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domingo, 13 de julho de 2008

A propósito de Chavez e das FARC – a insurgência armada é história, presente e futuro

1507 América. Mapa Universalis Cosmographia em versão colorida


Narciso Isa Conde"Com todo o respeito, com todo o carinho solidário que professei e continuo a professar pela Revolução Bolivariana na Venezuela, com a toda a admiração que tenho pelo comandante Hugo Chavez Frias, decidi, contudo, expressar publicamente o meu desacordo político e conceptual com o seu recente pronunciamento sobre o tema das FARC, da luta armada, da guerra de guerrilhas, da troca de prisioneiros e da paz na Colômbia…"
Narciso Isa Conde* - 15.06.08
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Com todo o respeito, com todo o carinho solidário que professei e continuo a professar pela Revolução Bolivariana na Venezuela, com a toda a admiração que tenho pelo comandante Hugo Chavez Frias, decidi, contudo, expressar publicamente o meu desacordo político e conceptual com o seu recente pronunciamento sobre o tema das FARC, da luta armada, da guerra de guerrilhas, da troca de prisioneiros e da paz na Colômbia…
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Sobre este tema, preferia referir-me – como o fiz em meses anteriores – ao Chavez que falou da troca humanitária, da troca de prisioneiros de ambas as partes, da necessidade de reconhecer as FARC como “forças beligerantes”, da impossibilidade de derrotar a insurgência armada pela via militar, das perspectivas de uma saída política do conflito armado na base de diálogos sérios, do carácter do regime de Uribe como instrumento de guerra dos EUA…
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As declarações de Chavez

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Contudo, no discurso que estamos a comentar – e que recorre a todos os meios de comunicação do planeta – o comandante Chavez afirma ao novo Comandante em Chefe das FARC, Alfonso Cano, o seguinte:

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- Que liberte os prisioneiros sem garantias, “a troco de nada”;
- Que a guerra de guerrilhas na América Latina e no Caribe “não está na ordem dia” e que “passou à história”;
- Que as FARC devem desistir desse caminho pois acabariam por servir de “pretexto” para agredir países vizinhos, acusando-os de terroristas e de protecção ao terrorismo e por estarem a desencadear possíveis guerras na região;
- Que devem aceitar negociar de imediato a paz sob o concurso da OEA e dos governos por esta designados.
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Importância relativa da troca
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Confesso que para mim o mais questionável das posições de Chavez não é relativo à concessão de liberdade, por conta própria e sem condições, dos prisioneiros e prisioneiras nas mãos das FARC, apesar de ser plenamente válido e justo não pensar este tema em termos unilaterais e sem garantias de segurança para ambas as partes.
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Aliás, é igualmente bastante discutível aquilo que alguns dizem de ser pior estar preso nas montanhas, em acampamentos guerrilheiros, do que estar na mão de gendarmes que torturam, golpeiam e fazem morrer de fome…
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Mas isso não é o fundamental, como tampouco é a sugestão de unilateralidade na decisão, dado que um passo deste tipo poderia ser um gesto humanitário necessário e politicamente conveniente num momento apropriado. As próprias FARC actuaram nesse sentido noutras ocasiões, mesmo quando se torna legítimo ficar farto de o outro lado nunca ceder e de golpear cruelmente os intentos de troca de prisioneiros; mesmo quando camaradas de luta e opositores do governo de Uribe passam penúrias terríveis nos cárceres cruéis e imundos e quando são mesmo extraditados como vulgares delinquentes.
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Quanto às formas de luta

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Para mim o fundamental tem que ver com o que o comandante Chavez expressou a respeito da impertinência e dos prejuízos da luta armada das FARC e da guerra de guerrilhas no continente.
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Na verdade as formas de luta não se inventam nem decretam, são necessidades, tornam-se pertinentes, criam-nas os povos, as impulsionam e organizam os revolucionários, desenvolvem-se dentro de determinadas condições.
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Ao mesmo tempo, é impossível declarar a sua caducidade ou impertinência a partir de uma qualquer tribuna.
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Portanto, se uma determinada forma de luta – guerrilheira ou não, armada ou não, insurgente ou não – é um dado da realidade, uma luta do presente, não é válido dizer que a mesma “passou à história”.
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Nenhum método de luta – confirmada a sua eficácia – passa a ser algo simplesmente histórico, apesar de perdurarem as condições que o motivaram; pelo contrário, esse método tem uma reincidência periódica com velhas e novas modalidades. Um método de luta só perde pertinência a partir do momento em que deixem de estar presentes as condições para o seu surgimento ou então num período determinado em que esse método tenha sido derrotado pelo próprio movimento que o colocou anteriormente em prática. Isto ocorre quando se trata de resistências, rebeldias ou de ofensivas irregulares, sobretudo em função das lutas populares.
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A guerra de guerrilhas é tão antiga como o combate contra a escravidão e tem atravessado a história e o presente continental e mundial. Também outras formas de luta hoje são estigmatizadas pelos novos conquistadores e recolonizadores do continente.
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Temos também neste capítulo as revoltas sociais e as insurreições urbanas, incluindo os levantamentos militares como aquele que Chavez e outros dirigentes do Movimento Revolucionário Bolivariano encabeçaram.
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Igualmente pode dizer-se da Venezuela anterior a 1992 que os exemplos dos militares Caamaño e Fernandez Dominguez na República Dominicana, dos oficiais venezuelanos de Carupano e Puerto Cabello, de Torrijos no Panamá, de Velasco Alvarado no Perú e de Torres na Bolívia (todos ocorridos na década de 60 e princípio dos anos 70), que supostamente teriam “passado de moda” ou “passaram à história”.
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Contudo, isso não foi assim. Recordo, quando esse gigante revolucionário que dá pelo nome de Fidel Castro afirmou que, numa generalização um pouco inadequada no Fórum de São Paulo em 1994 em Havana, o caminho da luta armada estava fechado na América Latina. E passado pouco tempo estalou o levantamento armado indígena em Chiapas, encabeçado pelo Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN), já para não falar da insurgência armada colombiana que continuava vigente.
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Recordo também quando o Conselheiro Roberto Robaina e o próprio Fidel, em viagens oficiais à Colômbia, se pronunciaram da mesma maneira, e a insurgência armada nesse país prosseguiu o seu caminho ascendente.
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Não há receitas, nem tampouco processos idênticos, regulares. Pode haver uma tendência mais ou menos proeminente numa parte dos países do continente, mas isso ocorre sempre dentro de uma significativa diversidade.
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O presente da insurgência colombiana

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Na Colômbia há algo mais do que uma “guerra de guerrilhas”. Há uma forte e enraizada insurgência armada predominantemente rural, integrada sobretudo pelas FARC e pelo ELN. As FARC constituem-se como um verdadeiro Exército Popular, com várias dezenas de milhares de guerrilheiros(as) e milicianos(as). As FARC são história, são presente e espera-se igualmente muito futuro, apesar do difícil momento por que passam hoje. Creio que é justa a valorização e certeiro o vaticínio do analista Francisco Herreros quando este afirma:
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“as FARC não são uma narcoguerrilha terrorista encurralada e impulsionada pela ambição de uma cúpula delirante e obsoleta, como quer fazer crer a intoxicante propaganda oficial. As FARC são um movimento político e militar, representante de um sector específico da sociedade colombiana, como o campesinato expropriado das suas terras, excluído e massacrado dos dezenas de anos de para-militarismo; dotado de um programa político que tem perseguido com particular tenacidade e que em 44 anos de luta construiu o mais parecido que há com um exército popular e alternativo que a história moderna registou.

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As FARC são um exército popular que nos seus 44 anos de história aprendeu uma táctica de luta que aprendeu a dominar de forma magistral, baseada na mobilidade e no conhecimento do território, táctica herdada directamente da genialidade de Marulanda. É verdade que a morte deste último, paralela à ofensiva ordenada por Uribe, coincide com uma série de reveses sofridos pelas FARC nos últimos tempos, como os assassinatos dos membros do Secretariado, Raul Reyes e Ivan Ríos.

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Por mais que a confluência destes factores configure, no contexto de uma ofensiva militar que já se prolonga há seis anos e apoiada em recursos económicos quase ilimitados e por um enorme potenciamento da capacidade operativa das forças armadas do Estado, uma das etapas mais críticas da história das FARC, esta não é a primeira nem determina de modo algum a sua derrota. Em termos comparativos, os golpes sofridos nos alvores da sua história, quando ainda estavam a construir a sua experiência de combate, foram bem mais comprometedores.

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De todas as suas crises, as FARC souberam sempre retirar ensinamentos. Esta não será excepção.”
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Pertinência da acumulação militar a partir do campo revolucionário

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Desprezar e abandonar a frente militar acumulado pela insurgência colombiana, para além de ser um acto suicida, equivaleria a facilitar o plano estratégico dos EUA na região, e muito especialmente eliminaria um importante obstáculo à vertente sul-americana da sua guerra global destinada a apoderar-se militarmente de grande parte da Amazónia.
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As FARC, como força militar e política, devem ser preservadas e desenvolvidas; e o desejável agora não é que incorram no grave erro de uma negociação que leve ao desarmamento e à aceitação da actual ordem institucional. Só a superação das dificuldades actuais, rumo à retomada do seu ritmo de crescimento e expansão pode levar à criação de uma nova Colômbia, uma Colômbi.

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Isto não tem apenas que ver com o valor específico que tem o seu peso político e militar para a mudança rumo a um novo enquadramento institucional num país onde existe um Estado narco-para-terrorista (com pretensões de sub-imperialismo regional), com um oligarquia feroz e uma intervenção militar estadunidense numa escala crescente. Também temos que olhar – e sobretudo – para o que as FARC podem representar em termos de exemplo e grande capacidade de resistência e sua valiosa experiência na guerra irregular para contrariar, dissuadir e/ou deter o plano de ocupação militar dos EUA na Amazónia e os propósitos estadunidenses e oligárquicos de desestabilização e derrota dos processos transformadores na Venezuela, no Equador e na Bolívia.
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No norte da América do Sul – vórtice da onda revolucionária regional – o plano de conquista neoimperial dos EUA conta com três grandes obstáculos: 1) as FARC, como as demais forças insurgentes e todos os movimentos políticos e sociais alternativos colombianos; 2) o governo de Chavez e o processo rumo à revolução na Venezuela; 3) o governo de Rafael Correa (Equador) e tudo o que representa.
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Sou dos que pensam que a existência das FARC dificultou fortemente um plano de intervenção estadunidense contra a Venezuela e contra o Equador. É isso que, no meu entender, explica o empenho de Uribe e dos falcões em Washington para tentarem derrotar militarmente essa grande força insurgente que são as FARC.
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O debilitar de qualquer uma dessas três forças enfraqueceria todas as demais. A sua unidade, longe dos estigmas e dos preconceitos, é de vital importância para o continente e para toda a região.
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Pretexto?

