucional em que se atribua ao Divino Espírito Santo, na sua infinita misericórdia, a escolha do Presidente, governo e juntas de freguesia. Era mesmo uma piada.
Mas temos um problema a bordo. É que os métodos que foram inventados com a missão solene de refrescar a democracia cerimonial, a que se baseia na distante convocação dos eleitores de quatro em quatro anos, cansada que ela vai, não resultaram e até, todos eles, agravaram o problema. Círculos uninominais? Aumentam o risco de corrupção. Primárias? Um bom truque para um partido tentar recrutar apoios fingindo que escuta a sociedade. Referendos? O poder europeu impediu referendos prometidos e chora os que não conseguiu evitar. Participação na internet? As caixas de comentários são geralmente lixeiras e o frenesim vingativo de alguns maníacos não é prova de vigor comunicacional. Sondagens? Já vimos como são manipuladas.
Na verdade, ainda temos um problema mais grave: é que a democracia foi sempre vista com desconfiança pela burguesia – já passavam cento e cinquenta anos desde o seu triunfo e ainda se recusava o sufrágio universal, que só se generaliza no final do século XX (e ainda não chegou a todo o mundo).
Este preconceito social tem antecedentes. Heródoto, nas suas “Histórias”, condenava a democracia e as suas palavras retinem ainda hoje: “quando nos exorta a colocarmos o poder supremo nas mãos do povo, afasta-se do bom caminho. Nada mais insensato e insolente do que uma multidão inconsequente. Procurando evitar-se a insolência de um tirano, cai-se sob a tirania do povo sem freios. Haverá coisa mais insuportável? Quando o soberano toma uma medida, sabe bem por que a toma; o povo, ao contrário, não usa a inteligência nem a razão”. E concluía modestamente: “quanto a nós, escolhamos homens virtuosos e coloquemos o poder em suas mãos. Acho que podemos incluir-nos nesse número, e, de acordo com a lógica, os homens sensatos e esclarecidos só podem dar excelentes conselhos”.
Velharias? Não tanto. James Buchanan, prémio Nobel da Economia, explicava numa reunião da Sociedade de Monte Peregrino, o Olimpo dos nossos neoliberais, que “a manutenção da sociedade livre pode bem depender de serem retiradas certas decisões da determinação por voto maioritário”, e o governador do Banco da Alemanha, Hans Tietmeyer, acrescentaria que preferia o “plebiscito dos mercados” ao das urnas.
É por isto que as evocações de um pensamento mágico sobre a condução da sociedade devem merecer atenção. Não por causa do divino espírito santo, coitado, mas por causa de Heródoto: a substituição da democracia pela tirania (dos tecnocratas, do BCE, da Comissão Europeia acima dos eleitos, ou de outra qualquer forma moderna) é a forma de governar que nos foi imposta. O poder que pode evoca então um destino mítico para substituir a capacidade de escolha legítima pelos homens e mulheres: deve haver austeridade por ser a exigência de “reformas estruturais”; deve ser entregue o Novo Banco por ser a lógica dos mercados; devem ser cortados os salários por que a agências de notação assim o preferem. Perante qualquer dificuldade de monta, a justificação é sempre mágica, o que constitui o mais radical afastamento da ideia democrática.
A triste lógica do “mal menor”, na sua fatal desistência da inteligência, arrasta a Europa para a substituição dos contratos sociais de inclusão e de bem-estar pela ordem da exclusão e mal-estar. O centro, tão radical nessa desistência, reconhece que a legitimidade democrática é um perigo para a governação neoliberal e, por isso, deve ser substituída pela autoridade mágica, que se conforta com o poder político autoritário. Que ninguém se espante então com Trump, ou com Orban, ou com Dijsselbloem, ou com o que vem a seguir.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/04/07/o-pensamento-magico/

quarta-feira, 29 de junho de 2011

O Último Discurso em "O Ditador" por Charles Chaplin



Carregado por  em 11 de Ago de 2008

O Último Discurso
O Grande Ditador

Charles Chaplin
Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar - se possível - judeus, o gentio ... negros ... brancos.


