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quarta-feira, 14 de março de 2018

José Saramago - Três paixões e as outras mulheres de um escritor

Memorial Do Convento
21 DE JUNHO DE 2010
01:00

MARIA JOÃO CAETANO
Memória. As três influenciaram, cada uma à sua maneira, a obra literária de Saramago: Ilda Reis, Isabel da Nóbrega e Pilar del Río

Do amor de José Saramago e Pilar del Río já tudo foi contado. De como em 1986 ela, jornalista, 36 anos, ficou maravilhada ao ler O Ano da Morte de Ricardo Reis quis vir a Lisboa fazer o percurso aí descrito entre o Hotel Bragança e o Cemitério dos Prazeres. De como telefonou ao autor para o felicitar e se encontraram e continuaram a trocar correspondência. E de como assim se foram apaixonando até se casarem em 1988. Ela, que já era fã de Saramago, tornou-se também a primeira leitora dos seus livros, corrigindo-os e traduzindo-os para castelhano. 'Comecei pelos livros', contou numa entrevista em 2001. 'Coleccionei-os antes de conhecer José. Posso dizer que gosto de falar dos livros de José Saramago porque já o fazia antes de o conhecer. Recomendei--os antes. Agora só tenho mais motivos para o dizer porque são os livros da minha vida.' Saramago transformou a vida de Pilar, primeiro com os seus livros e depois com o seu amor, explicava.

A cumplicidade do casal, que aparecia constantemente de mão dada, era visível. Com Pilar, José Saramago encontrou a paz e pôde, também, reconciliar-se com o passado. Embora se recusasse sempre, nas entrevistas que dava, a falar das suas anteriores paixões. Duas grandes paixões.

Com Ilda Reis esteve casado durante 26 anos. Conheceram-se quando ambos tinham 20 anos e nem ele era escritor nem ela era artista plástica. Saramago edita o primeiro livro em 1947, o mesmo ano do nascimento da sua única filha, Violante. Após o divórcio, pai e filha separam-se. Ela fica magoada pelo facto de o pai sair de casa para ir viver com Isabel da Nóbrega: 'Foi uma situação muito complicada para mim, de tal forma que há momentos que pura e simplesmente não guardei e não me lembro', contaria mais tarde a filha. E também existem divergências políticas: Violante militava no MRPP enquanto José Saramago era do PCP, conta João Céu e Silva no livro Uma Longa Viagem com José Saramago. Entretanto, Violante foi para a Madeira, Saramago encontrou Pilar. O tempo curou as feridas. Lentamente. Em 1998, depois do Nobel e da morte de Ilda Reis, a relação entre pai e filha já estava normalizada.

Antes disso, já tinha nascido Ana, filha de Violante, que aos 18 anos veio estudar para Lisboa, instalando-se na casa do avô na Estrela. Apesar de Saramago e Pilar viverem já em Lanzarote, Ana pôde finalmente conhecer o avô. 'Quando nos aproximámos eu já era madura (...), o que acabou por tornar a nossa relação muito sólida, muito próxima e muito de igual para igual', contou a Céu e Silva. Podiam 'ter conversas, discutir, argumentar, concordar e discordar'. 'Para além de escrever como escreve, é um prazer ouvi-lo falar', dizia a neta. O irmão, 12 anos mais novo do que ela, já não teve oportunidade de o conhecer assim, antes do boom do Nobel.

Depois de Ilda, antes de Pilar, houve ainda outra mulher: a escritora Isabel da Nóbrega. Conheceram-se no jornal A Capital, em 1968, e ela ficou logo caída por aquele olhar 'de quem estava a sofrer'. 'Aos poucos começou a haver um certo encantamento entre nós', contou ela, mais tarde. 'Um dia disse-lhe: agora você vai escrever crónicas' - e terá sido assim que nasceu um escritor e uma paixão. Viveram juntos durante 16 anos, período durante o qual Saramago escreveu, entre outros, Deste Mundo e do Outro (1971); Levantado do Chão (1980) e Memorial do Convento (1982) e O Ano da Morte de Ricardo Reis (1984) - todos eles nas suas primeiras edições tinham uma dedicatória a Isabel, a quem chamava de 'bruxinha'. Que o influenciou, ajudou e incentivou: 'Fui eu que o levei a Mafra. Ele não queria ir e eu disse--lhe que ele ia ficar esmagado, espantado, porque era uma coisa para ele. E lá, disse-me que até gostava de pôr aquilo num livro. E foi o Memorial do Convento.'


https://www.dn.pt/dossiers/gente/jose-saramago/perfil/interior/tres-paixoes-e-as-outras-mulheres-de-um-escritor-1598897.html

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Pilar del Rio: “José foi uma maldição”


JOÃO LIMA
Diz que chegou a Portugal como o “apêndice” de um homem e que, por cá, não faz parte da memória de ninguém. Mas carrega o peso de um legado imensamente português, que ajudou a construir. O trabalho na Fundação Saramago valeu-lhe o Prémio Luso-Espanhol de Cultura, que receberá em maio


ALEXANDRA CARITA

LUCIANA LEIDERFARB
texto

JOÃO LIMA
fotos

Recebe-nos no gabinete que ocupa na Fundação Saramago. E, mal abre a porta, a luz: Pilar é alta, bonita, exuberante, jovem. Uma jovem de 67 anos — idade que, dirá, não encontra em nenhuma parte do seu corpo. Rapidamente somos puxados para dentro do seu turbilhão, esse que a levou a criar esta casa há uma década, a casar com “um dos cidadãos mais completos do século XX”, 30 anos mais velho do que ela, a abdicar de uma carreira de jornalista, a mudar de pele, de país, a não parar de trabalhar, mesmo que o cansaço por vezes se imponha. E quem é esta mulher? Alguém que não quer morrer numa “decadência ostensiva”. Que não corresponde, nunca correspondeu, a estereótipos ou normas sociais. Que acorda todos os dias para viver “da e com a memória”, consciente de ter sido protagonista de uma experiência que muitas mulheres gostariam de ter tido. Uma “maldição” que ainda hoje, sete anos passados sobre a morte de José Saramago, a afasta de refazer a vida, porque, simplesmente, não lhe apareceu à frente outro igual a ele.

Sabendo que não gosta que lhe 
chamem a viúva de Saramago, quem é Pilar del Río hoje, aos 67 anos?
Não gosto que me chamem ‘viúva de’ porque ninguém me chamou ‘mulher de’ enquanto Saramago foi vivo. Isto por duas razões: porque tinham de enfrentar Saramago e tinham de me enfrentar a mim. Cada um de nós é o produto de si próprio. Não somos nem do pai nem do filho. Somos o que queremos ser. Nunca fui a mulher de Saramago nem serei a viúva dele, por respeito a Saramago e a mim própria.

