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quinta-feira, 27 de novembro de 2025

Eduardo Maltez Silva - É sempre assim que começa ...




*   Eduardo Maltez Silva
 
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É sempre assim que começa: não com um ditador a bater à porta, mas com pequenos sinais que a sociedade finge não ver.

Uma criança brasileira entra na escola e sai dela sem dois dedos, depois de meses a pedir ajuda que ninguém quis ouvir, a direção encolhe os ombros. 

Um jovem bombeiro é violado num quartel que deveria ser símbolo de coragem, com os seus superiores a gravar o vídeo da humilhação. 

Centenas de imigrantes são empurrados pelo Estado para a ilegalidade, para alimentarem máquinas de lucro de máfias que corrompem funcionários do estado. 

Militares da GNR são detidos por proteger redes que transformam pessoas desesperadas em escravos descartáveis.

Empresários sem escrúpulos pagam 80 euros por mês a um imigrante que o próprio Estado força a permanecer ilegal, apenas para alimentar os apetites de ódio que nos mergulharam nesta desumanização do outro.

Nada disto acontece porque “algo correu mal”. 

Acontece precisamente porque está a correr como alguns querem: uma sociedade desenhada para que os de cima pisem os de baixo, para que a violência pareça normal e a indiferença, inevitável.

E esta normalização do mal não nasceu do nada.

Foi semeada, regada e fertilizada por um discurso político que, há anos, ensina o país a culpar os mais fracos em vez de olhar para cima.

Há um padrão a consolidar-se, a humilhação dos fracos pelos fortes. 

Uma hierarquização moral, racial, económica, étnica e ideológica.

A paranoia colectiva repete sempre o mesmo refrão: o inimigo é o imigrante, o cigano, o pobre, a mãe solteira, o sem-abrigo, a pessoa que chega sem nada.

É nesses alvos — e nunca nos verdadeiros predadores — que a extrema-direita treina a raiva do país.

Quem está em baixo é convidado a pisar quem está ainda mais em baixo, com a promessa que assim sobe mais alto.

E assim, a crueldade pinga da política para a sociedade, e da sociedade para as instituições.

Nada disto é acaso; tudo isto é ideologia em prática.

Quando a extrema-direita repete que há “pessoas que valem menos”, que há “portugueses de primeira” e “intrusos”, que os problemas do país se resolvem “limpando” quem está em baixo, está a ensinar uma ética perversa.

Essa ética infiltra-se nos corredores das escolas, nos balneários dos quartéis, nas empresas de trabalho temporário, nas esquadras e até nos partidos que antes se diziam moderados.

De repente, já ninguém estranha um pacote laboral feito para o topo esmagar o fundo, nem uma reforma fiscal criada para aliviar os muito ricos e sufocar quem depende da escola pública ou do SNS.

O Estado desprotege imigrantes, impedindo a sua legalização para que possam ser explorados. 

Os impostos descem para quem tem mais, os serviços descem para quem tem menos. 

A justiça torna-se suave para os poderosos e brutal para os vulneráveis. 

As escolas dividem-se entre as dos meninos ricos e as dos meninos pobres.

Dividir. Hierarquizar. Dominar.

E a tragédia maior é que muitos dos que repetem estas ideias não percebem que estão a entregar a própria vida aos poderosos.

Defendem bilionários que nunca conhecerão, atacam trabalhadores iguais a si, culpam imigrantes que fazem os empregos que eles recusam e entregam o país a elites que só prosperam porque há uma massa de gente ocupada a odiar-se mutuamente.

O fascismo funciona sempre assim: recruta os fracos para proteger os fortes, oferecendo apenas a ilusão de poder — o poder de pisar alguém.

A sociedade dá sinais antes de implodir. Os partidos sociais-democratas e humanistas perdem eleições, nasce um ódio visceral por tudo o que seja socialismo, sem que a maioria perceba o que isso quer dizer.

A democracia vai sendo abafada por algoritmos, por TikToks de ódio, por influencers políticos que transformam racismo, xenofobia e violência num produto viral.
 
Os berros abafam a lógica.   

E esse veneno espalha-se até contaminar tudo: famílias, escolas, instituições, partidos, a linguagem do dia-a-dia... as nossas próprias crianças e jovens.

Quando finalmente acordamos, já a crueldade deixou de chocar. Já o discurso hierarquizante se tornou norma. Já a exploração passou a ser tratada como inevitável.

E um país que se habitua a esmagar os mais fracos não tarda a descobrir que a esmagadora maioria vive do lado dos esmagados... mas, nessa altura, será tarde demais.

2025 11 26
https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Margarida Davim - Os ciganos que fazem frente a Ventura

* Margarida Davim 

"Bruno Gonçalves e Paulo Domingos são dois dos seis ciganos que vão a tribunal exigir a retirada dos cartazes racistas. Olga Mariano é uma das oito testemunhas. As suas histórias desmontam ideias feitas e dão corpo a um povo perseguido que, mais de 500 anos depois de chegar a Portugal, ainda tem de reivindicar a sua portugalidade", escreve Margarida Davim na Visão.

Olga Mariano hesita em falar. “Não quero dar mais palha a André Ventura. Ele quer usar-nos como uma escada para subir.” Mas o seu testemunho é importante. Aos 75 anos, poeta publicada, Olga confunde os últimos 27 anos da sua vida com o associativismo cigano e com a defesa da igualdade de género “para ciganos e não ciganos”. E é também por isso que o seu nome está entre as oito testemunhas indicadas pelo advogado Ricardo Sá Fernandes, na ação especial de tutela de personalidade, interposta por seis ciganos que querem obrigar Ventura a retirar os cartazes em que diz que “os ciganos devem cumprir a lei”, deixando claro que a liberdade de expressão não serve para promover a discriminação. “Como portuguesa que sou, sinto-me vandalizada na minha portugalidade. Ser cigano é uma cultura. Não admito a ninguém que deite abaixo a minha nacionalidade. A minha bandeira é a portuguesa. Dou voz a milhares de portugueses com uma cultura chamada cigana”, concede finalmente Olga.

Na verdade, não há muitos ciganos em Portugal. Estima-se que sejam entre 50 e 70 mil, e quem pertence à etnia que chegou a Portugal por volta de 1462 garante que não se deve falar em “comunidade cigana”, mas sim em “povo cigano”. “Não somos uma comunidade. Somos diferentes comunidades que fazem parte de um povo. É preciso conhecer”, diz Paulo Domingos, um dos autores da ação e presidente da Plataforma Nacional para os Direitos dos Ciganos. Mas voltemos a Olga Mariano para perceber como dentro deste povo há percursos e vidas diferentes, ainda que com uma cultura em comum. “Eu posso ser tudo o que eu quiser sem deixar de ser quem sou”, diz Olga, que foi a primeira mulher cigana a ter carta de condução em Portugal, ainda nos anos 1960, com o País mergulhado em ditadura e os direitos das mulheres longe de estarem garantidos.

A primeira cigana a ter carta

Olga nasceu numa família que, por ter casa própria no Alentejo, conseguiu escapar ao nomadismo forçado, incentivado por uma lei que só deixou de estar em vigor em 1985 e que decretava que a GNR devia manter uma vigilância apertada aos nómadas, leia-se ciganos, que, apesar de terem obtido a cidadania portuguesa em 1822, foram perseguidos em Portugal ao longo dos séculos. Não ser nómada permitiu a Olga Mariano, às suas duas irmãs e ao seu irmão fazerem a quarta classe. “Os meus pais sempre lutaram para que os filhos tivessem o quarto ano.” Ir além disso era economicamente impossível, mas depois de o pai deixar o Alentejo, onde era tratador de equídeos, e rumar ao Fogueteiro em busca de trabalho, Olga deu por si a ser fundamental para a família. Como foi a primeira a concluir os estudos, era a única que podia ter a carta de condução e, por isso, aquela que podia guiar a carrinha da família até às feiras em Cascais, onde vendiam nessa altura.