Todos nós desejamos ajudar uns aos outros. Os seres humanos são assim. Desejamos viver para a felicidade do próximo - não para o seu infortúnio. Por que havemos de odiar ou desprezar uns aos outros? Neste mundo há espaço para todos. A terra, que é boa e rica, pode prover todas as nossas necessidades.


O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém nos extraviamos. A cobiça envenenou a alma do homem ... levantou no mundo as muralhas do ódio ... e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criamos a época da velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria. Nossos conhecimentos fizeram-nos céticos; nossa inteligência, emperdenidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos bem pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.

A aviação e o rádio aproximaram-se muito mais. A próxima natureza dessas coisas é um apelo eloqüente à bondade do homem ... um apelo à fraternidade universal ... à união de todos nós. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões de pessoas pelo mundo afora ... milhões de desesperados, homens, mulheres, criancinhas ... vítimas de um sistema que tortura seres humanos e encarcera inocentes. Aos que me podem ouvir eu digo: "Não desespereis!" A desgraça que tem caído sobre nós não é mais do que o produto da cobiça em agonia ... da amargura de homens que temem o avanço do progresso humano. Os homens que odeiam desparecerão, os ditadores sucumbem e o poder que do povo arrebataram há de retornar ao povo. E assim, enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá.

Soldados! Não vos entregueis a esses brutais ... que vos desprezam ... que vos escravizam ... que arregimentam as vossas vidas ... que ditam os vossos atos, as vossas idéias e os vossos sentimentos! Que vos fazem marchar no mesmo passo, que vos submetem a uma alimentação regrada, que vos tratam como um gado humano e que vos utilizam como carne para canhão! Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar ... os que não se fazem amar e os inumanos.

Soldados! Não batalheis pela escravidão! lutai pela liberdade! No décimo sétimo capítulo de São Lucas é escrito que o Reino de Deus está dentro do homem - não de um só homem ou um grupo de homens, mas dos homens todos! Estás em vós! Vós, o povo, tendes o poder - o poder de criar máquinas. O poder de criar felicidade! Vós, o povo, tendes o poder de tornar esta vida livre e bela ... de fazê-la uma aventura maravilhosa. Portanto - em nome da democracia - usemos desse poder, unamo-nos todos nós. Lutemos por um mundo novo ... um mundo bom que a todos assegure o ensejo de trabalho, que dê futuro à mocidade e segurança à velhice.

É pela promessa de tais coisas que desalmados têm subido ao poder. Mas, só mistificam! Não cumprem o que prometem. Jamais o cumprirão! Os ditadores liberam-se, porém escravizam o povo. Lutemos agora para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, dar fim à ganância, ao ódio e à prepotência. Lutemos por um mundo de razão, um mundo em que a ciência e o progreso conduzam à ventura de todos nós. Soldados, em nome da democracia, unamo-nos.

Hannah, estás me ouvindo? Onde te encontres, levanta os olhos! Vês, Hannah? O sol vai rompendo as nuvens que se dispersam! Estamos saindo da treva para a luz! Vamos entrando num mundo novo - um mundo melhor, em que os homens estarão acima da cobiça, do ódio e da brutalidade. Ergues os olhos, Hannah! A alma do homem ganhou asas e afinal começa a voar. Voa para o arco-íris, para a luz da esperança. Ergue os olhos, Hannah! Ergue os olhos!
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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Abraham Lincoln e o Discurso de Gettysburg



Home » De Olho na História

Abraham Lincoln e o Discurso de Gettysburg

Publicado por Gabriel Perboni em 1 de março de 2011 – 01:502 Comentários
O discurso de Gettysburg foi, sem sombra dúvida, o mais importante discurso já feito por um presidente dos Estados Unidos em termos de significância e relevância para o momento social, econômico e político de uma época. Realizado em 19 de novembro de 1863, em meio ao caos da Guerra de Secessão e por ocasião da inauguração de um cemitério para vítimas da batalha, o discurso do presidente Abraham Lincoln serviu para acalmar os ânimos e despertar um sentimento patriótico na população que, até então, pelo enorme número de mortes na guerra, estava se voltando contra o governo de Lincoln.

O DISCURSO DE GETTYSBURG, EM PORTUGUÊS

Acompanhe o vídeo com a reconstituição do discurso de Gettysburg enquanto lê a tradução das palavras de Abraham Lincoln.

