Sempre que, debatendo no mais doce silêncio,
Convoco na memória tudo o que foi passado,
Suspiro pela ausência do que foi desejado
E assim gasto o meu tempo valioso em velhos prantos.
E os meus olhos se afogam, eu, que mal sei chorar,
Por amigos perdidos na morte sem idade,
E torno a lamentar amores antes sarados
E pranteio por tudo o que gastei do olhar.
Posso sofrer então por sofrimentos idos,
Contar de mágoa em mágoa, da forma mais dorida,
A minha triste história de queixas mais antigas
Cobrando, nova, a história, como nunca cobrada.
Mas quando, amigo meu, me vens ao pensamento
Recuperam-se as perdas e finda o sofrimento.
Soneto 30, tradução de Ana Luísa Amaral, inserido na colectânea “31 Sonetos” de William Shakespeare, publicado pela Relógio D’Água
O, never say that I was false of heart, Though absence seem'd my flame to qualify. As easy might I from myself depart As from my soul, which in thy breast doth lie: That is my home of love: if I have ranged, Like him that travels I return again, Just to the time, not with the time exchanged, So that myself bring water for my stain. Never believe, though in my nature reign'd All frailties that besiege all kinds of blood, That it could so preposterously be stain'd, To leave for nothing all thy sum of good; For nothing this wide universe I call, Save thou, my rose; in it thou art my all
Há coisas com 400 anos que permanecem inteiramente vivas. Uma delas é a obra de William Shakespeare, sobre cujo falecimento passam este ano quatro séculos.
Devemos recordar essa obra antes de tudo pelo seu incomparável valor intrínseco. Mas não é desajustado lembrar também o grande interesse com que Marx e Engels a evocaram, e como recorreram a personagens seus para sublinhar este ou aquele aspecto do comportamento e da mentalidade da burguesia em ascensão e do conflito de classes do seu tempo. Tal como, aliás, Álvaro Cunhal – que traduz o «Rei Lear» nos longos anos da segunda prisão – sublinha relativamente a uma fala em «Timon de Atenas»acerca das mutações que «o avanço económico e ideológico da burguesia inglesa» desencadeia: «o ouro que torna o preto branco, o feio bonito, o justo injusto, o sujo limpo, o cobarde valente».
Álvaro Cunhal valoriza a «obra e criatividade de um grande artista, com profundo humanismo e sentido crítico da época, assente no espírito criador do seu povo», obra que tem a«antecedê-la e inspirá-la uma longa e profunda elaboração da criatividade popular.»
E merece igualmente a pena recordar as belíssimas linhas com que Georgy Lukács, argumentando a crítica ao«romantismo revolucionário» na literatura, retoma Marx: «a revolução socialista já não pode, como fazia a revolução burguesa, extrair a sua poesia do passado: só ao futuro ele deve pedi-la»; […] «esta perspectiva que irradia do futuro em relação ao presente, este esplendor da perspectiva socialista, é o dever de uma crítica cada vez mais rigorosa, mais despojada, mais exigente»; […] «a poesia do futuro serve-se de meios que permitem procurar e encontrar a essência do presente, na totalidade móvel das suas verdadeiras determinações e das suas verdadeiras leis». É nesse termos que Marx se refere aos realistas, «os mais perfeitos dos escritores modernos, cuja visão se estende ao mundo inteiro e que o submetem objectivamente a uma crítica feroz – e antes de todos Shakespeare e Balzac».
É nos termos dessa «poesia do futuro» que os povos devem assumir como seu o património dos grandes poetas que deram expressão a toda a riqueza da longa caminhada humana.
Escritores britânicos realçam actualidade do dramaturgo e poeta inglês no momento em que arrancam dois anos de comemorações: dos 450 anos do nascimento aos 400 anos da sua morte, em 2016
Será William Shakespeare (1564-1616) nosso contemporâneo? Quando se comemoram 450 anos do seu nascimento – crê-se que terá nascido a 23 de Abril, tendo sido baptizado a 26 de Abril – e se celebra a sua obra, que nunca deixou de ser encenada e admirada, o autor deHamletestá em toda a parte.
“Shakespeare é omnipresente. Quase não se pode falar inglês sem o citar. Ele acrescentou mais de 2000 palavras à língua inglesa. Palavras e expressões como ‘incarnadine’ (colorir de encarnado), ‘assassination’ (assassínio), ‘sea change’ (mudança de marés), ‘lily livered’ (assustadiço), ‘aerial’ (aéreo), ‘bedazzled’ (ofuscado), mas também palavras que usamos todos os dias, como ‘fashionable’ (na moda), ‘mortifying’ (humilhante, degradante), ‘quarrelsome’ (brigão), ‘reclusive’ (isolado) ou até ‘puke’ (vomitar)”, diz a editora britânica Gail Rebuck, directora executiva da Penguin Random House no Reino Unido.
