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quarta-feira, 15 de abril de 2020

Miguel Torga - Alentejo

* Miguel Torga

Alentejo!
Minha terra total!
Meu Portugal
Aberto,
Eternamente incerto
Nas fronteiras, no tempo e nas colheitas!
Minhas desfeitas
Praças fortificadas!
Minhas insatisfeitas
Correrias,
A contar no franzido das lavradas
As rugas tatuadas
No rosto dos meus dias...

domingo, 1 de março de 2020

Miguel Torga - A vida

`Miguel Torga


Povo sem outro nome à flor do seu destino;
Povo substantivo masculino,
Seara humana à mesma intensa luz;
Povo vasco, andaluz,
Galego, asturiano,
Catalão, português:
O caminho é saibroso e franciscano
Do berço à sepultura;
Mas a grande aventura
Não é rasgar os pés
E chegar morto ao fim;
É nunca, por nenhuma razão,
Descrer do chão
Duro e ruim!

sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Miguel Torga - Brasil

* Miguel Torga

Brasil
onde vivi,
Brasil onde penei,
Brasil dos meus assombros de menino:
Há quanto tempo já que te deixei,
Cais do lado de lá do meu destino!

Que milhas de angústia no mar da saudade!
Que salgado pranto no convés da ausência!
Chegar.
Perder-te mais.
Outra orfandade,
Agora sem o amparo da inocência.

Dois pólos de atracção no pensamento!
Duas ânsias opostas nos sentidos!
Um purgatório em que o sofrimento
Nunca avista um dos céus apetecidos.
Ah, desterro do rosto em cada face,
Tristeza dum regaço repartido!
Antes o desespero naufragasse
Ente o chão encontrado e o chão perdido.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

um poema de Miguel Torga

* Miguel Torga


Só nos é concedida
Esta vida
Que temos;
E é nela que é preciso
Procurar
O velho paraíso
Que perdemos

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Miguel Torga - Dies Irae

* Miguel Torga

Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!

Miguel Torga, in 'Cântico do Homem' 

sábado, 29 de setembro de 2018

Eça, Torga, Van Gogh e Cunhal


  * Eça de Queiroz

“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o POVO.

Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos. Estes são o POVO, e são os que nos ALIMENTAM.

Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos. Estes homens são o POVO, e são os que nos VESTEM.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias. Estes homens são o POVO, e são os que nos ENRIQUECEM.

Estes homens, nos tempos de lutas e crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, como machas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento. Estes homens são o POVO, e são os que nos DEFENDEM.

Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados. Estes homens, são os que nos SERVEM.

E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem? Primeiro, despreza-os; não pensa neles, trata-os como se fossem bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos, não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades, forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga, não lhes dá proteção; e, terrível coisa, não os instrui, deixa-lhes morrer a alma. É por isso que os que têm coração e alma, e amam a JUSTIÇA, devem lutar e combater PELO POVO.

E ainda que não sejam escutados, têm na amizade dele uma consolação suprema.”

Eça de Queirós (1845-1900)


* Almeida Garrett 


(...)

Eu coroarei de trevo a minha espada,
de cenoiras, luzerna e beterrava.
Para cantar Harmódios e Aristógitons,
Que do tirano jugo vos livraram
Da ciência velha, inútil, carunchosa.
Que elevava da terra, erguia, alçava
O que no homem há do Ser divino,
E para os grandes feitos e virtudes
Lhe despegava o espírito da carne...

Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazei caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos.

Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico?

— Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas.  que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.

Logo a nação mais feliz, não é a mais rica. Logo o princípio utilitário não é a mamona da injustiça e da reprovação. Logo...

There are more things in heaven and earth, Horatio.
Than are dreamt of in your phylosophy

A ciência deste século é uma grandessíssima tola.
E, como tal. presunçosa e cheia de orgulho dos néscios.
...............................................................................................................

(...)

Almeida Garrett, 1799-1854
(Viagens na Minha Terra)





Van Gogh - Os comedores de batatas






Comentários

Ana Albuquerque E assim vou continuar. Denunciando!! Já que estou velha para pegar noutras armas que não sejam as palavras! Abraço.

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Thatalyscal Scaldelai Adoro Eça de Queiroz!!!Obrigada! 

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Carlos Rodrigues Clássica, mas sempre atual escolha de Textos - Eça / Garrette.

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Ana Roque É triste ver a actualidade destes textos....

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Luisa Neves Belíssima escolha. Grata pela partilha. Abraço e um excelente fim de semnana. :))

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Ana Estrela Eça de Queiroz e Garrett sempre atual nas suas duras criticas a esta sociedade de consumo em k estamso enterrados até ao pescoço! gostei muito da montagem

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De Castro Barros Orlanda muito obrigada amigo Victor Nogueira,Soube-me tão bem lêr tudo isto...senti-me de novo em outros tempos...mil vezes obrigada amigo.

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Maria Célia Correia Coelho Victor, obrigada, não conhecia estes textos do Eça e Almeida Garrett, infelizmente continuam actuais!!!

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Deolinda F. Mesquita Tristeza.... tudo isto é actualidade.... Belo trabalho Victor obrigada:)

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