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sábado, 7 de junho de 2025

António Garcia Pereira ~ Contra a memória curta: Gouveia e Melo e o naufrágio da Democracia

* António Garcia Pereira

Crise em Portugal

Vive-se hoje, em Portugal, uma situação de impasse político e de grave crise económica e social, que ameaça explodir a qualquer momento. Segundo um recente relatório do Instituto Nacional de Estatística (INE), existem dois milhões e cem mil pessoas em risco de pobreza e exclusão social, mesmo após as chamadas transferências sociais. Ou seja, mesmo depois de receberem subsídios como os de doença ou dedesemprego, o Rendimento Social de Inserção ou o Complemento Solidário para Idosos. Sem essas prestações sociais, o número de concidadãos nessa situação de risco de pobreza ou exclusão duplicaria.

Ainda segundo o INE, um quarto destas pessoas tem trabalho, mas os seus salários são de tal forma miseráveis que não conseguem escapar à pobreza; e mais de 50% dos jovens têm contratos precários. Por outro lado, segundo o Eurostat, enquanto o custo médio da mão-de-obra por hora (incluindo salários, contribuições patronais para a Segurança Social, apólices de seguros e outros encargos) na zona euro, em 2024, foi de 37,30€, em Portugal não ultrapassou os 18,20€, ou seja, apenas 48,8% daquele valor.

A Saúde é o desastre que se conhece, com cerca de um milhão e seiscentos mil portugueses sem médico de família e inúmeras urgências hospitalares sistematicamente encerradas.~

A crise da Habitação não cessa de se agravar, com rendas cada vez mais incomportáveis e despejos contínuos e crescentes, alguns dos quais já executados pelos senhorios através do recurso a milícias privadas.

Austeridade à vista  

Sob o pretexto da guerra na Ucrânia e ao mesmo tempo que se calam quanto ao genocídio praticado pelo governo de Israel na Palestina, tanto o Governo português como os demais governos europeus preparam-se, servilmente, para aumentar as despesas militares. Começa, igualmente, a falar-se abertamente no regresso do défice, com tudo o que isso representa em termos de política de austeridade – algo que Povo Português conhece bem, sobretudo desde os tempos da tróica. Ou seja, cortes nos já magros salários, pensões e direitos sociais, bem como facilitação e embaratecimento da contratação precária e dos despedimentos – tudo isto num contínuo anunciar de medidas em que as de um dia são ainda piores do que as da véspera. Não por acaso, o antigo ministro de Passos Coelho e actual economista chefe da OCDE, Álvaro Santos Pereira, veio mesmo dizer aquilo que os grandes patrões sempre pretenderam, ou seja, que, para combater o défice – reconhecido, assim, expressamente – será preciso rever a Constituição e acabar com a proibição dos despedimentos sem justa causa.

A ameaça autoritária em construção

Ora numa situação como esta, de crise grave e de relativo impasse político, a solução encontrada pelas grandes corporações – desde logo a banca e as grandes empresas multinacionais – é a de pôr o PSD, com a cumplicidade de um PS dito responsável e colaborante, a aplicar o programa do partido fascista Chega: defesa intransigente dos interesses da banca e das grandes empresas, privatização de tudo o que ainda puder ser privatizado (não apenas na economia, mas também na saúde e na educação), cortes nos direitos sociais, combate a tudo o que cheire a cultura e desenvolvimento do espírito crítico e reforço da repressão (legal, institucional e policial) sobre quem proteste ou pense de forma diferente.

Neste quadro, e dentro da velha e conhecida táctica de procurar “colocar todos os ovos no mesmo cesto”, é muito importante, para as forças mais retrógradas da sociedade portuguesa, fazerem eleger um Presidente da República que, sob a capa de uma pretensa independência, de um pretenso rigor e de uma suposta eficácia, garanta luz verde ao regresso em força das políticas de austeridade e da repressão — e que, simultaneamente, reforce os seus poderes, atropelando tudo e todos, inclusive a própria Constituição que jurou respeitar e fazer respeitar.

O candidato do sistema e o que se esconde por detrás da máscara

Ora, este é o papel que assenta, que nem uma luva, na laboriosamente construída, e mediaticamente amplificada, figura de Gouveia e Melo. Na verdade, este não passa de um produto encomendado pela classe dominante a uma Comunicação Social que, desde há anos, se gaba de criar e vender presidentes como quem vende sabonetes, produzindo e amplificando tudo o que possa favorecer a imagem messiânica do “Salvador da Pátria” e escondendo tudo o que, do seu passado e do seu presente, possa contribuir para pôr a claro o seu verdadeiro carácter, bem como as suas reais ideias e ambições.

