Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quinta-feira, 27 de novembro de 2025
Eduardo Maltez Silva - É sempre assim que começa ...
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
Margarida Davim - Os ciganos que fazem frente a Ventura
* Margarida Davim
"Bruno Gonçalves e Paulo Domingos são dois dos seis ciganos que vão a tribunal exigir a retirada dos cartazes racistas. Olga Mariano é uma das oito testemunhas. As suas histórias desmontam ideias feitas e dão corpo a um povo perseguido que, mais de 500 anos depois de chegar a Portugal, ainda tem de reivindicar a sua portugalidade", escreve Margarida Davim na Visão.
Olga Mariano
hesita em falar. “Não quero dar mais palha a André Ventura. Ele quer usar-nos
como uma escada para subir.” Mas o seu testemunho é importante. Aos 75 anos,
poeta publicada, Olga confunde os últimos 27 anos da sua vida com o
associativismo cigano e com a defesa da igualdade de género “para ciganos e não
ciganos”. E é também por isso que o seu nome está entre as oito testemunhas
indicadas pelo advogado Ricardo Sá Fernandes, na ação especial de tutela de
personalidade, interposta por seis ciganos que querem obrigar Ventura a retirar
os cartazes em que diz que “os ciganos devem cumprir a lei”, deixando claro que
a liberdade de expressão não serve para promover a discriminação. “Como
portuguesa que sou, sinto-me vandalizada na minha portugalidade. Ser cigano é
uma cultura. Não admito a ninguém que deite abaixo a minha nacionalidade. A
minha bandeira é a portuguesa. Dou voz a milhares de portugueses com uma
cultura chamada cigana”, concede finalmente Olga.
Na verdade, não
há muitos ciganos em Portugal. Estima-se que sejam entre 50 e 70 mil, e quem
pertence à etnia que chegou a Portugal por volta de 1462 garante que não se
deve falar em “comunidade cigana”, mas sim em “povo cigano”. “Não somos uma
comunidade. Somos diferentes comunidades que fazem parte de um povo. É preciso
conhecer”, diz Paulo Domingos, um dos autores da ação e presidente da
Plataforma Nacional para os Direitos dos Ciganos. Mas voltemos a Olga Mariano
para perceber como dentro deste povo há percursos e vidas diferentes, ainda que
com uma cultura em comum. “Eu posso ser tudo o que eu quiser sem deixar de ser
quem sou”, diz Olga, que foi a primeira mulher cigana a ter carta de condução
em Portugal, ainda nos anos 1960, com o País mergulhado em ditadura e os
direitos das mulheres longe de estarem garantidos.
A primeira
cigana a ter carta
Olga nasceu
numa família que, por ter casa própria no Alentejo, conseguiu escapar ao
nomadismo forçado, incentivado por uma lei que só deixou de estar em vigor em
1985 e que decretava que a GNR devia manter uma vigilância apertada aos
nómadas, leia-se ciganos, que, apesar de terem obtido a cidadania portuguesa em
1822, foram perseguidos em Portugal ao longo dos séculos. Não ser nómada
permitiu a Olga Mariano, às suas duas irmãs e ao seu irmão fazerem a quarta
classe. “Os meus pais sempre lutaram para que os filhos tivessem o quarto ano.”
Ir além disso era economicamente impossível, mas depois de o pai deixar o
Alentejo, onde era tratador de equídeos, e rumar ao Fogueteiro em busca de
trabalho, Olga deu por si a ser fundamental para a família. Como foi a primeira
a concluir os estudos, era a única que podia ter a carta de condução e, por
isso, aquela que podia guiar a carrinha da família até às feiras em Cascais,
onde vendiam nessa altura.
“Sempre fui de
trabalho”, diz a cigana que garante nunca ter visto o pai discriminar as filhas
ou tratar mal a mulher. “A minha mãe, que nasceu em 1917, e o meu pai, que
nasceu em 1912, nunca fizeram distinção entre homem e mulher. A minha mãe
sempre acompanhou o meu pai em tudo.” Os pais casaram-se quando ambos tinham
mais de 20 anos e Olga casou-se também já depois dessa idade. “Isso de que os
ciganos se casam em crianças são ideias preconcebidas. Tenho um filho que se
casou aos 19, outro aos 30, com uma noiva que tinha 29, e são os dois ciganos.
E a minha filha casou-se com 30.” E os casamentos arranjados? “Existe aquela
fábula de pedir os miúdos quando são jovens, como no tempo dos reis. Isso
existe. Mas os miúdos só casam se quiserem. Casamentos arranjados não existem”,
garante, dando o exemplo do neto que estava “prometido” a uma prima desde bebé,
mas acabou por se casar com outra rapariga cigana, “que não tem nada a ver”.
O que a cultura
condena é o namoro e Olga vê aí a explicação para muitos ciganos se juntarem
ainda muito jovens. “Tenho duas tias solteiras e primas solteiras. Não somos
obrigados a casar. Em 99,9%, esses casamentos jovens são porque as miúdas
querem casar. Há muito choro e tristeza quando as filhas se casam mais jovens”,
garante.
Enquanto esteve
casada, Olga Mariano fez a vida nas feiras. “Uma vida dura, ao sol e à chuva, a
montar a barraca.” E indigna-se com quem acha que essa é uma ocupação para quem
foge a obrigações. “Sempre fiz os meus descontos e paguei as minhas contribuições
e o espaço da banca e os artigos. Comprei a carrinha, aluguei a minha casa,
depois comprei uma casa. Sempre paguei tudo, como todos os portugueses. Não é
nada de mais. Diria que 50% dos ciganos têm tudo certinho. E que, entre os 50%
que não têm, talvez 80% sejam crianças. Não cumprir não é coisa de ser cigano
ou não cigano. É de bom ou mau carácter.”
