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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

José Pacheco - A liberdade de Corto Maltese e a inspiração de Spike Lee

SEMANÁRIO 09.02.2024

Exclusivo

FISGA

1994 Cong S.A. Suisse

Em Paris e Oslo, olha-se para a liberdade desenhada por Corto Maltese. Em Nova Iorque, Spike Lee abre o baú das suas inspirações

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08 FEVEREIRO 2024 22:57

João Pacheco

 

PARIS — OSLO — AVELLINO — VENEZA

Um dia, uma amiga da mãe pegou na mão esquerda do rapaz. Olhou e ficou horrorizada. Não havia ali a linha do destino. O rapaz não pensou muito e foi buscar uma lâmina de barbear do pai. Inventou na palma daquela mão uma linha profunda e longa. Pela vida fora, nunca chegaria a acumular tesouros bem fechados. Mas sempre foi livre.

O rapaz chamava-se Corto Maltese e tinha nascido na ilha de Malta, no verão de 1887, filho de uma cigana de Sevilha e de um marinheiro inglês de Tintagel, na Cornualha. Aliás, o viajante Corto Maltese nasceu para o mundo 80 anos depois, no livro “A Balada do Mar Salgado”, de 1967. Corto é a grande personagem criada pelo autor de banda desenhada Hugo Pratt (1927-1995). E viajou por vários continentes, partindo de La Valletta no veleiro “Vanità Dorata” (ou seja, Vaidade Dourada). Nos livros de Pratt, Corto viveu apaixonado pela liberdade, sempre pronto para partir. Era também capaz de declarar amor, perguntando: “Queres partir comigo?”

Um próximo destino cortomaltesiano pode ser Paris, onde o Pompidou terá de 29 de maio a 4 de novembro três exposições de banda desenhada em simultâneo. A iniciativa chama-se “La BD à tous les étages” (A BD em todos os andares), com destaque para “Corto Maltese, une vie romanesque” (uma vida de romance). Já na capital da Noruega, Corto Maltese está presente até 22 de março no Istituto Italiano di Cultura di Oslo, na exposição “Hugo Pratt. Opphavet, verket, livshistorien” (a herança, a obra, a biografia).

Da biografia de Pratt faz parte a amizade com o cartoonista Milo Manara, conhecido sobretudo pelo erotismo e pela beleza de livros de banda desenhada como “O Clic”. E, em entrevista ao Expresso em 2022, Milo Manara contou que Pratt era Corto Maltese, mudando o contexto histórico. “Corto Maltese vivia numa época em que não era preciso pedir autorização para chegar de barco e ancorar num sítio qualquer. Agora é completamente diferente.” No atual contexto histórico, a cidade de Avellino está na linha do destino de quem quiser ver a exposição “Milo Manara — Così fan tutte. Le Metamorfosi d’amore”, que está até 9 de março no Museo Irpino e parte da ópera “Così fan tutte”, de Wolfgang Amadeus Mozart. De Avellino, será boa ideia prolongar a linha da sorte até a uma ponta aquática do mapa de Itália, para caminhar sem destino por Veneza, um dos territórios importantes para Corto Maltese. Haja liberdade.


NOVA IORQUE

A inspiração de Spike Lee


Sim, poderíamos ocupar-nos apenas de massa fresca. Mas é essencial lembrar outros aspetos da História, no contexto atual de propagação da extrema-direita, na Europa e no mundo. Este póster foi feito em Itália em 1944, durante a II Guerra Mundial. Contém racismo e pertence à coleção do casal Spike Lee e Tonya Lewis Lee. O autor do cartaz desenhou-o nos últimos tempos do regime fascista do ditador Benito Mussolini (1883-1945). E sim, a ideia era que vinham aí os soldados americanos, preparados para pilhar e violar as riquezas e os corpos de Itália. Para estimular o medo e a coesão entre a população, era preciso mostrar que, com uma possível invasão norte-americana, chegaria o caos personificado por soldados afro-americanos. Agora, este bocado de guerra psicológica faz parte da exposição “Spike Lee: Creative Sources” (Fontes Criativas), que está até segunda-feira no Brooklyn Museum, em Nova Iorque. Para ir às fontes de inspiração do realizador afro-americano Spike Lee, há aqui mais de 400 objetos fornecidos pelo autor. Haja inspiração.

