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segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Nuno Pacheco - Anónimos de Abril, a história cantada de desconhecidos que ajudaram à revolução



Rogério Charraz, José Fialho Gouveia, Joana Alegre e João Afonso são os rostos deste espectáculo que resgata da sombra figuras da resistência e do 25 de Abril. A estreia é esta segunda-feira.

Nuno Pacheco

28 de Janeiro de 2024, 20:05

 

Foto

Rogério Charraz, José Fialho Gouveia, Joana Alegre e João Afonso: os rostos não anónimos dos Anónimos de Abril LUÍS FILIPE CATARINO

Sabem quem foi Aurora Rodrigues? Belmira Gonçalves? Francisco Miguel Duarte? Albina Fernandes? Jorge Alves? Luís e Herculana Carvalho? João Arruda? As suas vidas estão ligadas à resistência contra o Estado Novo e ao 25 de Abril, mas os seus nomes permanecem desconhecidos para a quase totalidade dos portugueses. É deles, e de outros como eles, que nos fala (e canta) Anónimos de Abril, em estreia esta segunda-feira no Tivoli BBVA (21h), em Lisboa. O espectáculo, inserido nas comemorações dos 100 anos do Teatro Tivoli, vai ser gravado pela RTP, para posterior transmissão.

O projecto de Rogério Charraz e José Fialho Gouveia, com as participações de Joana Alegre e João Afonso (vozes) e dos músicos Alexandre Frazão (bateria), Carlos Garcia (piano), Marco Reis (guitarra) e Nuno Oliveira (baixo), surgiu quando o cantor e compositor viu num texto de uma rede social a história de Celeste Caeiro, recorda ao PÚBLICO. "Já conhecia o nome, sabia que começou por dar um cravo a um militar, mas a maior parte dos portugueses está convencida de que era florista, quando de facto ela trabalhava num restaurante que fazia um ano no dia 25 de Abril [de 1974].”

Ele próprio não conhecia a história e isso aguçou-lhe ainda mais a curiosidade. “Quando dei por mim a deliciar-me com ela, pensei que deve haver muitas pessoas que tiveram um papel simbólico ou até fundamental na resistência ou na revolução e que não são muito faladas de cada vez que se celebra o 25 de Abril. Foi esse o ponto de partida para este Anónimos de Abril: ir à procura de histórias enterradas ou guardadas na gaveta.”

O passo seguinte foi falar com José Fialho Gouveia, que já havia colaborado com Rogério Charraz, como letrista, nos discos O Coreto (2021) e Reunião de Condomínio (2023), para combinar uma ida aos arquivos, tarefa que começou a ser feita a dois.

“Fomos encontrando histórias”, diz José Fialho Gouveia. “Falámos com pessoas que nos passaram figuras que podiam encaixar neste projecto e fomos construindo uma lista que depois tivemos de ir encurtando. Quisemos diversidade: não queríamos quatro ou cinco exemplos cujo aspecto central fosse a vida na clandestinidade; quisemos equilíbrio entre homens e mulheres, porque o 25 de Abril também foi feito por muitas mulheres, embora os nomes mais conhecidos sejam de homens; e quisemos regiões diferentes do país.”

O compositor acrescenta: “No caso das mulheres, tivemos também a preocupação de não ir buscar apenas as que eram de facto apoio de homens, como a Arajarir Campos [secretária de Humberto Delgado, morta pela PIDE na mesma emboscada em que ele foi assassinado, em Fevereiro de 1965], mas mostrar os vários papéis que tiveram.”

Arajarir está entre os “anónimos” aqui cantados. Tal como, entre vários outros, Belmira Gonçalves, morta a tiro durante a “Revolta das Águas” na Madeira, em 1962; o Padre Alberto Neto, fundamental na vigília da Capela do Rato; Jorge Alves, o militar da GNR que ajudou na célebre fuga dos presos do Forte de Peniche; Francisco Sousa Mendes, neto do cônsul Aristides Sousa Mendes, que integrou a coluna de Salgueiro Maia; Aurora Rodrigues, estudante presa em 1973 e torturada durante três meses; ou o casal Luís e Herculana Carvalho. De uma família abastada do Porto, estes pais de um destacado militante do PCP, Guilherme da Costa Carvalho, conseguiram autorização para visitar o filho na colónia penal do Tarrafal. Ali tiraram fotografias às campas dos prisioneiros mortos e no regresso percorreram o país a entregar as imagens aos familiares dos detidos.

Recolhidas as histórias, foi a vez das canções. “O processo foi o mesmo que usámos nos dois discos anteriores”, conta Rogério Charraz. “Partir da história, da personagem, fazer a letra – um trabalho do Zé, depois de aprofundar a pesquisa inicial, ao ler os livros, conhecer as histórias a fundo, os pormenores –; em cima das letras, eu construí as canções e os arranjos, para depois meter as vozes, minha, do João e da Joana.”

Os cantores foram já escolha de ambos. “Na minha cabeça, há um lado colectivo no canto de intervenção”, explica o compositor. “Os cantautores cantavam muitas vezes juntos, com as suas guitarras e as suas vozes, e isso está muito presente no nosso imaginário. Fazia sentido ir buscar outras vozes, [aliás] com ligações familiares a figuras da resistência: a Joana é filha de Manuel Alegre e o João é sobrinho do José Afonso.”

Depois dos palcos, um disco

Joana Alegre aceitou o convite antes de ouvir as canções, mas o que leu e ouviu deixou-a tranquila: “Agradou-me muito a perspectiva literária, transversal, não panfletária, igualitária, de contar a história de pessoas anónimas que também construíram a liberdade”, diz.

“Esta narrativa corrige um bocadinho aquela de que as mulheres ficaram reféns, e que menorizava o seu papel na resistência e na construção da liberdade", sublinha a cantora. "Há aqui histórias muito sensíveis, porque estamos a entrar no plano dos traumas individuais, do sofrimento pessoal, mas as letras foram feitas pelo Zé Fialho com muito cuidado.”

