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domingo, 21 de fevereiro de 2021

Filipe Chinita - zé casanova sobre 'cantata pranto e louvor'




zé casanova sobre 'cantata pranto e louvor'
edições avante!2009.

leiam de 
uma só
vez.
e depois 
quem ainda o não leu
corra a comprá-lo
e a lê-lo.
em setembro passam 35 anos! 
do seu assassinato
.
«Cantata Pranto e Louvor - em memória de Casquinha e Caravela», do Filipe Chinita e do Manuel Gusmão, é um livro que tardava, e pela publicação do qual desde já agradeço aos autores.
Muitas vezes me perguntei por que é que os acontecimentos que inspiraram este poema, não inspiraram, antes, outros poetas.
Isto porque, a meu ver, o dia 27 de Setembro de 1979 – dia do assassinato de José Geraldo (Caravela) e de António Maria Casquinha – foi, porventura, o dia mais sombrio do pós-25 de Abril. Um dia e um crime 
carregados de significado: 
a lembrar-nos que o passado não tinha sido completamente afastado da 
nossa vida e da nossa história colectiva; 
a lembrar-nos que o latifúndio opressor e explorador, sustentáculo do 
regime fascista, não só não estava definitivamente enterrado como não 
desistia de regressar – e para esse regresso estava disposto a tudo, a matar, inclusive; 
a lembrar-nos, ainda, que a contra-revolução de Abril trazia consigo, e 
tinha como alimento essencial, pedaços desse passado fascista;
a lembrar-nos, por tudo isso, outros dias e outros crimes, dias e crimes 
ocorridos neste mesmo Alentejo, e com os quais o fascismo procurou, em 
vão, esmagar a serena coragem, a lúcida intervenção e a forte determinação de luta do proletariado rural do Alentejo – coragem, lucidez e determinação sustentadas por uma elevada consciência de classe e política. E partidária, também, porque falar da luta do povo alentejano é falar da história do PCP.
Catarina, a sua vida e o seu assassinato, foram cantados por dezenas 
de poetas – mais de trinta, creio eu; outros acontecimentos do Alentejo 
resistente e combativo, foram assinalados em romances e contos de alguns dos maiores nomes da nossa literatura.
Ora, tanto quanto sei, até agora apenas o José Gomes Ferreira e o Manuel Gusmão nos tinham falado deste dia 27 de Setembro de 1979 e deste crime que nos levou o José Geraldo (Caravela) e o António Maria Casquinha.
Por isso digo que este belo poema de Filipe Chinita e de Manuel Gusmão 
nos fazia falta. Por isso saudei efusivamente o seu aparecimento: pela 
sua qualidade poética e porque é um poema que faltava ao cancioneiro da 
Revolução de Abril – desse que foi o momento mais luminoso da história 
do nosso País, o mais avançado, o mais progressista, o mais justo, o mais 
livre – e, portanto, o momento de maior modernidade da nossa história 
colectiva.
.
Uma Abertura, cinco partes e um Epílogo: assim os autores organizaram 
e estruturaram a narrativa poética dos acontecimentos – acontecimentos 
que nos são contados/cantados pelos assassinados – Caravela e Casquinha; pelo Coro – porque de uma tragédia se trata;
e por um Narrador – ora anónimo, ora aludindo ou tomando a voz de 
poetas, escritores, artistas plásticos – o já referido José Gomes Ferreira, 
Manuel da Fonseca, José Carlos Ary dos Santos, João Cabral de Melo 
Neto, Chico Buarque de Holanda, Manuel Gusmão, José Saramago, 
João Hogan. E Paul Vaillant- Couturier, que, muito a propósito e muito 
oportunamente, é chamado a lembrar-nos que o comunismo é o futuro do 
mundo – afirmação que pode parecer insólita neste tempo de capitalismo 
dominante, mas que a história se encarregará de confirmar.
(Eu disse o Coro, mas deveria dizer os coros: são dois, de facto: 
o Coro 1, Voz dos assassinados e dos seus irmãos de luta; 
e o Coro 2, a outra Voz...)
.
Na Abertura, Caravela e Casquinha apresentam-se ao Leitor – mortos, 
assassinados, e à nossa «espera, à espera da verdade/à espera da 
justiça». 
E de pé. Pois, dizem-nos – e nós confirmamos, «foi de pé que morremos».
Como de pé viveram: Caravela, militante comunista e enfrentando o 
fascismo com a dignidade dos homens dignos; Casquinha, jovem de 17 
anos, dirigente da Juventude Comunista, e também construtor da Reforma 
Agrária.
.