“Seja o que for que quisermos expressar, ele disse-o primeiro ou disse-o melhor”, defende aquela que é uma das mais poderosas mulheres no mundo editorial, e que fez a conferência de abertura do seminárioShakespeare - Our Contemporary?, organizado pelo British Council em Berlim, um dos primeiros eventos destas celebrações, que vão durar dois anos e que, no próximo sábado, levarão uma multidão a Stratford-upon-Avon, em Inglaterra, para participar numa festa e procissão até à igreja onde está sepultado o mais famoso poeta e dramaturgo inglês.
Quando se fala hoje de Shakespeare, não estamos só a falar de literatura. Estamos a falar de cultura em sentido lato e a realçar a sua universalidade, já que a sua obra atrai todas as culturas e tem sido recontada de inúmeras maneiras em diversas línguas. “A maioria das pessoas sabe frases de Shakespeare, mesmo que não saiba quem as escreveu. Os seus versos são lidos em funerais e casamentos. Os seus sonetos aparecem em cartões de S. Valentim...” Os políticos roubam-lhe frases, os escritores fazem títulos a partir dele, mas, lembra a editora, também foi evocado por um britânico que matou um prisioneiro no Afeganistão. “Para o bem ou para o mal, habita a nossa mente colectiva”, diz Gail Rebuck, lembrando que cada geração se foi inspirando no trabalho do Bardo. “Shakespeare tanto pode inspirar novas peças de teatro como novos livros”, conclui.
E por isso nasceu o projecto editorial The Hogarth Shakespeare, da Hogarth Press, chancela da Penguin Random House: uma série de romances que vão recontar as peças de Shakespeare. “O primeiro destes livros será publicado em 2016, no aniversário da morte de Shakespeare. Vamos ter O Mercador de Veneza repensado por Howard Jacobson. Não podia ter arranjado um par melhor — é uma ‘dream-team’. Aquela que é uma peça de teatro ambivalente e perturbadora, com o seu anti-herói judeu, foi escrita por Shakespeare antes do termo anti-semitismo existir. Vê-la ser examinada por um romancista fantástico como Howard, que fez do anti-semitismo um dos seus temas constantes, vai ser revelador”, diz Gail Rebuck.
Romancistas reinventam peças
Howard Jacobson, o escritor britânico que recebeu o prémio Man Booker em 2010 pelo romance A Questão Finkler (ed. Porto Editora), contou ao PÚBLICO que quando foi convidado para contribuir para o The Hogarth Shakespeare disse logo que lhe parecia um projecto entusiasmante e ficava muito feliz por participar. “Posso, por favor, escolher a peça Hamlet?”, perguntou-lhes. Responderam-lhe que sim, mas que preferiam que fizesse O Mercador de Veneza. Jacobson achou que era “um pouco previsível”, porque é judeu e muitos dos temas dos seus romances estão relacionados com isso: “Lá vamos nós, estou a ficar estereotipado!”
Mas chegou à conclusão de que seria um óptimo desafio. “O Mercador de Veneza é uma peça que levanta questões interessantes sobre o anti-semitismo que Shakespeare via à sua volta e que era um lugar-comum na Europa, particularmente em Inglaterra, onde escreveu. Não considero que seja uma peça anti-semita. É impossível imaginar que Shakespeare tenha sido anti-semita, porque o anti-semitismo é uma forma de estupidez e ele não era estúpido em relação a nada”, disse Jacobson ao PÚBLICO.
Como são muitas as discussões em relação à natureza da personagem Shylock, achou que seria muito interessante enfrentar esse desafio. “Não faço a mínima ideia como o vou fazer porque ainda não comecei, mas tenho um ano para o fazer.”
Macbeth convertido em policial
Quando falámos com Howard Jacobson, nenhum dos escritores que já tinham sido contratados para o projecto estava com Hamlet. O escritor norueguês de policiais Jo Nesbø escolheu Macbeth porque, tal como contou Gail Rebuck, achou que a peça pode ser vista como “umthriller sobre a luta de poder” — o que não está muito longe da sua área. A escritora britânica Jeanette Winterson escolheu O Conto de Inverno, a norte-americana Anne Tyler irá adaptar A Fera Amansada, a canadiana Margaret Atwood ficará com A Tempestade e Tracy Chevalier com Otelo.
Não há regras definidas sobre como deverá ser o trabalho destes escritores: têm liberdade para contar de novo a história, para a criticarem, para pegarem em alguma coisa que a peça lhes sugira.
Ladrão que rouba a ladrão...