João Afonso corrobora: “Também aceitei o desafio sem conhecer os poemas, mas a ideia em si atraiu-me logo – porque é muito interessante a abordagem. O 25 de Abril que conhecemos foi feito por oficiais, homens, mas estas histórias vão mais além, falam do trabalho de resistência escondido, de personagens que não vêm nos livros escolares.”

Após a estreia do espectáculo em Lisboa, há já mais oito datas marcadas, além de outras ainda à espera de confirmação: Portimão (16 de Março), Montijo (6 de Abril), Fafe (19 de Abril), Vila do Conde (20 de Abril), Santa Maria da Feira (24 de Abril, com a Orquestra Sinfónica de Jovens), Barcelos (27 de Abril), Grândola (21 de Setembro) e Loulé (26 de Outubro). Anónimos de Abril deverá ainda dar lugar a um CD, a lançar em 2025.

tp.ocilbup@ocehcap.onun

https://www.publico.pt/2024/01/28/culturaipsilon/noticia/anonimos-abril-historia-cantada-desconhecidos-ajudaram-revolucao-2078040

quinta-feira, 8 de abril de 2021

Nuno Pacheco - Proteger as línguas ameaçadas? Uma boa ideia, mas…

 OPINIÃO

* Nuno Pacheco

8 de Abril de 2021, 0:10

Há momentos em que os deputados nos espantam com gestos enternecedores. Não, nada a ver com os massacres em Moçambique, as cheias em Timor-Leste ou os deserdados da pandemia. Trata-se de um projecto de decreto-lei para proteger uma língua minoritária: o Barranquenho. Apresentado no dia 26 de Fevereiro e subscrito por 22 deputados do Partido Socialista, foi-lhe dado o n.º 708/XIV e foi publicado no Diário da Assembleia da República de 1 de Março. E esta semana, na terça-feira, a Comissão de Educação, Ciência, Juventude e Desporto lá tinha o tema incluído na sua agenda, com a “apreciação e votação do contributo da Comissão” para tal projecto de lei.

Convém explicar (e o PS gastou várias folhas A4 a fazê-lo) que o Barranquenho é uma língua antiga, falada em Portugal desde os tempos medievais. O projecto apresenta-a como “uma língua híbrida, ainda que sem tradição escrita, única no mundo pelo seu carácter misto de português e espanhol, falado pelos cerca de 1300 residentes e por todos os naturais do Concelho há vários séculos”, citando, em seu favor, o linguista, filólogo e etnógrafo Leite de Vasconcelos (1858-1941), que ao estudá-la a referiu como “curioso dialecto [o PS escreve dialeto, mas Leite de Vasconcelos merece que se lhe devolva o C] popular usado no concelho de Barrancos; tem por base o falar do Baixo Alentejo, modificado pelo Estremenho-Andaluz que lhe deu feição muito notável”. O que pretendem os subscritores? Que ao Barranquenho sejam concedidas por lei as mesmas medidas de protecção conferidas ao Mirandês, quando o mesmo hemiciclo votou e aprovou a Lei n.º 7/99, visando (artigo 1.º) “reconhecer e promover a língua mirandesa”. Tal qual o que agora se pede para o Barranquenho: reconhecimento e protecção; reconhecimento do direito à aprendizagem; uso em documentos públicos; apoio científico e educativo “tendo em vista a investigação, a formação de professores de Barranquenho, nos termos a regulamentar.”

Ora sendo este um caminho pedregoso, para escapar à extinção, é bom saber que há quem se interesse por proteger línguas ameaçadas, não só o Mirandês (considerada a segunda língua de Portugal, com cerca de 7 mil a 10 mil falantes no extremo nordeste do país), como agora o Barranquenho ou antes o Minderico, língua falada em Minde, no Ribatejo, que em Outubro de 2015 passou a integrar o Registo da Memória do Mundo da UNESCO. Minde (ou Ninhou, em Minderico) tinha 3.293 habitantes em 2011 (segundo o último censo) e o Minderico teve até direito a uma canção, gravada em 1982 por Pedro Barroso (1950-2020): A Piação dos Ninhou


Pedro Barroso - A Piação Dos Ninhou, in «Cantos À Terra-Madre» (1982)

No mundo, haverá cerca de 3 mil línguas ameaçadas de extinção e é bom haver quem olhe por elas. Isto independentemente de se saber se são mesmo línguas, dialectos ou sociolectos, uma discussão de que se têm ocupados os linguistas – Maria Helena Mira Mateus (1931-2020), por exemplo, defendeu em 2009 à Lusa que em Portugal apenas o mirandês teria “características, fonética e estruturas próprias” que permitem considerá-lo língua e não mero dialecto. Enfim…

Será preciso que o português de Portugal, europeu, para ser reconhecido, promovido, protegido, ensinado e usado em documentos públicos, seja falado e escrito, não por 10 milhões, mas por umas escassas mil, 3 mil ou 10 mil pessoas?

Tudo isto seria muito bonito se aqueles que tão enternecidamente olham para estas línguas, ou dialectos, defendendo-as de ameaças, tivessem idêntica atitude diante do português europeu. Leiam, por favor, este preâmbulo do actual projecto de decreto-lei em defesa do Barranquenho: “Apesar de tradicionalmente afirmada a ideia de que o perfil linguístico de Portugal corresponde a uma realidade homogénea e monolingue, os anos finais do século XX e o século XXI têm permitido reforçar a evidência e a importância da valorização da diversidade linguística existente no território nacional.” Bonito, não é? Alteremo-lo ligeiramente: “Apesar de tradicionalmente afirmada a ideia de que o perfil dos falantes de português no mundo corresponde a uma realidade homogénea, os anos finais do século XX e o século XXI têm permitido reforçar a evidência e a importância da valorização da diversidade do idioma existente nos territórios onde é falado.” Com tal preâmbulo, o Acordo Ortográfico de 1990 teria reconhecido as variantes do português e escusávamos de ler uma proposta, como esta do PS, a defender o Barranquenho… em acordês.