E então quem é essa Pilar?
Uma mulher que não corresponde a estereótipos como o bom comportamento ou às normas sociais que se esperam de alguém que já tem uma idade. Talvez porque essa mulher ainda não consiga encontrar os 67 anos em nenhuma parte do seu corpo. Claro que me olho ao espelho, mas acho que o que está mal é um problema do espelho. Sou uma pessoa que todos os dias, ao acordar, pensa no que quer fazer da sua vida. Não tenho ainda um caminho definido. Ou seja, não estou reformada de nada. Faço a minha vida como quando tinha 20 ou 30 anos. Vou trabalhar. Não quer dizer que não tenha problemas. Tenho-os, de saúde...

Não sente que abdicou de uma carreira?
Sinto que tive um impasse. Isso também me dizia o meu marido, que eu tinha abdicado de uma carreira para estar com ele, para participar e estar no seu projeto, e, de facto, fui parte ativa nesse projeto. Mas ele também dizia, nos últimos anos da sua vida e pensando nestas coisas da internet (fiz-lhe um site), que eu tinha voltado à minha antiga profissão, a de jornalista. A contar, a dizer, a compor... Se calhar, estou de volta ao projeto inicial da minha vida.

Essa mulher que está no seu projeto original persegue um caminho, quer alguma coisa. O que é?
Tendo conseguido que esta fundação funcione e que tenha gente entre os 30 e os 40 anos, essa mulher não quer morrer numa decadência ostensiva.

Porque é que se tornou jornalista?
Porque gostava de contar coisas que antes gostava de ouvir. Acima de tudo, sou uma ‘ouvidora’, oiço, oiço todo o tipo de gente em todo o tipo de circunstâncias. Tudo me maravilha. Nasci para me maravilhar com uma bola que rebola, com uma estrada que está a ser arranjada... Gosto de contar essas coisas. Tive um programa de rádio há muito tempo, já depois de ter conhecido o José, chamado “Blimunda Não Se Rende”. Nele contava as maravilhas que Blimunda, que era pobre e sozinha, ia encontrando no mundo.

É mais fácil viver quando se acredita no mundo e se está maravilhado 
com ele?
Eu não acredito absolutamente nada num mundo que está a ser governado por gente em que não acredito nem quero acreditar. O que não me maravilha são todas as insolências e as perversões que os poderes económicos praticam no mundo e as guerras que criam. Maravilha-me que haja refúgios e momentos de harmonia e de poesia. Fomos feitos para sermos seres passivos e sofredores, estamos preparados para ser a massa no que respeita aos conceitos de política e ao domínio do social e fiéis no que concerne à religião. Maravilha-me que de repente haja gente que é ela própria e que é feliz.

A religião fez parte da sua vida...
Nunca vi Deus. O que me atraía na religião era uma forma bonita de relação com os seres humanos, que acontecia através da caridade cristã, entendendo a caridade como amor. Mas isso foi antes de descobrir que acima da caridade estava a solidariedade. Esse momento teve a ver com a minha chegada à faculdade, com a possibilidade de partilhar, com as melhores pessoas, as ideias de liberdade, contra a tirania e a ditadura, ideias que vieram também com a leitura. Hoje descubro que a caridade, no seu sentido etimológico de amor e de partilha, também me interessa muito.

Quando é que percebeu que Espanha vivia numa ditadura?
Desde sempre. Em criança sabia que vivíamos num país criado por obra e graça de Deus. Sabia que Deus tinha criado Franco para fazer o país preferido dele.

Aprendeu-o na escola?
Não foi preciso, já o tinha aprendido em casa: Deus criou Franco e Espanha! Claro que, ao crescermos, nos apercebemos de que o mundo é maior do que Espanha. Damo-nos conta disso por uma notícia num jornal, um livro que lemos... Com 14 ou 15 anos descobres que há países onde se vota e aos 18 já sabes que em Paris está a acontecer muita coisa. Tudo começa a encaixar-se, a fazer sentido. E, com a mesma naturalidade que se aceitou fazer a primeira comunhão, aceita-se deixar de ir à missa. Lembro-me perfeitamente da última vez que me fui confessar: o padre perguntou-me se já tinha acabado, e eu respondi-lhe que sim, mas que havia coisas que não lhe ia dizer. Não ia confessar o amor nem que estava com o homem que escolhi, o meu primeiro marido.

No entanto, casou com ele pela Igreja e batizou o seu filho...
Fi-lo para não dar um desgosto à minha mãe, que vivia uma guerra civil e não tinha de suportar as iras do meu pai. Porém, a palavra ‘família’ provoca-me fastio, repugna-me. Faz parte do ADN que te dão a conhecer: Estado, Família e Religião; Deus, Pátria e Família, se quiserem. Vi tudo isso em casa. Fi-lo para não aumentar o conflito entre a minha mãe e o meu pai. Para mim, era igual, queria lá saber da religião. Casei-me pela Igreja porque a religião não me dizia nada. Era como pôr um vestido comprido para ir a uma festa social ou usar uma joia, tanto me fazia. Deus não significa nada para mim. Se há um Deus, ele vai perceber que tudo o que inventaram à sua volta é uma merda. Quero que haja um Deus para lhe pedir contas sobre o que fez aos seres humanos, às mulheres.

De onde vêm as suas convicções?
De um mundo cheio de pobres diabos. Vivo com seres humanos que tentam levantar a cabeça e não conseguem, porque lha cortam.

Disse que em sua casa havia 
um conflito e que rejeita a ideia 
de família. Porquê?
Rejeito-a porque tenho os olhos abertos para o que acontece no mundo, as hipocrisias e mentiras que se fazem e dizem por aí. Descobri isso ao ver “O Último Tango em Paris”, de Bernardo Bertolucci, em especial o momento em que ele se vira para ela e lhe diz: “Mete o dedo no cu. A que cheira?” Era uma boa família! Quer isto dizer que as primeiras mentiras que o ser humano diz — porque se chegou tarde a casa, porque se precisa de qualquer coisa, porque se tem medo — são à família, em família. Na minha casa, o conflito traduzia uma sociedade patriarcal a viver numa ditadura política e religiosa. Havia o nacional-catolicismo. Eu não sabia quem era mais importante, se Deus, se Franco. Tinha dias. Qualquer coisa que saísse do âmbito do nacional-catolicismo era um problema, e se fosses respondona como eu eram problemas acrescidos. A última vez que o meu pai me deu uma bofetada já eu tinha 23 anos.

