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sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Mário Cesariny - Pastelaria

Mário Cesariny 

Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
– ele há tanta maneira de compor uma estante

Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola

Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!

Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir de tudo

No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra

Mário Cesariny de Vasconcelos
de “Nobilíssima Visão” (1045-1946) em “Burlescas, Teóricas e Sentimentais”,Editorial Presença, Lisboa, Julho de 1972.

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

Mário Cesariny - Liberdade

* Mário Cesariny


A liberdade conhece-se pelo seu fulgor.
Quatro homens livres não são mais liberdade do que um só.
Mas são mais revérbero no mesmo fulgor.
Trocar a liberdade em liberdades é a moeda corrente do libertino

Ser-se livre é possuir-se a capacidade de lutar contra o que nos oprime.
Quanto mais perseguido mais perigoso.
Quanto mais livre mais capaz.
Do cadáver dum homem que morre livre pode sair acentuado mau cheiro
– nunca sairá um escravo.
 

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Mário Cesariny - Mário Cesariny

* Mário Cesariny 


cinepovero2009

Mário Cesariny :: You Are Welcome to Elsinore (Entre nós e as palavras o nosso dever falar)




Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte      violar-nos      tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas      portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
   
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida      há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
   
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras e nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
   
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar

 in «Pena Capital», 1957.


  O título do poema remente para o Hamlet de Shakespeare, quando no Ato II, cena II, Hamlet dá as boas vindas, no castelo de Elsinore, aos velhos amigos Rosencrantz e Guildenstern, convocados pelo Rei sob o pretexto da «loucura» do Príncipe e destinados a ser os seus carrascos (sem eles o saberem) para serem afinal (sem eles suspeitarem) as suas vítimas.

[…] A referida obra do dramaturgo inglês foi aliás foi aliás reiteradamente invocada para assinalar obliquamente a miséria da «prisão» do Portugal salazarista, e baste para isso lembrar o lugar explicitamente nomeado por O’Neill – No Reino da Dinamarca (no diálogo entre Hamlet e os seus amigos/convidados, o príncipe dirá a uma dada altura da conversa que «Dinamarca é uma prisão»). Dinamarca é assim o Portugal onde o Surrealismo português quis materializar o seu sonho de Liberdade, Desejo, Amor e Poesia, e Elsinore a Lisboa que foi o seu território eletivo, a cidade amada/abominada por O’Neill e contrasposta a um Paris «onde o amor encontra os seus caminhos» (o Paris de Nadja por exemplo), a cidade de Palagüin de Carlos Eurico da Costa ou, enfim, a cidade do poema «Crónica» de Fernando Lemos. […]

      O poema, assim, define como poucos o que foi, o que quis ser e o que não pode ser a intervenção surrealista em Portugal, ao mesmo tempo que assinala os limites que à reabilitação da realidade e à nossa própria realização impõem aqueles que fizeram de Elsinore uma prisão, e da Dinamarca toda um território de podridão e de mentira; mas também aponta para a celebração do poder libertador da Palavra, instrumento de evasão da realidade real e de criação duma poética onde melhor nos instalarmos, porque, afinal, como lembrava o próprio Cesariny em 1949 no «Final de um Manifesto»,no círculo da sua ação, todo o verbo cria o que afirma.
          
Perfecto E. Cuadrado Fernández, Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX.Organização de Osvaldo Manuel Silvestre e Pedro Serra. Braga/Coimbra/Lisboa, Angelus Novus & Cotovia, 2002.            

http://folhadepoesia.blogspot.pt/2013/07/you-are-welcome-to-elsinore-cesariny.html
***

cinepovero2009

VIDEO_POEMA #04


Mário Cesariny (1923-2006)
"You Are Welcome to Elsinore" in «Pena Capital», 1957.
Poema dito pelo próprio.


Música: Excerto do 3º Andamento da Sinfonia nº 3 de Henrik Górecki («Symfonia Pieśni Żałosnych» - Sinfonia das Canções Tristes).

Clip no fim: Fragmento da sequência final do filme de Michelangelo Antonioni, «Zabriskie Point»

domingo, 11 de dezembro de 2016

Mário Cesariny - Visto a esta luz és um porto de mar

* Mário Cesariny

Visto a esta luz és um porto de mar
como reverberos de ondas onde havia mãos
rebocadores na brancura dos braços

Constroem-te um ponte
que deverá cingir-te os rins para sempre

O que há horrível no teu corpo diurno
é a sua avareza de palavras
és tu inutilmente iluminado e quente
como um resto saído de outras eras
que te fizeram carne e se foram embora
porque verdade sem erro certo verdadeiro
nada era noite bastante para tocarmos melhor
as nossas mãos de nautas navegando o espaço
os corpos um e dois do navio de espelhos
filhos e filhas do imponderável
de cabeça para baixo a ver a terra girar

Quero-te sempre como nã querer-te?
mas esta luz de sinopla nas calças!
este interposto objecto
e o seu leve peso de eternidade