Tal já vem sendo denunciado – é certo que por muito poucos –, mas quem quiser analisar mais detalhadamente alguns desses aspectos pode fazê-lo facilmente, consultando, por exemplo, tanto um artigo que escrevi em 2024 – Gouveia e Melo: o “Messias” da Marinha ou o naufrágio da Democracia? – como um artigo de Jorge Silva Paulo, publicado em Novembro de 2021 – Não Aprenderam Nada: Gouveia e Melo, outro Menino-de-Oiro.

E, seguramente, um dia se saberá quais as razões que terão levado grande parte da Comunicação Social, dos jornalistas e dos comentadores do pensamento dominante a incensar continuamente Gouveia e Melo, silenciando factos e circunstâncias como os seguintes (e que desafio os seus habituais defensores oficiosos a, com provas, virem desmentir):

− O modo como, por meio de sinistras operações de homicídio de carácter, afastou e “liquidou”, um a um,todos os seus potenciais concorrentes ao cargo de Chefe do Estado-Maior da Armada (CEMA)
.
− A forma prepotente e ultra-autoritária com que sempre exerceu todos os cargos por onde passou – dos submarinos ao CEMA – instaurando um clima de medo, atacando, destituindo e demitindo quem dele discordasse ou simplesmente quisesse cumprir a lei.

− O modo e os verdadeiros motivos por que foram, por sua iniciativa, demitidos responsáveis da Marinha, designadamente no Algarve, ou a razão por que tem movido processos judiciais, inclusive criminais, com custas pagas pela Marinha, contra os seus críticos.

− A verdadeira máquina de propaganda e de autoelogio que montou na Armada: desde a criação de um gabinete de comunicação – que monitoriza toda a Comunicação Social e as redes sociais para fazer clipping de tudo o que diga respeito à Marinha e, sobretudo, a si próprio – até ao cultivo de relações privilegiadas com certos jornalistas, sempre prontos a publicitar as suas posições sob a tão anónima quanto desresponsabilizante fórmula das “fontes próximas da Marinha”.

− A publicação – que ninguém quis investigar nem debater a sério – no último número da Revista da Armada sob a sua direcção, de um poster de página inteira que o retrata de braço dado com El-Rei D. João II, como se de um autêntico herói nacional se tratasse.

− A realização de operações navais, como a da passagem das linhas do Equador e do Círculo Polar pelo submarino Arpão, com Gouveia e Melo a bordo, sem qualquer justificação ou utilidade militar, implicando elevadíssimos custos e servindo apenas para fins propagandísticos em seu proveito.

− A “doutrina” – a qual, de acordo com Gouveia e Melo e alguns dos seus apoiantes, porque modelando condutas, prevaleceria sobre a própria Constituição – do chamado “duplo uso” dos meios da Marinha, com a qual tem procurado justificar concepções e práticas absolutamente ilegais e inconstitucionais, como a colocação desses meios a praticar, sozinhos, actos da competência exclusiva das autoridades judiciárias ou dos órgãos de polícia criminal (tais como detenções ou apreensões de droga ou de pesca ilegal). E alguém se preocupou em saber se o Ministério Público – sempre célere em instaurar processos-crime ou averiguações preventivas – adoptou semelhante conduta perante estas actuações de Gouveia e Melo, em especial no Algarve?

− A forma abusiva – por vezes até ridícula, mas amplamente propagandeada – com que tentou retomar o protagonismo público após o período da vacinação, por meio de entrevistas televisivas encomendadas, procurando escamotear o papel desempenhado por forças policiais especializadas, como a Polícia Judiciária, para se vangloriar de uma alegada “inovadora estratégia” no combate ao narcotráfico no Algarve, chegando mesmo a afirmar ser bem mais eficaz do que as autoridades espanholas.

− Do ponto de vista da Ética, que ele tantas vezes invoca, o ensurdecedor silêncio que Sua Excelência manteve perante a forma miserável como o anterior CEMA, Almirante Mendes Calado, foi afastado do cargo antes de tempo por António Costa, para permitir a ascensão de Gouveia e Melo ao mesmo cargo – situação que gerou uma mais do que justificada onda de indignação e de solidariedade praticamente por toda a Marinha, com a única e significativa excepção do próprio Gouveia e Melo.