O que fez?
Fui-me embora, estava de férias e fui ter com o meu namorado. Até a minha mãe me apoiou. Bateu-me porque eu estava a defender uma irmã adolescente que tinha chegado a casa 10 minutos atrasada.

Percebe-se que a relação com o seu pai era complicada...
Não era complicada, porque nem sequer tive uma relação com o meu pai. Não se têm relações com os pais. Os pais existem para mandar em nós.


Trabalhar. É o que Pilar faz todos os dias, desde que assumiu a presidência da Fundação Saramago, a completar uma década. Na foto lê a passagem de “Jangada de Pedra” em que Saramago descreve o primeiro encontro entre os dois
JOÃO LIMA

O que faziam os seus pais?
O meu pai era um tipo singular. Foi frade dominicano e depois aviador e agente de seguros. A minha mãe, submissa, tinha de ‘se defender’ de 15 filhos e do marido. Era uma mulher extraordinária.

E como é ser a mais velha 
de 15 irmãos?
Não sei, acho que gostava de ter sido a mais nova de todos. A verdade é que partilhei a responsabilidade com a minha mãe na hora de tomar decisões, assim como as tarefas diárias, que iam de pôr toda a gente na escola a dar de comer e vestir... Foi um excesso de responsabilidade, do qual beneficio hoje em dia.

Tentou ser diferente como mãe?
Fui uma má mãe, porque sempre pensei que seria a vida a educar o meu filho e não eu. Nunca pensei no que queria ser como mãe, tinha outras coisas que fazer.

Que relação mantém com o seu filho, hoje já com 40 anos?
Trato-o como uma pessoa que é independente e que está a trabalhar. E está a trabalhar sobre Saramago.

O que é que faz?
É uma história linda. O meu filho estava a viver na Argentina, pois detestava a ideia de estar num país onde tivesse de se relacionar com o José ou comigo. Mas quando o José adoeceu a sério, perguntou-me se eu queria que me viesse ajudar. E veio da Argentina para Lanzarote com um amigo e fez com que a minha casa nunca fosse uma enfermaria. Ficaram até ao dia em que o José morreu. Neste momento está em Lanzarote a fazer visitas guiadas à casa todos os dias.

Houve um antes e um depois 
de Saramago?
Claro. Eu trabalhava como jornalista, tinha um programa e vivia num país. O facto de estar com José Saramago fez-me deixar um posto de trabalho estupendo e vir para um país onde não faço parte da memória de ninguém, nem então nem agora. Antes estava com o José, agora estou com a memória do José.

E quem é a Pilar depois do José?
Uma mulher muito mais velha, com uma experiência maravilhosa que muitas das mulheres que conheço, e mesmo algumas que não conheço, gostariam de ter tido. Sou uma privilegiada, vivi uma história absolutamente singular que partilho de manhã à noite todos os dias na fundação, na casa de Lanzarote, na Azinhaga. Vá para onde for, partilho essa história, porque é demasiado grande para a guardar só para mim: é a história de um dos cidadãos mais completos do século XX, uma pessoa que nasceu para ser massacrada e não o foi, que se levantou do chão, que se fez a si próprio, que não precisou de ser ‘filho de’, que nem sequer tinha o apelido do pai. Uma figura que os burgueses de mente curta ainda não conseguem compreender. Aqueles que não entendem a literatura de Saramago ou o próprio Saramago têm de ir a um especialista, pois são egoístas ou doentios ou têm uma conceção da vida demasiado elitista. Mesmo os que não concordam com Saramago não podem negar que ele os arrasa. Saramago é a-rra-sa-dor, um tipo que em menos de 30 anos construiu uma obra como esta. Alguém que escreveu “O Evangelho segundo Jesus Cristo”.

Fala de uma elite que ainda não compreendeu Saramago. Alguma vez se zangou com Portugal?
Não. Para mim, não existem países. Tenho semelhantes. O que é que herdei do franquismo? A repulsão pela bandeira.

Então reformulemos: alguma vez se zangou com os semelhantes 
de Saramago?
Zanguei-me com os espíritos pequenos, ou melhor, com o comportamento de alguns indivíduos, sobre os quais só me ocorre dizer “coitados”. Esses que escrevem uma coluna em Portugal e teorizam e dogmatizam, mas não chegam nem à raia de Badajoz. Passando Badajoz, não são ninguém. Não suporto quando começam com a conversa de que Saramago saneou não sei quantas pessoas. Não, desculpem, o diretor literário não faz saneamentos, foi a administração, há provas. E escrevem isso em jornais que mal pagam aos seus colaboradores, que mal pagam aos seus redatores e que põem na rua jornalistas. Mas esses não são saneados. Têm ódio à revolução, no fundo querem ser aristocratas. Mas não são!

Como é que um encontro pode 
mudar uma vida?
Não tive consciência de que a terra tremeu. José Saramago sim, e descreve-o na “Jangada de Pedra”. Eu não. Senti tudo isso com uma enorme naturalidade. Saí do encontro com ele e disse: “Vai acontecer qualquer coisa!” Cheguei a Espanha, e a primeira coisa que fiz foi telefonar à pessoa com quem namorava na altura para lhe dizer que não íamos continuar. Passou junho, julho, agosto. Em setembro recebi uma carta: “Se as circunstâncias da vida mo permitirem, gostaria de te ir ver.” Já me tinha dado recomendações de leitura, a nossa correspondência nesse sentido era quase ditatorial. Eu tinha de ler “Uma Família Inglesa”, de Júlio Dinis, o “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco, a Agustina Bessa-Luís, a Lídia Jorge...

Soube logo que ia dedicar-se a este homem?
Dedico-me à vida, aos meus irmãos, e se na vida está o meu marido dedico-me a ele; se está a fundação, dedico-me a ela. Ou seja, sou uma mulher dedicada. Mas, sim, dediquei-me a ele de corpo e alma, sabendo que era uma pessoa inesgotável. Começava uma conversa que nunca dava por terminada, porque tinha sempre pontos de vista diferentes, tal como a sua literatura. Era uma pessoa com uma formação infinitamente superior à minha. Foi uma maldição.

Maldição?
Sim, depois de o ter conhecido já não consegui gostar de mais ninguém.

Nunca pensou em refazer a sua vida?
Com quem? Deem-me outro. Só teria reconstruído a minha vida se tivesse aparecido alguém assim por quem me apaixonasse. Acho que os homens se impressionam com isso, que não querem ser comparados.