https://expresso.pt/revista/fisga/2024-02-08-A-liberdade-de-Corto-Maltese-e-a-inspiracao-de-Spike-Lee-05a3faac

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Art Spiegelman desconstroi o livro "Maus" em "Metamaus"




Para não voltar a explicar porque desenhou ratos e gatos para falar da família e do Holocausto, o autor Art Spiegelman editará em outubro "Metamaus", um livro que recupera a novela gráfica "Maus".


Lusa - 20 Setembro 2011 — 10:28

"Metamaus: A look inside a modern classic, Maus" é já considerado pela revista Wired um dos livros da temporada, a editar em outubro pela Random House, no qual Art Spiegelman explica o que o levou a escrever aquela banda desenhada, as influências, as pesquisas, revela os esboços e os estudos, conta as histórias pessoais em torno do livro.

"Maus", livro biográfico sobre a família de Art Spiegelman, editado em dois volumes e que tem como pano de fundo o Holocausto, foi distinguido em 1992 com o Prémio Pulitzer, e é considerado uma das obras de referência da nona arte do século XX.

Vinte anos depois da sua publicação, o livro é revisitado e desconstruído pelo próprio autor e a edição integrará um DVD com entrevistas áudio de arquivo, incluindo declarações do pai, Vladek Spiegelman, protagonista do livro.

Em "Maus", editado em Portugal, Art Spiegelman recorre a animais para falar de judeus, nazis, polacos (ratos, gatos, porcos respetivamente) e sobre a família que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz.

Agora em "Metamaus", recorrendo novamente à banda desenhada, explica que "Maus" "teve um impacto no mundo muito maior do que esperava" e que ao longo destes anos todos os jornalistas continuavam a fazer-lhe sempre as mesmas perguntas: "Porquê [recorrer à] banda desenhada? Porquê ratos? Porquê o Holocausto?", lê-se na introdução no site da editora Random House.

"Maus" "é um livro sobre a relação de um filho e de um pai, que tentam compreender-se", diz o próprio autor num vídeo divulgado no Youtube, a propósito de "Metamaus".

https://www.dn.pt/artes/livros/art-spiegelman-desconstroi-o-livro-maus-em-metamaus--2006430.html

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

Bocage em banda desenhada





Bocage em banda desenhada, por Maria das Mercês Mendonça Soares (texto)
e Manuel Ferreira (desenhos)
Camarada: nº 6, série 2, vol. 8, Março de 1965
in  Nesta hora

sábado, 25 de novembro de 2017

O impacto de Ziraldo na obra de jovens cartunistas

24 de novembro de 2017 - 14h28 


Especial   Ziraldo



Ilustrações de Olavo Costa, Ronaldo Barata e Tainan Rocha



Para homenagear Ziraldo, convocamos um time que entende do assunto. Os ilustradores Olavo Costa, Ronaldo Barata e Tainan Rocha toparam o desafio de reler a obra de Ziraldo com características próprias. Eles ainda nos contam de que forma o cartunista brasileiro influenciou, ou influencia, o trabalho deles.



Os desenhos foram produzidos para esta edição especial de Prosa, Poesia & Arte que conta ainda com artigos de especialistas no assunto, entre eles o desenhista e ilustrador Marcelo Campos e o quadrinista Zé Wellington.


Veja as ilustrações e os depoimentos:

Olavo Costa
“Uma pequena homenagem ao "menino quadradinho", que era o meu livro favorito quando eu era criança. Não tem como ser ilustrador ou quadrinista no Brasil, sem ser influenciado pelo traço versátil do Ziraldo!”