Lincoln em Gettysburg
Lincoln em Gettysburg

“Há 87 anos, os nossos pais deram origem neste continente a uma nova Nação, concebida na Liberdade e consagrada ao princípio de que todos os homens nascem iguais.
Encontramo-nos atualmente empenhados numa grande guerra civil, pondo à prova se essa Nação, ou qualquer outra Nação assim concebida e consagrada, poderá perdurar. Eis-nos num grande campo de batalha dessa guerra. Eis-nos reunidos para dedicar uma parte desse campo ao derradeiro repouso daqueles que, aqui, deram a sua vida para que essa Nação possa sobreviver. É perfeitamente conveniente e justo que o façamos.
Mas, numa visão mais ampla, não podemos dedicar, não podemos consagrar, não podemos santificar este local. Os valentes homens, vivos e mortos, que aqui combateram já o consagraram, muito além do que nós jamais poderíamos acrescentar ou diminuir com os nossos fracos poderes.
O mundo muito pouco atentará, e muito pouco recordará o que aqui dissermos, mas não poderá jamais esquecer o que eles aqui fizeram.
Cumpre-nos, antes, a nós os vivos, dedicarmo-nos hoje à obra inacabada até este ponto tão insignemente adiantada pelos que aqui combateram. Antes, cumpre-nos a nós os presentes, dedicarmo-nos à importante tarefa que temos pela frente – que estes mortos veneráveis nos inspirem maior devoção à causa pela qual deram a última medida transbordante de devoção – que todos nós aqui presentes solenemente admitamos que esses homens não morreram em vão, que esta Nação, com a graça de Deus, renasça na liberdade, e que o governo do povo, pelo povo e para o povo jamais desapareça da face da terra.”

CENÁRIO

Soldados mortos em Gettysburg
Soldados mortos em Gettysburg
Entre os dias 1 e 3 de julho de 1863, mais de 170 mil soldados dos Estaodos Unidos e dos Estados Confederados travaram uma batalha que viria a ser o ponto de virada da Guerra de Secessão. O conflito aconteceu em Gettysburg, Pennsylvania, uma cidade que, na época, tinha apenas 2.400 habitantes.
Após a batalha, embora exista alguma controvérsia a respeito dos números, mais de 7 mil soldados e 3 mil cavalos jaziam mortos pelos campos de Gettysburg, deixando em estado de choque a minúscula população da cidade. Ainda sentindo os efeitos morais da batalha e sob um forte cheiro de corpos em decomposição, os poucos milhares de habitantes de Gettysburg decidiram que precisavam, e isso era uma prioridade, dar um fim digno aos soldados e enterrá-los da maneira mais respeitosa possível.
A cidade ia construir um cemitério, enterrar os corpos e cobrar os custos das famílias dos soldados, mas David Wills, rico advogado de Gettysburg, não concordou com essa idéia e escreveu uma carta para o governador da Pennsylvania, Andres Gregg Curtin, sugerindo a criação de um cemitério público, financiado pelo Estado. E assim foi feito!
Abraham Lincoln, então presidente dos Estados Unidos, era apenas um entre muitos convidados para a solenidade e seu curto discurso seria apenas uma mera formalidade protocolar, não fosse pela sagacidade de Lincoln em utilizar o momento para se auto-promover e limpar uma parte da mancha de sangue que encobria seu governo.