“Sempre fui de trabalho”, diz a cigana que garante nunca ter visto o pai discriminar as filhas ou tratar mal a mulher. “A minha mãe, que nasceu em 1917, e o meu pai, que nasceu em 1912, nunca fizeram distinção entre homem e mulher. A minha mãe sempre acompanhou o meu pai em tudo.” Os pais casaram-se quando ambos tinham mais de 20 anos e Olga casou-se também já depois dessa idade. “Isso de que os ciganos se casam em crianças são ideias preconcebidas. Tenho um filho que se casou aos 19, outro aos 30, com uma noiva que tinha 29, e são os dois ciganos. E a minha filha casou-se com 30.” E os casamentos arranjados? “Existe aquela fábula de pedir os miúdos quando são jovens, como no tempo dos reis. Isso existe. Mas os miúdos só casam se quiserem. Casamentos arranjados não existem”, garante, dando o exemplo do neto que estava “prometido” a uma prima desde bebé, mas acabou por se casar com outra rapariga cigana, “que não tem nada a ver”.

O que a cultura condena é o namoro e Olga vê aí a explicação para muitos ciganos se juntarem ainda muito jovens. “Tenho duas tias solteiras e primas solteiras. Não somos obrigados a casar. Em 99,9%, esses casamentos jovens são porque as miúdas querem casar. Há muito choro e tristeza quando as filhas se casam mais jovens”, garante.

Enquanto esteve casada, Olga Mariano fez a vida nas feiras. “Uma vida dura, ao sol e à chuva, a montar a barraca.” E indigna-se com quem acha que essa é uma ocupação para quem foge a obrigações. “Sempre fiz os meus descontos e paguei as minhas contribuições e o espaço da banca e os artigos. Comprei a carrinha, aluguei a minha casa, depois comprei uma casa. Sempre paguei tudo, como todos os portugueses. Não é nada de mais. Diria que 50% dos ciganos têm tudo certinho. E que, entre os 50% que não têm, talvez 80% sejam crianças. Não cumprir não é coisa de ser cigano ou não cigano. É de bom ou mau carácter.”

A vida mudou há 30 anos quando o marido morreu. Na cultura cigana, a mulher, que tem direito a uma espécie de “última palavra” no casal e que – ao contrário do homem – pode pedir o divórcio por não se sentir feliz, perde estatuto social quando passa a viúva. Mas Olga não se resignou a isso. Começou aí uma vida de ativismo (é a presidente da Associação Letras Nómadas e da Agarrar Eventos) e voltou aos estudos para se formar como mediadora sociocultural e formadora. Trabalhou em escolas e na Câmara Municipal do Seixal, estudou em Estrasburgo, deu formação e é hoje trabalhadora da Junta de Freguesia da Ajuda e deputada municipal pelo PS em Almada. Diz que levou “muita pancada de todos os lados” para se afirmar, mas acredita que é hoje uma das vozes mais respeitadas no povo cigano, porque também não gosta que se diga que há uma comunidade cigana.

“Existem várias comunidades ciganas. São muito diversas, com vários meios socioeconómicos. Os ciganos só têm três pontos em comum: o luto, o casamento e as leis de apaziguamento, que servem para os homens mais velhos resolverem pequenos conflitos em comunidade.” Um dos grandes valores ciganos é o respeito pelos mais velhos, outro é a família. “Para o povo cigano, a idade é sabedoria, uma sabedoria que tem grande valor porque é vivida. E as mulheres têm um grande papel. Os maridos não fazem nada sem o aconselhamento da mulher.” Ainda assim, Olga Mariano fez da sua vida e de parte da sua poesia uma luta pela igualdade de género. “A viúva deixa de ter papel relevante na sociedade. Isso para mim não tinha lógica. Tive de me impor no meu direito de mulher. Passados estes anos, os homens já vêm pedir para eu fazer parte de projetos e reuniões. Conquistei isso para as minhas mulheres”, diz, orgulhosa.

“Andrezito tem de cumprir a lei”

Bruno Gonçalves, de 49 anos, tem sido um companheiro de luta de Olga Mariano na Associação Letras Nómadas, que se dedica a incentivar ciganos a prosseguir os estudos e já conseguiu, desde 2014, que 40 ciganos e ciganas – há sempre a preocupação da paridade – acabassem uma licenciatura e 12 fizessem o mestrado, através de um programa de bolsas. Quando começou com este projeto, Bruno só tinha o 12º ano, mas a mulher resolveu inscrevê-lo no exame de acesso ao Ensino Superior para maiores de 18 anos. Entrou no Politécnico de Coimbra e licenciou-se em Animação Socioeducativa, sem perder um ano, apesar de ter de trabalhar de dia e estudar à noite.

“Entretanto, já fiz uma pós-graduação e agora quero fazer um mestrado, mas ainda não apanhei coragem”, confessa, explicando que só as dificuldades económicas o fizeram adiar os estudos. “Sou filho de um pai analfabeto. A minha mãe estudou até ao 6º ano. O meu pai sentia muita tristeza por não poder ajudar-nos na escola. Fui voluntariamente à escola. Não havia cá RSI”, diz, notando que este ano se formou um cigano em Medicina, “com bolsa de mérito da Gulbenkian”, e que há ciganos atores – como Henrique Barbosa, protagonista do filme Entroncamento – e até “um jurista na Câmara Municipal de Coimbra, responsável pela contratação pública”. A vida das feiras é dura e “cada vez mais há famílias a apostar na escolarização como elevador social”. Mas o estigma ainda pesa.

“O anticiganismo é uma forma de racismo. Grande parte destes jovens está no mercado de trabalho, mas diria que uns 70% não podem dizer que são ciganos. Como grande parte já não tem os traços físicos, vivem numa clandestinidade étnica. Ainda ontem falei com um cigano com 40 e tal anos, que está no Exército, e só agora decidiu assumir a sua identidade”, conta Bruno, revelando que muitos jovens apagam as redes sociais quando querem encontrar um trabalho para evitar alguma publicação que os denuncie como ciganos, se o departamento de recursos humanos fizer uma pesquisa.

Segundo dados do INE de 2024, 72,6% dos ciganos fazem parte dos 20% da população com rendimentos mais baixos. A isso não deve ser alheia a discriminação no mercado de trabalho, que faz com que muitos façam vida da venda ambulante ou apenas consigam empregos através de protocolos com o IEFP, muitas vezes para Juntas de Freguesia. Bruno Gonçalves diz que o aparecimento de empresas de TVDE, como a Uber e a Bolt, veio dar outras oportunidades de trabalho, porque “o patrão é a plataforma e não discrimina”, mas há também relatos de ciganos portugueses a imigrar, por exemplo, para o Reino Unido, onde fazem trabalhos sazonais agropecuários ou ficam como trabalhadores em fábricas ou armazéns.

Bruno Gonçalves divide o País em dois quando fala do povo cigano. “No Sul as coisas são mais complicadas. Há guetos, criados por políticas de habitação horríveis. O Centro e o Norte são menos agrestes para as comunidades ciganas. Quando há guetos, as coisas são mais complicadas.” Mas, sobretudo, divide a história recente da discriminação num antes e num depois de André Ventura. “As coisas estão muito mais complicadas desde 2017.” E, para Gonçalves, isso só tem explicação no oportunismo político. “Somos perto de 70 mil. É uma comunidade muito pequenina. Espanha tem um milhão de ciganos e, por isso, o Vox não se mete muito com eles. Na Andaluzia são 8% da população, podem definir eleições”, analisa, assumindo que não teve uma hesitação em procurar a ajuda jurídica de Ricardo Sá Fernandes para interpor uma ação que obrigasse Ventura a retirar os cartazes, depois de dias a responder a chamadas e mensagens de ciganos indignados com o racismo da mensagem dos outdoors.

“O Andrezito tem de cumprir a lei. Por muito que haja um milhão e meio que votaram nele, isto não é a república das bananas. Ele tem de cumprir a lei”, afirma, indignado, consciente de que mesmo uma vitória nos tribunais não vai enterrar a discriminação nem diminuir o apoio ao Chega. “Ser anticigano vai continuar a ser popular. É o campeonato da pobreza. São os mais pobres que votam no Chega e 78% das comunidades ciganas vivem na extrema pobreza. Os ciganos vivem menos dez anos do que a média nacional. É uma competição entre pobres para ver quem não desce de divisão”, comenta.