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As FARC não são um simples pretexto para a agressão imperialista capaz de dissolver o perigo com o seu desaparecimento como força político-militar. Nada disso. As FARC são um factor de resistência à ocupação da Colômbia e da Amazónia por forças militares ao serviço dos falcões de Washington. As FARC são uma componente essencial da capacidade potencial que os povos e os Estados soberanos têm para expandir a relação de forças numa guerra assimétrica que poderia impedir o propósito essencial do capital transnacional estadunidense de se apropriar do petróleo, gás, carvão, minerais estratégicos, água e biodiversidade numa das regiões mais ricas do planeta. Agora mesmo as FARC estão a enfrentar uma guerra imperialista de média intensidade, com tendência para aumentar, na Colômbia lá mais para a frente.
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Os governos da Venezuela, da Bolívia e do Equador, dada a sua autodeterminação e o seu empenho em controlar os seus recursos naturais, estão na mira dessa agressão político-militar, tal como também estão as FARC e todo aquele que na Colômbia represente uma mudança na mesma direcção.
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Portanto, esta não é uma questão de pretexto, mas uma questão de propósitos e interesses poderosos. Se os imperialistas e seus sócios não pudessem usar as FARC como pretexto, concerteza inventavam outro. No Iraque não havia FARC, mas “armas de destruição maciça”. No Afeganistão não estava Marulanda, mas enviaram-se tropas para capturar a tenebrosa criatura Bin Laden. Na Venezuela não há guerrilha, mas um “grande ditador” que venceu 10 processos eleitorais limpos e perdeu um referendo constitucional. Na Bolívia também não há FARC mas um índio cocalero e uma oligarquia que procura separar os pedaços do país boliviano que controla.
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E assim sucessivamente até onde chegar o alcance da imaginação dos intelectuais falconistas, não esquecendo o plano conjunto da CIA e de Uribe para assassinar Chavez, antes deste começar a mediar o conflito entre as FARC e o governo, e também um plano arquitectado pelo Pentágono para declarar a independência da província de Zúlia e apoderar-se, desta forma, das suas reservas de petróleo.
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Entende-se ainda menos esta mudança política por…

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Antes do comandante Chavez proferir estas inexplicáveis e surpreendentes declarações, teve lugar um conjunto de exercícios e de demonstrações militares destinadas a projectar a disposição e capacidade das Forças Armadas Bolivarianas e do povo da Venezuela para enfrentar uma possível invasão conjunta dos EUA e da Colômbia. Até as habilidades dos aviões Zukoi soaram como uma advertência! Isto indica que a liderança venezuelana tem consciência do pode vir da parte do imperialismo e do sub-imperialismo uribista-santanderista. Por isso entende-se ainda menos esta nova reacção do talentoso e valente presidente da Venezuela relativamente às FARC e no respeitante ao real significado da sua existência como experimentada organização político-militar, portanto, um valioso componente no quadro de uma eventual guerra de resistência popular bolivariana.
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Porque se a capacidade insurgente do povo e se a extensão da guerra a todo o povo são as únicas garantias de dissuasão e de confrontação com êxito do terrível plano militar intervencionista do Pentágono, convenhamos afirmar que as FARC constituem um dos pilares já experimentados e preparados para abordar semelhante e tremenda situação.
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Então, porque Chavez considerou as FARC como causa e pretexto da agressão e não como componente da resistência dissuasiva contra ela?
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Política de Estado versus política revolucionária? Táctica versus estratégia?

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Penso que nesta mudança de Chavez há algo de danos causados pela preeminência dada à política de Estado como tal, com os seus jogos diplomáticos e manobras tácticas, passando tudo isto por cima das questões centrais e estratégicas de uma revolução que como o próprio Chavez já afirmou, transcende as fronteiras venezuelanas e contempla um único cenário possível: a Grande Pátria latino-caribenha.
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A elevada presença paramilitar colombiana na Venezuela e no Equador é parte de um plano de infiltração. Este plano aponta na direcção de acções contra-revolucionárias que não poderão ser detidas se se procura distanciar das FARC e acenando com slogans a favor do seu desarmamento e sua desmobilização, algo que por demais afecta e confunde a esquerda revolucionária da região.
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Importa compreender que o grande obstáculo para uma paz digna e democrática não são as FARC mas o regime de Uribe e os imperialistas estadunidenses que apenas concebem como acordo possível a rendição e desarmamento das organizações revolucionárias e se se garantir a continuidade do Estado oligárquico-dependente e do modelo neoliberal. Se há algo a extrair dos acordos de paz a nível do continente é o prejuízo que resultou para os povos da permanência da institucionalidade tradicional (democrático-liberal representativa) e da permanência e estabilidade do poder permanente tradicional (forças armadas, relações de propriedade oligopólicas e monopolistas, o poder das transnacionais, o latifúndio, as máfias, etc.).
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A este respeito deve apreender-se a lógica vietnamita: dialogar, negociar, alcançar acordos… mas sem afectar a relação de forças alcançada e sem afectar os propósitos de transformar o país em função dos interesses populares e nacionais. Avançar rumo a uma paz digna e que avance em todos os domínios da luta de classes, patriótica, política e cultural. E se as FARC se decidissem a actuar diferentemente a esta lógica de poder popular estariam a actuar contra si mesmas e contra a sua razão histórica. Eu situar-me-ia entre aqueles que o lamentariam muitíssimo se isso acontecesse.
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Hoje, face aos sérios perigos e problemas que procuram destruir essa força revolucionária irmã da Colômbia, sinto-me ainda mais solidário do que nunca, precisamente porque sou mais amigo dos meus amigos quando estão em maiores dificuldades e mais necessitam da minha amizade e solidariedade desinteressada.
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Actuei desta mesma forma com o comandante Chavez quando este decidiu colocar um travão nas altas esferas militares e sofreu uma injusta prisão, bem como durante o intenso, audaz e nobre batalhar por uma nova democracia e um novo socialismo na sua pátria de origem e na nossa pátria grande. O meu contacto com Caamaño em 1965 permitiu-me entender e valorizar esse sentimento de solidariedade na sua real dimensão. Disso não me arrependerei jamais.
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Não há, portanto, agressão alguma nas minhas palavras e nas minhas críticas face a uma liderança que aprecio e valorizo muito mais. Há convicções sinceras, ideias firmes e palavras fraternas, no quadro de realidades complexas e de situações difíceis, e que são expressas com a certeza de que é do debate franco e do intercâmbio com altura espiritual que permite que daí brote a certeza e a verdade. Que assim seja.

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9 de Junho de 2008, Santo Domingo, República Dominicana


*Escritor dominicano. Foi secretário geral do Partido Fuerza Revolucionária (comunista )
Tradução de João Valente Aguiar

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odiario.info

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segunda-feira, 14 de abril de 2008

A igualação dos desiguais

por Sidnei Liberal*


Pelo que disse Elio Gaspari, foi bendita a hora em que o demo-pefelê e os donos de estabelecimentos de ensino levaram ao Supremo o pleito de inconstitucionalidade para os atos que criaram o ProUni. Sem querer, levaram a discussão da legalidade de ações afirmativas baseadas em critérios de renda e de raça para o acesso ao ensino superior.


Na semana passada, tomaram a primeira pancada, pelo voto do ministro-relator Carlos Ayres Britto. O ProUni troca por bolsas de estudo as imunidades tributárias dadas às universidades particulares. Coisa como 10% das vagas disponíveis. O programa já atendeu 310 mil jovens oriundos da rede pública e neste ano formará a sua primeira turma, com 60 mil bolsistas.


Há 100 mil estudantes pré-selecionados para novas matrículas. Para receber uma bolsa integral, a renda per capita familiar do candidato não pode ser superior a 1,5 salário mínimo. As vagas do ProUni também devem favorecer o acesso de candidatos afro-descendentes. A concessão de bolsas deve acompanhar os percentuais de diversidade de cada Estado. O regime de bolsas parciais segue critérios semelhantes. Os empresários do setor e o DEMO querem ver inconstitucionais os critérios alegando que eles violariam o princípio da igualdade entre os cidadãos. Britto julgou improcedente o pedido questionando em cima do nervo da questão: o que é a igualdade numa situação de desigualdade?

Diz o relator: ''Não há outro modo de concretizar o valor constitucional da igualdade senão pelo combate aos fatores reais de desigualdade. (...) É como dizer: a lei existe para, diante dessa ou daquela desigualação que se revele densamente perturbadora da harmonia ou do equilíbrio social, impor outra desigualação compensatória''. Diz Elio: “Em vez de tentar derrubar quem está em cima, empurra-se quem está em baixo. Tome-se o caso de dois jovens reprovados nos rigorosos vestibulares das universidades públicas, gratuitas. Um, de família mais abonada, vai para uma faculdade particular, paga. O outro iria à lona, mas, com o ProUni, vai à aula”. (Os citados “coisa ruim” vão pro inferno, dizemos nós). [1]


O endereço do terror


O senador por Illinois, Barack Obama, pré-candidato democrata à Casa Branca, é contrário à ratificação do Tratado de Livre Comércio assinado por EUA e Colômbia em 2006. Numa convenção de trabalhadores, na Filadélfia, o senador declarou que manterá sua rejeição ao pacto comercial, pois ''A violência contra os sindicatos na Colômbia ridicularizaria as mesmas proteções trabalhistas [nos EUA] que insistimos para que sejam incluídas nesses tipos de acordos”. Os motivos e a posição de Obama em nada diferem dos que manifesta a maioria do congresso estadunidense e também justificam as pancadas que o governante colombiano recebeu do parlamento europeu, de corpo presente, no ano passado.


Neste mesmo périplo pela Europa, o presidente Álvaro Uribe também recebeu um severo puxão de orelha por manter estreitas ligações e dar guarida às diversas brigadas de paramilitares assassinas e traficantes de drogas. Mas não saiu do velho continente de mãos vazias: conseguiu, mediante uma poderosa procuração de Bush, articular-se com parlamentares fascistas italianos e espanhóis de cuja pressão resultou na indexação das tradicionalmente insurgentes Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia como um movimento terrorista. É o caso de se perguntar: com o rico perfil de Uribe, revelado por Obama, pelo parlamento europeu, pelos sindicalistas e pelo congresso dos EUA, de que lado está o terror?

Os sindicatos estadunidenses estão preocupados com a violência que vem seqüestrando e assassinando milhares de lideranças comunitárias de oposição na Colômbia. Para valer, o convênio comercial precisa ser ratificado pelo congresso dos EUA, onde a maioria democrata condicionou seu aval a uma melhora na situação dos direitos humanos e garantias sindicais. Para tentar impulsionar a ratificação, por pressão pessoal do presidente Bush, que vê o pacto comercial como uma das suas “prioridades vitais”, delegações de congressistas, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, o de Comércio, Carlos Gutiérrez, foram à Colômbia nos dois últimos meses. Não verificaram avanços nos direitos e garantias. [2]

Rastilho oportunista e perigoso

O povo tibetano acredita descender de um macaco criado pelo ''Senhor que observa o mundo''. O dalai-lama, como ''emanação'' desse macaco primordial legitimaria seu título de sumo sacerdote e monarca do Tibete. Tais razões religiosas e de identidade nacional justificariam seu retorno. Mas, tirante o clero, poucos pretendem ver restaurada a ordem social que ele regia. Na teocracia deposta pela revolução comunista de 1949, sacerdotes e nobres possuíam todas as terras e demais meios de produção. Camponeses, nômades, pequenos comerciantes e mendigos formavam minoria relativamente livre da plebe. O amo sustentava o escravo, que apenas prestava serviços domésticos. Ambos passavam sua condição aos filhos.


A lei permitia mutilações e torturas disciplinares. Deficiências de higiene e nutrição matavam quase metade dos bebês no primeiro ano de vida. Não havia escola pública. A taxa de analfabetismo chegava a 90%. Em troca de autonomia, o dalai-lama reconheceu a soberania chinesa em 1951. Mas, no contexto da Guerra Fria, a Agência Central de Inteligência (CIA), estadunidense, passou a prover insurretos tibetanos de treinamento e armas. Em 1959, o Exército chinês derrotou a rebelião que os monges ora comemoram. O dalai-lama fugiu para a Índia. A organização tibetana que o acompanhou revelou mais tarde ao ''New York Times'' que recebia da CIA financiamento anual de 1,7 milhão de dólares.