Tudo isto revela bem o carácter e o pensamento de Gouveia e Melo, em múltiplos campos e aspectos que, em alguns casos desde há muitos anos, embora conhecidos,praticamente ninguém questiona – nem a Comunicação Social, nem os outros candidatos ou putativos candidatos presidenciais.

Más práticas e concepções anticonstitucionais sobre o papel das Forças Armadas num Estado que se proclama de Direito democrático, e também sobre a natureza e a missão da Autoridade Marítima Nacional e da Polícia Marítima; vaidade extrema e total narcisismo; perseguição implacável a quem dele discorde ou critique; ausência de camaradagem e de solidariedade; malversação da verdade dos factos para construir as narrativas convenientes; e contínua auto-promoção pessoal, inclusive à custa do erário público, tudo isto já deveria ser mais do que suficiente para, ao contrário do que por aí se diz, sabermos ao que vem Gouveia e Melo.

Acresce que, após a apresentação da sua candidatura, vem agora ao de cima (ainda que disfarçado ou “modernizado”) o bafiento e salazarento discurso dos “Salvadores da Pátria”. Mesmo que, a conselho dos seus assessores, tente agora dizer o contrário, esse discurso é significativamente próximo do de Ventura e do partido Chega: o descrédito dos partidos políticos e do parlamentarismo, a suposta necessidade de “regenerar” a Nação e, sobretudo, a ideia de que o país só pode ser salvo por um Messias independente, supostamente impoluto, eficaz e de pulso firme.

E assim se chega ao ponto mais significativo da natureza ultra-reaccionária e perigosa das posições de Gouveia e Melo, tão típica dos Bonapartes de todos os tempos: o culto da personalidade levado ao extremo; a ideia de que, por supostamente encarnar os anseios de toda a comunidade, tudo lhe é legítimo fazer, porque os fins justificariam os meios, mesmo os mais ilícitos ou ilegítimos, inclusive faltar à verdade e sacudir responsabilidades para os seus subordinados quando as coisas correm mal.

O caso Mondego

Foi assim, aliás, na entrevista conduzida pela jornalista Sandra Felgueiras, na passada segunda-feira, 2 de Junho, quando Gouveia e Melo, confrontado com a demonstração da completa e muito grave ilicitude da conduta da Marinha por si então chefiada face aos marinheiros do Mondego – patente no Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo de 30 de Abril último, que arrasou a argumentação da mesma Marinha e anulou, por quatro fundamentos distintos, as sanções aplicadas a 11 dos 13 militares – tentou defender o indefensável.

Antes de mais, tentou negar que foi ele quem, em claríssima violação da ética militar e do próprio Regulamento de Disciplina Militar, deu, de dedo esticado, uma reprimenda pública a todos os 13 militares do “Mondego” (superiores e subordinados hierárquicos), com altifalantes ligados e a Comunicação Social chamada para dar publicidade ao vexatório “puxão de orelhas”, numa postura absolutamente indigna, que, aliás, lhe valeu bastantes (ainda que “encolhidas”) críticas, desde logo no interior da própria Marinha.

Depois, e por um lado, mostrou que, apesar de estar na reserva há cinco meses, continuou, e continua, a ter acesso a informação sobre o processo. Mas mais grave ainda:faltou deliberadamente à verdade sobre este, ao mesmo tempo que deixava claro qual é, afinal, a sua concepção, muito própria e completamente errónea, de um Estado de Direito.

Já antes, quando, em Dezembro último, o Tribunal Central Administrativo Sul anulara as referidas sanções, Gouveia e Melo tentara fazer crer que a decisão ilícita não fora sua, mas do seu subordinado Comandante Naval – o que é falso. O que foi então anulado judicialmente foi a decisão do próprio Chefe do Estado-Maior da Armada, relativa ao recurso hierárquico que para ele fora interposto. Decisão essa subscrita por Gouveia e Melo e com 12 (doze!?) páginas de tentativa de justificação do injustificável.

Posteriormente, já em Abril de 2025, perante novo acórdão – desta vez do Supremo Tribunal Administrativo – que acrescentou um quarto fundamento (a não realização das relevantes diligências de prova requeridas pela defesa) aos três já enunciados pelo TCA Sul – Gouveia e Melo arrogou-se declarar que “não concordava” com a decisão. Como se, perante uma decisão judicial, fosse admissível à Administração Pública (inclusive à Administração Militar) qualquer outra conduta que não a de cumprir e fazer cumprir essa decisão, tal como imperativamente estipula e impõe o artigo 205.º, n.º 2, da Constituição da República Portuguesa.