Ronaldo Barata
“É muito difícil pra eu falar pouco sobre o Ziraldo. Dizer que ele é um dos grandes nomes dos quadrinhos e da ilustração no Brasil é, como dizem, ‘chover no molhado’. Sendo assim, detenho-me a dizer que ele é senhor de um traço marcante, simples em essência, mas complexo em conceito, um traço elegante que funciona tão bem tanto em charges carregadas de sarcasmo e política quanto em livros infantis, repletos de uma inocência ímpar e que influenciou e ainda influencia muitos artistas (este que vos fala, inclusive). 85 anos de muita história e muitas estórias pra contar”.


“Tenho a obra do Ziraldo presente em diferentes etapas da minha vida e desde muito cedo. E talvez por isso que eu a veja semelhante aqueles livros ou filmes, que de tantos em tantos anos, valem a pena uma visita para se surpreender com uma interpretação e influência diferente... o cara é moderno faz tempo!”.







Do Portal Vermelho

Os caminhos gráficos de Ziraldo




24 de novembro de 2017 - 15h32 

Os caminhos gráficos de Ziraldo





Alguns, sem nenhum conhecimento formal, buscam um trabalho que muitos chamam de visceral, quer dizer, não se preocupam com o estudo dos fundamentos do desenho, mas buscam mais a expressividade que a técnica propriamente dita. Outros trilham o caminho do estudo técnico, de estrutura, mas todos tentam chegar a um resultado gráfico que seja identificável à primeira olhada.

Divulgação


Entender e desenvolver seu próprio olhar sobre as formas e sobre o mundo é o que o trabalho de Ziraldo ensina a todos seus filhotes

Gosto de usar o termo identidade gráfica para isso. Alguém olha o trabalho e, imediatamente, sabe quem estava ali atrás do bico de pena, do pincel, do grafite, do programa digital. Ambos os caminhos são válidos para se chegar ao resultado de comunicar bem a ideia.

Existem vários caminhos para o contador de histórias. Seja como autor de livros ou quadrinhos vale tanto o artista visceral quanto o técnico. Ambos buscam sua personalidade narrativa, sua estética gráfica. Ziraldo é tudo isso. Todos os casos ao mesmo tempo. 

No traço, na cor, na narrativa, na composição de cenas, na criação de personagens, na consciência e consistência de sua estética gráfica, em tudo Ziraldo sempre se expôs através de uma personalidade gráfica muito forte. O artista gráfico, o narrador, reproduz o real ou imagina novas realidades através de seu trabalho... e eu quando olho para um trabalho do Ziraldo sempre me pergunto: “como? Como ele faz isso? Como ele enxergou em uma árvore, uma nuvem, na água, em um sofá, em um olho, em uma mão, aquela interpretação gráfica?” Magritte diz: “isso não é um cachimbo”. Ziraldo sabe exatamente o significado disso... não é uma mão, é uma interpretação gráfica de mão; não é uma nuvem, é uma interpretação gráfica de nuvem. É o olhar e a interpretação do artista sobre o que existe. 

A busca do artista gráfico não é “só” por saber desenhar ou pintar bem, é ter justamente essa visão, é criar para que as outras pessoas enxerguem através dos seus traços e cores a maneira pela qual ele concebe a realidade. É perceber como ele pensa o tempo, o espaço, a cena, através de seus olhos. É assim que ele vê o mundo. É assim que conta histórias, como passa para o leitor, o que sente e o que entende. E essa é uma das muitas invejas que guardo comigo sobre o trabalho do Ziraldo. Não se trata de desenhar bem, mas sim de ter personalidade gráfica e, ao mesmo tempo, desenhar tecnicamente muito bem. 

