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terça-feira, 12 de maio de 2020

"Se isto é um homem", de Primo Levi

* Primo Levi

Vós que viveis tranquilos
Nas vossas casas aquecidas,
Vós que encontrais regressando à noite
Comida quente e rostos amigos:
Considerai se isto é um homem
Quem trabalha na lama
Quem não conhece a paz
Quem luta por meio pão
Quem morre por um sim ou por um não.
Considerai se isto é uma mulher,
Sem cabelo e sem nome
Sem mais força para recordar
Vazios os olhos e frio o regaço
Como uma rã no Inverno.
Meditai que isto aconteceu:
Recomendo-vos estas palavras.
Esculpi-as no vosso coração
Estando em casa, andando pela rua,
Ao deitar-vos e ao levantar-vos;
Repeti-as aos vossos filhos.
Ou que desmorone a vossa casa,
Que a doença vos entrave,
Que os vossos filhos vos virem a cara.

in Se isto é um homem, tradução de Simonetta Cabrita Neto


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Entrevista a Fabio Levi, sobre Primo Levi


CENTENÁRIO
Fabio Levi, historiador
“Primo Levi disse que no Lager não encontrou monstros, mas pessoas normais, como você e eu”

Nos cem anos do nascimento do autor de “Se Isto é um Homem”, o Expresso conversou com Fabio Levi, historiador e diretor do Centro de Estudos Primo Levi, de Turim. Este sábado, na edição impressa, leia mais sobre Primo Levi, que escreveu sobre a sua experiência em Auschwitz quando o mundo ficava calado

ENTREVISTA LUCIANA LEIDERFARB
Fabio Levi é professor de História Contemporânea na Universidade de Turim. E é diretor, desde 2009, do Centro Internacional de Estudos Primo Levi, que investiga o legado do escritor. No ano em que se celebra o seu centenário, o autor de “Se Isto é um Homem” mantém uma poderosa atualidade, não só por ter partilhado o seu testemunho sobre Auschwitz, como por tê-lo aprofundado ao longo da vida.

Nascido a 31 de dezembro de 1919, em Turim, Primo Levi foi deportado para aquele campo de concentração alemão em 1944, ali permanecendo durante onze meses, os últimos da II Guerra Mundial. Judeu italiano, judeu do Piemonte, químico de formação e de profissão, trabalharia três décadas na fábrica de tintas Siva, que chegou a dirigir. Numa Europa onde a maioria dos sobreviventes se remetia ao silêncio, a experiência do Lager tornou-o escritor. Levi contou uma e outra vez a sua experiência, e nunca da mesma maneira, ao ponto de, em 1986, no seu derradeiro livro, “Os que Sucumbem e os que se Salvam”, a ter abordado com o intuito “mais ambicioso” de perguntar se o mundo dos campos de concentração está morto e se não irá regressar. “Além da nossa experiência individual, fomos coletivamente testemunhos de um acontecimento fundamental e inesperado. Ocorreu contra todas as previsões: incrivelmente, na Europa, aconteceu que um povo inteiro civilizado, saído do fervilhante florescimento cultural de Weimar, seguisse a um ator cuja figura hoje causa o riso; e, no entanto, Adolf Hitler foi obedecido e louvado até à data da sua catástrofe. Aconteceu e, por isso, pode voltar a acontecer: isto é a essência do que temos para dizer”, lê-se no final do volume. Primo Levi suicidou-se em abril de 1987, um ano depois de o publicar.

De visita a Lisboa, para a apresentação no Instituto Italiano de Cultura do documentário “Primo ufficio dell’uomo: I mestieri di Primo Levi” – encomenda do Centro Internacional de Estudos Primo Levi –, Fabio Levi conversou com o Expresso sobre a vida e a obra do escritor.

Que leitura podemos hoje fazer da obra de Primo Levi?
Primo Levi fala às novas gerações, isto por três razões. A primeira é que faz um grande esforço de verdade, de contar o que realmente aconteceu. A segunda força de Levi está na sua sensibilidade moral, abordando questões que tocam diretamente a consciência do interlocutor. A terceira força é a sua habilidade de escritor que, como todos os grandes, fala para as gerações seguintes. Primo Levi é um grande nome da literatura e do pensamento contemporâneo, e tem uma capacidade de expressão que supera todas as distâncias. Estes três aspetos ajudaram-no a transmitir não uma mensagem, mas uma experiência que deve ser aprofundada. Na introdução a “Se Isto é um Homem”, ele diz que, mais do que contar o que se passou, pretendeu raciocinar sobre alguns aspetos do espírito humano. A experiência da deportação serve para a levantar problemas, para colocar perguntas. Para obrigar o interlocutor a pensar.