A Howard Jacobson, é a primeira vez que lhe encomendam um romance. Se fosse noutra altura, em que ele fosse mais novo, teria dito que não, mas agora que se sente mais confiante, aos 71 anos, é “doido o suficiente” para aceitar a tarefa. Os direitos dos livros já estão comprados por editores alemães e espanhóis e serão depois vendidos para todo o mundo.
Gail Rebuck recorda que aquilo que Shakespeare fez a outros — pois foi buscar enredos às Holinshed’s Chronicles ou a Plutarco, por exemplo — outros fizeram a ele. Tem sido reinventado no cinema, na ópera, no ballet, na animação (como em Shakespeare: The Animated Tales, da BBC) ou até no iPad, com a aplicação The Sonnets by William Shakespeare, criada pela Touch Press.
“Todos os esforços que se fazem para pôr Shakespeare de outra maneira são óptimos, mas são ideias de editores. E os editores têm estas ideias por um motivo que Shakespeare respeitaria: querem ganhar algum dinheiro. Isso é bom. O que acontece com Shakespeare, tal como com outros grandes escritores, como Charles Dickens ou Jane Austen, é que eles sobrevivem a tudo o que lhes fazemos”, declara ao PÚBLICO o académico britânico John Mullan, que foi o anfitrião e moderador deste seminário em Berlim e é especialista em literatura do século XVIII e XIX.
Este crítico literário, que é também o responsável pelo clube do livro do jornal britânico The Guardian, defende que os escritores sobrevivem às adaptações para séries de televisão, sobrevivem às modernizações, à reescrita. “Não penso que a reescrita da sua obra seja a razão por que Shakespeare está hoje nas conversas ou na cabeça das pessoas ou até nas suas experiências. É um sintoma, não uma causa. Há coisas mais importantes que mantêm Shakespeare vivo.”
Na Grã-Bretanha, por exemplo, parece-lhe que é muito importante que todos os alunos que estudam Literatura Inglesa tenham de estudar a sua obra. “Ele não precisa de ajuda porque a sua escrita é universal e mantém-se tão fresca como sempre foi. No entanto, também é verdade que envolve algum grau de dificuldade: Shakespeare não escreve romances, não usa sempre palavras simples, tem uma sintaxe fabulosa e metáforas. E se é recompensador apesar da sua dificuldade, a dificuldade é uma coisa que às vezes as pessoas evitam”, lembra John Mullan.
Tom McCarthy, o autor de C (ed. Presença), romance finalista do prémio Man Booker em 2010, defende a contemporaneidade de Shakespeare. “Se quisermos perceber o que se passa com Edward Snowden e a NSA (Agência de Segurança Nacional), o que temos de fazer é ler Hamlet”, diz ao PÚBLICO num intervalo das conferências. “É uma peça sobre vigilância, controle e poder, espionagem e resistência.” E acrescenta: “A primeira coisa que Hamlet faz quando o fantasma lhe diz para assassinar o tio é dizer que precisa de escrever. Passa o resto da peça a escrever cartas, a reescrever uma peça, a reescrever cartas. Parece que o único meio com que Shakespeare, o dramaturgo, está preocupado é com a escrita.” Defende que todas as metáforas na peça são sobre escrever, arquivar e gravar. “Ele é um brilhante utilizador dos meios de que dispõe. Hamlet é um hacker e é um escritor.”
Durante a sua conferência, Tom McCarthy pediu desculpa ao auditório por detestar pensar na obra de Shakespeare em termos de teatro. “Para mim, Shakespeare é um escritor, a sua obra é sobre as possibilidades da linguagem. E quando eu a vejo no palco de um teatro, fica reduzida a uma pessoa a gritar. É como alguém que diz que para percebermos Joyce temos de o ler alto; isso é absolutamente errado.” Pouco antes, também Howard Jacobson tinha dito que, para ele, fazia muito mais sentido ler Shakespeare do que vê-lo. “Ao ler Shakespeare, crio um teatro na minha mente e depois vou vê-lo no palco e está tudo estragado”.
Um génio que levava emprestado
Todos referem que Shakespeare é um escritor muito pouco original no sentido de que muitas das suas peças já tinham sido escritas por alguém: havia um Hamlet antes de Hamlet, um Rei Lear antes do Rei Lear, um Macbeth antes de Macbeth... “Ele não tinha medo de fazer aquilo a que hoje chamamos ‘plagiar’, usava excertos de Ovídio, Horácio, Lucrécio. Abria o arquivo da cultura clássica, reescrevia e moldava-o de maneira a que ali se visse modernidade”, explicou, depois da conferência, Tom McCarthy ao PÚBLICO. Ainda hoje Shakespeare é um “maravilhoso modelo”, não só servindo de fonte de material, mas também como um modelo para como se deve escrever em língua inglesa. “É essa a revolucionária não-originalidade do seu génio”, defende .
