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domingo, 7 de fevereiro de 2010

J.D. Salinger - Muito além do campo de centeio

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Acções do Documento

Muito além do campo de centeio

por Admin última modificação 2010-02-04 14:50 
O retrato da desilusão juvenil no pós guerra marcou a obra do escritor estadunidense J.D. Salinger; mas quem foi este tipo recluso e misterioso?





04/02/2010

Ligia Ximenes
de São Paulo

Entre os mais jovens, talvez a morte de Jerome David Salinger tenha passado despercebida. Afinal, para os adolescentes que consomem auto-ajuda acreditando que há fórmula para a felicidade, são ultrapassadas as inquietudes do escritor estadunidense que em 1951 pintou o retrato da juventude no cenário pós Segunda Guerra Mundial, ao retratar um dia na vida de Holden Caulfield.
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Protagonista do aclamado romance O apanhador no campo de centeio, Caulfield é um garoto de 17 anos, destes articulados e irônicos que hoje são comuns em vários dos seriados norte-americanos. Ele vive o sonho americano – nasceu em família rica, com dinheiro para matriculá-lo no Pencey, um desses tradicionais colégios preparatórios. Só que, diferente dos meninos dos seriados, ele não está contente com nada.
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Expulso do colégio depois de ser reprovado em quatro matérias, o anti-heroi de Salinger vaga por uma Nova Iorque gelada, às vésperas do Natal, questionando a hipocrisia e os valores do mundo adulto. É um desses meninos que não se encaixa, um pouco como o velho Salinger, que um ano após a publicação de O apanhador se recolhe do burburinho na bucólica Cornish, em New Hampshire.
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Como Caulfield, Salinger também estudou em colégios nos quais se prepara a elite norte-americana. Também, como sua personagem, Salinger foi expulso. Matriculou-se na academia militar de Valley Forge, na Pennsylvania, formando-se aos 18 anos. Depois, viveu alguns meses na Europa, tentando aprender o ofício do pai, um comerciante de artigos de luxo de Nova Iorque. De volta, matriculou-se num curso noturno de literatura e foi lá que descobriu seu talento.
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A outra escola
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Apesar disso, houve um episódio mais determinante para formar o Salinger que conhecemos do que estas aulas de literatura. Aconteceu quando o Japão atacou a base norte-americana de Pearl Harbour, determinando a entrada dos Estados Unidos na Segunda Grande Guerra. Em 1942, Salinger passou a servir ao exército, e, em março de 1944, sua unidade foi convocada a se preparar para a invasão da Normandia. Enquanto esperava a ordem para o ataque, escreveu seis capítulos de um romance que tinha uma personagem muito parecida com o próprio Salinger adolescente.
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Para o crítico literário Paul Fussell, é dessas experiências que vêm a ironia e o completo desprezo de Holden Caulfield pelas coisas que o cercam. Sobre a guerra, aliás, diz o menino em determinada passagem de O apanhador: “Juro que, se houver outra guerra, é melhor me pegarem logo e me botarem na frente de um pelotão de fuzilamento. Juro que não ia protestar”.
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Para além de O apanhador, Salinger se consagraria com uma narrativa direta e fustigante e três outros títulos: Nove estórias(1953), Franny e Zooey(1961) e Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira & Seymour, uma introdução(1963), nos quais são contados pedacinhos da história da família Glass, outra célebre criação salingeriana.
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Obras inéditas?
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Ao longo dos três títulos de Salinger, conhecemos os sete irmãos: Franny e Zooey, os gêmeos Walt e Walter, Boo Boo, Buddy e Seymour, este o primogênito, que na juventude lutou a Segunda Guerra Mundial e depois se tornou professor na Universidade de Columbia. É ele que protagoniza o pungente conto “Um dia ideal para os peixe-banana” e também a personagem principal de Hapworth, 16, 1924, o único título de Salinger ainda não publicado.
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Mas seria Hapwortha única criação de Salinger ainda inédita para a maior parte de nós? A dúvida sempre pairou no ar e, quando se anunciou a morte do autor, começou a especulação em torno de um baú da casa em Cornish [onde passou seus últimos dias] contendo manuscritos inéditos. Quem melhor dá a pista para entender essas décadas de silenciosa reclusão é o próprio autor, em O apanhador no campo de centeio: “A gente nunca devia contar nada a ninguém. Mal acaba de contar, a gente começa a sentir saudade de todo mundo”.
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sábado, 6 de fevereiro de 2010

Noel: reconhecimento que independe da academia e da crítica

 

Cultura

Vermelho - 3 de Fevereiro de 2010 - 12h46

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Noel de Medeiros Rosa veio ao mundo no dia 11 de dezembro de 1910, no Rio de Janeiro, mais precisamente no bairro de Vila Isabel. Filho de Manuel Garcia de Medeiros Rosa e Martha de Medeiros Rosa, casal da classe média carioca, teve um parto difícil, onde o uso do fórceps pelos médicos provocou-lhe um afundamento da mandíbula e uma pequena paralisia na face, características físicas que o assombrariam vida afora.