Mas, na referida entrevista televisiva, Gouveia e Melo foi ainda mais longe, desde logo insinuando que “o assunto ainda está na Justiça”, como se o Acórdão do Supremo Tribunal Administrativo não fosse já definitivo. Ou será que o impoluto Almirante também defende – e opina, pelo menos – que a Marinha deve agora lançar mão de subterfúgios, manobras dilatórias ou pretensos recursos, designadamente de pretensa inconstitucionalidade, para assim tentar adiar o trânsito em julgado do Acórdão, tal como, por exemplo, fez recentemente o arguido Mário Machado?

Gouveia e Melo afirmou ainda – e também falsamente –que “os factos estão lá”, quando o Supremo, sem entrar na respectiva apreciação, apenas listou os factos que constavam do Acórdão do TCA-Sul, os quais resultaram (apenas) da versão e dos documentos apresentados pela Marinha. Precisamente porque não houve qualquer prova da defesa e, logo, também não houve.

Mais ainda: Sua Eminência afirmou que o Supremo Tribunal Administrativo teria dito que “há problemas que podem levar à anulação das sanções”, quando, na verdade, aquele Supremo Tribunal anulou efectivamente as sanções, e fê-lo com base em múltiplas violações da lei e da Constituição. Pretender, assim, reduzir essas violações (como a não informação dos arguidos quanto aos seus direitos, a nomeação de um instrutor com intervenção directa nos factos e evidente conflito de interesses, a ausência de audiência dos arguidos após novas diligências da acusação e a recusa da realização de prova essencial para a defesa, requerida de forma oportuna e fundamentadamente requerida) a meros “problemas”processuais, é desvalorizá-las de forma absolutamente inadmissível. Mais do que isso, constitui mesmo uma conduta absolutamente indigna, não apenas do cargo que Gouveia e Melo exercia, mas sobretudo do cargo de Chefe de Estado a que agora se candidata. 

Na verdade, um personagem que considera meras formalidades os princípios constitucionais, que se apropria de todos os êxitos – mesmo os que o não são – e culpa sempre os subordinados pelos insucessos, e que não hesita em falsear a verdade dos factos, é um problema grave para a Democracia.

Até porque amanhã, dentro desta lógica profundamente ditatorial, poderá estar a defender, e a praticar, que, desde que seja para perseguir pessoas “perigosas” (como divergentes de opinião, opositores políticos ou dirigentes sindicais, por exemplo), não faz mal faltar à verdade ou violar a lei. E por que não – tal como foi feito aos militares do Mondego – impedir tais arguidos de terem advogado, de se defenderem ou de produzirem prova? Ou, já agora, permitir à acusação realizar diligências após conhecer a defesa e, de seguida, escondê-las da mesma?

O desafio que se impõe

É isto, Caros Concidadãos, que se pode esperar de um Presidente da República?!

E a verdade é também que todos aqueles que têm a possibilidade – e, sobretudo, a obrigação – de evidenciar e não deixar apagar ou destruir a verdade dos factos, como os políticos ditos democratas e os jornalistas ditos independentes, mas se escusam a fazê-lo – porventura embriagados com aquilo que lhes parece ser o cheiro a Poder – não merecem melhor juízo.

Inquisidores-mores do Reino (mesmo que disfarçados de impolutos democratas) e ferozes ditadores envergando paternalísticas e messiânicas vestes, já os tivemos vezes suficientes na nossa História.

A Democracia não sobrevive à cumplicidade nem ao silêncio. E é disso, mais do que de qualquer inimigo externo, que ela corre hoje maior risco. A indiferença dos justos é o terreno mais fértil para o avanço dos autoritários. Cabe-nos impedir que a máscara caia tarde demais. Porque, depois, já não será apenas o passado que se repete – será o futuro que se perde!"

2025 Junho  05
 
 https://noticiasonline.eu/contra-a-memoria-curta-gouveia-e-melo-e-o-naufragio-da-democracia/
 
 

sexta-feira, 7 de março de 2025

Manuel Loff - O Comodoro e as coisas



* Manuel Loff


Verdade se diga que o país era pequeno, bem pequeno mesmo. Era o que ele lembrava aos seus compatriotas desde que, chegado à Presidência, enxotava os escrevedores de discursos que havia no Palácio. Ele por ele tinha “fome de vencer e sou muito ambicioso e não gosto de perder.” Mas o país que aprendesse a trabalhar, porque isto de “distribuir a riqueza inexistente, que não produzimos”, não podia ser!