Na Primeira Parte – «Setembro estava no fim» - o Narrador situa o crime 
«nesta minha aldeia/vila do Escoural»; 
sinaliza a hora do crime - «entre as 11 e as 11 e meia»; 
e aponta as bestas assassinas: «vieram os bárbaros outra vez/sempre 
estão aqui/parecem hibernar».
«Bárbaros»?: «piores que bárbaros/escondem a mão assassina/
escondem a boca/que ditou a ordem».
Ali em Montemor, os «bárbaros outra vez»: outra vez a violência, a 
selvajaria, a morte - e não só ali, mas em toda a zona da Reforma Agrária, alvo da brutal ofensiva destruidora, iniciada pelo primeiro Governo PS/Mário Soares e prosseguida por todos os que lhe sucederam, até à destruição, num dos governos de Cavaco Silva, daquela que foi «a 
mais bela conquista da Revolução de Abril». «Os bárbaros outra 
vez», e outra vez o Alentejo a ferro e fogo, a repressão, as prisões, os 
interrogatórios pidescos; os assassinatos.
«Os bárbaros» que, como os seus antepassados do tempo do 
fascismo, «escondem a boca que ditou a ordem»...
Como é sabido, os assassinos e os responsáveis pelos assassinatos de 
Caravela e Casquinha nunca foram conhecidos nem levados a julgamento - tal como acontecia no tempo do fascismo. 
Com uma diferença: desta vez foi aberto o tradicional inquérito que, como 
é já de tradição nestes casos, nos últimos 33 anos, foi cirurgicamente 
arquivado...
.
A Segunda Parte deste Poema fala-nos da Solidariedade – palavra-
chave da resistência, palavra-chave do proletariado rural do Alentejo e do 
Ribatejo.
Toda a história da Reforma Agrária – desde os primórdios da luta por ela, 
até à luta pela sua concretização e à luta pela sua defesa face à ofensiva 
criminosa – é um acto de solidariedade, um imenso acto de solidariedade.
Pode dizer-se que a história da luta do povo alentejano é uma sucessão 
infindável de actos de solidariedade: foram-no as lutas por melhores jornas e melhores condições de trabalho; e a épica luta vitoriosa pelas oito horas de trabalho; e a luta consciente contra o fascismo, pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo.
Solidariedade foi a Reforma Agrária construída: a Reforma Agrária 
que, acabando com a exploração do homem pelo homem no seu espaço 
de intervenção, nos mostrou que o futuro é possível e nos mostrou um 
pedacinho desse futuro: lá estavam as terras cultivadas como nunca 
e a produzir como nunca; lá estava a justa repartição da riqueza 
produzida; lá estavam os cuidados, o amor, a ternura, pelas crianças e 
pelos idosos; lá estavam os direitos humanos respeitados e cumpridos 
como nunca antes acontecera e nunca de então para cá voltou a 
acontecer.
Continuando a falar da solidariedade: a presença de Caravela e de 
Casquinha naquele lugar e naquele dia, é um acto de solidariedade - que 
neste Poema nos é explicada pelos próprios. Dizem-nos eles que viajaram 
da UCP Salvador Joaquim do Pomar para a Bento Gonçalves, «desta nossa 
terra/a esta terra também nossa».
Porque, como sublinha, pertinente, o Coro 1, «nós somos iguais - a terra 
toda/trabalhada é de quem a trabalha/a terra é nossa». E insiste o Coro 
1, porque imperioso é insistir: «Por solidariedade vieram/entre herdades 
e nomes/a acudir à sua gente/a clamar justiça»,
porque «roubar gado/espoliar da terra a cooperativa/queriam eles/a 
força bruta e mandada/impondo como lei/os interesses dos agrários».
Belíssimas e certeiras palavras que, com rara beleza, nos dizem tudo o que sobre a matéria há a dizer.
Aqui, o Coro 1 explica ao Coro 2 a origem dos nomes dados às duas 
cooperativas - Salvador Joaquim do Pomar, militante comunista preso de 
1956 a 1961; e Bento Gonçalves, «nascido de meúdos/camponeses do 
Norte», operário do Arsenal, dirigente comunista, «deixaram-no vocês 
morrer no Tarrafal».
Por esta parte do Poema passa, também, essa questão maior que é a da 
posse e do uso da terra – questão à qual os construtores da nossa Reforma Agrária responderam de forma criativa e singular - rejeitando a sua posse individual e reclamando-a para a trabalhar, aumentar a produção agrícola e desenvolver o País - como criativo e singular foi, aliás, todo o processo de construção da Reforma Agrária de Abril.
Mas – sublinha incisivamente o Narrador - o que, naquele dia 27 de 