VALOR POLÍTICO DO DISCURSO DE GETTYSBURG

Memorial do Discurso de Lincoln
Memorial do Discurso de Lincoln
Os números da Guerra de Secessão, em agosto de 1863, registravam mais de 250 mil nomes na lista de mortes e isso passou a gerar um grande desconforto no governo de Abraham Lincoln que aumentava cada vez mais conforme aumentavam, também, os sentimentos anti-guerra e, aí sim vem o problema, anti-Lincoln. A “facção pacificadora” do Partido Democrata torcia para o tempo passar depressa, assim chegariam as eleições de 1864 e Lincoln seria derrubado facilmente devido à enorme antipatia que a população vinha alimentando por ele.
Curtin, governador da Pennsylvania, alertou Lincoln sobre os perigos da opinião pública se voltar contra os esforços de guerra, dizendo que as probabilidades dele ser re-eleito eram baixas e que os líderes dos Democratas eram hábeis em discursar com paixão e estavam envenenando a mente da população.
Convencido de que a oposição o derrubaria, Lincoln voltou-se a um projeto pessoal para trazer a opinião pública de volta para si e mostrar a todos que os esforços de guerra eram necessários.
Não podemos afirmar que apenas a realização de um discurso na cerimônia inaugural de um cemitério tenha virado a mesa no jogo da opinião pública, mas a astúcia de Lincoln em invocar os Pais Fundadores da Nação, a independência, a constituição e o espírito de liberdade que dela emana, foi algo genial que, isso sim, iniciou uma mudança no sentimento geral quanto à guerra. Pessoas que antes eram contra os esforços de guerra e bradavam pelo fim das batalhas e concessões aos Estados Confederados, agora achavam que a luta pela liberdade era a única maneira de manter viva a memória e os ideais dos homens que haviam lutado pela fundação de seu país.
Historicamente recente naquela época, a declaração da independência dos Estados Unidos, libertando-se do julgo inglês, foi o principal instrumento que Lincoln usou como ferramenta para manter a guerra viva e a opinião pública positivamente ao seu lado.
O único “erro” do discurso de Lincoln, talvez por falsa modéstia, foi afirmar que suas palavras seriam esquecidas.
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Os desencantos de Rachel (de Queiroz) e "A Arte de Ser Avó"


Entrevista

(14-01-89) Título: Os Desencantos de Rachel
Foto de Rachel de Queiroz
Aos 18 anos de idade, ela escreveu um romance que abriu um novo ciclo na literatura brasileira. Já se passaram sessenta anos e Rachel de Queiroz confessa hoje que passaria muito bem sem fazer literatura. E revela seu desencanto com a política, depois de períodos de militância comunista e trotskista.


