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quarta-feira, 21 de março de 2018

Seis poetas escolhem seis poemas para quem não gosta de poesia (mas também para quem a ama)




21.03.2018 às 8h00
Poesia é “o pouco tempo que levas entre chegar a casa e pores-te a dançar”. É íntima, diária, comum e aparentemente sem importância. Este artigo é especialmente para as pessoas que não gostam de poesia (mas também para as demais): pedimos aos poetas Cláudia R. Sampaio, Matilde Campilho, Nuno Moura, Pedro Mexia, Raquel Nobre Guerra e Valter Hugo Mãe que escolhessem seis poemas para quem não lê habitualmente poesia. Esta quarta-feira assinala-se o Dia Mundial da Poesia. Vamos dançar?

DEPOIMENTOS RECOLHIDOS POR HELENA BENTO, MARTA GONÇALVES E SORAIA PIRES
Daniel Faria, sem título (retirado de “Homens que são como lugares mal situados”, Fundação Manuel Leão, 1998)
Homens que são como lugares mal situados
Homens que são como casas saqueadas
Que são como sítios fora dos mapas
Como pedras fora do chão
Como crianças órfãs
Homens sem fuso horário
Homens agitados sem bússola onde repousem
Homens que são como fronteiras invadidas
Que são como caminhos barricados
Homens que querem passar pelos atalhos sufocados
Homens sulfatados por todos os destinos
Desempregados das suas vidas
Homens que são como a negação das estratégias
Que são como os esconderijos dos contrabandistas
Homens encarcerados abrindo-se com facas
Homens que são como danos irreparáveis
Homens que são sobreviventes vivos
Homens que são como sítios desviados
Do lugar
Poeta pouco conhecido, Daniel Faria morreu demasiado jovem mas deixou-nos poemas que confirmam uma maturidade assombrosa aliada a uma visão mística e visceral. Com uma poesia que ilumina, numa incessante busca e contemplação e numa serena exaltação dos mistérios do homem, este poema não deixa ninguém indiferente.
A ESCOLHA DE PEDRO MEXIA
Jorge Sousa Braga, “Portugal” (retirado de “De manhã vamos todos acordar com uma peróla no cu”, Fenda, 1981)
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
aparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca
Este poema tem duas características que podem aproximar as pessoas da poesia. A primeira, o facto de falar de algo que lhes pode dizer alguma coisa: a relação com Portugal e a sua história de uma forma que é estranha porque não é propriamente patriótica, mas também não é antipatriótico, que parece sentimental e irónica. Por outro lado, porque tem uma linguagem totalmente acessível e muito inventiva. Ou seja, é difícil alguém dizer que não compreende este poema, mas ao mesmo tempo não significa que a linguagem do poema se aproxime da prosa. É uma linguagem com imagens inesperadas, como a história da piscina municipal de Braga e de Camões a salvar “Os Lusíadas”, com um tom um bocadinho provocatório - talvez seja excessivo chamar-lhe assim. Não tem aquela solenidade que algumas pessoas associam à poesia e que as afasta. Estas duas característica que Jorge de Sousa Braga tem, sobretudo neste poema, podem reconciliar, pacificar as pessoas com a poesia. Ou não, nunca se sabe. “Portugal” é um poema ao qual as pessoas reagem bem, é sempre dos mais elogiados e mais lidos em público, porque se prestava muito a ser lido - pela extensão e ritmo - mas também pelo tom pouco habitual nos poemas que tratam as questões de Portugal, que são sempre bastante solenes. E ele trata-o de uma forma totalmente desenvolta e que no fim chega mesmo a ser sentimental. Talvez este seja um poema um bocadinho como os hits nas bandas pop, por ser o mais conhecido do autor. Não sei se ele se fartou, como acontece com as bandas, mas sei que é o poema do Jorge Sousa Braga que as pessoas memorizaram.