Setembro de 1979, acontecia na UCP Bento Gonçalves, «era uma história 
repetida/Veio a guarda com a lei/no cano das carabinas»...
«Uma história repetida», de facto: Alfredo Lima, 1950, Alpiarça; 
Catarina: 19 de Maio de 1954, Baleizão; José Adelino dos Santos, 1958, 
Montemor…; Caravela e Casquinha: 27 de Setembro de 1979, Montemor. 
O mesmo cenário: de um lado, o latifúndio sustentáculo do fascismo (com 
a sua GNR) e, agora (sempre com a sua GNR), inimigo de Abril; do outro 
lado, os que lutavam contra o fascismo e, agora, por Abril; de um lado, os 
assassinos; do outro lado, os assassinados.
.
A Terceira Parte é a morte de Caravela e Casquinha, «os que vieram por 
solidariedade/clamando por justiça» - os que, por serem solidários e por 
clamarem por justiça, foram assassinados. 
Chamei há pouco àquele dia 27 de Setembro de 1979, o dia mais sombrio 
do pós-25 de Abril – e creio que assim foi. Talvez porque o assassinato 
de Caravela e Casquinha foi uma coisa do tempo passado, do tempo que 
julgávamos ter erradicado definitivamente das nossas vidas e vivências, 
e agora nos aparecia ali, igual ao que dele conhecíamos, carregado de 
escuridão, de ódio e de morte.
E é bem verdade que, como nos diz o Coro 1, com a morte de Caravela 
e Casquinha, «um pouco de nós/morreu com eles» - mas é verdade, 
também, e isso é certamente o mais importante, que como nos diz o mesmo Coro, uns versos adiante, «um pouco deles/ficou vivo em nós».
Daí a importância e a força do compromisso assumido no Poema: 
«Casquinha!Caravela!/ Vozes de luta hão-de semear/os vossos nomes 
pelas ruas/dos povos deste Alentejo».
.
Na Parte Quatro – «Ó Aflição e Raiva» - os assassinados contam-nos a 
morte: o que sentiram quando as balas os atingiram, «aquele fogo frio ou/aquela faca de gelo», «o frio que queima/e a faca de fogo que rasga/
pelas costas até ao coração» - e «o negro/tudo ficou negro», «uma 
nuvem negra/dos olhos até um ponto/cá dentro...», «Como se fosse tudo 
num sonho». Depois «fechei-me como o quê?» – pergunta Caravela, e responde Casquinha: «como os bichos-de-conta/que vivos, vivíssimos/se enrolam sobre si mesmos/como se quisessem desaparecer/do mundo dos vivos».
E o Narrador coloca a pergunta crucial: «Porque são sempre os nossos/ 
que assim morrem?» - talvez, porque, como o mesmo Narrador nos 
diz, os «nossos» são os portadores da esperança, dessa esperança que a 
«violência cobarde e estúpida» não pode matar.
De facto, eles podem prender, e prendem, os homens; podem matar – e 
matam – os homens. Mas não podem prender nem matar o ideal – e é essa a nossa força, e é essa a nossa esperança.
.
«De Luto Desfilamos» na Quinta Parte do Poema: de luto estamos todos: 
«a aldeia do Escoural», «Montemor», «A Reforma Agrária/nos 
campos do Alentejo e/do Ribatejo» - e «trabalhadores do pais inteiro/
desfilam connosco», «somos muitos, muitos mil/os nossos passos têm 
a cadência/da tristeza e da firmeza/e ouvem-se no silêncio». Por aqui 
desfila «um rio de punhos erguidos/contra a morte», um «rio que 
chegará/um dia/ao mar».
.
E, como José Gomes Ferreira nos diz no Epílogo, «Quando os dois 
camponeses desceram às covas/ante os punhos cerrados de todos nós/
chorei!».
Chorámos: os que lá estivemos e muitos que lá não estiveram. 
E continuamos a chorar, hoje, 31 anos passados.
Mas chorámos de punhos cerrados – que é uma forma só nossa de chorar, que é um Pranto mas não é um lamento, antes é – voltamos à palavra... – um acto de solidariedade.
Como nos diz o Narrador – que somos nós - «neste dia ficou marcado/um 
outro dia no futuro/nesse dia desfilaremos/sobre o chão da terra/enfim 
devolvida nossa».
Que assim será, dizem-nos o Caravela e o Casquinha nas suas falas finais:
Caravela confiando-nos o seu «desejo mais fundo/Que da próxima seja 
de vez/a terra a quem a trabalha/a terra será de quem a trabalha»; 
Casquinha, o «menino-homem», intimando-nos a que não o deixemos 
sozinho, a que nos lembremos dos bandidos, a que nos lembremos que 
«o comunismo/é a juventude do mundo».
E nós não esqueceremos.
E este belo Poema do Filipe Chinita e do Manuel Gusmão é um precioso 
contributo para que a nossa memória continue viva.
.
zé casanova