A vida mudou há
30 anos quando o marido morreu. Na cultura cigana, a mulher, que tem direito a
uma espécie de “última palavra” no casal e que – ao contrário do homem – pode
pedir o divórcio por não se sentir feliz, perde estatuto social quando passa a
viúva. Mas Olga não se resignou a isso. Começou aí uma vida de ativismo (é a
presidente da Associação Letras Nómadas e da Agarrar Eventos) e voltou aos
estudos para se formar como mediadora sociocultural e formadora. Trabalhou em
escolas e na Câmara Municipal do Seixal, estudou em Estrasburgo, deu formação e
é hoje trabalhadora da Junta de Freguesia da Ajuda e deputada municipal pelo PS
em Almada. Diz que levou “muita pancada de todos os lados” para se afirmar, mas
acredita que é hoje uma das vozes mais respeitadas no povo cigano, porque
também não gosta que se diga que há uma comunidade cigana.
“Existem várias
comunidades ciganas. São muito diversas, com vários meios socioeconómicos. Os
ciganos só têm três pontos em comum: o luto, o casamento e as leis de
apaziguamento, que servem para os homens mais velhos resolverem pequenos
conflitos em comunidade.” Um dos grandes valores ciganos é o respeito pelos
mais velhos, outro é a família. “Para o povo cigano, a idade é sabedoria, uma
sabedoria que tem grande valor porque é vivida. E as mulheres têm um grande
papel. Os maridos não fazem nada sem o aconselhamento da mulher.” Ainda assim,
Olga Mariano fez da sua vida e de parte da sua poesia uma luta pela igualdade
de género. “A viúva deixa de ter papel relevante na sociedade. Isso para mim
não tinha lógica. Tive de me impor no meu direito de mulher. Passados estes
anos, os homens já vêm pedir para eu fazer parte de projetos e reuniões.
Conquistei isso para as minhas mulheres”, diz, orgulhosa.
“Andrezito tem
de cumprir a lei”
Bruno
Gonçalves, de 49 anos, tem sido um companheiro de luta de Olga Mariano na
Associação Letras Nómadas, que se dedica a incentivar ciganos a prosseguir os
estudos e já conseguiu, desde 2014, que 40 ciganos e ciganas – há sempre a
preocupação da paridade – acabassem uma licenciatura e 12 fizessem o mestrado,
através de um programa de bolsas. Quando começou com este projeto, Bruno só
tinha o 12º ano, mas a mulher resolveu inscrevê-lo no exame de acesso ao Ensino
Superior para maiores de 18 anos. Entrou no Politécnico de Coimbra e
licenciou-se em Animação Socioeducativa, sem perder um ano, apesar de ter de
trabalhar de dia e estudar à noite.
“Entretanto, já
fiz uma pós-graduação e agora quero fazer um mestrado, mas ainda não apanhei
coragem”, confessa, explicando que só as dificuldades económicas o fizeram
adiar os estudos. “Sou filho de um pai analfabeto. A minha mãe estudou até ao
6º ano. O meu pai sentia muita tristeza por não poder ajudar-nos na escola. Fui
voluntariamente à escola. Não havia cá RSI”, diz, notando que este ano se
formou um cigano em Medicina, “com bolsa de mérito da Gulbenkian”, e que há
ciganos atores – como Henrique Barbosa, protagonista do filme Entroncamento – e
até “um jurista na Câmara Municipal de Coimbra, responsável pela contratação
pública”. A vida das feiras é dura e “cada vez mais há famílias a apostar na
escolarização como elevador social”. Mas o estigma ainda pesa.
“O
anticiganismo é uma forma de racismo. Grande parte destes jovens está no
mercado de trabalho, mas diria que uns 70% não podem dizer que são ciganos.
Como grande parte já não tem os traços físicos, vivem numa clandestinidade
étnica. Ainda ontem falei com um cigano com 40 e tal anos, que está no
Exército, e só agora decidiu assumir a sua identidade”, conta Bruno, revelando
que muitos jovens apagam as redes sociais quando querem encontrar um trabalho
para evitar alguma publicação que os denuncie como ciganos, se o departamento
de recursos humanos fizer uma pesquisa.
Segundo dados
do INE de 2024, 72,6% dos ciganos fazem parte dos 20% da população com
rendimentos mais baixos. A isso não deve ser alheia a discriminação no mercado
de trabalho, que faz com que muitos façam vida da venda ambulante ou apenas
consigam empregos através de protocolos com o IEFP, muitas vezes para Juntas de
Freguesia. Bruno Gonçalves diz que o aparecimento de empresas de TVDE, como a
Uber e a Bolt, veio dar outras oportunidades de trabalho, porque “o patrão é a
plataforma e não discrimina”, mas há também relatos de ciganos portugueses a
imigrar, por exemplo, para o Reino Unido, onde fazem trabalhos sazonais
agropecuários ou ficam como trabalhadores em fábricas ou armazéns.
Bruno Gonçalves
divide o País em dois quando fala do povo cigano. “No Sul as coisas são mais
complicadas. Há guetos, criados por políticas de habitação horríveis. O Centro
e o Norte são menos agrestes para as comunidades ciganas. Quando há guetos, as
coisas são mais complicadas.” Mas, sobretudo, divide a história recente da
discriminação num antes e num depois de André Ventura. “As coisas estão muito
mais complicadas desde 2017.” E, para Gonçalves, isso só tem explicação no
oportunismo político. “Somos perto de 70 mil. É uma comunidade muito pequenina.
Espanha tem um milhão de ciganos e, por isso, o Vox não se mete muito com eles.
Na Andaluzia são 8% da população, podem definir eleições”, analisa, assumindo
que não teve uma hesitação em procurar a ajuda jurídica de Ricardo Sá Fernandes
para interpor uma ação que obrigasse Ventura a retirar os cartazes, depois de
dias a responder a chamadas e mensagens de ciganos indignados com o racismo da
mensagem dos outdoors.
“O Andrezito
tem de cumprir a lei. Por muito que haja um milhão e meio que votaram nele,
isto não é a república das bananas. Ele tem de cumprir a lei”, afirma,
indignado, consciente de que mesmo uma vitória nos tribunais não vai enterrar a
discriminação nem diminuir o apoio ao Chega. “Ser anticigano vai continuar a
ser popular. É o campeonato da pobreza. São os mais pobres que votam no Chega e
78% das comunidades ciganas vivem na extrema pobreza. Os ciganos vivem menos
dez anos do que a média nacional. É uma competição entre pobres para ver quem
não desce de divisão”, comenta.