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Cursou o ensino médio no tradicional Colégio São Bento – onde os colegas, maldosamente, o chamavam de Queixinho – e entrou para a Faculdade de Medicina da UFRJ, em 1931, embora não tenha concluído o curso.
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Casou-se em 1934 com Lindaura, com quem teve um filho que viveu poucos meses. Nos anos seguintes, travou uma batalha contante contra a tuberculose que, por fim, o venceu em 1937, quando tinha apenas 26 anos.
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Entre uma coisa e outra, e deixando o “de Medeiros” de lado, Noel Rosa também foi um dos maiores e mais importantes compositores da música popular brasileira, sendo autor de clássicos como “Com que roupa?”, “Fita amarela”, “Palpite infeliz”, "Três apitos” etc.
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E no ano do centenário de seu nascimento, o escritor Luiz Ricardo Leitão, professor adjunto da UERJ e doutor em Estudos Literários pela Universidade de La Habana, lança “Noel Rosa - Poeta da Vila, cronista do Brasil”, estudo sobre o poeta-cronista que busca inserí-lo “na expressiva galeria dos poetas e prosadores que, por meio de sua obra, têm contribuído de forma decisiva para desvelar o singular processo de formação sócio-espacial do Brasil”, como avisa o texto de apresentação da obra.
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A seguir, uma entrevista por correio eletrônico com o professor Luiz Ricardo, que além de reafirmar a qualidade artística do trabalho de Noel, também contextualiza histórica e sociologicamente a obra do poeta de Vila Isabel que, em 2010, será tema do desfile da escola de samba do bairro carioca.
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Brasil de Fato: Como surgiu a ideia de escrever sobre Noel Rosa?
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Luiz Carlos Leitão: Dois motivos centrais me inspiraram. Em primeiro lugar, eu já escrevera sobre um grande romancista-cronista de nossas letras: “Lima Barreto, o rebelde imprescindível” [lançado em 2006 pela editora Expressão Popular]. Lima foi o genial criador de Os Bruzundangas, um inventário irretocável das mazelas que afligem esta nossa pátria-mãe, eternamente distraída e “subtraída em tenebrosas transações”.
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A atualidade do cronista Noel é absolutamente contundente: ele cantou a crise de 1929 e as revoluções de araque dos anos 1930, desvelando-nos o “Brasil de Tanga” – e “sem capote” – em que a honestidade escasseava, ao passo que as maracutaias abundavam... Será que alguma coisa mudou neste século 21?
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O segundo fator é o meu coração azul e branco. Eu sou cria da Vila Isabel, colaborador direto da nossa escola de samba, e me seria impossível permanecer indiferente ao centenário do “Poeta da Vila”, tema, aliás, do belíssimo enredo do carnaval 2010. Quem assistir ao desfile, em fevereiro, saberá melhor do que estou dizendo. Por isso, não havia como fugir ao fascínio desse bamba.
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Brasil de Fato: Que fontes foram consultadas e quais as dificuldades encontradas durante a pesquisa?
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Luiz Carlos Leitão: Na parte biográfica, vali-me das grandes referências do gênero. De todas as obras consultadas, três são dignas de nota: “No tempo de Noel Rosa”, de Almirante; “Noel Rosa e sua época”, de Jacy Pacheco; e “Noel Rosa: uma biografia”, de Carlos Didier e João Máximo. Estes últimos, sem dúvida, são os mais exaustivos e criteriosos de todos os seus biógrafos, ao passo que os dois primeiros, contemporâneos do artista (Jacy era seu primo e Almirante, o parceiro e companheiro do Bando de Tangarás), pecam, sem dúvida, pela parcialidade ou idealização de alguns aspectos relativos à vida e à obra de Noel.
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Esse, aliás, foi o maior problema enfrentado: gostaria de dispor de uma impressão serena e fidedigna dos contemporâneos sobre as inclinações ideológicas do compositor, que para Jacy teria nítido pendor socialista (hipótese que o conservador Almirante rechaçou com veemência), mas não logrei tê-la, infelizmente.
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Na parte ensaística, mantive a linha de pesquisa que explorei no meu doutorado em Cuba, investigando as experiências periféricas (ou seja, latino-americanas) de modernidade, sempre preocupado com o jogo dos elementos urbanos e agrários no imaginário coletivo nacional. De certa forma, o livro é um exercício prático de minha tese, algo que eu já realizara em “O campo e a cidade na literatura brasileira”, título que elaborei para os centros de formação dos movimentos sociais brasileiros.
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Brasil de Fato: Quanto tempo tomou a coleta de informações e a redação?
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Luiz Carlos Leitão: A pesquisa específica sobre Noel demandou quase um ano. Já sua inserção na linhagem dos grandes cronistas de Bruzundanga, que se inicia no Barroco com Gregório de Matos (o “Boca do Inferno”) e se estende com nomes como Machado de Assis e Lima Barreto, foi quase imediata, pois fora esse meu objeto de estudo no doutorado. A escrita, por sua vez, irrompeu praticamente “de um só jato”, como se fora um dever que todo vila-isabelense deveria cumprir em honra ao seu patrono.
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Brasil de Fato: Algum aspecto da vida ou do trabalho de Noel foi privilegiado?
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Luiz Carlos Leitão: O livro privilegia, sem dúvida, o poeta-cronista Noel, ou seja, preocupa-se fundamentalmente em associar a criação de Noel a uma vasta linhagem de poetas e prosadores que se ocuparam, com sua arte, de desvendar as máscaras sociais e espaciais que travestem a história do nosso país. Não se trata meramente de “analisar” suas letras sob o ponto de vista literário stricto sensu, mas sim de apreender a forma como o compositor logrou traduzir esse propósito em sua obra musical.
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Brasil de Fato: Que aspecto distingue esse trabalho de outros livros sobre o compositor?
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Luiz Carlos Leitão: Noel serviu de inspiração a inúmeros pesquisadores da MPB. Além dos biógrafos já citados, há críticos empenhados em revisar sua contribuição para a história do cancioneiro popular nacional, realçando o papel pioneiro e revolucionário do compositor nos rumos da nossa canção (cito, por exemplo, o estudo de Tinhorão em que Noel é comparado à bossa-nova).
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Suspeito, porém, que ninguém se preocupara em vê-lo como uma expressão da mudança espacial de Bruzundanga, enfatizando a surda luta entre os elementos urbanos e agrários em nosso imaginário no decurso dos anos 1930, quando a burguesia paulista é derrotada em seus planos hegemônicos pela aliança oligárquica que Getúlio articula.
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Eu já estudara esse mote nas letras, focalizando o ciclo regionalista como uma face complementar das vanguardas paulistanas no sinuoso percurso do Modernismo de Bruzundanga. Agora, lanço alguns grãos de inquietude sobre esse processo na seara musical.
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Brasil de Fato: De um modo geral, os artistas brasileiros recebem um tratamento relevante por parte do mercado editorial?
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Luiz Carlos Leitão: Creio que o gênero tem se difundido bastante nas duas últimas décadas. Ele possui apelo sobre o público, sobretudo com a inequívoca expansão da sociedade espetacular midiática, mas também sinaliza uma saudável preocupação em repensar a nossa cultura e a nossa história.
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Brasil de Fato: Noel foi tema do documentário “Noel por Noel” (1981), de Rogério Sganzerla, e da cine-biografia romantizada “Noel, Poeta da Vila” (2006), de Ricardo Van Steen. Outras obras merecem citação? Qual sua avaliação sobre esses trabalhos?
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Luiz Carlos Leitão: Conviria citar, ainda, “Cordiais Saudações”, um curta-metragem (11 minutos) de 1968, em preto e branco, com produção, roteiro e direção de Gilberto Santeiro. É claro que na rede virtual há muitos vídeos com acesso disponível ao internauta, cujas referências eu forneço em apêndice do livro. Sobre os dois títulos citados, eu gosto do trabalho de Sganzerla, mas não me entusiasmei muito com o tratamento dado por Van Steen à sua narrativa.
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Brasil de Fato: A compreensão e tratamento da obra de Noel, por parte de crítica e público, mudou desde seu aparecimento, o sucesso e os anos que seguiram sua morte?
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Luiz Carlos Leitão: Há uma curiosa analogia entre Noel Rosa e Lima Barreto, que eu menciono no livro. O escritor carioca atravessou incógnito os piores anos da era Vargas e veio a renascer (redescoberto pela crítica literária Lúcia Miguel-Pereira) em um tempo de esperança, quando a sociedade brasileira sonhou construir um novo projeto de país.
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Noel morreu seis meses antes de Getúlio decretar, a 10 de novembro de 1937, o fatídico Estado Novo e, a exemplo do prosador, também pagou sua cota de esquecimento à pátria-mãe, que jamais soube lidar com aqueles que desvelaram as máscaras sociais sob as quais as elites de Bruzundanga promoveram a eficiente fórmula da modernização sem ruptura – graças à qual, a cada novo ciclo histórico, se muda aparentemente tudo para não se mudar nada.
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Por isso, para melhor responder à questão, é oportuno citar o que José Ramos Tinhorão anotou a seu respeito: “O melhor que se pode dizer de Noel Rosa é lembrar que, enquanto para a maioria dos artistas populares a fama acaba um dia após a morte, a dele só começou dez anos depois”.
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Brasil de Fato: Hoje, o interesse pelas composições de Noel é acadêmico ou popular?
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Luiz Carlos Leitão:  A impressão que tenho é a de que, apesar das incursões da academia e da crítica sobre a MPB, quem melhor preserva a memória de Noel ainda é o público amante do samba, como prova a nossa querida escola Unidos de Vila Isabel, que, certamente, prestará ao “Poeta da Vila” a mais contundente homenagem de todas que este receberá em 2010.

