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quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Poemas de indignação e resistência


  • Domingos Lobo 

Poemas de indignação e resistência
De Poema em Riste, de José Carlos Vasconcelos


A literatura dos rebeldes com causa, aquela que em prosa e verso teve coragem de afrontar o fascismo, construir uma escrita de intervenção cívica e cultural sobre as condições sócio-políticas vividas em Portugal durante quase cinco décadas; registar a memória desses anos e deixar traços perenes desse empenho em outras artes (na pintura, na música, no cinema), afinal não estará tão morta e enterrada como muitos por aí, ufanos, vêm propagando. Novos títulos começam a estar disponíveis nos escaparates, alguns dos quais já nestas páginas demos notícia, e outros começam a ser reeditados.
A poesia do neo-realismo, ou de vozes afins, expressou sempre um diálogo desinibido contra a ditadura e tudo o que ela representava de regressão civilizacional: a opressão, a fome, as prisões, a guerra colonial, a emigração, o exílio. Propõe-se agora olhar, de frente e sem tibieza, para a nossa história e os seus factos mais sórdidos, mesmo quando o lodo desse passado, de tão inverosímil em povo de «brandos costumes», ainda se nos cola à pele. Uma literatura que assume os factos e as feridas da verdade histórica mesmo que o fascismo no-lo tenha sonegado, inventando mitificações lorpas; uma literatura que assume o sujeito, enquanto agente de uma determinada realidade e da sua efabulação.
Se o acto de escrever é um acto de responsabilização – cultural, cívica e ética, os poetas que viveram os dias sórdidos e os denunciaram, atingiram, quase sempre, esse estágio supremo da criação literária: questionar o real e interpretá-lo. Outro dos elementos que encontramos nessa literatura, sobretudo na poesia, introduzido de forma hábil no discurso poético, é o da sinceridade: sinceridade emocional, ideológica, afectiva, sexual. Só na poesia o discurso autodiegético foi tão expressivo, tão confessionalmente linear.
Raramente a literatura portuguesa deu a dimensão trágica, o absoluto do drama épico, como nos textos em que a denúncia da opressão surge como suporte ficcional. É a tragédia do homem com sua consciência, com o seu sentido do dever colectivo e da justiça, e essa componente cívica e conflitual nunca antes a literatura portuguesa conseguira traduzir tão rigorosamente.
Não deixa de haver nessa escrita, nos signos ideológicos que ela transporta e do seu engajamento, de autores revelados nos finais dos anos 1950 e início de 1960 (António Gedeão, António Ramos Rosa, Fernando Assis Pacheco, Herberto Helder, José Carlos Ary dos Santos – alguns enquadráveis numa segunda vaga neo-realista), uma componente humanista (no sentido heideggeriano) universal que é, na sua proposição, um traço determinante de modernidade, dado que anunciadora de uma realidade outra, de abertura a novas coordenadas que entroncam na capacidade de reflectir a realidade social com exigência formal e, nos casos mais conseguidos, suplantando até as coordenadas exegéticas ao tempo da sua gestação. Os diálogos explícitos que alguns textos ensaiam com a ditadura, desmontando os pressupostos ideológicos e o cinismo da sua retórica, configuram um dos mais relevantes e criativos períodos da nossa poesia. E bastam-nos umas dezenas de obras – algumas, estreias notáveis dos seus autores – para provar que foi decisiva essa contribuição para a reinvenção de um olhar novo e diferente sobre a explanação metafórica do real e que, sem esses textos, possivelmente ainda hoje estaríamos a escrever retratos decadentes sobre a burguesia (Óscar Lopes).
