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segunda-feira, 3 de setembro de 2012

João Aguiar - A voz dos deuses


Da voz aos Deuses (João Aguiar, “A voz dos deuses”, 1984)

«Não é de ânimo leve que um homem, mesmo corajoso, se acerca de uma necrópole durante a noite, pois nunca se sabe que espíritos ou entidades errantes poderão andar em tais lugares. No entanto, decidi arriscar um encontro com os mortos porque os vivos, naquela altura, podiam ser mais perigosos; a praia que fica próxima da velha necrópole cartaginesa de Gadir era um lugar abrigado e solitário onde seria possível aguardar o embarque em segurança.
Bem abafados contra o ar nocturno, esperámos sentados na areia fria. O mar ali é sempre sereno e o barulho das ondas reduzia-se a um chapinhar surdo, mas o ar estava cheio de murmúrios. Mantivemo-nos calados para não atrair a atenção dos defuntos.
Finalmente, ouvimos o ruído de remos ferindo a água e uma pequena embarcação tornou-se visível e aproximou-se até encalhar quase silenciosamente. Fui ao encontro do seu único tripulante, que me olhou com atenção, como para ter a certeza de que eu era um ser de carne e osso, e pronunciou a senha combinada: «Eunois».»
Introduzo, previamente, o esclarecimento de que considero o romance que apresento, A Voz dos Deuses, de leitura obrigatória.
O meu interesse pessoalpela obra surgiu a par da recolha de informação sobre Viriato, o mítico líder da Lusitânia. De facto, esta obra literária submete-nos à necessidade de visitar o século II a.C., altura em que a Península Ibérica se encontrava dividida em diversas tribos desunidas que pelejavam arduamente contra a ânsia romana de dominá-las sob o comando e a influência de Viriato.
Trata-se de um clássico romance histórico contemporâneo que ficciona a vida deste comandante dos exércitos peninsulares, do II século a.C., que evita que os Romanos esmaguem as tribos da Ibéria durante os sete anos que nela prevalecem as suas tropas. João Aguiar leva-nos a admirar um Viriato homem de valores, comandante incontestado, magnífico estratega militar e diplomático com uma componente humana quase invulgar para a época.
O narrador Tôngio, velho sacerdote do Templo de Endovélico (um dos principais do culto ibérico à época a que a narrativa nos remete) conta, chegando ao final da sua vida, a forma como nasceu, cresceu e viveu numa Península Ibérica invadida pelos Romanos, na tentativa de expandirem o seu Império até ao Atlântico. Deambulando pela Península, encontra Viriato, figura famosa de que todos estamos habituados a ouvir falar desde sempre e a quem é dado o epíteto de fundador, mais mítico que histórico, da nacionalidade portuguesa.
Publicado pela primeira vez em 1984 é, actualmente considerado, o livro mais relevante sobre Viriato, escrito em Língua Portuguesa no século XX. Tal reconhecimento deve-se ao rigor histórico fruto de documentação antiga, estudos arqueológicos e etnográficos e, como não poderia deixar de ser, pelo acolhimento efervescente dos leitores.
Neste seu primeiro romance João Aguiar adverte, inicialmente, para o facto de se propor retratar o Viriato não mítico e tradicionalmente conhecido, mas o Viriato famoso e factual que assenta naquilo que se pode extrair dos documentos históricos misturados em tom de ficção. Porém, é curioso verificar que os planos iniciais do autor tomam rumos paradoxais, dando-nos, ele próprio, a conhecer Viriato como o herói romantizado admirado que almejava ser rei da Ibéria; o exímio general; o diplomata exemplar, sóbrio no que concernia a reclamar para si os espólios da guerra; o marido fidelíssimo à mulher, e tudo o que de resto o tornava… Lendariamente exemplar e insubstituível na História da Península Ibérica, naquilo que foi a antecâmara do que mais tarde viria a ser Portugal e Espanha. – «Muitas coisas, verdadeiras e falsas, foram ditas sobre Viriato. Como acontece com todos os grandes homens, ele transformou-se numa lenda e as lendas, regra geral, são injustas mesmo para aqueles que pretendem glorificar. Por exemplo: ouvi não poucos disparates e exageros sobre a força e a bravura do Comandante (ele era um herói, não um deus); em contrapartida, ficaram esquecidos, por menos espectaculares, verdadeiros prodígios de estratégia, diplomacia e eloquência.» (p. 248).
No entanto, é de notar que Viriato apesar de apresentado como um grande homem e líder, por natureza, capaz de unir ao máximo o povo da Ibéria até então habituado a lutar contra si próprio e não a combater o inimigo comum, não é comparado a um Deus.
Esquecendo as descrições mais pormenorizadas das batalhas ao estilo, por exemplo, de Cornwell, que neste romance passam um pouco a correr, aquilo que verdadeiramente predomina é a narração inteligente do “reinado”, que não chegou a ser de Viriato, por alguém que combateu a seu lado. Presumivelmente, se o autor descrevesse exaustivamente as contendas, teria que produzir não um livro, mas talvez uma saga, pois haveria muitíssimo para dizer.
Ainda assim, nada ficou por dizer. A Voz dos Deuses conduz-nos, irrepreensivelmente, até ao ambiente que se vivia na hoste de Viriato, apresenta-nos as tradições e os costumes dos povos, os deuses em que acreditavam, as privações e os sacrifícios que sofreram e as divindades que habitavam o Monte da Lua e o seu significado.
João Aguiar tem um estilo de escrita que desejo a qualquer leitor: limpa e coerente, capaz de inspirar e acorrentar o foco de atenção desde a primeira à última página. Criador de uma toponímia, por vezes, muito pormenorizada e própria, substancialmente diferente, a sua explicação consta no final do livro.
Pesquisando, encontrei relação entre o primeiro romance do escritor João Aguiar e aprimeira sinfonia do maestro e compositor Jorge Salgueiro, de 1992. Inspirando-se na obra literária de 1984, Salgueiro concebeu uma composição musical muito profunda e sugestiva de sons já pré-existentes nas palavras eternizadas em A Voz dos Deuses, por João Aguiar, a que cortesmente denominou Sinfonia nº1 – A Voz dos Deuses.
Desde sempre a literatura e a música estão intimamente ligadas e este é facto empolgante. Se muitas vezes é a música que origina a história, noutros casos é a história que faz acordar a música das palavras, entre as cordas e os metais. Escutando-a, como leiga que sou, e tendo a certeza de que a música é primordialmente composta para os leigos, consegui fugir para o meu campo de imaginação pessoal, de leitora e de ser humano, cidadã do mundo. Então, encontrei realmente os sons dos exércitos peninsulares em riste, encontrei o sentimento de ser luso, e encontrei a “poção mágica” que permite a mitificação do herói e, tudo isto… sentido, com os ouvidos.
Aconselho, vivamente, a leitura de A Voz dos Deuses porque nos proporciona um conhecimento da “pré-História” do nosso país que é, em jeito de romance, poucas vezes, assunto em voga. Contando a história, apoiado em material fidedigno, de um dos construtores da realidade ibérica de uma forma inovadora, isso traduz-se numa boa visão dos costumes, rituais e da política e religião dos povos peninsulares abrindo horizontes para se pensar no que será, realmente, ser português no verdadeiro sentido da expressão. É esse o rumo, o fio condutor, das aulas de Português deste último ano do ensino secundário: saber compreender que foi baseado no plano da memória e da esperança que os povos expandiram as suas tropas, a sua língua e a sua literatura ainda que, muitas vezes, a utopia origine concepções diferentes do heroísmo.
É, ainda, similar, nesta obra de Aguiar e na Mensagem de Pessoa, o ocultismo de um Império entrevisto no futuro como uma aventura do espírito, uma viagem sem fronteiras ou franquias, apenas movida pelo amor do que é diverso e pela inquietação da insatisfação humana constante. Se não vejamos, é o épico que propõe imortalizar a aristocracia tendo a consciência de promover uma revolução urgente no mundo, em ambas as obras, atribuindo-lhe um significado político, religioso, científico e não meramente histórico-narrável.
Leonor Gonçalves, 12º C, 2012


Quarta-feira, 31 de Outubro de 2007


A voz dos Deuses, João Aguiar


É o segundo livro que li de João Aguiar, li há tempos o Navegador Solitário que recomendo vivamente. Há uns meses a pesquisar na net sobre Viriato e as obras que invocam o mítico lider da Lusitânia que combateu o domínio romano durante aproximadamente 9 anos, descobri que João Aguiar escrevera um romance histórico sobre o assunto, fiquei com a pulga atrás da orelha e a semana passada ao passear numa livraria encontrei o dito.
Posso dizer que gostei muito, estou habituado a uma descrição mais pormenorizada das batalhas, fruto de muitos livros de Cornwell, o que nesta obra falha um pouco, mas se por um lado as batalhas passam um pouco a correr, por outro lado o "reinado" que não chegou a ser de Viriato é narrado de uma forma muito interessante por alguém que combateu a seu lado (onde é que já li isto?), e certamente se o autor fosse descvever as batalhas teria de fazer mais do que um livro pois teria muito para dizer. Aqui Viriato é apresentado como um grande homem e não um Deus, um líder por natureza que uniu o mais que pôde um povo da ibéria habituado a lutar entre si e não a combater o inimigo comum.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Lançamento do livro "Classes, Valor e Acção Social" de João Aguiar