Quando conheci o trabalho dele, fiz uma pasta com recortes de revistas, capas... tudo o que encontrava. Olhava para o trabalho e tentava entender o processo, entender como chegou àquele resultado. Em desenho temos a estrutura e o acabamento. Na estrutura, entendemos como ele constrói as formas, como é a construção de uma mão, de um rosto, de objetos, etc. No acabamento escolhemos o tipo de traço, de linha, de texturas de cor, de composição cromática que estarão “sobre” essa estrutura...em termos práticos, ela é a fundação de uma casa, de um prédio, as vigas, o estilo arquitetônico, o encanamento, a parte elétrica...enfim, tudo o que é necessário para que uma casa fique em pé e funcione. O acabamento é o tipo de piso, azulejos, janelas, portas, vidros, a decoração da casa, etc. Ziraldo foi um dos artistas que me fizeram entender o processo de construção da forma e de como ela pode ser esculpida de maneira consciente até resultar em uma personalidade gráfica. Ele me ajudou a perceber que essa personalidade é a reunião harmônica entre esses dois fundamentos. 

Todo artista tem seus ídolos, suas referências...mas copiar não é opção. Entender o processo deste artista, sim. Entender e desenvolver seu próprio olhar sobre as formas e sobre o mundo é o que o trabalho de Ziraldo ensina a todos seus filhotes...me considero um deles. Não é ser como ele, é ser como você é. Ensinar a construir para que depois você possa seguir seu próprio caminho. É ensinar liberdade para ser você mesmo. Arte é isso e este é o maior elogio que acho que um artista que é referência, que é influência, pode receber. Ziraldo fez isso por mim. Por isso...agradeço! 

Veja a galeria de imagens selecionadas por Marcelo: 








http://www.vermelho.org.br/noticia/304613-1




*Marcelo Campos é desenhista e ilustrador. Trabalhou para editoras como DC Comics (Justice League, Guy Gardner, Extreme Justice, Action Comics), Marvel Comics (Uncanny Originis, Journey Into Mystery, 2099 A.D,) Dark Horse (The Mask), Image (Darkness - arte-final), Cosmic Comics (Death Race 2000) e Disney (Hércules, Mulan, Tarzan). Foi criador do personagem Quebra-Queixo e ganhador de vários prê

terça-feira, 18 de julho de 2017

Corto Maltese, 50 anos depois

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Francisco Louçã

18 de Julho de 2017, 08:24

Por


Corto Maltese, 50 anos depois

P
arece que Mitterrand, perguntado sobre que personagens o impressionavam ou o seduziam, apontava para Corto Maltese. Matreirice, seria uma imitação mais elegante, mas escassamente menos narcísica, de um De Gaulle que afirmava que só temia a concorrência da popularidade de Tintin. Cada um vinha do seu tempo e, se ambos sobreviveram com um “perfume de lenda”, como escreve Umberto Eco sobre Corto, o facto é que foi Hugo Pratt quem marcou a imaginação que trespassa as fronteiras do espaço e da imaginação. Por isso, Corto Maltese é o herói moderno que sobrevive à sua contemporaneidade.