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Brasil de Fato: Qual era o panorama musical brasileiro da época de Noel?
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Luiz Carlos Leitão:
A música popular, como de praxe, era motivo de forte preconceito. O fenômeno era mais do que previsível em uma sociedade recém-saída do regime escravista mais longo das Américas, em que a cultura afro-americana continuava a ser perseguida e estigmatizada.
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Não era de se estranhar que um político pedante e reacionário como Ruy Barbosa, célebre por defender os interesses da elite agro-mercantil vinculada ao capital estrangeiro, viesse a atacar com virulência os ritmos envolventes que se cultivam nos bairros mais pobres, nos morros e subúrbios em que vive a população negra e mestiça da cidade (sobretudo no próprio Centro, onde se refugia boa parte das vítimas do “Bota-abaixo”, desde a Cidade Nova até os Morros da Gamboa e da Providência, berço das primeiras favelas).
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Aí se canta e se toca o samba, organizam-se rodas de batucada e mesclam-se novos gêneros, em que tanto prevalecem os instrumentos de percussão, quanto, no caso dos grupos de choro, desponta a base de violões, flauta e cavaquinho. Isso sem falar no “obsceno” maxixe e nos tambores com que se entoavam os pontos de macumba, severamente reprimidos pela polícia do Distrito Federal.
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É claro que havia matizes singulares em cada área. Na praça Onze de Sinhô e Tia Ciata, os batuques do samba acusavam a influência do maxixe. No Estácio de Ismael Silva, de quem Noel iria aproximar-se, ouvia-se outro tipo de samba, que era tocado nos blocos, como o “Deixa Falar”, com uma batida semelhante à das marchas, acompanhada por instrumentos de percussão. Esse ritmo, que tanto agradava ao Poeta, foi assimilado por vários morros cariocas, desde a Favela e a Saúde, no Centro, até o Salgueiro (na Tijuca), a Mangueira e o Morro dos Macacos (em Vila Isabel). O bairro de Noel, diga-se de passagem, é um caso à parte nesta socio-cartografia musical.
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A Vila reunia, ao longo do Boulevard 28 de Setembro e em suas principais transversais, uma súmula do que era aquela ampla região da Zona Norte no ocaso da Belle Époque. A Tijuca, por exemplo, já era terra de “ricos e remediados”, cujo único sonho era subir ainda mais na escala social; o Andaraí possuía um perfil mais proletário, com várias fábricas e vilas operárias; o Engenho Novo exibia ares provincianos, com cadeiras pelas calçadas e olhos curiosos a espiar a passagem dos trens; e o Grajaú era quase deserto, com terrenos loteados que só depois abrigariam suas casas de classe média.
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Além desse entorno, havia ainda os morros da Mangueira e dos Macacos, de barracos bem toscos e de gente ainda mais humilde, mas cujo batuque era um autêntico privilégio, pois, como reza a canção, “sambar é chorar de alegria e sorrir de nostalgia dentro da melodia”.
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Brasil de Fato: Quais elementos de seu trabalho o tornaram popular?
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Luiz Carlos Leitão:
Além de promover uma síntese maravilhosa de diversas vertentes da nossa canção popular, logrando, inclusive, conjugar a produção dos jovens músicos de classe média – em especial, o próprio “Bando de Tangarás”, em que pontificavam Braguinha e Almirante – com os sambistas que viviam nos morros (cujo maior expoente talvez tenha sido o amigo Cartola, da Mangueira), Noel conseguiu uma proeza ainda mais relevante.
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Ele mostrou-nos com engenho e arte a nudez de Bruzundanga, indagando-nos sob um sorriso amargo “com que roupa” iríamos ao baile do novo regime, enquanto o povo seguia na pindaíba, a comer pirão de areia. Com o mesmo espelho de Macunaíma, ele nos refletiu a “criança perdulária que anda sem vintém” mas tem mãe milionária e jura que vai à Europa num aterro de café. E fez de Seu Jacinto uma versão melodiosa do “herói sem nenhum caráter”, que dormia de cartola e fraque e sonhava morrer atropelado por um Cadilac, mandando-o apertar o cinto (como apregoava Getúlio e, décadas mais tarde, o rotundo Delfim) para colaborar com o regime.
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Noel recriou, com o condão do samba, o mesmo Brasil e a mesma Bahia de Gregório de Matos, que um dia fora rico e abundante, mas agora se via pobre e empenhado nas mãos dos mascates de além-mar: sem vintém, mas sempre pronto a pedir emprestado. Não se esqueceu de registrar, porém, a desfaçatez e a corrupção dos grandes leiloeiros do país, cujo dinheiro “nasce de repente”, rendendo-lhes palacetes reluzentes, joias e criados à vontade.
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Ele talvez não soubesse, mas ao cantar esse Brasil de tanga – e com capote de algodão – terminou por aquecer eternamente o coração de todos que sonham em despertar do seu sono esplêndido a nossa pátria-mãe sempre tão distraída e subtraída em sinistras transações. Creio que por todos esses motivos sua música tenha se tornado tão popular.
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Brasil de Fato: No Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, João Máximo (autor de “Noel Rosa: Uma Biografia”, em parceira com Carlos Didier) afirma que Noel, se não foi o melhor, foi o mais importante compositor da chamada Época de Ouro da música popular brasileira, que vai de 1930 a 1945. Como argumento, cita “suas letras inspiradas no linguajar do povo” e a integração da classe média com o morro, uma vez que Noel se tornou amigo e parceiro de sambistas como Cartola. A análise é correta?
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Luiz Carlos Leitão:
São argumentos válidos, sem sombra de dúvida, mas torno a destacar o que disse anteriormente: o maior mérito de Noel foi saber captar, como poucos, a essência desse camaleão chamado Brasil. Sua obra é uma metáfora contundente da sociedade brasileira, que o compositor, atento à sua época e realidade, explora de forma bastante explícita em canções de inegável humor ou sarcasmo.
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Brasil de Fato: Muitos apontam Chico Buarque como o principal herdeiro de Noel Rosa. Ele, no entanto, se diz mais influenciado por Ismael Silva (também parceiro de Noel). Qual o principal legado de Noel para a música brasileira?
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Luiz Carlos Leitão: 
Chico Buarque bebeu em variadas fontes. Se ele faz questão de mencionar Ismael, tem seus motivos para isso. Contudo, mesmo que Chico desconverse, a aproximação com Noel é irrefutável. Um exemplo emblemático disso é a própria simetria que se estabelece entre “Cordiais Saudações”, de Noel, e “Meu Caro Amigo”, de Chico, em que os dois poetas-cronistas endereçam curiosas “canções-postais” para interlocutores amigos, registrando adversidades em distintos planos de suas vidas.
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Acerca da importância de Noel Rosa, eu o considero um nome extraordinário na história da canção popular, cuja bem-sucedida trajetória se revela, em larga medida, uma resposta virtuosa à mazela da parca cultura letrada e contribuinte decisiva para a formação de nossa sociedade. Essa história, segundo nos conta o crítico literário Luís Augusto Fischer, remonta talvez ao século 18, com Domingos Caldas Barbosa; durante o século seguinte, consuma-se o encontro de dois gêneros nativos, a modinha e o lundu, com a habanera e a polca; e no limiar do século 20, a forma ganha novas cores com Sinhô e seu “samba maxixado”.
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Ao longo dos novecentos, distende-se então o “arco canônico” da canção brasileira, que José Miguel Wisnik situa entre Ernesto Nazareth, em uma ponta, e Chico e Caetano, em outra. Na era do rádio, desdobra-se em samba, samba-canção, marchinha; por meio da bossa nova, dialoga com o mercado internacional nos anos 1950, até assumir outras formas a partir dos anos 1960, acossada por novos parâmetros técnicos, culturais e ideológicos que prenunciam o seu fim (qualquer semelhança com o “fim da história” de Francis Fukuyama não é mera coincidência).
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Na primeira metade do século 20, esse percurso inclui o primeiro samba gravado em vinil (“Pelo Telefone”, de Donga, em 1917). Ele inclui marcos como o encontro de Pixinguinha e Donga em 1919, com a criação dos Oito Batutas (primeiro grupo de samba a viajar ao exterior, estreando em Paris, em 1922), e os primeiros sucessos de Carmem Miranda (“Taí”, em 1930) e Noel Rosa (“Com Que Roupa?”, em 1931). Em meu livro, trato de evidenciar como o trabalho de Noel, por sua amplitude e originalidade, pode ser considerado um momento chave da história do nosso cancioneiro.
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Brasil de Fato: Numa imaginária “parada de sucessos”, quais seriam as principais canções de Noel e por qual motivo?
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Luiz Carlos Leitão: 
 Mais do que uma pergunta, esse item é uma saudável provocação. Afinal de contas, das quase 300 canções conhecidas do artista (aliás, um número extraordinário para quem morreu com apenas 27 anos incompletos), há dezenas de criações absolutamente geniais. Destacá-las, obviamente, depende da perspectiva de quem escolhe.
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Os meios de comunicação, em geral, preferem destacar as obras de tom mais emotivo (“Feitio de Oração”, “Três Apitos”, “Último Desejo”) ou de acentuada “cor local” (“Conversa de Botequim”, “Feitiço da Vila”, “Palpite Infeliz”).
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Contudo, não há como esquecer o sutil e mordaz poeta-cronista de Bruzundanga, aquele que desnudou o rei tropical com sambas de grande apelo popular, como a imortal “Com Que Roupa?” e a mais do que atual “Onde está a honestidade”, isso sem falar em “Filosofia”, em que o desencanto pessoal e o ceticismo social se fundem em rara expressão de lirismo.
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Com Brasil de Fato
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cartoon de Fernandes
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domingo, 24 de janeiro de 2010