Parece um daqueles filmes em que o padrinho mafioso manda matar os pais e depois dá aos órfãos bolsas de estudo e afagos chorosos! Será preciso que o português de Portugal, europeu, para ser reconhecido, promovido, protegido, ensinado e usado em documentos públicos, seja falado e escrito, não por 10 milhões, mas por umas escassas mil, 3 mil ou 10 mil pessoas?

https://www.publico.pt/2021/04/08/culturaipsilon/noticia/proteger-linguas-ameacadas-boa-ideia-1957509

 

quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Nuno Pacheco - O vocabulário oficial do Acordo Ortográfico está morto há dias e ninguém deu por nada!


OPINIÃO

Depois da anunciada penúria do IILP, agora foi o VOC. Quem tentava lá entrar, recebia uma resposta em inglês: “Congratulations!” Catorze dias depois, reagindo a este texto, ressuscitaram-no.

23 de Janeiro de 2020, 7:30 actualizada às 12:21

Sinto-me honrado. Nunca me deram os parabéns tantas vezes e em tão pouco tempo. Por algum texto? Por fazer anos? Nada disso. A história é mais bizarra. Começa numa mania que mantenho com regularidade: consultar o chamado Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (dito VOC) do Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), de nome pomposo e misérrimas vestes, para ver se algo mudou ou para confirmar o monumental absurdo de tal “empresa”. Devo ser, aliás, um dos raríssimos visitantes daquela inutilidade, criada na sequência do enorme embuste que foi o Acordo Ortográfico de 1990 (AO90).

Mas no dia 13, ao clicar no VOC, deram-me os parabéns. E em inglês: “Congratulations!” Como naquelas mensagens que nos dizem, matreiramente, que ganhámos qualquer coisa para depois nos levarem à certa. Pensei que era um erro e insisti: parabéns outra vez. Não podia ser. Tentei mais tarde e a coisa repetiu-se. Nesse dia e nos seguintes. Até ontem. Esteve assim durante semana e meia e ninguém deu por nada. Nenhuma explicação, nenhum pedido de desculpas (género “estamos a remodelar o VOC, voltaremos em breve”). Silêncio total.
Só a mensagem ali continuava a repetir-se, impassível. Soube, entretanto, que já no dia 9 alguém tentara entrar no VOC e tivera essa mesma resposta. Primeiro, um “Congratulations!” em letras grandes. Depois isto: “You’ve successfully started the Nginx Proxy Manager. If you’re seeing this site then you’re trying to access a host that isn’t set up yet. Log in to the Admin panel to get started.” Pois. Trocando em miúdos: isto não está configurado; ou o lugar onde esta coisa estava alojada fechou-lhe as portas. Pelos vistos, o cheque “extraordinário” de 200 mil euros enviado por Portugal chegou tarde… Adeus!



Quem não chegou a conhecer o defunto, ainda pode espreitar uma “foto” esquecida algures no infinito espaço virtual. Basta carregar em iilp.cplp.org/voc/ e lá aparece a Página Inicial do dito VOC, mas sem nenhum préstimo, pois apesar de ainda ter algumas ligações activas, nenhuma delas vai dar ao vocabulário. Lá estão, à esquerda, as nove bandeirinhas, mas de nada vale tentar clicar nelas. Antigamente, lia-se: “Selecione [sic] a versão do VOC a usar”. Isto significava carregar numa das oito bandeirinhas correspondentes aos países da CPLP ou então numa outra, a nona, que era uma espécie de saco-de-gatos com todas as variantes lá dentro. Quando funcionava, clicava-se em três bandeiras e não dava nada: Angola, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe (os dois primeiros países não ratificaram o AO90; e São Tomé ratificou-o, em condições mais que duvidosas, mas não tem vocabulário que se veja). As restantes conduziam a cinco vocabulários com nomes diferentes: Vocabulário Ortográfico Cabo-Verdiano da Língua PortuguesaVocabulário Ortográfico Moçambicano da Língua PortuguesaVocabulário Ortográfico de Timor-Leste, todos eles incorporando o nome dos respectivos países, e os dois restantes sem identificação nacional: Vocabulário Ortográfico do Português (o de Portugal) e Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa (o do Brasil). Para quem prometia um Vocabulário Ortográfico Comum, esta multiplicação é patética.

Quanto ao defunto, e depois de várias buscas, eis que surge em linha uma luz: um “Concurso Internacional de Design de Projetos do IILP”, pretendendo dar “a oportunidade a um talento do design de criar duas marcas para dois projetos” [sic], sendo um deles o VOC. Ora aqui está: o vocabulário vai ser remodelado, e ainda que péssimo vai ter nova cara. Puro engano: o anúncio é de 2013 e diz isto [sic]: “O projeto VOC – Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa, visa implementar em uma plataforma digital o vocabulário oficial da Língua Portuguesa, constituído de forma inovadora pela soma dos diversos Vocabulários Ortográficos Nacionais (VON), dos países da CPLP. A partir dos Vocabulários Nacionais de Angola, Brasil, Cabo Verde, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, o Vocabulário Comum da Língua Portuguesa, pela primeira vez, incluirá numa grande base de dados lexicais de gestão comum, o vocabulário de todos os países escrito na nova ortografia, com inúmeras utilidades, o que abrirá uma fase nova para a língua portuguesa.” Vírgulas fora do sítio e o “esquecimento” da Guiné-Bissau são mesmo do texto, aqui em transcrição literal.