Despertar para
a política
“O Chega não é
um problema nosso”, declara Paulo Domingos, 58 anos, presidente da Plataforma
Nacional para os Direitos dos Ciganos e um dos seis autores da ação judicial
para retirar os cartazes. “O que está em causa não é uma etnia, é a Humanidade.
Hoje são os ciganos, mas amanhã podem ser as mulheres, os pobres, os judeus, os
jornalistas. O que pretendemos é impor um limite moral. Não tenho nada contra
André Ventura. Sou um cristão. Tenho é contra o que ele faz e diz, que é tirar
a dignidade ao povo cigano”, afirma à VISÃO o homem que no dia 6 de novembro
encheu um auditório em Carnide para o Primeiro Congresso do Povo Cigano em
Portugal. Lá dentro havia 150 lugares sentados, mas muitos ficaram de pé e
outros ainda tiveram de ficar à porta, por a lotação estar esgotada.
Paulo admite
que a adesão o surpreendeu. “Achei que não ia encher a casa. Reunimo-nos em
festas ou casamentos ou nas igrejas evangélicas, mas não para falar de temas
políticos.” Falou durante duas horas, mas garante que no fim “falaram homens e
mulheres”, num evento que tinha como propósito ajudar o povo cigano a tomar
“consciência do seu papel social e político”. Apesar do objetivo, Paulo
Domingos assegura que a sua plataforma não tem pretensões ligadas a partidos ou
ideologias. “Não tenho uma ideologia política estruturada. A Plataforma não
está agregada a nenhum partido nem pretende estar”, assegura, explicando que
neste Congresso conheceu “ciganos que estão com cargos em empresas ou ligados
ao Estado, com nível intelectual e formação” e que só esse encontro já pode
servir de semente para uma maior intervenção social do povo cigano em Portugal
no futuro. “O que nos falta é a união. Não estamos habituados culturalmente a
ter esta união”, admite, defendendo uma “maior abertura à sociedade” para
desconstruir mitos e ideias feitas.
Criado como “um
nómada moderno, não daqueles de burro e carroça, mas que viajavam de avião e
tinham os carros da moda”, passando por vários países na infância e sempre
acarinhado pelos anciãos dos lugares por onde passava, Paulo Domingos não se
sentou nos bancos da escola e só aprendeu a ler e a escrever já adolescente,
numa altura em que lhe interessava aproximar-se de raparigas não ciganas da sua
idade. “Comecei a perceber que tinha um atraso em relação a quem não era
cigano, que era não saber ler. Depois, quis aprender a falar bonito. Li tudo e
mais alguma coisa.” O seu percurso de vida foi atribulado, mas sempre guiado
pelo valor mais importante para qualquer cigano: a liberdade.
O primeiro
emprego foi como vendedor numa empresa de produtos químicos. O diretor do
departamento que o contratou era o único que sabia da sua origem. O patrão, um
judeu, só descobriu que Paulo era cigano quando o chamou por ser o melhor
vendedor da empresa. “Aprendemos a vender no útero da mãe”, brincou. Era tão
bom, que o departamento de encomendas não conseguia dar vazão às vendas
angariadas por Paulo. Por isso, o patrão deu-lhe um carro para ser ele a fazer
as entregas. Foi subindo na empresa, até se desinteressar. Procurava a
novidade.
Quando se
casou, tinha 24 anos, a mulher tinha 23 e já tinha carta de condução. Ela era
de uma família de feirantes e Paulo quis experimentar essa vida. Passados uns
tempos, voltou a mudar e dedicou-se à consultadoria de empresas. “O que mais
gostei de fazer foi consultoria empresarial, a desenvolver produtos e serviços.
Já fazia isso sem saber o nome. Era um craque na minha área. Mas também fui
vendedor de automóveis e angariador de imobiliário.” A vida correu-lhe bem, fez
muito dinheiro. Mas as coisas mudaram quando, há 12 anos, perdeu um filho.
Entrou numa depressão profunda, não conseguia sair de casa. E a mulher teve de
voltar às feiras. A forma como a comunidade cigana que o rodeava o ajudou e a
conversão ao cristianismo fizeram-no começar a voltar à vida e perceber que
tinha de lançar a Plataforma, na qual uma das suas filhas, Maiara Domingos
(outra das autoras da queixa para a retirada dos cartazes), é vice-presidente.
“A Plataforma é
um projeto nacional. Já tenho delegados regionais. E muita coisa vai mudar
depois deste primeiro Congresso Cigano. Acredito verdadeiramente que este foi o
princípio de algo novo. Mas este trabalho não pode ser feito só com ciganos”,
argumenta. Uma das coisas que fizeram com que avançasse para a ação judicial
foi, aliás, a forma como não se levantou um coro de indignação perante uma
mensagem racista contra os ciganos. “Nem o poder político nem o poder judicial
vieram defender a nossa honra. A liberdade de expressão não pode ser usada como
arma de desumanização. O que me fez avançar foi a colocação dos cartazes e a
falta de uma voz que nos defendesse.”
Ciganos que
morreram por Portugal
A 1 de dezembro
de 2022, Marcelo Rebelo de Sousa fez algo inédito: usou o Dia da Restauração da
Independência de Portugal para fazer um agradecimento histórico aos ciganos.“Ao
lembrar tantos portugueses, de tantas origens, que se envolveram no movimento revolucionário,
o Presidente da República quer lembrar também os portugueses de etnia cigana
que, como reconheceu então o próprio rei D. João IV, deram a vida pela nossa
independência nacional”, escreveu no site da Presidência. Foi a primeira
homenagem pública ao “cavaleiro fidalgo” Jerónimo da Costa e a “muitos dos
duzentos e cinquenta outros ciganos que serviram nas fronteiras e tombaram por
Portugal”.
Este ano,
Marcelo usou o Dia do Cigano, 8 de abril, para reforçar a importância da
integração deste povo. Mas o Governo de Luís Montenegro deixou na gaveta a nova
Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, que está para
consulta pública há mais de um ano."