Literatura para conhecer e formar o Brasil

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Acções do Documento
por Admin última modificação 2009-12-22 12:24 

Simpósio em Brasília celebra os 50 anos do livro “Formação da literatura brasileira”, de Antonio Candido

22/12/2009

Joana Tavares
de Brasília (DF)

ilustração

“A literatura possui centralidade na formação da intelectualidade do Brasil”. Nesta afirmação, “do Brasil” quer dizer muita coisa. Pois Paulo Arantes, filósofo e professor, quer justamente colocar em perspectiva a ideia de formação do Brasil como nação. Quer também sublinhar que, em um país periférico como o nosso, esse tema continua sendo da maior importância. O que dimensiona a relevância do livro “Formação da literatura brasileira – momentos decisivos”, de Antonio Candido.
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A fala de Paulo Arantes fechou o simpósio que teve o aniversário de 50 anos da obra como tema. Realizado entre os dias 25 e 27 de novembro, na Universidade de Brasília (UnB), o evento reuniu pesquisadores de vários estados, além de alunos desde a graduação até o doutorado.
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Qual a relevância de um livro que, 50 anos depois, ainda gera tantas perguntas e temas para debate? O que parece estar por trás dessa pergunta é a novidade do método empregado por seu autor, um crítico literário sociólogo, que se empenhou em estudar e aprofundar as origens e sentidos da nossa expressão escrita como povo.
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“Candido é talvez, junto com Caio Prado Jr., o pioneiro em um método de interpretação dialética da experiência brasileira. O Caio Prado faz isso interpretando de forma materialista os ciclos econômicos e o Antonio Candido interpreta o compasso entre o desejo de formar uma literatura ao mesmo tempo em que a elite se empenhava em formar uma nação”, aponta Rafael Villas Bôas, pesquisador e professor da UnB.
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A essa forma de leitura da realidade que situa Candido e Caio Prado foi dado o nome de “tradição crítica brasileira”, que reúne conceitos clássicos do marxismo formulados por intelectuais como Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, com questões tipicamente nacionais.
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Raízes
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Junto à tradição crítica está o esforço de se conhecer e interpretar o Brasil. Uma introdução de Antonio Candido ao livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, ficou famosa. Ali ele coloca a ideia de que a obra apresentada, junto com “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre, e “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Jr., compunham os principais personagens da formação da nacionalidade brasileira, de acordo com o olhar da geração de 1930, cada um com sua orientação própria, como explicou Antonio Candido em seu texto introdutório. Ou seja, os pilares do pensamento sobre o Brasil. Há pesquisadores que colocam a “Formação da Literatura Brasileira” no mesmo movimento, mas Antonio Candido refuta essa ideia.
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“Não apenas a sua escala é incomparavelmente mais modesta, mas as interpretações pressupõem a abordagem da realidade social diretamente registrada na documentação, sendo por isso efetuada por historiadores, sociólogos, economistas. Ora, a literatura é uma transfiguração da realidade, de maneira que não pode servir de base para as interpretações”, afirmou em entrevista recente ao jornal Zero Hora.
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Mas o método de análise de Antonio Candido a essa “transfiguração da realidade” é integrativo: não desvincula a obra de sua função, o que revoluciona os estudos de literatura que se faziam no Brasil, propondo ao mesmo tempo uma preocupação estética e sociológica. Em seus inúmeros estudos, Antonio Candido não separa a literatura e a sociedade (nome de um de seus livros). Mas nem por isso deixa de se dedicar com afinco a sua função estética. Pois é a partir da estética que uma obra literária pode cumprir seu papel. Ou ainda: o conteúdo só atua por causa da forma.
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Assim, a “Formação da literatura brasileira” é dedicada, em grande parte, a fazer uma análise das obras. Mas também é neste livro que aparece o conceito de “sistema literário”. Como explica Paulo César da Costa, militante do MST de Santa Catarina e graduando da primeira turma de Licenciatura em Educação do Campo, “um sistema literário não é formado só por público, obra e autores, mas pela capacidade da literatura se auto-questionar, ou seja, pela crítica literária”. Paulo César explica, assim, porque acha fundamental um colóquio acadêmico discutir Antonio Candido: para resgatar a discussão crítica da literatura.
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Modernidade periférica
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O objetivo de difundir, aprofundar e debater a tradição crítica agregou pesquisadores orientados pelo professor Hermenegildo Bastos, doutor pela USP e professor da UnB desde 1996. Foi justamente encontrar esse caminho crítico que manteve Deane de Castro e Costa no seu projeto de doutorado, na UnB. “Antes eu tinha uma visão mais instrumentalizada da literatura, de que ela podia ampliar o conhecimento das pessoas, tornando-as críticas. Mas essa visão era muito imediatista e não aprofundava de fato os limites e possibilidades da literatura”, conta.
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Ela se juntou ao grupo de pesquisa “Literatura e Modernidade Periférica”, que começou com cerca de 10 pesquisadores e hoje, passados 10 anos, aglutina mais de 50, tanto da graduação quanto da pós, já produziu 10 teses de doutorado, formou mestrandos que hoje são doutores e professores, e conseguiu, se não romper, pelo menos abalar a hegemonia do estruturalismo francês, escola que dominava a universidade brasileira no âmbito do estudo de literatura. “A nossa linha de pesquisa é de orientação marxista, questiona a crítica literária exclusivamente imanente, que se recusa a ver a relação entre literatura e sociedade”, explica Maria Izabel Brunacci, professora aposentada do Cefet-MG e participante do grupo desde seu início, em 1999.