Como era ser 28 anos mais nova e 
saber que sobreviveria a esse amor?
Tínhamos isso muito claro e preparámos tudo. Uma vez, Madalena Perdigão disse-me, pouco tempo depois de a conhecer, que tinha uma relação com um homem mais velho e que isso a fazia sofrer muito, pois a sociedade não a entendia. A sociedade só percebe o lugar-comum. Acontece que ela morreu dois anos depois e o marido viveu quase até aos 100. O José e eu sabíamos que era uma lei da vida. E numa conversa ao almoço em Lanzarote, com dois amigos espanhóis, surgiu a ideia de fazer uma fundação para tomar conta do seu legado humanista — não de uma herança ou de uma biblioteca. Saramago primeiro não achou grande ideia, mas a conversa continuou e, no final, disse-me que, se eu lhe sobrevivesse, queria que me ocupasse da fundação.


Legado. Foi num almoço em Lanzarote que surgiu a ideia de criar uma fundação. Saramago acabou por anuir e disse a Pilar que, se ela lhe sobrevivesse, queria que avançasse com o projeto
JOÃO LIMA

Uma vez disse que ele queria que 
“o continuasse”. Como se continua José Saramago?
É terrível. Pelo menos, Saramago tinha uma companhia, eu não.

Sente-se sozinha?
Não. O problema é quando viajo. Nos últimos dois anos tem sido mais difícil viajar sozinha, com uma mala, de aeroporto em aeroporto, para compromissos relacionados com Saramago. No penúltimo país que visitei tive uma quebra, pensei que ia morrer, tive de tomar um tranquilizante. Sou a escrava, a protagonista e a que apanha os copos. Ou seja, há de chegar o dia em que não conseguirei fazer mais. O José não tinha de fazer a mala, não ia sozinho. Falava e era Deus. Eu não sou Deus e tenho de falar como Deus. Sou recebida por chefes de Estado, estou presente em conferências, em todo o tipo de situações. A vida é complicada.

O que significa para si a Fundação Saramago?
É a residência do pensamento do José. As editoras só publicam livros para ganhar dinheiro. É um negócio. Mas quem trabalha o pensamento de José Saramago? Já não há editoras que publiquem ensaios. Então somos nós que o fazemos. Exemplo disto é a “Proposta de Declaração Universal dos Deveres Humanos” — que tem a ver com a nossa obrigação de retribuir à sociedade e vai ser apresentada à ONU — ou a difusão do teatro. Houve teatro de Saramago em Portugal, em Espanha, em Itália, óperas... Alguém se deu conta? E quem leva isto para a frente? Os herdeiros? Eles têm a sua própria vida e não lhes pode cair o legado em cima. É a fundação que se ocupa de tudo.

Com uma vida como essa, porque aceitou ser administradora da TVI?
Uns amigos ligaram-me e pediram-me para aceitar o cargo. Eu estava numa apresentação de Vargas Llosa e não podia atender o telefone e acabei por responder por mensagem. A proposta em si era tão surpreendente que não sabia o que dizer ou fazer. No entanto, pensei: se não for eu, vai ser outro. E porque não estar lá uma pessoa tão vincadamente de esquerda? Eu sou uma pessoa de esquerda e muito antissistema.

E o que faz como administradora não executiva?
Só participei em reuniões, espero agora poder participar em algo mais. Mas o que faço é basicamente aprovar as contas e um pouco da linha editorial. Não posso chegar ao Conselho de Administração de uma empresa a opinar, cheguei a ouvir. Agora espero mais.

Sentia saudades de estar num meio de comunicação social?
Há 20 anos teria respondido que sim. Queria ser diretora do “El País”. Estava muito irritada, e ainda estou, pelo facto de quase não haver mulheres nesses cargos. O meu jornal ideal seria aquele que me deixasse ser mulher e dar a minha opinião, sem prestar tanta atenção à lógica do mercado, mas sim à dos leitores.

Não é ingénuo pensar que isso 
é possível?
O que nos ensinaram já não faz parte daquilo a que se chama ‘fazer jornais’. Já não contamos o lado obscuro das coisas. Pelo contrário, somos os que beneficiamos os interesses do poder. Estamos ali para esconder as falhas do sistema capitalista e não para trabalhar para uma sociedade que se quer socialista na sua essência.

Acredita no jornalismo independente?
Acredito muito nas pessoas, mas cada vez que um jornal tratou de levantar a cabeça e fazer frente ao poder económico foi abafado. Um jornal progressista, independente, tem de fazer imediatamente concessões. E tudo acaba por não passar de um jogo de concessões.

Voltando atrás, quem é hoje a sua família?
Em Portugal não faço parte da memória de ninguém. Estou muito só, mesmo que esteja rodeada de gente fantástica aqui na fundação. A minha família é a memória. Irrita-me dizê-lo, mas vivo da e com a memória — embora seja uma memória que projeta, uma memória para o futuro. Tenho amigos adoráveis, um grupo de amigas em Sevilha... E tenho a tribo — é assim que chamamos a nós mesmos em família. Eu saberia dizer o que estão agora a comer os 15 membros da tribo, ou seja, os meus irmãos. Sei que nunca mais me vou encontrar com o José, que ele nunca me vai poder dizer se estou a fazer bem ou mal.

Porque é que insiste em dizer 
que não faz parte da memória 
de ninguém?
Porque não faço. Cheguei com 40 anos e não tenho a chave, o código, para as pessoas daqui.

Não se está a subestimar?
Não, sou realista. E a realidade é a minha idade. As pessoas andam para trás, recuperam momentos do passado, e eu não estou lá. Cheguei tarde, já bem crescida, como o apêndice de um homem. E durante os 25 anos que vivi com ele não tinha existência real, era uma sombra. E agora tenho uma existência real relativa.

Relativa como?
Não sei se as pessoas se dirigem a mim como a um ser humano que querem agarrar ou beijar ou como a uma mulher que tomou decisões que Saramago nunca tomaria. Em Granada e em Sevilha existo como pessoa e companheira de trabalho. Em Portugal não existo sem Saramago.

Gostava de mudar isso?
Teria de ter vontade de o fazer, e se calhar já não tenho. Mas é curiosa a quantidade de viúvos que Saramago tem. Um dia, aqui no meu gabinete, contaram-me como foi o casamento de Saramago. Foi comigo que ele se casou! Não se lembram? Não me veem?

Mas há muita gente que a conhece...
Não sei se me estão a ver a mim ou à sombra de Saramago, mas houve um tempo em que tive a ilusão que me estavam a ver a mim. Agora desconfio sempre. Já não sei quem me olha, porque me olha, que olhar é esse.