Despertar para a política

“O Chega não é um problema nosso”, declara Paulo Domingos, 58 anos, presidente da Plataforma Nacional para os Direitos dos Ciganos e um dos seis autores da ação judicial para retirar os cartazes. “O que está em causa não é uma etnia, é a Humanidade. Hoje são os ciganos, mas amanhã podem ser as mulheres, os pobres, os judeus, os jornalistas. O que pretendemos é impor um limite moral. Não tenho nada contra André Ventura. Sou um cristão. Tenho é contra o que ele faz e diz, que é tirar a dignidade ao povo cigano”, afirma à VISÃO o homem que no dia 6 de novembro encheu um auditório em Carnide para o Primeiro Congresso do Povo Cigano em Portugal. Lá dentro havia 150 lugares sentados, mas muitos ficaram de pé e outros ainda tiveram de ficar à porta, por a lotação estar esgotada.

Paulo admite que a adesão o surpreendeu. “Achei que não ia encher a casa. Reunimo-nos em festas ou casamentos ou nas igrejas evangélicas, mas não para falar de temas políticos.” Falou durante duas horas, mas garante que no fim “falaram homens e mulheres”, num evento que tinha como propósito ajudar o povo cigano a tomar “consciência do seu papel social e político”. Apesar do objetivo, Paulo Domingos assegura que a sua plataforma não tem pretensões ligadas a partidos ou ideologias. “Não tenho uma ideologia política estruturada. A Plataforma não está agregada a nenhum partido nem pretende estar”, assegura, explicando que neste Congresso conheceu “ciganos que estão com cargos em empresas ou ligados ao Estado, com nível intelectual e formação” e que só esse encontro já pode servir de semente para uma maior intervenção social do povo cigano em Portugal no futuro. “O que nos falta é a união. Não estamos habituados culturalmente a ter esta união”, admite, defendendo uma “maior abertura à sociedade” para desconstruir mitos e ideias feitas.

Criado como “um nómada moderno, não daqueles de burro e carroça, mas que viajavam de avião e tinham os carros da moda”, passando por vários países na infância e sempre acarinhado pelos anciãos dos lugares por onde passava, Paulo Domingos não se sentou nos bancos da escola e só aprendeu a ler e a escrever já adolescente, numa altura em que lhe interessava aproximar-se de raparigas não ciganas da sua idade. “Comecei a perceber que tinha um atraso em relação a quem não era cigano, que era não saber ler. Depois, quis aprender a falar bonito. Li tudo e mais alguma coisa.” O seu percurso de vida foi atribulado, mas sempre guiado pelo valor mais importante para qualquer cigano: a liberdade.

O primeiro emprego foi como vendedor numa empresa de produtos químicos. O diretor do departamento que o contratou era o único que sabia da sua origem. O patrão, um judeu, só descobriu que Paulo era cigano quando o chamou por ser o melhor vendedor da empresa. “Aprendemos a vender no útero da mãe”, brincou. Era tão bom, que o departamento de encomendas não conseguia dar vazão às vendas angariadas por Paulo. Por isso, o patrão deu-lhe um carro para ser ele a fazer as entregas. Foi subindo na empresa, até se desinteressar. Procurava a novidade.

Quando se casou, tinha 24 anos, a mulher tinha 23 e já tinha carta de condução. Ela era de uma família de feirantes e Paulo quis experimentar essa vida. Passados uns tempos, voltou a mudar e dedicou-se à consultadoria de empresas. “O que mais gostei de fazer foi consultoria empresarial, a desenvolver produtos e serviços. Já fazia isso sem saber o nome. Era um craque na minha área. Mas também fui vendedor de automóveis e angariador de imobiliário.” A vida correu-lhe bem, fez muito dinheiro. Mas as coisas mudaram quando, há 12 anos, perdeu um filho. Entrou numa depressão profunda, não conseguia sair de casa. E a mulher teve de voltar às feiras. A forma como a comunidade cigana que o rodeava o ajudou e a conversão ao cristianismo fizeram-no começar a voltar à vida e perceber que tinha de lançar a Plataforma, na qual uma das suas filhas, Maiara Domingos (outra das autoras da queixa para a retirada dos cartazes), é vice-presidente.

“A Plataforma é um projeto nacional. Já tenho delegados regionais. E muita coisa vai mudar depois deste primeiro Congresso Cigano. Acredito verdadeiramente que este foi o princípio de algo novo. Mas este trabalho não pode ser feito só com ciganos”, argumenta. Uma das coisas que fizeram com que avançasse para a ação judicial foi, aliás, a forma como não se levantou um coro de indignação perante uma mensagem racista contra os ciganos. “Nem o poder político nem o poder judicial vieram defender a nossa honra. A liberdade de expressão não pode ser usada como arma de desumanização. O que me fez avançar foi a colocação dos cartazes e a falta de uma voz que nos defendesse.”

Ciganos que morreram por Portugal

A 1 de dezembro de 2022, Marcelo Rebelo de Sousa fez algo inédito: usou o Dia da Restauração da Independência de Portugal para fazer um agradecimento histórico aos ciganos.“Ao lembrar tantos portugueses, de tantas origens, que se envolveram no movimento revolucionário, o Presidente da República quer lembrar também os portugueses de etnia cigana que, como reconheceu então o próprio rei D. João IV, deram a vida pela nossa independência nacional”, escreveu no site da Presidência. Foi a primeira homenagem pública ao “cavaleiro fidalgo” Jerónimo da Costa e a “muitos dos duzentos e cinquenta outros ciganos que serviram nas fronteiras e tombaram por Portugal”.

Este ano, Marcelo usou o Dia do Cigano, 8 de abril, para reforçar a importância da integração deste povo. Mas o Governo de Luís Montenegro deixou na gaveta a nova Estratégia Nacional para a Integração das Comunidades Ciganas, que está para consulta pública há mais de um ano."

Texto de Margarida Davim na Revista Visão. Fotos de Luís Barra e Lucília Monteiro

https://visao.pt/.../2025-11-15-os-ciganos-que-fazem.../

sábado, 8 de março de 2025

Zaíra Pires - Dia Internacional da Mulher Branca

? Zaíra Pires, Blogueiras Negras

Mais um 8 de março se aproxima e recebemos aquela enxurrada de chorume em nossas existências femininas nos “homenageando” por sermos delicadas, amorosas, resilientes, submissas, mães, esposas, damas na sociedade e amantes ardentes entre quatro paredes.


Todo esse repentino amor tem hora pra começar e acabar, durando o tempo do mês de março, da semana do 8 ou só desse dia mesmo, de acordo com o tanto de baboseira que cada um consegue produzir.

Nesse sentido, as mulheres homenageadas são sempre as mesmas: brancas, jovens, magras, ocidentais, cristãs e cisgêneras.

E para não perder o costume, nós, as pretas neuróticas, recalcadas, mal amadas e que veem racismo em tudo, vamos direcionar nossa crítica destrutiva ao bode expiatório da vez: a Riachuelo e sua campanha pela Semana da Mulher Brasileira 2014 (leiam ironia nas minhas palavras, por favor)

ver aqui o vídeo referido no artigo


Dia da Mulher Brasileira - Propaganda Riachuelo 03/2014

Como podemos ver no vídeo, a mulher brasileira padrão, essa do comercial, corresponde exatamente ao padrão médio da brasileira, afinal, somos majoritariamente brancas, loiras, com traços faciais finos e tão magras e altas como sílfides mitológicas. Uai, não somos?

E então que a presença negra no comercial é de uma mão que serve. Um corpo sem cara, que não consome, não tem vontades, sequer existe, apenas serve. Uma sombra semivivente que só se presta a apoiar a existência da sua senhora.

Sim, porque a mulher que deve ser homenageada na semana da mulher é aquela branca que trabalha fora, independente, bem resolvida, que limpa a casa, cuida dos filhos, serve ao seu marido e sempre está com as unhas feitas e a depilação em dia. Essa é uma super mulher que consegue viver seus rompantes de modernidade sem deixar de lado suas obrigações femininas. Essa merece ser louvada e ganhar um desconto nas compras da semana por cumprir suas funções com tanto esmero.

A preta que sustenta a família com seu salário do subemprego, que enfrenta 5 horas de ônibus sujeita a abuso sexual, que vê seu filho ser morto pela polícia, que morre por complicações aborto inseguro, que está fadada ao serviço doméstico desde sempre como se isso fosse inerente à sua existência, que suporta as investidas sexuais do patrão e do filho do patrão para não perder o sustento dos seus, que é a principal vítima de negligência na saúde pública, que deixa seus filhos sozinhos em casa pra cuidar dos filhos da patroa branca, que é a maioria entre as trabalhadoras do sexo, que não completa os anos básicos de estudo porque precisa sair para trabalhar, que tem que se virar em quinze para viver e ainda manter o sorriso no rosto, essa não merece as homenagens desse dia.