Divulgação do Livro

João Valente Aguiar (investigador do ISFLUP)

À venda, entre outros, nos seguintes locais:
                     Livraria Leitura/Bulhosa
                     Bertrand Livreiros
                     FNAC
                     Wook

Agradece-se divulgação.
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(sessões de lançamento anunciadas em breve)
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sábado, 10 de julho de 2010

Levantado do chão Ou a história da epopeia do operariado agrícola Alentejano contada ao mundo



09.Jul.10 :: Outros autores
José
 SaramagoEste estudo de João Aguiar vem comprovar como o talento do escritor se sobrepõe á identificação com esta ou aqueloutra escola ou estilo literário quando ele desce com segurança e criatividade “às raízes da condição humana e transmit(e), a grandeza e as misérias, a angústia, a alegria e o medo que acompanham a aventura absurda da vida”.
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«Eu sou um trabalhador
Eu sou um trabalhador rural
Que semeia e colhe o pão
Sustento de Portugal

Sustento de Portugal
Que trabalhador sou eu
Que semeia e colhe o pão
Mas esse pão nunca foi meu

Eu sou um trabalhador
Que o trabalho sempre honrou
Mas que em paga apenas come
O pão que o diabo amassou.
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Poema de Vicente Rodrigues (1910-1982)
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José Saramago, Prémio Nobel da Literatura em 1998 e recentemente falecido, escreveu e publicou o essencial da sua obra nos 20 anos anteriores à conquista desse prémio. O primeiro dos romances em que se revela o seu estilo próprio de escrita é precisamente Levantado do Chão. Publicado em 1980, representa para o autor «o último romance do Neo-Realismo, fora já do tempo neo-realista» (Reis, 1998, p.118). De facto, não sendo estritamente um romance neo-realista, Levantado do Chão pode ser visto como um entroncamento para onde confluiu toda uma forma de fazer literatura em Portugal no século XX.
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Nesta obra de ficção Saramago aborda, por um lado, a história da vida e morte do latifúndio, com efeito, desde a Idade Média até finais dos anos 70 e, por outro lado, num espaço histórico mais curto, a saga da família Mau-Tempo «que, em três gerações (Domingos Mau-Tempo, seu filho João e seus netos António e Gracinda, esta casada com outra personagem central, António Espada), vai conquistar a terra para as capacidades do seu trabalho, vai arrancar-se à vergonha das humilhações, vai preencher a fome de uma falta total. O romance é, assim, a história de um fatalismo desenganado, constantemente combatido pelo apontar da esperança feita luta» (Seixo, 1987, p.39). As duas ondas históricas entrelaçam-se num período de tempo que vai do final do século XIX até aos anos seguintes à Revolução de 25 de Abril de 1974. Esta articulação entre dois planos tem a vantagem de oferecer uma problematização assaz instigante do papel e do lugar do(s) indivíduo(s) no desenvolvimento histórico mais vasto.
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Não obstante a narrativa atravessar diferentes regimes políticos (anos finais da monarquia, a I República, a ditadura fascista do Estado Novo, o regime democrático), nota-se um corte de grande significado na e para a vida das personagens: o antes e o pós 25 de Abril. Por outras palavras, no que toca à melhoria das condições de vida do operariado agrícola alentejano e da possibilidade de este surgir como sujeito colectivo portador de uma história própria e de dinâmicas de profunda democratização da sociedade, nenhum dos regimes anteriores à democracia foi capaz de admitir tal processo. «Entre o latifúndio monárquico e o latifúndio republicano não se viam diferenças e as parecenças eram todas, porque os salários, pelo pouco que podiam comprar, só serviam para acordar a fome» (Saramago, 2000, p.34). Nesse sentido, a situação económica e social dos trabalhadores até 1974 era assim descrita por António Gervásio, operário agrícola e actor participante nas lutas contra o fascismo na região a partir dos anos 40, «os assalariados agrícolas eram trabalhadores privados dos direitos mais elementares. Não havia emprego certo. Não tinham subsídio de desemprego, de férias, de baixa, nem reforma, nem direitos sindicais. Eram trabalhadores sem direitos nas mãos dos grandes proprietários» (Gervásio, 2004, p.182) [itálicos nossos].
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Neste cenário, o proletariado alentejano assumiu-se como um actor social de primeira importância na resistência ao regime fascista e na reivindicação por melhores condições de vida e de trabalho. A conquista das oito horas diárias de trabalho, acabando com o sistema do trabalho de sol a sol (que chegava às catorze e dezasseis horas diárias de trabalho), em Abril e Maio de 1962 é, nesse aspecto, elucidativo da relevância inapagável da luta da classe trabalhadora agrícola alentejana na contestação à ditadura e nas aspirações a uma outra sociedade. No contexto do latifúndio – com o cortejo de miséria, opressão e vulnerabilidade das vidas das famílias operárias – a luta pela posse da terra evidenciava-se como um pilar central e como um objectivo primordial para esses trabalhadores. Com o processo revolucionário e democrático subsequente à revolução de 1974, a Reforma Agrária surgiu como uma necessidade e uma exigência imperiosa das populações laboriosas dos campos do Sul (margem esquerda do Ribatejo, Alto e Baixo Alentejo). É o próprio José Saramago que numa crónica em 1977 manifesta a naturalidade com que os trabalhadores alentejanos e ribatejanos tomaram e ocuparam herdades agrícolas: «se a terra está aí e daí não pode sair, são vossos os pés que caminham nela, são vossas as mãos que a trabalham, são dos vossos pais e avós os ossos que estão debaixo dessa terra, depois de terem trabalhado e sofrido o que os filhos ainda hoje trabalham, mas, sofrido, basta» (Saramago, 1999, p.39). O impacto das ocupações de terras, o número de trabalhadores envolvidos, a convicção com que defendiam o que consideravam ser justo era tal, que a Reforma Agrária foi consagrada legalmente, inclusive na Constituição de 1976. Com a Reforma Agrária formaram-se cooperativas e UCP’s (unidades colectivas de produção) com administração económica e política dos trabalhadores sob supervisão do Estado democrático. A gestão operária com a Reforma Agrária era, então, uma realidade.
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No fundo, as UCP’s tinham como características fundamentais «a exploração comum da terra» e a «gestão democrática» (Barros, 1981, p.117) das mesmas. Explicitando, o controlo democrático e popular de base consubstanciava-se no «poder dos colectivos de trabalhadores de eleger e demitir as direcções e de decidir sobre os diversos aspectos das novas unidade e/ou de controlar todos os actos de gestão» (idem, p.119).
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Contudo, logo em 1976 a Reforma Agrária começou a enfrentar fortes adversidades externas para além das dificuldades herdadas do latifúndio (terras abandonadas, baixa aplicação de maquinaria à produção agrícola). Com a aprovação da chamada Lei Barreto (lei 77/77 – lei de Bases da Reforma Agrária) os trabalhadores tiveram de começar a entregar herdades que não atingissem um novo patamar legal de pontuação das áreas a expropriar. O cerco pelos sucessivos governos e dos antigos grandes latifundiários à Reforma Agrária iria apertar-se nos anos imediatamente seguintes, com os ataques aos trabalhadores e às UCP’s a atingirem níveis quase impensáveis de repressão.
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A ênfase aqui colocada na repressão e na contra-ofensiva sobre a Reforma Agrária deve-se ao facto de esse ter sido o factor principal, e em última análise decisivo, da derrota do processo de transformação da propriedade fundiária nos campos do Sul. Numa frase, a Reforma Agrária não se desmoronou mas foi derrotada. Muito mais do que algumas ineficácias económicas e erros na condução do processo – inevitáveis em qualquer acção humana, mais ainda quando o processo é executado por indivíduos de uma classe trabalhadora que pela primeira vez na sua história de centenas de anos tinham a gestão económica, social e política das suas vidas nas suas mãos – foi a reacção de classe das classes dominantes e do aparelho de Estado que colocaram um ponto final na Reforma Agrária. Aliás, a Reforma Agrária atingiu patamares de viabilidade e desenvolvimento económico só postos em causa precisamente pela repressão que foi alvo. Lembre-se, a título meramente ilustrativo, alguns dos aspectos bem-sucedidos economicamente com o processo da Reforma Agrária: a) os postos de trabalho antes da Reforma Agrária que rondavam os 21.700 e que em 1976 se cifravam em 71.900 e que até 1982 inclusive tiveram sempre um efectivo de trabalhadores superior à base de partida. A área total das UCP chega aos 1.130.000 de hectares de 1975 a 77. A produção de bovinos passou de 55.000 cabeças, antes da Revolução de Abril e das ocupações de terra, para 84.000 em 1976 e 103.000 em 1977. A produção de ovinos e caprinos, respectivamente, de 272.000 cabeças para 401.000 e 437.000. A produção de cereais passou de 90.000 toneladas para as 240.000 toneladas em 1976. O arroz passou de 23.550 toneladas para 38.000 toneladas em 1977. Os tractores antes da Reforma Agrária eram apenas 2.690, quase dobrando em 3 anos (4.560) (Leal, 2005, p.255-256). Portanto, o povo operário como sujeito conseguiu conquistas sociais e económicas jamais vistas na região. Por conseguinte, a tese burguesa de que as massas operárias e populares não saberiam administrar colectivamente a produção cai por terra perante a evidência empírica das conquistas extraordinárias da Reforma Agrária alentejana. Perante o sucesso económico, político e social da Reforma Agrária só a repressão furiosa e o cerco económico e financeiro poderiam destruir a mais bonita das conquistas de Abril.