Nessa introdução refere-se à “infeção latente” presente em certos discursos que estão, de novo, na ordem do dia na Europa.
Sim. Vemo-los na Europa, mas sobretudo na nossa vida. Não é possível fazer uma distinção clara entre os problemas gerais do mundo e os problemas particulares dos indivíduos. Mesmo assim, Levi fez o esforço – e nisto é original – de falar sobre o homem comum. Ele disse, por exemplo, que no Lager não encontrou monstros, mas pessoas normais, como você e como eu, que sob certas condições cometeram delitos horríveis. Disse que todos somos potencialmente capazes de comportar-nos daquele modo.

Hoje assistimos a uma crescente ignorância sobre o que aconteceu há 70 anos. Como historiador, isso preocupa-o?
Não devemos esquecer que, durante 50 anos, a Europa não quis olhar para a Shoah. Só na década de 80 é que se começou a falar difusamente do Holocausto e do extermínio ocorrido na II Guerra. Temos nas costas um esquecimento muito pesado: os 70 anos são na verdade 30, saltou-se uma geração. Os filhos dos protagonistas da guerra praticamente não estiveram envolvidos numa reflexão sobre aquela tragédia. Hoje volta a haver uma menor atenção em relação ao tema e é neste sentido que o ponto de vista de Primo Levi se torna mais relevante.

Como define a escrita de Primo Levi? Ele próprio se considerou um químico que escrevia nas horas vagas – e a sua obra tem essa marca de clareza e de objetividade.
Reconduzir tudo à sua formação em química é limitador. Mas a grande precisão e a curiosidade pelo que o rodeava deveram-se obviamente a essa bagagem de químico. O primeiro relato sobre Auschwitz foi um texto a que podemos chamar de científico, escrito no campo de trânsito de Katowice, a pedido dos russos – e cujo título era “Relatório sobre as condições higiênico-sanitárias do campo de concentração de Monowitz”. Aqui, ele fez uma descrição analítica da realidade do campo, das suas condições concretas. “Se Isto é um Homem” é um livro muito diferente, que tem dentro de si muitos registos. Reúne a sua experiência pessoal, o pensamento e as sensações. Em certos momentos, inclui retratos aproximados, como se Levi fizesse um zoom sobre alguém ou sobre alguma situação.

E o humor, a ironia?
A ironia é uma constante na sua prosa. Se se pensar que o livro foi escrito quando ele tinha 27 anos, e que a experiência de Auschwitz remonta aos seus 24, 25 anos, vemos até que ponto isto foi extraordinário. Tinha de ser um escritor inato. Porém, a figura de testemunho apagou todo o resto. Determinou que o seu lado de pensador capaz de refletir sobre as questões da contemporaneidade tivesse um reconhecimento mais lento. É interessante verificar que, em quase todos os países onde está traduzido, a primeira tradução tenha sido a de “Se Isto é um Homem”, seguido de “A Trégua” e, por fim, de “Os que Sucumbem e os que se Salvam” – a trilogia de Auschwitz, de que o último volume foi escrito em 1986, 40 anos depois do primeiro. Curiosamente, nos Estados Unidos, a ordem foi outra. Ali, Levi foi “O Sistema Periódico” que o tornou famoso, e não “Se isto é um Homem”, que já estava traduzido desde 1959. Mas é uma exceção.

Quando a guerra acaba, Primo Levi passa por outra guerra, a do sobrevivente. Essa condição acompanhou-o para sempre?
Ao voltar, ele sentia uma grande necessidade de falar. Contava tudo, parecia um louco. Então alguém lhe perguntou por que não escrevia. E ele escreveu “Se isto é um homem”. Sentiu-se imediatamente aliviado. Porém, à medida que os anos passavam, a sua relação com essa experiência sofreu transformações. Levi continuou a falar dela, em particular, nas conversas que começou a dar nas escolas, no início dos anos 60, quando nenhum dos seus companheiros de deportação falava do assunto. Estes diálogos com os jovens ajudaram-no a contar melhor o que se tinha passado. Ao ponto de, em 1976, juntar a “Se isto é um homem” um apêndice com as respostas às perguntas mais frequentes que lhe eram feitas nas escolas. Nesse apêndice, ele diz textualmente: “Correndo o risco de parecer cínico, devo admitir que não sofro mais como sofria”.