sábado, 31 de outubro de 2015

Mário Cesariny - Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos

«Coitado do Álvaro de Campos!»
«Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!»
«Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!»
«Coitado dele, que com lágrimas (autênticas) nos olhos,»
«Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita
«Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco, àquele
«Pobre que não era pobre, que tinha olhos tristes profissão.»
«Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!»
«Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!»
«E, sim, coitado dele!»
«Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam.»
«Que são pedintes e pedem,»
«Porque a alma humana é um abismo.»
«Eu é que sei. Coitado dele!»
*
«Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido,»
«Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto)»
«Depois, ponto vago no horizonte (ó minha angústia!»
«Ponto cada vez mais vago no horizonte.»
Fernando Pessoa, Obra Poética
Há uma hora, há uma hora certa
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Há uma hora, desde as sete e meia horas da manhã
que um milhão de pessoas está a sair para a rua.
Estamos no ano da graça de 1946
em Lisboa, a sair para, o meio da rua.
Saímos? Mas sim, saímos!
Saímos: seres usuais, gente
gente! olhos, narinas,
bocas,
gente feliz, gente infeliz, um banqueiro, alfaiates,
telefonistas, varinas, caixeiros desempregados
uns com os outros, uns dentro dos outros
tossicando, sorrindo, abrindo os sobretudos, descendo
aos mictórios para apanhar eléctricos,
gente atrasada em relação ao barco para o Barreiro
que afinal ainda lá estava apitando estridentemente,
gente de luto, normalmente silenciosa
mas obrigada a falar ao vizinho da frente
na plataforma veloz do eléctrico, em marcha,
gente jovial a acompanhar enterros
e uma mãe triste a aceitar dois bolos para a sua
menina.
Há uma hora, isto: Lisboa e muito mais.
Humanidade cordial, em suma,
com todas as consequências disso mesmo
e a sair a sair para o meio da rua.
E agora, neste momentoque horas são?
a telefonista guarda o baton na mala pousa os auscul-
tadores liga electricamente Lisboa a Santarém
e começou o dia
o pedreiro escalou para o telhado mais alto e cantou
qualquer coisa
para começar o dia
o banqueiro sentou
se, puxou de um charuto havano,
pensou um bocado na família
e começou o dia
a varina infectou a perna esquerda nos lixos da
Ribeira
e começou o dia
o desempregado ergueu-
-se, viu chuva na vidraça,
e imaginou-
-se banqueiro
para começar o dia e o presidiário, ouvindo a sineta das nove,
começou o seu dia sem dar inicio a coisa alguma.
Agora fumo, trepidação,
correias volantes de um a outro extremo da fábrica
isolada,
cigarros meio fumados em cinzeiros de prata,
bater de portas pás! em muitas repartições,
uma velha a morrer silenciosamente em plena rua
e um detido a apanhar porrada embora acreditem
nele.
Agora pranto e pranto
na bata da manicure apetitosa do salão Azul.
Agora, regressão, milhões de anos para trás,
patas em vez de mãos, beiços em vez de lábios,
crocodilos a rir em corredores bancários
apesar das mulheres terem varrido muito bem o chão.
Agora tudo isto e nada disto
em plena e indecorosa licenciosidade comercial
pregando partidas, coçando, arruinando, retorcendo
o facto atrás dos vidros
um tiro nos miolos e muito obrigado, sempre às
ordens!
(a velha já morreu e no seu leito de morte
está agora um automóvel verdadeiramente aerodi-
nâmico
e a tocar telefonia: and you, and you my darlyng?)
Há uma hora, Isto! Há duas, ISTO!
E eu?
Eu, nada. Eu, eu, é claro…
Paro um pouco a enrolar o meu cigarro (chove)
e vejo um gato branco à janela de um prédio bas-
tante alto
Penso que a questão é esta: a gente, certa gente
sai para a rua,
cansa-
-se, morre todas as manhãs sem proveito nem
glória
e há gatos brancos à janela de prédios bastante
altos!
Contudo e já agora penso
que os gatos são os únicos burgueses
com quem ainda é possível pactuar
vêem com tal desprezo esta sociedade capitalista!
Servem-se dela, mas do alto, desdenhando-a…
Não, a probabilidade do dinheiro ainda não estragou
inteiramente o gato
mas de gato para cimanem pensar nisso é bom!
Propalam não sei que náusea, retira
me o estô-
mago só de olhar para eles!
São criaturas, é verdade, calcule-se,
gente sensível e às vezes boa
mas tão recomplicada, tão bielo
cosida. tão ininte-
ligível
que já conseguem chorar, com certa sinceridade,
lágrimas cem por cento hipócritas.
E o certo é que ainda têm rapazes de Arte, gente
que pôs a alegria a pedir esmola e nessa mesma noite
foi comprar para o cinema
porque há que ir ao cinema, ele é por força, é por
amor de Deus, ah, não! não! isso não!, não
se atravessem nesta bilheteira!!
Vamos estar tão bem! Vai tudo ser Tão Bonito!
Ah, e quem é que, vê o logro? A quem é que isto
cheira a ranço?
Porque é que a freguesa de Panos Limitada não exige
três quartas de cinema
e sim três quartas partes pretas de lã carneira?
Porque é que a pianista compra do Alves Redol
quando está a pensar nas pernas e no peito do louro
galã yankee?
E porque raio despede o senhor Director três humí-
limos empregados
quando a verdade é que já lá vão três meses e ainda
não viu um que lhe enchesse as medidas?
Com certa espécie de solidariedade
1embro-me de ti, Mário de Sá
Carneiro,
Poeta gato
branco à janela de muitos prédios altos
Lembro-me de ti, ora pois, para saudar-te,
para dizer bravo e bravo, isso mesmo, tal qual!
Fizeste bem, viva Mário!, antes a morte que isto,
viva Mário a laçar um golpe de asa e a estatelar-se
todo cá em baixo
(viva, principalmente, o que não chegaste a saber,
mas isso é já outra história…)
E com uma solidariedade muito mais viva
lembro-me de ti, meu vizinho de baixo,
sapateiro
branco mas no rés-do-chão, desta
vez
É curioso que não te possas suicidar
só porque a tua janela está ao nível do mundo
e que cantes alegremente de manhã à noite
com uma casa de seis andares em encima de ti.
Também tu foste empurrado, também te disseram:
Fora, gato!
Mas achaste isso quase natural (e não o é, deveras?)
E agora, guardando em ti todas as tuas grandes
qualidades
vais vivendo um pouco à margem, um pouco no
quinto andar
Deito fora o cigarro que já me sabia a amargo
e decido-me a andar mas para quê ? Mas para
onde ?
As lojas estão todas abertas mas nunca se viu coisa
tão fechada
Ah! heróis do trabalho, que coisas raras fazeis!
Não sou um proletário vê-se logo
mas odeio cordialmente a gataria
e quanto a crocodilos, nem os do Jardim Zoológico
me atraem
quanto mais estes! E aqui é que começa o em-
bróglio…
O pouco amor que eu tive à burguesia
deixei-o todo numa casa de passe
quando me perguntaram: quer assim ? Ou assim ?
E agora, era fatal, falto ao escritório,
falto ao escritório, pontualmente, todas as manhãs.
Mas vejamos, ó minha alma, se podes, arrumemos
um pouco a casa escura que te deram.
Eu
estudei música, como toda a gente
(ou talvez um pouco mais do que toda a gente?)
Não. Por aqui não nos entenderemos.
Estudemos outro papel. Outro fim. Outras músicas.
Recomecemos: Um:
Estes versos não querem de modo algum ser versos
porque quem hoje em Portugal quer de algum modo
fazer versos versos
está em muito maus lençóis
(este o primeiro artigo da minha constituição)
Segundo:
Apesar de tudo, saí para a rua com bastante natu-
ralidade
e que vi eu? Que é isto? (E que esperava eu ver?)
Terceiro:
(e aqui começa, talvez, o desembróglio)
vi também um vapor que ia para o Barreiro
e tive pena de não ir com ele
mas não sou um proletário (não, ainda não)
e atravessar a nado quem é que disse que pode?
Fiquei-me a vê-lo: primeiro junto ao cais
com um certo ar simpático de proletário dos mares
e apinhado de gente tanta espécie dela!
Depois a meio do rio, destacado e nítido,
depois um ponto vago no horizonte (ó minha an-
gústia ! )
ponto cada vez mais vago no horizonte
e de repente, ao virar uma esquina, já depois de
outra esquina,
vejo uma nova espécie de enforcado
um homem novo em cima de um escadote
a colar afixar cartazes deste género:
VOTA POR SALAZAR
Páro. Páro de novo. Pararei sempre enquanto
afixarem cartazes deste género.
Curioso, curiosíssimo este género.
Um chefe não é grande pelo nome que arranjou.
Salazar Xavier Francisco da Cunha Altinho isso que
importa.
Um chefe é grande ,pelas suas obras, pelo amor que
inspira.
Pois os fascistas os nossos bons fascistas
querem que a gente vote por um nome
por um nome calcula essa coisa qualquer que qual-
quer fulano tem!
Vota por Salazar ora pois ó meu povo
vota por sete letras muito bem arrumadas em três
sí-la-bas.
Deito a cabeça para trás para deixar sair a gar-
galhada
e aproximo-me do homem em cima do escadote
aproximo-me tanto que ele nota
alguém que se aproxima
e o braço cai-lhe, grosso, pingando água num balde
(…)
Mário Cesariny de Vasconcelos
versão publicada em Nobilíssima Visão
https://viumhomem.wordpress.com/2009/03/21/louvor-e-simplificacao-de-alvaro-de-campos/

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Welcome to Elsinore - Mário Cesariny

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Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte
violar-nos
tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas
portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício
Ao longo da muralha que habitamos
há palavras de vida há palavras de morte
há palavras imensas, que esperam por nós
e outras, frágeis, que deixaram de esperar
há palavras acesas como barcos
e há palavras homens, palavras que guardam
o seu segredo e a sua posição
Entre nós e as palavras, surdamente,
as mãos e as paredes de Elsenor
E há palavras nocturnas palavras gemidos
palavras que nos sobem ilegíveis à boca
palavras diamantes palavras nunca escritas
palavras impossíveis de escrever
por não termos connosco cordas de violinos
nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
e os braços dos amantes escrevem muito alto
muito além do azul onde oxidados morrem
palavras maternais só sombra só soluço
só espasmo só amor só solidão desfeita
Entre nós e as palavras, os emparedados
e entre nós e as palavras, o nosso dever falar.
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Enviado por Madalena Mendes
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Rua do Ouro - Mário Cesarinny