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

José Gomes Ferreira - Aqui

* José Gomes Ferreira

(Em memória de José Caravela e António Maria Casquinha, mortos em Montemor-o-Novo pela Guarda Nacional Republicana)

I
Aqui
nesta planície de sol suado
dois homens desafiaram a morte, cara a cara,
em defesa do seu gado
de cornos e tetas.

Aqui
onde agora vejo crescer uma seara
de espigas pretas.

II
Quando os dois camponeses desceram às covas,
ante os punhos cerrados de todos nós,
chorei!

Sim, chorei
sentindo nos olhos a voz
do que há de mais profundo
nas raízes dos homens e das flores
a correrem-me em lágrimas na face.

Chorei pelos mortos e pelos matadores
- almas de frio fundo.

III
Digam-me lá:
para que serviria ser poeta
se não chorasse
publicamente
diante do mundo?


EM MEMÓRIA DE CASQUINHA E CARAVELA
Decorria o ano de 1979. O Novembro maldito de 1975 havia se encarregado de destruir muitas conquistas do povo trabalhador alentejano. Eram assassinados no Escoural Casquinha e Caravela às mãos da GNR, sem dó nem piedade. O povo alentejano sentiu na pele um castigo que se pensou não ser mais possível voltar a acontecer, depois de quase meio século de ditadura e repressão nos campos do Alentejo. Para que ninguém esqueça o que aconteceu aos nossos compatriotas... aqui os recordarmos, hoje e sempre!