Rui Costa, “Clássico nada original” (retirado de “Mike Tyson para Principiantes”, Assírio & Alvim, 2017)
Ian Curtis (Joy Division)
FOTO GETTY IMAGES
A voz dos Joy Division no carro
que por azar é novo
saber que o mundo é a continuação
de Vila Nova de Gaia
há mulheres com pólvora entre os dentes
para lá das montanhas e montanhas
para lá das montanhas.
o sofá era atanómico.
o gato comi-o. foi a melhor maneira
que encontrei para o levar comigo.
alguma roupa, dois ou três objectos.
as recordações pões numa caixa de
madeira com desenhos de cavalos. Depois,
vais ao café por volta das onze horas
e contas o dia no escritório as
pernas da nova secretária. Ris muito e pensas
que quem ama a luz não pode ter medo
da escuridão
Estas poucas linhas conservam a medida encantatória do que se quer de um poema: legitimar a intimidade entre autor e leitor, dizer no lugar de querer dizer. Rui Costa não presta contas à impossibilidade colocada diante da linguagem, maçando o leitor com oscilações de temperatura e febres maneiristas, antes atribui significado às coisas e ao quotidiano pelo modo como estes o afetam, elevando-os a uma respiração colectiva de sentido — “(…) saber que o mundo é a continuação de Vila Nova de Gaia”. O trabalho da linguagem não se fica pelo relato e representação de uma interioridade estetizada, mas pela mediação de um segredo partilhado no património comum dos afetos: subjugar a escuridão e suas assembleias de culto - “quem ama a luz não pode ter medo”. O canto do homem lúcido às sereias emperiquitadas.
Wislawa Szymborska, “Vermeer” (retirado de “Um Amor Feliz”, Companhia das Letras, 2011)
Enquanto aquela mulher do Rijksmuseum
atenta no silêncio pintado
dia após dia derrama
o leite da jarra na tijela,
o Mundo não merece
o fim do mundo.
Seria difícil achar um poema só para um dia só. Um dia pode valer doze poemas, ou nenhum. O dia da poesia é como o dia do pai, ou o dia da mãe, o dia dos mortos ou o dia da árvore. Ironicamente ou não, calha de facto mesmo em cheio no dia da árvore. Não me parece que seja por acaso, já que a poesia também brota e dá sombra, ao mesmo tempo que ilumina. Mas o dia da poesia, tal como todos aqueles referidos lá atrás, encaixa na verdade em todos os dias. Não é só por ser dia do pai que eu vou celebrar o meu pai - celebro-o todos os dias. Celebro a minha mãe a toda a hora também, assim como celebro as flores, as folhas, os frutos e os mortos. Cada passo dado numa vida celebra qualquer coisa que nos pertence e da qual descendemos, celebra também tudo aquilo que não nos pertence mas que nos é dado a observar, celebra a normalidade e ao mesmo tempo o transcendente. Cada passo, um acontecimento. E a poesia, como qualquer gesto, não foge à regra das pequenas peripécias diárias. Às vezes um poema surge para traduzir um passo dado em falso. Outras vezes surge para ilustrar um episódio comum, diário, aparentemente sem importância. De vez em quando manifesta-se sem aviso, numa palavra só, e essa palavra serve para sossegar toda a tribulação naquele minuto. A poesia - como o golo num copo de água, como um vento no asfalto, como uma tinta vermelha que descasca numa parede - é só a tradução do mundo. Às vezes simplificada, outras vezes aumentada. Outras vezes de aparência estática e banal, e aí é que costuma revelar-se o segredo. Como neste poema de Wislawa Szymborska: à primeira vista são só seis versos curtos, nenhuma rima, apenas uma descrição daquele tão famoso quadro que está a esta hora exata pendurado numa sala em Amesterdão. Mas leia outra vez. Dos seis versos descende a mulher, a paleta do pintor, o século XVII encostado ao século XXI, a proteína do leite, a mão do artesão que afagou a tigela, a sala do museu, o movimento permanente de um líquido branco que não para de verter. E o mundo, sempre em movimento, atento ao fim do mundo mas negando-se a ele. Com coragem, sem vergonha. Não há um poema só para um dia só, mas um dia inteiro pode desdobrar-se num poema. E o dia não acaba.