Texto de
Margarida Davim na Revista
Visão. Fotos de Luís Barra e Lucília Monteiro
sábado, 8 de março de 2025
Zaíra Pires - Dia Internacional da Mulher Branca
domingo, 12 de maio de 2024
Raul Almeida - A era do ódio
sábado, 23 de dezembro de 2023
Carlos Matos Gomes - A derrota do Deus do Ocidente
A ação do Estado Judaico na
Palestina, o genocídio em Gaza e a destruição da Cisjordânia constitui um ato
que os seus autores pretendem que seja o ato final do direito de origem divina
de Povo Eleito à Terra Prometida, a provocar um Armagedeão em termos do Antigo
Testamento bíblico. Os dirigentes judaicos justificaram e justificam com o
Antigo Testamento da Bíblia e com o seu deus Javé a ocupação manu
militari de mais este território da Terra Prometida a Abraão há quatro
mil anos. Sem a dimensão religiosa não é possível entender a política do Estado
de Israel, o discurso e o comportamento dos seus dirigentes e a atitude de
arrogância que revelam perante aa comunidade internacional (gentios) e até
contra os seus protetores americanos.
No entanto, no Ocidente cristão
esta guerra santa, equivalente a uma cruzada ou uma jhiad, está a
ser quase exclusivamente analisada sob o ponto de vista técnico, como um
historicamente vulgar conflito tendo por base os interesses de grupos
políticos, económicos e sociais, interesses estratégicos de poder global
envolvendo superpotências e potências regionais. Como mais uma “guerra” das
muitas em que o Ocidente se tem envolvido desde que se reconstituiu após a
queda do império romano, tendo o cristianismo como base ideológica e
civilizacional.
No entanto esta é uma guerra de
rutura civilizacional, que coloca em causa as raízes mais profundas da nossa
civilização, que promove a substituição dos valores do cristianismo e do Novo
Testamento pelo judaísmo e pelo Velho Testamento, o retrocesso de uma
civilização de abertura, que o cristianismo foi e daí a sua universalidade, por
uma civilização fechada, racista e suprematista como é o judaísmo.
O que nos tem sido apresentado
pelos grandes meios de manipulação são episódios da violência inerente a
qualquer confronto armado, com a particularidade da utilização de meios
desproporcionados, da impiedade e da ausência de limites, ou de misericórdia. Os
autores do guião da ação do Estado de Israel em Gaza e na Cisjordânia e os
especialistas contratados para a analisar pretendem inculcar a ideia de que a
atual ação militar contra as populações palestinianas faz parte do “direito de
defesa de Israel”, pelo que o mundo estaria perante um facto recorrente, apenas
um pouco mais sangrento, mas sem que nada de essencial tenha sido alterado. O
discurso dominante, mesmo quando especializado, encontra-se delimitado pela
análise da arte da guerra: aniquilação do inimigo através do genocídio, ou por
uma conjugação de massacre e sujeição dos vencidos aos princípios e leis dos
vencedores.
Podemos chocar-nos com o
genocídio dos palestinianos executado a frio e com justificações de aberrante
hipocrisia em nome dos interesses do Ocidente americano, mas do ponto de vista
estratégico e operacional, como referem os comentadores militares, a operação
está a decorrer muito bem e conforme o planeado. Nada de novo: Delenda
Carthago! — Cartago tem de ser destruída! — assim terminava Catão os
discursos fosse qual fosse o assunto. O mesmo afirmam Netanyahou e os seus
camisas negras em todas as ocasiões: Delenda o Hamas! — Delenda Gaza, a
Cisjordânia! Até surge nas notícias o picante de que os alvos são selecionados
pela Inteligência Artificial, o que, numa segunda leitura, reduz os pilotos dos
aviões, os artilheiros, os manipuladores de drones a imbecis que se limitam a
seguir a inteligência das máquinas. Mas como é em nome da promessa da posse da
Terra Prometida, tudo se desculpa e nenhum desses seres invocou problemas de
consciência.
Há, contudo, uma outra análise
que deve (devia) ser feita e que remete para a profundidade das raízes desta
ação de Israel — da vingança histórica e milenar que ela materializa contra o
Ocidente. O Ocidente está a dar a oportunidade de ouro para a realização do
mais extraordinário ato de vingança contra si próprio desde a instauração do
cristianismo como religião do império romano decretado no século IV por
Constantino, dentro do princípio cujus regio, ejus regio — a
religião do príncipe é a religião do país.
Independentemente das convicções
religiosas de cada um é inegável a importância das religiões na organização das
sociedades e na vida dos seres humanos. Para criar instituições políticas, o
primeiro obstáculo é o de superar a desconfiança geral do grupo. Não se pode
organizar um sistema político estável se a população, ou pelo menos uma parte
dela, não aceita a autoridade de um chefe. A resposta mais eficaz a este
desafio foi concentrar a autoridade religiosa e a do chefe político e militar.
Estabelecer a religião como fonte da autoridade política. O primeiro registo
desta ideia parece ser o do faraó Akenaton (1350 a.C), que se declarou
emissário de um único Deus, Aten, a única ponte entre o humano e divino. A
associação do poder de base militar e religiosa teve consequências para a
religião, que se tornou parte da organização política.
A criação dos deuses e das
religiões constituem as mais importantes descobertas do ser humano, mais
importantes que a descoberta da roda, do fogo ou da escrita. O ser humano não
quer apenas viver, tem necessidade de dar sentido à vida. A religião é um dos
espaços para dar sentido à vida e os deuses são criações do homem, têm real
existência. Quando um piloto judeu larga uma bomba do seu avião sobre Gaza em
nome do seu deus, esse deus existe, mata e venceu o deus que não salvou os seus
fiéis palestinianos. O deus dos cruzados europeus que atacaram o Templo de
Jerusalém e mataram os que lá se encontravam a ponto de o sangue dar pelos
jarretes dos cavalos existia e venceu o deus que lá estava. Os deuses existem,
têm criador e, infelizmente, os criadores de deuses são por norma os mais
ambiciosos e sem escrúpulos dos homens, que os utilizam para lhes servirem de
instrumento de domínio.
