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segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

adolfo casais monteiro - MISTÉRIO LONGÍNQUO

* adolfo casais monteiro


Há dentro de mim um vazio que cresce,
como o crepúsculo comendo a pouco e pouco a terra.
Não sei o que se desmorona cada vez mais depressa
dentro de mim.
Não sei que ondas vão e vêm varrendo este mundo que fui,
alargando cada vez mais o espaço interior para outra coisa,
que não é nada aquela plenitude sonhada
dentro de mim.
De repente estou longe de tudo,
esquecido do sabor das coisas mais amadas,
com náuseas do que mais outrora amei
dentro de mim.
Dentro de mim... Este estribilho canta qualquer oculta praia
de oculto mundo. Qualquer sinal há nele, que não sei entender.
Dentro de mim, Senhor, dentro de mim quem terá morrido?
Vem nestas três palavras um dobre a finados
- dentro de mim, dentro de mim -
sobre alguém que ainda não sei que deixei de ser,
sobre aquele que finjo existir, talvez por piedade
- por mim? por quem?
-Mas o outro,
esse que já sou mesmo sem minha licença,
o outro que a vida pôs dentro de mim sem eu ter dado conta,
o outro, Senhor! - que fará ele de tudo o que não sei abandonar
dentro de mim?
Ao outro - quem o fará vencer
dentro de mim?


Adolfo Casais Monteiro
Poesias Completas
Imprensa Nacional - Casa da Moeda

domingo, 14 de dezembro de 2014

adolfo casais monteiro - [eu falo das casas e dos homens]

IV


Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais.

Não me venham dizer que estava matematicamente previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas das vítimas.

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou em profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa e ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa.

Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,

os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto.

Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,

eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?

Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia.

E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada.


Adolfo Casais Monteiro
Europa (1946)
Poesias Completas
Imprensa Nacional - Casa da Moeda

domingo, 10 de janeiro de 2010

Ato de Contrição - Adolfo Casais Monteiro

Assunto: ALMA FECHADA...
Data: 9/Jan 15:02
FECHEI A ALMA Á TRISTEZA...Á MENTIRA..AO DESESPERO...ÁS LÁGRIMAS...ÁS DECEPÇÕES...O AMOR É PALAVRA QUE SE ESCREVE COM QUATRO LETRAS E MAIS NADA...E DEPOIS? O LAÇO DE AMIZADE FACILMENTE SE ENREDEIA...FAZ BEM AO CORAÇÃO ? É UMA PURA ILUSÃO... NADA ME DIZ A NOTÍCIA DAQUELES QUE ESTÃO COM FOME. QUANTO ÁS DORES QUE OUTROS SENTEM...QUE AS VIVAM, QUE EU NÃO! NÃO ME FALEM DE ALVORADAS, DA BELEZA DE UM SORRISO OU DA MAGIA DO MAR, COM PALAVRAS FLOREADAS DE ALEGRIA E PAIXÃO...DEIXEM-SE DE POEMAS LOUCOS, QUE LOUCOS OS POETAS SÃO. ASSIM FICAREI RESGUARDADA DE TUDO O QUE JÁ SOFRI...AH! SERÁ ESTA A MANEIRA DE VIVER SEM SOBRESSALTOS...SÓZINHA COMIGO ESTAR...É A MELHOR SOLUÇÃO DE UM CORAÇÃO REMENDADO... MAS NO FIM, OLHANDO O QUE DE MIM RESTAVA, A CONCLUSÃO QUE ENCONTREI, FOI QUE, AO FUGIR DO QUE ME FERE...DA VIDA QUE ESTÁ LÁ FORA...AI! AMARGA ILUSÃO...EM VEZ DE ME ALEGRAR A VIDA, É O GRANDE PASSO PARA A MORTE!EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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ATO DE CONTRIÇÃO
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Pelo que não fiz, perdão!

Pelo tempo que vi, parado,

correr chamando por mim,

pelos enganos que talvez

poupando me empobreceram,

pelas esperanças que não tive

os sonhos que somente

sonhando julguei viver,

pelos olhares amortalhados

na cinza de sóis que apaguei

com riscos de quem já sabe,

por todos os desvarios

que nem cheguei a conceber,

pelos risos, pelas lágrimas,

pelos beijos e mais coisas,

que sem dó de mim malogrei
.
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por tudo, vida, perdão!
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Eu falo das casas e dos homens - Adolfo Casais Monteiro


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Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.
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E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!
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Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...
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Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito
instituição
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...
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Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?
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Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...
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domingo, 12 de julho de 2009

VEM VENTO, VARRE - Adolfo Casais Monteiro


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Vem vento, varre
sonhos e mortos.
Vem vento, varre
medos e culpas.
Quer seja dia,
quer faça treva,
varre sem pena,
leva adiante
paz e sossego,
leva contigo
noturnas preces,
presságios fúnebres,
pávidos rostos
só covardia.
Que fique apenas
ereto e duro
o tronco estreme
de raiz funda.
Leva a doçura,
se for preciso:
ao canto fundo
basta o que basta.
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Vem vento, varre!
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ADOLFO CASAIS MONTEIRO
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From Paula Moranguinho Pereira (hi5)
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Eu falo das casas e dos homens - Adolfo Casais Monteiro

Assunto: ...TODOS IGUAIS, TODOS IRMÃOS...
Data: 12/Jul 15:58

NUNCA MAIS ME DIGAM QUE NÃO É COMIGO....E QUE NINGUÉM AFIRME QUE NADA POSSO MUDAR. DENTRO DE MIM ESTÁ O MUNDO....TODO...INTEIRO, SOBRETUDO O QUE NÃO TEM VÓZ E O QUE NÃO TEM DONO. DENTRO DE MIM DÃO-SE AS MÃOS E SORRIEM...PORQUE NÃO O MESMO CÁ FORA?...DEIXEM-SE DE TEORIAS TOLAS DE QUE EXISTE O PROVOCADOR E O PROVOCADO O RICO E O POBRE, E QUE AQUELE SEMPRE POSSUIRÁ ESTE. O MUNDO FOI FEITO POR IGUAL - MESMOS SERES, MESMOS RISOS,MESMAS LÁGRIMAS, MESMAS CRIANÇAS. QUEM SOIS VÓS PARA ALTERAR O QUE O INFINITO CONSTRUIU? NÃO SEREI EU A SUJAR MINHAS MÃOS NO VOSSO SANGUE VISCOSO.SOU AVESSA AO SANGUE E Á GUERRA. RECOLHEI AOS VOSSOS CASULOS, LARVAS, FICAI POR LÁ ETERNAMENTE E DEIXAI SER O MUNDO COMO FOI IMAGINADO - TODOS IGUAIS, TODOS IRMÃOS. CALAI VOSSA BOCA - NÃO SOU LOUCA, NÃO!

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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)

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EU FALO DAS CASAS E DOS HOMENS
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Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais.. .
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.
.
E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou em profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!
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Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...
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Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição,
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
sim, por um momento seremos a dor de tudo isto. . .
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Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?
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Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangüe e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...
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ADOLFO CASAIS MONTEIRO

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