Com a fuga de grande parte dos budistas, o governo central colonizou a região mediante imigração favorecida de chineses de outras etnias. Nos distúrbios de março, monges budistas remanescentes e outros tibetanos hostis aos imigrantes incendiaram lojas e outras propriedades destes ''estrangeiros'' e do próprio governo chinês. Hoje, o dalai-lama reivindica apenas autonomia (restauração dos seus privilégios). Os que apóiam sua campanha deveriam questionar se uma eventual restauração do seu regime garantiria direitos humanos no Tibete. Ou se a estratégia de incitar tibetanos à revolta não agrava sua situação.

O governo chinês não cederá a esta nem a outras minorias étnicas. Múltiplos interesses comerciais do mundo na China, de explosivo desenvolvimento econômico, barrarão qualquer boicote à Olimpíada de Pequim. Por outro lado, outras nações mundo afora movem um dos olhos para o Tibete e outro para seus próprios movimentos separatistas, que pretendem ganhar força numa eventual contaminação do perigoso rastilho que de modo oportunista e suspeito se semeia pelo mundo. [3]

Notas


[1] Texto original de Elio Gaspari na Folha de S. Paulo de 06/04/08: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0604200808.htm


[2] Mais informações na matéria da agência EFE, na Folha Online, de 02/04/2008: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u388406.shtml


[3] Com informações de Aldo Pereira publicadas pela Folha de S. Paulo de 02/04/08: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1004200808.htm





*Sidnei Liberal, Médico, membro da Direção do PCdoB - DF



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho -
13 DE ABRIL DE 2008 - 22h49
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terça-feira, 18 de março de 2008

Pela paz contra o paramilitarismo - Colombianos exigem diálogo

http://www.cdcc.sc.usp.br/ciencia/artigos/art_20/colombiaimagem/mapa-colombia.jpg


Centenas de milhares de colombianos manifestaram-se, quinta-feira, dia 6 [de Março de 2008], contra o paramilitarismo e em memória das vítimas do terrorismo de Estado no país. O protesto estendeu-se a pelo menos outras 22 cidades na Europa, África, América do Norte e do Sul.


Na capital, Bogotá, a histórica Praça de Bolívar foi pequena para acolher todos os que integraram a marcha convocada pelo Movimento Nacional de Vítimas dos Crimes do Estado, pelo Pólo Democrático Alternativo (PDA), e por dezenas de outras organizações sociais, sindicais e populares colombianas que rejeitam a política criminosa do presidente Álvaro Uribe, revelou o Partido Comunista Colombiano em informações divulgadas no seu sítio na Internet.
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Nas iniciativas que se multiplicaram por várias cidades da Colômbia, com destaque para Cartagena, Bucaramanga, Medellín, Manizales, Pereira, Barranquilha, San Onofre (onde foram encontradas várias valas comuns e emitidos os primeiros mandatos judiciais contra políticos envolvidos nos massacres) e Popayán, os manifestantes exigiram ainda que a justiça apure e puna sem rodeios os responsáveis das alegadamente extintas Autodefesas Unidas da Colômbia, organização paramilitar que, acusam, gozou do auxílio da direita no poder para matar, assassinar, reprimir e coagir o povo.
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Em comunicado de mobilização para a marcha emitido no passado dia 25 de Fevereiro, o PDA reafirmou, uma vez mais, «a necessidade de alcançar acordos humanitários e uma solução política negociada para o conflito armado que assola o país». As Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia – Exército Popular (FARC-EP), expressaram por diversas vezes a vontade em solucionar pelo diálogo o conflito com o governo, mas quer Uribe, quer a maioria dos seus antecessores na chefia do Estado, recusaram sempre a proposta, pese embora os gestos pacíficos da organização, como a libertação unilateral de prisioneiros de guerra.
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Nos protestos ocorridos na Colômbia, os participantes recordaram ainda os 4 milhões de deslocados e o roubo de mais de 6 milhões de hectares de terra a camponeses pobres; os 15 mil desaparecidos às mãos do terrorismo de Estado desde 1982; os 3 mil mortos encontrados em valas comuns e os mais de 3500 massacres efectuados por paramilitares e tropas governamentais; os 1700 indígenas, 2500 sindicalistas, 650 activistas rurais e 5 mil membros da malograda União Patriótica alvo da raiva incontida da direita assassina.
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Em Paris, Montreal, Québec, México, Caracas, Buenos Aires, Quito, Berlim, Washington, Barcelona, Bruxelas, Cairo, Estocolmo, Genebra, Londres, Lyon, Melbourne, Madrid, Montevideu, Nova Iorque, Otawa e Valência, também se realizaram concentrações pela paz e contra o terrorismo de Estado na Colômbia.
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in Avante 2008.03.13
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Espaço destinado às traduções para o português das notícias publicadas pela Agência de Notícias Nova Colômbia - ANNCOL.
http://anncol.eu/index.php

A LUTA DE UM POVO, UM POVO EM LUTA!

Este material pode ser reproduzido livremente, desde que citada a fonte. Este material deve ser reproduzido amplamente, para que o sofrimento do povo colombiano termine o quanto antes, para que a mais sangrenta intromissão do imperialismo na América Latina tenha fim.

MANIFESTO PELA JORNADA MUNDIAL PELA PAZ NA COLÔMBIA

Biografia não autorizada do narco-presidente Álvaro Uribe - Clique aqui para baixar


Domingo, 9 de Março de 2008

Cem milhões* de brasileiros na Jornada Mundial Pela Paz Na Colômbia

ANNCOL - Brasil
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Ainda não é possível avaliar, nem contabilizar o contingente de populares mobilizados neste 06 de março [de 2008], na Jornada Mundial Pela Paz na Colômbia, no Brasil. Mas as manifestações, atividades, eventos e debates, mobilizaram pessoas em todas as regiões do país..

Em São Paulo, a manifestação coordenada pelo Cebrapaz, em conjunto com as entidades da Coordenação dos Movimentos Sociais, incluindo a UNE (União Nacional dos Estudantes), UBES (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), CTB (Central dos Trabalhadores do Brasil), dentre outras, chamadas pela ANNCOL a menifestar seu posicionamento quanto ao conflito colombiano, reuniu mais de 2 mil lideranças populares, em ato em frente à Praça Ramos, que incluiu um debate sobre a questão do conflito colombiano..

Na manifestação de São Paulo, milhares de balões brancos foram soltos, simbolizando a paz que se deseja para o povo colombiano..

A tônica da manifestação foi a condenação do Presidente Álvaro Uribe Vélez, por sua política de Terrorismo de Estado contra o povo colombiano, além de sua grave agressão contra um país fronteiriço, o Equador. Na manifestação, as diversas lideranças populares apontaram Uribe como o máximo representante da narco-política e do fascismo no continente latino-americano.
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Em Brasília, realizou-se um ato na Câmara Legislativa do Distrito Federal, que contou com a presença de inúmeras personalidades, políticos, representantes de movimentos sociais e populares. A dura condenação ao regime narco-para-fascista de Uribe, além do apoio à luta do povo colombiano, que já dura mais de 40 anos, foi marcante no evento realizado.
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No Rio de Janeiro, contamos com várias atividades, desde debates no Sindicato dos Petroleiros, com a participação de diversas entidades, até uma coletiva na Associação Brasileira de Imprensa e um ato público.
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Em Curitiba, atividade previamente agendada na Assembléia Legislativa, relacionada ao querido companheiro Fidel Castro, teve acrescentada a temática do conflito colombiano, passando a fazer parte das atividades da Jornada Mundial. O evento também contou com a participação e mobilização de entidades de trabalhadores, estudantes, partidos políticos e diversos outros movimentos de solidariedade latino-americanos e movimentos sociais.

Em Maceió, foram organizadas atividades públicas na Universidade Federal e na Casa Cultura "Antonio Lisboa de Moraes", contando com grande representatividade popular e adesão de populares.

Inúmeras outras atividades, atos e eventos marcaram esse dia, com a participação de milhares de lideranças representativas das mais variadas entidades e organizações, também em inúmeras outras cidades Brasil afora.

As diversas manifestações de apoio à luta do povo colombiano, contra o Terrorismo de Estado de Álvaro Uribe e pela paz na Colômbia, contaram com a participação e o apoio de tantas entidades que sequer seria possível citar a todas.

No entanto, destacamos a participação, mobilização e apoio do PCB (Partido Comunista Brasileiro), PC do B (Partido Comunista do Brasil), UNE (União Nacional dos Estudantes), Ubes (União Brasileira dos Estudantes Secundaristas), Cebrapaz (Centro Brasileiro de Solidariedade aos Povos e Pela Paz), Casa da América Latina, UJC (União da Juventude Comunista), UJS (União da Juventude Socialista), CMS (Coordenação dos Movimentos Sociais), amplos setores do PT (Partido dos Trabalhadores), setores da Intersindical, Unidade Classista, CasLa (Casa Latino-americana), Unidade Classista, setores do PMDB-PR, setores do PSOL (Partido do Socialismo e Liberdade), PCML (Partido Comunista Marxista Leninista), PCR (Partido Comunista Revolucionário), setores da CUT (Central Única dos Trabalhadores), Casa Cultura Antonio Lisboa de Morais, dentre inúmeras outras, além da própria ANNCOL – Brasil.

Destaca-se que, além de reunir milhares de lideranças políticas, artísticas, populares e intelectuais, a Jornada, no Brasil, reuniu entidades e organizações que representam mais de 100 milhões de brasileiros e residentes no Brasil, dando a real dimensão do protesto e da solidariedade do povo brasileiro para com a paz na Colômbia.

E em todos os lugares, em todos os cantos, em todos os gritos e em todas as palavras de ordem, o que se ouvia era o mesmo:

"Nós gritamos pela vida, eles comemoram a morte.

Nós pedimos por paz, eles fazem a guerra.

É por isso que marchamos.

É por isso que lutamos.

É por isso que a Colômbia e o mundo se mobilizam.

Pelo fim do Terrorismo de Estado!

Pelo fim do regime narco-paramilitar-fascista de Uribe!

Chega de massacres!

Chega de Guerra!

Pelo Intercâmbio Humanitário!

Pela paz!"
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* Os números fazem referência ao total de cidadão brasileiros representados pelas entidades envolvidas nas manifestações, desde as entidades estudantis, até sindicatos e entidades dos movimentos sociais.


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Colômbia: Manifestações na Europa e Ásia contra a violência das FARC

Madrid, 05 Fev [2008] (Lusa) - Cidades como Madrid, Paris, Londres, Genebra, Berlim ou Tóquio foram segunda-feira palco de manifestações convocadas na Internet contra a violência na Colômbia, ainda que as maiores críticas tenham ido para os sequestros perpetrados pela guerrilha das FARC.

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Convocadas sob o lema "Um milhão de votos contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC)", as manifestações decorreram em mais de 130 cidades de todo o mundo ampliando as suas palavras de ordem contra qualquer tipo de violência e os sequestros de qualquer grupo.

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Os milhares de pessoas que nesta iniciativa inédita se manifestaram na Europa e Ásia uniram-se assim às centenas de milhar de colombianos que paralisaram as avenidas das principais cidades do seu país, e aos milhares mais de outras cidades latino-americanas para protestar contra as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e os seus sequestros.

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Em Espanha, onde vivem mais de 250 mil colombianos, segundo dados oficiais, centenas de pessoas concentraram-se no centro de Madrid e em cidades como Logrono, Oviedo, Palma de Maiorca ou Bilbau para rejeitar a violência e os sequestros das FARC.

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Os manifestantes exibiam cartazes com palavras de ordem como "Queremos a Colômbia viva, livre e em paz" ou "Não mais violência. Não mais sequestros", ou "Sim à liberdade, sim à vida, Colômbia sem FARC".