Assunto: A TEIA DE ARANHA
Data: 26/Jan 15:09
MUITAS VEZES, O HOMEM QUE QUER VENCER PENSA QUE VAI NA DIRECÇÃO ONDE ESTÁ A VITÓRIA,SÓ PORQUE ESSE É O CAMINHO MAIS CLARO,E, AFINAL, O QUE O ESPERA NO FIM É A DERROTA E A MORTE. A LUZ PODE ENGANAR.SURGE, A QUEM PARA ELA OLHA, COMO UMA FINA TEIA DE ARANHA - BELA, OFUSCANTE PELAS GOTAS DE ORVALHO QUE A ENFEITAM E COMPLEXA NAS SUAS VOLTAS E CONTRAVOLTAS, MAS OFUSCA, ENLEIA E MATA QUEM A ELA SE DIRIGIU LEVADO SÓ POR ESSAS RAZÕES ATRAENTES, MAS ILUSÓRIAS. NEM SEMPRE O MAIS BRILHANTE ENCERRA EM SI A GLÓRIA QUE PROMETE...EM ANEXO UM BEIJO!
-
Distribuído por Moranguinh Pereira (hi5)
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RUA DO OURO
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Ai dele que tanto lutou e afinal

está tão só. Tão sòzinho. Chora.
Direcção da Companhia Tantos de Tal.
Cincoenta e três anos. Chove, lá fora.
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Chora, porquê? Ora, chora.
Uma crise de nervos, coisa passageira.
É, talvez, pela mulher que o adora?
(A êle ou à carteira?)
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Seis horas. Foi-se o pessoal.
O homem que venceu está sòzinho.
Mas reage:que diabo. Afinal...
E olha para o cofre cheínho.
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Sim estou só ainda bem porque não? ele diz
batengo com os punhos na mesa.
Lutei e venci. Sou feliz
E bate com os punhos na mesa.
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Seis e meia. Ó neurastenia
o homem que venceu está de borco
e sente uma grande agonia
que afinal é da carne de porco
que comeu no outro dia.
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É da carne de porco ele diz
vendo a chuva que cai num saguão.
É da carne de porco. Sou feliz.
E ampara a cabeça com as mãos.
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Durante toda a vida explorou o semelhante.
Por causa dele arruinaram-se uns cem.
Agora, tem medo. E o farsante
diz que é feliz diz que está muito bem.
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Sim, reage. Que diabo. Terei medo?
E vê as horas no relógio vizinho.
Mas, ai, não é tarde nem cedo.
Ele, que venceu, está sòzinho.
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Venceu quem? Venceu o quê? Venceu os outros
Os outros, os que o queriam vencer!
Arruinou-os, matou-os aos poucos.
Então não o queriam lá ver?
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Sim, reage: Esta noite a Leonor
amanhã de manhã o Sàlemos
e depois? Ah o novo motor
veremos veremos veremos
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Mas pouco do que diz tem sentido.
Tudo hoje lhe é vago uniforme miudinho.
O homem que venceu está vencido.
O dinheiro tapou-lhe o caminho.
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Os filhos? esperam que êle morra.
A mulher? espera que êle morra.
O sóciuo? Pede a Deus que êle morra!
Só a Anita não quer que êle morra!
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Ai, maldita carne, murmura
vendo a água que há no saguão.
Tinha demasiada gordura!
E veste o casaco e o gabão.
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Passa os olhos pelo lenço. Acabou-se.
Vai sair. Talvez vá jantar?
É inverno. Lá fora, faz frio.
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O homem que venceu matou-se
na margem mais escura do rio
ao volante dum belo Packard
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MÁRIO CESARINY

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

Paul Signac

Signac.jpg
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dia ideal para combater moinhos de vento
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Devias estar aqui

Devias estar aqui rente aos meus lábios
para dividir contigo esta amargura
dos meus dias partidos um a um
- Eu vi a terra limpa no teu rosto,
Só no teu rosto e nunca em mais nenhum
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Eugénio de Andrade
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10 de janeiro de 2010

Nada é impossível de mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
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Bertold Brecht
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09 de janeiro de 2010

Faz-me o favor

Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.
Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
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Mário Cesariny
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Albert Lynch

Lynch%20Albert%2C%20Young%20Woman%20Holding%20Flower.jpg
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antevisão da primavera distante
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Melodia

Este é o orvalho dos teus olhos.
Esta é a rosa dos teus vales.
O silêncio dos olhos está no silêncio das rosas.
Tu estás no meio,
entre a dor e o espanto da treva.
Arrancas-te ao mundo e és a perfumada
distância do mundo.
Chego sem saber, à beira dos séculos.
Despenho-me nos teus lagos quando para ti
canta o cisne mais triste.
O pólen esvoaça no meu peito, junto às tuas
nuvens.
Esta é a canção do teu amor.
Esta é a voz onde vive a tua canção.
As tuas lágrimas passam pela minha terra
a caminho do mar.
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José Agostinho Baptista
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08 de janeiro de 2010

Hoje

lgbt.jpg
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porque é um dia especial
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Por Ana Roque às 17:49 de 08 de janeiro de 2010 |
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domingo, 6 de dezembro de 2009

Mário Cesariny - Vida e alguma Obra





Desde criança, sonhava que voava!
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Fechava os olhos e sonhava sonhos pela infinito, que viria a ser seu, embora ele modestamente desdenhasse vénias e cortesias:
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"Estou num pedestal muito alto, batem palmas e depois deixam-me ir sozinho para casa. Isto é a glória literária à portuguesa", disse
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O pintor e poeta surrealista, um dos maiores vultos da cultura portuguesa do séc XX, dava mais importância à sua obra literária do que à sua pintura.
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Depois de conhecer, em Paris, o poeta André Breton, integrou o Grupo Surrealista de Lisboa, em que também se encontravam Alexandre O’Neill e José-Augusto França.
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Protestava contra o regime político e contra o neo-realismo.
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Espírito livre, acabou por se incompatibilizar com este grupo e formar outro, que se lhe opunha, “Os Surrealistas”, com Cruzeiro Seixas e Risques Pereira.
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Talento multi-facetado, Cesariny, cuja atitude estética se caracterizava pela permanente experimentação, começou por dedicar-se à pintura de forma ocasional, mas a acabaria por fazer dela actividade quase exclusiva. Deixou de tocar piano e de escrever poesia. "Secou", dizia. Não sentia necessidade de escrever. "Para quê? A quem?"
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A sua obra literária - onde se destacou como antologista, compilador e historiador polémico do surrealismo em Portugal - começou pela poesia de intervenção, na década de 40. Acabou por escrever sobre tudo. E muito sobre o amor "Pode-se morrer por amor. Mas também se pode morrer por falta de amor".
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O homem que viveu como quem aproveita uma oportunidade única, desgastado por longa doença oncológica, confessava: "Gostava de ter daquelas mortes boas, em que uma pessoa se deita para dormir e nunca mais acorda".
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Assim aconteceu hoje, aos 83 anos, na sua casa em Lisboa.
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Deixou aos portugueses e ao mundo uma obra inestimável, publicada em:
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Corpo Visível (1950)
Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano (1952)
Louvor e Simplificação de Álvaro de Campo (1953)
Manual de Prestidigitação (1956)
Pena Capital (1957)
Alguns Mitos Maiores e Alguns Mitos Menores Postos à Circulação pelo Autor (1958)
Nobilíssima Visão (1959)
Poesia (1944-1955) (s./d.)
Planisfério e Outros Poemas (1961)
Um Auto para Jerusalém (1964)
Titânia e A Cidade Queimada (1965)
19 Projectos de Prémio Aldonso Ortigão Seguidos de Poemas de Londres (1971)
As Mãos na Água e na Cabeça (1972)
Burlescas, Teóricas e Sentimentais (1972)
Primavera Autónoma das Estradas (1980)
Vieira da Silva, Arpad Szenes ou O Castelo Surrealista (1984)
O Virgem Negra (1989)
Titânia (1994)
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Deixou-nos ainda os livros:
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A Intervenção Surrealista (1958), Antologia Surrealista do Cadáver Esquisito (1961, obra que organizou e para qual contribuiu), Surreal-Abjection(ismo) (1963), Do Surrealismo e da Pintura (1967), Primavera Autónoma das Estradas (1980) e Vieira da Silva – Arpad Szènes, ou O Castelo Surrealista (1984).
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"Eu, Sempre..."
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Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.
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Mário Cesariny
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In
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Corpo Visível (1950)
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O Raul Leal era
O único verdadeiro doido do "Orpheu".
Ninguém lhe invejasse aquela luxúria de fera?
Invejava-a eu.
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Três fortunas gastou, outras três deu
Ao que da vida não se espera
E à que na morte recebeu.
O Raul Leal era
O único não-heterónimo meu.
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Eu nos Jerónimos ele na vala comum
Que lhe vestiu o nome e o disfarce
(Dizem que está em Benfica) ambos somos um
Dos extremos do mal a continuar-se.
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Não deixou versos? Deixei-os eu,
Infelizmente, a quem mos deu.
O Almada? O Santa-Ritta? O Amadeo?
Tretas da arte e da era. O Raul era
Orpheu.
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Os sebastiacas trombos não deixaram partir
Portugal para o Brasil.
Vagos ficamos da amurada aos tombos
Para a largada rombos
Do corpo de Portugal.
.
Mas a Hora deixada ao sono vil
Dos que provendo tudo podem nada
Mais que o fogo senil
Do Império Final,
Cintila na amurada:
Não há Portugal e Brasil.
Brasil é Portugal. 