O sofrimento transformou-se em reflexão?
Sim, de certo modo. Se Auschwitz é uma referência permanente, ele vai modificando o seu olhar. O último livro, “Os que Sucumbem e os que se Salvam”, é de novo sobre Auschwitz, embora de um ponto de vista mais amadurecido: relata o resultado das suas reflexões 40 anos depois da deportação. Ao mesmo tempo, Levi ocupou-se de muitas outras coisas. Abordou o problema do trabalho, interessou-se pelo mundo animal, pela natureza, pela linguagem. Era um curioso sério.

Em 1987, o ano em que morreu, Levi chegou a comentar a realidade do revisionismo histórico na Alemanha. Que efeitos teve nele esta realidade?
Ele sempre se perguntou como é que foi possível os alemães fazerem que fizeram. Em 1947, quando escreveu “Se Isto é um Homem”, não sabia exatamente a quem estava a dirigir-se. Em 1958, a Einaudi fez uma segunda edição e, nessa altura, Levi disse que tinha finalmente percebido para quem é que o escrevera. E escrevera-o para os alemães, para que estes soubessem o que havia acontecido. Este reconhecimento coincide com a proposta de tradução do livro para a língua alemã, feita por um seu contemporâneo que tinha estado na resistência italiana contra os nazis. E com quem discute a tradução animadamente, frase a frase, ao longo de um ano inteiro. Em 1961, o livro é publicado na Alemanha e Levi recebe numerosas cartas de alemães a interpelá-lo. Ele fala sobre esta correspondência no último capítulo de “Os que Sucumbem e os que se Salvam”, em 1986, onde diz que se deparou com um estranho paradoxo: foram os alemães inocentes, e não os culpados, aqueles que lhe escreveram a desculpar-se pelo que aconteceu na Alemanha. Ele tentou sempre compreender os alemães, mas nunca o conseguiu.

Como é que Primo Levi encarava o judaísmo?
Ele era um judeu italiano. E estes judeus nos anos 30 estavam muito bem integrados na sociedade — muitos deles estavam a caminho da assimilação. Ele mesmo chegou a afirmar que, quando era novo, ser judeu era “uma anomalia alegre”. Como os restantes judeus italianos, foi obrigado a sentir-se judeu a partir do início da perseguição, em 1938. Mais tarde, a sua relação com o judaísmo modificou-se. Levi manteve-se ateu, mas começou a estudar e a refletir sobre a sua cultura de origem, a escrever sobre os seus antepassados. O primeiro conto de “O Sistema Periódico” é uma descrição irónica e precisa do mundo do qual provinha, o mundo judaico piemontês, e dá uma atenção extrema à língua, ao dialeto daquele grupo, que era pequeno ainda que com raízes fortes na sociedade piemontesa dos anos 50 para a frente.

Diz que a perseguição marca a relação de Primo Levi com o judaísmo. E no Lager encontra também um outro mundo judaico, o da Europa central e oriental.
Com o tempo, o Lager acaba por ser um estímulo para Levi estudar o mundo judaico fora da Itália, que ele conhecia muito mal. Em Auschwitz, tinha sido confrontado com um tipo de judaísmo completamente diferente – o asquenaze, os judeus polacos, alemães, russos. Os judeus da Itália desconheciam aquele mundo, da mesma forma que este também não sabia sequer que existiam judeus italianos! Em “La Trégua”, o livro onde Levi narra a longa viagem de regresso à Itália no pós-guerra, há uma passagem divertida, em que ele e os amigos italianos encontram umas raparigas polacas. Como eles não dominam o iídiche, elas não acreditam que também são judeus.

Há dias, disse numa entrevista que falar sobre o Holocausto é cada vez mais difícil. Porquê?
Porque o tempo passa e as testemunhas diretas já cá não estão. Porque o mundo muda, a cultura se transforma e as pessoas estão muito mais atentas ao presente do que ao passado. Durante muito tempo, no século XIX e mesmo no século XX, a ideia de progresso ligou o passado ao futuro. Hoje, os jovens evitam olhar para o futuro. Têm a sensação de que provavelmente o futuro não será melhor do que o presente. E quem olha pouco para o futuro, é menos atento ao passado.


segunda-feira, 24 de outubro de 2016

O rapaz e o pombo, de Cristina Norton

Viram por aí o Hitler?