E para dar exemplos da maneira como Shakespeare tem sido aproveitado, McCarthy refere a obra de Jean Genet, de Mallarmé, e ainda A Piada Infinita do norte-americano David Foster Wallace. “É um bom exemplo recente de alguém que reinventou e retrabalhouHamlet”, diz, lembrando que A Piada Infinita (Infinite Jest) é retirado do discurso que Hamlet faz no cemitério quando segura a caveira do bobo da corte, Yorick (“I knew him, Horatio; a fellow of infinite jest, of most excellent fancy”), e que o herói do livro de David Foster Wallace é também uma espécie de triste príncipe que nunca herdará o trono.
Esta cena de Hamlet parece exercer um grande fascínio sobre todos. Howard Jacobson, cujo primeiro livro, de 1978, foi escrito a meias com Wilbur Sanders e se chamava Shakespeare’s Magnanimity: Four Tragic Heroes, Their Friends and Families (Chatto & Windus), leu na sua sessão em Berlim esse mesmo excerto da peça. “Acho que ninguém consegue orquestrar ideias como Shakespeare o faz. Não sabemos o que Shakespeare pensa — uma das razões por que ele é amado em todos os lugares é porque não tem ideologias, não tem política, não tem filosofia —, mas ele encena os mais importantes pensamentos e não há nada que possamos pensar que seja mais importante do que a morte”, destaca Howard Jacobson. “Se vocês quiserem saber do que trata Shakespeare: é de morte e sexo e é de ciúme. Ninguém escreve melhor sobre o ciúme do que ele. O ciúme é uma espécie de morte. O que Shakespeare nos diz é que, como pessoas sérias, temos obrigação de ser mórbidos. Temos obrigação de pensar na morte o tempo todo, porque é o único tema.”
Elogio da obsessão
Uma das coisas que mais agradam a Jacobson nesta peça e na obra de Shakespeare em geral é que ela nos faz perceber que, se não formos obsessivos, de uma maneira ou de outra, não estamos inteiramente vivos. A frase que mais o marcou em Hamlet é quando Hamlet diz à caveira de Yorick: “Estás triste? Ora vai ao quarto da minha bela e diz-lhe que mesmo que se cubra com uma polegada de pintura há-de vir a dar nisto! Vê se a consegues fazer rir assim...” Esta frase tornou-se o seu credo. “Às vezes apelidam-me de ‘escritor cómico’ — de cada vez que o fazem fico muito zangado, só permito que eu próprio me catalogue assim —, mas como escritor cómico digo-vos que esse é o grande desafio da comédia: ‘Vê se a consegues fazer rir assim...’ Para que serve a comédia? O que Shakespeare nos diz é que a comédia tem de construir o seu lugar perante a morte. Tu és um bobo tão bom Yorick, faz lá uma piada disto.”
O título do seminário, Shakespeare - Nosso Contemporâneo?, foi roubado ao livro de Jan Kott de 1961, que apenas não tinha o ponto de interrogação no fim. O ensaísta defendia que em meados do século XX se compreendia melhor Shakespeare, porque “o Rei Lear era como se fosse Samuel Beckett antes do seu tempo”, explica ao PÚBLICO John Mullan, que quis tentar também perceber o que é que em Shakespeare já não nos é familiar. “Havia uma espécie de arrogância de interpretação contra a qual eu queria ir, de que tudo em Shakespeare que achamos poderoso é porque o reconhecemos, o que nem sequer é o caso. E realmente a discussão no seminário, acho eu, mostrou-nos isso. Os escritores falaram de coisas que eles consideram estranhas ou difíceis ou até enfadonhas, coisas de que não é fácil gostar-se em Shakespeare.”
Muitos disseram de diferentes formas que Shakespeare era melhor lido do que visto. Apesar de também dizerem que por vezes não percebem a linguagem. “Talvez uma das explicações práticas para isso é que, apesar da linguagem ser difícil, é um difícil recompensador. É complicado e subtil. É preciso lê-lo e passar algum tempo a tentar desvendá-lo. No teatro, ele voa à nossa frente. Acho que as pessoas querem dizer isso.”
John Mullan não concorda e dá muita importância ao dramaturgo: “Morreu com a maior parte das peças por publicar, e mesmo aquelas que foram publicadas em vida, todas as provas mostram que ele não participou nisso. O dinheiro que ganhava vinha do teatro e não dos livros. No entanto, há um livro com que ele se preocupou muito: o dos sonetos. Queria que chegasse aos leitores.”