No fundo, fala da sua individualidade. Como a manteve sendo tradutora de Saramago e o seu braço-direito?
Mantive-a sempre, mas ninguém o sabia. Isso fazia parte da nossa intimidade, onde cada um era livre. Não estávamos comprometidos nem com partidos políticos, nem com Estados, nem com nacionalizações, nem com o casal que formávamos... Éramos um projeto, trabalhávamos juntos. Quando decidíamos o que íamos fazer, não o fazíamos em função de Saramago, mas do projeto e da agenda, do livro que se estava a escrever ou a traduzir. Trabalhávamos para um projeto no qual participavam outras pessoas, a que chamávamos ‘saramaguitos’.

Como foi traduzir Saramago?
Foi uma ousadia própria da juventude. Eu lia os originais das traduções que mandavam a Saramago e muitas vezes não estava de acordo. Mas ele tinha um tradutor muito bom, que era professor catedrático da Universidade de Barcelona, e quem era eu para opinar... O tradutor veio à apresentação espanhola de “Ensaio sobre a Cegueira”, de óculos escuros e de bengala: “Venho à apresentação deste livro consciente de que será o último que traduzirei, porque estou a ficar cego.” Não ficou cego, exagerou um pouco. Mas eu já lhe tinha dito que a partir dali traduziria eu! Fi-lo porque era ousada, senão nunca teria traduzido Saramago.

Que relação tem com a família do seu marido?
A neta trabalha aqui na fundação e a filha, que vive no Funchal, também faz parte da organização. Mas como está longe relacionamo-nos menos. É uma relação sem problemas, cordial.

Já disse que não gosta de bandeiras. Porque é que escolheu ter a nacionalidade portuguesa?
Para pagar impostos em Portugal. Não vou pagar por José Saramago fora de Portugal. E a verdade é que o Governo se portou muito bem, pois fiz um pedido normal e responderam-me logo. Ao cabo de dois meses já tinha a nacionalidade e já podia apresentar a declaração de impostos aqui. Pago muito mais aqui do que pagaria em Lanzarote, mas agora tenho legitimidade para criticar o Governo e o Estado ao qual pago os meus impostos. Fico colérica de cada vez que gastam mal o dinheiro.

Como é que essa formalização da relação com Portugal se conjuga com o ideal de uma Ibéria sem fronteiras?
Sabe, no outro dia deram-me o Prémio Luso-Espanhol de Cultura, por eu servir de ponte de comunicação entre Espanha, Portugal e América Latina, segundo o júri. Fiquei muito feliz. Como na “Jangada de Pedra”, creio que é para lá que caminhamos, para a América Latina. E servir de agente de comunicação entre culturas parece-me muito importante. Sugeri que mo entregassem em finais de maio, na Feira do Livro de Madrid, cujo país-tema será Portugal. Não sou mulher de salões nobres.

http://expresso.sapo.pt/cultura/2017-04-30-Pilar-del-Rio-Jose-foi-uma-maldicao

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Esposa de Saramago: Obra póstuma é um 'presente inesperado'

Cultura

Vermelho - 17 de Fevereiro de 2011 - 15h24
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A um dia da véspera de completar oito meses da morte do escritor José Saramago, a cidade de Barcelona homenageia o Nobel português com diferentes eventos, um deles relacionado com sua obra póstuma, "El Último Cuaderno", que nesta quinta-feira sua esposa, Pilar del Río, considerou como "um presente inesperado".
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Com prefácio escrito por Pilar e pelo italiano Umberto Eco, "El Último Cuaderno" reúne os textos que Saramago escreveu de forma assídua em seu blog pessoal, entre 23 de março de 2009 e 2 de junho de 2010, 16 dias antes de morrer em Lanzarote.

Reflexões íntimas, comentários sobre política, pensamentos e simples opiniões dos temas mais diversos compõem o livro.

Pilar também revelou que está trabalhando na edição de um romance inédito, que se titulará " Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas", embora pouco pôde antecipar, porque tem que conhecer exatamente o que foi escrito sobre esta obra.

Durante sua presença, a esposa de Saramago também anunciou que a partir do dia 18 de março abrirá ao público a casa de Lanzarote (arquipélago espanhol das Canárias). O escritor nunca havia discutido com Pilar esta possibilidade.

Na sexta-feira, a programação de homenagens exibirá o filme documentário "José e Pilar" na Universidade Autônoma de Barcelona. O filme é obra do diretor português Miguel Gonçalves, que relata a intensa vida e as viagens do casal.

Com EFE
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Cinema2000PT | 15 de Outubro de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Comentários em http://www.cinema2000.pt/ficha.php3?i... Data de estreia: 18 de Novembro de 2010. Produtora/distribuidora: JumpCut. Todos os direitos reservados.

Documentário de abertura da 7.ª edição do DocLisboa.

"A Viagem do Elefante", o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme transportado desde a corte de D. João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para «José e Pilar», filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Río.

Mostra do dia-a-dia do casal em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo, «José e Pilar» é um retrato surpreendente de um autor durante o seu processo de criação e da relação de um casal empenhado em mudar o mundo - ou, pelo menos, em torná-lo melhor. «José e Pilar» revela um Saramago desconhecido, desfaz ideias feitas e prova que génio e simplicidade são compatíveis. «José e Pilar» é um olhar sobre a vida de um dos grandes criadores do século XX e a demonstração de que, como diz Saramago, "tudo pode ser contado de outra maneira".

Realização: Miguel Gonçalves Mendes.
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jumpcutportugal | 22 de Outubro de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
José e Pilar
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José & Pilar: Um filme "dos vivos para os vivos"


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  • Data: 12/10/10 - Duração: 00:07:42

“José e Pilar” é uma janela para a vida quotidiana de José Saramago e Pilar del Rio. Um mundo a que o realizador Miguel Gonçalves Mendes teve acesso e que filmou ao longo de quatro anos. Na recta final da edição do documentário, Miguel Mendes recebeu a notícia da morte de Saramago. O filme seguiu o caminho previsto, sem desvios de percurso nem cedências. Este é um filme "dos vivos para os vivos", diz Miguel Mendes.
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quinta-feira, 22 de julho de 2010

Viaje por Saramago - PILAR DEL RÍO

Viaje por Saramago

FOTOS - NAVIA - 16-07-2010

"No es verdad. El viaje no acaba nunca. Solo los viajeros acaban. E incluso estos pueden prolongarse en memoria, en recuerdo, en relatos. [...] Hay que volver a los pasos ya dados, para repetirlos y para trazar caminos nuevos a su lado. Hay que comenzar de nuevo el viaje. Siempre. El viajero vuelve al camino".- NAVIA
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REPORTAJE