.
Mário Cesariny
.
.
Pastelaria

Afinal o que importa não é a literatura nem a crítica de arte nem a câmara escura
Afinal o que
importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio
Afinal o que
importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
Afinal o que
importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
.
e cair verticalmente no vício
Não
é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
Que afinal
o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come
Que afinal
o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
Que afinal
o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora!
– rir de tudo
No riso admirável
de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
.
Mário Cesariny
.
.
Visto a esta luz
.
Visto a esta luz és um porto de mar
como reverberos de ondas onde havia mãos
rebocadores na brancura dos braços
.
Constroem-te uma ponte
que deverá cingir-te os rins para sempre
.
O que há horrível no teu corpo diurno
é a sua avareza de palavras
és tu inutilmente iluminado e quente
como um resto saído de outras eras
que te fizeram carne e se foram embora
porque verdade sem erro certo verdadeiro
nada era noite bastante para tocarmos melhor
as nossas mãos de nautas navegando o espaço
os corpos um e dois do navio de espelhos
filhos e filhas do imponderável
de cabeça para baixo a ver a terra girar
.
Quero-te sempre como nã querer-te?
mas esta luz de sinopla nas calças!
este interposto objecto
e o seu leve peso de eternidade
.
Mário Cesariny
.
.
.
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura
.
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
.
.
Mário Cesariny
.
.
Faz-me o favor...
.
Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
.
É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és nao vem à flor
Das caras e dos dias.
.
Tu és melhor -- muito melhor!--
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

de "O Virgem Negra"


Mário Cesariny



Nota: autorizei a publicação desta biografia, escrita em 26 de Novembro de 2006, ao Amigo, Poeta e Editor de "Poesia & Literatura" Eugénio de Sá:
 2ª Edição da AVPB (Academia Virtual Poética do Brasil).
Maria Petronilho
Publicado no Recanto das Letras em 29/03/2007
Código do texto: T429982
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http://66.228.120.252/biografias/429982
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Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original (Maria Petronilho (registo www.igac- ref 2276/DRCAC - Ministério da Cultura, Portugal)). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
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Ver Também:
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Letras & Letras

Recepção parodística de Cesário Verde, Sá-Carneiro e F. Pessoa no intertexto surrealista
de J. Cândido Martins (Universidade Católica Portuguesa – Braga)
... a arte literária à sua devida dimensão: "Afinal o que importa não é a literatura/ nem a crítica de arte nem a câmara escura"(1991: 15). ...
alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/letras/candid04.htm 
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Pastelaria - Mário Cesarinny



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PASTELARIA
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Afinal o que importa não é a literatura
nem a crítica de arte nem a câmara escura
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Afinal o que importa não é bem o negócio
nem o ter dinheiro ao lado de ter horas de ócio

Afinal o que importa não é ser novo e galante
- ele há tanta maneira de compor uma estante
.
Afinal o que importa é não ter medo: fechar os olhos frente ao precipício
e cair verticalmente no vício

Não é verdade rapaz? E amanhã há bola
antes de haver cinema madame blanche e parola
.
Que afinal o que importa não é haver gente com fome
porque assim como assim ainda há muita gente que come

Que afinal o que importa é não ter medo
de chamar o gerente e dizer muito alto ao pé de muita gente:
Gerente! Este leite está azedo!
.
Que afinal o que importa é pôr ao alto a gola do peludo
à saída da pastelaria, e lá fora – ah, lá fora! – rir
de tudo
.
No riso admirável de quem sabe e gosta
ter lavados e muitos dentes brancos à mostra
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Nobilíssima Visão (1945-1946), in burlescas, teóricas e sentimentais (1972)
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Gostei imenso do vídeo que me deixaste. Sábado passei em Castro Verde...
Espero que gostes do poema que te deixo.
Beijinho.
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Cecília (hi5) - 30/Nov 17:30
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quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Poesia de Florbela Espanca e de Mário Cesariny

Assunto: Poesia
Data: 15/Jun/2008 19:52
Para conheceres alguma da poesia que digo de cor...
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Se tu viesses ver-me...
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SE TU VIESSES VER-ME HOJE À TARDINHA,
A ESSA HORA DOS MÁGICOS CANSAÇOS,
QUANDO A NOITE DE MANSO SE AVIZINHA,
E ME PRENDESSES TODA NOS TEUS BRAÇOS...
.
QUANDO ME LEMBRA: ESSE SABOR QUE TINHA
A TUA BOCA...O ECO DOS TEUS PASSOS...
O TEU RISO DE FONTE...OS TEUS ABRAÇOS...
OS TEUS BEIJOS...A TUA MÃO NA MINHA...
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SE TU VIESSES QUANDO, LINDA E LOUCA,
TRAÇA AS LINHAS DULCÍSSIMAS DUM BEIJO
E É DE SEDA VERMELHA E CANTA E RI
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E É COMO UM CRAVO AO SOL A MINHA BOCA...
QUANDO OS OLHOS SE ME CERRAM DE DESEJO...
E OS MEUS BRAÇOS SE ESTENDAM PARA TI...
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Florbela Espanca
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Faz-me um favor...
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Faz-me o favor de não dizer absolutamente nada!
Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.
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É ouvir-te melhor
Do que o dirias.
O que és não vem à flor
Das caras e dos dos dias.
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Tu és melhor - muito melhor!
Do que tu. Não digas nada. Sê
Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.
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Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço também o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tão perto tão real
que o meu corpo se tranfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura.
.
Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
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Mário Cesariny
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Enviado por Chicolateira
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Enfin, ô bonheur ... - Jean-Arthur Rimbaud