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Também em Londres mais de 500 pessoas, a maioria delas colombiana, manifestaram-se na Praça de Trafalgar entre gritos de "Queremos a liberdade dos sequestrados" e "Fora FARC terroristas".

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Os participantes traziam cravos brancos como símbolo da paz e cartazes em inglês com o objectivo de consciencializar a opinião pública britânica sobre os sequestros perpetrados pela guerrilha.

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A manifestação terminou na rua do Parlamento, onde os participantes entoaram o hino colombiano.

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Em Paris, centenas de colombianos e venezuelanos pediram o fim das FARC e manifestaram-se para sensibilizar a opinião pública francesa de que na Colômbia "há mais que um refém " dessa guerrilha, numa alusão à franco-colombiana Ingrid Betancourt, cuja libertação é assunto prioritário para o Governo francês.

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David Velilla, um dos promotores da manifestação salientou: "Ninguém quer as FARC, queremos consciencializar os franceses de que na Colombia há mais que um refém, há mais de 800, todo o país é vítima da guerrilha".

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"Colômbia e Venezuela pela paz e pela vida", gritaram os manifestantes fazendo uma encenação da vida dos sequestrados na selva.

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Em Genebra, mais de uma centena de colombianos concentraram-se no Palácio das Nações Unidas para fazer um apelo a favor da "liberdade e da paz" e "contra as FARC, porque são o principal autor violento da Colômbia", disse a coordenadora do grupo, Sayuri Tivaduisa.

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Os participantes na marcha ostentavam cartazes em que se lia: "FARC=assassínios, narcotráfico, sequestros", ou "Viva Colômbia em paz".

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Em Berlim, uma centena de pessoas, entre elas alguns alemães, foram desde a emblemática Gedächtniskirche, uma igreja destruída durante a II Guerra Mundial e situada no centro da cidade, até à Embaixada da Colômbia.

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Nos cartazes, os manifestantes exortavam em alemão, inglês e em espanhol frases como "Não mais sequestros, não mais mentiras, não mais assassínios, não mais FARC".

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Manifestações semelhantes ocorreram noutras cidades alemãs como Munique, Frankfurt, Hamburgo, Dusseldorf e Estugarda, segundo os organizadores.

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Em Bruxelas, cerca de 120 pessoas, na sua maioria cidadãos colombianos, concentraram-se na entrada da Bolsa de Bruxelas com bandeiras e cartazes com palavras de ordem a reclamar "Não mais sequestros" ou "Não às FARC".

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Em Tóquio, cerca de 60 pessoas da comunidade colombiana desafiaram a neve na capital nipónica para percorrer o centro da cidade "num sinal de rejeição da violência, do sequestro, do terrorismo, das mentiras" que durante quatro décadas as FARC infligiram aos colombianos.

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Em Pequim, uma centena de colombianos depositou em frente da sede da embaixada do seu país flores junto a uma bandeira nacional em sinal de apoio às vítimas da guerrilha marxista, exigindo a libertação dos reféns e o fim dos sequestros.

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Enquanto isto, na Colômbia, 600 guerrilheiros das FARC presos e arrependidos participaram também na jornada de protesto contra a guerrilha, informaram fontes prisionais em Bogotá.

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Alguns dos familiares dos reféns não participaram nas manifestações de segunda-feira e admitiram o seu receio de que as FARC endureçam agora a sua posição e exigências confrontados com a pressão das manifestações.

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© 2008 LUSA - Agência de Notícias de Portugal, S.A.
2008-02-05 00:20:01

FARC: 40 anos de História

Bandeira

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Direto das selvas da Colômbia, correspondente brasileiro analisa a insurgência mais antiga da América. Por Yuri Martins Fontes, para a revista Reportagem*


Após a grande crise de 1929, pela primeira vez o mundo passou a enxergar de outro modo o liberalismo ortodoxo, doutrina capitalista que vigorava inabalável desde o século XIX. Começou a se cogitar, a partir de então, a intervenção do Estado na economia, de forma a minimizar as conseqüências da grande quebra iniciada nos Estados Unidos. Eram necessárias atitudes urgentes que pudessem responder aos interesses das fragilizadas burguesias nacionais dos países dependentes.


Na América Latina, grandes representantes deste giro histórico foram Cárdenas, no México, Perón, na Argentina e Vargas, no Brasil. A nacionalização do petróleo e o investimento industrial foram importantes pautas deste amplo movimento. Na Colômbia, entretanto, o grande poder da ala conservadora, alinhada com o expansionismo estadunidense, impediu que reformas progressistas tivessem lugar.


Em 1948, a situação de ingerência externa por parte de multinacionais chega a tal ponto, que os ditos "liberais", aliados aos pequenos grupos socialistas de então, iniciam uma guerra civil contra o governo conservador. As primeiras etapas deste conflito armado podem ser conhecidas através do realismo fantástico da grande obra de Gabriel García Marques "Cem Anos de Solidão".


Após 16 anos de luta guerrilheira e a conquista de algumas reivindicações políticas, os liberais tentam frear os avanços políticos, ao perceber o avanço das forças aliadas socialistas que se acelerava além do esperado sob a influência do triunfo revolucionário cubano. Traem, então, o acordo com as esquerdas, passando para o lado conservador.


Em 27 de maio de 1964, dezenas de milhares de soldados são enviados para o povoado de Marquetália para reprimir 48 camponeses comunistas rebelados, que fogem para as selvas e montanhas. Esta data é tida como a fundação da maior e mais antiga guerrilha da América, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Em 40 anos, aquela meia centena de revoltosos comandados por Manuel Marulanda – o histórico líder máximo conhecido como Tiro Certo – se transformou em um grupo político armado com quase 30 mil homens, divididos em 60 frentes guerrilheiras e agindo em todo o território nacional.

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Em julho do mesmo ano, é realizada uma assembléia de guerrilheiros, em que se define um programa agrário que daria a primeira bandeira para os revolucionários, que deixam de ser apenas combatentes camponeses para pregar, sob uma visão mais ampla, a luta pelo poder político para todo o povo.

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Neste contexto de repressão total, ainda em 1964 surgem outros grupos revolucionários com distintas formas de organização e diferentes concepções ideológicas, como o Exército de Libertação Nacional (ELN), de orientação guevarista, e o Exército Popular de Libertação (EPL), com origem nas concepções da Revolução Chinesa.

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É também desta época o aparecimento de bandos oriundos da desestruturação das guerrilhas liberais, que já sem razão para existir e lutar passam a praticar a pilhagem da população civil. Algum tempo depois, estas quadrilhas são recrutadas por poderosos coronéis latifundiários da região, dando início aos primeiros grupos paramilitares. Os chamados "paracos" atualmente prestam serviços também às corporações multinacionais e aos cartéis do narcotráfico.

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Desde há alguns anos atrás, com a intervenção estadunidense batizada de Plano Colômbia, as possibilidades de paz no país se tornaram muito distantes. Após várias tentativas de negociações por parte do anterior governo liberal de Pastrana, o atual presidente Uribe, ligado às elites agrárias e íntimo aliado do grande Império do Norte, busca no confronto sangrento a solução para exterminar os grupos revolucionários comunistas, sem atentar à triste realidade social do país, com mais de 60% da população afundada na pobreza. Cartazes espalhados pelo país explicitam o trágico vivido: "Plan Colombia, los gringos ponen las armas, Colombia pone los muertos".

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O interior da nação andina é hoje uma terra sem lei, onde predomina o medo e o mistério. Freqüentemente, milícias paramilitares efetuam emboscadas e genocídios em estradas e povoados rurais. E apesar da violência destes grupos fascistas, ao fim de 2003, Uribe fechou um acordo bastante suspeito, de rendição e anistia, com o maior grupo paramilitar do país, as Autodefesas Unidas da Colômbia (AUC), que possui cerca de 5.000 mercenários. Segundo informações que obtive no boca a boca entre o povo, os soldados deste grupo são os mesmos do exército, disfarçados apenas por um broche com a insígnia da AUC.

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Sequer mudam de uniforme. Desta forma, o governo fica mais à vontade para executar tarefas pouco populares – como o massacre de povoados inteiros e a eliminação de supostos "amigos" dos guerrilheiros.

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O recente acordo de anistia total aos paramilitares parece referendar não apenas esta estranha ligação com o exército regular, mas também as acusações que ligam Uribe diretamente ao comando destes mercenários de extrema direita.

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Ao que parece, com o forte apoio econômico-militar estadunidense e a propaganda massiva – que classificam as FARC como partícipes do dito "eixo do mal" perante à simplória opinião pública – as táticas de guerra puderam ficar mais abertas e agressivas.

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Além das dificuldades impostas pelo terror paramilitar e de Estado, àquele que se queira conhecer de perto a situação na Colômbia, há também o problema dos bandoleiros, quadrilhas armadas que se aproveitam do conflito generalizado para efetuar assaltos nas ermas estradas do país. Isto tudo dificulta o deslocamento, a estadia e a conseqüente obtenção de notícias acerca da realidade atual colombiana.

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Ainda que possamos conhecer algo através dos jornais, em geral as informações que nos chegam são parciais e superficiais, já que estão comprometidas ideologicamente com os detentores do grande capital do país – como se passa em geral com a grande imprensa suja. Desta forma, não lhes é interessante de tratar dos motivos que levam um povo à insurgência. Esta mesma desinformação leviana pode ser observada nos noticiários acerca de quaisquer conflitos subversivos, tais como o MST ou o EZLN.

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Após o ataque às Torres Gêmeas, o mundo foi ainda mais polarizado. Qualquer contestação ao regime fundamentalista neoliberal passou a ser vista como grave afronta. Classificando a subversão de terrorismo, ficou mais fácil vender a imagem do "bom colonizador" que bombardeia, invade e assassina em nome do deus "correto".

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No início deste ano, o fracassado Plano Colômbia, posto em prática em nome da suposta erradicação do plantio de coca, ganhou seu substituto moderno, o Plano Patriota. Na prática, o plano é semelhante ao anterior, agora reforçado com alguns bilhões de dólares a mais. Consiste em uma intervenção militar ostensiva em pleno coração da Amazônia sul-americana, com claros fins políticos, econômicos e territoriais. A região é abastada em água potável, petróleo, minérios preciosos e grande biodiversidade, entre outras riquezas.

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O governo oficial é apoiado pelos EUA com armas, dinheiro, helicópteros, treinamento militar e até mesmo com o despejo de substâncias químicas nas selvas do país, regiões onde se ocultam os guerrilheiros. Já circulam pela internete fotos de camponeses deformados atingidos pelos venenos das fumigações. Vale dizer que estes rios contaminados nascem nos Andes e vêm desaguar na Amazônia brasileira. Deste modo, uma catástrofe ecológica já pode ser prevista em curto prazo, caso não se enfrente diretamente o uso de armas químicas por parte do grande irmão.

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De outro lado, as FARC se defendem e não deixam de fustigar o inimigo. Apesar do megainvestimento estadunidense, no ano de 2003 houve uma média de 12 combates por dia, onde morreram mais de 5.000 militares, policiais e paramilitares, enquanto as baixas da guerrilha somaram cerca de 700 homens, entre guerrilheiros e milicianos civis apoiadores, segundo dados de organizações não-governamentais.

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As FARC, além do grupo guerrilheiro armado, são compostas por mais três grupos. Uma milícia civil armada apóia os insurgentes em ações secretas de inteligência, no interior do país. Nas capitais as ações revolucionárias de guerra estão por conta do Partido Comunista Clandestino Colombiano. E nos mais diversos rincões do país existem os grupos de simpatizantes, civis desarmados e idealistas que apóiam o abastecimento alimentício, por exemplo.