Adília Lopes, “A Elisabeth foi-se embora (com algumas coisas de Anne Sexton)” (retirado de “Dobra: Poesia Reunida, 1983-2007”, Assírio e Alvim, 2009)
Eu que já fui do pequeno almoço à loucura
eu que já adoeci a estudar morse
e a beber café com leite
não posso passar sem a Elisabeth
porque é que a despediu senhora doutora?
que mal me fazia a Elisabeth
a lavar-me a cabeça
não suporto que a senhora doutora me toque na cabeça
eu só venho cá senhora doutora
para a Elisabeth me lavar a cabeça
só ela sabe as cores os cheiros a viscosidade
de que eu gosto nos shampoos
só ela sabe como eu gosto da água quase fria
a escorrer-me pela cabeça abaixo
eu não posso passar sem a Elisabeth
não me venha dizer que o tempo cura tudo
contava com ela para o resto da vida
a Elisabeth era a princesa das raposas
precisava das mãos dela na minha cabeça
ah não haver facas que lhe cortem o
pescoço senhora doutora eu não volto
ao seu antiséptico túnel
já fui bela uma vez agora sou eu
não quero ser barulhenta e sozinha
outra vez no túnel o que fez à Elisabeth?
a Elisabeth era a princesa das raposas
porque me roubou a Elisabeth?
a Elisabeth foi-se embora
é só o que tem para me dizer senhora doutora
com uma frase dessas na cabeça
eu não quero voltar à minha vida
A poesia de Adília Lopes é um manifesto pessoalíssimo. Ainda que possa ser lida à luz de muita Mariana Alcoforado ou Sophia, ela acontece profundamente sem previsão, genuína e indomável. O poema de Adília que mais me comove é feito de nervos. Leio “A Elizabeth foi-se embora” como um protesto amoroso, feito de uma perigosidade algo cómica, nessa dimensão trágica que nos pode provocar o riso, e parece-me sobretudo o desamparo de uma mulher que se verá eternamente como menina de bonecas, preparada para brincar com chá encenado e gatinhos. Adília Lopes é a poeta dos gatos e das baratas, não deixa de ser uma certa Alice construindo o seu mundo de fantasia que, como é bom de ver, é feito de tanta aventura e susto. Neste poema, que nos chega tão simples e sem pose, encontro essa menina algo perdida mais do que furiosa, encontro-a tristíssima. Porque isso nos provoca um riso nervoso, não sei. Depois de algumas leituras, a mim, só me faz chorar. Todo o livro “O Decote da Dama de Espadas”, onde se inclui este poema, é lindo. Uma casa de bonecas viva.
Nuno Moura, sem título (retirado de “Nova Asmática Portuguesa”, Mariposa Azual, 1998)
GETTY
é de origem entronca e de pais separos
e teve mais de noventa mil pessoas delírias
no estádio das antas para o lançamento
do seu último livro de poesia.
seguiu em turné por paranhos bessa
e depois são luis pelo sul
tendo uma andança de três ponto um milhões
só em vendas estádias.
somando a viagem recitária
as exportações para o resto do mundo
e o residual fotocópio
totobola para cima de quinze ponto sete milhões
de livros.
só em receitas publicitárias com a telecele pêtê cêpê
renô náique sequipe e ibêéle
fala-se de valores na casa dos champálimôs.
portugal é um país de poetas ricos.
a poesia dá dinheiro a portugal.
Poesia é chegar a casa. Poesia é o pouco tempo que levas entre chegar a casa e pores-te a dançar. Poesia é brincar e rir. E silêncio, onde às vezes se escrevem umas palavras. Quem escreve poesia deitado de costas, com os braços esticados, escreve no teto do silêncio. O que menos interessa na poesia é escrevê-la no teto do silêncio. Os exércitos do Kaváfis dominam a noite há muito tempo. Poesia é brincar e rir e se para nós não há corpos que se toquem, mesmo assim, caros leitores, vamos dançar.



sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Lanterna Mágica, uma autobiografia de Ingmar Bergman



The Magic Lantern

Book, 1987


Stockholm: Norstedts Förlag, 1987


Bergman's first autobiography. The book has a non-chronological structure, with altering chapters on childhood, theatre work, the tax affair in 1976, marriage crises, teenage summers in Nazi Germany, encounters with artists like Laurence Olivier, Greta Garbo, and Herbert von Karajan. Despite the title, the book contains quite little information on Bergman's filmmaking.



Diário de Notícias

ARTES

'Lanterna Mágica' os laços de família de Ingmar Bergman

por
pedro mexia13 Janeiro 2005

Na sua autobiografia Lanterna Mágica (1988, ed. port. Caravela, trad. Alexandre Pastor), Ingmar Bergman não surge afastado e obscuro, mas apostado numa evocação directa, frontal, acessível, mesmo um pouco crua nos detalhes e na linguagem. Depois do resumo feito em Fanny e Alexandre (1984), Bergman acrescenta uma adenda escrita sobre o seu mundo pessoal, certamente marcado pelo remorso e «desprovido de qualquer alegria» mas estranhamente próximo e humano, feito de «amor, patetice, traição, ira, comicidade, tédio».
.
Escrito em saltos cronológicos sucessivos, Lanterna Mágica acumula anotações, recordações de infância, sonhos, episódios aparentemente soltos. No começo está essa «lanterna mágica» que Ingmar, em criança, trocou com o irmão ao preço de uns tantos soldadinhos. É a imagem de uma vida dedicada à imagem, bem como de uma constante transfiguração de motivos pessoais, mágicos mas dolorosos. Desse modo, encontramos ao longo destas páginas o retrato complexo do pai, severo pastor protestante, e o retrato magoado da mãe, feito a partir de fotografias. A iniciação sexual de Bergman. Os seus problemas de saúde. Os casamentos e infidelidades. O teatro, da paixão por Strindberg à burocracia estatal. O incessante combate com Deus. As simpatias da família pelo nacional-socialismo. A perseguição fiscal movida pela Suécia ao cineasta de sucesso O assassinato de Olof Palme. O mestre Sjostrom. O encontro com Chaplin e Garbo. O elogio a Tarkovsky. A musa Liv Ullmann.
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Bergman não se detém sobre os seus filmes em termos de «temas» e «significados». Porém, nas detalhadas referências pessoais encontramos quase todos os «temas» e «significados» que serão depois continuamente retomados, filme após filme. Em dois momentos Lanterna Mágica assume mesmo uma feição cinematográfica, de ficção de câmara opressiva mas surdamente poética. Numa cena real (com o pai) e noutra imaginária (com a mãe), Bergman enfrenta o psicodrama familiar que define tantos dos seus filmes. De forma sempre brutal, com «máscaras em vez de rostos, histeria em vez de sentimentos, vergonha e culpa em vez de ternura e perdão».

CineSom.

Música e Cinema, não necessariamente nessa ordem.


Lanterna Mágica, biografia de Ingmar Bergman.

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Terminei essa semana a leitura de “Lanterna Mágica”, autobiografia do diretor Ingmar Bergman. E como se já não bastassem os comentários apaixonados que teci no twitter durante as duas últimas semanas que estive em companhia do livro, vou, aqui, dar-lhes minhas impressões finais.
Após assistir três filmes do diretor – O Sétimo Selo, Morangos Silvestres e Juventude – tive a impressão da qual muitos falam: para se ter a plenitude na interpretação de seus filmes, deve-se compreender a vida de Bergman.
Lançada por uma acanhada editora no Brasil – a Editora Nórdica – a edição do livro que não contêm mais que 300 páginas é, mesmo com todos os erros, louvável. Louvável porque o idioma original é sueco, portanto, por dificuldades lingüísticas, a distância entre o leitor e o autor seria grande – pelo menor desleixo do tradutor. Salvo alguns erros de datilografia e notas de tradutor inconvenientes, a Editora Nórdica cumpre bem seu papel.
Robban_Andersson_XP_Scanpix_HR_100_70_ingmar_bergmPois bem. Escrito em 1989, já isolado na Ilha de Färo, o diretor relembra-sa de particularidades da juventude e de sua experiência como cineasta. No início da leitura já podemos observar um assunto que tanto perdura na filmografia do diretor: a morte. Relatando sua infância, Bergman é carinhoso ao lembrar de sua ama-de-leite que desapareceu – divulgando-nos depois, que a mesma suicidou-se após descobrir estar grávida. A morte do irmão é, com pesar, relatada – mesmo que numa breve passagem. Mas o falecimento que causa mais remorso no autor é o de sua mãe. Dedicando o último capítulo à mesma, é com melancolia que se lembra de sua submissão perante o marido agressivo. O que pode ser visto no longa-metragem intitulado “Karin’s Face”, por meio de fotografias pessoais de sua mãe.
joi de vivre que, depois do casamento, deram lugar a passividade e melancolia.
E é também pelo pai, que Bergman retrata suas particularidades no livro. Os castigos e humilhações por este empregado, foram constantes e resultaram no que ele chama de “personalidade bergmaniana”. A frieza e falta de empatia para com seus parentais. O que causa remorso no filho pedante e, posteriormente, no pai ausente.
E em meio às relações amorosas turbulentas, uma paixão sucintamente detalhada pelo autor é o teatro. Suas passagens à vários teatros como diretor, seu perfeccionismo, atores preferidos… E Strindberg, romancista tão venerado pelo autor – e tão encenado em suas peças. E a tal “Lanterna Mágica”, também. Uma espécie de projetor que o garoto Bergman troca com o irmão por soldados de chumbo e que lhe proporcionam pequenas experiências cinematográficas importantes.
O caminho percorrido até se tornar diretor de cinema, a desilusão com a Hollywood americana, o processo do Estado da Suécia contra o diretor, o isolamento na ilha de Färo. Tudo dito sem pudores.
É indiscutível que vários diretores empregam vivências pessoais na concepção de seus filmes, mas Bergman foi o que mais fez uso de tal façanha. Os elementos oníricos que tanto vemos presentes em suas obras foram criados em base de experiências do diretor – como a cena inicial de “Morangos Silvestres”.
Por fim: a sinceridade com a qual o autor se abre no relato de sua vida faz com que “Lanterna Mágica” não seja apenas um livro para os interessados na carreira cinematográfica. São relatos humanizados – os mesmos que fazem de “Em Busca do Tempo Perdido”, de Marcel Proust, uma obra venerada.
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Ingmar Bergman (1918- ) - O cinema transcendental 