Viaje por Saramago


PILAR DEL RÍO 18/07/2010
 
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Este es un homenaje a un premio nobel de literatura fallecido hoy hace justo un mes. con las sentidas palabras de su viuda y las evocadoras imágenes que, basándose en diferentes pasajes de sus libros, el fotógrafo tomó por El Alentejo, Trás-Os-Montes, Lisboa, Mafra y Granada
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José Saramago escribía libros y abría puertas por las que transitamos hacia una cultura, otros escritores, un modo de entender la vida, un país. Supimos un día que Portugal tiene el tamaño adecuado para que una mujer, Blimunda, lo recorra a pie buscando a su hombre, al que acabará encontrando minutos antes de que la Santa Inquisición lo queme vivo por el nefando crimen de haber ayudado a juntar voluntades humanas y así volar en una pasarola que recorrió los cielos de Lisboa, Mafra, la sierra de Montejunto y los mares de Ericeira en un viaje único porque un fraile culto, un hombre manco y una mujer con poderes juntaron pensamiento y arrojo, valores humanos a los que no renunciaron pese a la amenaza de pagar por ello un precio tan alto como alta es la propia vida, la de cada uno, la de todos. La trinidad laica que formaban Blimunda, Baltasar y Bartolomeu entre sueños y estrecheces oyó tocar a Scarlatti porque la música es aérea y él cómplice en la elevación de los seres humanos, mientras, más allá de los acordes, trabajadores reclutados a la fuerza por el ejército de Don João V construían un convento palacio para conmemorar el nacimiento de Maria Bárbara, y por el que hoy pasean los turistas con Memorial del convento bajo el brazo. Y por llevar el libro entienden mejor la arquitectura y la naturaleza humana. Íntimamente mejor.
    José Saramago

    José Saramago

    A FONDO

    Nacimiento:
    1922
    Lugar:
    Azinhaga
    Portugal

    Portugal

    A FONDO

    Capital:
    Lisboa.
    Gobierno:
    República.
    Población:
    10,676,910 (est. 2008)

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En la raya con Extremadura está el Alentejo. Dice Saramago, por haber mirado tal vez desde la moderna altura de un avión, o desde su estatura, quién sabe, que lo que más hay en la tierra es paisaje, a no ser, añade, la abundancia de penas y tantos sueños sin cumplir de gente que él ha conocido bien, los campesinos sin tierra del Alentejo que cruzaron su tiempo esperando el día levantado y principal en el que pudieran decir, por fin, aquí estamos, somos y merecemos lo que la historia nos viene negando. Ese día en que los vivos y los muertos se juntarían en un desfile alegre, al que no faltaría el perro Constante, ni los Maltiempo que se sucedieron en una dinastía siempre pobre, de trabajar de sol a sol, de mudarse de un lugar a otro, estos olivos, estos campos sin sembrar, esta lluvia, el ajuar sobre un burro, el colchón, la olla, poco más tenemos que estos hijos, van al desfile Juan y su mujer Faustina, que juntos comieron pan y chorizo una noche de invierno, y Sara de la Concepción y Domingo Maltiempo, todavía con la soga al cuello, la soga con la que se ahorcó por culpa del vino y del mal vivir, o Tomás Espada con Flor Martinha, tanto tiempo esperándote, decía ella, o la hormiga mayor, que vio en Monte Lavre cómo torturaban a Germano Vidigal mientras ella arrastraba provisiones con las que pretendía llegar hasta el día del desfile, un tiempo en que ninguna policía política mataría a golpes a un hombre, relato verdadero que Saramago reconstruye en Levantado del suelo y que no pudo volver a leer nunca porque no era capaz de aguantar tanta brutalidad. Para distanciarse eligió, a la hora de narrar, el punto de vista de la hormiga, sin saber, o intuyéndolo, que hasta las hormigas, con sus minúsculos cerebros, expresarían alarma, quiénes son estos, de qué vientre han nacido para creerse dueños de otros que también han nacido de vientres, tan iguales todos al nacer, con el mismo futuro, de no mediar las hambrunas y otras maldades que confunden a la genética y ofenden a la ética.
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Los paisajes mueren porque los matan, no porque se suiciden. El río Almonda, que pasa por Azinhaga, vio nadar cuerpos jóvenes y en sus aguas se lavaron miles de sábanas que luego, al caer la noche, olían a juncos, que era el olor a limpio de la ropa de los pobres. Ahora nadie podría bañarse en esas aguas, el filósofo tendría que callarse, ni una vez siquiera se podría gozar de la amable tibieza de un río del que se conocen todos los recodos y entrar en él es como entrar en un cuerpo bienamado. Cortaron los olivos, contaminaron el paisaje, se quedó la gente que a sí misma se sucede, los azules de las fachadas, las calles que ya no son de tierra, el recuerdo de unos abuelos altos, que cuidaban cerdos, las estrellas, que dicen que son las mismas, o tal vez sean el reflejo de lo que ya no está. Azinhaga, Ribatejo, caballos a lo lejos, en casa una cama pintada, un fogón, unas sillas, una mesa, un Portugal íntimo y precioso, descrito en Las pequeñas memorias, un país de recuerdos que nos une a todos en las mismas emociones y los mismos desconsuelos. Así éramos, no sabemos lo que hemos ganado ni lo que hemos perdido, no está inventada la máquina de medir la dimensión de la humanidad que transportamos.
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El viaje no acaba nunca. Decían que en Orce, Granada, encontraron al hombre más antiguo de la Península. Saramago le dio nombre, le puso Pedro Orce y se fue a ver los caminos de esa región meses antes de hacerla suya para siempre. Entró en cuevas que son casas, conversó con pastores que son nuestros contemporáneos aunque reproduzcan modos de vida que se pierden en el tiempo, tan duros y tan antiguos, juntó en un dos caballos a cinco andantes, tres hombres, dos mujeres, sujetos libres que vivieron proezas antes nunca imaginadas, y más tarde Saramago escribió que no existe ninguna novela que no tenga palabras de más, aunque a otras le falten páginas, de modo que escribió un capítulo nuevo para La balsa de piedra, otro viaje dentro del viaje para ver cómo nacen los ríos, y acabar diciendo, ante las aguas claras y ágiles del Castril, que mirándolas "el tiempo tiene otro sentido, como un instante de eternidad en la atroz brevedad de la duración humana. La nuestra".
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Dice Saramago que a Portugal se entra por Camões. También por Eça de Queiroz, por Teixeira de Pascoaes, por Camilo Castelo Branco, por Sophia de Mello Breyner, por los poetas, luminosa constelación, por Fernando Pessoa, siempre por Fernando Pessoa en su estupenda complejidad. Hace años escribió José Donoso que si Lisboa desapareciera pero quedara un ejemplar de El año de la muerte de Ricardo Reis, el espíritu de la ciudad estaría salvado. La ciudad que se mira a sí misma, desconfiada, arañada de caminos que se cruzan, para ir, tal vez para volver, raíles de tranvías, calles tortuosas, la sombra de un deseo, el silencio pesado, la monotonía de los coches, un olor doméstico del jabón de almendra, la mujer que camina segura, la que mira a lo lejos enredada en convenciones mientras su mano inerte le dicta la vida y tal vez la soledad. Y un beso prolongado, tanto y tanto, un encuentro de dos hombres, el que no existe porque murió, el que no puede existir porque era invención. Fernando Pessoa, Ricardo Reis, la sabiduría de contentarse con contemplar el mundo desmentida en más de 400 páginas, la sabiduría de expresar la tristeza humana contada en más de 400 páginas. "Aquí, donde el mar acaba y la tierra empieza". "Aquí, donde el mar ha acabado y la tierra espera".
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Salió Saramago de su país para entrar con ojos nuevos. Lo recorrió de Norte a Sur y de Este a Oeste. Utilizó carreteras secundarias, caminos vecinales y todos los desvíos que le llevaran al interior de las cosas. Eligió describir piedras en vez de paisajes, aldeas en vez de palacios, un cuadro de una esquina frente al gran retablo mil veces reproducido por su innegable belleza. Pero se quedó con la Pietá de Belmonte y con el palio de Cidadelhe, tan amorosamente custodiado, de Sintra, del palacio de la Pena dio señal, pero se detuvo describiendo cierta forma de amasar el pan y dar de comer, tan necesaria para la justicia del mundo. Viaje a Portugal no es una guía, es un testamento, una manera de mirar y ver. De descubrir la huella de la mano que levantó el monumento, la respiración de las piedras, el latido extremo de una civilización que se acaba y nadie puede decir si para bien.
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Unos meses antes de morir Saramago recorrió Portugal, una vez más su país, Constância, Camões, el Tajo, Castelo Novo, el Río Coa, los olivos, las vides, Figueira de Castelo Rodrigo, la historia. Saramago murió con los ojos llenos de un país que no es grande, pero a él le dio vida y a cambio él le fue ofreciendo los libros que escribía. Portugal era el mundo desde el que José Saramago se hacía todas las preguntas y trataba de encontrar alguna respuesta. Viajó, decía, por Portugal, siguiendo la ruta de un elefante que tuvo que llegar hasta Viena por una absurda decisión real. Y Saramago, como el elefante Salomón, partió desde Belén país adentro, con la emoción de quien sabe algo de la condición humana y permanece dispuesto a la sorpresa. En Castelo Novo leyó en voz alta unas líneas escritas 30 años antes: "Castelo Novo es uno de los más conmovedores recuerdos del viajero. Tal vez vuelva, tal vez no vuelva nunca, tal vez evite volver, solo porque hay experiencias que no se repiten". Volvió y quizá aún esté allí: al fin y al cabo, como dice el epílogo de El viaje del elefante, "siempre acabamos llegando a donde nos esperan". A Portugal, sin duda, y desde Portugal, a todos sus lectores.
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JUAN CRUZ