Na verdade essa mulher é a serviçal que deve se alegrar por ter a honra de ver seus braços pretos aparecerem na televisão.

Afinal, o que a Riachuelo nos diz com esse filme, e o que muitas outras nos dirão nessa semana, é que mulher negra consumidora é paradoxo, e já que ela não existe, porque deveria ser representada numa propaganda? Quem disse que preta tem dinheiro? Quem disse que preta compra alguma coisa? Quem disse que preta entende de publicidade?

Pois estamos aqui, consumidoras, pensadoras, cidadãs, formadoras de opinião, dizendo que esse comercial não nos representa. Durmam com esse barulho!

2014 03 08

http://www.vermelho.org.br/noticia.php?id_noticia=237240&id_secao=8

domingo, 12 de maio de 2024

Raul Almeida - A era do ódio

Raul Almeida

 O Porto, cidade aberta, livre e liberal, assistiu no passado fim-de-semana a um horrível crime de ódio. A tragédia, porque todos os crimes de ódio são uma tragédia, deixou muita gente surpresa, dando conta da distracção ou ignorância em que vive uma grande parte da nossa sociedade sobre o que realmente se passa no país.

Usar a analogia epidémica é, talvez, a forma mais eficaz de falar sobre a revolução subterrânea em curso. Enquanto à superfície as forças radicais vão forçando as fronteiras do aceitável, persistindo na descredibilização das instituições e relativizando a realidade, no plano subterrâneo vão infectando sem controlo os crentes, os sedentos e os vulneráveis. A par da infinitude de coisas extraordinárias que a Net e as redes sociais nos trouxeram, grassa aí todo o tipo de informação especulativa e manipulativa, sendo a nova arma de destruição maciça com exércitos poderosos e eficazes.

De forma persistente e muito bem organizada, essencialmente através dos grupos de WhatsApp e canais do YouTube, está a ser criado um Portugal alternativo, onde vive cada vez mais gente. O foco, porque o medo do diferente une e galvaniza, é sempre o estrangeiro e a terrível ameaça que representa; depois, vêm as instituições, que urge descredibilizar. Há uma parte de Portugal que acha que não se pode sair à rua na Amadora, em Odivelas ou mesmo em Lisboa. Imagens de festas hindus num país qualquer são veiculadas como manifestações islâmicas supremacistas numa qualquer terra portuguesa, sublinhando o perigo iminente para o “português de bem” e a incompreensão pela passividade geral face à ameaça real da imigração. As reportagens de pseudo-repórteres no Martim Moniz, o aproveitamento e distorção das festas de fim de Ramadão ou outras, a invenção de factos e a revisão da história são o pão nosso de cada dia. Aparentes mães de família bramam em vídeo contra a ONU por legislação que nunca fez, acusam a OMS de promoção da pedofilia e avisam contra os inúmeros perigos de confiar no Estado. Cientistas forjados falam do tenebroso plano de controlar a população através de vacinação. Um destacado deputado do Chega faz um vídeo em que acusa a ocupação muçulmana da Península de ter explorado e abusado das nossas mulheres.

Esta persistência na infusão do medo, na insinuação permanente de que o imigrante é um marginal, de que os imigrantes gozam de impunidade perante a lei e têm mais direitos que os “portugueses de bem”, resulta num ódio crescente por parte daqueles que se deixam envolver pela narrativa. Tal como num passado de muito má memória, começaram com os ciganos, usando-os como teste e via de entrada para a construção da fractura social. De repente, havia gente que não se cruzava com um cigano há anos a discorrer sobre o fardo e ameaça que estes constituem. Seguiram-se os desgraçados do bairro da Jamaica, os muçulmanos das mesquitas de Lisboa e todos os que fazem o longo caminho da esperança desde o Indostão. Ventura chega a afirmar em directo nas televisões que Braga está “irreconhecível e tomada por gente do Indostão”. Em paralelo, estava em marcha a narrativa sobre as glórias do nosso passado colonial, os grandes feitos do Estado Novo e a urgência da restauração de uma certa ideia de Portugal que, de resto, nunca existiu.

As declarações de Ventura sobre o crime hediondo do Porto são um tratado de cinismo e o atestado da profunda má-fé que norteia a sua acção política, validando assim a sua ligação a este movimento subterrâneo aparentemente mais informal. O “sim, mas” é inaceitável. A “compreensão” por eventuais milícias e ajustes de contas é um ataque gravíssimo à democracia e ao Estado de Direito. O plantar da dúvida sobre a origem dos criminosos, que afinal serão portugueses de gema, tem o mesmo propósito. Trump, que Ventura já convidou várias vezes para vir a Portugal, faz exactamente o mesmo com os terroristas do 6 de Janeiro e com todos os criminosos que sirvam os seus intentos.

Esta é realmente a maior ameaça que enfrentamos, não aqueles que nos procuram em busca de uma vida melhor, mas os que vivem da divisão, do ódio e da violência. A imigração pode, e deve, ser regulada com humanismo, bom senso e regras claras, visando em primeiro lugar proteger os interesses de quem nos procura, e o todo, por consequência. O radicalismo é mais difícil de combater numa sociedade livre, exige melhor democracia, mais literacia, mais informação, mais cidadania e melhores protagonistas; não se resolve por decreto.

12 de Maio de 2024

https://www.publico.pt/2024/05/12/opiniao/opiniao/odio-2090074

sábado, 23 de dezembro de 2023

Carlos Matos Gomes - A derrota do Deus do Ocidente





Carlos Matos Gomes

A ação do Estado Judaico na Palestina, o genocídio em Gaza e a destruição da Cisjordânia constitui um ato que os seus autores pretendem que seja o ato final do direito de origem divina de Povo Eleito à Terra Prometida, a provocar um Armagedeão em termos do Antigo Testamento bíblico. Os dirigentes judaicos justificaram e justificam com o Antigo Testamento da Bíblia e com o seu deus Javé a ocupação manu militari de mais este território da Terra Prometida a Abraão há quatro mil anos. Sem a dimensão religiosa não é possível entender a política do Estado de Israel, o discurso e o comportamento dos seus dirigentes e a atitude de arrogância que revelam perante aa comunidade internacional (gentios) e até contra os seus protetores americanos.

No entanto, no Ocidente cristão esta guerra santa, equivalente a uma cruzada ou uma jhiad, está a ser quase exclusivamente analisada sob o ponto de vista técnico, como um historicamente vulgar conflito tendo por base os interesses de grupos políticos, económicos e sociais, interesses estratégicos de poder global envolvendo superpotências e potências regionais. Como mais uma “guerra” das muitas em que o Ocidente se tem envolvido desde que se reconstituiu após a queda do império romano, tendo o cristianismo como base ideológica e civilizacional.

No entanto esta é uma guerra de rutura civilizacional, que coloca em causa as raízes mais profundas da nossa civilização, que promove a substituição dos valores do cristianismo e do Novo Testamento pelo judaísmo e pelo Velho Testamento, o retrocesso de uma civilização de abertura, que o cristianismo foi e daí a sua universalidade, por uma civilização fechada, racista e suprematista como é o judaísmo.

O que nos tem sido apresentado pelos grandes meios de manipulação são episódios da violência inerente a qualquer confronto armado, com a particularidade da utilização de meios desproporcionados, da impiedade e da ausência de limites, ou de misericórdia. Os autores do guião da ação do Estado de Israel em Gaza e na Cisjordânia e os especialistas contratados para a analisar pretendem inculcar a ideia de que a atual ação militar contra as populações palestinianas faz parte do “direito de defesa de Israel”, pelo que o mundo estaria perante um facto recorrente, apenas um pouco mais sangrento, mas sem que nada de essencial tenha sido alterado. O discurso dominante, mesmo quando especializado, encontra-se delimitado pela análise da arte da guerra: aniquilação do inimigo através do genocídio, ou por uma conjugação de massacre e sujeição dos vencidos aos princípios e leis dos vencedores.