A sra. publicou O Quinze com apenas 20 anos de idade, cuja tendência social e o estilo neonaturalista abriu uma nova fase na ficção brasileira com um modo novo de retratar os problemas do homem e da terra do Nordeste. Como foi aquela experiência e como eram aqueles anos? Eu escrevi O Quinze entre 18 e 19 anos e publiquei aos 20. Eu faço questão dessa história da idade porque acho o livro muito maduro. Aliás, quando ele saiu, não tinha feito 20. Eu fiz 20 em novembro e o livro saiu em agosto. Primeiro, que quando escrevi o livro, não tinha idéia nenhuma de fazer algum tratado de Sociologia, nem de dar o primeiro pontapé na literatura nordestina, nada dessas ambições. Eu nasci numa casa de intelectuais. Meus pais eram intelectuais. Era uma casa de livros, então escrever era uma atividade natural. Com 16 anos comecei a fazer jornalismo profissional. Com essa idade já estava profissionalizada, tomando conta das páginas literárias dos jornais de Fortaleza, escrevendo semanalmente uma crônica.
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A sra. já havia visto uma seca antes?Curiosamente nunca tinha visto uma seca, porque a seca de 15, que se retrata no livro, tinha quatro anos de idade. Já a seca de 19, nós estávamos morando no Pará. Mas o cenário do sertão, tão parecido com os tempos de seca, a tradição moral lá é tão grande, a tradição da seca, as conversas aqui e ali sobre a seca... tudo aquilo me veio com toda a naturalidade, que com este tema escrevi o meu primeiro romance. A primeira grande seca a que assisti foi em 1932. Agora, quanto ao tipo de literatura que eu fazia... na Semana de Arte Moderna tinha 11 anos, mas aos 14 e aos 15 ainda haviam as repercussões, quando comecei a me interessar mais diretamente por literatura. E o que havia de literatura de seca no Nordeste era uma literatura muito carregada do naturalismo do final do século, muito pesada, com muito defunto e muito urubu, muita coisa assim, com uma visão meio sangrenta, sanguinária, digamos. Já eu sempre fui uma pessoa muito moderada no que escrevo, é fácil de ver, não gosto muito das notas sensacionalistas... procurei fazer um tipo de livro que fosse realmente só um testemunho, quase que só um depoimento.
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Qual o sentido da literatura na sua vida?Eu não tenho paixão pela literatura. Eu não acho a literatura essencial na minha vida. Nunca pus a literatura à frente dos outros problemas da minha vida. A literatura, para mim, é vocação e profissão. É o que sei fazer, o que tenho mais jeito para fazer e disso vivo. Não é mais que isso. Eu não sublimo a literatura no meu ideal de vida. Eu passaria muito bem sem fazer literatura. Eu gosto da vida, gosto das pessoas, gosto do pensamento ds pessoas. Sou apaixonada pelo ser humano.
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Em que sentido a sra. foi sentindo os reflexos da mudança dos anos 20/30?Nos anos 20, confesso que era muito novinha, tendo vivido sob a tutela paterna. Comecei a trabalhar em 27, e lá em casa meus pais sempre me deram bastante liberdade. Eles eram meus companheiros, quer dizer, nós tínhamos um entrosamento muito bom na minha família. Eu tinha 3 irmãos homens, aliás quatro, porque tinha um que era o meu irmão adotivo. Sempre vivi muito bem entrosada, de que a vida familiar era muito fechada em torno de mim. Eles me ampararam, me ajudaram e me deram a liberdade que carecia. Eu comecei a viajar cedo. Quando ganhei o prêmio Graça Aranha, vim sozinha aqui pro Rio. Eu tinha 20 anos, e vim receber o prêmio. Eu sempre me atribuí o direito de ser livre. Naturalmente que nos meus livros todos aparece este drama da liberação da mulher, porque realmente a mulher vem lutando. Eu nunca fui feminista. Acho que Deus fez o homem e a mulher para serem um complemento um do outro, na união e no bem. Eu acho que homem e a mulher são companheiros e sócios. Se o papel de mulher escrava realmente me repele, mas também o papel de mulher mandona, feminista, inimiga do homem, me repele também. De forma que fui acompanhando, com a espécie de uma posição privilegiada, porque tinha a cobertura da minha família e também dos grupos com quem me entendia.
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Que grupos eram esses?Eu comecei a ficar interessada em política social já em 28/29. Eu comecei a me interessar pelo que restava do Bloco Operário Camponês em Fortaleza. Eu comecei a tomar parte dos grupos de esquerda que estavam se congregando para formar o primeiro núcleo do Partido Comunista. Quando vim para cá, no começo de 31, já me entrosei com o pessoal do Partido, e foi o meu período de militância comunista. Foi de 31/32 a começo de 33. Foi aí que briguei com o Partido. Entrei em choque com eles, e então me aproximei de Livio Xavier e daquele grupo deles de São Paulo. Fui morar em São Paulo, e lá fiquei com os trotskistas, onde fiquei com Aristides Lobo, Plíneo Melo, Mário Pedrosa, Lívio Xavier, enfim, com a elite intelectual dos esquerdistas, de lá, e fui bem recebida por eles, muito carinhosamente. A pronvíncia funciona muito nas grandes cidades e se defende. Tem os seus núcleos. O Lívio era cearense, o Mário Pedrosa era paraibano, Aristides era mineiro, de forma que São Paulo é muito acolhedora. Ao contrário do que se diz, tenho uma gratidão muito grande por São Paulo. Eu cheguei a São Paulo, no ano seguinte da revolução de 32. São Paulo estava ainda lambendo as feridas da derrota, do esmagamento, que o Getúlio impôs. E iam tropas nordestinas que Getúlio malignamente pôs para esmagar São Paulo, para criar uma odiosidade entre as províncias, e, no entanto, fui recebida com a maior generosidade e carinho. Estes dois anos que passei em São Paulo, no começo da minha vida, foram marcados por um período muito bom, do ponto de vista de amizades, de começo de carreira, de começo profissional, inclusive fui professora lá. Eu ainda não tinha posição jornalística que me assegurasse na manutenção. Eu fui professora particular lá em São Paulo, me filiei ao Sindicato de professores de ensino livre, que era controlado naquele tempo pelos trotskistas.