É duvidoso que algum “talento do design” tenha arriscado nome e tempo em tal façanha, pois o resultado, tanto gráfico como utilitário, sempre foi miserável. A “fase nova” para a língua portuguesa também está à vista e não se recomenda. O que vão fazer, então, as baixíssimas “altas instâncias”? Passar mais cheques? Ou aceitar de vez o funeral, levando por arrasto no féretro o IILP (que sem VOC deixa de ter qualquer justificação) e o Acordo Ortográfico de má memória, que desuniu em vez de unir o amplo espaço da Língua Portuguesa? Decidam depressa, que o cadáver começa a entrar em decomposição e urge o respectivo enterro. E desactivem lá o “congratulations” – ao menos ali, dêem-nos os parabéns em português!

P.S.: ​– Anotem esta data: ao 14.º dia de silêncio, o VOC ressuscitou do seu estado publicamente cadavérico: precisamente às 12 horas e 4 minutos de 23 de Janeiro de 2020, quatro horas e 34 minutos após a publicação desta crónica. Percebe-se: no estado declarado de penúria em que se encontra, o IILP não devia ter dinheiro para o funeral. Só que o morto ressuscitou tal qual fenecera ​– ou seja, mau. Podiam ter aproveitado os 14 dias para melhorar alguma coisinha. Mas isso dá muito trabalho. Fácil é repor o que não presta. E de preferência sem comentários, porque não há nem haverá (escrevo isto para que haja, já que eles são muito mais rápidos a contrariar os outros), em todo o sítio do IILP, uma explicação, mais do que devida, para esta falha anormal e aberrante. Enquanto isso, entretêm-se a fingir que propagam a língua portuguesa aos quatro ventos no Universo. Pobres de nós...



quinta-feira, 25 de abril de 2019

Nuno Pacheco - No Dia da Liberdade ainda há uma ditadura que mexe: a dos idiotas


* Nuno Pacheco
O acordo ortográfico é bastante estúpido, mas quem decide aplicá-lo às cegas ainda é pior. Exemplo: um Baptista registado há décadas, agora passa compulsivamente a “Batista”.

25 de Abril de 2019, 7:30

O 25 de Abril, que hoje faz precisamente 45 anos, tem andado a subir e descer “escadas” contra vontade. Ora surge com minúscula, ora com maiúscula. Há gente muito abrilesca a rebaixar-lhe o A e gente menos dada a cravos a deixá-lo com a dimensão original. Não se entende nem se entendem. Porquê? Porque, sendo o acordo ortográfico (que está na origem da tais hesitações e trapalhadas) bastante estúpido, quem decide aplicá-lo às cegas ainda é pior.

Expliquemo-nos. Na Base XIX do dito, intitulada “Das Minúsculas e Maiúsculas”, diz-se textualmente que: “1º) A letra minúscula inicial é usada (…) b) Nos nomes dos dias, meses, estações do ano: segunda-feira; outubro; primavera.” Logo, abril. Porém, mais adiante, também se diz isto: “2º) A letra maiúscula inicial é usada: (…) e) Nos nomes de festas e festividades: Natal, Páscoa, Ramadão, Todos os Santos.” Ora considerando o dia de hoje como uma festa ou festividade, que o é, tal como o 1.º de Maio, grafemo-lo Abril. O que dá esta bela coisa: hoje, dia 25 de abril, festeja-se o 25 de Abril. Daqui a uma semana, no dia 1 de maio, festeja-se o 1.º de Maio. Por mais disparatado que isto pareça, e é, trata-se do que dispõe o malfadado acordo. Portanto, senhores: é 25 de Abril e 1.º de Maio, combinado?

Despachado o primeiro tema, vamos ao segundo, bem mais grave. Segundo uma notícia recentíssima do jornal digital ECO – Economia Online, parece que andam por aí a mexer nos nomes das pessoas a pretexto do acordo ortográfico. Imagine-se que alguém tem agora um filho e lhe quer dar o nome de Victor. Não pode, tem de ser Vítor, mesmo que bata o pé. Porquê? Por causa de uns idiotas. Mas o caso nem sequer é esse, é bem pior. Leia-se a notícia do ECO, assinada por Filipe Paiva Cardoso e datada de 21 de Abril: “Aquando da renovação do cartão cidadão (CC), ‘um número apreciável’ de cidadãos viram-se obrigados a trocar a grafia do seu nome para ficar em conformidade com o acordo ortográfico de 1990 pelo Instituto dos Registos e do Notariado (IRN). Se era Victor, passou Vítor. E se tinha Baptista no nome, passou a Batista. Num ápice, um Victor Baptista ficou Vítor Batista.” Claro que houve queixas. Cidadãos indignados recorreram à Assembleia da República, porque houve Baptistas, Victores e Lourdes que passaram, num ápice, a Batistas, Vítores e Lurdes. Que sucederia a Alçada Baptista se fosse vivo? Ou a Baptista-Bastos, que além do P ainda lhe levavam o hífen? Ou a Maria de Lourdes Pintasilgo, que perderia um U e ganharia um S?

Perante tamanha parvoíce, o grupo parlamentar do PSD quis indagar o que se passava; e recorreu ao Ministério da Justiça (que ainda tem cedilha, valha-nos isso). Que resposta teve? Ainda segundo o ECO, esta: “O IRN está vinculado a inscrever no Cartão do Cidadão o nome do interessado de acordo com a grafia que se encontra registada no Assento de Nascimento.” Então porque sucede o contrário? Aí, a tutela explica que na lei anterior a 2007 (ou seja, anterior ao malfadado acordo) “a atualização da grafia era obrigatória.” Era? Não se deu por isso. Nunca soube de nenhum caso. E nem os Baptista que conheço passaram a Batistas por via burocrática nem Sophia de Mello Breyner passou a Sofia de Melo Breiner. Que se saiba. Em “compensação”, a pobre Capela de São João Baptista, ao Chiado, foi pressurosamente “atualizada” para “São João Batista”. E muitos Baptistas ou Víctores, até em legendas de museu, perderam consoantes. Isto apesar de um dos papas do acordo, o brasileiro Evanildo Bechara, ter escrito no jornal O Dia (em 13/11/2011) que “essas exceções [referia-se a Assumpção ou Drummond] constituem nomes próprios, cuja fidelidade ao registro oficial sempre foi garantida pelos projetos ortográficos. Supõe-se que continuaria a ser garantida neste, não?