Talvez as pistas sobre este marinheiro maltês, filho de uma cigana de Sevilha e de outro marinheiro perdido, que nasceria em 1887 e cresceria no bairro judeu de Córdoba, ou seja, sem pátria, assistindo depois às guerras inaugurais do novo século, estejam por aí espalhadas: Italo Calvino participara na preparação de um guião de um filme, “Tikoyo e o tubarão” (1962, Folao Quilici), sobre uma criança que fala com o seu amigo tubarão, e horizontes oníricos desse tipo foram sendo explorados por muitos autores (veja-se a “Balada” ou “Mu”); e, evidentemente, a literatura de viagens aventurosas, de Rimbaud a Jack London, povoara a juventude de Hugo Pratt. Pratt, aliás, cresceu na Etiópia, viveu em Buenos Aires e Veneza, e sobretudo, percorreu as fábulas em que se mistura com Corto, a que dá forma no dia 10 de julho de 1967, com “A Balada do Mar Salgado” – fez agora cinquenta anos.
O maravilhamento de algumas figuras cimeiras da literatura com a banda desenhada, mesmo que a vissem como género menor, também não é de hoje e não se inventou certamente com Pratt. Steinbeck, que não era modesto, adivinhava provocatoriamente um Nobel para Al Capp, pela força do seu Li’l Abner, a representação encantatória do mundo rural norte-americano (e de uma simplicidade desarmante que levava a água ao seu moinho). Umberto Eco dedicou-se aos Peanuts e a Charlie Brown num livro, “Apocalípticos e Integrados” (edição portuguesa na Relógio d’Água), em que descreve os enquadramentos de cinema na tira do desenho.
Pode-se perguntar então de onde vem o ciúme ou a curiosidade que escritores de mérito têm da banda desenhada. No caso do sucesso de Pratt, percebe-se de onde vem essa sensação: é que Corto Maltese é mesmo um romance em forma de apresentação gráfica. Aliás, Pratt explora decididamente esse vínculo e pisca o olho à literatura clássica: Pandora lê Melville, Slutter lê Rilke e Shelley, Corto cita Conrad e a “Utopia” de More e, ao atravessar as mitologias (célticas, etiópicas, caribenhas, argentinas, venezianas, o vodoo ou o que lhe apetece), ao escolher com que se cruza (Butch Cassidy, o Barão Vermelho, Tiro Fixo, mas também Hemingway, Hesse, Joyce), vive aventuras que transcendem os limites do tempo. Nenhum romance pode pedir mais, se os traços são marcados, se as personagens vivem a sua vida, se nos surpreende, então é a melhor literatura. É certo que, sendo desenho, deciframos melhor nessas páginas alguma coisa do autor (Eco conta que a sua filha pequena, apresentada a Pratt, disse que ele era Corto), e portanto a mentira da literatura é vivida à nossa vista.
Mas Pratt morreu há vinte anos. Corto, que é mais teimoso, continua agora com o desenho dos espanhóis Juan Diaz Canales (Blacksad) e Rubén Pellejero, em “Sob o Sol da Meia Noite”, já editado em Portugal (Arte de Autor, 2017), anunciando-se um segundo livro desta dupla, “Equatoria”. Discutir-se-á se outro escritor pode continuar “Os Maias” ou “A Guerra e Paz” e dir-se-á que não pode. Mas, neste atrevimento, Corto cruza-se com Jack London, encontra rebeldes irlandeses, sonha com Rasputine, destrói uma rede de tráfico de mulheres, percorre o Yucon – e nós imaginamos o resto e aceitamos a aventura.

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2017/07/18/corto-maltese-50-anos-depois/

segunda-feira, 1 de maio de 2017

segunda-feira, 6 de março de 2017

“Tom The Dancing Bug” de Ruben Bolling

Este humor é sério. It's true
05.03.2017 às 23h00


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CÓMICO. A tira cómica existe desde 1990 e tem um apurado espírito político, que tem vindo a ser desafiado com a subida ao poder de Donald Trump
RUBEN BOLLING / UNIVERSAL UCLICK 2016
As tiras cómicas de “Tom The Dancing Bug” ganharam um prémio pelo seu apurado sentido crítico. É tempo de revisitar a obra do cartoonista Ruben Bolling: não há livros recentes (há sempre a internet), mas é mais atual do que nunca