Podemos chocar-nos com o genocídio dos palestinianos executado a frio e com justificações de aberrante hipocrisia em nome dos interesses do Ocidente americano, mas do ponto de vista estratégico e operacional, como referem os comentadores militares, a operação está a decorrer muito bem e conforme o planeado. Nada de novo: Delenda Carthago! — Cartago tem de ser destruída! — assim terminava Catão os discursos fosse qual fosse o assunto. O mesmo afirmam Netanyahou e os seus camisas negras em todas as ocasiões: Delenda o Hamas! — Delenda Gaza, a Cisjordânia! Até surge nas notícias o picante de que os alvos são selecionados pela Inteligência Artificial, o que, numa segunda leitura, reduz os pilotos dos aviões, os artilheiros, os manipuladores de drones a imbecis que se limitam a seguir a inteligência das máquinas. Mas como é em nome da promessa da posse da Terra Prometida, tudo se desculpa e nenhum desses seres invocou problemas de consciência.

Há, contudo, uma outra análise que deve (devia) ser feita e que remete para a profundidade das raízes desta ação de Israel — da vingança histórica e milenar que ela materializa contra o Ocidente. O Ocidente está a dar a oportunidade de ouro para a realização do mais extraordinário ato de vingança contra si próprio desde a instauração do cristianismo como religião do império romano decretado no século IV por Constantino, dentro do princípio cujus regio, ejus regio — a religião do príncipe é a religião do país.

Independentemente das convicções religiosas de cada um é inegável a importância das religiões na organização das sociedades e na vida dos seres humanos. Para criar instituições políticas, o primeiro obstáculo é o de superar a desconfiança geral do grupo. Não se pode organizar um sistema político estável se a população, ou pelo menos uma parte dela, não aceita a autoridade de um chefe. A resposta mais eficaz a este desafio foi concentrar a autoridade religiosa e a do chefe político e militar. Estabelecer a religião como fonte da autoridade política. O primeiro registo desta ideia parece ser o do faraó Akenaton (1350 a.C), que se declarou emissário de um único Deus, Aten, a única ponte entre o humano e divino. A associação do poder de base militar e religiosa teve consequências para a religião, que se tornou parte da organização política.

A criação dos deuses e das religiões constituem as mais importantes descobertas do ser humano, mais importantes que a descoberta da roda, do fogo ou da escrita. O ser humano não quer apenas viver, tem necessidade de dar sentido à vida. A religião é um dos espaços para dar sentido à vida e os deuses são criações do homem, têm real existência. Quando um piloto judeu larga uma bomba do seu avião sobre Gaza em nome do seu deus, esse deus existe, mata e venceu o deus que não salvou os seus fiéis palestinianos. O deus dos cruzados europeus que atacaram o Templo de Jerusalém e mataram os que lá se encontravam a ponto de o sangue dar pelos jarretes dos cavalos existia e venceu o deus que lá estava. Os deuses existem, têm criador e, infelizmente, os criadores de deuses são por norma os mais ambiciosos e sem escrúpulos dos homens, que os utilizam para lhes servirem de instrumento de domínio.

A dimensão religiosa desta ação do Estado judaico devia e deve estar no centro das análises, porque é ela que, em última instância, determina o futuro de todos os envolvidos e, desde logo, do Ocidente que fornece as armas e o apoio político e ideológico a quem se bate por um deus que é o seu e que há dois mil anos foi derrotado pelo deus do Ocidente.

O Estado de Israel tem o judaísmo por infraestrutura ideológica. Pelo seu lado, o Ocidente, a partir do édito de Milão e da “conversão” de Constantino, validou o cristianismo como religião oficial, colocando o judaísmo na situação de seita responsável pela morte e sacrifício do novo Deus de Roma. Durante séculos, até ao nazismo, os judeus foram tidos no imaginário ocidental como um povo-vítima, pacífico, perseguido, estigmatizado, que se deixava sacrificar sem luta. O judaísmo era uma religião de mansos que viviam em guetos e aí celebravam os seus rituais. O Ocidente ignorou a violência genética do judaísmo e do seu deus, Javé. Não pareceu surpreendido com o terrorismo que os judeus praticaram logo que tiveram a oportunidade de reunirem uma massa critica adequada primeiro no protetorado britânico da Palestina, que evoluiria para Estado de Israel sob os auspícios das Nações Unidas, atribuindo as práticas dos seus grupos terroristas à necessidade de defesa e ao seu direito de existência. Não era: o judaísmo é geneticamente violento, por ser exclusivista, racista e negacionista do outro, por se assumir como a prova de que é a ideologia de um povo eleito, superior.

O grande sofisma utilizado pela elite judaica no coração do Ocidente para se confundir com ele e o tomar por dentro tem sido o de que o cristianismo é uma “continuação” do judaísmo (uma justificação que também serviria para o islamismo…) e o instrumento culminante dessa manobra de continuidade do cristianismo a partir do judaísmo foi o Estado de Israel, promovido pelo movimento sionista, aproveitando as condições do pós-Segunda Guerra.

Na realidade, o cristianismo é uma nova religião que nasceu e se desenvolveu em confronto direto e irredimível com o judaísmo. Durante dois mil anos o convívio entre as duas religiões teve episódios de grande conflitualidade — a Inquisição, os pogrom e o nazismo — alternando com outros de coexistência mais ou menos tolerada segundo os interesses do momento, em especial nos momentos de aperto financeiro dos soberanos cristãos.

O facto de duas famílias judaicas dominarem desde o século XVIII o sistema financeiro mundial, o coração do sistema capitalista, as duas praças mundiais, os Rothschild em Londres (e também Frankfurt) e os Rockfeller em Nova Iorque fez com que o judaísmo, enquanto formatador civilizacional, aparelho ideológico e legitimador de comportamentos fosse parasitando e metastesiando o corpo principal da civilização ocidental, tendo o cristianismo como base dos seus princípios.

Segundo o Antigo Testamento da Bíblia, pelo qual se regem os judeus, o pacto entre eles e Javé, o seu deus, teria começado com Abraão, há cerca de 4 mil anos. Este foi chamado por Deus para deixar a cidade de Ur, na Mesopotâmia e ir fundar uma nova nação num terra desconhecida, a Terra Prometida, que seria chamada de Canaã. O deus que apareceu a Abraão rompia com a tradição politeísta dos gregos, e colocava-se na posição omnipotente de exigir o que quisesse. No caso de Abraão, ordenou-lhe que sacrificasse o seu filho Isaac como prova de fé, isto é, de sujeição.

O Javé do Antigo Testamento (o Pentateuco, para os judeus) não tem semelhanças com o pai protetor que mais tarde o cristianismo iria propagar como sendo o seu Deus. Javé é um deus brutal, parcial e assassino, um deus de guerra, que seria conhecido como Javé Sabaoth, Deus dos Exércitos. Manda pragas aos egípcios, mostra-se até arrependido da sua criação, como quando ordenou a morte por afogamento de toda a humanidade através do dilúvio, do qual só escapou a família de Noé e os animais que colocou na arca. Javé, o deus dos judeus, está mais preocupado em ameaçar a raça humana para que ela não se desvie das instruções que entregou a Moisés do que em criar condições de paz e de harmonia, de felicidade e de justiça. Javé é passionalmente partidário do seu povo eleito, os judeus, e tem pouca misericórdia pelos não favoritos. É uma divindade tribal.

A narrativa de continuidade entre o judaísmo e o cristianismo foi destruída por Paulo de Tarso, ao estabelecer que o cristão se justificava pela fé e não pela obediência à lei judaica, nem à sua ascendência judaica, que os gentios, os não judeus, se podiam converter, abrindo o cristianismo a novos espaços. Paulo tirou Jesus Cristo da pequena gaiola de um messias para o povo hebreu, ou de mais um profeta, transformando-o num salvador de todos os povos. Javé, esse continuou ligado apenas ao povo hebreu, enquanto Cristo ganhava um caráter universal. Javé continuou a ser o deus carrancudo dos judeus e o cristianismo transmitiu a imagem de um deus bem mais amistoso que Javé.

Na tradição judaica estava muito claro que o homem devia temer a Deus acima de tudo. Com o cristianismo, a mensagem passa a ser amar a Deus acima de tudo. A diferença entre o judaísmo e o cristianismo é a mesma entre temer e amar. É esta escolha que está em causa com a ação de Israel na Palestina e em que os dirigentes ocidentais estão a tomar o partido do Deus do medo, defensor de um pequeno povo de eleitos contra a humanidade. O “direito de Israel a defender-se” tem o sentido de direito divino a destruir ou subjugar todos os que não são os eleitos, incluindo nós, os que lhe fornecemos as armas e a complacência.