A obra de Ingmar Bergman compõe um dos mais ricos e essenciais capítulos da história do cinema.  Como poucos, o diretor se apropriou da linguagem para realizar um conjunto significativo que transcende a própria experiência cinematográfica.  Abordando temas intrínsecos à existência humana  – como desejo, morte e religiosidade –, o cineasta rompeu as fronteiras do cinema sueco e atingiu a universalidade.  

A relação de Bergman com o cinema antecede seu trabalho como profissional. Antes de estrear na tela, já havia descoberto o cinema como forma de expressão e até de sobrevivência. Aos 9 anos, no natal de 1927, não resistiu à tentação de ver o irmão presenteado com um projetor e sugeriu uma barganha definitiva para o futuro de sua vida:  trocou um exército de chumbo pelo cinematógrafo.  

Filho de pastor luterano, amargou uma criação autoritária, baseada em conceitos relacionados ao pecado, confissão, castigo, perdão e indulgência.  Em sua autobiografia, Lanterna mágica, Bergman faz relatos impressionantes. Sempre que contava uma mentira recebia castigos constrangedores, como desfilar vestido de menina ou ser trancafiado num armário.  É nesse período que vivencia sentimentos como vergonha ou humilhação, tão explorados em seus filmes.  

A iniciação profissional do diretor se deu através de um dos patriarcas do cinema sueco, Victor Sjostrom, homenageado em Morangos Silvestres, em que Sjostrom interpreta o protagonista que perde a noção da memória face à iminência da morte.  

Do mestre, diretor do clássico O Vento, com Lilian Gish, Bergman herdou a compreensão da natureza como elemento de sustentação drmática.  É o que ocorre, por exemplo, em Monika e o Desejo, onde o verão inunda a trama de sensualidade.Foi esse filme, por sinal, que despertou o interesse de Woody Allen pelo diretor sueco.  

Embora Bergman seja quase sempre lembrado por suas obsessões mais frequentes, como o passar do tempo, a morte e a impossibilidade de comunicação, presentes em filmes como Luz de inverno, O Sétimo SeloO Silêncio, Persona e tantos outros, o conhecimento mais aprofundado de sua obra revela um autor de talentos múltiplos. O Olho do diabo, Sorrisos de uma noite de Amor e Para não falar de todas essas mulheres são filmes de um bom-humor surpreendente, sobretudo quando se sabe que são filmes do mesmo autor de Vergonha, Face a face e Da Vida das Marionetes.  



Com larga experiência teatral (foi diretor do Teato Municipal de Goteborg , do Teatro de Malmoe e até hoje continua encenando), Bergman trabalhou em seus filmes com uma equipe que praticamente não se alterou. Harriet Andersson, Erland Josephson, Max Von Sydow, Ingrid Thulin, Liv Ullman e o insuperável Gunnar Bjornstrand são apenas alguns dos nomes imortalizados pelo seu cinema.  


Sem eles, não existiria essa obra feita a base de rostos, gritos, silêncios e sussurros. Apesar da fama mundial, Bergman não usufrui do mesmo prestígio na terra natal, a Suécia. Acusado de burlar o fisco, em meados da década de 70, caiu em desgraça.  Desde então, vive recluso na ilha de Faro, de onde só sai para encenar suas peças teatrais ou realizar especiais para a tevê. Fanny e Alexander, Oscar de 1985, foi seu último trabalho para o cinema. 

Ricardo Cota, 33, é crítico de cinema do Jornal do Brasil há oito anos, com passagens pelas revistas Cinemin, Set, Tabu, Cinema e IstoÉ, além do jornal O Dia. Foi autor dos cursos Bergman/Woody Allen: Dois Cineastas Face a Face; Huston/Coppola: Os jogadores;e O Cinema Cantado, Breve História dos Musicais.