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Um dos trabalhos coletivos realizados por eles foi o simpósio. “Uma atividade como esta é capaz de sedimentar questões importantes para a crítica, que não morreram. A crítica atual tem uma tendência a apresentar uma quase morte da linha crítica. Então o simpósio revigora, fortalece, amplia a perspectiva de estudos críticos, na linha de Antonio Candido”, avalia Rogério Max Caneto Silva, mestrando da Universidade Federal de Goiás.
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O grupo procura colocar em prática o cerne da teoria e aponta sua atuação para fora dos muros da universidade. Além de organizar e participar de atividades acadêmicas, procura se articular com organizações de esquerda que tenham um trabalho formativo. “O conhecimento que nós produzimos no âmbito do grupo tem que ser colocado à disposição dos movimentos sociais”, resume Maria Izabel.
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Parceria com o MST
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Começou a se tecer então um processo de atuação conjunta com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Foram vários cursos de formação de militantes realizados em parceria até culminar no curso de graduação de Licenciatura em Educação do Campo, da UnB e do Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária (Iterra). Dividido em duas áreas – ciências da natureza/matemática e linguagens – é no segundo campo que os laços entre o grupo de pesquisa e o movimento se estreitam. A ponto de três alunos da primeira turma (atualmente já está formada a terceira) apresentarem uma síntese das discussões feitas em sala numa mesa durante o simpósio, na mesa “Representação literária e representação política”.
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Ana Laura Corrêa, pesquisadora do grupo e professora da turma, avalia que a participação foi fundamental. “Esse encontro entre a academia e a educação do campo resgata o processo da tradição crítica e areja essa produção. Vivifica as estruturas da universidade. Na educação do campo a gente percebe uma nova forma de produção do conhecimento”, aponta.
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Rafael Villas Bôas, também professor do curso, acrescenta: “A gente não dá aula sozinho, é sempre em duplas ou em trios. Isso enriquece muito o contato com a turma, que vê que tem trabalho coletivo dos dois lados. Tem uma troca”.
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Maria Izabel Brunacci, professora do curso de Licenciatura em Artes, dá um exemplo dessa troca. “O livro que lancei sobre Graciliano Ramos [“Graciliano Ramos – um escritor personagem”] é dedicado à minha neta, ao MST e ao meu grupo de pesquisa. Por quê? Porque a interlocução com o MST nos cursos de literatura foi fundamental para eu entender Graciliano Ramos, para eu entender melhor o Brasil representado na obra do autor”, diz.
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Literatura e revolução
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“Para nós, repetir as palavras do Antonio Candido ainda é necessário. E assumimos com felicidade o papel de seguir repetindo-as”, atesta Carla Loop, educanda do curso de Licenciatura em Educação do Campo. Podem ser várias as palavras necessárias de repetição de Antonio Candido. Mas parece ecoar fortemente trechos de sua palestra “O direito à literatura”, de 1988, reunido depois no livro “Vários escritos”.
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Ele defende, em conferência na Comissão de Justiça e Paz, na arquidiocese de São Paulo então comandada por dom Paulo Evaristo Arns, que pensar em direitos humanos tem um pressuposto: “reconhecer que aquilo que consideramos indispensável para nós é também indispensável para o próximo”. E a necessidade da ficção, de toque poético, “é uma necessidade universal que precisa ser satisfeita e cuja satisfação é um direito”. Candido defende que toda literatura, inclusive aquela “chamada erudita”, seja acessível a todos, sem estratificação, sem alienação.
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Porque a literatura possui uma função humanizadora, que deve ser cumprida: “Entendo aqui por humanização (já que tenho falado tanto nela) o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos momentos da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a cota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, para a sociedade, para o semelhante”.
Direito portanto inalienável, a literatura pode ser ainda uma representação poderosa da utopia, “uma promessa contra a reificação”, como diz Rafael. Ou ainda, na brincadeira da turma de Licenciatura: “Ler literatura também é revolucionário”.
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Antonio Candido de Mello e Souza começou a fazer crítica literária na revista Clima, nos anos 1940. Mestre em sociologia, tornou-se professor de literatura em 1957, na cidade de Assis, no interior de São Paulo. Deu também aulas na USP, onde se aposentou. É autor de uma extensa obra sobre crítica literária e professor de gerações dos mais importantes críticos literários e culturais do país. Aos 91 anos, Candido afirma “preservar suas convicções socialistas”.
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Em 1959, lançou em dois volumes o livro “Formação da Literatura Brasileira – Momentos decisivos”. Em 2006, a 10ª edição do livro foi reeditada pela editora Ouro Sobre Azul, em projeto coordenado por sua filha Ana Luisa Escorel e acompanhado por Candido. A nova edição sai em um volume único, de 800 páginas.
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Fotógrafo é premiado por imagens do MST - Raul Spinassé