O que o Estado de Israel está a realizar perante o mundo e em nome do Ocidente é a morte do Deus dos cristãos, do Deus que, apesar das violências cometidas em seu nome, permitiu que surgisse um humanismo cristão, que produziu um Santo Agostinho, um São Francisco, que permitiu a recuperação do conceito de um deus moral, em oposição ao deus brutal.

A vitória nas guerras foi sempre a vitória dos deuses dos vencedores. A vitória de Israel na Palestina é a vitória do deus dos judeus sobre o deus dos muçulmanos, mas também sobre o deus dos cristãos. O deus moral representado por Cristo podia oferecer uma via para que as sociedades cooperassem, evitando ofender um poder superior atento ao seu comportamento em relação aos demais. Javé, o deus dos judeus exclui o compromisso. E essa exclusão é evidente no discurso dos dirigentes judaicos.

Mesmo para quem, como eu, entende a religião apenas como uma dimensão simbólica do comportamento humano e a religiosidade como um sistema produtor de normas e culturas inerentes a qualquer sociedade, quer a religião, quer a religiosidade são fatores constitutivos e estruturantes da vida humana. Não me é, pois, indiferente, muito pelo contrário, ser regido pelas normas de Javé ou de Cristo, de ser regido pelo Velho Testamento, pelo Alcorão ou pelo Novo Testamento. Não é a mesma coisa ser não crente numa divindade numa civilização que tenha por deus Javé ou Alá, entre judeus e muçulmanos, ou sê-lo numa civilização que tenha Cristo por referência.

Impressiona-me a ausência de pensamento no interior do cristianismo sobre o conflito judaico-cristão, que coloca em causa a nossa civilização. Preocupa-me que estejamos a ir atrás do canto das sereias do conflito com os muçulmanos, encadeados que estamos pelo domínio dos poços de petróleo do Médio Oriente e dos eixos de ataque à Rússia, a primeira barreira a ser ultrapassada para os Estados Unidos enfrentarem a China. Entendo ser uma cegueira perigosa e criminosa o Ocidente abdicar do seu Deus e dos seus valores, trocando-o por Javé, o velho carrancudo, vingador e sem piedade.

Além dos palestinianos, é também o cristianismo que está debaixo de fogo neste Natal na Palestina. Quem invoca um deus para justificar o genocídio na Palestina não me merece respeito. Repugna-me a corrupção dos que traficam o seu deus com eles. Dos católicos, dos anglicanos, dos luteranos, das igrejas evangélicas, dos cardeais de Roma, dos televangelistas americanos, dos vendedores de dízimo brasileiros nem uma palavra!

Para ser claro: à vingança dos judeus por dois mil anos de humilhação pela derrota de Javé, os cristãos respondem agora com a traição ao seu Deus. Falta-nos um Shakespeare!

2023 12 23

https://cmatosgomes46.medium.com/a-derrota-do-deus-do-ocidente-68a58fecb0c5


sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

Joana Gorjão Henriques - Mais de meio milhão de portugueses identifica-se como não branco

 Primeiras estatísticas oficiais sobre origem étnico-racial da população portuguesa divulgadas esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística. [ Inquérito às Condições de Vida, Origens e Trajetórias da População Residente em Portugal (ICOT)]

Joana Gorjão Henriques

22 de Dezembro de 2023, 11:16

Primeiras estatísticas oficiais sobre origem étnico-racial da população portuguesa divulgadas esta sexta-feira CLAY BANKS / UNSPLASH

Pelo menos mais de meio milhão de portugueses - precisamente 535,6 mil - identifica-se como não-branco. Este é o resultado das primeiras estatísticas oficiais sobre origem étnico-racial da população portuguesa divulgadas esta sexta-feira pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) que revelam que há 6,4 milhões de pessoas que se identificam como brancas, 169,2 mil como negras, 56,6 mil como asiáticas; 47,5 mil como cigana; e 262,3 mil com origem ou pertença mista.

Além disso, 1,4 milhões de pessoas têm background imigratório: 947,5 mil são imigrantes de primeira geração e a maioria desses (65,2%) reside em Portugal há mais de dez anos.

Este é um retrato inédito da população segundo a sua origem étnico-racial divulgado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). São, de facto, as primeiras estatísticas oficiais sobre a caracterização da população residente de acordo "com a sua origem e pertença étnica, e sobre a sua percepção dos fenómenos de discriminação e desigualdades".

A população que se identifica com os grupos étnicos negro, asiático e origem ou pertença mista tem as maiores proporções de background imigratório (90,3%, 83,7% e 69,2%, respectivamente). Os grupos étnicos com origem ou pertença mista (67,9%) e os negros (64,3%) são os que apresentam mais pessoas empregadas - seguidos dos brancos (62,9%). Do total, só cerca de metade da população (4,7 milhões) dos 18 aos 74 anos está empregada, segundo este inquérito.

Outra das conclusões é que mais de 1,2 milhões de pessoas disseram ter sofrido discriminação e mais do dobro - 2,7 milhões - disse já ter presenciado actos de discriminação. Por outro lado, são 65% os portugueses que consideram que há discriminação - o grupo étnico, cor da pele, orientação sexual e território de origem são apontados como os factores mais relevantes na discriminação percebida e testemunhada.

No questionário, era referido: "Portugal é uma sociedade com pessoas de diversas origens. Pretende-se melhorar a informação sobre essa diversidade na sociedade portuguesa, pelo que gostaríamos que respondesse a algumas questões sobre a forma como se identifica relativamente à sua origem, pertença, história ou percurso familiar". E apresentam várias hipóteses, incluindo a de a pessoa não responder ou não saber: asiático, branco, cigano, negro, origem ou pertença mista".

Já sobre discriminação questionava-se se "em Portugal, alguma vez sentiu que foi ou é tratado/a de forma discriminatória?", "com que frequência" e quais as características que "podem estar na origem dessa discriminação" - cor da pele, grupo étnico, idade, religião, sexo, opiniões políticas, território de origem, escolaridade, incapacidade/problema de saúde, situação económica/condição social, orientação sexual, outra.

Seguem-se perguntas sobre as situações em que isso ocorreu (emprego, saúde ou família entre outros) e os locais (polícia, vizinhança, etc). O INE quis também saber se as pessoas tinham feito queixa à polícia ou outras entidades. Interessou também saber a percepção dos respondentes sobre a discriminação.

O INE definiu uma amostra de 35 mil casas, distribuídas por Portugal, e uma população dos 18 aos 74 anos.

O objectivo é que os dados recolhidos possam “produzir e apoiar a definição de políticas públicas”, algo que foi definido no plano de acção da União Europeia contra o racismo 2020-2025, mas também no Plano Nacional de Combate ao Racismo e à Discriminação 2021-2025.

Este documento surge em sequência do chumbo pelo INE em 2019 de inclusão de uma pergunta sobre a origem étnico-racial nos Censos 2021. Na altura, um grupo de trabalho que estudou o tema a pedido do Governo defendeu que o Censos deveria ter aquela pergunta, mas o INE considerou que era complexo fazê-lo e sugeriu antes um inquérito.

Em 2021/2022 foi feito o inquérito piloto para testar estas perguntas. O objectivo é “melhorar o conhecimento sobre a diversidade da população residente em Portugal, com enfoque na sua pertença/identificação étnica, trajectórias geracionais e condições de vida objectivas”. Quer-se avaliar as condições de vida da população em várias áreas: qualidade do emprego, saúde, educação, habitação, mobilidade, redes de socialização.