Muito à frente do seu tempo
A. S. Byatt, autora de Possessão, Uma História de Amor (ed. Sextante), que recebeu o prémio Booker em 1991, vê na contemporaneidade de Shakespeare um paradoxo. “Não gosto quando ele é tornado contemporâneo ou quando sinto que está a ser usado por outras pessoas”, explica na conferência. “O que também sinto é que ele não é contemporâneo dele próprio, porque está muito à frente.”
Tal como já disse um famoso crítico inglês, Samuel Johnson, Shakespeare é um escritor universal porque “olha para romanos e reis, mas só pensa em homens”. O anfitrião, John Mullan, conta que recentemente esteve em Verona, onde se passa Romeu e Julieta. Shakespeare nunca lá foi, “mas a Verona dele é tão poderosa que em Verona se pode ir visitar a varanda da Julieta. E isto é incrível. Talvez seja um exemplo da sua universalidade. Ele cria lugares que todos nós podemos habitar. Claro que haverá académicos que podem encontrar uma série de coisas que são muito importantes e interessantes e que estão nas notas de rodapé sobre as palavras, as histórias, toda uma série de coisas, mas na verdade o que temos de saber está na peça.”
No quarto centenário das mortes de Shakespeare e Cervantes, a tentação de os comparar é irresistível. O inglês é o claro favorito a maior escritor de todos os tempos, mas D. Quixote e Sancho Pança são dos poucos rivais à altura de um Hamlet ou de um Rei Lear.
Aqueles que são provavelmente os dois escritores mais influentes da história da literatura, o inglês William Shakespeare (1564-1616) e o espanhol Miguel de Cervantes (1547-1616), morreram (quase) no mesmo dia, há 400 anos. E se Shakespeare é talvez o verdadeiro centro do cânone ocidental, como pretende o crítico americano Harold Bloom, já não é certo que alguma das suas personagens, nem mesmo Hamlet, o neurótico príncipe da Dinamarca, ultrapasse a popularidade de D. Quixote, o cavaleiro da triste figura criado por Cervantes.
Pese embora todo o prestígio acumulado pelo introspectivo e enigmático super-herói literário Batman-Hamlet, no campo de batalha da crítica não é menos considerável a claque dos que apreciam o jogo franco do galhardo e leal Superman-Quixote.
Um dos primeiros a intuir que colocá-los frente a frente no ringue daria um combate memorável foi o ficcionista russo Ivan Turgenev, que em 1860 dedicou toda uma extensa conferência (traduzida para inglês e publicada na Chicago Review em 1965) à comparação entre Hamlet e Quixote, concluindo que ambos representam expressões extremas de duas tendências humanas discordantes: o altruísmo, a fé inabalável, a capacidade de auto-sacrifício, a força de vontade, o entusiasmo, que o fidalgo da Mancha levaria aos limites da alucinação, isto é, da comédia, e o poder de análise, o escrutínio interior, o egotismo, a descrença, a incapacidade de amar, exacerbados em Hamlet ao ponto da tragédia.
D. Quixote, que vê gigantes onde outros vêem moinhos, e arremete contra um rebanho de ovelhas convicto de que ataca uma hoste de cavaleiros, “pode às vezes parecer um perfeito maníaco”, concede o escritor russo. Mas “a solidez da sua estrutura moral imprime a tudo o que diz ou faz uma particular gravidade”, observa, e essa dimensão ética confere-lhe uma dignidade que resiste às “situações absurdas e às humilhações em que incessantemente tropeça”.
Já Hamlet, diz Turgenev, é alguém que se “espia a si próprio” e que, “duvidando de tudo, inclui impiedosamente o seu próprio eu nessas dúvidas”. Mas se este auto-conhecimento o torna dolorosamente consciente das suas próprias fraquezas, diz o romancista de Pais e Filhos, “ele é em si próprio uma força, da qual emana a ironia, que é precisamente a antítese do entusiasmo de D. Quixote”.
Turguenev nunca assume claramente a sua predilecção por D. Quixote e respectivo autor, e até reconhece que o dramaturgo inglês, pela “opulenta e poderosa imaginação”, pelo “brilho do seu talento poético” e pelo “intelecto incomparável” é de facto “um gigante ao pé de Cervantes”. No entanto, argumenta, se o âmbito da arte do espanhol é mais exíguo do que o de Shakespeare, que se serve, para os seus desígnios, “de quanto exista na terra e no céu”, o confinado mundo cervantino basta ainda assim para “reflectir tudo o que pertence à natureza humana”.
Mas o passo em que o russo mais denuncia a sua afinidade electiva é talvez quando argumenta que, em toda a sua simplicidade, D. Quixote “é um autêntico fidalgo”, ao passo que Hamlet, “com toda a sua etiqueta cortesã, dá ares de parvenu”.