Vem isto a propósito da reedição, levada a cabo pela Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, na colecção Memória Perecível, do livro De Poema em Riste, de José Carlos Vasconcelos. Este livro, editado em 1970 (edição do autor, para que o editor não viesse a ser economicamente prejudicado com o seu eventual confisco – o que veio a suceder, não impedindo que os 3500 exemplares de tiragem quase se tivessem esgotado), insere-se na linha de combate ao estado novo, fazendo-o com uma linguagem rasando a sátira e a inventiva formal (distante já da poesia da geração neo-realista coimbrã e mais próxima de Manuel Alegre dePraça da Canção), para desobedecer ao normativo sufoco imposto pelo salazarismo/caetanismo.
Se esta poética não goza hoje dos favores de uma corte vergada a interesses estéticos de importação (Eduardo Pitta refere o silêncio ensurdecedor em torno da obra de Ary dos Santos),1 como o próprio José Carlos Vasconcelos, no corajoso posfácio que acompanha esta edição, denuncia, em detrimento de uma poética do eu contentinho e conformado, da autocontemplação e do embuste, isso se deve à função crítica que hoje se exerce nos jornais ditos de referência. Para esses críticos, e para os jornais que lhes dão guarida, poetas que ousem ir além do seu próprio reflexo, são poetas tresmalhados, que não cabem no estreito, e beato, espaço daparóquia do Chiado. Vejamos o que escreve José Carlos Vasconcelos: porque somos por uma poesia do povo e para o povo, é que negamos as grandes e pequenas metafísicas, as diversas formas de fuga e demissão deste tempo e desta Pátria a que pertencemos – é que negamos todas as palavras que não têm sangue dentro e se limitam a jogos malabares no trapézio do papel: simulando o risco da criação, quando afinal atuam sempre com rede...
A poesia arrumadinha nas dobras do cetim, nas boas e piedosas acções, é uma astúcia serôdia, uma homilia para cadáveres. A poesia deve trazer, no seu corpo celerado, a luz e a sombra e uma bala de palavras altas na escopeta pronta a disparar: Aqui onde respiro /o poema não pode ser rouxinol/ quando as sílabas são sitiadas/ e as almas são cercadas //o poema não pode ser rouxinol/ se nos roubam o pão e o sol.
A poesia, esta de Poema em Riste, não tem olhos de lua pasmados de lirismo conformado, mas garras de lince prontas a filar o ignóbil corpo da usura: Somos de uma pátria de fome/ com esse ou outro nome// Seu latifúndio é ancestral/ A Fome já tem netos bisnetos tetranetos/ – uma família que é a maior de Portugal.
Mesmo datados, há ainda nestes versos um longínquo rumor de chama, uma luminosidade sintáctica que os faz nossos, reconhecíveis, dado que transportam as inquietações que perdurarão enquanto o essencial da sua génese se não cumprir. Poemas que ainda nos desassossegam pela memória que implicam, pelo acre da fala, pelo grito que ainda ressoa nos descampados.
Livros como De Poema em Riste, de José Carlos Vasconcelos, porejem imponderáveis dias justos, não cabem num qualquer rectângulo de terra húmida, ou em gavetas de pó e de silêncio, onde, embora de modo mais civilizado e subtil, os querem acantonar, fingindo ignorá-los. Mas estes livros estão entre nós, e respiram.
Saídos do espaço vigiado e oprimido dos fascismos, estes poemas ainda recolhem sinais perenes da sua revolta fundadora, ainda trazem para a contemporaneidade esse lastro rumoroso, alegórico, de um tempo em que era urgentebrandir o poema/ e deixar um cheiro de açucena/ um rio de flores à passagem, e em que o poeta tinha por ofício/este exercício/ diário da indignação.