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Grande parte dos guerrilheiros farianos é composta de camponeses pobres cuja miséria lhes levou às fileiras rebeldes. Lá aprenderam a ler e a lutar.

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Outros, com mais formação, vêem nas FARC a única chance de mudanças políticas no país. Estes preparam-se para os cargos de comando, estudando tanto a Política, como a Psicologia e a Economia. Inclusive, fator de grandes elucubrações atualmente, é o financiamento das FARC. Segundo as palavras do próprio Comandante do Secretariado Geral das FARC, Raúl Reyes:

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"as FARC são um exército do povo que se nutre da economia do país, que é o petróleo, o café, as esmeraldas, o gado, o algodão, a coca e a papoula. Assim as FARC cobram um imposto àqueles capitalistas que tenham mais de um milhão de dólares, independentemente da proveniência de seus capitais. Não perguntamos ao empresário das transportadoras se seus caminhões foram comprados com dinheiro do narcotráfico. As FARC não têm cultivos, não negociam com narcóticos, não vendem favores aos narcotraficantes. As FARC subsistem da economia do país, apesar da campanha encabeçada pelos EUA que tem por fim desacreditar-nos, mostrar-nos não como uma organização revolucionária, mas como narcotraficantes, agora narcoterroristas. Mas é normal que os EUA façam isso, pois são nossos inimigos e, portanto, fazem o que devem fazer".
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E embora os EUA tenham cogitado a intervenção direta no território sul-americano, ainda não tiveram forças políticas para executá-la, graças talvez ao despreparo e barbáries deste atual governo. Contudo, o candidato Kerry já acenou com o perigo, afirmando em campanha que Bush "se preocupa demais com o Oriente Médio" e que "mal conhece a América Latina". Que a ignorância geográfica presidencial estadunidense perdure tanto quanto a humana.

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Yuri Martins Fontes é filósofo e engenheiro. Publicado na revista Reportagem , da Oficina de Informações, no mês de julho de 2004. Esta revista só é vendida por assinatura ou na sede (11-3814-9030), na Rua Fidalga, 146, São Paulo (SP). www.oficinainforma.com.br

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"Quando não devemos calar"

http://www.martinezinvestigations.com/images/farc-guards-2.jpg

Oscar Niemeyer


Quando ocorreu a invasão do Equador pela Colômbia, no dia 1º do mês corrente, que resultou na morte de 20 combatentes e de um dos principais líderes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Raúl Reyes, escrevi um texto, revoltado com o que havia acontecido. Infelizmente, o texto que redigi não chegou aos jornais antes da solução adotada graças à pronta e corajosa intervenção dos governos latino-americanos, que deram ao mundo uma demonstração de unidade e força em defesa de sua soberania nacional.


Por Oscar Niemeyer



Como eu não me limitava a comentar as notícias sobre as Farc que surgiam nos jornais, mas mencionava fatos ou contatos que tive com aquele grupo, tomei a decisão de divulgar o artigo que havia elaborado e agora transcrevo:


"É bom, quando nos vemos diante da necessidade de escrever sobre qualquer assunto, verificarmos que a seu respeito já nos tínhamos manifestado anteriormente, que a nossa reação não surge de um fato novo ocorrido, mas de qualquer coisa que já nos tinha ocupado e sobre ela havíamos assumido uma posição definida.


Refiro-me ao que vem se passando com as Farc, um grupo de revolucionários que, instalados no território da Colômbia, vem-se opondo há décadas ao governo reacionário ainda existente naquele país.


É importante aqui registrar, aos que insistem em falar da violência dos revoltosos das Farc, a opinião do historiador britânico Eric Hobsbawm ("Globalização, democracia e terrorismo", Companhia das Letras): o combate ao terrorismo, ao longo dos últimos anos, por parte das autoridades colombianas, tem superado, em muito, a violência política desses guerrilheiros.


Lembro-me do emissário desse grupo que, muitos anos atrás, me procurou em meu escritório de Copacabana, pedindo-me que desenhasse um cartaz contra o Plano Colômbia, que, organizado pelo governo norte-americano, visava intervir nas Farc, ferindo a soberania do país.


Recordo a maneira emocionada como aquele emissário me falava do assunto, da revolta que exibia ao comentar a violência com que o governo colombiano tentava destruí-los. Em poucos dias, desenhei o cartaz que ele havia me pedido -um protesto contra aquele plano odioso. Uma colaboração política que muito me agradou, ao saber ter sido aquele cartaz utilizado até na Europa.


O tempo correu e, sem possuir a força para eliminar o movimento político já instalado no país, o governo reacionário de Bogotá passou a acusar a direção das Farc de ser conivente com o narcotráfico em crescente expansão na Colômbia.


Agora, no momento em que toda a América Latina se une contra as ameaças do imperialismo norte-americano, é que, numa atitude de violência e desrespeito inexplicável, o governo da Colômbia resolve invadir o território do Equador, comprometendo a unidade com que a América Latina tão bem vem se organizando contra todas essas pressões vindas dos Estados Unidos.


Com sensatez e firmeza, o governo brasileiro, por meio de seu ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, reclamou uma palavra de desculpa por parte do presidente colombiano, Álvaro Uribe. E de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, veio a resposta direta e corajosa que a esquerda latino-americana esperava.


Sabemos muito bem que os Estados Unidos têm a ambição de se apossar das riquezas existentes na Amazônia e que o governo da Colômbia se presta a servir de ponta-de-lança para essa finalidade.


Mas agrada-nos, principalmente, constatar a maneira altiva e vigorosa com que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem atuando frente aos problemas desta América Latina tão vulnerável e ofendida".


Fonte: Folha de S.Paulo

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in Vermelho 17 DE MARÇO DE 2008 - 11h10

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sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

FARC - entrevista de Miguel Urbano Rodrigues

s FARC reafirmam a opção comunista
e respondem a campanhas difamatórias

Entrevista com o comandante Ricardo González,
do Estado Maior Central das FARC-EP ,
conduzida por Miguel Urbano Rodrigues

Clique para ampliar.
Das FARC-EP correm pelo mundo os nomes de quatro ou cinco dirigentes que adquiriram ressonância internacional quer em combates contra o Exército quer como negociadores, ou ainda como ideólogos da mais antiga organização guerrilheira da América Latina. É o caso do comandante-chefe Manuel Marulanda e, entre outros, dos comandantes Jorge Briceño, o estratego militar, e Raul Reyes, que foi o interlocutor principal do governo em Los Pozos, na mesa de diálogo, durante a Administração de Pastraña.

No grande colectivo das FARC são, porém, numerosos os comandantes de qualidade excepcional, que, pela própria natureza das tarefas desempenhadas, se fala pouco ou nada. Em Março tive a oportunidade de reencontrar numa cidade mexicana um desses combatentes: Ricardo Gonzalez. No passaporte figurava outro nome. O pormenor é irrelevante porque também não se chama Ricardo Gonzalez. Tal como em anteriores visitas, havia entrado no país com documentação falsa, pois Fox, cedendo a pressões de Washington, trata as FARC como «organização terrorista».

Somos amigos há anos e já lhe conheci diferentes apelidos. Ricardo traz-me à memória, pela síntese de personagens diferentes, heróis de romances de Cholokov e Alexei Tolstoi. Descendente de uma família oligárquica de terratenientes, rompeu com a sua classe muito jovem, optando pela luta revolucionária nas FARC. É um orador de talento incomum. Em várias capitais da América latina, ao intervir em Conferencias Internacionais, ouvi-lhe (quando as FARC não figuravam ainda na lista negra) discursos em que um elevado conteúdo ideológico era valorizado pelo rigor da análise e o estilo oratório. Ricardo exprime-se naquele castelhano clássico, em vias de extinção, que se fala ainda nas altas mesetas da Colômbia, com um leve sotaque antioquenho. O seu porte aristocrático talvez o ajude no vaivém de missões clandestinas. As polícias não identificam com facilidade o revolucionário perseguido naquele senhor de maneiras distintas.

Actualmente pertence ao Estado Maior Central das FARC. O presidente Uribe, na sua recente visita à Europa, citou-lhe o nome, o verdadeiro, incluindo-o entre os comandantes guerrilheiros cuja cabeça foi posta a prémio.

Quando o revi há semanas vinha das Montanhas da Colômbia, da luta. Irradiava aquela intensa alegria de viver que é um dos traços da sua fascinante personalidade de revolucionário profissional.

Foi uma conversa de muitas horas. Pedi-lhe que falasse para o «Avante!».

Desse encontro, combinado com muita antecedência, saiu, em estilo coloquial, a entrevista que se segue, na qual Ricardo Gonzalez, respondendo a campanhas de desinformação e a calúnias, aborda também questões ideológicas importantes, muitas das quais preocupam toda a humanidade.

Combatentes das FARC. MUR: As FARC têm quase 40 anos. Os seus críticos dizem com frequência que uma organização revolucionária que não conseguiu chegar ao poder em quatro décadas dificilmente o conquistará. Pergunto: qual é a perspectiva das FARC, organização com vocação de poder? Nos Diálogos para a Paz, em Los Pozos, El Caguan, tinham um projecto plural para a sociedade colombiana, mas a longo prazo a perspectiva era a do socialismo. Como encaram hoje as FARC o futuro a curto e médio prazo?

Ricardo: A primeira coisa que te posso dizer é que 40 anos na construção de um exército revolucionário é um tempo muito curto. Os nossos adversários desconhecem a paciência oriental das FARC. Temos um plano estratégico para a tomada do poder e vimos que é através da combinação de todas as formas de luta que temos de enfrentar um inimigo que se caracterizou já pela sua intolerância numa questão a que eles chamam democracia, mas que na realidade não se aplica em parte alguma do nosso país. Esse inimigo tem a seu alcance todos os meios, conta com uma poderosa ajuda internacional, liderada pelos EUA e há 40 anos que se esforça por nos eliminar. Não esqueças que Marulanda e os seus companheiros, em Marquetália, eram apenas 48, mas conseguiram romper o cerco apesar de ali haverem concentrado contra eles todo o poder do Estado colombiano para aniquilar esse reduto de patriotas que tinham assumido a gesta de libertar a Colômbia da dominação que sofre, fundamentalmente por parte dos EUA. Pretendiam criar uma nova sociedade, uma sociedade justa, sem exploradores nem explorados, uma pátria digna para todos os colombianos, sem exclusões de qualquer tipo. Esse objectivo já é visto pelas novas gerações como uma possibilidade real. Tardamos um pouco, mas foi uma questão muito meditada o que seguramente permitirá uma singularidade tremenda na revolução colombiana. Digo isto porque – a comparação é má, mas em Cuba um movimento guerrilheiro triunfou e a partir da sua vitoria construiu-se como partido político, tornou-se governo e construiu o Estado. No caso do sandinismo , repara, uma insurreição popular irrompeu a partir da existência do movimento guerrilheiro. Tomaram o poder e tiveram que percorrer o mesmo caminho: construção do partido, construção do exército, construção do governo e do Estado. No nosso caso creio que a situação é inversa. Temos vindo a construir o partido antes de tomar o poder, temos vindo a construir o governo em algumas zonas porque nessas áreas o governo real são as FARC. E temos vindo a construir as bases do novo Estado em muitas regiões da geografia colombiana. Não cabe falar de prepotência. O desfecho da revolução para nós vai ser mais fácil porque desenvolvemos toda uma experiência e podemos consolidar o projecto revolucionário com menos dificuldades, apesar de tudo o que se passa hoje. Isto ocorre no âmbito de uma confrontação violenta imposta pelo estado colombiano. Assumimos o desafio. Os nossos amigos e aqueles que simpatizam connosco podem ter a certeza de que as FARC não cederão. Consideramos que existe um estado terrorista na Colômbia, um estado agora marcado por uma tendência fascizante. Actualmente a luta armada alastra, pela necessidade de se fazer frente às armas homicidas do estado com as armas libertárias daqueles que mantiveram o amor da dignidade. Este povo colombiano de que fazemos parte é um povo digno e valente que, recorrendo a todas as formas de luta, e combinando-as, muda o cenário político e abre uma possibilidade de diálogo, e transito pacifico para a revolução colombiana. Nisso também as FARC se podem medir na praça publica com os seus inimigos. Não tememos a praça publica. Não tememos a confrontação de ideias. O mau é que eles não permitem que se produza ai essa confrontação de ideias. Neste momento qualquer homem ou mulher, combatente das FARC, que se apresente a expor o que pensa é imediatamente assassinado ou capturado, acusado de terrorista. Por isso, neste momento não nos resta outra opção para expor as nossas ideias que não seja o recurso aos fuzis. Essa é a realidade na Colômbia. No imediato trabalhamos para a construção de um novo governo de ampla coligação, que permita abrir as alamedas de uma democracia real no país. Para isso convocamos os sectores políticos e sociais mais diversos, liberais, conservadores, o clero católico, as associações económicas de todo o país, a intelectualidade, os operários, os camponeses, as minorias étnicas, homens e mulheres do mundo da cultura. O objectivo é parar a guerra. Para isso temos de enfrentar unidos o projecto fascista para a Colômbia que está a ser implementado pelo Sr Álvaro Uribe com o apoio da oligarquia e dos EUA e, também, de alguns países da União Europeia que se intrometem descaradamente num conflito que somente diz respeito aos colombianos, conflito cuja solução cabe exclusivamente aos colombianos. Há 40 anos que vimos dizendo que queremos a paz, que lutamos por mudanças. Teria sido bem preferível que não tivéssemos sido obrigados a lutar entre colombianos para implantar uma reforma que o país necessita urgentemente. Como somos revolucionários, cabe-nos assumir os riscos que resultam do enfrentamento com o estado colombiano e os seus cúmplices, aqueles que o amamentam do estrangeiro.