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E a sra. se desencantou dessa militância partidária?Sim, a do Partido Comunista, sim, a dos trotskistas, nunca houve uma militância regular. No começo, nós éramos uma fração do Partido Comunista, uma fração rebelde, expulsa, traidora, não sei o quê. Então, não tínhamos uma militância organizada, regular, com células, reuniões etc... Depois, fui para o norte em 34 e fiquei lá até 39. Vinha ao Rio, ocasionalmente, mas fiquei lá até 39, e lá, realmente, os trotskistas não tinham a menor expressão como política... a gente se aliava... os trotskistas, os poucos se aliavam, em geral, aos socialistas. Em 34, por exemplo, recebi ordem do pessoal de São Paulo para aceitar uma candidatura para deputado estadual pelo Ceará, dentro do Partido Socialista, mas, parece que nós ganhamos a eleição, mas, aquele era o tempo das fraudes, o tempo delirante das fraudes...
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Essa questão de organização partidária me fez pensar em certas estruturas político-partidárias dos dias de hoje...O Partido Comunista sempre foi o modelo de quase todos esses partidos de esquerda daqui, e o modelo das comunidades eclesiais de base são as células do Partido Comunista. Quando me interessei pelo Partido, aqui no Rio, ele já funcionava desde 22, e me filiei e recebi credenciais daqui para nós organizarmos o Partido em Fortaleza sobre os escombros do que tinha sido o Bloco Operário Camponês, que era um dos ramos do Partido, um dos braços do Partido, que tinha sido destruído pela repressão policial.
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Como a sra. vê a esquerda de hoje e a vitória do PT nestas eleições municipais? Eu não tenho me aproximado do PT. Não tenho um convívio com eles, mas, realmente, é um dos partidos de esquerda que tem uma organização, um ideário, e tem, principalmente, um caudilho, um chefe, que é o Lula. Os outros estão fragmentados em mil pequenos partidos. Estão fragmentados em várias tendências, e o Partidão foi o que mais sofreu mutilações com esses rachas, com a repressão tão violenta como houve, causou essas exacerbações, essas lutas...
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E essas correntes ideológicas conseguem ou conseguirão se encontrar?Eu tenho a impressão que não. Porque estão cada vez pior. Você acha que o partido do Lula é o mesmo do Fernando Henrique. Você acha que o Covas está na mesma posição que o Arraes. Você acha que todos... em todos você vê o espectro da esquerda... que vem do Brizola que não é esquerdista coisíssima nenhuma. O Brizola é a revivescência do caudilho do sul-americano. No fim, ele é neto do Lopes, do Paraguai, é neto do Rosas, é irmão do Somoza, é primo do Gomes, da Venezuela, é sobrinho do Stroessner, é de uma família toda que... e, principalmente, ele tenta ser o herdeiro de Getúlio Vargas. Quer dizer, uma figura completamente arcaica. É, aliás, o que continua a fazer com o novo prefeito. O pessoal tinha feito toda uma programação para o prefeito eleito, né? Toda a escolha do secretariado... e ele chegou, riscou uns, vetou outros, trouxe outros pelas mãos, reformulou tudo o que o prefeito tinha organizado. Imagine você o que ele será no plano federal. Eu sou contra toda e qualquer posição sectária. O sectarismo é um estigma. A questão de ideologias são para almas estreitas. Você pode ter comunicação permanente se tiver idéias abertas e aceitar todos os caminhos. Nós estamos falando aqui do Brizola. O problema é o seguinte: você não pode ser amigo do Brizola. Você tem que ser contra. Ele não tolera você ser contra. Você tem de ter a ideologia dele, pensar o que ele pensa, senão não dá. O Lula, por exemplo, não te engole, de qualquer maneira. Ou você é lulista ou você não é. E foi essa intolerância, esse sectarismo que afastou todos os intelectuais do partido.
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O seu romance O Caminho de Pedras apareceu em 1937. Como foi aquele período? O livro apareceu um pouco antes do Estado Novo. O Caminho de Pedras foi do começo de 37, e o Estado Novo aconteceu no final do ano. Coincide com o período que antecede aquele estado de guerra, o estado de sítio, aquela coisa que o País viveu. Quanto à elaboração da obra, não sofreu, digamos assim, influência direta daqueles acontecimentos, dentro do Estado Novo, porque, como lhe disse, ela apareceu antes. A coincidência é de datas, mas é claro que, depois de publicado o livro, sofremos todo o arbítrio daquele período, tanto que o livro foi discriminado, inicialmente tive que ser interrogada sobre o livro etc...
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Como aconteceu o Estado Novo? O Estado Novo caiu em cima da gente como uma pedrada na cabeça. O Getúlio teve o cuidado de mandar o Negrão de Lima em viagem por todos os estados do Brasil, e, em cada capital, ele parava, falava com o governador, sondava o governador... isto em outubro de 37. Os governadores quase todos aderiram, com exceção do Juracy Magalhães (e um outro que não me lembro agora). Foram dois os governadores que não aderiram. Então, ele mandou pegar tudo quanto é intelectual de esquerda, trotskistas, stalinistas, anarquistas, todo mundo ficou preso até janeiro, incomunicável. Me prenderam lá no Quartel de Bombeiros. Fiquei presa de outubro de 37 a janeiro de 38. Ele conseguiu fazer com que a imprensa ficasse praticamente em silêncio, porque todo mundo que tinha pena e escrevia, e era de esquerda, entrou em cana.