Como é Carnaval e ninguém leva a mal, a Estante de Livros desta semana continua na senda da banda desenhada (já que na semana passada, o colega Pedro Cordeiro sugeriu uma bem disposta novela gráfica de Jeffrey Brown sobre o quotidiano dos jovens na Idade da Pedra) e apresenta uma sugestão de um livro que já foi publicado em... 2004. Mas apresenta-o como um isco para o leitor ir em busca das tiras cómicas mais atuais de “Tom The Dancing Bug”, na Internet. O seu criador, Ruben Bolling, cartoonista e comentador político, iniciou em 1990 este cartoon semanal, que não tem narrativa contínua. As personagens multiplicam-se mas, apesar de tudo, há uma ou outra recorrentes. E nenhuma delas é Tom, o inseto dançarino: o título destas tiras tem inspiração dadaísta e pode ser tudo e coisa nenhuma.
O que interessa é que, com quase 30 anos de vida, “Tom The Dancing Bug”, publicado ao longo das décadas em vários jornais e que, todos os dias, pode ser visto no site BoingBoing.net, acaba de ser distinguido com o prémio Herblock Prize Award, na categoria de cartoon editorial. Porquê agora? Porque ao longo de 2016, marcado pelas eleições norte-americanas, por vários acontecimentos 'nonsense' e pela inesperada (?) vitória de Donald Trump, a acutilância política dos desenhos de Ruben Bolling fez-se sentir. Senão, vejamos:
“Ruben Bolling criou o seu estilo único de cartoon político, que está cheio de alusões astutas e desfechos imprevisíveis”, escreveu Mark Wuerker, cartoonista político vencedor de um Pulitzer, citado pelo The Washington Post. “'Tom The Dancing Bug' levou o cartoon para um novo território com um imaginário ágil e alegorias provocativas”, acrescentou.
O vencedor, que irá receber o prémio em março, já veio agradecer a distinção. E afirmou: “Estou muito honrado, mas também triste por o prémio me ser atribuído pelo facto de satirizar, ridicularizar, parodiar e lamuriar-me contra Trump, durante a sua escalada até ao poder.”
“Thrilling Tom The Dancing Bug Stories”, de Ruben Bolling, Andrews McMeel Publishing, 224 páginas, a partir de €2,80 (usado, na Amazon)

O humor é político. Contudo, numa altura em que T-U-D-O é, de facto, político, convém dar uma gargalhada. Para tal, nada como visitar a obra deste cartoonista. “Tom The Dancing Cat” tem três livros publicados e, qualquer deles, passível de ser comprado pela internet, em segunda mão: “Tom The Dancing Cat” (1992), “All I Ever Needed to Know I Learned From My Golf-Playing Cats” (1997) e “Thrilling Tom The Dancing Bug Stories” (2004). Mas nada como uma visita à página BoingBoing.ne para rir (ou chorar) com as últimas novidades da Casa Branca.


sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Como a BD nos contou o Holocausto

Maus (1980), a obra seminal de Art Spiegelman, é só a face mais visível de um enorme icebergue que uma exposição no Memorial da Shoah, em Paris, se propõe explorar exaustivamente

Uma exposição no Memorial da Shoah, em Paris, inventaria 75 anos de uma produção espantosamente prolixa – e aparentemente inesgotável.
***



É preciso procurar muito para encontrar um tema sério da história do século XX que não tenha ainda sido vasculhado pela banda desenhada – do insanável conflito israelo-palestiniano (Palestina ou Gaza, de Joe Sacco) à condição árabe na era do terrorismo global (O Árabe do Futuro, de Riad Sattouf), passando pelo Irão da Revolução Islâmica (Persépolis, de Marjane Satrapi); da catástrofe individual e colectiva que foi a sida (Comprimidos Azuis, de Frederik Peeters) ao lento (e turbulento) coming out do Ocidente, com todo o seu historial de traumas familiares (Fun Home – Uma Tragicomédia Familiar, de Alison Bedchel); da nossa Guerra Colonial (Os Vampiros, de Filipe Melo e Juan Cavia) à má consciência da África do Sul que o apartheid ainda divide ao meio (Papá em África, de Anton Kannemeyer) e ao Brasil fatalmente segregado de ontem e de hoje (Morro da Favela, de André Diniz), só para mencionar títulos que tiveram edição em Portugal.