1In Comenda de Fogo, de Eduardo Pitta, p.266, Círculo de Leitores, Lisboa 2001
De Poema em Riste, de José Carlos Vasconcelos
Edição AJHLP/2016

sábado, 28 de agosto de 2010

A Relíquia - Eça de Queirós


Resumo de A Relíquia, Eça de Queirós
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A Relíquia começa com a apresentação do narrador e protagonista da história, Teodorico Raposo, que busca explicar ao leitor o que o motivou a escrever suas memórias. Ele nos diz que a principal motivação está no fato de que tanto como seu cunhado, Crispim, acreditarem que aquelas memórias contém “uma lição lúcida e forte” da vida, sendo merecedoras da imortalidade que só “a literatura propicia”. A narração se concentra num viagem feita por Teodorico ao Egito e à Palestina, logo após uma decepção amorosa. Buscando fugir ao modelo de “guia de viagem”, Teodorico nos conta com suposta “sobriedade e sinceridade” os casos que provocaram mudanças significativas em sua vida, principalmente no que tange à herança que supunha merecer.
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Na verdade a narrativa de Teodorico possui um outro objetivo, a saber, promover uma correção no livro que seu amigo letrado, Topsius, que participara daquela viagem, escrevra sobre Jerusalém. Naquela obra, intitulada “Jerusalém Passeada e Comentada”, Topsius afirmava que Teodorico levava em dois embrulhos de papel os “restos de seus antepassados”. Tal afirmação preocupava Teodorico em relação à burguesia local, já que isso poderia acarretar problemas para o futuro e que só por meio da burguesia se tinha acesso às “coisas boas da vida”. Teodorico desejava então explicar a natureza e o verdadeiro conteúdo daqueles pacotes.
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Teodorico acaba por nos contar não somente o que sucedera na malfadada viagem mas também vários aspectos relativos a sua vida anteriores à viagem, como por exemplo a história do encontro de seus pais, ou ainda, o momento depois de toda a viagem em que se decidira pela escrita de suas experiências de vida.
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Teodorico começa por nos falar de seu avô paterno, Rufino da Conceição, padre, teólogo e autor duma obra chamada “Duma Devota Vida de Santa Filomena”. Depois apresenta-nos sua avó, Filomena Raposo, doceira, conhecida por “Repolhuda”, que vivia em Évora com o filho, Rufino da Assunção Raposo, afilhado de Nossa Senhora da Assunção, pai de Teodorico.
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Rufino trabalhava no correio e escrevia, de vez em quando, no periódico “Farol do Alentejo”. Em 1853, durante a vista de um importante bispo à Évora (Dom Gaspar de Lorena), Rufino escreveu um artigo laudatório à presença de “tão insigne prelado” e com isso ganho a simpatia do bispo. Simpatia que aumentou ainda mais quando o bispo soube que Rufino era “afilhado carnal” do Padre Rufino da Conceição, seu amigo de estudos quando estudavam ainda no seminário. O Bispo presentou o pai de Teodorico com um relógio de prata e o nomeou “escandalosamente, diretor da alfândega de Viana”.
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Trabalhando em Viana, o pai de Teodorico conheceu um rico cavalheiro de Lisboa, o comendador G.Godinho, que passava o verão em sua quinta, o Mosteiro, com duas sobrinhas: a devota D.Maria do Patrocínio e a gordinha e trigueira D. Rosa. Rufino da Conceição habituou-se a tocar sua viola para D.Rosa e amor entre os dois não demorou a acontecer. Assim, namoraram e se casaram.
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Teodorico então nos conta que ele nasceu numa tarde sexta-feira da paixão e que Dona Rosa, sua mãe, morreu na manhã seguinte, sábado de aleluia. Ficou sendo criado pleo pai, distante do avô materno, o influente comendador G.Godinho e de sua tia, Dona Maria do Patrocínio. O avô materno do menino morreu logo depois de alguns anos e pouco tempo depois, seu pai, de modo que ficou sendo órfão de pai e mãe. Aos sete anos, sua tia, Dona Maria do Patrocínio mandou um empregado, o Sr. Matias, buscar o pequeno Teodorico em Viana. 
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http://www.jayrus.art.br/Apostilas/LiteraturaPortuguesa/Realismo/Eca_de_Queiros_A_Reliquia.htm
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A Relíquia
Eça de Queirós

Por Rogério Hafez*
Especial para a Folha
"A Relíquia", publicada em 1887, é um dos livros mais irreverentes de Eça de Queirós (1845-1900), o grande mestre da prosa realista-naturalista em Portugal e um dos maiores estilistas de nossa língua.
Sem nenhum favor, Eça é hoje reconhecido e apreciado, mesmo fora do âmbito de nossa literatura, como o principal responsável pela definição do moderno idioma português e como um dos grandes precursores do romance do século 20.