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Até 1980, data de publicação de Levantado do Chão, podemos registar alguns dados da repressão contra o proletariado agrícola alentejano, precisamente um período de forte contra-ofensiva dos ex-latifundiários e respectivos governos contra a Reforma Agrária e a administração colectiva dos trabalhadores:
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«Foi a prolongada desocupação da herdade da Lobata, em Serpa, ainda em Novembro de 1976; foram os brutais espancamentos realizados na UCP S. Bartolomeu do Outeiro, em Portel, em 28 de Outubro de 1978; o cerco e a prática ocupação de Pias, no concelho de Serpa, em Julho de 1979, com mais de uma centena de pessoas espancadas e perseguidas ao longo das ruas; foi a utilização de balas de borracha maciça na UCP Fonte Boa da Vinha, em Évora, em Julho de 1979; foi o fogo aberto contra os trabalhadores na Cooperativa de Casebres em Agosto seguinte, que atingiram inclusive os ocupantes da carrinha que se deslocava para o Hospital Distrital de Évora transportando os feridos desta operação; foi a brutal entrega de reservas na herdade das Testas, na UCP 6 de Agosto em São Pedro da Gafanhoeira, Arraiolos, com um aparato nunca visto de metralhadoras, cavalos e cães e de que também resultaram vários feridos e presos; foi, em Julho de 1980, o tiroteio desencadeado contra os trabalhadores presentes na entrega de uma reserva na UCP Estrela da Manhã, em Vendas Novas; prisões arbitrárias e sem qualquer mandato judicial de alguns dos dirigentes mais destacados dos Sindicatos dos Trabalhadores Agrícolas, dos Secretariados das UCP/Cooperativas Agrícolas e dos dirigentes destas, atraídos ou levados sob coacção aos postos da GNR, onde durante horas eram alvo de autênticos sequestros e, em muitos casos, espancados» (Carvalho, 2004, p.84-85);
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Ao mesmo tempo, foi nesta altura que ocorreu
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«O assassinato de dois trabalhadores da Reforma Agrária, António Casquinha e José Geraldo, o primeiro dos quais tinha somente 17 anos de idade e o segundo 57 anos, sucedeu em 27 de Setembro de 1979, em pleno Governo dirigido por Maria de Lurdes Pintassilgo, na herdade Vale de Nobre na UCP Bento Gonçalves em Montemor-o-Novo (…). Consumada a entrega do monte, a força da GNR destacada para a operação, em conjunto com os técnicos do Ministério da Agricultura e com grupos de agrários armados, apoderaram-se de múltiplas cabeças de gado bovino, propriedade dos trabalhadores. Junto o rebanho, deslocaram-se para o monte que tinha acabado de ser entregue, onde enfrentaram o legítimo protesto dos trabalhadores. Nesse momento vários tiros foram disparados por alguém do único grupo que possuía armas, GNR e agrários. Resultado: dois trabalhadores cairiam por terra para não mais se levantarem, perante a insensibilidade e as ameaças de repetição proferidas pelos comandos da GNR presentes. Até hoje nunca foram apuradas as responsabilidades materiais e directas destas mortes» (idem, p.87).
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As razões e motivações para esta sucessão de acontecimentos contra a Reforma Agrária devem-se ao facto de que as classes dominantes não podiam aceitar que os trabalhadores assumissem com êxito a gestão e produção de cinco centenas de modernas empresas agrícolas que eram as UCP’s.
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Portanto, é neste quadro histórico que surge a obra Levantado do Chão de José Saramago. Até às duas machadadas finais na Reforma Agrária – as revisões constitucionais de 1982 e de 1989 – o seu potencial de viabilidade económica ainda era real. Assim, Levantado do Chão é uma obra estética de elevado valor mas com uma componente militante rara, expressa num comovente incentivo do autor aos trabalhadores alentejanos para que prosseguissem com a sua luta.
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O painel de elementos sociais presentes em Levantado do Chão é notavelmente profícuo, com particular incidência no inventariar dos efeitos mais perversos da forma de organização da produção nos campos do Sul de Portugal durante a Primeira República e, sobretudo, durante o fascismo.
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a) A cumplicidade entre a polícia e os patrões,
«diz o sargento, Por falar em patrão, estou precisado de um bocado de lenha. Diz o feitor, Lá lhe irá uma carrada. Diz o sargento, E umas poucas telhas. Diz o feitor, Não será por causa disso que dormirá ao relento. Diz o sargento, A vida está cara. Diz o feitor, Mando-lhe uns chouriços» (Saramago, 2000, p.38);
b) a miséria que «empoeirava o rosto a esta gente» (idem, p.43) trabalhadora;
c) o trabalho infantil, «mas esta criança, palavra só por comodidade usada, pois no latifúndio não se ordenam assim as populações em modo de prever-se e respeitar-se tal categoria, tudo são vivos e basta, (…) esta criança é apenas uma entre milheiros, todas iguais, todas sofredoras, todas ignorantes do mal que fizeram para merecer tal castigo» (idem, p.56);
d) o desemprego e os baixos salários, «vão caravanas pelos caminhos à procura de um salário miserável» (idem, p.56);
e) o desprezo pelos indivíduos das classes populares, vistos como sub-humanos,
«o povo fez-se para viver sujo e esfomeado. Um povo que se lava é um povo que não trabalha, talvez nas cidades, enfim, não digo que não, mas aqui, no latifúndio, vai contratado por três ou quatro semanas para longe de casa, e meses até, e é ponto de honra e de homem que durante todo o tempo do contrato se não lave nem cara nem mãos, nem a barba se corte (…). É preciso que este bicho da terra seja bicho mesmo, que de manhã some a remela da noite à remela das noites, que o sujo das mãos, da cara, dos sovacos, das virilhas, dos pés, do buraco do corpo, seja o halo glorioso do trabalho no latifúndio, é preciso que o homem esteja abaixo do animal, que esse, para se limpar, lambe-se, é preciso que o homem se degrade para que não se respeite a si próprio nem aos seus próximos» (idem, p.73) [itálicos nossos];
f) as desigualdades sociais gritantes logo a partir da mais tenra idade e o fatalismo inscrito na condição social de pertença dos indivíduos, «aí está esse infinito estendal de sexos abertos, dilatados, vulcânicos, por onde rompem sujos de sangue e mucos os novos homens e as novas mulheres, tão iguaizinhos naquela miséria, tão diferentes logo nesse minuto, consoante os braços que os recebem, os bafos que os aquecem, as roupas que os envolvem» (idem, p.294) [itálicos nossos]. Estas são algumas exemplificações do vendaval de fenómenos que pintam a paisagem alentejana do período histórico anterior a 1974, com particular incidência nas circunstâncias em que o operariado agrícola vivia no decurso do regime fascista.
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Conquanto estes sejam indicadores com um elevado interesse sociológico, do nosso ponto de vista, o elemento de maior valor substantivo no romance aqui em mãos prende-se com o processo de formação da classe trabalhadora (Thompson, 1991). Evidentemente, Saramago não desenvolve nenhuma teoria nem sistematiza cientificamente dados empíricos e proposições analíticas. Tal não é o seu objectivo nem a criação artística propugna esse tipo de exercícios e operações. Assim, a riqueza de uma obra de arte avalia-se não apenas pela inovação formal – no caso a escrita fluente e poderosamente confluente de múltiplas vozes de Saramago – mas também pelos implícitos qualitativos e pelas marcas da sociedade que nela se plasmam. Em Levantado do Chão, como nó de (inter)mediação entre a linha histórica de longa duração da vida do latifúndio e a vida pessoal e colectiva da família Mau-Tempo, surge o já referido processo de formação da classe trabalhadora.
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Nas suas linhas mestras, uma classe social é um «fenómeno histórico, unificando um número de eventos distintos e aparentemente desconexos» (Thompson, 1991, p.8) em que nunca é vista como algo «definitivo, definido e como um facto consumado» (idem, p.937). Por conseguinte, uma classe é a corporização colectiva de práticas sociais, económicas, culturais e políticas e que é apreendida sob uma perspectiva relacional, ou seja, uma classe social não age de forma isolada mas em relação às dinâmicas e interesses objectivos e subjectivos das outras classes.
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Com efeito, o desenvolvimento histórico de uma classe social, em Levantado do Chão a classe trabalhadora, é uma constante, se bem que evolua a velocidades e ritmos heterogéneos, apesar das diferentes formas em que esta se manifesta na luta (económica, política e ideológica) de classes. De referir que a evolução política e ideológica de uma classe social, ainda mais quando estamos a tratar de classes dominadas, não é evolucionista. Se uma classe tem limites mínimos e limites máximos – gizados e ajustados pelas estruturas económica, política e ideológica/cultural que as enquadram e envolvem – para o desenvolvimento e maturação da sua consciência de classe, de formas de organização política e social, de bandeiras de luta, etc., a passagem entre esses vários níveis nunca é inelutável nem apriorística, mas releva sempre dos resultados políticos, sociais e económicos da conjuntura em que as várias classes se relacionam e confrontam.