Turguenev abre a sua palestra - originalmente escrita para uma leitura pública em favor de uma associação de auxílio a escritores indigentes -, assinalando a coincidência de Hamlet ter sido originalmente publicado no mesmo ano em que saiu dos prelos a primeira parte do D. Quixote, uma coincidência fascinante, mas não inteiramente verdadeira.
Não contabilizando uma hipotética peça desaparecida que teria constituído um primeiro esboço de Hamlet, atribuída por alguns autores ao dramaturgo Thomas Kyd (1558-1594), a primeira impressão que se conhece é de 1603, mas resume-se a 2200 versos, pouco mais de metade dos 3800 que compõem a edição publicada logo no ano seguinte. Turgenev terá considerado com razão que a verdadeira edição original era esta de 1604, e dela se conhecem efectivamente alguns exemplares com data de 1605, o ano em que Cervantes deu à estampa a parte inicial da sua obra-prima.
Já depois da morte de Shakespeare, dois actores da sua companhia, John Heminges e Henry Condell, organizaram em 1623 uma compilação das peças do dramaturgo - Mr. William Shkespeare’s Comedies, Histories, and Tragedies, há muito conhecida por First Folio -, que inclui uma versão de Hamlet apenas ligeiramente mais curta do que a de 1604. Numa recente tradução portuguesa da peça, publicada pela Relógio D’Água, António M. Feijó opta por fundir ambas, mantendo todos os versos da edição de 1604 que não surgem na de 1623 e vice-versa.
Um encontro imaginário
No rol das coincidências sedutoras mas duvidosas, conta-se ainda a própria data que hoje se celebra, escolhida pela UNESCO como dia internacional do livro por ser aquele em que morreram, em 1616, Cervantes e Shakespeare (e Garcilaso de la Vega). No entanto, os investigadores de Cervantes inclinam-se hoje para a hipótese de que este tenha morrido no dia 22.
E saber se foi de facto no dia 23 de Abril que Shakespeare partiu deste mundo é uma questão de perspectiva, ou mais precisamente de calendário. Em Espanha e nos restantes países católicos, o calendário juliano dera lugar ao gregoriano em 1582: nesse ano, espanhóis ou portugueses saltaram directamente do dia 4 para o dia 15 de Outubro. Mas na Inglaterra protestante o calendário juliano manter-se-ia até meados do século XVIII, de modo que até lá continuou a haver uma discrepância de datas. Ou seja, o que para o moribundo Shakespeare era o dia 23 de Abril, seria 3 de Maio para Cervantes (isto, claro, se já não estivesse morto há dez dias).
Enquanto inventava a arte do romance, inaugurando-a com um exemplar, o D. Quixote, que, pensam muitos leitores e críticos, ainda não foi suplantado por nenhum ficcionista posterior, Cervantes não fazia ideia de que nesses mesmos anos, em Inglaterra, um tal William Shakespeare andava a escrever umas dezenas de peças que lhe iriam garantir o perene estatuto de maior criador literário de todos os tempos. Mas Shakespeare pôde ainda ler a primeira parte do Quixote, traduzida para inglês em 1612 por Thomas Shelton. E sabe-se que uma das suas peças perdidas, Cardenio, era inspirada no livro.
Se Shakespeare e Cervantes nunca se encontraram, houve quem tentasse corrigir a posteriori esse lamentável lapso. Na novela A Meeting in Valladolid, incluída em The Devil's Mode and Other Stories (1989), Anthony Burgess inventa uma ida de Shakespeare a Espanha para apresentar algumas peças durante as celebrações de um tratado de paz anglo-espanhol. Na assistência está Cervantes, que se queixa a Shakespeare “do homem gordo e do magro” que este lhe teria roubado. A passagem de Burgess é referida por Harold Bloom, que conta que o autor de A Laranja Mecânica lhe terá dito um dia que “a única comparação literária que valia a pena fazer” era entre o D. Quixote e o conjunto das peças de Shakespeare.
É pena que o dramaturgo inglês já não tenha lido a segunda parte do Quixote, que Cervantes publicou em 1615, em boa medida para saldar contas com um seu contemporâneo que se atrevera a publicar uma continuação do livro, na qual ainda por cima troçava do autor original. No prólogo que redige para esse regresso de D. Quixote e Sancho Pança, Cervantes explica que não fará a vontade ao leitor que ansiaria vê-lo zurzir no abusador, mas veja-se em que moldes se abstém: “O teu gosto seria que eu lhe desse roda de asno, mentecapto e desenvergonhado. Nada disso”. O trecho segue a tradução de Aquilino Ribeiro, que afirmou ter traduzido o Quixote por paixão, acrescentando que “não o faria para com Shakespeare ou Goethe”.