E continua mesmo. Porque na Base XXI do “acordo ortográfico” de 1990 (“Das assinaturas e firmas”) diz-se claramente: “Para ressalva de direitos, cada qual poderá manter a escrita que, por costume ou registo legal, adote [sic] na assinatura do seu nome.” O que dizem a isto os serviços? Nada, continuam a chacina. As consoantes são para abater, até ordem em contrário. Como as ordens são inexistentes ou flácidas, e clareza é coisa que nesta área não há nem se pretende que exista, vence a lei dos idiotas. Imagina-se o diálogo: “O senhor era Victor? Era, já não é, não pode ser, a lei não permite, agora passa a Vítor.” E se o infeliz tem o azar de ter apelidos de aparência antiga como D’Orey, Mont’Alverne, Torquato, Uchoa, Felgueiras ou até Queiroz (que o diga Eça, que já foi “traduzido” para Queirós), há-de ser bem pior.

Porque mesmo 45 anos passados sobre o 25 de Abril (com maiúscula, como já se provou) no Dia da Liberdade ainda há uma ditadura que mexe: a dos idiotas. Vai ser o cabo dos trabalhos livrarmo-nos dela. Coisa que será bem difícil enquanto não nos livrarmos do “acordo ortográfico”, esse incentivo ao disparate que alguns (por erro?) “batizaram” de lei.



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Nuno Pacheco - Não escreveu, não disse, mas ...

* Nuno Pacheco

OPINIÃO

Não escreveu, não disse, mas teimam em atribuir-lhe a autoria. Porquê?

Circulam na Internet milhares de textos apócrifos atribuídos a autores célebres. Um triunfo da mediocridade, num crime imune a castigos.

7 de Fevereiro de 2019, 7:30

É um jogo pérfido e nem sequer é novo. Mas a Internet, que também já não é nova, deu-lhe o adubo ideal e o cenário perfeito. Já leram este lindo texto de fulano? E este poema de sicrano? E esta citação, tão bela, de beltrano? Leram? Pois não são deles. Os vivos ainda se revoltam, furiosos, quando reparam. Como Gabriel García Márquez, quando insistentemente lhe atribuíam a autoria de uma “carta de despedida” que muito circulou na net e provocou comentários emocionados e tristes. O escritor estaria a morrer, coitado, e a despedir-se do mundo. Só que o texto era tão bizarro que ele (hospitalizado nesse ano de 1999 em que surgiu tal texto, por complicações que viriam a revelar um cancro linfático que mais tarde superou, morrendo 15 anos depois, em 2014) afirmou que “mais valia morrer com um cancro linfático do que ter escrito aquilo”. Soube-se depois que o texto, intitulado La Marioneta, foi na verdade escrito mesmo para uma marioneta pelo humorista e ventríloquo mexicano Johnny Welch, para o espectáculo El Mofles.

Como foi, então, parar a pretensa autoria a García Márquez? Do mesmo modo que, às centenas ou até aos milhares, surgem na Internet textos apócrifos atribuídos a autores célebres, obrigando (quem se dá a tal trabalho) a um complicado processo de busca e confirmação, para evitar o logro. Sophia de Mello Breyner, como o PÚBLICO noticiou há dias, é uma das vítimas de tais enganos. Há um poema medíocre chamado O mar dos meus olhos que, usando palavras e imagens de outros escritos por ela, se tornou viral na rede como se fosse de Sophia. Está em portais com marca de fiabilidade e já foi traduzido para alemão. Há até um site, Nanoterapia, que o coloca à cabeça na lista dos 15 melhores poemas de Sophia!

Um desvario sem barreiras, tal como o seu hóspede sem fronteira ou limite (excepto nas ditaduras, mas essa é outra conversa), a Internet. Como se resolve isto, na era do “copia e cola”? Com sabedoria. Um leitor de García Márquez não o vê autor de La Marioneta, tal como quem leia habitualmente Sophia passará ao lado das lamechices que povoam o tal Mar onde ela jamais mergulhou. Porque há, nestes textos apócrifos, uma bitola comum: o uso do choradinho, da frase enfática, do gongorismo despropositado; quem os escreve quer atingir um alvo fácil, o gosto popular mais básico, sem lhe interessar particularmente o autor ou autora vítima da fraude. Mas se assinassem com os seus nomes, desconhecidos, quem os leria? É mais fácil assinar Sophia, Pessoa, Drummond, Neruda.

Sim, porque todos eles já “escreveram” coisas que jamais imaginaram ou viram. Andam por aí, pela Internet, com o falso “carimbo” da sua identidade. Um jornalista brasileiro, Emílio Pacheco, dedica-se a descobrir textos apócrifos. Em 2006, escreveu: “Os textos apócrifos da Internet é um dos temas recorrentes neste blog. No entanto, nunca publiquei aqui a lista de ‘falsos Quintanas’ que sempre divulgo no Orkut, tanto na comunidade ‘O verdadeiro Mário Quintana’ como em qualquer outra em que o assunto vier à baila. Como aqui não existe a limitação de tamanho de mensagem do Orkut, terei espaço para fazer mais comentários. Atenção: os textos que serão citados abaixo não são de Mário Quintana! Não importa onde você os tenha visto com a autoria atribuída ao poeta.” E vinha, a seguir, uma longa lista. Mas há mais, para citar o exemplo do Brasil. Um outro site, no capítulo “Falsas autorias”, publica uma longa lista onde se incluem textos “bastantes disseminados” erradamente atribuídos: de Bruna Lombardi atribuído a Clarice Lispector, de Artur da Távola atribuído a Carlos Drummond de Andrade, de Fernando Sabino atribuído a Fernando Pessoa, de Eduardo Alves da Costa atribuído a Maiakovski, de Martha Medeiros atribuído a Pablo Neruda ou de Helenita Scherma atribuído a Cecília Meireles. Há mais, muitos mais. E idêntico fenómeno existirá noutros idiomas.