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Começando pelo início, passe a redundância, encontramos Domingos Mau-Tempo, um operário/artesão que deambula e vagueia com a sua família de aldeia em aldeia no concelho de Montemor-o-Novo em busca de emprego. As formas que Domingos Mau-Tempo encontra para se “revoltar” com o “estado de coisas”, com a miséria, a fome e o desemprego reinantes são a bebida, as fugas persistentes de casa e da família para outras aldeias vizinhas e, no fim, no limite do desespero, o suicídio. Reportando-se aos anos 10-30 do século XX, fica-se com a ideia que a significação subjectiva dominante que os trabalhadores de então tinham da pobreza e da condição social em que viviam era de resignação e aceitação de uma ordem ou desígnio (quase) divino e inexplicável. «Também está [o filho] à mão direita do Pai, decerto em boa conversa com Domingos Mau-Tempo, a tentarem saber os dois porque é a desgraça tanta e o prémio tão pequeno» (Saramago, 2000, p.53). Nesta fase, a modalidade mais “avançada” de luta dos trabalhadores alentejanos espelhava-se na figura do maltês, portanto, pequenos bandos de operários desempregados que assaltavam na estrada e depois entregavam parte da colecta pelos trabalhadores mais pobres. Sobrevêm aqui semelhanças com os “bandidos sociais” descritos por Hobsbawm na sua obra Primitive Rebels (Hobsbawm, 1965). As lutas colectivas e espontâneas de trabalhadores alentejanos já ocorriam no tempo da Primeira República e no início do fascismo. Ao mesmo tempo, existiam formas de luta de indivíduos que isoladamente enfrentavam o poder dominante dos latifundiários. Relembre-se o caso de António Dias Matos (1890-1932), assassinado no Cantinho da Ribeira, concelho de Beja. Para mais informações sugere-se a leitura de (Lima, 2006, p.85-102; 133-145) e o posfácio de Manuel da Fonseca ao seu romance Seara de Vento (Fonseca, 2001, p.175-212). Portanto, a análise do processo de formação da classe trabalhadora em Levantado do Chão refere-se apenas ao sucedido no romance, logo sem extensões à restante realidade histórica alentejana.
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Sobre um desses malteses, José Gato, «nunca roubou nada aos pobres, a orientação dele era só roubar onde o havia, aos ricos» (Saramago, 2000, p.133).
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Deste estado em que o desespero, a inacção e a desorientação e onde a acção de grupos dispersos e sem objectivos políticos de luta (os malteses) eram as notas dominantes, passa-se para uma fase de crescente revolta e consciencialização dos trabalhadores. Primeiro, a acumulação de castigos físicos e de humilhações atinge um grau quase insuportável, aliado ao agravamento das dificuldades para se garantir emprego e um salário que permita a sobrevivência económica. Pavimentam-se aí os germes da revolta, até ver individual, dos operários. Aqui surge João Mau-Tempo, filho mais velho de Domingos Mau-Tempo e de Sara Conceição que «um dia, moído de pancada e de trabalho excessivo, desafiou a ameaça de ser esfolado e desossado [pelo capataz], e abriu-se com a mãe estupefacta» (idem, p.55). A insatisfação com a sua condição é cada vez mais visível – «tu és um homem, és o parceiro enganado de uma grande batota universal, brinca, que mais queres, o salário não dá para comer» (idem, p.76). O questionamento da sua situação e a verbalização (o que implica uma reflexão) da mesma, demonstra a passagem para um degrau superior de consciencialização social. Todavia, não há aqui ainda luta colectiva organizada. No romance, o atingir de um novo patamar surgirá durante e no final da Segunda Guerra Mundial. É neste período que uma onda popular de exigência de democratização percorre o país. Também é neste momento que o Partido Comunista Português se torna a força política hegemónica nos campos alentejanos. Nos anos posteriores à derrota do nazi-fascismo na Segunda Guerra ocorre também um ligeiro incremento na industrialização no país.
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A aplicação de maquinaria à produção agrícola resultaria, nas condições de um capitalismo atrasado, de um lado, na expulsão de mais operários do trabalho agrícola, elevando assim a taxa de desemprego nos campos e, de outro lado, na imposição de ritmos de trabalho (quase) insuportáveis.
«Vai o moço para a moinha, recebe-a na cara como um castigo, e o corpo começa de mansinho a protestar, para não mais lhe sobram as forças, mas depois, só não o sabe quem isto não tenha vivido, o desespero alimenta-se da extenuação do corpo, torna-se forte e a sua força regressa violenta ao corpo, e então, de dois feito, o rapaz, que se chama Manuel Espada, deixa a moinha, chama os companheiro e diz, Vou-me embora, que isto não é trabalhar, é morrer» (idem, p.101).
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Temos aqui um primeiro exemplo de greve espontânea. As consequências para os trabalhadores não tardam em chegar, «no domingo foram os quatro [grevistas] à praça e não arranjaram patrão. E no outro, e no outro também. O latifúndio tem boa memória e fácil comunicação, nada lhe escapa, vai passando palavra, e só quando muito bem lhe parecer dará o feito por perdoado, mas esquecido nunca» (idem, p.107-108).
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Esta espontaneidade tende a ser superada pela difusão de reuniões de trabalhadores, «encontram-se aos três e aos quatro em sítios escondidos, e mantêm grandes conversações. Fala sempre um de cada vez e todos os mais ouvem. E quando acabam dispersam-se na paisagem, quando possa ser por caminhos desviados, levando papéis e decisões. A tudo isto chamam organização» (idem, p.120-121) – e conjuntamente com a forte presença de uma cultura popular baseada em ideias de solidariedade e unidade supra-individuais, forjam-se laços de identificação colectiva de classe.
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Resumindo, a existência de uma liderança política revolucionária e ligada aos interesses dos trabalhadores (o PCP), o carácter colectivo da cultura popular e a ruptura com a inércia e o conformismo contribuem para que a classe trabalhadora se constitua como uma classe com interesses assumidamente tomados como distintos e opostos aos das classes dominantes. Em paralelo, a burguesia, os capatazes e a polícia respondem com o aumento da exploração e o recrudescimento da repressão. Contudo, esta reacção, não no imediato mas a prazo, tem como contra-resposta o fortalecimento da unidade dos trabalhadores e permite que estes compreendam e identifiquem mais objectivamente quem são os seus antagonistas e de onde vem a causa da sua condição de classe. A reacção das classes dominantes passa a ser um factor de politização da classe trabalhadora, na medida em que esta já tinha atingido um estádio de desenvolvimento político, ideológico e organizativo – que a não ser destruído pela violência física – se fortalecia no médio-longo prazo. Ou seja, o fosso entre universos (crescentemente) distintos – entre o mundo das vivências, das visões do mundo, das percepções dos vários grupos e classes sociais, das identidades colectivas, das práticas políticas dos operários agrícolas e das classes dominantes – era de uma tal magnitude, que apenas uma recomposição completa da estrutura económica da produção agrícola ou uma repressão que pudesse desarticular completamente a organização política da classe trabalhadora poderia eventualmente ter revertido tal processo. Sustente-se, todavia, que a prossecução deste processo repressivo exigiria uma intervenção do Estado incompatível com as suas forças e recursos de então. Em paralelo, uma recomposição da estrutura produtiva do latifúndio era igualmente incompatível com os interesses de classe de uma das fracções de classe politicamente mais poderosas e mais influentes do bloco no poder que se condensava no Estado fascista: o grande capital agrário e latifundiário. Por conseguinte, a tendência mais provável de desenvolvimento da luta de classes nos campos passaria pelo aprofundamento do antagonismo classista.
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Pelo seguinte trecho visualizam-se as características que sustentavam o estado de desenvolvimento da classe trabalhadora naquele período (a solidariedade , a identificação dos “patrões” como uma classe antagónica, de onde percebiam a migração dos frutos do seu trabalho para o lado da outra classe):
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«Camaradas, não se deixem enganar, é preciso que haja união entre os trabalhadores, não queremos ser explorados, aquilo que pedimos nem sequer chegava para encher a cova dum dente ao patrão. E avança o Manuel Espada, Nós não podemos ser menos que os camaradas das outras terras, que a esta hora reclamam um salário mais certo. E há um Carlos, outro Manuel, um Afonso, um Damião, um custódio, e um Diogo, e também um Filipe, todos a dizerem o mesmo, a repetir as palavras que acabaram de ouvir, só a repeti-las porque ainda não tiveram tempo de inventar outras suas próprias, e agora adianta-se João Mau-Tempo, (…) juntemo-nos todos para exigir o nosso salário, porque já vai sendo tempo de termos voz para dizer o valor do trabalho que fazemos, não podem ser sempre os patrões a resolver o que nos pagam» (idem, p.144).