MUR: Outra questão. Não apenas os inimigos, mas por vezes forças democráticas com uma posição muito crítica perante o regime de Uribe, afirmam que as FARC não conseguem implantar-se nas grandes cidades, que não avançam nesse terreno, que não penetram nas classes médias urbanas. Que tens a dizer sobre o assunto?

Ricardo: Relativamente ao assunto, a desinformação é total. Resulta de um desconhecimento do que são as FARC-Exército do Povo como organização político-militar. Não somente contamos com um aparelho armado como constituímos também o Partido Comunista Colombiano clandestino. Construimo-lo assim, clandestino, porque ali não há possibilidades de desenvolvimento real de organizações legais, abertas, de carácter revolucionário. E estamos também a construir o Movimento bolivariano pela Nova Colômbia, que é um movimento igualmente clandestino com forte implantação em sectores estudantis e operários, nos bairros periféricos das grandes cidades e em meios universitários e entre a intelectualidade. O que se passa é que este é um trabalho eminentemente clandestino. Não podemos tornar publico o que está a ser feito nos terrenos ideológico, político e organizativo. Esse trabalho é muito importante. Mas há mais. Temos ainda as Milícias bolivarianas, e as Milícias populares em grandes cidades como Bogotá, Barranquilla, Medellín e Cali, e esse trabalho é extremamente delicado, porque nos centros urbanos está concentrado todo o poderio do inimigo, que tem ali todo o seu aparelho técnico, os serviços de segurança e também os seus colaboradores, os bufos ou «sapos», como são conhecidos popularmente na Colômbia. Obviamente, construir essas redes clandestinas implica para nós um autêntico trabalho de filigrana. O inimigo fareja em busca delas, tratando de decapitá-las, empenhado em evitar que penetremos em força nas áreas urbanas. É preciso levar em conta essas dificuldades. Nós, como Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia, somos de origem camponesa; naturalmente a nossa maioria é ainda camponesa, mas nos últimos 10-12 anos ingressaram nas FARC homens e mulheres provenientes de todas as camadas sociais. Entre eles muitos intelectuais. Há jornalistas, sacerdotes, engenheiros, agrónomos, advogados, escritores de grande prestigio, antropólogos. Chegaram e são tratados como quaisquer outros que aderiram às FARC em qualquer momento da sua história. O nível de qualificação dos quadros das FARC nos últimos tempos impressiona. A detenção do camarada Simón Trinidad chamou a atenção para essa evidência. Muitos países e muitos amigos demonstraram espanto porque a imprensa não pôde ocultar que se trata de um homem educado nas melhores universidades dos Estados Unidos, um homem com uma formação cultural muito profunda. Não esqueças que sempre se difundiu a ideia de que nas FARC somos uma quantidade de camponeses atrasados e ignorantes e isso faz parte daquilo que o inimigo diz de nós e que os nossos amigos, às vezes, sem reflectirem, assimilam. É normal que tal aconteça. Nos nossos vaivéns, no tocante à confrontação ideológica, alguns amigos, quando vem à baila o tema da repressão, tomam distância. Inclusivamente aceitam sem uma atitude critica o que diz a grande imprensa. Entendemos perfeitamente isso. Não nos fere, mas tratamos de explicar a esses amigos e simpatizantes que devem confiar em nós, confiar na consolidação do nosso exército, que cresce no campo, na cidade, em profundidade e extensão, com o recrutamento de novos guerrilheiros, cobrando novas áreas da geografia colombiana. Estamos chegando, essa é a realidade, ao coração e à mente colombiana nas grandes cidades da Colômbia.

MUR: Sobre a questão que acabas de tratar gostaria que fosses mais preciso num ponto. As FARC afirmam que combatem em 60 Frentes, distribuídas por todo o território nacional. É muito, mesmo num país 13 vezes maior do que o meu. Entretanto, o governo de Uribe e toda a imprensa — basta ler "El Tiempo" — sustentam que nos últimos meses, segundo o alto comando do exército, este alcançou grandes vitórias militares. Então, pergunto: que há de concreto sobre a situação militar durante esse período? Houve alguma mudança importante? Porventura as FARC são actualmente mais débeis do que quando Uribe tomou posse, quando Pastraña acabou com a zona desmilitarizada? Ou as FARC mantêm intacta a sua capacidade militar?

Ricardo: As FARC estão intactas e podemos afirmar que, tal como o seu comandante chefe, que goza de excelente saúde, assim está o corpo total das FARC, como força de combate.

MUR: A propósito do que afirmas, disseram que o comandante Marulanda estava com um cancro em fase terminal, num hospital brasileiro, no Mato Grosso. Isso apareceu na imprensa internacional, creio que na CNN. Algum comentário?

Ricardo: Imagina. Já mataram Marulanda umas 50 vezes, mais ou menos e essa é apenas outra morte prematura do nosso comandante-chefe. Como se costuma dizer, «os mortos que matais gozam de excelente saúde!». É o caso do nosso comandante-chefe.

MUR: Outra questão, agora sobre a reeleição de Uribe. Trata-se, se a memória não falha, da segunda tentativa, porque a primeira não passou no Senado. A nova manobra partiu, creio, da embaixadora da Colômbia em Madrid, ex-ministra e ex-candidata à Presidência da Republica. Que possibilidades tem isto de ir adiante e qual o efeito eventual destas manobras no debate em torno da troca de prisioneiros?

Ricardo: Bom, a aspiração de Uribe é converter-se num pequeno César.

MUR: Uribe é fascista? As FARC identificam-no como fascista?

Ricardo: Exactamente, é um fascista integral. Ele não esconde, digamos, a sua simpatia por esse tipo de fenómeno político e trata de reeditar Hitler noutro contexto, e inspira-se muito no seu mestre e chefe, que é o Sr Bush. Então nesse sentido temos pela frente um regime que utiliza todos os meios, inclusive inconstitucionais, na sua estratégia autocrática. Utiliza concretamente o sector financeiro e o industrial. Inclusivamente, agora, os postos-chave como o Ministério da Defesa e o do Interior e da Justiça foram atribuídos a gente que vem dos grupos económicos mais influentes na oligarquia. Então, coloca-se uma questão. Tanto pela sua situação de classe como pelo facto de exercer o poder, desencadeia a repressão arbitrária. Os direitos constitucionais dos detidos são desconhecidos. Agora qualquer colombiano tem de se registrar obrigatoriamente perante um notário, informando qual o lugar de residência, com quantas pessoas vive, etc. E mais. Se quer mudar para outra cidade tem de pedir autorização. Na pratica, a Colômbia está a ser transformada num imenso cárcere. Muitos cidadãos cumpriram 6, 8 ou 10 meses de prisão e depois as autoridades foram forçadas a libertar esses detidos porque não encontraram qualquer indício de que fossem auxiliares da guerrilha ou que mantivessem contactos com o movimento insurgente. Qualquer tipo de protesto social implica punições. Há tortura, há prisão, há execuções extrajudiciais. Isso é o que estamos vivendo os colombianos neste momento, enquanto lá fora o Sr. Álvaro Uribe Vélez fala da tal segurança democrática global, que não é mais do que o seu desejo de converter a Colômbia num imenso quartel.

MUR: Passemos à situação internacional. A humanidade vive uma crise de enorme complexidade, uma crise de civilização, e neste momento — apesar do seu colossal poder militar, económico e político — o sistema de dominação imperial, com a sua ambição planetária atravessa uma crise, diferente das anteriores. Seria uma crise estrutural. Os enormes défices comercial e orçamental e a gigantesca divida externa, a maior do mundo, explicam a agressividade crescente do sistema. Hoje não existiria, na perspectiva deles, outra saída para a crise senão a das guerras preventivas e do saque dos recursos naturais de outros povos. Pergunto se as FARC acham correcta essa tese, defendida por eminentes cientistas marxistas, como o húngaro István Mészaros, que retoma a frase de Rosa Luxemburgo “socialismo ou barbárie”? Segundo Meszaros, a saída positiva desta crise somente pode ser o fim do capitalismo. Pergunto: acreditam as FARC que o marxismo, a herança de Marx e Lenine podem desempenhar um papel importante na construção do futuro?

Ricardo: Com toda essa recomposição do capitalismo, os políticos neoliberais trataram de apagar a questão das lutas de classes, esforçam-se por mudar a própria linguagem. Negam inclusive a existência do imperialismo como tal e o que vemos é ouvi-los bramar que chegou o fim da história com a queda do campo socialista. Ora, nem sequer desapareceu a fome do mundo. Pelo contrario, as desigualdades sociais aumentam, e não apenas nos países da América Latina, mas também na própria Europa e no interior dos EUA. Obviamente, os recursos estratégicos também começam a escassear. O caso do petróleo, por exemplo, que é um problema sério para os EUA e para os países mais desenvolvidos, bem como as questões do meio ambiente e problemas como o da água potável e as suas reservas mundiais. Isso exige do Império uma revisão estratégica. Entre os problemas do Hemisfério figura a questão da bacia amazónica na qual se concentra a sexta parte da agua potável do planeta Terra, assim como a maior biodiversidade e gigantescos recursos e minérios estratégicos. Vemos que os Estados Unidos não escondem o seu desejo de apropriar-se dessas riquezas na América Latina, tal como já principiaram a faze-lo no Iraque e no Afeganistão com o petróleo e o gás. Regista que, com tudo o que estamos vendo desde o 11 de Setembro, o império foi ferido no coração e começa a agitar-se desordenadamente. Aventurou-se no Afeganistão, desencadeou a guerra contra o Iraque, pensando que era um passeio para derrotar Saddam Hussein que, digamos, pode ter sido o que foi como ditador, mas era o presidente de um país soberano. Os Estados Unidos, ignorando as Nações Unidas, atribuíram-se o direito de entrar ali para impor a sua nova ordem económica e a sua nova ordem internacional. E aí está o pântano em que se atolaram. Acontece que os povos não estão de joelhos, e o povo do Iraque, recorrendo à guerra de guerrilhas, está a causar grandes baixas ao exército mais poderoso que a humanidade conheceu e enfrenta com êxito também os outros exércitos de ocupação, o inglês, o espanhol e o italiano. E as repercussões começam a senti-las aqueles que planificaram esta guerra de extermínio, esta guerra injusta, esta guerra de agressão, esta guerra maldita contra o povo iraquiano.