Eu sei, querida tia, que estou a fazer publicidade indireta a uma editora que não é a nossa preferida. Mas trata-se de obra meritória, para mais de amiga meritória, para mais tia de dois dos nossos meritórios bloguistas. E assim sendo, e porque isto é a sério, depois da capa do livro mudo o registo e quase choro. Ora vejam
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Aos poucos nada nos resta. Nem a memória. Mas talvez reste sempre, no fundo de nós, na alma (que é o que nos anima) as sensações, os sentimentos, a comoção.
Eu chorei a ler este livro.
Quem é o rapaz? E quem é o pombo? E a irmã do rapaz? E toda a gente que os rodeia? Não são ninguém que possamos recordar. Apagam-se da memória, como se aguaram as lembranças da avó do rapaz, de tal modo confunde filha e neta e nem o marido reconhece.
Que pessoas são estas que fugiram? De que fugiram?
Ah! É tão fácil afirmar que fugiram de um louco, de um regime louco, de um país louco que encerrou milhares de pessoas em campos de concentração, onde além da escravatura do trabalho se faziam experiências médicas com crianças como se fossem ratinhos de laboratório. Como fizeram com a irmã do rapaz do pombo, a que mais tarde se juntou aos avós, na Holanda e refez a vida sem que a sua antepassada, a única que lhe restava, soubesse ao certo quem era ela.
É fácil dizer que era disso que fugiam. Mas não é só disso que se foge.
Hoje também se foge de barbáries iguais ou semelhantes, na Síria, nas terras do Daesh; hoje matam-se yazidis (curdos que praticam uma religião fundada no zoroastrismo da Mesopotâmia) como se matam cristãos sírios, como na época em que se passa ação do livro se matavam judeus e ciganos, além de toda a espécie de opositores ao regime nazi.
Talvez não com a burocracia e o método que a Cristina descreve quando se refere ao campo de Westerbork, na Holanda, mas com a mesma maldade, a mesma ausência de humanismo.
É disso que fugiam eles e fugimos nós. De sermos apenas eine stück, o raio de uma peça, “algo sem valor, nem humano, nem material, um objeto sem alma”.
Fugimos desse mundo sem amor, sem fraternidade, sem humanidade, sem caridade, que tal como o respeito, a partilha e a solidariedade vêm do amor, como também escreve a Cristina.
Confesso que não sei ao certo, mas presumo que ela conhece os locais que descreve. A Alemanha, a Holanda, com a cidade de Amsterdão e o lado improdutivo e cinzento onde ficou o campo Westerbork. O terrível campo de Auschwitz. Lisboa, como é óbvio e a Argentina, que também é óbvio. Mas todo o romance refere estas paragens não se detendo demasiado nelas. É na paisagem humana, a maioria das vezes sem glória nem beleza, que toda a ação se passa.
Nos medos
Nas esperanças
Nas angústias
Nas inocências
Nos fingimentos
Nas maldades
Nos crimes
Na heroicidade
Na resistência
Na desistência
Depois da tareia emocional que qualquer leitor levará ao ler esta obra, há um final, muito pessoal da autora para nos deixar knocked out. KO! É quando revela que os avós paternos e diversos tios e tias, primos e primas viveram num gueto em Lódz, na Polónia, e morreram em Auschwitz – pouco antes do final da guerra. Há um ajuste da Cristina com a História. E é justo que haja. Todos nós somos o produto de vivências anteriores, das histórias que nos contaram na meninice, dos mitos que incorporámos, dos caminhos que percorremos e vimos percorrer.
E foi assim que a autora, ainda menina, ouviu uma história real que a horrorizou. É a chave do livro. Uma história de uma mulher que esteve e sobreviveu a Auschwitz e mais tarde se encontrava com a mãe de Cristina (que ainda tive o prazer de conhecer) em Buenos Aires. É uma história dura, horrenda… Ainda agora imagino o horror que foi para ela, aos 10 anos, como mesmo passados 70 anos é uma inominável surpresa para quem a lê. Não como passada com uma protagonista imaginada, mas com uma mulher que a Cristina nos diz: eu conheci-a, foi ela quem me contou. A brutal violência – talvez uma violência necessária, pois de outro modo estaria esquecida – para quem a ouve não passa com o tempo.
A personagem que no romance se chama Rute (e depois muda de nome por razões que a narrativa explica) é alguém que fascina o rapaz do pombo, apesar de bastante mais velha. É alguém que consegue fugir a Auschwitz por estar apaixonada. É alguém que aceita um casamento de conveniência para fugir aos nazis. Mas o destino e a necessidade de ser útil colocam-na na boca do lobo e apesar de poder estar a salvo, não se salvou.
Ter-se-ia de poder falar com os sobreviventes que conseguiram contar as experiências, como Primo Levi em ‘Se Isto é um Homem’, se mais sorte teve quem morreu ou quem sobreviveu. Quanta carga aguentamos na vida? Quantas memórias? Que tipo de memórias? Porquê eles e não nós? Sobretudo se agora, decorridos mais de 70 sobre o fim da guerra, nós que não a vivemos, ainda lhe sentimos o sabor amargo, o cheiro fétido, a repulsa.
Pior! Reconhecemos personagens de então em personagens de hoje.
Pior ainda! Verificamos que muitos daqueles que por nós passam, que connosco falam ocasionalmente estariam dispostos a aplaudir em Nuremberga ou na Piazza Vittorio Emanuel novos Hitler e Mussolini. Compreendemos que é esta a condição humana perene e insistente. E que a atualidade deste livro está na atualidade que vivemos – há mais de 70 anos e que vivemos hoje.
Há uma espécie de intermezzo na obra que é a história de umas férias de Lilo Pupppel (outra personagem de vida real e nome fictício) e sua mãe. Lilo era amiga da irmã do rapaz do pombo e tomara-lhe conta do cão numa das alturas em que a família do protagonista tenta sem sucesso fugir da Alemanha. (E será o rapaz protagonista? Ele, afinal, representa todos os que sofreram e os que ainda sofrem).
De qualquer modo Lilo e a mãe vão até a uma pequena ilha de Itália. Talvez já nenhuma rapariga se contente em ter um burro como prenda; talvez já não haja meninas casadoiras, como a irmã de Lilo, capazes de todos os dias se arranjarem na esperança de ver chegar o namorado ao cais da estação de comboios, regressado da frente de onde nunca chegou, onde combatera pelo exército de Hitler, convencido que lutava pelo país. Mas os sentimentos, sejam os de alegria, sejam os daquele horror na Áustria ocupada que leva instintivamente a mãe a tapar os olhos à filha, seja o ódio entre famílias ou dentro das famílias que exiladas na Argentina eram por ou contra Hitler – tudo isso existe em novas modalidades e novas formas de ser.
Achamos, arrogantemente, que o passado não volta. Mas o passado, como escreveu William Faulkner, nunca está morto. Na verdade, nem sequer é passado – acrescentou o escritor. Também este passado está entre nós, aqui recordado pela Cristina Norton num livro sensível, verdadeiro, duro e corajoso na forma como não separa artificialmente bons e maus. Como se verifica que alguns dos nossos podem ser piores do que os deles.
Num livro que me surpreendeu – e eu conheço-a há muitos anos e este é o segundo livro (dos 10 que escreveu) que tive o prazer de apresentar – porque nunca me imaginei tão próximo dela nos sentimentos que estas memórias me despertam; nos sobressaltos que ainda me provocam.
Diz-se que Deus escreve direito por linhas tortas. Se assim é, ainda bem que o faz. Eu queria apresentar este livro, porque eu sempre quis que a Cristina escrevesse este livro. E este é o tempo, basta olhar à volta para vermos que este é o tempo em que ainda havemos de olhar como o tempo feliz.
Perdoem-me o pessimismo mas não consigo dizer que este é um livro sobre o passado. Ele é, como todos os livros que interessam, intemporal. É sobre como cada um reage às adversidades e ao destino. E, no fim, o que importa é o caminho e a amabilidade que se teve no trajeto.
No fim é o amor que nos salva.
Muito obrigado, querida Cristina por teres escrito estas páginas.
http://www.escreveretriste.com/2016/10/viram-por-ai-o-hitler/