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«Não há justiça se uns têm tudo e os outros nada, e eu só queria dizer que têm tudo e os outros nada, e eu só queria dizer que os camaradas podem contar comigo, é só isto e nada mais» (idem, p.212).
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Em Levantado do Chão saliente-se ainda que a existência de luta organizada, correlativa da elevação dos níveis de consciencialização dos trabalhadores aparece como o maior receio da classe dominante. Registe-se o seguinte diálogo entre o pároco e a esposa de um latifundiário «é o pior defeito que têm, o orgulho, Tem razão, senhor padre Agamedes, e o orgulho é um pecado mortal, O pior de todos, senhora dona Clemência, porque é ele que levanta o homem contra o seu patrão e o seu deus» (idem, p.243) [itálicos nossos]. O “orgulho” mencionado mais não é do que a assunção individual e colectiva que os trabalhadores adquirem da sua situação na sociedade e da aspiração e necessidade que encontram para se constituírem como uma classe politicamente independente dos interesses económicos, políticos e ideológico-culturais de outras classe sociais.
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Por outro lado, um factor que ao mesmo tempo contribui para incrementar a consciência de classe e que com a maturação desta se eleva a novos níveis é a luta colectiva operária. Isto é, a compreensão subjectiva da classe operária como uma classe diferente, oposta e antagónica ao grande capital (agrário, industrial, financeiro) espelha-se igualmente na extensão da luta reivindicativa no tempo. Portanto, a persistência temporal da luta, com avanços e recuos, em torno de exigências económicas e/ou políticas, é um aspecto capital na evolução qualitativa da formação da classe trabalhadora. Em paralelo, a compreensão de que a luta numa determinada conjuntura faz parte de um devir histórico, de um todo histórico, é igualmente importante, 
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«a Montemor vamos segunda-feira, reclamar o pão dos filhos e dos pais que os devem criar, Mas isso é o que sempre fizemos, e os resultados, Fizemos, fazemos e faremos, enquanto não puder ser diferente, Canseira que não acaba nunca, Um dia acabará, Quando já estivermos todos mortos e ao de cima vierem os nossos ossos, se houver cães que os desenterrem, Vivos haverá bastantes quando chegar esse dia» (idem, p.308) [itálicos nossos].
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Em simultâneo, a coragem em afrontar um inimigo com recursos – financeiros, militares e ideológicos – muito superiores e em que as suas reivindicações e bandeiras de luta prevalecem à repressão subsequente é uma prova do avanço progressivo da capacidade organizativa e da consciência de classe do proletariado alentejano. A isto acrescente-se também a transformação da luta económica (por salários, por melhores condições de trabalho, por horários de trabalho mais reduzidos, etc.) como catalisador da luta política. A acima referida luta pelas oito horas nos campos em 1962 foi complementada com a assunção do dia Primeiro de Maio como feriado dos trabalhadores em plena ditadura. Daí em diante, o dia da resistência antifascista passou a ser exactamente o dia 1 de Maio. Essas lutas da década de 60 – expressas no romance no envolvimento militante de Sigismundo Canastra, João Mau-Tempo, António Mau-Tempo e Manuel Espada (cunhado de João) – funcionaram, desse modo, como factor de: unidade operária, de confiança e ligação dos trabalhadores à única força política antifascista com implantação nas massas populares aí existente (o PCP); consciencialização e organização política; formação de quadros operários; abaixamento do volume de mais-valia apropriado pela burguesia; rachamento da legitimidade do regime fascista e da própria burguesia como classe dominante.
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Com a Revolução dos Cravos, chegam, entre outros, a liberdade política e a liberdade de manifestação,
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«está aqui escrito que o primeiro de Maio será festejado livremente, é dia feriado em todo o país, E então a guarda, insistem os de boa memória, A guarda desta vez fica a ver-nos passar, quem havia de dizer que uma coisa assim nos viria a acontecer um dia, a guarda quieta e calada enquanto tu gritas viva o primeiro de Maio» (idem, p.355).
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Parafraseando Ary dos Santos, com «as portas que Abril abriu» (Santos, 2004, p.309-330) os trabalhadores alentejanos finalmente consumaram as suas aspirações pela posse e trabalho da terra por si mesmos sem necessidade constrangimentos externos e em que os produtos do trabalho eram apropriados e distribuídos colectivamente.
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«E então num sítio qualquer do latifúndio, a história lembrar-se-á de dizer qual, os trabalhadores ocuparam uma terra. Para terem trabalho, nada mais, cubra-se de lepra a minha mão direita se não é verdade. E depois numa outra herdade os trabalhadores entraram e disseram, Vimos trabalhar. E isto que aconteceu aqui, aconteceu além, é como na Primavera, abre-se um malmequer do campo, e se não vai logo Maria Adelaide colhê-lo, milhares de seus iguais nascem em um dia só, onde estará o primeiro, todos brancos e todos voltados ao sol, é assim o noivado desta terra» (idem, p.361).
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Por conseguinte, é com a Reforma Agrária que o proletariado alentejano atinge o cume da sua capacidade organizativa e da sua consciencialização social e política. Isto para não falar da melhoria material e económica da sua vida quotidiana.
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Atentemos nas palavras de um operário agrícola que viveu esse processo. Palavras enunciadas no mesmo ano em que Levantado do Chão foi publicado.
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«Os trabalhadores alentejanos e ribatejanos nunca pensaram na terra para si e não continuam a pensar na terra para si, nunca foram gananciosos por terem um bocadinho de terra. Isto em falando numa maneira muito alentejana, os trabalhadores o que querem é pôr a terra a produzir para todo o povo português e a terra dos alentejanos e dos ribatejanos é de todo o povo português. Portanto, não queremos de facto um bocadinho de terra cada um, mas queremos de facto que a terra seja posta ao serviço da economia nacional e de todo o povo em geral. Não queremos, de facto, ficar com um bocadinho [de terra], outro ficar com outro, que a terra nos seja posta, como se costuma dizer, em nosso nome. A terra é do nosso país, a terra hoje é de quem volta a trabalhar. Esta é a ideia dos alentejanos, é aquilo que os alentejanos trabalhadores rurais sempre viram da terra» (Arraiolos, 1980, p.209).
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É todo este movimento histórico de transformação das práticas colectivas e políticas de classe do operariado agrícola alentejano que vibra e pulsa nas páginas de Levantado do Chão. Um romance onde se pode afirmar que os trabalhadores não são descritos externamente ao contexto histórico, mas onde a sua experiência histórica e humana é contada pela sua própria voz colectiva. Em 1980, pela voz individual de um dos seus.
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Bibliografia
• ARRAIOLOS, Rogério (1980) – A Reforma Agrária acusa. Lisboa: Caminho.
• BARROS, Afonso de (1981) – A Reforma Agrária em Portugal: das ocupações de terras à formação de novas unidades de produção. 2ªed. Oeiras: Fundação Calouste Gulbenkian.
• CARVALHO, Lino de (2004) – Reforma Agrária: da Utopia à Realidade. Porto: Campo das Letras.
• FONSECA, Manuel da (2001 [1958]) – Seara de Vento. 17ªed. Lisboa: Caminho.
• GERVÁSIO, António (2004) – A luta do proletariado agrícola: de sol a sol até à Reforma Agrária. In MURTEIRA, António (org.) – Uma Revolução na Revolução: Reforma Agrária no Sul de Portugal. Montemor-o-Novo. Câmara Municipal de Montemor-o-Novo. p.181-187.
• HOBSBAWM, Eric (1965 [1959]) – Primitive Rebels: studies in archaic forms of social movimente in the 19th and 20th centuries. 2ªed. New York, London: Norton.
• LEAL, Américo (2005) – O Rosto da Reforma Agrária. Lisboa: Edições Avante.
• LIMA, Paulo e CORREIA, Susana (2006) – Vida, fome e morte nos campos de Beja durante o salazarismo. Beja: Câmara Municipal de Beja – Arquivo de História Oral; Cooperativa Cultural Alentejana.
• REIS, Carlos (1999) – Diálogos com José Saramago. Lisboa: Caminho.
• SANTOS, José Carlos Ary dos (2004) – Obra Poética. 4ªed. Lisboa: Edições Avante.
• SARAMAGO, José (2000 [1980]) – Levantado do Chão. 15ªed. Lisboa: Caminho.
• SARAMAGO, José (1999) – Folhas Políticas 1976-1998. Lisboa: Caminho
• SEIXO, Maria Alzira (1987) – O essencial sobre José Saramago. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda.
• THOMPSON, E. P. (1991 [1963]) – The Making of the English Working Class. London: Penguin.
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* Sociólogo
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http://www.odiario.info/?p=1664
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sexta-feira, 4 de junho de 2010