O realismo de Eça, porém, precisa ser bem caracterizado, pois é mais complexo do que sugerem as definições habituais desse estilo.
Eça sabe ver o mundo de modo rigoroso, com um olhar frio e de desencanto. Mas, a exemplo de seu mestre, Flaubert, também sabe usar e abusar do humor, da ironia e da fantasia, não como atitudes opostas à de um espírito objetivo, mas como outras formas de apreensão da realidade.
O realismo de Eça não exclui o quimérico e o sarcástico, como bem notou o escritor argentino Jorge Luis Borges, grande admirador de Eça e, ele mesmo, um dos principais autores do que, em nossos dias, se vulgarizou sob o rótulo de "realismo mágico".

Essa observação vale especialmente para "A Relíquia". O livro, por um lado, se inclui entre os grandes romances da segunda fase do escritor, a que vai de "O Crime do Padre Amaro" (1875) a "Os Maias" (1888).

Nesse período, Eça procurou fazer um "inquérito à vida portuguesa", uma séria crítica das instituições que julgava responsáveis pela decadência e estagnação de Portugal: a Monarquia, a Igreja e a Burguesia.

Por outro lado, "A Relíquia" pode ser considerada, junto à fábula "O Mandarim", a obra mais fantasista de Eça.

Sua leveza antecipa o abandono do esquema naturalista e a identifica com as obras da terceira e última fase do autor, a dos romances como "A Ilustre Casa de Ramires" e "A Cidade e as Serras", em que o realismo se une ao lirismo.

"A Relíquia" faz uma grande crítica e uma sátira hilariante do catolicismo em Portugal, por meio das memórias do narrador Teodorico Raposo, o "Raposão" (como as mulheres o chamam).

Raposo é um jovem bacharel que, órfão, vive sob as ordens de Maria do Patrocínio, sua tia terrível e avara, casta e beatíssima, que controla a fortuna que o sobrinho espera herdar, em breve, com a morte da "Titi".
Raposo, sabendo que "há razões de família como há razões de Estado", finge grande devoção e cumpre o desejo da tia carola, que, preocupada com a saúde incerta, o envia como seu representante na missão religiosa de percorrer a Terra Santa.

Na companhia de Topsius, um caricaturesco arqueólogo alemão que vem a conhecer, Raposo vive grandes peripécias no Egito e na Palestina.
A maior delas é uma enigmática viagem ao passado, à antiga Jerusalém, que ocupa o centro do livro. Nessa viagem-sonho, Raposo assiste aos bastidores do martírio de Cristo e descobre "a lenda inicial do cristianismo": a ressurreição não ocorreu.

O livro se encerra com outro desmascaramento, o do próprio Raposo pela "Titi". Enganando-se no momento de entregar à tia a preciosa relíquia que trouxera (a coroa de espinhos de Cristo, que forjara com Topsius), Raposo lhe entrega outra "relíquia", um embrulho com a camisola de Miss Mary, uma prostituta que conhecera em Alexandria.

Ao final do livro, Raposo conclui que perdera a herança da tia por não ter tido a coragem de afirmar: "Eis aí a relíquia! É a camisa de Maria Madalena!" (aludindo às iniciais "M.M." que, num bilhete, a acompanhavam).

Como é comum em Eça, há no romance cenas simbólicas, cuja função é a de explicitar as teses do autor. Eça não aceitava o cristianismo como afirmação do sobrenatural, isto é, "a ideia de um deus transcendente que criou o universo" (Antônio José Saraiva).