Triunfara contra dois figurões dos velhos partidos. Pelo Partido Alcrata (popularmente conhecidos como “alcatras”), o comendador Parques Tendes, que se achava velha raposa dos tempos idos do professor Tamanco. No Partido Lista, como era habitual, não se tinham entendido, ofuscados muitos deles pelo brilho do uniforme do Comodoro, com quem se tinham dado tão bem. De entre eles, em bicos de pés, lá fizera o seu número o soporífero Dr. Apólice.

Foi a desgraça para eles. O Comodoro resolveu tudo logo à primeira volta. Irritara-se, isso sim, com o palavroso Porventura. O Comodoro tratava-o como quem trata um aspirante; todos conheciam os pedagógicos raspanetes públicos que gostava de dar aos praças. Mas sabia que precisava dele para livrar-se dos velhos partidos. E ainda por cima, o outro tratava-o com o mesmo grau de reverência com que despachava despautérios contra o resto do mundo. O Comodoro achava que o tinha posto na linha.

 Depois veio o rearmamento, o serviço militar obrigatório e a crise. O país era pequeno, tinha de poupar, a guerra vinha aí, e de guerras sabia ele. “Tempos de emergência” tinham chegado; aliás, a vida devia ser vivida toda ela como uma emergência, único meio ambiente no qual um povo desleixado compreende o seu dever. Chamou-se os constitucionalistas. Disse-lhes o que queria. Presidencialismo, o único regime das nações dignas desse nome. E que se reduzisse o número de deputados, 70 chegavam muito bem. Poucos mas bons. Os listas e os alcatras balbuciaram algumas dúvidas mas disseram que sim. Afinal, explicou-lhes o Comodoro, os tempos eram outros, e todos estavam de acordo que “já não estamos em 1975!”, a frase preferida dos comentadores. O Porventura disse que nunca tinha querido outra coisa, pudesse o Comodoro dar-lhe uma chance para demonstrar a sua valia no governo.

 Numa comemoração do 25 de Novembro – cuja passagem a feriado nacional o Comodoro aplaudira -, o Presidente fardado (por que não podia ele usar a farda como presidente?) apresentou o projeto. Os poucos deputados da esquerda abandonaram a sala. Vários cantavam uma canção sobre uma “vila morena”. O Comodoro queixou-se de “falta de respeito!”. Estava na altura de os pôr na ordem. O Porventura foi o primeiro a levantar-se para o aplaudir. “Sempre à disposição do senhor Comodoro para limpar a Pátria!”, garantiu. O Comodoro sorriu. Achou que o tinha no bolso. O Porventura achava que era ele que tinha o Presidente no bolso. Coisas da política, eles lá saberiam.

Depois, veio a guerra com a China. E mais austeridade. Agora assumia-se que era mesmo austeridade, e que tinha de ser. Quando começaram as greves, o Comodoro disse “Basta! Isto assim não pode ser!”, e a imprensa aplaudiu a linguagem genuína, a voz de comando, o caráter decidido! Impôs o estado de emergência, coisa que o país já conhecia. Explicaram-lhe que tinha de ser só por 15 dias e que depois havia que perguntar aos deputados se podia ser por mais tempo. “Claro que tem de ser, ou os senhores deputados acham que as guerras têm calendário?!” Fizeram-lhe a vontade. Proibiram-se as greves nos serviços públicos. Ele, militar, a servir a Nação, nunca tinha feito uma greve, por que haveriam os outros poder fazê-la?
 
E agora era assim. Como dizia o ele, no seu habitual “Colóquio à Lareira” pela televisão: “Para a frente, compatriotas! A pátria nos contempla e o passado nos espera.”