Os mortos não podem defender-se, os vivos indignam-se (Eduardo Prado Coelho lutou, durante muito tempo, contra um texto publicado online que insistiam em atribuir-lhe). Em 2009, a Folha de São Paulo publicou um texto reflectindo reacções de repúdio de “escritores consagrados” contra textos falsos a circular na rede. Luís Fernando Veríssimo (hoje com 82 anos) recebeu até um telefonema de uma senhora a dizer-lhe que odiava tudo o que lia dele até ver, na net, “um texto que adorara”. “Agradeci, modestamente. Admiradora nova a gente não rejeita, mesmo quando não merece.” Ora o tal poema “dele” era Quase, escrito por uma estudante de Florianópolis, e, segundo a Folha, chegou até a ser traduzido e publicado em França numa colectânea de escritores brasileiros.

Já o humorista Millôr Fernandes (1923-2012), à data ainda bem vivo, comentou: “É isso que pensam de mim?! Quer dizer que acham que eu escreveria uma babaquice dessas?!” O problema é mesmo esse: acham. E até ficam tristes quando percebem que não escreve tão mal. Assim vai triunfando a mediocridade, à custa de um crime imune a castigos.




quinta-feira, 15 de junho de 2017

José Afonso - Alípio de Freitas


 José Afonso - "Alípio de Freitas" do disco "Com as minhas tamanquinhas" (LP 1976)

Baía de Guanabara 
Santa Cruz na fortaleza 
Está preso Alípio de Freitas 
Homem de grande firmeza 

Em Maio de mil setenta 
Numa casa clandestina 
Com campanheira e a filha 
Caiu nas garras da CIA 

Diz Alípio à nossa gente: 
"Quero que saibam aí 
Que no Brasil já morreram 
Na tortura mais de mil 

Ao lado dos explorados 
No combate à opressão 
Não me importa que me matem 
Outros amigos virão" 

Lá no sertão nordestino 
Terra de tanta pobreza 
Com Francisco Julião 
Forma as ligas camponesas 

Na prisão de Tiradentes 
Depois da greve da fome 
Em mais de cinco masmorras 
Não há tortura que o dome 

Fascistas da mesma igualha 
(Ao tempo Carlos Lacerda) 
Sabei que o povo não falha 
Seja aqui ou outra terra 

Em Santa Cruz há um monstro 
(Só não vê quem não tem vista 
Deu sete voltas à terra 
Chamaram-lhe imperialista 

Baía da Guanabara 
Santa Cruz na fortaleza 
Está preso Alípio de Freitas 
Homem de grande firmeza 



Alípio de Freitas de Couple Coffee


José Afonso cantou Alípio de Freitas, agora Alípio canta José Afonso

O disco que os Couple Coffee dedicaram a José Afonso em 2007 é relançado com duas faixas extra e uma surpresa. Este domingo, no Musicbox, em Lisboa, pelas 21h30.
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Quando foi lançado Co’as Tamanquinhas do Zeca!, em Abril de 2007, contou-se a história improvável dessa ligação. José Afonso tinha feito, depois do 25 de Abril, uma canção dedicada a um padre transmontano que no Brasil se tornara guerrilheiro e ali fora preso. Dizia assim: “Baía da Guanabara/ Santa Cruz na fortaleza/ Está preso Alípio de Freitas/ Homem de grande firmeza// Em Maio de mil setenta/ Numa casa clandestina/ Co’a companheira e a filha/ Caiu nas garras da CIA.” Alípio ainda ficou preso durante quase dez anos, depois tornou-se amigo de José Afonso e seguiu-o de perto até à morte. E a filha citada na canção, de seu nome Luanda Cozetti, fez-se cantora e formou com Norton Daiello, seu companheiro na vida e na música, o duo Couple Coffe. Que em 2007 gravou um disco só com versões brasileiras de canções de Zeca Afonso. Ciclo fechado.

Ou quase. Luanda evitou gravar, por razões óbvias, a canção dedicada ao pai. Tal como não gravou, por exemplo, Traz outro amigo também, que para ela tinha ressonâncias bem diferentes daqueles que teve e tem em Portugal. Passados sete anos, já com o Couple Coffee bem instalado no meio musical português, resolveram relançar o disco. E arriscar essas duas canções, com uma curiosa abordagem. Traz outro amigo também conta com a voz do próprio Alípio de Freitas que, nascido em Vinhais, em 1929, deixa ali impresso o seu sotaque transmontano e altivo. Luanda conta, agora, como correu a experiência:

“Pôr o meu pai a cantar não foi nada difícil. Há uns dois anos que estávamos com essa ideia, mas fomos enrolando. Estas duas músicas tinham ficado de fora do disco. Alípio de Freitas por aqueles motivos todos e Traz outro amigo também porque foi uma música em que eu não queria mexer. Porque, para mim, ‘aqueles que ficaram’ são os que ficaram pelo caminho. Estou cercada de defuntos, enfim. Mas achei que agora era a hora dessa canção, propus ao meu pai e ele foi profissionalíssimo, 40 minutos de estúdio e gravou tudo, cantando, falando deu uma alegria, uma dignidade à canção. Quisemos deixar a forma como ele fala, o timbre muito transmontano, ficou muito lindo assim.”