Em "A Relíquia", é o próprio Cristo quem afirma a Raposo, ao final do livro: "Eu não sou Jesus de Nazaré, nem outro Deus criado pelos homens (...). Sou anterior aos deuses transitórios: eles dentro em mim nascem, dentro em mim duram; dentro em mim se transformam (...). Chamo-me a Consciência". 
.*Rogério Hafez é tradutor e assistente editorial
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http://vestibular.uol.com.br/ultnot/livrosresumos/ult2755u55.jhtm
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A RELÍQUIA
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Decidi compor, nos vagares deste verão, na minha quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso), as memórias da minha vida - que neste século, tão consumindo pelas incertezas da inteligência e tão angustiado pelos tormentos do dinheiro, encerra, penso eu e pensa meu cunhado Crispim, uma lição lúcida e forte.
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Em 1875, nas vésperas de Santo Antonio, uma desilusão de incomparável amargura abalou o meu ser; por esse tempo minha tia, D. Patrocínio das Neves, mandou-me do Campo de Santana onde morávamos, em romagem a Jerusalém; dentro dessas santas muralhas, num dia abrasado do mês de Nizam, sendo Poncio Pilatos procurador da Judéia, Élio Lama, Legado Imperial da Síria, e J. Cairás, Sumo Pontífice, testemunhei, miraculosamente, escandalosos sucessos; depois voltei, e uma grande mudança se fez nos meus bens e na minha moral.
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São estes casos, espaçados e altos numa existência de bacharel como, em campo de erva ceifada, fortes e ramalhosos sobreiros cheios de sol e murmúrio, que quero traçar, com sobriedade e com sinceridade, enquanto no meu telhado voam as andorinhas, e as moutas de cravos vermelhos perfumam o meu pomar.
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Esta jornada à terra do Egito e à Palestina permanecerá sempre como a glória superior da minha carreira; e bem desejaria que dela ficasse nas letras, para a posteridade, um monumento airoso e maciço. Mas hoje, escrevendo por motivos peculiarmente espirituais, pretendi que as páginas íntimas, em que a relembro, se não assemelhassem a um Guia Pitoresco do Oriente. Por isso (apesar das solicitações da vaidade), suprimi neste manuscrito suculentas, resplandecentes narrativas de ruínas e de costumes...
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De resto esse país do Evangelho, que tanto fascina a humanidade sensível, e bem menos interessante que o meu seco e paterno Alentejo; nem me parece que as terras, favorecidas por uma presença messiânica, ganhem jamais em graça ou esplendor. Nunca me foi dado percorrer os lugares santos da Índia em que o Buda viveu, arvoredos de Migadaia, outeiros de Veluvana, ou esse doce vale de Rajágria, por onde se alongavam os olhos adoráveis do Mestre perfeito, quando um fogo rebentou nos juncais, e Ele ensinou, em singela parábola, como a ignorância é uma fogueira que devora o homem, alimentada pelas enganosas sensações de vida, que os sentidos recebem das enganosas aparências do mundo. Também não visitei a caverna de Hira, nem os devotos arcais entre Meca e Medina, que tantas vezes trilhou Maomé, o profeta excelente, lento e pensativo sobre o seu dromedário. Mas, desde as figueiras de Betânia até as águas coladas de Galiléia, conheço bem os sítios onde habitou esse outro intermediário divino, cheio de enternecimento e de sonhos, a quem chamamos Jesus Nosso Senhor; e só neles achei bruteza, secura, sordidez, soledade e entulho.
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Jerusalém é uma vila turca, com vielas andrajosas, acaçapada entre muralhas cor de lodo, e fedendo ao sol sob o badalar de sinos tristes.
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O Jordão, fio de água barrento e peco que se arrasta entre arcais, nem pode ser comparado a esse claro e suave Lima que lá baixo, ao fundo do Mosteiro, banha as raízes dos meus amieiros; e todavia vede! Estas meigas águas portuguesas não correram jamais entre os joelhos de um Messias, nem jamais as roçaram as asas dos anjos, armados e rutilantes, trazendo do céu a terra as ameaças do Altíssimo!
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Entretanto, como há espíritos insaciáveis que, lendo de uma jornada pelas terras da Escritura, anelam conhecer desde o tamanho das pedras até ao preço da cerveja, eu recomendo a obra copiosa e luminosa do meu companheiro de romagem, o alemão Topsius, doutor pela Universidade de Bonn e membro do Instituto Imperial de Escavações Históricas. São sete volumes in quarto, atochados, impressos em Leipzig, com este titulo fino e profundo - JERUSALÉM PASSEADA E COMENTADA.
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A Relíquia - Eça de Queirós

Eça de Queirós. A RELÍQUIA. Decidi compor, nos vagares deste verão, na minha quinta do Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso), as memórias da minha ...
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