Por isso, penso na tragédia que foi a morte em Espanha de gente inocente, o senhor Aznar está neste momento a receber o castigo por ter envolvido o seu povo na guerra que ele procurou, apesar dos espanhóis a condenarem maioritariamente. Está recebendo no seu território os toques de uma guerra pela qual optou para defender os interesses estadunidenses no Médio Oriente. Isso tornou-se agora transparente. A situação em Espanha provocou a queda do Partido Popular. Quanto à América Latina, vemo-la em convulsão desde a Argentina, em choque com o Banco Mundial e o FMI, passando pela Bolívia com esse levantamento popular e o que está ocorrendo no Equador, no Peru, no Haiti, na Colômbia. Quer dizer, estamos vivendo um momento de auge na luta dos povos. Creio que este Império se sente mortificado por não poder aplicar a sua política de globalização tal como pretendia, utilizando a dominação das grandes transnacionais. Os povos não a aceitam e a luta vai intensificar-se com confrontações violentas. Os movimentos anti-guerra na Europa desenvolveram-se e começam a sentir-se os seus efeitos em todo o planeta. Com cada povo a empregar a forma de luta da sua escolha podemos entre todos ir gerando uma corrente de opinião e de resistência e fazer recuar o fascismo e o projecto de ditadura mundial que o império quer impor-nos. O facto de as FARC neste momento, com as armas na mão, recebendo todo o peso da agressão do exército colombiano, ajudado económica e militarmente – e, não esqueças, com a ajuda da alta tecnologia dos EUA e da sua inteligência militar – se manterem firmes, insisto, essa luta das FARC é uma grande contribuição para as lutas revolucionárias no mundo. Estamos em combate sem ter sofrido as baixas que eles anunciam. Na pergunta anterior tu falavas das 60 frentes e, efectivamente, nós temos 60 Frentes funcionando. Esse dado é oficial das FARC, e confirmado pela inteligência militar que sempre diz que as FARC contam com 18 000 homens. Nós não sabemos quantos somos exactamente. Talvez o saiba Manuel Marulanda Vélez, mas pelo que dizem os jornais e os balanços do inimigo, chega-se à conclusão de que eles mataram ou prenderam 23 mil guerrillheiros. Estão tomando os seus desejos pela realidade. E esta é bem outra. Pelo contrário, as FARC continuam crescendo em combatentes e em extensão territorial. O que acontece é que a confrontação, nesta fase, desde que o Sr Álvaro Uribe Velez rompeu o diálogo e assumiu a Presidência, apenas está começando. As FARC não podem pôr-se a lutar no momento em que o governo e o exército ou os gringos gostariam que elas o fizessem, digam eles o que disserem… Não. As FARC reservam-se o directo de dar combate no momento que o julgarem oportuno e necessário. Estamos tranquilos, acompanhando com muito optimismo a marcha dos acontecimentos. Os próximos anos dirão se temos ou não razão, mas do ponto de vista militar é utópico pensar que vão encurralar as FARC ou exterminá-las. Precisamente em Outubro do ano passado as FARC promoveram um plenário para a reestruturação de toda a sua linha de comando, começando pelo secretariado Nacional, pelo Estado Maior Central, pelos estados maiores dos Blocos, pelos estados maiores de Frente e pelos e pelos estados maiores de colunas de combate. Quer dizer, a direcção está garantida para o futuro, sem sobressaltos, aconteça o que acontecer. Na confrontação estamos tranquilos: Qualquer que seja o desfecho da revolução na Colômbia, as FARC sempre estarão presentes.

MUR: Ricardo, voltando um pouco à questão do imperialismo, acreditas que efectivamente a alternativa, se o capitalismo for erradicado, seja entre socialismo e barbárie? Que papel teria o marxismo? Em todo o debate em torno do binómio movimentos — partidos não faltam intelectuais e dirigentes políticos para os quais a solução na luta contra o neoliberalismo resultará fundamentalmente de acção dos movimentos sociais. Recordo intervenções em que Fausto Bertinotti, de Rifondazione Comunista, defendeu uma posição surpreendente. Segundo ele, o desaparecimento do capitalismo será o resultado de uma luta de carácter revolucionário, conduzida pelo movimento dos movimentos. Entretanto, outros — é o meu caso — concluem que cabe às organizações e partidos revolucionários cumprir um papel insubstituível. Que pensas desse debate?

Ricardo: Nós nunca negamos que somos uma organização marxista-leninista. Nas FARC uma esquadra é composta de 12 homens ou mulheres e simultaneamente é uma célula do partido comunista e nela educamos combatentes no pensamento marxista-leninista. Acreditamos que essa posição mantém plena actualidade. Alem disso juntamos ao marxismo o pensamento bolivariano por consideramos que Bolívar tem muito que fazer na América Latina. Mais, Bolívar hoje é uma grande preocupação para Washington. Os estrategos e ideólogos do sistema temem que Bolívar saia do túmulo, empunhando novamente a espada libertadora. No Documento Santa Fé 4, os gringos manifestam a preocupação de que esse pensamento bolivariano possa alastrar por toda a área andina e sul americana. Estamos noutra época, mas o pensamento da unidade latino-americana permanece vivo e a ameaça de sermos submetidos pelo império acentua-se. A ideia de criar governos que proporcionem felicidade aos seus povos é uma exigência continental. E a de constituir exércitos libertadores não perdeu actualidade. Então, verificamos que Bolívar tem muito que fazer por aqui.

Acreditamos que o socialismo é plenamente atingível e que a própria globalização contribuiu para nos aproximar da futura transição. Não podemos afirmar que existe uma única via para enfrentarmos o império e dar o salto. Não. Certamente em determinados países será mais difícil. Por exemplo, nós, neste momento, como Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, pelas condições que nos impõe o regime de Uribe Vélez, estamos colocados numa situação muito mais complexa do que outras organizações revolucionárias do passado recente, quando existia o campo socialista e podia chegar ajuda económica. Nós sofremos as consequências do intercâmbio dos serviços de inteligência e de assessoria militar, de treino de batalhões especiais, etc. Somos uma guerrilha forçada a autoabastecer-se em todos os domínios, incluindo a compra de armas no mercado negro e o seu fabrico, como alias já estamos a fazer no tocante à produção de armas caseiras, indispensáveis numa luta tão desigual do ponto de vista tecnológico, fundamental na guerra moderna. Acreditamos que caminharemos para um socialismo com as características e a idiossincrasia colombianas para o que certamente teremos de analisar todos os tipos de socialismo que existiram desde a União Soviética, a própria China, a Coreia, o Vietnam, a Cuba socialista, e de tudo isso extrair o positivo que houve e aplicá-lo às condições do desenvolvimento e das forças produtivas na Colômbia. Mas nós não acreditamos que exista uma terceira via. Cremos que a opção será entre socialismo ou barbárie. E a barbárie já sabemos quem a promove, o imperialismo que não desapareceu. Pelo contrario, está hoje mais vivo e perigoso do que no passado e nós, revolucionários, depois do que ocorreu na URSS e na Europa do Leste, estamos em desvantagem. Contudo, na Colômbia somos muito optimistas e assumimos coincidentemente o peso da responsabilidade histórica do momento.

MUR: Agora uma questão muito delicada: o tema da droga. Uma campanha de âmbito mundial está hoje em todos os continentes e dificulta muito a mobilização da solidariedade. Ela tem como argumento permanente e principal a acusação de que as FARC seriam uma organização intimamente ligada aos cartéis da droga. Eu sei que foi um diplomata estadunidense, Louis Stamb, ex-embaixador em Bogotá, quem, um dia, durante uma reunião no Pentágono, para com o qual colaborava, afirmou que era necessário inventar um slogan que pudesse criar uma legenda negra em torno das FARC. Nessa mesma reunião, sob proposta sua, nasceu a expressão «a guerrilha do narcotráfico» ou «narcoguerrilha» para desmoralizar as FARC.

Pergunto: que respondem as FARC à montanha de acusações que a apresentam comprometida com os cartéis da droga? Os seus adversários sustentam que é uma organização milionária e que não poderia, sem os milhões do tráfico da cocaína, actuar como actua. Inclusive muitos intelectuais de esquerda temem demonstrar solidariedade com as FARC por acreditarem que a organização mantém efectivamente laços com o narcotráfico. Que tens a responder a essas acusações?


Ricardo: Contra nós sempre houve campanhas de desprestigio. Quando não existia o narcotráfico na Colômbia diziam que éramos a quinta coluna do imperialismo soviético, que as FARC eram financiadas pelos soviéticos e que somente por isso existiam. Depois trataram-nos como bandoleiros ou simples delinquentes comuns. Posteriormente sim, o senhor Stamb, como disseste , forjou o epíteto da narcoguerrilha, e com frequência nos chamam também narcoterroristas ou simplesmente terroristas. É uma campanha bem orquestrada e montada em momentos escolhidos. Qualquer pessoa pode aperceber-se de que o negócio do narcotráfico é um negócio eminentemente capitalista, que na Colômbia, pelas condições específicas da aplicação das políticas neoliberais arruinou o campo, tirou da circulação um milhão e quinhentos mil hectares de terras, antes dedicadas ao cultivo do café, arruinou também toda a economia do sorgo, arruinou toda a economia de outro produto, o algodão. Os camponeses começaram a cultivar marijuana ou a plantar coca e isso foi em certa medida tolerado pelos governos colombianos. Os narcotraficantes na década de 80 estavam metidos em todas as camadas sociais do país. O próprio Pablo Escobar, o rei da droga, fez-se eleger para a Câmara de Representantes nas listas do Partido Liberal. E nos aviões dos narcotraficantes colombianos viajavam desde o presidente já falecido, o Sr. Carlos Lleras Restrepo, até aquilo que vimos com o narcopresidente Ernesto Samper, que foi eleito com os dinheiros do narcotráfico. Recordo um episódio expressivo da hipocrisia dessa sociedade colombiana. Quando o Papa João Paulo II visitou a Colômbia, os cartéis da droga reuniram uns três milhões de dólares para os oferecerem a obras sociais do Vaticano.

MUR: E o papa aceitou?