Donde el mar se acabó y la tierra espera

JUAN CRUZ 18/07/2010

Hay una fotografía impresionante del adiós a José Saramago en Lisboa, el pasado 20 de junio. Ahí se ve a una mujer, Pilar del Río, que mira desde la distancia imposible del amor el rostro ya del otro mundo de quien fue su marido, el hombre al que vino a buscar hace muchas navidades, en un arrebato.
Ella había leído, como en trance, un libro trascendental de aquel escritor tímido, retraído, incapaz de perder la compostura ni ante el incendio de Lisboa, que cayó ante sus ojos cansados de portugués tranquilo.
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El libro era El año de la muerte de Ricardo Reis, y Pilar del Río, periodista, convenció a sus jefes en Televisión Española para que la enviaran a Lisboa a entrevistar a su autor, para indagar dentro de aquella melancólica historia de vida y muerte, de homenaje al aire de Pessoa, que es el aire de atardeceres rojos de la ciudad más suave de Europa.
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Hablaron, y entre ellos se estableció en ese mismo instante una complicidad amorosa que aún no tuvo ni besos ni manos, ni fue más allá de una declaración tácita de que se tenían que volver a ver.
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Pilar del Río es una mujer apasionada pero pudorosa, un ser humano acostumbrado a soñar que no hay distancias entre lo que desea y la posibilidad de obtenerlo, así que enseguida dibujó un viaje para volver a ver a Saramago.
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Cuando alguien, entre los fotógrafos sigilosos que había en aquel cuarto mortuorio del Ayuntamiento de Lisboa, hizo ese retrato en el que Pilar mira a José y éste yace en su lecho final, tomó ese retrato del adiós de su mujer al marido de cuerpo presente, yo estaba al lado de Javier Pérez Royo, catedrático sevillano, amigo de Pilar y de José desde unas navidades de mediados de los ochenta. Se acercó a mi oído y me dijo: “Nosotros trajimos a Pilar a que pasara la primera noche con José”.
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De todo amor hay un primer instante, y de ese amor que empezó cuando Pilar del Río cerró El año de la muerte de Ricardo Reis después de leer esa frase que culmina la novela como si apuntalara un grito (“Aquí, donde el mar se acabó y la tierra espera”) hay, pues, esa instantánea que nadie tomó y que ahora es recuento final, relato del principio.
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Pérez Royo y su mujer, la también catedrática Josefina Cruz, estaban allí, certificando la tristeza del adiós al que fue amigo de ambos y subrayando el recuerdo de la primera vez. Iban con frecuencia a Lisboa, y Pilar les pidió que la llevaran; había quedado con José Saramago, que ya entonces era autor de ese y de otros libros que le hacían sonar como uno de los más potentes escritores de Europa. Todavía no había resonado el escándalo que motivó el Gobierno portugués tratando de tachar El Evangelio según Jesucristo que causó el disgusto y el exilio de Saramago hacia Lanzarote. Pero Saramago era un gigante que los recibió como él era, un ser humano que estaba y no estaba al mismo tiempo, un hombre reservado y pulcro que hablaba solo al final del laberinto de su silencio.
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Esa primera noche era Navidad, y Saramago había quedado para otra cena, así que los depositó a los tres en El Conventual, un restaurante magnífico de Lisboa, y fue al día siguiente, me dijo Pérez Royo, cuando ya la pareja fue por primera vez y para siempre la pareja que después hemos conocido. Cuando llegaron a Lisboa, era el atardecer de la ciudad, esa luz de Pessoa que ya fue, desde Ricardo Reis y de Memorial del convento, la luz que Saramago dibujó contra las piedras del tiempo.
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Esa fotografía en la que Pilar dice adiós, en el silencio que ya solo rompe el recuerdo, transmite la mirada más honda de aquella chiquilla que dejó sus mochilas de periodista y decidió seguir la huella de quien ya la había enamorado. Donde el mar se acabó y la tierra espera. Allí estaba Pilar, cerca del mar, consciente de la tierra. Esa es la mirada que se ve en la foto; en su profundidad está la historia, como la luz en la piedra.
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quarta-feira, 30 de junho de 2010