A Encomendação das Almas de João Aguiar

Letras & Letras



Recensões


A Encomendação das Almas de João Aguiar
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A Encomendação das Almas é um livro de certo modo diferente daqueles que João Aguiar até agora tem escrito. Diferente mais no estilo e na trama narrativa do que propriamente nas ideias e no imaginário veiculados. Há uma continuidade renovada, não uma ruptura.
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O primeiro capítulo remete para dois dos romances de Vergílio Ferreira: Para Sempre e Em Nome da Terra. No primeiro, a personagem central é um velho bibliotecário reformado que regressa à velha casa onde nascera, no meio da serra, longe da família e da civilização. Lá aguarda a morte, envolto em recordações e rodeado pela paisagem agreste e natural da serra. No segundo, a personagem central é também um velho, desta vez juiz reformado, que a família abandona num asilo. O Gonçalo Nuno da Encomendação das Almas partilha das características das duas personagens de Vergílio Ferreira: por um lado a família que quer ver-se livre dele internando-o num lar, por outro a sua decisão de a abandonar e ir viver sozinho para a velha casa. É provável que o João Aguiar não tenha lido os dois livros referidos. No entanto, é curiosa a semelhança das situações narradas.
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A história de um velho e de um jovem que se juntam em situações peculiares é um topoi da literatura. De todas as que poderia citar, vem-me de imediato a história de Wang-Fô e do seu discípulo Ling de Marguerite Yourcenar. Wang-Fô, prisioneiro do imperador, pinta o mar, um barco e um barqueiro (o seu discípulo que tinha sido decapitado) e escapa-se através daquilo que pintou submergindo o palácio e afogando os cortesãos. O Zé da Pinta e Gonçalo Nuno, analogicamente, escapam-se dos seus perseguidores (família, sociedade...) transformando-se em Seculares das Nuvens e desencadeando uma violenta tempestade.
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As obras do João Aguiar poderiam delimitar-se grosso modo em três constantes temáticas: o romance de feição histórica (onde se poderiam agrupar A Voz dos Deuses, O Trono do Altíssimo, Os Comedores de Pérolas e A Hora de Sertório), o romance alegórico de pendor utópico (O Homem sem Nome e alguns contos de O Canto dos Fantasmas) e o romance fantástico de pendor etnográfico (A Encomendação das Almas). Todavia, todas as obras do autor partilham mais ou menos destas constantes e é isso que leva o leitor atento a identificar em cada uma delas a pena do mesmo escritor.
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A temática campestre foi largamente tratada na literatura portuguesa. Vejam-se os trovadores, alguns poetas palacianos, Camões e os seus herdeiros. Mas é interessante verificar que foi no século XVII, em pleno Barroco e em plena ascensão da Inquisição, que os poetas que viviam na corte deixam de glosar assuntos religiosos, filosóficos e palacianos, para se dedicarem a intermináveis desabafos amorosos de pastores. Verifica-se, e é engraçado que poucos tenham ainda tratado este assunto, que, à medida que a Inquisição cimenta o seu poder nas grandes cidades (Lisboa e Évora), os intelectuais portugueses, ou saem para Espanha, Brasil ou Holanda, ou se refugiam no campo a meditarem no crescimento dos cachos de uvas. Paralelamente, em pleno final do século XX, verificamos que uma boa parte dos autores portugueses situa a acção dos seus romances no campo (nos poetas já nem se fala). Quer dizer, à medida que a vida nas cidades se torna descaracterizada e descaracterizadora, os escritores, conscientemente ou não, reflectem nas suas obras o seu descontentamento pela vida moderna e propõem um regresso às origens. Essas origens, claro, estão no campo, na serra, neste pedaço de pedra que é Portugal (como erroneamente dizia o Torga).
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Na Encomendação das Almas, Gonçalo Nuno, já velho, farto da família, do negócio e da própria cidade que o queriam condenar a um hospício, que é o mesmo que enterrá-lo, bate o pé e refugia-se na aldeia. É numa velha casa, entre a biblioteca, a janela onde olha o céu e a cozinha que decide viver o tempo que lhe falta. Há uma renúncia. Como o Santo Antão que deixou tudo e foi para o deserto. Um velho vulgar nunca faria isto. Quando muito, deixava-se meter no asilo como um cordeiro. Gonçalo é um homem invulgar. Não por mijar nas calças (o João Aguiar aqui soube pintar a personagem com muita graça), mas pelo desprezo que tinha pelas coisas que para os outros eram importantíssimas. E entrou no jogo do Zé da Pinta. Não chegamos a saber se realmente ele acreditou que se transformaria num secular das nuvens depois de ser triturado. Mas uma coisa poderemos aventar: que ele estará agora em qualquer lado a rir-se das nossas preocupações e deste palavreado.
O estilo deste romance de João Aguiar é, em relação aos seus romances anteriores, menos ingénuo, mais apimentado (um pouco à maneira, talvez, de certa prosa de Eça de Queirós) e altamente irónico. O autor não tem contemplações quando decide malhar na sociedade portuguesa actual, descaracterizada e fútil, quer a nível dos executivos, políticos e afins, quer a nível das camadas mais baixas da população. 
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As obras de João Aguiar têm um conteúdo profundamente religioso. Não no sentido cristão. Mas no sentido original da palavra: a relação do humano com o desconhecido e o sagrado, relação esta inerente a todos os homens, mesmo que andem agora um pouco esquecidos dela. Até mesmo em Os Comedores de Pérolas, a sua primeira obra de ambiente contemporâneo, isso se nota.
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As superstições, os mitos funcionam na cabeça de Zé da Pinta como verdades indiscutíveis, corroboradas pelas explicações de Gonçalo Nuno que, por sua vez, se informara na velha biblioteca do Conde de Sadorninho (de Saturnino < Saturno, deus do tempo e das sementeiras).
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A propósito de Sadorninho (corruptela de Saturninus e mantido na Península Ibérica pela devoção a São Saturnino), procedi a algumas consultas hagiológicas: Jorge Campos Tavares, no seu Dicionário de Santos, publicado pela Lello em 1990, diz que São Saturnino, festejado a 29 de Novembro, foi «Apóstolo de Toulouse e seu primeiro bispo. Tendo sido levado a sacrificar aos deuses pelo governador romano, recusou-se a incensá-los. Foi amarrado a um touro que ia ser sacrificado e levado de rastos pelo animal que em correria o arrastou pelas escadas do templo causando-lhe a morte. O seu atributo é por isso um touro bravo.» Todavia, este São Saturnino não é o mesmo que vem no hagiológio do padre José Leite. Aqui São Saturnino é um velho cristão oriundo de Cartago, preso e condenado a carregar sacos de areia para as novas termas que Diocleciano mandou construir. Porque, enquanto carregava os pesadíssimos sacos, rezava, os verdugos decidiram prendê-lo e decapitaram-no depois de constatarem que ele teimava em não querer sacrificar aos deuses (cf. José Leite, Santos de cada dia, vol. III, Braga, Editorial A.O., 1985, pp. 356-357).
José Leon Machado, Fevereiro de 1996


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João Aguiar "fica irremediavelmente ligado a Macau" (1944 - 2010)

 

03.06.2010 - 20:11 Por Lusa

O escritor João Aguiar, que morreu hoje em Lisboa, tem um percurso literário que fica irremediavelmente ligado a Macau, considerou Rogério Beltrão Coelho, da editora Livros do Oriente, que lançou duas obras do autor.


“O João tem um percurso que fica irremediavelmente ligado a Macau porque estamos a falar de livros que, além de inúmeras edições, foram traduzidos para várias línguas”, sublinhou, em declarações à Lusa, recordando “Os Comedores de Pérolas”, “O Dragão de Fumo” e “A Catedral Verde”.