A dimensão religiosa desta ação
do Estado judaico devia e deve estar no centro das análises, porque é ela que,
em última instância, determina o futuro de todos os envolvidos e, desde logo,
do Ocidente que fornece as armas e o apoio político e ideológico a quem se bate
por um deus que é o seu e que há dois mil anos foi derrotado pelo deus do
Ocidente.
O Estado de Israel tem o judaísmo
por infraestrutura ideológica. Pelo seu lado, o Ocidente, a partir do édito de
Milão e da “conversão” de Constantino, validou o cristianismo como religião
oficial, colocando o judaísmo na situação de seita responsável pela morte e
sacrifício do novo Deus de Roma. Durante séculos, até ao nazismo, os judeus
foram tidos no imaginário ocidental como um povo-vítima, pacífico, perseguido,
estigmatizado, que se deixava sacrificar sem luta. O judaísmo era uma religião
de mansos que viviam em guetos e aí celebravam os seus rituais. O Ocidente
ignorou a violência genética do judaísmo e do seu deus, Javé. Não pareceu
surpreendido com o terrorismo que os judeus praticaram logo que tiveram a
oportunidade de reunirem uma massa critica adequada primeiro no protetorado
britânico da Palestina, que evoluiria para Estado de Israel sob os auspícios
das Nações Unidas, atribuindo as práticas dos seus grupos terroristas à
necessidade de defesa e ao seu direito de existência. Não era: o judaísmo é geneticamente
violento, por ser exclusivista, racista e negacionista do outro, por se assumir
como a prova de que é a ideologia de um povo eleito, superior.
O grande sofisma utilizado pela
elite judaica no coração do Ocidente para se confundir com ele e o tomar por
dentro tem sido o de que o cristianismo é uma “continuação” do judaísmo (uma
justificação que também serviria para o islamismo…) e o instrumento culminante
dessa manobra de continuidade do cristianismo a partir do judaísmo foi o Estado
de Israel, promovido pelo movimento sionista, aproveitando as condições do
pós-Segunda Guerra.
Na realidade, o cristianismo é
uma nova religião que nasceu e se desenvolveu em confronto direto e irredimível
com o judaísmo. Durante dois mil anos o convívio entre as duas religiões teve
episódios de grande conflitualidade — a Inquisição, os pogrom e
o nazismo — alternando com outros de coexistência mais ou menos tolerada
segundo os interesses do momento, em especial nos momentos de aperto financeiro
dos soberanos cristãos.
O facto de duas famílias judaicas
dominarem desde o século XVIII o sistema financeiro mundial, o coração do
sistema capitalista, as duas praças mundiais, os Rothschild em Londres (e
também Frankfurt) e os Rockfeller em Nova Iorque fez com que o judaísmo,
enquanto formatador civilizacional, aparelho ideológico e legitimador de
comportamentos fosse parasitando e metastesiando o corpo principal da
civilização ocidental, tendo o cristianismo como base dos seus princípios.
Segundo o Antigo Testamento da
Bíblia, pelo qual se regem os judeus, o pacto entre eles e Javé, o seu deus,
teria começado com Abraão, há cerca de 4 mil anos. Este foi chamado por Deus
para deixar a cidade de Ur, na Mesopotâmia e ir fundar uma nova nação num terra
desconhecida, a Terra Prometida, que seria chamada de Canaã. O deus que
apareceu a Abraão rompia com a tradição politeísta dos gregos, e colocava-se na
posição omnipotente de exigir o que quisesse. No caso de Abraão, ordenou-lhe
que sacrificasse o seu filho Isaac como prova de fé, isto é, de sujeição.
O Javé do Antigo Testamento (o
Pentateuco, para os judeus) não tem semelhanças com o pai protetor que mais
tarde o cristianismo iria propagar como sendo o seu Deus. Javé é um deus
brutal, parcial e assassino, um deus de guerra, que seria conhecido como Javé
Sabaoth, Deus dos Exércitos. Manda pragas aos egípcios, mostra-se até
arrependido da sua criação, como quando ordenou a morte por afogamento de toda
a humanidade através do dilúvio, do qual só escapou a família de Noé e os
animais que colocou na arca. Javé, o deus dos judeus, está mais preocupado em
ameaçar a raça humana para que ela não se desvie das instruções que entregou a
Moisés do que em criar condições de paz e de harmonia, de felicidade e de
justiça. Javé é passionalmente partidário do seu povo eleito, os judeus, e tem
pouca misericórdia pelos não favoritos. É uma divindade tribal.
A narrativa de continuidade entre
o judaísmo e o cristianismo foi destruída por Paulo de Tarso, ao estabelecer
que o cristão se justificava pela fé e não pela obediência à lei judaica, nem à
sua ascendência judaica, que os gentios, os não judeus, se podiam converter,
abrindo o cristianismo a novos espaços. Paulo tirou Jesus Cristo da pequena
gaiola de um messias para o povo hebreu, ou de mais um profeta, transformando-o
num salvador de todos os povos. Javé, esse continuou ligado apenas ao povo
hebreu, enquanto Cristo ganhava um caráter universal. Javé continuou a ser o
deus carrancudo dos judeus e o cristianismo transmitiu a imagem de um deus bem
mais amistoso que Javé.
Na tradição judaica estava muito
claro que o homem devia temer a Deus acima de tudo. Com o cristianismo, a
mensagem passa a ser amar a Deus acima de tudo. A diferença entre o judaísmo e
o cristianismo é a mesma entre temer e amar. É esta escolha que está em causa
com a ação de Israel na Palestina e em que os dirigentes ocidentais estão a
tomar o partido do Deus do medo, defensor de um pequeno povo de eleitos contra
a humanidade. O “direito de Israel a defender-se” tem o sentido de direito
divino a destruir ou subjugar todos os que não são os eleitos, incluindo nós,
os que lhe fornecemos as armas e a complacência.
O que o Estado de Israel está a
realizar perante o mundo e em nome do Ocidente é a morte do Deus dos cristãos,
do Deus que, apesar das violências cometidas em seu nome, permitiu que surgisse
um humanismo cristão, que produziu um Santo Agostinho, um São Francisco, que
permitiu a recuperação do conceito de um deus moral, em oposição ao deus
brutal.