Discurso na Academia Sueca (ao receber o Prêmio Nobel de Literatura) José Saramago


Discurso na Academia Sueca
(ao receber o Prêmio Nobel de Literatura)
José Saramago

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O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever. As quatro da madrugada, quando a promessa de um novo dia ainda vinha em terras de França, levantava-se da enxerga e saía para o campo, levando ao pasto a meia dúzia de porcas de cuja fertilidade se alimentavam ele e a mulher. Viviam desta escassez os meus avós maternos, da pequena criação de porcos que, depois do desmame, eram vendidos aos vizinhos da aldeia. Azinhaga de seu nome, na província do Ribatejo.

Chamavam-se Jerónimo Melrinho e Josefa Caixinha esses avós, e eram analfabetos um e outro. No Inverno, quando o frio da noite apertava ao ponto de a água dos cântaros gelar dentro da casa, iam buscar às pocilgas os bácoros mais débeis e levavam-nos para a sua cama. Debaixo das mantas grosseiras, o calor dos humanos livrava os animaizinhos do enregelamento e salvava-os de uma morte certa. Ainda que fossem gente de bom caráter, não era por primores de alma compassiva que os dois velhos assim procediam: o que os preocupava, sem sentimentalismos nem retóricas, era proteger o seu ganha-pão, com a naturalidade de quem, para manter a vida, não aprendeu a pensar mais do que o indispensável.

Ajudei muitas vezes este meu avô Jerónimo nas suas andanças de pastor, cavei muitas vezes a terra do quintal anexo à casa e cortei lenha para o lume, muitas vezes, dando voltas e voltas à grande roda de ferro que acionava a bomba, fiz subir a água do poço comunitário e a transportei ao ombro, muitas vezes, às escondidas dos guardas das searas, fui com a minha avó, também pela madrugada, munidos de ancinho, panal e corda, a recolher nos restolhos a palha solta que depois haveria de servir para a cama do gado. E algumas vezes, em noites quentes de Verão, depois da ceia, meu avô me disse: "José, hoje vamos dormir os dois debaixo da figueira". Havia outras duas figueiras, mas aquela, certamente por ser a maior, por ser a mais antiga, por ser a de sempre, era, para toda as pessoas da casa, a figueira.

Mais ou menos por antonomásia, palavra erudita que só muitos anos depois viria a conhecer e a saber o que significava... No meio da paz noturna, entre os ramos altos da árvore, uma estrela aparecia-me, e depois, lentamente, escondia-se por trás de uma folha, e, olhando eu noutra direção, tal como um rio correndo em silêncio pelo céu côncavo, surgia a claridade opalescente da Via Láctea, o Caminho de Santiago, como ainda lhe chamávamos na aldeia. Enquanto o sono não chegava, a noite povoava-se com as histórias e os casos que o meu avô ia contando: lendas, aparições, assombros, episódios singulares, mortes antigas, zaragatas de pau e pedra, palavras de antepassados, um incansável rumor de memórias que me mantinha desperto, ao mesmo tempo que suavemente me acalentava. Nunca pude saber se ele se calava quando se apercebia de que eu tinha adormecido, ou se continuava a falar para não deixar em meio a resposta à pergunta que invariavelmente lhe fazia nas pausas mais demoradas que ele calculadamente metia no relato: "E depois?". Talvez repetisse as histórias para si próprio, quer fosse para não as esquecer, quer fosse para as enriquecer com peripécias novas.

Naquela idade minha e naquele tempo de nós todos, nem será preciso dizer que eu imaginava que o meu avô Jerónimo era senhor de toda a ciência do mundo. Quando, à primeira luz da manhã, o canto dos pássaros me despertava, ele já não estava ali, tinha saído para o campo com os seus animais, deixando-me a dormir. Então levantava-me, dobrava a manta e, descalço (na aldeia andei sempre descalço até aos 14 anos), ainda com palhas agarradas ao cabelo, passava da parte cultivada do quintal para a outra onde se encontravam as pocilgas, ao lado da casa. Minha avó, já a pé antes do meu avô, punha-me na frente uma grande tigela de café com pedaços de pão e perguntava-me se tinha dormido bem. Se eu lhe contava algum mau sonho nascido das histórias do avô, ela sempre me tranqüilizava: "Não faças caso, em sonhos não há firmeza".

Pensava então que a minha avó, embora fosse também uma mulher muito sábia, não alcançava as alturas do meu avô, esse que, deitado debaixo da figueira, tendo ao lado o neto José, era capaz de pôr o universo em movimento apenas com duas palavras. Foi só muitos anos depois, quando o meu avô já se tinha ido deste mundo e eu era um homem feito, que vim a compreender que a avó, afinal, também acreditava em sonhos. Outra coisa não poderia significar que, estando ela sentada, uma noite, à porta da sua pobre casa, onde então vivia sozinha, a olhar as estrelas maiores e menores por cima da sua cabeça, tivesse dito estas palavras: "O mundo é tão bonito, e eu tenho tanta pena de morrer". Não disse medo de morrer, disse pena de morrer, como se a vida de pesado e contínuo trabalho que tinha sido a sua estivesse, naquele momento quase final, a receber a graça de uma suprema e derradeira despedida, a consolação da beleza revelada. Estava sentada à porta de uma casa como não creio que tenha havido alguma outra no mundo porque nela viveu gente capaz de dormir com porcos como se fossem os seus próprios filhos, gente que tinha pena de ir-se da vida só porque o mundo era bonito, gente, e este foi o meu avô Jerónimo, pastor e contador de histórias, que, ao pressentir que a morte o vinha buscar, foi despedir-se das árvores do seu quintal, uma por uma, abraçando-se a elas e chorando porque sabia que não as tornaria a ver. 
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http://www.brunocattoni.com/saramago.asp
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