Quanto à canção Alípio de Freitas, que José Afonso incluiu no seu disco Com as Minhas Tamanquinhas, em 1976, a carga emocional que trazia consigo era imensa. “Levei oito anos para entender o que essa canção significava em Portugal”, diz Luanda. “Eu tinha uma visão minha, dolorida, e não entendia porque é que aquele refrão, que falava de tortura, era tão p’ra cima, tão alegre. Mas à medida que vamos conhecendo o Zeca percebemos que ele era de uma eficiência impressionante e eu fui entendendo a canção. P’ra mim a canção significava ‘tirem meu pai daqui, que bom que alguém se lembrou’, enquanto para Portugal era uma exortação, era quase uma canção passionária!”

 Mesmo assim foi difícil, para ela, cantar. “Gravei de uma vez só, meti na cabeça que papai era o Zorro, e fui embora. O Júlio Pereira estava com medo que eu gravasse a coisa soturnamente, mas não. Cantei, só eu e o baixo (do Norton), depois o Júlio meteu o bouzouki e o cavaquinho. Ficou bonito, gostei. E acho que com isso fecho um ciclo.”

O disco Co’as Tamanquinhas do Zeca!, para além de Luanda Cozetti (voz) e Norton Daielllo (baixo eléctrico) conta ainda com os músicos Sérgio Zurawski (guitarra eléctrica) e Ruca Rebordão (percussões). Entre os dezasseis temas do disco original encontram-se temas como Tenho um primo convexo, Menino d’oiro, O avô cavernoso, Vampiros, Teresa Torga, Menino do bairro negro, Balada do Outono, Era um redondo vocábulo ou Utopia.

Nas duas faixas extra, agora acrescentadas, participaram Alípio de Freitas (voz) e Júlio Pereira (bouzouki e cavaquinho). O disco, que volta às lojas a partir de 31 de Março, será lançado este domingo com um espectáculo no Musicbox, em Lisboa, pelas 21h30. O preço da entrada (12,99 euros) dá direito a levar para casa o disco reeditado.


https://www.publico.pt/2014/03/30/culturaipsilon/noticia/jose-afonso-cantou-alipio-de-freitas-agora-alipio-canta-jose-afonso-1630333


OPINIÃO

Alípio de Freitas, o repouso do guerreiro

Alípio morreu esta semana e repousa agora no Alvito. Lembrá-lo não tem data, é coisa de hoje e do futuro.
Já aqui se falara dele, este ano, a propósito de uma homenagem e de um livro. Agora haverá outra homenagem, em forma de concerto, mas póstuma. Alípio de Freitas morreu. Fisicamente perdemo-lo, num final sereno, mais uma batalha por ele ganha aos males que por desumana tirania quase sempre infligem dor.



Alípio de Freitas no Alvito, em 2012  RUI GAUDÊNCIO

Quem é Alípio de Freitas? As notícias apresentaram-no como jornalista, mas isso é uma ínfima parte do seu trabalho. Porque, como escreveu anteontem a direcção da Associação José Afonso (de que foi um dos fundadores e à qual chegou a presidir), “entre muitas outras coisas [ele] foi padre, fundador das Ligas Camponesas no Brasil, militante político, cooperante em Moçambique, jornalista na Rádio Televisão Portuguesa, professor universitário. Foi, também co-fundador da Casa do Brasil em Lisboa, membro da Comissão Coordenadora do Tribunal Mundial sobre o Iraque (Audiência Portuguesa), Presidente da Direcção da Associação José Afonso.”

Nascido Alípio Cristiano de Freitas em Bragança, no dia 17 de Fevereiro de 1929, foi ordenado padre em 1952 e desde então manteve ligação estreita com as camadas mais pobres. Primeiro como pároco de Guadramil e Rio de Onor, depois no Brasil, no Maranhão, para onde foi exercer e leccionar a convite do arcebispo local. Iniciou-se na política brasileira, participando em protestos públicos e juntando-se às Ligas Camponesas, o que lhe valeu ser sequestrado pelo exército durante cinquenta dias e, mais tarde, já depois do golpe militar de 1964, preso e torturado (esses tempos recorda-os ele no livro Resistir é Preciso, com edição brasileira da Record, em 1981, e editado em Portugal este ano pela Âncora).

O acirrar da ditadura levou-o a exilar-se no México e a receber treino militar em Cuba, integrando depois movimentos guerrilheiros na América Latina e no Brasil, onde esteve preso de 1970 a 1979, período em que José Afonso, sem o conhecer pessoalmente, lhe dedicou uma canção que diz assim: “Baía da Guanabara/ Santa Cruz na fortaleza/ está preso Alípio de Freitas/ Homem de grande firmeza”. A canção, Alípio de Freitas, foi gravada em 1976 no disco Com as Minhas Tamanquinhas, mas só anos mais tarde os dois viriam a conhecer-se. Libertado no Brasil, no dia em que completou 50 anos, Alípio viria depois a trabalhar em Moçambique, em projectos agrícolas, só regressando a Portugal em 1984 (três anos antes de José Afonso morrer). Aqui foi jornalista na RTP (até 1994) e exerceu cargos em diversas associações, algumas já mencionadas, recebendo em 1996 a condecoração de Grande Oficial da Ordem da Liberdade da República Portuguesa.

Apesar do seu envolvimento em guerrilhas, no reverso de violências ditatoriais, Alípio foi sempre um humanista e o seu pensamento esteve e está (porque permanece, para lá da sua extinção física) nos antípodas das carnificinas dos terrorismos, antigos ou modernos. A sua firmeza, de que fala a canção, é a de um homem que acredita que a dignidade do ser humano pode resistir à mais bárbara das provações. No livro citado, ao descrever uma das sessões de tortura a que foi sujeito, Alípio escreveu (pág. 33): “Senti o meu fim próximo e alegrei-me. Uma alegria calma e serena de quem parte por vontade própria. A alegria do combatente que deixa o campo de batalha depois de, em luta desigual, ter derrotado a soberba dos inimigos. Assim eu partia.” Enganou-se, viveria ainda mais quase meio século. Partiu esta semana, serenamente, e os pensamentos que em 1970 dirigiu aos algozes poderia agora tê-los dirigido à doença.