A vitória nas guerras foi sempre
a vitória dos deuses dos vencedores. A vitória de Israel na Palestina é a
vitória do deus dos judeus sobre o deus dos muçulmanos, mas também sobre o deus
dos cristãos. O deus moral representado por Cristo podia oferecer uma via para
que as sociedades cooperassem, evitando ofender um poder superior atento ao seu
comportamento em relação aos demais. Javé, o deus dos judeus exclui o
compromisso. E essa exclusão é evidente no discurso dos dirigentes judaicos.
Mesmo para quem, como eu, entende
a religião apenas como uma dimensão simbólica do comportamento humano e a
religiosidade como um sistema produtor de normas e culturas inerentes a
qualquer sociedade, quer a religião, quer a religiosidade são fatores constitutivos
e estruturantes da vida humana. Não me é, pois, indiferente, muito pelo
contrário, ser regido pelas normas de Javé ou de Cristo, de ser regido pelo
Velho Testamento, pelo Alcorão ou pelo Novo Testamento. Não é a mesma coisa ser
não crente numa divindade numa civilização que tenha por deus Javé ou Alá,
entre judeus e muçulmanos, ou sê-lo numa civilização que tenha Cristo por
referência.
Impressiona-me a ausência de
pensamento no interior do cristianismo sobre o conflito judaico-cristão, que
coloca em causa a nossa civilização. Preocupa-me que estejamos a ir atrás do
canto das sereias do conflito com os muçulmanos, encadeados que estamos pelo
domínio dos poços de petróleo do Médio Oriente e dos eixos de ataque à Rússia,
a primeira barreira a ser ultrapassada para os Estados Unidos enfrentarem a
China. Entendo ser uma cegueira perigosa e criminosa o Ocidente abdicar do seu
Deus e dos seus valores, trocando-o por Javé, o velho carrancudo, vingador e
sem piedade.
Além dos palestinianos, é também
o cristianismo que está debaixo de fogo neste Natal na Palestina. Quem invoca
um deus para justificar o genocídio na Palestina não me merece respeito.
Repugna-me a corrupção dos que traficam o seu deus com eles. Dos católicos, dos
anglicanos, dos luteranos, das igrejas evangélicas, dos cardeais de Roma, dos
televangelistas americanos, dos vendedores de dízimo brasileiros nem uma
palavra!
Para ser claro: à vingança dos
judeus por dois mil anos de humilhação pela derrota de Javé, os cristãos
respondem agora com a traição ao seu Deus. Falta-nos um Shakespeare!
2023 12 23
https://cmatosgomes46.medium.com/a-derrota-do-deus-do-ocidente-68a58fecb0c5
sexta-feira, 22 de dezembro de 2023
Joana Gorjão Henriques - Mais de meio milhão de portugueses identifica-se como não branco
* Joana Gorjão Henriques
22 de Dezembro de 2023, 11:16
Primeiras estatísticas oficiais sobre origem étnico-racial da população portuguesa divulgadas esta sexta-feira CLAY BANKS / UNSPLASH
Pelo menos mais de meio milhão de
portugueses - precisamente 535,6 mil - identifica-se como não-branco. Este é o
resultado das primeiras estatísticas oficiais sobre origem étnico-racial da
população portuguesa divulgadas esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de
Estatística (INE) que revelam que há 6,4 milhões de pessoas que se identificam
como brancas, 169,2 mil como negras, 56,6 mil como asiáticas; 47,5 mil como
cigana; e 262,3 mil com origem ou pertença mista.
Além disso, 1,4 milhões de pessoas
têm background imigratório: 947,5 mil são imigrantes de
primeira geração e a maioria desses (65,2%) reside em Portugal há mais de dez
anos.
Este é um retrato inédito da
população segundo a sua origem étnico-racial divulgado pelo Instituto Nacional
de Estatística (INE). São, de facto, as primeiras estatísticas oficiais sobre a
caracterização da população residente de acordo "com a sua origem e
pertença étnica, e sobre a sua percepção dos fenómenos de discriminação e
desigualdades".
A população que se identifica com
os grupos étnicos negro, asiático e origem ou pertença mista tem as maiores
proporções de background imigratório (90,3%, 83,7% e 69,2%,
respectivamente). Os grupos étnicos com origem ou pertença mista (67,9%) e os
negros (64,3%) são os que apresentam mais pessoas empregadas - seguidos dos
brancos (62,9%). Do total, só cerca de metade da população (4,7 milhões) dos 18
aos 74 anos está empregada, segundo este inquérito.
Outra das conclusões é que mais de
1,2 milhões de pessoas disseram ter sofrido discriminação e mais do dobro - 2,7
milhões - disse já ter presenciado actos de discriminação. Por outro lado, são
65% os portugueses que consideram que há discriminação - o grupo étnico, cor da
pele, orientação sexual e território de origem são apontados como os factores
mais relevantes na discriminação percebida e testemunhada.
No questionário, era referido:
"Portugal é uma sociedade com pessoas de diversas origens. Pretende-se
melhorar a informação sobre essa diversidade na sociedade portuguesa, pelo que
gostaríamos que respondesse a algumas questões sobre a forma como se identifica
relativamente à sua origem, pertença, história ou percurso familiar". E
apresentam várias hipóteses, incluindo a de a pessoa não responder ou não
saber: asiático, branco, cigano, negro, origem ou pertença mista".
Já sobre discriminação
questionava-se se "em Portugal, alguma vez sentiu que foi ou é tratado/a
de forma discriminatória?", "com que frequência" e quais as
características que "podem estar na origem dessa discriminação" - cor
da pele, grupo étnico, idade, religião, sexo, opiniões políticas, território de
origem, escolaridade, incapacidade/problema de saúde, situação
económica/condição social, orientação sexual, outra.
Seguem-se perguntas sobre as
situações em que isso ocorreu (emprego, saúde ou família entre outros) e os
locais (polícia, vizinhança, etc). O INE quis também saber se as pessoas tinham
feito queixa à polícia ou outras entidades. Interessou também saber a percepção
dos respondentes sobre a discriminação.