Também é preciso procurar muito para encontrar um tema sério da história do século XX que tenha sido mais vasculhado pela banda desenhada do que o Holocausto. Maus (1980), a obra seminal de Art Spiegelman, é só a face mais visível de um enorme icebergue que uma exposição no Memorial da Shoah, em Paris, se propõe agora explorar exaustivamente: “De 1942 até hoje, centenas de artistas desenharam a Shoah. À medida que as vítimas e as testemunhas deste crime único na história desaparecem inelutavelmente, a questão da sua representação torna-se cada vez mais central”, sublinham Marie-Édith Agostini, Joël Kotek e Didier Pasamonik, os comissários de Shoah et Bande Dessinée: de l’ombre à la lumière, esclarecendo as motivações deste “percurso histórico e artístico” que se propõe mostrar como ao longo dos últimos 75 anos a ficção mobilizou o Holocausto, dos comics americanos à produção franco-belga, onde o tema está presente desde 1944 (La Bête est morte!, de Calvo). É um inventário colossal, que vai da primeira obra a inscrever a Shoah no repertório da banda desenhada, cujo autor acabaria gazeado em Auschwitz (Mickey au camp de Gurs, de Horst Rosenthal, pequeno álbum composto de 15 aguarelas, com encadernação manual, “publicado sem autorização de Walt Disney”, como afixava a capa), às memórias de segunda e terceira geração activadas em livros mais recentes como I Was a Child of Holocaust Survivors (2006), da canadiana Bernice Eisenstein, Property (2013), da israelita Rutu Modan, ou Nous n’irons pas voir Auschwitz (2011), do francês Jérémie Dres – sem esquecer, claro, o trabalho a todos os títulos fundador de Will Eisner e o caso sem paralelo de Miriam Katin, a única sobrevivente do Holocausto que fixou o seu testemunho em BD.

Acompanhando esta exposição que ocupa o Memorial da Shoah de 19 de Janeiro até 30 de Outubro, um programa de conferências juntará autores e historiadores em mesas-redondas que discutirão, entre outros assuntos, Porque é que os super-heróis não libertaram Auschwitz? (22 de Janeiro), “Arte menor” e questões maiores (5 de Fevereiro) ou o lugar de Varsóvia na banda desenhada (5 de Março). Terminadas as mesas-redondas, encerrada a exposição, o Holocausto continuará a ser um dos assuntos mais inesgotáveis do nosso passado comum – e a aparentemente inesgotável livraria do Memorial da Shoah continuará a ser um dos melhores lugares do mundo para o aprofundar.

https://www.publico.pt/2017/01/19/culturaipsilon/noticia/como-a-bd-nos-contou-o-holocausto-1758634