Movimentos

Vermelho - 3 de Dezembro de 2009 - 11h56

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O fotógrafo Raul Spinassé recebeu no último sábado (28/11) o prêmio Banco do Brasil – Braskem de Jornalismo por uma matéria publicada sobre a Marcha Estadual por Reforma Agrária e Soberania Popular. O Prêmio Freitas Neto, destinado a estudantes de jornalismo, foi dado ao texto visual de Raul, obra prima imersa no processo de lutas. Confira abaixo a matéria e uma das fotos premiadas:

MST

Caminhada sem terra


Por Raul Spinassé
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Trabalhadores rurais Sem Terra, em ato histórico, cruzam o Estado de Alagoas em busca de justiça social e soberania popular.
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João caminhou pela regularização de sua terrinha em Traipú, Maria caminhava para relembrar as lutas que tinha enfrentado até hoje, Fabiana lutava por um país sem injustiça, Gileno dava passos alimentados pela indignação de um povo oprimido, tantos nomes e personagens, nesta jornada, marchavam em defesa de uma única causa.


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Marchavam para falar. Marchavam para serem escutados. Eram milhares de Sem Terra. Durante 21 dias percorreram 330 quilômetros distinguidos pela pluralidade de regiões por onde passavam. Saíram de Delmiro Gouveia em direção a Maceió, cruzaram o Estado Alagoano e atravessaram dezesseis cidades esperando que suas reivindicações fossem aceitas pelo governo.


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Despertavam cedo, antes de o sol nascer, e ecoavam suas músicas de esperança. Acordavam. “Vem, lutemos punho erguido. Nossa força nos leva a edificar. Nossa Pátria livre e forte construída pelo poder popular”. Comiam apressadamente evitando pegar o sol ardente daquelas regiões nordestinas, terras estas, que guardavam os passos dados anteriormente pelos cangaceiros de Lampião que lutavam por justiça.


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Alimentavam o corpo com nacos de pão lambuzados pelo café forte, preto e fumegante. Fortaleciam suas carcaças com a batata doce, a abóbora, o cuscuz e as comidas herdadas por seus familiares. Alimentavam também seus espíritos com os ideais que tanto almejavam conquistar. Andavam. Despontavam. Seguiam com seus estandartes em punho.


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O sol, que nascia laranja com o vigor de sempre, teimava em esquentar aquela fileira humana que ainda se alongava com os primeiros passos da manhã. Iluminados pelo raiar de um novo dia, seguiam, um atrás do outro, anunciando a passagem do movimento pelas cidades. A linha vermelha cortava o verde ainda sustentado pelas chuvas daquela estação.


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O sentimento era perceptível nos olhos daqueles que levantavam as faixas e as bandeiras. Vestiam-se com seus bonés e suas camisas e encharcavam aquelas peças com o suor produzido durante as passadas. Alguns empunhavam facões outros carregam garrafas com água procurando se proteger dos oponentes. “Vamos Conseguir chegar em qualquer lugar”, falava confiante Fabiana da Silva, 20 anos, moradora de Novo Lino e cheia de saudades dos seus dois filhos que ficaram em casa.
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Marcavam seus passos no asfalto quente. E contavam as inúmeras pedras que tiveram de superar. As rachaduras da pista, ressecadas pelo tempo, lembravam as duras lutas contra os pistoleiros que ameaçavam matar famílias inteiras por conta das ocupações. O vento, cúmplice daquele feito histórico, cortava seus corpos e era encarregado de arrastar os inúmeros gritos que davam durante as passadas, dadas com força contra o solo que tanto os alimentou. A água teimava em fugir das gargantas.


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Os lábios ressecados pediam um pouco de umidade para continuarem proferindo os sonhados planos. E os olhos vislumbravam o amanhecer de um novo tempo, um tempo onde o campo e a cidade pudessem viver em harmonia.
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Passavam por pessoas. Famílias inteiras saiam de suas casas para saberem que barulho era aquele. Alguns corriam estimulados pela curiosidade e pela adrenalina gerada pela passagem daquele bloco vermelho. Rasgavam o silêncio. O sossego das áreas cercadas era quebrado pelas palavras de ordem. “Se o campo não planta, a cidade não janta”, bradava Zé Roberto, responsável pela animação do movimento que não se cansava.
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As crianças corriam acompanhando os passos largos daqueles adultos que insistiam em andar em fileira e perguntavam-se para onde estavam indo. Nunca tinham visto nada parecido. Tinham a certeza que aquilo não acontecia todo dia e aproveitavam aquele momento único.
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Alguns saiam das salas de aula, mesmo contra a vontade dos professores que disfarçavam o anseio de observar aquele aglomerado de gente que parecia uma escola de samba daquelas que passava na televisão. Televisão essa que persistia em criminalizar aquele movimento. Alguns fechavam as portas de seus estabelecimentos, outros negavam água, vários reclamavam, mas as crianças continuavam a correr. Gastavam suas energias em meio à multidão avermelhada.


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Aquela caravana rubra mudava totalmente a rotina da vida das cidades por onde passava. Chegavam com seus pés desgastados pelo contato intenso com o piche e a brita do asfalto. As mães, crianças, as malas e a estrutura do movimento chegavam em caminhões antes da multidão. Era preciso arrumar a cozinha e as barracas de lona preta para recepção daqueles que enfrentavam a longa caminhada.