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O Estado Novo foi pior que a ditadura militar de 64?Foi pior, muito pior. Porque ele tinha processos fascistas já codificados. Já tinha o modelo alemão, polaco, italiano, de forma que ele se associou a esses governos criminosos, terríveis, monstruosos. Tudo o que se diga é pouco. Basta dizer que nestes últimos 20 e tantos anso de ditadura militar não se cometeu um caso como o de Olga Prestes. Não se entregou a mulher de um cidadão brasileiro, grávida de uma criança brasileira, para ser sacrificada nos fornos crematórios, de cuja existência já se tinha notícia.Sofremos uma opressão em circunstâncias muito piores. O Brasil era muito menor, isolado do mundo, agrário, uma província ainda. Nossos meios de comunicação, a mídia eletrônica, não havia nada disto. O que havia era a censura. A censura era total. A Igreja estava silenciosa, não se manifestou. Dizem que o cardeal Leme escondia perseguidos políticos, mas isto supõe-se. Não foi como a posição mais aberta que a Igreja tomou contra a ditadura agora. O mundo inteiro ficou sabendo o que se estava passando no Brasil durante o Estado Novo, sofreu-se muito, as perseguições, as torturas, as mortes, o silêncio.
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O número de efervescência intelectual durante o Estado Novo foi muito maior do que da última ditadura?O que acontece é que já vínhamos de uma geração de intelectuais que foi a geração de 30. Todos nós estávamos livres e de repente o Getúlio não nos podia calar assim, tínhamos que resistir. Na verdade, você vê, passou o Estado Novo, e saiu o Graciliano, saiu o Jorge, saiu todo mundo, o José Lins, arrebentou todo mundo, e, depois dessa última ditadura, esperava-se uma nova florescência de talentos, as obras-primas que estavam engavetadas não apareceram, não apareceu nada. Realmente não houve uma grande efervescência da produção intelectual, e não só não houve essa emergência de talento literário que se esperava (salvo um outro nome que tem sido devidamente festejado) mas não houve aquele algo novo. A gente já existia antes do Estado Novo e continuou produzindo depois, a gente já estava funcionando. Mas em todo o caso, não acho que um e outro não são responsáveis nem pela efervescência do pós-ditadura militar. Eu acho que essa falta de produção é aquilo que já vínhamos discutindo antes: a questão do ciclo. Havia um ciclo em funcionamento quando veio o Estado Novo. Houve um ciclo literário. Já na última ditadura, tivemos uma efervescência em outros setores: no teatro, no cinema, nas artes plásticas, talvez, e na música. Você pega, por exemplo, os governos da República Velha (a Semana de Arte Moderna acontece em plena República Velha), você vê: o coronelismo não era militar. Quem disse muito bem sobre a República Velha foi o Gilberto Amado. Ele disse que a representação política era falsificada, mas era muito melhor, muito mais selecionada do que hoje.
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Como assim?Você sabe que quanto mais se abrem as portas mais se baixa o nível. Você vê, por exemplo, a questão do eleitor analfabeto. O eleitor analfabeto está provado que não vota, absolutamente. Ou o voto é anulado porque ele cometeu algum erro, ou ele nem sabe em quem está votando. Eu considero que a liberdade é o maior direito de todos nós. Sou pela liberdade. Pelas concessões democráticas, mas não pelas demagógicas. Eu acho que o voto do analfabeto foi um dos nossos maiores erros políticos, um instrumento de demagogia, de rebaixamento político, o voto do analfabeto. A primeira coisa que tinha de se fazer era alfabetizar. O analfabetismo não é Aids, não é uma doença incurável. O analfabetismo é curável. O único remédio para o analfabetismo é acabar com ele. É a única solução. Eu acho que uma das piores aquisições dessa nossa nova democracia foi o voto do analfabeto.
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http://medei.sites.uol.com.br/penazul/geral/entrevis/rachel2.htm
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As Três Marias (romance)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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As Três Marias é um romance de Rachel de Queiroz e publicado em 1939.
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O romance é narrado por Guta uma das protagonistas da história e começa quando esta vai para um internato em Fortaleza no Ceará aos 12 anos, lá ela conhece Maria José e Glória onde nasce uma profunda amizade entre as três. Ficaram conhecidas como As três Marias por uma freira que assim chamou-as por causa de seus nomes:Maria Augusta, Maria José e Maria da Glória e porque viviam sempre juntinhas como a constelação de Orion. Juntas, as três marias ajudavam as outras amigas a solucionar seus problemas.
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O tempo passa e o estudo no internato acaba, agora já adultas cada uma segue um rumo, mas a amizade prevalece.
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Glória logo se casa, com Afonso e tem um filho.
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Maria José vai morar com a mãe e os irmãos, se torna uma mulher muito religiosa se afastando dos prazeres da vida, já que ela acha que é pecado, e arruma um emprego como professora.
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Guta após sair do internato vai para o interior morar com sua família, mas acaba percebendo que sua família quer transformá-la em uma dona de casa. Descontente, Guta volta para Fortaleza, começa a trabalhar como datilógrafa e vai morar com Maria José, algum tempo depois ela conhece Raul por quem se apaixona mas logo termina o romance, pois ele era casado e queria que ela fosse sua amante.
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Depois de terminar com Raul, Guta percebe que seu amigo Aluísio está gostando dela, só que alguns dias depois de perceber isso Aluísio suicída-se, todos culpam Guta por isso.
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Guta muito triste com os últimos acontecimentos decide tirar umas férias e vai para o Rio de Janeiro lá conhece Isac um estrangeiro, que lhe apresenta a cidade. Guta se apaixona por Isaac com quem tem sua primeira noite de amor.
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O tempo de férias acaba e Guta tem que voltar para Fortaleza, chegando lá ela decide voltar para o interior para morar com sua familia. A história termina com Guta desconfiando que está grávida.
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Do Livro O Quinze De Rachel De Queiroz .pdf Ebook Download