Assunto:
Data:
Há 154 anos nasceu, não sei em que galáxia paira... continuará por longo tempo a ser um símbolo da cultura que incorporou.
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Desconheço se esta versão é a original. A que li nas obras completas em língua francesa apresenta consideráveis diferenças no texto.
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Transcrevi também a tradução de Mário Cesariny, a que mais me agrada.
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{Escolhi o poema que me pareceu mais fácil para os meus meninos (alunos). Façam o favor a vós mesmos de ganhar uns minutos a lê-lo.}
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Distribuído por Maria (hi5)
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«Enfin, ô bonheur, ô raison, j’écartais du ciel l’azur, qui est du noir, et je vécus, étincelle d’or de la lumiére nature. De joie, je prenais une expression bouffonne et égarée au possible:
.
Elle est retrouvée!
Quoi? L' éternité.
C est la mar mêlée
Au soleil
.
Mon âme éternelle,
Observe ton voeu
Malgré la nuit seule
Et le jour en feu.
.
Donc tu te dégages
Des humains suffrages,
Des communs élans!
Tu voles selon...
.
— Jamais l' ésperance.
Pas d' oríetur.
Science et patience,
Le suplice est sur.
.
Plus de lendemain,
Braises de satin,
Votre ardeur
Est le devoir.
.
Elle est retrouvée!
— Quoi? — L' éternité.
C' est la mer mêlée
Au soleil.»
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Traduzido:
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«Por fim, ó ventura, ó razão, tirei do céu o azul, que é negro, e fui centelha de oiro da luz natural. Eufórico, assumia um verbo impossivelmente burlesco e extraviado:
.
Perdeu-se. Buscai.
Quem? A Idade de Ouro.
É o acre infuso,
Água, olhos, terra.
.
Ó minh’alma, eterna
Manhã, tem teu voto,
Que só contra a noite
É jurado o fogo.
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Por isso te ergues
Da mesa do mundo.
Das madres, dos seres,
Tens o que és...
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Mas nunca, a esperança
De rumo nenhum.
Ciência e insciência.
O alto é o baixo.
.
Sumiu-se o simpósio,
Das cinzas ao cabo;
A arte a relógio
É a parte do diabo.
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Perdeu-se. Buscai.
Quem? A Idade de Ouro.
É o acre infuso,
Água, olhos, terra.»
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Jean-Arthur Rimbaud
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domingo, 26 de abril de 2009

EM TODAS AS RUAS TE ENCONTRO - Mário Cesariny

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Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto, tão perto, tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
Em todas as ruas te perco

MÁRIO CÉSARINY
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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terça-feira, 8 de janeiro de 2008

Luiz Pacheco - Textos

"O Luiz Pacheco é provavelmente o maior filho da puta, a pessoa mais corrosiva, mais intratável que há, mas eu gosto dele. Não sei porque mas gosto dele. O Luiz tem a capacidade de dizer o que pensa, de dizer mesmo tudo o que pensa, mesmo o que não poderia dizer(...)"

Publicado por amnésia

©2002-7 Bazooka!



<DITOS
>


>Eduardo Langrouva fala sobre Luiz Pacheco (in Agulha, Revista de Cultura)
>Entrevista a Luiz Pacheco, no blog Esplanar
>Crónica de Luís Pedro Nunes
>Soares rega com «tintol» o Natal do «maldito» Luiz Pacheco, o «escritor maldito»
>Saga LUIZ PACHECO - parte I, por Paula Nunes
> Entrevista: Diário de Notícias (7.1.2004)
> Entrevista: Revista Pública (28.3.2004)
> Entrevista Cristiano Pereira, Jornal de Notícias (3.1.2003)
> Entrevista a João Pedro George (Blog Esplanar) (4.5.2005)
> Luiz Pacheco - Mais um dia de noite (Diário de Notícias) (14.7.05)
> Entrevista: Visão (1.9.2005)
> Crítica Diário remendado, por Pedro Mexia (30.9.2005)
> Cartas ao léu: Jornal A Página (Março 2006)
> Entrevista: Correio da Manhã (8.4.2007)
> Luiz Pacheco, o libertino, por Maria Estela Guedes
> O homem que calculava, por Eduardo Cintra Torres
> Meio século de surreal em Portugal, por Luiz Pacheco (pdf)



>Extracto de Mano Forte
>Carta a Fátima
>Surrealismo e sátira (de André Tolentino a Nicolau Breton)
>Coro de escárnio e lamentação dos cornudos em volta de S.Pedro

> Carta de Mário Cesariny a Luiz Pacheco (1966)

> Comunidade (extractos)
(1966)
> Cesariny ou do picto-objeccionismo (1974)

> Rompimento inaugural (1974)

> Uma picardia a mestre Almada
(1979)
> Extracto de Diário remendado (O meu 25 de Abril) (2005)


<> >

<>
"O homem tem uma cara de parvo chapado. Eu estou farto de ler o gajo. Um dia, entro numa livraria e pego nisto ("Boa Noite") e vejo: "Romance". Eu desato a rir a gargalhada! Isto lê-se em dez minutos, este gajo deve ser mas é maluco!"Luiz Pacheco, sobre Pedro Paixão, em entrevista ao Jornal de Letras de 24 de Setembro de 1997
.
"O Lobo Antunes e o Saramago não estão a escrever para vocês nem para mim. Estão a escrever uma coisa género "standard", que é o romance internacional. (...) Como sabem que vão ser traduzidos, têm de fazer uma linguagem o mais corrente possível, mais linear, mais badalhoca."Idem, ibidem
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"O Big Brother é um disparate, mas pior é o Emídio Rangel".Luiz Pacheco (escritor)Focus, citado por Tal&Qual, 12-Abr-01
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"(Luiz Pacheco) converteu-se numa aberração de feira. Não diz verdades. Mas vomita inanidades. Sem destino e sem sentido, para gáudio geral da humanidade. Um provocador, Luiz Pacheco? Coitado do Homem."João Pereira CoutinhoO Independente, 26-Jun-01
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Agustina [Bessa-Luís] é a figura essencial na ficção, não tem parceiro. Ao pé dela, falar do Saramago é como falar do cão... A Agustina é ímpar a retratar os meios ligados ao poder e ao dinheiro. (...)
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O Eduardo Lourenço (...) já está um bocado gagá, mas foi muito importante. A Heterodoxia é um grande livro, que mudou a minha cabeça: tão contundente, tão extraordinário, tinha umas coisas de filosofia que, naquele momento, nem sequer consegui acompanhar. (...)
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[Eduardo Prado Coelho] é um tipo muito esperto, usa a inteligência para navegar. É muito antipático para mim, não gosto dele nem da maneira como escreve, mas não escreve mal.(...)
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Sim, jovens, todas as javardices que por vezes vocês ousam escrevinhar nos chats, já gente como o Pacheco escreveu e publicou antes de vocês nascerem. E sabem que mais? É Literatura, com H grande, porque algures, na escolha das palavras, na mesquinhice da vírgula, no arremesso alarve, na exclamação pela bosta de cão pisada, ele pertence a esse Olimpo.
Crónica de LUÍS PEDRO NUNES
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Fiquei perplexo! O escritor Luiz Pacheco, numa entrevista à revista Focus, directamente do lar de caridade em que se encontra no Príncipe Real, diz que vê o Big Brother mas acha aquilo “um disparate”.
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Finalmente aos 76 anos, o libertino alcoólico, o pedófilo míope, tinha ficado senil: estava a pensar “mainstream”, a sua opinião era igual, deus nos guarde, à de um Jorge Sampaio, para não ir mais longe. Que pensamento repugnante.
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Nos dias seguintes esperei que a faculdade de Letras organizasse um Congresso com carácter de urgência “BB e Pacheco, ou como o neo-neo- abjeccionismo é ‘disparate’ para o criador do neo- abjeccionismo ou como devem andar a medicá-lo erradamente”. Mas a Universidade Portuguesa, como sabemos, só irá reagir a esta declaração dentro de uma ou duas décadas. Que espiga! E tive que me pôr a pensar. Porque é que o Pacheco acharia o BB, enfim - que termo, homem! - “um disparate”?. E olhei de novo para a entrevista e para o seu perfil. “Tem 8 filhos e esteve cinco vezes preso (por causa das mulheres, ou por casos com a censura)”. E lembrei-me quando o vi, uma vez, na Estrela, calça à meia canela, óculos fundo de garrafa, cabelo tinhoso, camisa borrada de pingas de tintol e saco de plástico cheio de medicamentos.
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E assim, achei que deveria relê-lo. Passei os olhos pelo “O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor:
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(...) Mas passam por mim duas miúdas: uma, grande cu descaído, badalhoca de cara, trouxa de carne a dar às pernas – é a que me tenta”, Ó pornógrafo viscoso, e depois arranca para a tese do “biminete” (deduzam).
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Mas decido-me ficar pelas dez páginas de “Comunidade”. Um hino à família:
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“Somos cinco numa cama. Para a cabeceira, eu, a rapariga, o bebé de dias; para os pés o miúdo e a miúda mais pequena. Toco com o pé numa rosca de carne meiga e macia: é a pernita da Lina, que dorme à minha frente. Apago a luz, cansado de ler parvoíces que só em português é possível ler, e viro-me para o lado esquerdo: é um hálito levemente soprado, pedindo beijos no escuro que me embala até adormecer (....) Desde que estamos aqui, experimentámos várias posições para nos ajeitarmos a dormir melhor: ora todos em fileira, ao lado uns dos outros, para a cabeceira da cama, ora distribuídos como agora, três para cima e dois para baixo, ou, então, com um dos miúdos (a Lino ou o Zé) atravessados a nossos pés(...) isto com insucessos, preferências, trambolhões cama abaixo, muitos pontapés, mijas, rixas, complicações de família e ciumeira e choros e berraria, às vezes, resolvidos em família entre risos, lágrimas, bofetões, beijos, descomposturas, carícias leves. Também na cama as posições variavam conforme o frio ou o calor faziam na cama, conforme, principalmente, o frio convocados os cobertores (um, ou dois) à pressa, num afã de Salivação Pública (nossa) e seguiam depois para o prego (...)”*