Se a pertença étnica foi o resultado de uma auto-classificação das próprias pessoas, já a origem foi "observada pela naturalidade do respondente e dos seus ascendentes, até à terceira geração".

tp.ocilbup@hgj 

https://www.publico.pt/2023/12/22/sociedade/noticia/12-milhoes-discriminadas-portugal-2074587

quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

João Miguel Tavares - O doutor Nuno Rebelo de Sousa, seu filho

OPINIÃO

Neste momento, o melhor exemplo de “fucked up dad” é o senhor Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

João Miguel Tavares

6 de Dezembro de 2023, 20:54

Um dos poemas mais famosos do século XX começa assim: “They fuck you up, your mum and dad. / They may not mean to, but they do.” (Em tradução livre: “Fodem-te a cabeça, a mamã e o papá. / Podem não ter essa intenção, mas é assim.”) É realmente assim, mesmo que não seja essa a intenção. O poema de Philip Larkin continua por ali fora, com uma série de observações e conselhos sortidos, que incluem sair de casa o mais cedo possível e evitar procriar, pelas razões aduzidas no primeiro verso.

Larkin foi coerente com a sua poesia – morreu em 1985, aos 63 anos, sem ter tido filhos. Felizmente, para bem da perpetuação da espécie humana, há 385 mil bebés a nascer todos os dias, e 280 milhões de mamãs e papás a iniciarem a cada ano a nobre tarefa de lixarem a cabeça dos seus filhos. Aquilo que Larkin não diz no seu poema, talvez por ser mais evidente – e nessa medida menos poético –, é que o inverso também é verdadeiro: à sua maneira, os pais são igualmente “fucked up” pelos seus filhos, ainda que sejam eternamente absolvidos pela frase clássica “não fui eu que pedi para nascer”. Neste momento, o melhor exemplo de “fucked up dad” é o senhor Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa.

Note-se que Marcelo está em excelente companhia. Quem gosta de seguir a política americana sabe que um dos maiores pedregulhos no caminho da reeleição de Joe Biden se chama Hunter Biden, o seu filho absurdamente problemático, que durante anos andou a fazer dinheiro à sombra do pai, fosse na China, fosse na companhia de gás ucraniana Burisma, onde se rodeou de gente muito pouco recomendável. Até que um dia se esqueceu de um computador portátil numa loja de informática, cheio de documentação comprometedora e fotos com prostitutas que fizeram as delícias dos tablóides.

Nuno Rebelo de Sousa não perdeu nenhum computador – limitou-se a enviar um email para a Presidência da República a pedir favores para um amigo. Mas esse email pode estar para Marcelo como o computador perdido para Joe Biden – uma bomba impossível de desarmadilhar, porque se um Presidente, ou um primeiro-ministro, pode despedir funcionários, assessores ou declarar em público que não tem amigos, não há forma politicamente eficaz de um pai se afastar de um filho. Se corta com brutalidade é impiedoso – o que lhe fica muito mal; se o protege é cúmplice – o que lhe fica pessimamente. Até hoje, Biden não conseguiu resolver esse dilema. Duvido muito de que Marcelo consiga.

Infelizmente para Marcelo, Nuno Rebelo de Sousa não é um cidadão como qualquer outro

A profundidade do dilema de Marcelo está espelhada numa formulação bizarra, que repetiu mais do que uma vez na conferência de imprensa desta semana: “O doutor Nuno Rebelo de Sousa, Meu Filho.” Estranho cognome. Por um lado, procurou criar distância – o “doutor Nuno Rebelo de Sousa”, “cidadão como qualquer outro”, que se limitou a enviar correspondência para Belém. Por outro, foi obrigado a acrescentar “meu filho”, porque obviamente aquilo que está no coração deste caso é essa proximidade. Marcelo andou a brincar com as palavras ao longo de todo o processo: declarou que um filho de Presidente não tinha privilégios, enquanto privilegiava um filho de Presidente.

Infelizmente para Marcelo, Nuno Rebelo de Sousa não é um cidadão como qualquer outro. Aliás, a pergunta fundamental neste momento é saber quem realmente é Nuno Rebelo de Sousa, e porque é que mobilizou um Presidente, um Governo, vários médicos e o Infarmed para ajudar um amigo brasileiro, ao ponto de comprometer a reputação do seu próprio pai.

O autor é colunista do PÚBLICO

https://www.publico.pt/2023/12/06/opiniao/opiniao/doutor-nuno-rebelo-sousa-filho-2072819


quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

Luís Miguel Queirós - Produção de Beckett cancelada por restringir audições a homens

 Teatro

Produção de Beckett cancelada por restringir audições a homens

Encenador cumpriu instruções do dramaturgo, mas foi acusado de violar política de inclusão da universidade holandesa de Groningen.

Luís Miguel Queirós

7 de Fevereiro de 2023

A peça À Espera de Godot, encenada por Gábor Tompa, no Teatro Nacional São João, em 2021 TUNA

Uma encenação de À Espera de Godot, de Samuel Beckett, cuja estreia estava prevista para Março no Centro Cultural de Estudantes Usva, da universidade holandesa de Groningen, foi cancelada quando a instituição soube que as audições para os cinco papéis masculinos da peça só tinham sido abertas a actores desse mesmo sexo.

O jovem irlandês que estava a dirigir a encenação, Oisín Moyne, de 24 anos, tentou argumentar que o próprio Samuel Beckett deixara instruções para que a peça fosse representada por cinco intérpretes do sexo masculino, e que desrespeitar essa indicação colocava a companhia em risco de ser processada pelos herdeiros do dramaturgo, mas a Universidade de Groningen manteve a sua decisão de cancelar o espectáculo, alegando que este violara a sua “política de inclusão”.

O responsável pela programação teatral do Usva, Bram Douwes, secundou a posição da universidade. “Se se tratasse de uma peça com cinco tipos brancos para a qual tivessem aberto audições, estaria tudo bem, mas o que não podem é banir pessoas logo à partida”, afirmou Douwes ao jornal universitário Ukrant.

A assessora de imprensa da Universidade, Elies Kouwenhoven, reconhece que Beckett “declarou explicitamente que esta peça devia ser interpretada por cinco homens”, mas argumenta que “os tempos mudaram” desde que a peça foi apresentada pela primeira vez em 1953, e que “a ideia de que só os homens são adequados a estes papéis está datada e é mesmo discriminatória”. E concluiu: “Nós, como universidade, defendemos uma comunidade aberta e inclusiva, na qual não é apropriado excluir outros seja com que bases for.”

A administradora do Usva, Fay Sterken, explicou ao Ukrant que o centro só soube que as audições tinham sido exclusivamente para homens há cerca de duas semanas, quando a preparação do espectáculo já ia adiantada, com ensaios a decorrer desde Novembro. “Descobrimos que a companhia [intitulada GUTS – acrónimo de Groningen University Theatre Society] tinha assinado a cláusula ‘só homens’, e isso foi um choque, porque realmente não podemos concordar com ela por razões de princípio”.

Oisín Moyne, que estudou Física na Universidade de Groningen e acabou por se radicar na cidade holandesa, onde hoje trabalha, explicou ao jornal irlandês Irish Times que tinha considerado abrir as audições a todas as pessoas, mas que não o fez por causa das regras estabelecidas por Beckett pouco antes da sua morte, as quais têm sido defendidas pelos herdeiros legais da sua obra, que só entrará no domínio público em 2059.

A produtora da peça, Medeea Anton, em declarações ao mesmo jornal, defendeu que a decisão de cancelar a peça se centrou nos actores, ignorando o papel de toda a restante equipa. “Havia uma restrição quanto aos actores, que são apenas cinco, mas o resto da equipa de produção é maioritariamente feminina, e também temos pessoas trans e não-binárias”, informou Medeea Anton, acrescentando que “a maioria da equipa de produção é da comunidade LGTB”.

A produtora diz que tentou explicar aos responsáveis da universidade que se tratava apenas de uma questão legal, mas que não conseguiu fazê-los mudar de ideias. “Somos uma pequena companhia amadora, que não se pode arriscar a ser processada”, observou.

E não faltam precedentes para demonstrar que o risco seria real. Recordando que o próprio Beckett, em 1988, pouco antes de morrer, processou uma companhia holandesa por ter aberto as audições da peça a mulheres, o Irish Times observa que os seus herdeiros se têm mantido fiéis às instruções deixadas pelo dramaturgo.

Em 1991, a companhia Brut de Beton tentou apresentar um À Espera de Godot com um elenco exclusivamente feminino no Festival de Avignon e o caso chegou a tribunal, com o juiz a proferir uma decisão algo salomónica, permitindo a apresentação da peça, mas obrigando a que fosse lida, antes de cada récita, a carta em que os representantes legais do autor expunham as suas objecções.