Não se sabe quem foi o autor que irritou Cervantes - assinava-se Alonso Fernández de Avellaneda, quase de certeza um pseudónimo -, mas devemos-lhe estar-lhe gratos. Sem o seu dúbio estímulo, é provável que nunca tivéssemos a extraordinária segunda parte do Quixote, no qual todas as personagens principais leram a primeira parte e sabem que nela figuraram como personagens, um expediente que hoje o exporia a ser rotulado de pós-moderno.
Kafka e Sancho Pança
Se é difícil imaginar personagens menos afins do que Quixote e Hamlet, como já Turgenev sugeria, também os seus respectivos criadores tiveram vidas pouco comparáveis. Shakespeare viveu basicamente entre Stratford e Londres e teve uma carreira bem-sucedida, mas relativamente normal (se descontarmos, claro, o seu excepcional talento literário) de actor, empresário teatral, dramaturgo e poeta. Filho de um curtidor que chegou a ser o equivalente da época a presidente da Câmara de Stratford, só mais para o fim da vida terá alcançado algum desafogo financeiro, mas nunca foi propriamente pobre.
O percurso de Cervantes tem mais semelhanças com o de Camões. Exilou-se por ter ferido um homem em duelo, lutou contra os turcos na batalha de Lepanto (1571), da qual regressou com a mão esquerda inutilizada, foi preso por corsários berberes e esteve cinco anos cativo em Argel, e já depois de ter sido resgatado, foi várias vezes preso em Espanha.
Em 1587 conseguira o lugar de comissário real para os abastecimentos da Armada Invencível, mas o cargo deu-lhe menos rendimentos do que contratempos, incluindo acusações judiciais e penas de prisão. Os problemas com a justiça são, de resto, um dos aspectos que o aproximam de Shakespeare, cuja persistente relutância em pagar impostos também lhe custou alguns processos.
Outra afinidade, menos óbvia na época do que hoje, é terem os dois estudado, ainda que nenhum tenha chegado a obter diplomas universitários. E escreveram ambos, como era quase inevitável em autores do tempo, dedicatórias vagamente untuosas a protectores ilustres. Ao duque de Béjar, Alonso Diego López de Zúñiga Sotomayor, que trata por toda a sua interminável lista de títulos, Cervantes dedica a primeira parte do Quixote: “(…) Ao abrigo do seu preclaro nome, com o muito respeito que devo a tão subida grandeza, imploro, pois, se digne recebê-lo benignamente [ao livro] debaixo da sua égide”. E Shakespeare oferece o seu poema Venus and Adonis ao jovem conde de Southampton, Henry Wriothesley, com esta prevenção: “Ilustre Senhor, não sei se vos causarei ofensa ao dedicar-vos estes versos grosseiros, nem se o mundo me censurará por escolher tão poderoso esteio para tão singelo fardo”.
A veneração por Shakespeare entre os escritores dos séculos seguintes é praticamente universal, apesar da vistosa excepção de Tolstoi ou da aversão de T. S. Eliot por Hamlet, que considerava um falhanço artístico. Cervantes também não andará longe de fazer o pleno, mas, observa Bloom, os seus mais incondicionais admiradores tendem a ser romancistas, de Sterne e Goethe a Stendhal ou Melville, entre muitíssimos outros. Jorge Luis Borges, por exemplo, imagina, emPierre Menard, autor do ‘Quixote’, um escritor contemporâneo cujo grande objectivo de vida é escrever o Quixote, linha por linha, no castelhano do século XVII, mas de raiz, sem o copiar. E Kafka, no brevíssimo conto A Verdade sobre Sancho Pança, revela-nos que D. Quixote era afinal o demónio de Sancho Pança, que à noite lhe dava a ler romances de cavalaria para ele o deixar em paz. E quando o demónio ficou fora de controle e se pôs a fazer maluqueiras, Sancho Pança, explica Kafka, “acompanhou imperturbável, talvez por um certo sentido de responsabilidade, D. Quixote nas suas sortidas, retirando delas um grande e proveitoso divertimento até o fim de seus dias”.
Para Bloom, que coloca Quixote e Sancho Pança ao nível de Hamlet, o Rei Lear ou Falstaff, o que distingue Shakespeare é uma capacidade que Hegel foi talvez o primeiro a notar: o poder de tornar as personagens, para usar a expressão do filósofo alemão, “livres artistas de si mesmas”. São personagens dotadas pelo seu criador de inteligência e imaginação e que se contemplam a si próprias enquanto obras de arte. Bloom prefere dizer que se “escutam” a si próprias e estão constantemente a mudar em função da análise que fazem do que escutaram. Algo que Hamlet leva ao limite, a ponto de Bloom lhe reconhecer uma “consciência autoral” que não se confunde com a de Shakespeare. É isto que dá aos leitores e espectadores, sugere o crítico, a convicção de que Hamlet e outras personagens “podem levantar-se e sair (…) das suas peças, talvez mesmo contra os desejos do próprio Shakespeare”.