Tudo isto tinha sabor a BB, ou de quando a promiscuidade no seu lado mais suado e pegajoso atinge a pureza. O BB estará já destilado demais, muito naif? Seria o BB1 mais pachecável?
Luiz Pacheco acha o BB um “disparate”. E não bate certo. O BB é apenas um derivado pobre do abjecto. Certo. Mas, um... disparate?
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Talvez devamos voltar à entrevista, buscar nas entrelinhas. Será o BB já muito urbano, queque, pouco badalhoco? Sim, jovens, todas as javardices que por vezes vocês ousam escrevinhar nos chats, já gente como o Pacheco escreveu e publicou antes de vocês nascerem. E sabem que mais? É Literatura, com H grande, porque algures, na escolha das palavras, na mesquinhice da vírgula, no arremesso alarve, na exclamação pela bosta de cão pisada, ele pertence a esse Olimpo. Nós copiamo-nos uns aos outros, ou, pior, nem sabemos que estamos a copiar e pensamos estar a criar... Vamos lá reler a entrevista
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“(...) P- E o Big Brother nunca viu?
R- Vi, vi. O meu problema é que não tenho o comando na mão e há um rapaz que põe a televisão todo o dia na TVI e tenho que gramar com tudo. É os Olhos de Água é o Super Pai, é tudo. Já pus algodão nos ouvidos e aquelas coisas de borracha e não dá. É o descalabro.” (...)
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Agora tudo fazia sentido. Não era o Big Brother que era um disparate. Que é. O disparate é não darem o comando da televisão ao Luiz Pacheco. Eu também não sou capaz de ver TV quando não sou eu que tenho o comando.
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Quem é que aquele merdoso do lar pensa que é para pôr a TV todo o dia na TVI e ficar com o comando?
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Se eu fosse um gajo decente comprava um aparelho de 100 canais e uma ligação à TV Cabo ao Luiz Pacheco. E o mais provável é que ele me mandasse levar naquele sítio e vendesse de novo a TV e ainda se gabasse de eu ser um tanso, o alarve.
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Pelo que me poupo ao trabalho.
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De resto tenho pena que não se conheçam: quer dizer, Luiz Pacheco tem milhares de filhos bastardos por este país fora, javardos amorais que buscam na poesia do abjecto a gargalhada que os sustenta.
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É pouco provável que ele vos (nos) queira conhecer. E o mais provável era negar a paternidade e recusar-se a aceitar que o Surrealismo deu para o torto, e de repente ficou direito e hoje segue em frente. Pelo que está nas nossas mãos saber as origens deste nosso desconforto e leiam o homem que até escreveu coisinhas curtas, não para vos contentar, mas porque não tinha pachorra para mais e estava-se marimbando.
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Arrisquem e leiam, façam como o velho Pacheco que agora, que se diz quase póstumo, tem por lema “vai até onde não puderes”.
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Vejam lá se não podia ser esta frase o refrão de um tema para o Toy compor o hino do BB3?
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*In “Exercícios de Estilo”, Luiz Pacheco, Editorial Estampa, uma reedição recente do livro de 1971!

Crónica retirada de http://eventos.clix.pt/clixbrother2/voyeur/10120


Soares rega com «tintol» o Natal do «maldito» Luiz Pacheco, o «escritor maldito».
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sobrevivente da geração mais boémia do combate pelo reviralho, recebeu no dia de Natal a visita inesperada de João Soares.Munido de uma caixa de boas garrafas de vinho tinto e de um presunto à maneira, o presidente da Câmara de Lisboa foi dar dois dedos de conversa com o mais marginal dos escritores portugueses, que acaba de publicar, no seu estilo inconfundível, «Isto de Estar Vivo», um exercício de exaltação da vida e dos maus costumes.João Soares não quer falar do assunto mas GENTE sabe que durante a ruidosa cavaqueira, à volta da prova do tintol, Pacheco se fartou de lançar farpas sobre a classe política portuguesa, provocando sonoras gargalhadas ao previsível futuro candidato à Presidência da República.
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Retirado de
http://primeirasedicoes.expresso.pt/ed1472/v-gente.asp (edição: 12-1-01)


Saga LUIZ PACHECO - parte I
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Prelúdio de uma tentativa de campanha para oferecer um ou mais televisores a um escritor maldito
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O Luiz Pacheco é velho. Ele sabe-o, mas não se (res)sente. Hoje, está num lar de 3º idade (cheira-me que quer surpreender toda a gente e inaugurar por mão própria a 4ª idade, mesmo com as enciclopédicas doenças que o perseguem). O Luiz Pacheco é escritor. Ou escriba.Tem 76 anos. Mas é fresco.por Paula Nunes