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O grupo, que era dividido em brigadas, possuía pessoas dispostas a cozinhar, montar, levar água para os companheiros, animar, dar massagens, correr atrás de medicamentos e fazer tudo que fosse possível para beneficiar aquele ato coletivo. Trabalhavam. Labutavam como sempre fizeram nos empregos de seus patrões que exploravam sua força de trabalho, só que agora, lutavam por algo seu. “Eu Adorei fazer isso. Pude ajudar em tudo”, comentava Jorge Luiz, 16, que seguiu a marcha sozinho sem a família.
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Acreditavam que aquela caminhada era fundamental para aquilo que defendiam. Construíam a reforma agrária e confiavam que isso era o instrumento fundamental para distribuição de riqueza e justiça social. Mobilizavam-se em busca da soberania popular, onde João, Maria, Manuel, Jorge Luiz, Glória, Isabel, Juliana, José, Aparecida e todos os trabalhadores pudessem conquistar aquilo que tanto sonhavam.


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Caminhavam, mas não caminhavam simplesmente. Marchavam firme. Sustentavam a luta do povo. Os milhares de seres humanos que se uniram em fileira apenas caminharam por não terem chão.


 
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Fonte: Brasil de Fato


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Livro traduz Noel Rosa, o poeta da Vila e cronista do Brasil


 

Cultura

Vermelho - 7 de Dezembro de 2009 - 10h42

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Às vésperas do ano de centenário de vida do músico e poeta Noel Rosa, a Editora Expressão Popular lançará na próxima terça-feira (8) o livro “Noel Rosa: Poeta da Vila, Cronista do Brasil”, de autoria do escritor, tradutor e professor Luiz Ricardo Leitão. O lançamento será realizado no Salão Nobre do Instituto de Letras da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

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No livro, o autor busca inserir Noel Rosa na galeria dos poetas e prosadores que, por meio de sua obra, contribuem para o entendimento do processo de formação socioespacial do país.
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De acordo com Leitão, a obra é dividida em duas partes: “a primeira recapitula a vida e a obra musical do compositor; e a segunda é uma longa digressão sobre os motes explorados por Noel em suas canções, cujos temas são os mais amplos possíveis, desde os tradicionais motivos da metafísica amorosa até os mais prosaicos dilemas da vida cotidiana e as contradições da imprevisível política da nossa Bruzundanga”.
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O lançamento do livro de Luiz Ricardo Leitão abre o ciclo de homenagens que serão prestadas à Noel Rosa em 2010, ano em que completaria 100 anos de vida. Noel Rosa nasceu em 1910 no bairro de Vila Isabel, no Rio de Janeiro, onde viveu e morreu aos 27 anos.
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O autor explica que, na obra, “além de tecer algumas observações sobre a biografia do artista, associa a sua criação musical à obra de escritores como Gregório de Matos, Machado de Assis e Lima Barreto, todos eles mestres na sublime arte de interpretar o sentido e a formação do Brasil”.
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Serviço:

Lançamento do livro “NOEL ROSA – POETA DA VILA, CRONISTA DO BRASIL”, escrito por Luiz Ricardo Leitão e ilustrado por Gilberto Maringoni.
Dia: 8 de dezembro de 2009
Local: Salão Nobre do Instituto de Letras da UERJ
Rua São Francisco Xavier, 524, Bloco F, 11º andar, Maracanã, Rio de Janeiro.
Horário: A partir das 18h 30.
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Programação
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18h30 – Breve sessão de apresentação da obra ao público
Participação Musical: Duo Lacrimae & músicos da Banda CAp-UERJ
19h30 / 21h30 – Coquetel e noite de autógrafos
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Fonte: Brasil de Fato
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Noel Rosa

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.



Noel Rosa
Noel Rosa.jpg
Noel Rosa e seu violão
Informação geral
Nome completo
Noel de Medeiros Rosa
Data de nascimento
11 de dezembro de 1910
Origem
Rio de Janeiro, RJ
País
Brasil Brasil
Data de morte
4 de Maio de 1937 (26 anos)
Gêneros
Samba
Afiliações
Aracy de Almeida
Francisco Alves
Ismael Silva
Vadico
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Noel de Medeiros Rosa (Rio de Janeiro, 11 de dezembro de 1910Rio de Janeiro, 4 de maio de 1937) foi um sambista, cantor, compositor, bandolinista, violonista brasileiro e um dos maiores e mais importantes artistas da música no Brasil.[1] Teve contribuição fundamental na legitimação do samba de morro no "asfalto", ou seja, entre a classe média e o rádio, principal meio de comunicação em sua época - fato de grande importância, não só o samba, mas a história da música popular brasileira.[2][3]

Índice

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Biografia

Noel nasceu de um parto difícil em que o uso do fórceps pelo médico causou-lhe um afundamento da mandíbula que o marcou por toda a vida. Criado no bairro carioca de Vila Isabel, filho do comerciante Manuel Garcia de Medeiros Rosa e da professora Martha de Medeiros Rosa, Noel era de família de classe média, tendo estudado no tradicional Colégio São Bento de 1923 a 1928.
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Adolescente, aprendeu a tocar bandolim de ouvido e tomou gosto pela música - e pela atenção que ela lhe proporcionava. Logo, passou ao violão e cedo tornou-se figura conhecida da boemia carioca. Entrou para a Faculdade de Medicina, mas logo o projeto de estudar mostrou-se pouco atraente diante da vida de artista, em meio ao samba e noitadas regadas à cerveja. Noel foi integrante de vários grupos musicais, entre eles o Bando de Tangarás, ao lado de João de Barro (o Braguinha), Almirante, Alvinho e Henrique Brito.
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Em 1929, Noel arriscou as suas primeiras composições, "Minha Viola" e "Toada do Céu", ambas gravadas por ele mesmo. Mas foi em 1930 que o sucesso chegou, com o lançamento de "Com que roupa?", um samba bem-humorado que sobreviveu décadas e hoje é um clássico do cancioneiro brasileiro. Noel revelou-se um talentoso cronista do cotidiano, com uma seqüência de canções que primam pelo humor e pela veia crítica. Orestes Barbosa, exímio poeta da canção, seu parceiro em "Positivismo", o considerava o "rei das letras". Noel também foi protagonista de uma curiosa polêmica travada através de canções com seu rival Wilson Batista. Os dois compositores atacaram-se mutuamente em sambas agressivos e bem-humorados, que renderam bons frutos para a música brasileira, incluindo clássicos de Noel como "Feitiço da Vila" e "Palpite Infeliz". Entre os intérpretes que passaram a cantar seus sambas, destacam-se Mário Reis, Francisco Alves e Aracy de Almeida.
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Estátua de Noel Rosa, localizada na entrada de Vila Isabel.
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Noel teve ao mesmo tempo algumas namoradas. Casou-se em 1934 com Lindaura, mas era apaixonado mesmo por Ceci, a dama do cabaré. Passou os anos seguintes travando um batalha contra a tuberculose. A boemia, porém, nunca deixou de ser um atrativo irresistível para o artista, que entre viagens para cidades mais altas em função do clima mais puro, sempre voltava para o samba, a bebida e o cigarro. Mudou-se para Belo Horizonte,[nota 1] trabalhou na Rádio Mineira e entrou em contato com compositores amigos da noite, como Rômulo Pais, recaindo sempre na boêmia. De volta ao Rio, jurou estar curado. Faleceu em sua casa no bairro de Vila Isabel no ano de 1937, aos 26 anos, em conseqüência da doença que o perseguia desde sempre.