2025 03 05

https://www.publico.pt/2025/03/05/opiniao/opiniao/comodoro-212469

sábado, 18 de maio de 2024

Pedro Almeida Vieira - Um irresponsável populista chamado Gouveia e Melo


* Pedro Almeida Vieira
/ Maio 15, 2024

Gouveia e Melo andou em ‘conspirações de maledicência nos corredores militares‘ – irrelevantes e inúteis para a sociedade nacional e internacional – até lhe cair no colo a tarefa logística de vacinar contra a covid-19 até o periquito, incluindo, claro, crianças e jovens que jamais integravam grupos de risco.
A ‘medalha’ foi a sua ascensão, primeiro ao posto mais elevado do Almirantado da Marinha e depois ao cargo, para nosso encargo, de Chefe do Estado-Maior da Armada. E à boleia veio a peregrina ideia de ser ele um putativo candidato a Presidente da República, sustentada e promovida por jornais como o Diário de Notícias, que se transformou no seu órgão oficial, tanto é o palco que lhe concedem.
Desde aí, Gouveia e Melo, um especialista em submarinos, aproveita qualquer oportunidade para vir à tona mostrar a sua existência – e, hélas, tentar-nos convencer da suposta necessidade de o termos por perto, mesmo se ele tem vontade de mandar alguns de nós – presumo, os mais novos – morrer longe.
Em mais uma entrevista publicada hoje no Diário de Notícias, em parceria com a TSF (do mesmo grupo de media) somos confrontados com tiradas populistas e irresponsáveis, o que não admira porque vem de um irresponsável populista. Gouveia e Melo nada mais faz do que instigar um conflito grave. Fala das habituais passagens de navios russos na nossa gigantesca Zona Económica e Exclusiva (a quinta maior da Europa) – que deve ser fiscalizada com naturalidade – como se estivessem associadas a preparativos de uma invasão ou de um iminente conflito mundial. E, perante um conflito localizado geograficamente nos confins da Europa, face à nossa posição, e que deve ser tratado sobretudo pela via diplomática, e não por militares sedentos de bacoco protagonismo, destapa a sua veia – ou variz – bélica, prometendo insensatamente ‘carne lusa para canhão’.
Não é minimamente aceitável que em Portugal, em modelo democrático e em pleno século XXI, venha uma alta patente militar, como Gouveia e Melo, dizer estas duas simples frases a pretexto de um conflito armado grave, humanamente lastimável, mas que se circuscreve à mesma região há mais de dois anos: “E podem ter certeza absoluta de que se a Europa for atacada e a NATO nos exigir, vamos morrer onde tivermos de morrer para defender a Europa, que é a nossa casa comum. Afinal, estamos a defender o nosso modo de vida, a democracia, os nossos sistemas, a nossa economia“.
“Defender o nosso modo de vida, a democracia, os nossos sistemas, a nossa economia” não se faz, primeiro, através de uma organização militar a EXIGIR o que quer que seja a um povo, ainda mais ao povo de um país soberano com quase 900 anos de existência. A ideia de ‘carne para canhão’ não se conjuga bem como o ‘nosso modo de vida’ no século XXI.


Não se defende “o nosso modo de vida, a democracia, os nossos sistemas, a nossa economia” PROMETENDO que “vamos morrer onde tivermos de morrer”, sobretudo quando o senhor que assim promete não é o Mel Gibson a armar-se em romântico William Wallace – que, na realidade, foi enforcado e esquartejado por alta traição aos 35 anos – mas sim um homem de 63 anos, almirante e Chefe do Estado-Maior da Armada de um país da NATO, antevendo-se assim que, ficando tudo torto, ficará ele no recato do lar ou no conforto do seu gabinete a esquadrinhar estratégias e tácticas militares enquanto a gente (jovem) que ele enviou está a morrer onde tiver de morrer – e a matar. Tudo para supostamente se defender a Europa, como se fosse uma angélica pomba da paz.
Aliás, a ideia de “defender a Europa, que é a nossa casa comum”, colocando a Europa como um modelo, constitui uma pérola do populismo, ainda mais por meter a Rússia como pária. E nem é por a Rússia e a Ucrânia serem nações consideradas europeias, e nem é por ambos os países lamentavelmente não saberem o que é uma democracia, mas sim por o almirante Gouveia e Melo querer fazer-nos de parvos.
Se há um Continente do Mundo que é belicista, esse é a Europa, com conflitos seculares, mais ou menos duradouros, mais ou menos grotescos nas causas. Antes das chamadas Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), já houvera muitos mais conflitos armados à escala planetária, e se as duas do século XX foram marcantes deve-se sobretudo à capacidade tecnológica de letalidade e de afectar mais vidas de civis. E em todos esses conflitos de grande dimensão, não me parece ter sido a Rússia a má da fita.