Além de uma edição local de “O Dragão de Fumo”, a Livros do Oriente editou outro livro de João Aguiar sobre Macau: “O Tigre Sentado”, que nasceu em fascículos semanais nas páginas do Jornal Ponto Final ao longo de 2004, quando se assinalaram os cinco anos da transferência de poderes de Portugal para a China.

Beltrão Coelho, amigo de João Aguiar e um dos “responsáveis” pela primeira visita do autor a Macau no final dos anos de 1980, recorda que “O Tigre Sentado” foi depois editado em Fevereiro de 2005, uma ocasião para João Aguiar regressar ao território, que visitou diversas vezes.

João Casimiro Namorado de Aguiar nasceu em 28 de Outubro de 1943 e viveu a infância entre Lisboa, cidade natal, e a Beira, em Moçambique. Morreu hoje em Lisboa, aos 66 anos, vítima de cancro.
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João Aguiar era caso raro em Portugal. Vivia exclusivamente da 
profissão de escritor

Obituário

João Aguiar. O escritor que fez da história um romance

por Sílvia Caneco, Publicado em 04 de Junho de 2010  |  Actualizado há 6 horas
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Além de livros históricos, escreveu séries infanto-juvenis e textos para a "Rua Sésamo". Morreu ontem, aos 66 anos, de cancro
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João Aguiar teve um percurso pouco lógico. No 4.o ano tirou 9 a Português, anos mais tarde tornou-se escritor. O primeiro livro veio depois dos 40; escreveu mais de 20. Ficou conhecido pelas séries infanto-juvenis como "O Bando dos Quatro", e tem mais livros para adolescentes que para adultos, apesar de ter começado a escrevê-los contra a sua vontade, de ser solteiro e de não ter filhos. Num texto que escreveu para o "Jornal de Letras" em 2005 dizia: "A minha vida não dava um livro, e ainda bem. Em compensação, o facto de os meus livros darem uma vida - boa ou má, não importa para o caso -, devo-o aos momentos de não-glória que acabo de relatar." E a verdade é que os livros fizeram a sua vida. João Aguiar era um escritor na verdadeira acepção da palavra e caso raro: vivia exclusivamente da escrita.

Numa das suas últimas viagens, João Aguiar confidenciou a Francisco José Viegas que já não devia conseguir escrever o livro que sempre quis fazer: um romance histórico sobre a revolução de 1383, que levou o Mestre de Avis, futuro D. João I, ao trono. Estava certo. O cancro que o venceu ontem, aos 66 anos, não lhe deixou tempo para cumprir a sua última vontade.

Quem o conheceu diz que nunca escrevia ao acaso. "Era muito disciplinado e só escrevia sobre factos que conhecia. Não partia para a obra sem um grande trabalho de pesquisa e de investigação", recorda o escritor e amigo Domingos Lobo, que lembra ainda como, num primeiro contacto, a timidez de João Aguiar lembrava uma pessoa "antipática, algo convencida". Era preciso passar o muro para descobrir o contador de histórias de humor apurado, o cavalheiro que Alice Vieira descreve como "um príncipe". "Era atencioso, culto e muito divertido. Era um prazer conversar com ele." A escritora conheceu-o ainda nos tempos do "Diário de Notícias". Nas redacções, Aguiar era uma excepção entre colegas formados pela tarimba: tinha estudado Jornalismo em Bruxelas depois de completar o curso de Filosofia em Lisboa.

"Era o que chamamos um homem fino: educado e elegantíssimo", conta Mário Zambujal, que integrou juntamente com João Aguiar e outros cinco escritores um projecto coordenado pela Oficina do Livro. Apesar de monárquico e conservador, não o incomodava que muitas das piadas lançadas pelos restantes seis republicanos girassem à volta disso.

Poucas coisas o aborreceriam tanto como "o escrever e falar mal português". Talvez por isso nunca tenha rejeitado um convite para debates em escolas. Com uma condição: só ia se os alunos tivessem lido pelo menos um dos seus livros e estivessem preparados para fazer perguntas. "Tenho a certeza que ajudou muita gente na casa dos 16, 17 anos, a interessar-se por literatura, pela sua vivacidade a contar histórias e por escrever sobre história", afirma José Jorge Letria, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores que conhecia o escritor há 30 anos.

Da "Rua Sésamo", projecto em que chegou a coordenar a equipa de escritores, guardou a sua experiência mais difícil. "Em três minutos tínhamos de escrever uma história com princípio, meio e fim, monopolizar a atenção da criança e ao mesmo tempo ensinar alguma coisa."

Nos últimos meses João Aguiar retirou-se como quem se prepara para a morte. Afastou-se dos amigos e fechou--se no seu círculo. Há cinco anos tinha sofrido um ataque cardíaco e tinha deixado o cachimbo, cujo cheiro o tornava conhecido à distância. "Sabíamos sempre quando o João tinha chegado à redacção", recorda Alice Vieira. 
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domingo, 28 de junho de 2009

O trabalho teórico e a luta revolucionária - João Aguiar


Marx, Engls e LéninA teoria revolucionária é a consequência do estudo da realidade política e social nada tendo a ver com a repetição empolgada de chavões ou a aplicação mecânica de princípios gerais a uma situação em específico, sem olhar a novas configurações do capitalismo, do Estado e da correlação de forças, por isso, não se confunde com o verbalismo vazio dos esquerdistas, nem com a chamada renovação que caracteriza o reformismo. “a teoria revolucionária não abdica nem dos princípios fundamentais do marxismo-leninismo (…), nem da necessidade de compreender novos fenómenos; a teoria revolucionária aplica criativamente os conceitos nucleares do marxismo ao contexto em que os revolucionários actuam numa determinada época e sociedade”.
João Aguiar* - 22.06.09

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Na ciência burguesa é relativamente difundida a ideia que a célebre XI Tese sobre Feuerbach – «todos os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo, trata-se agora de transformá-lo» – seria uma afirmação em que Marx acharia desnecessária toda e qualquer teorização do real. Na realidade, tais noções não fazem sentido. Basta lembrar toda a imensa obra teórica de Marx (o actual projecto de publicação das obras completas de Marx e Engels em alemão será de 120 volumes, portanto, cerca de 72.000 páginas!) para se perceber o colosso intelectual do grande revolucionário alemão. Por outro lado, o marxismo nunca desqualificou o labor teórico. Mais uma vez, lembrem-se duas clarividentes lições de Lenine: «não há movimento revolucionário sem teoria revolucionária" e a importância para os Partidos Comunistas da "análise concreta da situação concreta». Por conseguinte, há em toda a história do marxismo-leninismo uma ligação indissolúvel entre trabalho teórico e prática revolucionária.
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Qual a relação entre teoria revolucionária e luta prática?