No dia 17 há um concerto-homenagem no Fórum Lisboa, às 21h30, com nomes como Ariel Rodriguez, Luanda Cozetti (filha de Alípio), Filipe Raposo, Janita Salomé, Mauro Ciavattini, Nilson Dourado, Chullage, Selma Uamusse, Vitorino ou Uxia (a Galiza era outra paixão sua). Estava marcado e não foi desconvocado: ficará em sua memória. Alípio morreu no dia 13 e repousa agora no Alvito, terra à qual se dedicou e onde em vida procurou a paz. Lembrá-lo não tem data, é coisa de hoje e do futuro.

https://www.publico.pt/2017/06/15/.../alipio-de-freitas-o-repouso-do-guerreiro-1775569

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Cerá ke istu tambãe ce iskreve acim?

* Nuno Pacheco
Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados agora “a escrever como se fala.” Será?
9 de Fevereiro de 2017, 8:00

No título desta crónica não há uma única palavra correctamente escrita. No entanto, se ultrapassarmos a estranheza da grafia, ele soará correcto. A que propósito vem isto? De uma guerra que, sendo antiga, tem minado as actuais discussões ortográficas. Chamem-lhes “sónicos” ou “foneticistas”, há muito que alguns insistem na utilidade de “escrever como se fala” ou em submeter a escrita à fonética. Já em meados do século XVIII, no seu Verdadeiro Método de Estudar, Luís António Verney defendia: “Para que guardemos certeza, ou verdade, em nossa escritura, assim devemos escrever como pronunciamos & pronunciar como escrevemos.” Esta sugestão tinha um pressuposto: “A simplificação da ortografia contribui para a democratização cultural, na medida em que desvincula a escrita portuguesa das línguas clássicas.” Não vingou.
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Mas a “teoria” tem voltado mil vezes à carga. Defensável? Alguns exemplos, curiosos. Gonçalves Viana, o mentor da feroz reforma ortográfica portuguesa de 1911, reparou um dia que o simples nome “Hipólito” poderia, “sem alteração de pronúncia”, escrever-se de 192 maneiras consoante as grafias usadas no século XIX: Hypólito, Ypólito, Ipólito, Epólito, Hipolihto, Yppóllitho, etc. Já José Pedro Machado escreveu, no seu opúsculo A Propósito da Ortografia Portuguesa (1986) que casa pode escrever-se de várias maneiras (também sem qualquer alteração de pronúncia), casa, cása, caza, kasa, káza, kása, etc, “embora para a grafia oficial só uma pode ser considerada correcta.” Portanto, com várias grafias, mantemos o som. Mas a ortografia impõe um só modo de escrita num determinado espaço geográfico. Os “sónicos” ou “foneticistas” viram esta lógica do avesso: se duas palavras diferentes soam da mesma maneira, escrevam-se da mesma maneira. Assim se justifica ótico/ótico por óptico/ótico ou ato/ato por acto/ato. Ignorando a muito instrutiva etimologia, lá somos forçados “a escrever como se fala.” Será?
Vamos por partes. No inglês, por exemplo, knight (cavaleiro) e night (noite) soam da mesma exacta maneira. Se na escrita tais palavras fossem igualizadas perdia-se o sentido de cada uma, como se perde no português igualizando ato e actoótico e óptico. Em francês, citando um texto de Raul Machado (1958), um mesmo som, semelhante ao é aberto português, escreve-se de mais de vinte maneiras: er, es, ès, et, êt, ets, est, aî, aie, aient, ais, ait, ay, etc. Se uma reforma ortográfica tentasse um dia igualizá-las na escrita, jamais os franceses se entenderiam.
Então por que motivo se tenta em Portugal, impor tais mudanças? Para ficarmos iguais ao Brasil, claro. Parece a velha anedota: então porque não ficamos? Simples: porque se trata de uma mirabolante utopia sem possibilidade de concretização prática. Ah, dizem alguns, mas a Língua Portuguesa é a única com duas ortografias! Sim? Pois saibam que o Espanhol tem 21, o Inglês tem 18, o Árabe tem 16, o Francês tem 15, o Sami tem 9, o Sérvio tem 8, o Alemão e o Chinês têm 5 cada e até o Mongol e Quechua andino têm cada qual 3 variantes. Ortográficas, sim.
E para quem acha que o inglês se escreve da mesma forma em todo o sítio, aqui vai uma pequena lista das largas centenas de diferenças ortográficas entre o inglês americano (o dos EUA) e o inglês padrão europeu (o de Inglaterra, já que na Irlanda ou na Escócia há ainda outras variantes). A lista foi coligida também pelo saudoso filólogo José Pedro Machado (1914-2005), na obra citada, e a primeira palavra de cada conjunto é, aqui, a americana: color, colour; center, centre; offense, offence; bark, barque; check, cheque; connection, connexion; cipher, cypher; draft, draught; fuse, fuze; gray, grey; curb, kerb; hostler, ostler; jail, gaol; kilogram, kilogramme; lackey, lacquey; mold, mould; pigmy, pygmy; plow, plough; program, programme; quartet, quartette; reflection, reflexion; story, storey. E muitos, mas mesmo muitos, eteceteras.
O mesmo sucedeu, sucede e sucederá entre o português europeu (o de Portugal) e o americano (o do Brasil). Aliás, veja-se bem o ridículo da “unificação” proposta pelo acordo ortográfico de 1990: de acordo com números “oficiais”, a grafia portuguesa e brasileira era igual em 96% das palavras e com o acordo será igual em… 98%! Ou seja: o actual caos ortográfico, as guerras e animosidades inúteis que por aí vão, valem uns míseros dois por cento. Haverá nome para isto? Há, e não é bonito. Mas vale a pena pensar no caso, seriamente. E agir em conformidade.