O INE definiu uma amostra de 35 mil
casas, distribuídas por Portugal, e uma população dos 18 aos 74 anos.
O objectivo é que os dados
recolhidos possam “produzir e apoiar a definição de políticas públicas”, algo
que foi definido no plano de acção da União Europeia contra o racismo
2020-2025, mas também no Plano Nacional de Combate ao Racismo e à
Discriminação 2021-2025.
Este documento surge em
sequência do chumbo pelo INE em 2019 de inclusão de
uma pergunta sobre a origem étnico-racial nos Censos 2021. Na altura, um grupo
de trabalho que estudou o tema a pedido do Governo defendeu que o Censos
deveria ter aquela pergunta, mas o INE considerou que era complexo fazê-lo e
sugeriu antes um inquérito.
Em 2021/2022 foi feito o inquérito piloto para testar estas
perguntas. O objectivo é “melhorar o conhecimento sobre a diversidade da
população residente em Portugal, com enfoque na sua pertença/identificação
étnica, trajectórias geracionais e condições de vida objectivas”. Quer-se
avaliar as condições de vida da população em várias áreas: qualidade do
emprego, saúde, educação, habitação, mobilidade, redes de socialização.
Se a pertença étnica foi o
resultado de uma auto-classificação das próprias pessoas, já a origem foi
"observada pela naturalidade do respondente e dos seus ascendentes, até à
terceira geração".
https://www.publico.pt/2023/12/22/sociedade/noticia/12-milhoes-discriminadas-portugal-2074587
quinta-feira, 7 de dezembro de 2023
João Miguel Tavares - O doutor Nuno Rebelo de Sousa, seu filho
OPINIÃO
Neste momento, o melhor exemplo de “fucked up dad” é o senhor Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
6 de Dezembro de 2023, 20:54
Um dos poemas mais famosos do século XX começa assim: “They fuck
you up, your mum and dad. / They may not mean to, but they do.” (Em
tradução livre: “Fodem-te a cabeça, a mamã e o papá. / Podem não ter essa
intenção, mas é assim.”) É realmente assim, mesmo que não seja essa a intenção.
O poema de Philip Larkin continua por ali fora, com uma série de observações e
conselhos sortidos, que incluem sair de casa o mais cedo possível e evitar
procriar, pelas razões aduzidas no primeiro verso.
Larkin foi coerente com a sua
poesia – morreu em 1985, aos 63 anos, sem ter tido filhos. Felizmente, para bem
da perpetuação da espécie humana, há 385 mil bebés a nascer todos os dias, e
280 milhões de mamãs e papás a iniciarem a cada ano a nobre tarefa de lixarem a
cabeça dos seus filhos. Aquilo que Larkin não diz no seu poema, talvez por ser
mais evidente – e nessa medida menos poético –, é que o inverso também é
verdadeiro: à sua maneira, os pais são igualmente “fucked up” pelos seus
filhos, ainda que sejam eternamente absolvidos pela frase clássica “não fui eu
que pedi para nascer”. Neste momento, o melhor exemplo de “fucked up dad”
é o senhor Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.
Note-se que Marcelo está em
excelente companhia. Quem gosta de seguir a política americana sabe que um dos
maiores pedregulhos no caminho da reeleição de Joe Biden se chama Hunter
Biden, o seu filho absurdamente problemático, que durante anos andou a
fazer dinheiro à sombra do pai, fosse na China, fosse na companhia de gás
ucraniana Burisma, onde se rodeou de gente muito pouco recomendável. Até que um
dia se esqueceu de um computador portátil numa loja de informática, cheio de
documentação comprometedora e fotos com prostitutas que fizeram as delícias dos
tablóides.
Nuno Rebelo de Sousa não perdeu
nenhum computador – limitou-se a enviar
um email para a Presidência da República a pedir favores
para um amigo. Mas esse email pode estar para Marcelo como o
computador perdido para Joe Biden – uma bomba impossível de desarmadilhar,
porque se um Presidente, ou um primeiro-ministro, pode despedir funcionários,
assessores ou declarar em público que não tem amigos, não há forma
politicamente eficaz de um pai se afastar de um filho. Se corta com brutalidade
é impiedoso – o que lhe fica muito mal; se o protege é cúmplice – o que lhe
fica pessimamente. Até hoje, Biden não conseguiu resolver esse dilema. Duvido
muito de que Marcelo consiga.
Infelizmente para Marcelo,
Nuno Rebelo de Sousa não é um cidadão como qualquer outro
A profundidade do dilema de
Marcelo está espelhada numa formulação bizarra, que repetiu mais do que uma
vez na
conferência de imprensa desta semana: “O doutor Nuno Rebelo de Sousa,
Meu Filho.” Estranho cognome. Por um lado, procurou criar distância – o “doutor
Nuno Rebelo de Sousa”, “cidadão como qualquer outro”, que se limitou a enviar
correspondência para Belém. Por outro, foi obrigado a acrescentar “meu filho”,
porque obviamente aquilo que está no coração deste caso é essa proximidade.
Marcelo andou a brincar com as palavras ao longo de todo o processo: declarou
que um filho de Presidente não tinha privilégios, enquanto privilegiava um
filho de Presidente.
Infelizmente para Marcelo, Nuno
Rebelo de Sousa não é um cidadão como qualquer outro. Aliás, a pergunta
fundamental neste momento é saber quem realmente é Nuno Rebelo de Sousa, e
porque é que mobilizou um Presidente, um Governo, vários médicos e o Infarmed
para ajudar um amigo brasileiro, ao ponto de comprometer a reputação do seu
próprio pai.
O autor é colunista do PÚBLICO
https://www.publico.pt/2023/12/06/opiniao/opiniao/doutor-nuno-rebelo-sousa-filho-2072819
quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023
Luís Miguel Queirós - Produção de Beckett cancelada por restringir audições a homens
Produção de Beckett cancelada
por restringir audições a homens
Encenador cumpriu instruções do
dramaturgo, mas foi acusado de violar política de inclusão da universidade
holandesa de Groningen.