Outra encenação da peça com cinco actrizes foi cancelada em 2019 num colégio do Ohio, nos Estados Unidos, por assumido receio de que os herdeiros de Beckett processassem a instituição.

Já a companhia de teatro londrina Silent Faces criou, em 2021, uma paródia às regras de género impostas à obra de Samuel Beckett com o espectáculo Godot Is a Woman (Godot É Uma Mulher), cujo texto promocional abria com esta cronologia: “Em 1953 um homem escreveu uma peça sobre esperar; em 1988 processou cinco mulheres por tentarem interpretá-la; em 2001 Madonna lançou What It Feels Like for a Girl; estamos em 2021 e continuamos à espera.”

Em Dezembro de 2021, depois de uma estreia cancelada em Março – mas esta por causa da pandemia –, o encenador romeno Gábor Tompa levou ao palco do Teatro Nacional São João, no Porto, uma nova encenação de À Espera de Godot na qual o papel de Lucky é interpretado pela actriz Maria Leite, escolha que, tanto quanto se sabe, não deu origem a nenhum processo judicial.

Quando percebeu, neste início de 2023, que não ia mesmo conseguir apresentar a sua encenação da peça na Universidade de Groningen, Oisín Moyne, provavelmente ironizando com o facto de o próprio texto de Beckett tratar do absurdo da existência, confessou ao jornal Irish Times: “Diria com inteira sinceridade que a minha vida, nestas últimas semanas, se tornou totalmente absurda.” E o encenador contou ainda que, no elenco e na equipa de produção, já corria a piada de que agora estavam, todos eles, à espera de Godot.

Moyne adianta que está a procurar outro espaço que receba a peça, para que o trabalho já feito não seja desperdiçado, e manifesta a esperança de que o centro cultural Usva use as datas agora libertadas no calendário da programação para acolher "uma iniciativa que promova a inclusão no teatro".

https://www.publico.pt/2023/02/07/culturaipsilon/noticia/producao-beckett-cancelada-restringir-audicoes-homens-2038010?

sábado, 12 de novembro de 2022

José Pacheco Pereira - Mais uma vez a “peste grisalha” – uma “justiça” que é uma injustiça


* José Pacheco Pereira   
12 de Novembro de 2022

Um partido que aspira a governar, no seu afã de combater o actual Governo, está a fazer uma cama em que se tem de deitar e, nessa cama, passar o seu tempo a litigar com o Tribunal Constitucional.

Em 2013, num artigo de jornal, um deputado do PSD escreveu: “A nossa pátria foi contaminada com a já conhecida peste grisalha.” A frase suscitou uma furiosa discussão, chegou ao debate parlamentar e foi objecto de processos judiciais. Um reformado que reagiu com veemência à sua classificação como pestífero, e foi por isso processado pelo deputado, ganhou no Tribunal Europeu dos Direitos do Homem e teve direito a uma indemnização. Numa das colunas de verificação de factos confirmou-se a veracidade da frase e do seu autor, “mas” considerou-se uma atenuante que a expressão “peste grisalha” era usada em estudos académicos e não era de sua autoria.

Na verdade, no caso português, toda a frase é sinistra, porque a escolha de palavras densas como “pátria” e “contaminar” não iludem sobre o sentido pejorativo que se pretendia dar à “peste grisalha”. O contexto também não engana: estamos em plena ofensiva do Governo Passos-Portas-troika contra os direitos dos pensionistas e reformados e é a eles que se dirige o amável epíteto de “peste”. Essa ofensiva só não foi mais longe porque o Tribunal Constitucional a impediu.

O contexto da época ainda se torna mais esclarecedor, quando a JSD começou a falar de uma coisa a que chamava “justiça geracional”, considerando que os mais velhos, com as suas reformas e pensões, “roubavam” os mais novos que as tinham de pagar sem ter a garantia de vir a ter idêntico tratamento no futuro. O discurso “geracional”, mais uma variante dos discursos antidemocráticos que circulam nos dias de hoje, estruturalmente semelhante aos discursos “identitários”, era à época uma forma de legitimar a ofensiva contra a “peste”. O que é grave é que ele aparece de novo no actual projecto constitucional do PSD.

O que sabemos sobre esse projecto são as 40 propostas de alteração à Constituição, mais um programa de governo do que um projecto de revisão constitucional, com uma ou outra ideia razoável, mas muitas más. As propostas, que ainda não são o texto da revisão, tornam a Constituição um texto complexo e confuso, dominado pela preocupação de limitar o poder actual do PS, esquecendo-se que, a seu tempo, o PSD terá de governar com uma Constituição que torna a governação quase impossível. A Constituição tornar-se-á gigantesca, cheia de direitos abstractos, escritos na linguagem da moda “do século XXI”, num país que está longe de garantir sequer os direitos do século XIX. Um partido que aspira a governar, no seu afã de combater o actual Governo, está a fazer uma cama em que se tem de deitar e, nessa cama, passar o seu tempo a litigar com o Tribunal Constitucional.

Uma das ideias perigosas é exactamente essa da “justiça intergeracional”. Ela está a expressa nos seguintes pontos:

Justiça intergeracional, combate à sub-representação dos jovens no processo democrático e valorização de todas as gerações:

a. Inclusão entre as tarefas fundamentais do Estado da promoção da justiça entre gerações;
b. Criação do Conselho da Coesão Territorial e Geracional como um órgão que assegura uma representação paritária das diferentes regiões do território e gerações, (…)
c. Alteração da idade legal para exercer o direito de voto: a partir dos 16 anos;
d. Reforço da dignidade na terceira idade.

Percebe-se muito bem que quem redigiu este ponto não diz ao que vem. A última alínea – “reforço da dignidade na terceira idade”, numa formulação de slogan, está lá apenas por razões cosméticas, porque o essencial está antes disfarçado em afirmações confusas. O que é que significa o “combate à sub-representação dos jovens no processo democrático”? Quotas? Direitos de preferência? A mais importante é a frase “Inclusão entre as tarefas fundamentais do Estado da promoção da justiça entre gerações”. Muito bem, podemos é perguntar quais são as “injustiças” actuais, porque aí é que se percebe melhor o alvo.

A verdade nua e crua, e que muita gente não gosta de ouvir, é que ser jovem é, sob todos os pontos de vista, melhor do que ser velho. Não há sequer comparação possível entre as oportunidades de quem tem futuro e quem só tem passado. Pode ter dificuldades em arranjar emprego, mas não são certamente maiores do que as de uma pessoa que nem precisa de ser velho, basta ser de meia-idade. Pode ter salários mais baixos e precariedade, sem dúvida, mas ser desempregado de um dia para o outro com família constituída e receber o subsídio de desemprego por uns meses é um drama maior.

E, se há injustiça é a invisibilidade social da condição de velho, a que se soma a condição terrível de ser velho e pobre, e que a sociedade, obcecada pela moda da juventude – os jovens têm sempre boa imprensa –, pura e simplesmente ignora por comodidade e desatenção. As ruas das cidades nunca foram tão hostis aos velhos, que podem tropeçar numa trotinete atirada ao chão em qualquer lado, ser atropelados por uma bicicleta em sentido contrário ou a andar nos passeios, ser obrigados a ler em ecrãs sem resolução para quem já vê mal, a subir e descer escadas em prédios em que o condomínio desde a troika a primeira coisa que deixa de compor são os elevadores, com correios que obrigam a deslocações e perda de tempo para receber a reformas ou pagar as contas, com transportes inadequados e difíceis de apanhar. Habituem-se, modernizem-se, chamem um Uber… E a enorme solidão que o egoísmo crescente de famílias e vizinhos traz numa sociedade em que as relações sociais são substituídas por simulacros virtuais. E ser velho hoje é insulto, e não é preciso ir mais longe para o ver do que as caixas de comentários deste jornal.

Sim, há “injustiça geracional”, só que num sentido diferente daquele que o PSD coloca nas suas propostas de revisão constitucional. Há uma parte que vem da natureza e pode ser minimizada, mas não eliminada, e outra que vem de uma sociedade dominada pela moda, pelo egoísmo e pela falta daquilo a que Shakespeare chamava “the milk of human kindness”.

O autor é colunista do PÚBLICO

https://www.publico.pt/2022/11/12/opiniao/opiniao/peste-grisalha-justica-injustica-2027439?ref=hp&cx=manchete_2_destaques_0