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Primo Levi - Poichè l'angoscia di ciascuno è la nostra

* Primo Levi

Poichè l'angoscia di ciascuno è la nostra
ancora riviviamo la tua, fanciulla scarna
che ti sei stretta convulsamente a tua madre
quasi volessi ripenetrare in lei
quando al meriggio il cielo si è fatto nero.

Invano, perché l'aria volta in veleno
é filtrata a cercarti per le finestre serrate
della tua casa tranquilla dalle robuste pareti
lieta già del tuo canto e del tuo timido riso.

Sono passati i secoli, la cenere si è pietrificata
a incarcerare per sempre codeste membra gentili.

Così tu rimani fra noi, contorto calco di gesso,
agonia senza fine, terribile testimonianza
di quanto importi agli dei l'orgoglioso nostro seme.

Ma nulla rimane fra noi della tua lontana sorella,
della fanciulla d'Olanda murata fra quattro mura
che pure scrisse la sua giovinezza senza domani:
la sua cenere muta é stata dispersa dal vento,
la sua breve vita rinchiusa in un quaderno sgualcito.

Nulla rimane della scolara di Hiroshima,
ombra confitta nel muro dalla luce di mille soli.

Vittima sacrificata sull'altare della paura.

Potenti della terra padroni di nuovi veleni,
tristi custodi segreti del tuono definitivo,
ci bastano d'assai le afflizioni donate dal cielo.

Prima di premere il dito, fermatevi e considerate.


http://www.poesieracconti.it/poesie/a/primo-levi/nulla-rimane-della-scolara-di-hiroshima