(Há nomes que todos conhecemos. Luiz Pacheco, diz alguma coisa? Não, nada. Mas já toda a gente ouviu falar no Saramago, mesmo que seja completamente cego e impossibilitado de ler o ensaio sobre a dita incapacidade. E em Vergílio Ferreira também, mesmo que a única aparição que conheçam seja “uma gaja podre de boa”. E Natália Correia? E David Mourão-Ferreira? Se calhar, é melhor não jurar a pés juntos, porque, volta e meia, os putos de 16 anos ainda respondiam que foram membros importantes do governo pré 25 de Abril. Porque tudo o que é velho é pré 25 de Abril, para eles) O Clix quis fazer uma campanha para lhe oferecer televisores. Porquê? Porque divide o quarto, ao Príncipe Real, com um outro velho (tão velho que passou, ele também, pelo 25 de Abril) que aprendeu algumas coisas quando era novo e pratica a ditadura do comando. Como lá em casa, quando se tem 12 anos e, em vez de se poder ver aquela série de acção em que os heróis nunca morrem mas levam sempre muitos murros e tiros, a mãe impõe a telenovela (que seca! e elas nem sequer têm sexo explícito) ou o pai insiste em ir assistindo ao telejornal entre imprecações contra o governo ou frases danadas contra o estado da nação.
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O ditador do comando é obcecado pela TVI. E o Luiz Pacheco odeia a TVI. Quer lá ele saber do ridículo kilt do Marco ou da obesidade repentina da Marta, que a ia impedindo de caber no vestido de noiva. Não quer saber e nem consegue vislumbrar a relevância das personagens. Ou das pessoas.
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O Luiz Pacheco é uma pessoa lúcida. Com 76 anos. E a minha missão era empolgar os leitores do Clix de modo a levá-los a oferecer um televisor (um ou mais, que há muitos canais por aí) a este senhor que todos os dias passeia os seus ossos pelo jardim do Príncipe Real.
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Achei que estava à altura da incumbência. No fundo, uns quantos artigos sobre o senhor, umas perguntas sobre o passado, para enquadramento contextual dos leitores, umas conversas ligeiras sobre o presente (esta seria a parte mais difícil porque o homem nem sequer sabe quem são a Marta e o Marco... íamos falar de quê?) e já estava. Os televisores apareciam de certeza. Mão à obra. Melhor, ao telefone. Só sabia que ele estava num lar, para os lados do Príncipe Real. Mais nada. Não me ia pôr a bater a zona feita cão de caça.
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Um amigo lembrou-me o melhor caminho: “A editora dele deve saber, estúpida!” (O “estúpida” é o atestado de amizade indubitável). E sabia. Lar da Liga dos Amigos dos Hospitais, nº3, Príncipe Real. Perfeito. 118, nº de telefone através da morada (deixam-me escrever uma crónica aqui no Clix sobre a estupidez das gravações do 118? Juro que não sou amiga da PT).
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Telefonei um dia qualquer em que estava sol e era já meio da tarde. Atendeu-me um homem. “O Pacheco não está. Deve ter ido ao Jardim. Ele vai sempre... telefone mais tarde, certo?” Não tive tempo de resposta. Seria o ditador do comando televisivo? Estaria irritado por ter sido interrompido entre a genial publicidade a um artigo de limpeza e outra, ainda mais genial, a pensos higiénicos?
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Não sei. Nesse dia mandei o Pacheco à fava e não voltei a telefonar. Mas no dia seguinte lembrei-me. E lembrei-me já tarde. Atendeu-me uma mulher, com uma voz guinchante. “O Luiz Pacheco?!” Temi que dissesse que me tinha enganado no número. De repente, lança um guincho “Ah! Ouça lá, você é Luiz não é? E Pacheco?! Também é, não é? Então é p’ra si.” Percebi a tempo que não era comigo.
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Ao telefone, no segundo seguinte, Luiz Pacheco lui-même. Um minuto depois e a conversa já tinha acabado e o telefone estava ali à minha frente, quase a rebentar numa gargalhada directa à minha cara. O homem tinha 76 anos. Era o que eu sabia dele. E estava à espera que se portasse como tal. Velhos de 76 anos, encontro-os a empatar nos autocarros com a fobia das janelas fechadas quando está um calor de sufocar e um mau cheiro de matar mesmo quem não tem nariz. Velhos de 76 anos encontro-os a atravessar fora das passadeiras, quando eu vou a guiar, cheia de pressa, e ainda parece que gozam, a 0,005 Km à hora. Os velhos de 76 anos são muito velhos. E é preciso tratá-los com condescendência.
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Eu até acho que me mentiram. O Luiz Pacheco não pode ter 76 anos. Então o tipo não sabia perfeitamente o que era um portal e um site e o Clix e a internet em geral??! Fiquei parva. Um televisor?! “Para que é que eu quero essa porcaria?” Mais do que parva, foi o que eu fiquei, juro. “Epá, apareça por aí. A gente conversa um bocado. Mas cedinho, que eu gosto de dar as minhas voltas”. Eu já nem dizia nada. Lá me lembrei de lhe perguntar, à última hora, se queria que eu lhe levasse qualquer coisa de que ele gostasse (eu a pensar em livros, revistas, ou até cigarros ou bebidas, sei lá. No máximo uma caixita de uns comprimiditos quaisquer). E sai-se ele, resposta na ponta da língua: “Venha vestidinha. Muito vestidinha!”
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76 anos, o tanas. Este tipo é uma curte. Amanhã vou lá visitá-lo. E com o calor que está, não sei o que hei-de vestir...
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Retirado de
http://reporter.clix.pt/aventura/25502

EXTRACTO DE MANO FORTE



«Carta ? 12 de Junho [de 1961 ]. ???. Manuscrita.
12 / Junho, véspera de Santo António José Forte
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Meu Caro
Recebi a tua lacónica carta e a interessante missiva de vinte carapaus. Já deves ter recebido aí a resposta, isto é, postais da Felizarda. Como vês, Contraponto, quando promete, cumpre.
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O postal ? 200 exemplares ? esgotou-se em dois dias, o que prova que a Felizarda tem um grande público de inimigos...
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Mas outros grandes trabalhos nos esperam.
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Estou agora a preparar uma outra grande Homenagem aos Saloios.
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Trata-se de uma folha, escrita dos dois lados (página 2) densa de prosa, com artigos vários sobre os saloios vários: os saloios na imprensa, no teatro, no cinema, na literatura, etc.
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Os saloios, como sabes, somos nós todos ? vistos de Paris.
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Mas entre nós ? entre saloios, portanto ? há os saloios 100% e os saloios 99%. Nós, propriamente ditos, somos estes.
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Assim, achamos do maior interesse, por agora e por espírito de picardia, fazermos uma grande homenagem colectiva aos saloios 100%, os saloios saloios, os saloios de corpo e alma, os saloios felizardos. Tu não podes faltar nesta homenagem. Requere-se, pois que mandes prosa ou (página 3) versos, insultos ou desabafos, em todo o caso o teu depoimento sobre os saloios.
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O papel, em formato grande, com bonecada do João Rodrigues e doutros, será vendido (1000 exemplares) a 2$50. A Fundação "Obrigado, Calouste!" mais uma vez funcionará para provar ao Gulbenkian que 9 milhões de saloios não temem a concorrência do petróleo.
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Manda prosa. Saloia. Ou anti-saloia.
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Um abraço saloio do saloio Luiz Pacheco»
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Retirado de
http://www.instituto-camoes.pt/cvc/livros/333.html


CARTA A FÁTIMA
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Lembras-te Fátima? era o que eu sempre te dizia, não somos nada nas mãos do acaso, e não há mais filosofia do que esta: deixar andar, tanto faz, hoje ou amanhã morremos todos, daqui a cem anos que importância tem isto, quem se lembrará de nós? quem se lembrará de mim? se nem tu já te lembras de mim agora, tu, a quem tanto amei, não te lembras, e foi há tão pouco, foi ontem, parece, que te levantaste e disseste: «Ficamos amigos como dantes»... E dizias: como dantes e era já noutro que pensavas, olhavas-me e nos teus olhos ria-se a traição, o prazer da liberdade, um desafio alegre, uma alegria provocante e desapiedada, ias a meu lado pela última vez e eu era já um estranho para ti, um fantasma a quem se concede, por caridade, uns momentos mais de companhia, algumas palavras vagas distraídas, um pouco de estima, talvez. Reparei: o teu corpo, oh corpo do meu prazer! oh carne virgem sangrando debaixo de mim! oh meu repouso e minha febre! o teu corpo outrora tão cativo e tão submisso, ficara de repente cerimonioso e esquivo, cauteloso, afastado, com um pudor forçado no puxares a saia sobre os joelhos, como se tivesse uma grande vergonha do despudor com que se dera antes...
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Dizias: como dantes e não era já nisso que pensavas, e não era já para mim que falavas, eu era uma coisa para esquecer, para deitar fora, uma coisa que se abandona caída no chão e se perde sem pena. Dizias: «adeus» e saías da minha vida com um aperto de mão desembaraçado, quase cordial um gesto de boa camarada, como se nada tivesse havido antes, como se não tivéssemos sido tantas vezes na cama, um dentro do outro, um no outro, um-outro diferente, uma coisa sublime: Deus Criador, como os míseros humanos só ali o podem sentir e saber; um Outro que éramos nós ainda, mas tão transtornados, tão virados para fora de nós, tão esquecidos do mundo e de nós, tão eficazes, tão leais, nós boca com boca, corpo a corpo, um sexo torturando um sexo, mordendo-se devorando-se, numa febre de chegar ao fim depressa, ao esquecimento, ao repouso. Disseste: adeus e eu odiei-te logo nesse minuto, como te odeio agora, não por ti ou pelo teu corpo que já me esqueceu noutros que vieram depois, mas porque morri ali naquela palavra, -morri entendes? -, perdi-me numa grande confusão, esqueci-me de ser eu, fiquei roubado do meu passado.
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Hoje, encontrarias um outro homem; havia de rir-me do teu corpo, da sua entrega ou das suas traições, de tu me dizeres: «Vem» ou «Adeus...», ou «Não quero...». Hoje, saberias quem fizeste com uma só palavra, conhecerias um outro homem, que é obra tua, minha segunda mãe! Hoje, havia de rir ou chorar, era a máscara do momento; mas diria: tanto faz..., tanto me faz... Sabia-o!
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Retirado de
http://www.triplov.com/surreal/index.html
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SURREALISMO E SÁTIRA (DE ANDRÉ TOLENTINO A NICOLAU BRETON)
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Sacado de "Crítica de Cisrcunstância", 1966, porque o Simões continua a asnear. Não há remédio: o Simões morre estúpido em Surrealismo (e já nem falo no resto)