Bibliografia

Dentre os livros a respeito do artista, duas obras são de grande importância para se estudar Noel Rosa: "No Tempo de Noel Rosa", escrita pelo amigo Almirante, e a essencial "Noel Rosa: Uma Biografia" de João Máximo e Carlos Didier.
Outros livros

Cinema

Filmes sobre Noel

Crystal Clear app xmag.pngVer artigo principal: Noel - Poeta da Vila
Noel Rosa já foi retratado como personagem no cinema e na televisão, interpretado por Chico Buarque no filme "O Mandarim" (1995) e Rafael Raposo no filme "Noel - Poeta da Vila" (2006).
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O primeiro longa-metragem sobre o compositor, "Noel - Poeta da Vila", foi baseado na biografia de Máximo e Didier e dirigido por Ricardo van Steen. Teve sua estréia no Festival de Cinema do Rio de Janeiro em 2006 e na 30ª Mostra de Cinema de São Paulo. Entrou em circuito em agosto de 2007, ano que marcou os 70 anos da morte do poeta do samba.
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Antes deste filme , outros filmes, de curta e média-metragem, foram realizados sobre Noel Rosa. O próprio Ricardo Van Steen, realizador de "Noel, Poeta da Vila", dirigiu um curta-metragem, "Com Que Roupa?" (1997), com Cacá Carvalho no papel de Noel Rosa.
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Rogério Sganzerla (1946-2004), um dos principais nomes do chamado Cinema Marginal, era fascinado pela vida e obra de Noel Rosa, e planejava fazer o seu próprio longa-metragem. O projeto acabou não vingando, mas durante esta espera, realizou dois documentários, um de curta-metragem, "Noel Por Noel" (1978), e um de média-metragem, "Isto É Noel Rosa" (1991).
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Em "O mandarim" (1995) - uma representação experimental da vida do cantor Mário Reis - Júlio Bressane (outro representante do Cinema Marginal) chama Chico Buarque para interpretar Noel Rosa.
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Em 1994, Alexandre Dias da Silva descobre um filme raríssimo - o curta-metragem "Vamo Falá do Norte" (1929), de Paulo Benedetti, com a única imagem filmada de Noel Rosa, junto com o Bando de Tangarás - e, com texto de José Roberto Torero e cenas de cinejornais e filmes de 1929, realiza o curta-metragem "O Cantor de Samba".
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No mesmo ano, Noel Rosa se torna personagem do curta-metragem de ficção "Bar Babel", realizado no Paraná por Antônio Augusto Freitas.
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Em 1998, Antonio Paiva Filho escreve e dirige, em vídeo, uma ficção inspirada no célebre samba de Noel Rosa "Coração", presente mesmo no título: "A Paixão Faz Dor no Crânio Mas Não Ataca o Coração"
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E em 1999, André Sampaio realiza uma ficção experimental, "Polêmica", a partir da famosa polêmica musical entre Noel Rosa e Wilson Batista.

Trilhas musicais para o cinema

Antes de ser tema de filmes, a música de Noel Rosa esteve presente em um sem-número de filmes brasileiros.
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Mesmo enquanto o Poeta da Vila ainda era vivo: na comédia musical "Alô, Alô, Carnaval", de Adhemar Gonzaga (produção Cinédia - 1936), duas marchas de carnaval de Noel Rosa estavam em sua trilha sonora: "Pierrot Apaixonado" (parceria com Heitor dos Prazeres) e "Não Resta a Menor Dúvida" (parceria com Hervé Cordovil).
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No mesmo ano, compôs seis músicas, em parceria com Vadico, para o filme "Cidade-Mulher", de Humberto Mauro (produção Brasil-Vita): a música-título do filme (interpretada por Orlando Silva), "Dama do Cabaré", "Tarzan, O Filho do Alfaiate", "Morena Sereia", "Numa Noite À Beira-Mar" e "Na Bahia".
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Outros filmes de destaque com músicas de Noel Rosa em sua trilha sonora foram os realizados por Carlos Alberto Prates Correia, outro grande admirador de sua música: em "Perdida" (1975), a gravação original de "Quem Dá Mais?" (1932), na voz do próprio Noel Rosa, serve de fundo para uma cena… digamos… didática, passada num bordel.
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Em "Cabaret Mineiro" (1980) - grande premiado no Festival de Gramado de 1981 - "Pra Esquecer" - com Tavinho Moura e regional - e "Nunca… Jamais!" - com Tavinho Moura, Silvia Beraldo e regional - tem a mesma função de reforço da ironia em duas sequências do filme.

Teatro

Sua vida foi objeto de um excelente drama de Plínio Marcos - O Poeta da vila e seus amores - encenado no Teatro Popular do Sesi. Foram mais de dois anos ininterruptos em cartaz.

Homenagens

Em 2010, cem anos depois do seu nascimento, o GRES Unidos de Vila Isabel levará Noel Rosa ao maior espectáculo do mundo, com um desfile em sua homenagem, intitulado Noel: A Presença do "Poeta da Vila, da autoria de Alex de Souza.[4]

Canções

Wikisource
O Wikisource tem material relacionado com este artigo: Noel Rosa
Foram mais de trezentas composições criadas por Noel, destacando-se:

Referências e notas

Referências

Notas
  1. Da capital mineira, escreveu ao seu médico, Dr. Graça Melo:
    Já apresento melhoras,
    Pois levanto muito cedo
    E deitar às nove horas
    Para mim é um brinquedo.
    A injeção me tortura
    E muito medo me mete,
    Mas minha temperatura
    Não passa de trinta e sete!
    Creio que fiz muito mal
    Em desprezar o cigarro
    Pois não há material
    Para o exame de escarro!

Ligações externas

Wikiquote
O Wikiquote tem uma coleção de citações de ou sobre: Noel Rosa.
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