Se erro histórico houve para que a Europa não tenha evoluído nas últimas décadas em conjunto com os mesmo valores – aproveitando a Queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética – foi o ostracismo a que se botou a Rússia – para agradar aos Estados Unidos –, não promovendo, por outro lado, através de vias diplomáticas, a resolução de evidentes disputas territoriais, como as da Crimeia e do Donbass.
A forma como se permite que militares se interponham em querelas que devem antes ser diplomáticas é um erro crasso. Ouvir um chefe militar anunciar alegremente que “vamos morrer onde tivermos de morrer para defender a Europa, que é a nossa casa comum” é um ultraje, porque uma guerra é a pior das formas de se atingir a paz.
Acham que foi melhor, por exemplo, a compra da Louisana aos franceses em 1803 ou seria preferível uma guerra franco-americana?
Acham que foi melhor, por exemplo, o Tratado de Montevideu em 1828 que consagrou a independência do Uruguai ou seria preferível antes dirimir uma anexação oportunista de Portugal aos territórios da Cisplatina antes ocupados por Espanha através de uma guerra entre o então recém-independente Brasil e os independentistas uruguaios?
Acham que foi melhor, por exemplo, os milhares de acordos e tratados para se resolverem os milhares de disputas territoriais a nível mundial ou seria preferível que milhares de Gouveias e Melos por este Mundo fora enviassem milhares de inocentes para morrerem (e matarem) em nome de uma suposta “casa comum”?



Uma das coisas mais absurdas destes tempos modernos é a desmesurada vontade de muitos responsáveis políticos e militares em levarem toda a Europa para uma guerra fratricida, que é regional, e que assim deve continuar até que surja uma paz moderada pela diplomacia e bom senso.
E o bom senso inclui permitir que o almirante Gouveia e Melo falar opine sobre o envio de ‘carne para canhão’ contra a Rússia, mas não que o faça como Chefe do Estado-Maior da Armada. Sem funções militares, pode ele mandar as postas de pescadas que assim quiser como comentador de assuntos militares. Ser-me-á indiferente. Mas tê-lo assim, nesta postura, como alta patente militar, assusta-me mais do que os mísseis russos.

https://paginaum.pt/2024/05/15/um-irresponsavel-populista-chamado-gouveia-e-melo/

segunda-feira, 13 de maio de 2024

Gouveia e Melo e os tambores da guerra: "Não haverá manteiga nas nossas mesas sem canhões que as garantam"

A JUVENTUDE E GOUVEIA E MELO, O ALMIRANTE DAS VACINAS, por José Manuel Correia Pinto

A nossa juventude parece desconhecer que a situação em que hoje se encontra, apesar das dificuldades e de algumas carências inegáveis, é incomparavelmente melhor - muitíssimo melhor - do que a da juventude há 50 anos.

Essa melhoria gradualmente alargada a todas as camadas da população deve- se - é bom nunca o esquecer - à generosa e corajosa acção de um grupo de jovens militares que derrubou um governo retrógado e instalou, com o apoio popular, um regime de igualdade de direitos para todos, dando voz a quem nunca a tinha tido. A primeira grande conquista que esses jovens militares alcançaram foi a que pôs termo a uma guerra injusta, que se arrastava há treze anos, e que mantinha refém dela toda a juventude portuguesa.

Depois veio a paz, a juventude foi gradualmente esquecendo a guerra, até ter chegado à triste situação de acreditar estar esse problema resolvido para sempre, desinteressando -se dele, como assunto que deixava de lhe dizer respeito.

Erro fatal da juventude. Se a juventude não tomar em suas mãos a defesa da paz não faltará agora, como sempre, quem a queira mergulhar na guerra, fazendo dela a primeira vítima desses tenebrosos propósitos.

Por isso o apelo que faço à juventude, a toda a juventude e não apenas à que frequenta as universidades, é que leiam o discurso proferido em Aveiro, pelo do Chefe do Estado Maior da Armada, Gouveia e Melo, conhecido como o almirante das vacinas, e se revoltem contra o belicismo criminoso de quem quer fazer de vós carne para canhão.

Portugal não está ameaçado por nenhum país. Porém, Portugal pertence a uma organização militar, agressiva, que desde há trinta anos não tem feito outra coisa que agredir Estados e fomentar a guerra.

No actual momento histórico a situação é particularmente grave por ter incentivado uma guerra na Europa, que lhe está a correr muito mal, e por isso se prepara para nela intervir directamente por vosso intermédio, enviando-vos para o campo de batalha com o falso pretexto de que ireis defender-nos dos que nos querem atacar .

É mentira. O que se passa é exactamente o contrario. Se a juventude não quiser ser a primeira vítima do massacre em grande escala que dessa guerra resultará, ela terá de lutar pela paz, denunciar e expulsar dos lugares de responsabilidade todos aqueles que querem fazer a guerra.

Se esse combate não for travado hoje, amanhã já será tarde.

Está nas vossas mãos, nas mãos da juventude, viver em paz ou morrer na guerra .