sábado, 21 de maio de 2016

Falcão Negro




Falcão Negro
Data: 2 agosto, 2013
Editora: Abril – Minissérie em três edições
Autor: Howard Chaykin (roteiro, arte e cores) – Originalmente em Blackhawk # 1 a # 3.
Preço: de NCz$ 10,00 a NCz$ 20,00 por edição (preço da época)
Número de páginas: 48 (por edição)
Data de lançamento: Setembro a novembro de 1989
Sinopse
Uma lenda dos ares, um homem misterioso, um herói mundial. Não são poucos os adjetivos a serem usados para se definir o Falcão Negro.
Líder de um grupo de ases da aviação, ele é querido por todo o planeta, principalmente pelos americanos, graças à luta que trava contra os nazistas, no auge da Segunda Guerra Mundial. Toda sua fama, porém, sofre um duro revés quando se vê acusado pelo senado dos Estados Unidos de atuar como espião para o regime comunista da União Soviética.
Com isso, algumas perguntas ecoam: quem pretende ver a ruína do Falcão Negro? Quais os perigos reservados para o mundo sem um de seus maiores símbolos?
Positivo/Negativo
Falcão Negro é um personagem bem antigo: surgiu em 1941, criado por Chuck Cuidera, Bob Powell e Will Eisner, como parte de uma antologia de histórias de guerra publicada pela Quality Comics, aMilitary Comics.
Conhecido apenas por seu apelido, ele liderava um grupo de ases da aviação, os Falcões Negros, contra as mazelas perpetradas pelo nazismo. Claro, a ideia era capitalizar em cima da Segunda Guerra Mundial, que transcorria basicamente na Europa – os Estados Unidos só entrariam no conflito no fim daquele ano.
Mais de quatro décadas depois, em 1988, Howard Chaykin remodelou e atualizou o personagem em uma minissérie de três partes lançada pela DC Comics, detentora dos direitos da revista após a falência da Quality.
No entanto, em vez de apenas homenagear o Falcão Negro e sua importância histórica, fazendo uma simples trama baseada na dicotomia clássica da Segunda Guerra – aliados contra nazistas –, o artista reescreve a história do período ao criar um invejável conto de mistério envolvendo agentes secretos.
Na visão de Chaykin, a tensão entre Estados Unidos e União Soviética, que mergulharia o mundo em um estado paranoico por décadas a fio (a Guerra Fria), já existia antes mesmo do término do maior conflito do Século 20.
Isso transforma sua abordagem do clássico personagem em uma versão em quadrinhos dos romances de John le Carré e Graham Greene, mestres da literatura de espionagem, ao abordar conspirações políticas, sexo e assassinatos.
O roteiro de Falcão Negro não é simples de ser acompanhado – em grande parte, graças aos diálogos secos, que muitas vezes fazem alusão a ações e personagens ainda não mostrados ou citados vagamente. O leitor, com isso, torna-se elemento ativo na construção do enredo, tendo que ligar nomes e citações para saber quem é quem, quem é aliado de quem e, principalmente, quem trai quem.

E, embora séria, a trama se dá ao luxo de conter momentos cômicos, graças ao carisma do protagonista e de seus coadjuvantes. Falcão Negro se parece muito com os papéis representados por Cary Grant nos longas de Alfred Hitchcock, em especial Intriga internacional. Ele é um homem inteligente, no meio de uma situação incontrolável e perigosa, mas que não perde o charme ou o bom humor.
É verdade que Chaykin não faz um grande trabalho, seja como roteirista ou desenhista, há um bom tempo. No entanto, durante os anos 1980, em seu auge criativo, foi mestre da narrativa. Poucos constroem uma diagramação tão ágil quanto a sua, seja pelas sequências com quadros pequenos para transmitir uma ação intensa e rápida, ou quando termina uma cena com um gesto de personagem, diálogo ou onomatopeia que faz referência ao início da cena seguinte – expediente bastante usado também por Alan Moore em seus roteiros.
Por falar em onomatopeias, elas são essenciais em Falcão Negro. Presentes praticamente em todas as páginas – em fartas quantidades e, muitas vezes, indicando sons oriundos de fora de quadro –, elas narram a inquietação de um mundo em combustão.
Seu uso, inclusive, ajuda a ditar o ritmo da trama. O melhor exemplo se encontra no capítulo final, quando um avião voa na direção de Nova York, carregando uma terrível ameaça. Enquanto o restante da história se desenvolve, são inseridos quadros minúsculos mostrando a aeronave e a indicação visual do barulho do motor, por páginas e páginas a fio. O recurso aumenta exponencialmente a tensão, já que o leitor, ao contrário da maior parte dos personagens, é a todo momento alertado do perigo iminente.
O resultado final de Falcão Negro é mais do que satisfatório. Uma pequena obra-prima dos quadrinhos, embora quase desconhecida, que ganhou edição nacional pela Abril no fim de 1989.
Aliás, o trabalho da editora durante esse período deve ser louvado, já que ela trouxe para cá várias séries e especiais renomados, alguns jamais relançados, no formato original e muitas vezes com um atraso mínimo em relação à publicação original. Os três números da minissérie possuem capas originais e pequenos textos introdutórios.


http://www.universohq.com/reviews/falcao-negro/