Ricardo: Certamente não soube donde procedia esse dinheiro, mas ele chegou às mãos do chefe da Igreja católica. Recordarás que Pablo Escobar era um homem muito religioso; rezava à Virgem Maria antes de colocar as bombas. Mas, enfim, como sabes, o narcotráfico contaminou todas as estruturas da sociedade colombiana, desde o Parlamento aos grandes banqueiros e industriais, aos juizes e outros magistrados e à alta oficialidade do exército colombiano… Inclusivamente aviões da Força aérea levavam droga para os EUA. O navio numero 1 da armada colombiana, o «Glória», foi interceptado quando transportava cocaína. Até no avião presidencial, quando o dr. Ernesto Samper Pizarro ia visitar os EUA, encontraram cocaína. Mas obviamente esse negócio é dos mais rentáveis do planeta. Está quase no mesmo nível dos armamentos. Aqui o capital circula com muita rapidez; analistas do problema calculam que há em circulação 550 mil milhões de dólares no mundo, produto do narcotráfico. Desses 550 mil milhões a parte da América Latina é apenas de 20 mil milhões dos quais chegaram à Colômbia 5 500 milhões segundo os mais optimistas, embora se admita que a Colômbia produz 80% da cocaína do planeta. Onde permanece esse dinheiro? Dentro do império; o grande negócio é dos próprios EUA. Durante os dois mandatos de Clinton a economia dos Estados Unidos cresceu a um ritmo de 6,11%. Porque, claro, esses capitais provenientes do narcotráfico irrigavam como torrente financeira a economia norte-americana. As FARC propuseram aos EUA e às Nações Unidas e a todos os governos do mundo que estivessem interessados em dar combate real ao narcotráfico uma política clara de substituição de culturas, de ataque em profundidade à questão. Nós recebemos os ataques dos grandes cartéis da droga porque tivemos de os enfrentar militarmente porque a verdadeira aliança está entre os narcotraficantes os paramilitares, os homens de alguns comandos militares colombianos e toda a apodrecida casta política colombiana enlameada pelo negócio. São eles realmente que o dirigem, pois podem sair do país e entrar nele sem problemas. Nós não podemos sequer mover-nos livremente no território nacional, porque nos perseguem por todo o lado. Como sabes, desde a época da guerra fria, todo o Caribe e o Pacifico, a Amazónia e a região andina estão infestadas de radares dos Estados Unidos. Nós dissemos aos gringos: deixem de ser hipócritas; o problema é vosso e vocês tiram lucros dele. Calcula-se que nos EUA, neste momento, haverá uns 25 milhões de consumidores directos da droga. Se admitirmos que cada habitante consumidor de droga afecta quatro ou cinco pessoas, chega-se á conclusão de que uns 120 a 125 milhões estão envolvidas no problema. Para combater dentro dos Estados Unidos o flagelo dos narcóticos, o governo, para reduzir 1% do consumo no seu território, curando viciados, promovendo campanhas nas universidades e colégios e entre a população em geral, gastaria cerca de 180 milhões de dólares. Se dentro dos EUA se fizesse a mesma campanha, mas tendo por complemento o combate sério à entrada da droga no país, então, para se obter a mesma redução de 1% a administração federal gastaria 380 milhões de dólares.

A hipocrisia é inocultável. Não combatem o problema nos EUA, mas levam a guerra contra a droga à Bolívia, ao Peru, ao Equador, ou à Colômbia e então os custos para reduzir o consumo na mesma percentagem de 1% elevam-se a 780 milhões de dólares. Por outras palavras, seria mais produtivo para os EUA o combate no interior do seu próprio território. Nós propusemos no I Encontro Internacional sobre o Combate a culturas chamada ilícitas e ao narcotráfico, propusemos, recordo, à União Europeia e ao presidente Pastraña substituir essas plantações à base de um estudo realizado num município chamado Cartagena del Chairá, onde existiam para o efeito 7200 hectares de plantações de coca. A ideia era formar ali um grande laboratório experimental, realizar um teste para provar que se pode efectivamente combater o narcotráfico em profundidade. Mas, como te disse, logo levantaram-se contra nós esses fantasmas que servem de pretexto aos EUA para agredir militarmente a Colômbia e esconder o verdadeiro motivo do Plano Colômbia, que é um plano contrainsurrecional para acabar com as FARC, para implantar o seu domínio no país, agredir a Venezuela e, além disso, apropriar-se da região. Já antes falámos da Amazónia a propósito da cobiça despertada pelas suas riquezas. Lamentamos muito neste momento tão difícil que amigos nossos continuem acreditando em infâmias que visam desacreditar a nossa organização guerrilheira. Sempre condenámos o narcotráfico como crime contra a humanidade. Sabemos dos males que causa sobretudo entre a juventude. Nós, nas áreas onde estamos implantados, condenamos com muito rigor o consumo de estupefacientes.

Sendo maioritariamente camponesa a guerrilha das FARC, é uma guerrilha sadia. Os camponeses da Colômbia, os próprios camponeses dos EUA, tal como os de Portugal, da Argentina ou da Venezuela são gente sadia, que nunca utilizou drogas. Quem as consome são os estadunidenses, quer dizer milhões deles, o que demonstra o alto grau de desequilíbrio moral dessa sociedade. O mesmo acontece na Europa. Na Colômbia nós não estamos metidos no negócio, mas a partir de calunias afirma-se que as FARC são um movimento milionário, o que dá vontade de rir porque ninguém sabe com que sede outro bebe. Nós somos uma guerrilha autárquica e vimo-nos obrigados a autofinanciar todas as coisas. Há grandes industriais patriotas que contribuem para as FARC, tal como proprietários de grandes fazendas, que também nos ajudam. As FARC mantêm na Colômbia negócios rentáveis que facilitam o seu abastecimento. Obviamente como é uma guerra que nos foi imposta e são os ricos quem tem o dinheiro, os potentados que se beneficiam do suor e das lágrimas do nosso povo, às vezes tivemos de recorrer a retenções de pessoas, os chamados sequestros, mas não esqueças que na ultima etapa, a partir de El Caguán, as FARC promulgaram a lei 002 , mediante a qual qualquer cidadão, nacional ou estrangeiro, cujos lucros excedam um milhão de dólares tem que pagar às FARC 10%. Estamos cobrando esse imposto e para o cobrar não pode ser com flores. Temos de agir porque as FARC, quando promulgam uma lei, é para ser cumprida. Neste momento, cada vez mais industriais, mais banqueiros, mais transaccionais tocam à porta das FARC para saber quanto têm de nos pagar. Mas obviamente o custo de manutenção de um exército como o nosso é muito elevado. Enfrentamos dificuldades de toda a ordem. Essa situação impede-nos de ter acesso à alta tecnologia de armamentos. A França, os EUA, as Nações Unidas pedem-nos que não utilizemos as minas «quiebra patas» e outras armas não convencionais. Mas, que fazer? Como já somos um estado pequeno e em formação, dizemos aos ingleses e aos estadunidenses, aos gringos em geral que se lhes dói muito o recurso às minas «quiebra patas», então que nos abram um crédito, que nos vendam armas convencionais .

MUR: Como são as minas «quiebra-patas»? Explica como traduzir isso? São minas pessoais?

Ricardo: Sim, são minas pessoais que nós, combatentes das FARC, fabricamos. Numa lata de sardinhas coloca-se X quantidade de explosivos e metralha, pregos, pedaços de ferro, etc. E é isso que vem colando o exército colombiano ao terreno.

MUR: Quer dizer… Vocês não têm mísseis?

Ricardo: Não. Não temos mísseis?

MUR: Nunca foram acusados disso?

Ricardo: Uma vez viram algures uns camponeses com um carro velho pintado como se fosse um míssil e então disseram que sim, afinal, já tínhamos mísseis. Uma estória que nos divertiu. Não, não contamos com essas armas sofisticadas.
Em matéria de armas temos o que viste nos acampamentos do Caquetá. Uma ou outra escopeta…
MUR: Ricardo, uma última pergunta. O governo de Uribe nega-se a discutir com as FARC o problema da troca de prisioneiros, mas ao mesmo tempo mantém um diálogo quase amistoso com os paramilitares de Carlos Castaño e Salvatore Mancuso, responsáveis por incontáveis crimes. Como vêem as FARC essa contradição?

Ricardo: Eu não diria que existe dialogo entre Uribe e os paramilitares. O que há é um monólogo entre eles. O Sr Uribe orgulha-se de lhe chamarem paramilitar, porque ele vem daí… Deveriam perguntar ao Sr Uribe o que fazia na Aeronáutica Civil quando foi director nacional. Então entregou uma quantidade de pistas de aterragem aos narcotraficantes colombianos. O Sr Uribe tem um passado horrendo nesse campo. Agora, velhos conhecidos reunem-se e procedem a uma divisão social do trabalho. Votaram por Uribe e prestaram-lhe toda a ajuda. Agora recebem a recompensa pelos serviços que prestaram ao Sr Uribe noutras épocas. Foi muito generoso com eles e continuará a sê-lo. Não há diálogo, assistimos a um monólogo.

MUR: E a troca de prisioneiros? O governo aí está intransigente. Recusa-se...

Ricardo: O Sr Uribe trata de se mostrar intransigente perante um clamor que é nacional e que já transcende as fronteiras colombianas. O que existe na Colômbia é um conflito interno de duas forças, uma irregular, no caso as FARC, e a outra o exército oficial. Nós temos prisioneiros de guerra, tal como o estado colombiano tem prisioneiros de guerra das FARC nas suas masmorras. O Sr Uribe simula desconhecer que os seus oficiais do Exército e da Polícia e da Marinha, assim como membros dos serviços de inteligência, como o DAS e o F2, estão em poder das FARC, presos em combate por defenderem um regime putrefacto, insensível ao drama que a sua gente vive. Nós propusemos a troca de prisioneiros e a proposta permanece válida.

MUR: Quantos prisioneiros têm as FARC em seu poder?

Ricardo: Neste momento calcula-se que uns 50 ou 60 oficiais do exército e da polícia estão em poder das FARC. E alem disso personalidades representativas da classe política colombiana. Conforme declarou o comandante Raul Reyes, todos estão em bom estado de saúde, embora suportando, claro, as incomodidades próprias da selva, mas tratados sempre com dignidade e decoro. No caso das FARC são respeitados como prisioneiros de guerra e o tratamento que recebem é o mesmo dispensado aos nosso guerrilheiros. Não existe discriminação. Acreditamos que a troca terá de caminhar neste governo ou noutro que compreenda a necessidade de abrir as comportas para o entendimento entre colombianos. Por isso, a pretensão do Sr Uribe de se perpetuar no poder é uma piada e uma ameaça. Há sectores sociais, sobretudo a nível da grande imprensa, que magnificam o grau de aceitação que tem o actual presidente na população. Mas estamos golpeando muito o sistema e até «El Tiempo» tem que começar a noticiar essas coisas. As minas anti-pessoais estão provocando uma tremenda sangria no exército. Isso também terá que ser analisado pelo povo colombiano.

A guerra não traz nada bom aos povos, a guerra só deixa desolação e morte. Aqui temos um presidente que fala diariamente de guerra quando nós dizemos que queremos dialogar com um governo que esteja realmente empenhado em abrir as comportas para uma solução dialogada ao conflito social armado que a Colômbia vive.

MUR: Bom, chegamos ao fim. O tema é inesgotável, poderíamos falar durante horas da luta das FARC, mas creio que disseste coisas importantes. Queres acrescentar alguma coisa?

Ricardo: Sim. Quero agradecer a solidariedade dos comunistas portugueses, dos camaradas do teu partido à nossa luta. Para os camaradas portugueses e em especial para Álvaro Cunhal vai a mais fraterna, revolucionaria e combativa saudação marxista-leninista. Partidos como o PCP demonstraram grandeza e firmeza ideológica. Nós admiramo-los profundamente. Lemos e estudamos o «Partido com Paredes de Vidro» e ainda aprendemos com ele. Creio que os comunistas portugueses podem sentir-se orgulhosos por não ter fraquejado quando a cobardia começou a tomar conta do mundo. Agora mais do que nunca sentimo-nos próximos de vocês em tudo. Para o PCP uma saudação das Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia e oxalá surja a oportunidade de nos visitarem nos nossos acampamentos nas montanhas e que alguma delegação nossa possa também receber esse calor dos comunistas e do povo português que, apesar da distancia, estão próximos, na nossa mente e no nosso coração.

Março de 2004, em algum lugar no México.

O original encontra-se no semanário Avante!
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23/Abr/04