Não será depois de terdes sido mobilizados para combater no campo de batalha que o protesto pode ser feito. Para ser eficaz, ele terá de começar imediatamente e somente terminar quando o espectro da guerra tiver sido afastado

Viver em paz ou morrer na guerra depende vós, apenas de vós, e não de qualquer militar ou de qualquer politico!

https://www.facebook.com/josemanuel.correiapinto.9/

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Gouveia e Melo assume a necessidade de a Marinha e as forças armadas estarem em estado de prontidão, preparando as reservas e olhar para o serviço militar. A ameaça é real, por Alexandra Machado, Texto, e Luis Soares, Texto

12 maio. 2024,

"Não haverá manteiga nas nossas mesas sem canhões que as garantam", declarou Gouveia e Melo.

A Marinha está a considerar “bastante” a possibilidade de poder “entrar em operações reais”, pelo que “encara” o futuro “numa perspetiva de maior prontidão”. Henrique Gouveia e Melo, chefe do Estado Maior da Armada, fez estes avisos este domingo em Aveiro, dizendo ser necessário preparar as forças armadas para o que aí vem, nomeadamente preparando as reservas materiais e humanas.

“Na perspetiva da Marinha importa perceber que, pela primeira vez em muitos anos, a possibilidade de poder vir a entrar em operações reais é bastante considerada”, havendo, pois, “a necessidade de apressar o aprestamento dos navios, reforçar o treino e preparar as reservas, sejam materiais ou humanas. Vamos viver tempos difíceis com elevada tensão e incerteza que nos obrigarão a encarar o nosso futuro numa perspetiva de maior prontidão”.

Sublinhando não pretender ser “pessimista ou alarmista”, acrescentou, num discurso em Aveiro, onde a Marinha recebeu a medalha de ouro do município, que “a dissuasão é certamente a melhor estratégia e o reforço do nosso espírito anímico para cumprirmos com os deveres que nos são exigidos será posto à prova. Tenho a certeza que a marinha portuguesa essencialmente a sua componente humana estará à altura dos acontecimentos, esteja Portugal também à altura deles”.

“Os tempos que se avizinham são perigosos, ignorá-los não é uma opção, estamos perante um momento em que dois pilares, a nossa segurança e prosperidade, NATO e União Europeia, poderão vir a ser submetidos às maiores provações e testes de stress” e Portugal “deverá ter em conta que na sua posição geoestratégica, apesar de aparentemente afastada da linha da frente de batalha, não poderá ignorar as tempestades que se aproximam”.

Gouveia e Melo pede reação da sociedade e que saia “do estado de comodismo e de indiferença e de uma certa preocupação inconsequente em que nos encontramos”. E clama que se ponha em marcha “um plano efetivo”.

“A defesa dos nossos interesses, as nossas vidas exige mais do que nunca uma atitude ativa e vigilante. Anseio que a Europa e Portugal, à dimensão dos nossos interesses, perscrutemos o horizonte, colocando em marcha um plano efetivo, percebendo que o conflito tampão da Ucrânia é decisivo para a segurança europeia”, e, por isso, é “importante desenvolver rapidamente um forte complexo militar e industrial europeu, olhar para o sistema de recrutamento e conscrição [por regra associado ao serviço militar obrigatório] generalizada e prepararmo-nos para reforçar de vez o pilar europeu da NATO.

As declarações de Gouveia e Melo sobre o serviço militar obrigatório têm vindo a suscitar algum debate público. Primeiro, em artigo de opinião no Expresso, em março deste ano, defendeu que este tipo de recrutamento poderá ter de ser reequacionado. Para mais tarde explicar que “o modelo antigo [do Serviço Militar Obrigatório] é precisamente isso, o modelo antigo. Tem que se encontrar uma nova resposta. Isso não é algo que se encontre amanhã, tem que ser discutida, tem que ser uma resposta que o poder político aceite, que a população aceite, porque só todos nós em conjunto podemos dar uma resposta que seja uma resposta do próprio país”, explicou em abril.

Explicou, novamente, em Aveiro as suas preocupações. “O chapéu protetor dos EUA será posto em causa não só por Donald Trump como pelos desafios que os EUA enfrentam no Pacífico. Não havendo espaço para cooperar, na Europa dissuadir será sempre melhor e mais económico que combater. É tempo de perceber que não haverá manteiga nas nossas mesas sem canhões que as garantam”.

 

https://observador.pt/2024/05/12/gouveia-e-melo-possibilidade-de-poder-vir-a-entrar-em-operacoes-reais-e-bastante-considerada/