Já Dom Quixote e Sancho Pança, defende ainda Bloom, “são os conversadores ideais um do outro e modificam-se ao ouvirem-se um ao outro”, mas não se escutam a si próprios. Por isso, a sua amizade os salva, sustenta, enquanto as personagens de Shakespeare, Hamlet incluído, “definham gloriosamente expostas ao ar de uma solidão interior”.
"All the world's a stage" is the phrase that begins a monologue from William Shakespeare's As You Like It, spoken by the melancholy Jaques in Act II Scene VII. The speech compares the world to a stage and life to a play, and catalogues the seven stages of a man's life, sometimes referred to as the seven ages of man:[2] infant, schoolboy, lover, soldier, justice, Pantalone and old age, facing imminent death. It is one of Shakespeare's most frequently quoted passages.[citation needed]
All the world's a stage, And all the men and women merely players; They have their exits and their entrances, And one man in his time plays many parts, His acts being seven ages. At first the infant, Mewling and puking in the nurse's arms. Then, the whining school-boy with his satchel And shining morning face, creeping like snail Unwillingly to school. And then the lover, Sighing like furnace, with a woeful ballad Made to his mistress' eyebrow. Then, a soldier, Full of strange oaths, and bearded like the pard, Jealous in honour, sudden, and quick in quarrel, Seeking the bubble reputation Even in the cannon's mouth. And then, the justice, In fair round belly, with a good capon lined, With eyes severe, and beard of formal cut, Full of wise saws, and modern instances, And so he plays his part. The sixth age shifts Into the lean and slippered pantaloon, With spectacles on nose and pouch on side, His youthful hose, well saved, a world too wide For his shrunk shank, and his big manly voice, Turning again toward childish treble, pipes And whistles in his sound. Last scene of all, That ends this strange eventful history, Is second childishness and mere oblivion, Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything. (WIKIPEDIA)
* Shakespeare Sonnet #2 When forty winters shall beseige thy brow, And dig deep trenches in thy beauty's field, Thy youth's proud livery, so gazed on now, Will be a tatter'd weed, of small worth held: Then being ask'd where all thy beauty lies, Where all the treasure of thy lusty days, To say, within thine own deep-sunken eyes, Were an all-eating shame and thriftless praise. How much more praise deserved thy beauty's use, If thou couldst answer 'This fair child of mine Shall sum my count and make my old excuse,' Proving his beauty by succession thine! This were to be new made when thou art old, And see thy blood warm when thou feel'st it cold.
All the world's a stage, And all the men and women merely players; They have their exits and their entrances, And one man in his time plays many parts, His acts being seven ages. At first, the infant, Mewling and puking in the nurse's arms. Then the whining schoolboy, with his satchel And shining morning face, creeping like snail Unwillingly to school. And then the lover, Sighing like furnace, with a woeful ballad Made to his mistress' eyebrow. Then a soldier, Full of strange oaths and bearded like the pard, Jealous in honor, sudden and quick in quarrel, Seeking the bubble reputation Even in the cannon's mouth. And then the justice, In fair round belly with good capon lined, With eyes severe and beard of formal cut, Full of wise saws and modern instances; And so he plays his part. The sixth age shifts Into the lean and slippered pantaloon, With spectacles on nose and pouch on side; His youthful hose, well saved, a world too wide For his shrunk shank, and his big manly voice, Turning again toward childish treble, pipes And whistles in his sound. Last scene of all, That ends this strange eventful history, Is second childishness and mere oblivion, Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.
The Angelic Conversation is a 1985 arthousedrama film directed by Derek Jarman. Its tone is set by the juxtaposition of slow moving photographic images and Shakespeare's sonnets read by Judi Dench. The film consists primarily of images of homosexuality and opaque landscapes through which two men take a journey into their own desires.
Jarman himself described the film as:
.
"a dream world, a world of magic and ritual, yet there are images there of the burning cars and radar systems, which remind you there is a price to be paid in order to gain this dream in the face of a world of violence."
The soundtrack to the film was composed and performed by Coil, and it was released as an album of the same title. In 2008 Peter Christopherson of Coil (with David Tibet and Ernesto Tomasini) performed a new live soundtrack to the movie during a special screening at the Turin Lesbian and Gay Film Festival.