7 de Fevereiro de 2023
A peça À Espera de Godot,
encenada por Gábor Tompa, no Teatro Nacional São João, em 2021 TUNA
Uma encenação de À Espera de
Godot, de Samuel Beckett, cuja estreia estava prevista para Março no Centro
Cultural de Estudantes Usva, da universidade holandesa de Groningen, foi
cancelada quando a instituição soube que as audições para os cinco papéis
masculinos da peça só tinham sido abertas a actores desse mesmo sexo.
O jovem irlandês que estava a
dirigir a encenação, Oisín Moyne, de 24 anos, tentou argumentar que o próprio Samuel
Beckett deixara instruções para que a peça fosse representada por cinco
intérpretes do sexo masculino, e que desrespeitar essa indicação colocava a
companhia em risco de ser processada pelos herdeiros do dramaturgo, mas a
Universidade de Groningen
manteve a sua decisão de cancelar o espectáculo, alegando que este violara a
sua “política de inclusão”.
O responsável pela programação
teatral do Usva, Bram Douwes, secundou a posição da universidade. “Se se
tratasse de uma peça com cinco tipos brancos para a qual tivessem aberto
audições, estaria tudo bem, mas o que não podem é banir pessoas logo à
partida”, afirmou Douwes ao jornal universitário Ukrant.
A assessora de imprensa da
Universidade, Elies Kouwenhoven, reconhece que Beckett “declarou explicitamente
que esta peça devia ser interpretada por cinco homens”, mas argumenta que “os
tempos mudaram” desde que a peça foi apresentada pela primeira vez em 1953, e
que “a ideia de que só os homens são adequados a estes papéis está datada e é
mesmo discriminatória”. E concluiu: “Nós, como universidade, defendemos uma
comunidade aberta e inclusiva, na qual não é apropriado excluir outros seja com
que bases for.”
A administradora do Usva, Fay
Sterken, explicou ao Ukrant que o centro só soube que as audições tinham
sido exclusivamente para homens há cerca de duas semanas, quando a preparação
do espectáculo já ia adiantada, com ensaios a decorrer desde Novembro.
“Descobrimos que a companhia [intitulada GUTS – acrónimo de Groningen
University Theatre Society] tinha assinado a cláusula ‘só homens’, e isso foi
um choque, porque realmente não podemos concordar com ela por razões de
princípio”.
Oisín Moyne, que estudou Física
na Universidade de Groningen e acabou por se radicar na cidade holandesa, onde
hoje trabalha, explicou ao jornal irlandês Irish Times que tinha
considerado abrir as audições a todas as pessoas, mas que não o fez por causa
das regras estabelecidas por Beckett pouco antes da sua morte, as quais têm
sido defendidas pelos herdeiros legais da sua obra, que só entrará no domínio
público em 2059.
A produtora da peça, Medeea
Anton, em declarações ao mesmo jornal, defendeu que a decisão de cancelar a
peça se centrou nos actores, ignorando o papel de toda a restante equipa.
“Havia uma restrição quanto aos actores, que são apenas cinco, mas o resto da
equipa de produção é maioritariamente feminina, e também temos pessoas trans e
não-binárias”, informou Medeea Anton, acrescentando que “a maioria da equipa de
produção é da comunidade LGTB”.
A produtora diz que tentou
explicar aos responsáveis da universidade que se tratava apenas de uma questão
legal, mas que não conseguiu fazê-los mudar de ideias. “Somos uma pequena
companhia amadora, que não se pode arriscar a ser processada”, observou.
E não faltam precedentes para
demonstrar que o risco seria real. Recordando que o próprio Beckett, em 1988,
pouco antes de morrer, processou uma companhia holandesa por ter aberto as
audições da peça a mulheres, o Irish Times observa que os seus herdeiros
se têm mantido fiéis às instruções deixadas pelo dramaturgo.
Em 1991, a companhia Brut de
Beton tentou apresentar um À
Espera de Godot com um elenco exclusivamente feminino no Festival de
Avignon e o caso chegou a tribunal, com o juiz a proferir uma decisão algo
salomónica, permitindo a apresentação da peça, mas obrigando a que fosse lida,
antes de cada récita, a carta em que os representantes legais do autor expunham
as suas objecções.
Outra encenação da peça com cinco
actrizes foi cancelada em 2019 num colégio do Ohio, nos Estados Unidos, por
assumido receio de que os herdeiros de Beckett processassem a instituição.
Já a companhia de teatro londrina
Silent Faces criou, em 2021, uma paródia às regras de género impostas à obra de
Samuel Beckett com o espectáculo Godot Is a Woman (Godot É Uma Mulher),
cujo texto promocional abria com esta cronologia: “Em 1953 um homem escreveu
uma peça sobre esperar; em 1988 processou cinco mulheres por tentarem
interpretá-la; em 2001 Madonna lançou What It Feels Like for a Girl;
estamos em 2021 e continuamos à espera.”
Em Dezembro de 2021, depois de
uma estreia cancelada em Março – mas esta por causa da pandemia –, o
encenador romeno Gábor Tompa levou ao palco do Teatro Nacional São João, no
Porto, uma nova encenação de À Espera de Godot na qual o papel de Lucky
é interpretado pela actriz Maria Leite, escolha que, tanto quanto se sabe, não
deu origem a nenhum processo judicial.
Quando percebeu, neste início de
2023, que não ia mesmo conseguir apresentar a sua encenação da peça na
Universidade de Groningen, Oisín Moyne, provavelmente ironizando com o facto de
o próprio texto de Beckett tratar do absurdo da existência, confessou ao jornal
Irish Times: “Diria com inteira sinceridade que a minha vida, nestas
últimas semanas, se tornou totalmente absurda.” E o encenador contou ainda que,
no elenco e na equipa de produção, já corria a piada de que agora estavam,
todos eles, à espera de Godot.
Moyne adianta que está a procurar
outro espaço que receba a peça, para que o trabalho já feito não seja
desperdiçado, e manifesta a esperança de que o centro cultural Usva use as
datas agora libertadas no calendário da programação para acolher "uma
iniciativa que promova a inclusão no teatro".