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mai 09
Quarenta anos, quarenta e cinco. Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem suas alegrias, as sua compensações – todos dizem isso, embora você pessoalmente, ainda não as tenha descoberto – mas acredita.
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Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade.
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Não de amores nem de paixão; a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas, que hoje são seus filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações, você não encontra de modo algum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres – não são mais aqueles que você recorda.
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E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que se lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito sobre ele, ou pelo menos o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo ou decepção, se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
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Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
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Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto fosse avô, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto…
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No entanto! Nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do neto. Não importa que ela hipocritamente, ensine a criança a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha” e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante nos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe banho, veste-o, embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.
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Já a avó não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulito. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso dos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café, mexer na louça, fazer trem com as cadeiras na sala, destruir revistas, derramar água no gato, acender e apagar a luz elétrica mil vezes se quiser – e até fingir que está discando o telefone. Riscar a parede com lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado!
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Fazer má-criação aos gritos e em vez de apanhar ir para os braços do avô, e lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna…
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Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão defunto desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o olhar das outras avós com seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto!
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E quando você vai embalar o neto e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz “Vó”, seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.
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E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe castiga, e ele olha para você, sabendo que, se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade.
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Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menino – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beicinho pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague.
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Publicado por Paulo Afonso \\ tags:
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