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Para responder a esta questão, importa considerar dois elementos principais:
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1. a teoria revolucionária não existe fora da luta revolucionária.
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Quer dizer, Marx não nasceu comunista e até atingir os seus 25-26 anos de idade nunca se considerou socialista ou comunista, apesar de já ter entrado em contacto com as correntes anti-capitalistas da época. Para além da ruptura com o hegelianismo e da leitura do artigo «Esboço para uma crítica da economia política» de Engels e publicado nos Anais Franco-Alemães em 1844, foi o contacto de Marx com emigrantes e refugiados políticos socialistas de origem alemã em Paris e, sobretudo, com o desenvolvimento da luta operária – por exemplo, os tecelões da Silésia em luta no ano de 1843 – que iriam estar na génese do marxismo como teoria revolucionária.
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Um outro exemplo. A obra de teoria (científica e política) mais brilhante de Lenine é, não por acaso, "O Estado e a Revolução". Obra escrita em Julho e Agosto de 1917 em pleno fogo da luta revolucionária em ebulição. A percepção do poder de classe do Estado e a percepção das tarefas que cabiam (e cabem) ao proletariado num contexto de transição para o socialismo seriam aspectos de todo inacessíveis fora da luta revolucionária.
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2. a teoria revolucionária permite perspectivar as condições gerais e específicas em que decorre a luta revolucionária.
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Não se pense que o marxismo é um mero pragmatismo. De facto, a luta e a prática nas organizações marxistas necessitam sempre de um programa, de resoluções políticas, de debate político e ideológico. É quase como que «o pão para a boca» das organizações políticas e sociais da classe trabalhadora. Para recorrer a um outro exemplo, repare-se que, ao contrário do preconceito dos media dominantes de que o PCP seria um partido enquistado, sectário, sem debate político e condenado a desaparecer, a verdade é que o PCP não teria a força eleitoral e, fundamentalmente, social e sindical se não debatesse e aplicasse enunciados políticos e ideológicos que se ajustam à realidade concreta das massas populares.
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Consequentemente, a teoria revolucionária enquadra a luta das organizações operárias em dois níveis. Por um lado, a teoria revolucionária enquadra a luta em termos das condições gerais em que ocorre. Isto é, a teoria revolucionária permite compatibilizar a luta quotidiana com o processo histórico global, portanto, entre luta reivindicativa de massas e a luta geral contra o capital. Por outro lado, a teoria revolucionária permite compatibilizar a luta quotidiana na conjuntura nacional, social e temporal em que se desenrola num determinado momento.
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Assim, considere-se a relação entre teoria e luta revolucionária a partir das seguintes noções:
• a teoria revolucionária faz parte da luta de ideias, da batalha política e ideológica contra a ideologia dominante;
• a teoria revolucionária não é o repetir de chavões ou o aplicar mecânico de princípios gerais a uma situação em específico, sem olhar a novas configurações do capitalismo, do Estado e da correlação de forças – a teoria revolucionária não se confunde com o verbalismo oco do esquerdismo;
• a teoria revolucionária não é igual à revisão de princípios do marxismo em favor da busca de pretensas soluções novas para uma realidade social capitalista que, apesar de novos ajustamentos, continua a reproduzir os seus pilares fundamentais (exploração da força de trabalho; mercantilização de todas as actividades sociais, culturais e naturais; Estado de classe controlado pela burguesia; força e peso da ideologia dominante, etc.) – a teoria revolucionária não se confunde com a busca da “renovação" pela “renovação” típica do reformismo;
• a teoria revolucionária não abdica nem dos princípios fundamentais do marxismo-leninismo (primado da luta de classes, papel de vanguarda da organização revolucionária, natureza de classe das várias instituições da sociedade, etc.), nem da necessidade de compreender novos fenómenos;
• a teoria revolucionária aplica criativamente os conceitos nucleares do marxismo ao contexto em que os revolucionários actuam numa determinada época e sociedade.
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Aplicações necessárias da teoria revolucionária à realidade actual: algumas questões que se colocam e que importa dar resposta
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1ª necessidade:
aprofundar a compreensão da real dimensão da actual crise estrutural do capitalismo.
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Aspectos a aprofundar:
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a) relação do capital fictício em hipertrofia com as dificuldades de produção de mais-valia na esfera produtiva.
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b) de que forma a bolha financeira despoletará uma crise ainda mais profunda ao nível das relações de produção capitalistas.
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c) de que modo se relacionam crises cíclicas no seio da crise estrutural mais geral do capitalismo.
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Importância prática desta questão:

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a) desmontar a mecânica interna do imperialismo, como forma de explicitar as raízes estruturais de um sistema explorador e opressor dos povos e dos trabalhadores.
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b) compreendendo a essência do funcionamento do capitalismo, torna-se mais fácil rebater soluções políticas supostamente «de mudança» (como Obama e toda a campanha propagandística em seu torno) e, ao mesmo tempo, de rebater soluções pretensamente milagrosas para o sistema financeiro. A crise estrutural do capitalismo não pode ser regulada, como defendem certas concepções próximas ao keynesianismo, nem é superada por receitas que passem por introduzir «mais mercado» como apregoam as correntes mais abertamente neoliberais. De facto, a crise estrutural do capitalismo demonstra, por um lado, a vulnerabilidade do indivíduo perante toda a mecânica do sistema onde é apenas mais um recurso para extrair mais-valia e, por outro lado, que a sociedade alicerçada na exploração do trabalho humano tem limites estruturais profundos. Compreender a existência destes últimos não significa, evidentemente, que o capitalismo poderia desaparecer por si mesmo mas que, tendo em conta as dificuldades do sistema para incrementar a extracção de crescentes volumes de mais-valia, só a luta colectiva dos trabalhadores e dos povos pode ultrapassar uma sociedade ancorada na exploração do homem pelo homem.
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2ª necessidade: aprofundar a compreensão do desenvolvimento da configuração interna dos Estados e correlativas vias de fascização de novo tipo.
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Aspectos a aprofundar:
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a) papel da securitização do Estado na prevenção (e criminalização) de futuras movimentações operárias e populares.
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b) possibilidade de o capitalismo tentar controlar politicamente a grave crise económica e o crescente caos associado por via do recurso a vias de fascização da vida política.
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c) compreender como estas tendências fascizantes convivem com instituições formalmente democráticas e, mais importante, com a assunção de que tais processos seriam democráticos e realizados no interesse de todos os cidadãos.
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Importância prática desta questão:
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a) reafirmar a natureza de classe no Estado e dos processos políticos. O Estado nunca foi, e hoje muito menos, um aparelho neutro e desligado de interesses de classe. A existência de naturais diferenças entre várias formas de Estado (liberal, ditadura militar, fascismo, etc.) não deve obscurecer a tendência imanente de em situações históricas de crise o capital abraçar empreendimentos militaristas, repressivos e fascizantes.
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b) compreendendo a substância dos Estados – cada vez menos democráticos e cada vez mais autoritários na sua actuação quotidiana – mais facilmente se colocará perante as massas que a superação do sistema implica uma transformação do aparelho de Estado, num sentido da sua democratização e do seu controlo político pelo povo e pelos trabalhadores.
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3ª necessidade: aprofundar a compreensão das transformações na esfera cultural e ideológica.
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Aspectos a aprofundar:
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a) compreender como ideologias de classe (pós-modernismo, teorias sobre a sociedade do conhecimento e correlativo fim do trabalho e das classes, teses sobre a superioridade numérica das chamadas classes médias e dos «colaboradores», etc.) se apresentam como pretensamente não-classistas e compreender o seu impacto nas dificuldades de identificação colectiva de camadas da classe trabalhadora.
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b) perceber a relação entre crise estrutural do capitalismo/tendência fascizante de organização do poder político/estetização da política e da vida quotidiana. Por outro lado, a crise do capitalismo, do ponto de vista dos interesses do grande capital, implica que os trabalhadores adoptem comportamentos individualistas e refractários à luta reivindicativa. Neste capítulo, a difusão de ideologias consumistas junto de novas camadas de trabalhadores actua como um poderoso factor para fazer recuar a consciência operária e popular nas suas forças.
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Importância prática desta questão:

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a) compreender a ligação entre a produção cultural, a difusão ideológica, os mecanismos de condicionamento na formação da opinião e a legitimação do capitalismo.
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b) desconstruir a noção de que o que os indivíduos pensam (e que lhes transmitem nos media e noutras instâncias culturais) é natural, lógico e inquestionável, mas que se encaixa perfeitamente nos processos de dominação ideológica do grande capital.
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c) um mais apurado entendimento destes fenómenos permite um avanço na luta ideológica contra o capital e, portanto, na luta mais geral contra o capitalismo.
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4ª necessidade: aprofundar a compreensão das causas fundamentais do findar da ex-URSS.
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Aspectos a aprofundar:

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a) decifrar como se operou a interacção causas internas e causas externas na derrota do socialismo. Quer dizer, a relação complexa e vasta entre: o colossal cerco imperialista; a relação triangular edificação do Estado socialista – transformação das relações de produção – desenvolvimento das forças produtivas; as modalidades específicas e a variável intensidade da luta de classes no processo de construção do socialismo; o sucesso ou insucesso na formação de quadros e no maior ou menor fomento da participação popular, etc.
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Importância prática desta questão:

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a) uma compreensão sólida do que se passou nas experiências de construção do socialismo assegurará que o ideal comunista se afirme como alternativa ao capitalismo. Ou seja, o socialismo só passará à ofensiva ideológica se for capaz de compreender mais cabalmente esta questão. Um dos eixos mais relevantes que o capital tem aproveitado na luta ideológica passa pela assunção de que não existiria alternativa ao actual sistema. A criminalização do socialismo soviético aparece aqui como central nesse desígnio ideológico do grande capital e do imperialismo. Nesse sentido, a reposição da verdade sobre as experiências de construção do socialismo consubstancia-se como um passo fundamental nesse processo.
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Conclusão
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Uma compreensão mais profunda dos fenómenos acima mencionados permitirá a desmontagem de enunciados da ideologia dominante. Evidentemente, os comunistas e revolucionários têm um largo património teórico sobre estas questões. Assim, trata-se aqui da necessidade de se aprofundar ainda mais esse património e não de o descartar ou ignorar.
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Com efeito, a própria teoria revolucionária será tanto mais eficaz quanto mais se avançar na discussão colectiva dos problemas em causa. Discussão colectiva que tem de estar sempre inserida no quadro de fortalecimento da luta de massas e das organizações da classe trabalhadora. Só a luta dos trabalhadores e dos povos e das suas organizações de classe poderá transformar o mundo.
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Animada por esse objectivo, a teoria poderá interpretar mais correctamente o mundo social e político, por conseguinte, melhorando as probabilidades de sucesso da luta popular pela transformação da sociedade. E porque o marxismo consagra essa unidade entre pensamento e acção, só a luta (teórico-ideológica e de massas) é o caminho!

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*Sociólogo

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in

o diario.info

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