Invocar o nome de Tolentino a propósito da obra dum poeta surrealista, mesmo português, é ousadia que só o método comparativo-literário do sr. Dr. João Gaspar Simões poderia propor.
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E não apenas pelo facto de procurar avoengos oitocentistas para um movimento bem localizado e bem característico deste século o crítico se arrisca a perder o pé na poeira dos tempos e, trambolhando de época para época como O Vagabundo dos Sonhos, cair nalgum saboroso exemplar das cantigas de escarnho ou maldizer, também elas (e por que não?!) surrealistas... Mas, principalmente, porque em muito pequena parte esse argumento de autoridade, chamemos-lhe assim, o favorece na sua missão de julgar a obra e de esclarecer o público.
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Procurando demonstrar a sua compreensão (num esforço que se reconhece notório) duma coisa nova, não podem valer ao crítico as comparações forjadas, as aproximações marginais de acontecimentos tão remotamente afastados, no tempo como no significado, tais as sátiras de Nicolau Tolentino e certos aspectos e personalidades da nossa poesia contemporânea, que se diz surrealista, que parece surrealtsta ou que o é, de facto, por um fenómeno de simpatia e de identidade de situações de revolta, que hoje são aqui tão naturais como o eram em França há trinta anos.
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Se o crítico estremece perante a novidade, que pressente válida. mas cuja total significação humanamente se lhe escapa (a ele, que teve outra formação), o que deverá fazer, digamo-lo sem pretensões doutorais, é abandonar-se ao seu instinto, ignorar os resíduos do passado, apurar o faro e predispor-se a ouvir essa voz estranha que pela primeira vez se lhe depara, livre de prejuízos e de conclusões apressadas. Levá-Ia diante do espelho acomodatício do passado, é prova de boa vontade, que se agradece, mas a que será de preferir a incompreensão cerrada, a repulsa violenta que marquem limites, definam posições e esclareçam os verdadeiros valores com que cada um joga e, no fundo, estima como seus. Tem João Gaspar Simões tentado captar o mistério da poesia surrealista. Dizê-Io mal informado das fontes estrangeiras dessa corrente é uma afirmação gratuita, ainda que gostássemos que ele dissertasse com mais vagar das figuras máximas do movimento (um Breton, um ÉIuard, um Desnos, um Césaire) e não perdesse tempo com epígonos nacionais duma menoridade evidente. Mas apesar de todas as suas lacunas, como não louvar os dons de simpatia e de liberdade de espírito que o impelem para zonas tão ardentes e perigosas para um presencista ferrenho, isto é, convicto, coerente e militante? Aqui o temos de saudar como caso notável e até ao presente único. E, falando já outra linguagem, havemos de enquadrar esta sua atitude sui generls num plano diferente e que está certo, como veremos.
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Não são para agora os motivos por que não fica mal a um surrealista ser apodado de satírico.
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André Breton agitaria a sua bela cabeleira a tal definição (ele tem outras), mas isso é o que menos importa. Estamos em Lisboa, senhores, esta Lisboa que Breton talvez localize nas Baleares, talvez no Brasil... Não tem aqui lugar o distinguo.
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Com todas as reservas que se lhe devam objectar (deixaremos isso a certo investigador polemicante, de mentalidade seminarista), pode-se falar de sátira em surrealismo. E de Tolentino, também, caso não haja à mão melhor exemplo. E de Junqueiro. E de Gomes Leal. E de José Gomes Ferreira. E de muitos outros, que não cultivando a flauta trururu do bucolismo e do pirismo sentimental, elementos mistificadores com que não queremos ser mais vezes enganados, reagem furiosamente (como poetas, claro está), contra os compromissos do tempo, todos os compromissos. Satlricos, os surrealistas? Talvez, mas depois.
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O leitor é que não se interessa com isso; para ele, que tantas vezes tem sido enganado, uma palavra séria (isto é: verdadeira) mesmo dita a rir, é quanto basta. A contra-prova da autenticidade de tal poesia tira-a ele, facilmente, na experiência da sua vida quotidiana, no pequeno senso-comum das coisas reais que não conhecem a literatura e excedem a imaginação dos poetas, mesmo dos surrealistas...
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Como já o notou um crItico de Mário Cesariny de Vasconcelos, é afinal um surrealista que, passando por Álvaro de Campos, nos faz recordar Cesário Verde. Cesário, o das lições de realismo - do torpe negro e feio realismo que não se compadece com as flores da retórica nem com a ervanária colorida dos poetas de arrabalde.
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Dirão que o leitor português teve (e tem ainda) em matéria de género romanesco bons pedaços de literatura social, a que não falta o tom pedagógico e influenciável da arte dirigida. Ainda mal. Pois não causará estranheza (em certos meios, pelo menos) ver os leitores desses romances neos, tristes e tão desiludidos, voltarem-se para a linguagem aparentemente mais diflcil da Poesia...
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...da poesia do humor negro, da poesia deserta de bons sentimentos, da poesra catástrofe, daquela enfim, que por conter em si todas as perversões e todas as dores do mundo de hoje as denuncia e as incrimina ao severo juízo do mundo de amanhã?
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Retirado de
http://www.triplov.com/index.html
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Coro de escárnio e lamentação dos cornudos em volta de S.Pedro
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Coplas dedicadas às fogosas e vampirescas mulheres daBeira,de quem já Abel Botelho disse o que disse.
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Monólogo do primeiro cornudo:
Acordei um triste dia
Com uns cornos bem bonitos
E perguntei à Maria
Porque me pôs os palitos
Jurou por alma da mãe
(Com mil tretas de mulher)
Que era mentira
Tambem,ainda me custava a crer
Fiquei de olho espevitado
Que calado é o mehor
E para não re-ser enganado
Redobrei gozos de amor
Tais canseiras dei ao físico
Tal ardor pus nos abraços
Que caí morto de tísico
Com o sexo em pedaços
Já esperava por isto a magana?
Já previra o que se deu?
Do Além via-a na cama
Com um tipo pior que eu
Vi-o dar ao rabo a valer
Fornicando a preceito
Sabia daquele mistério
Que puxa muito do peito
Foi a hora de me eu rir
Que a vingança tem seus quês
O mais certo é para aqui vir
Ainda antes que passe um mês
Arranjei um bom lugar
Na pensão de Mestre Pedro
Onde todos vão parar
Embora com muito medo
Não passava de uma semana
O meu dito estava escrito
Vítima daquela magana
Pobre tísico,tadito
Dueto dos dois cornudos:
Agora já somos dois
A espreitar de cá de cima
Calados como dois bois
Vendo o que passa na vida
Meteu na cama mais gente
Um,dois,três logo a seguir
Não há piça que a contente
É tudo o que tiver de vir
São Pedro,indignado,pragueja:
É demais,arre diabo-berra S.Pedro,sandeu-
E mortos por dar ao rabo,lá vêm eles p'ró ceu...
Coro,pianíssimo,lirismo nas vozes:
Quem morre como um anjinho...
Quem morre por muito amar...
Coro,agora narrativo ou explicativo:
Já formamos um ranchinho,de cá de cima a espreitar
Aparte do autor das coplas:-coitadinhos
Passam meses,passa tempo e a bela não se consola
Já somos um regimento como esses que vão para a Angola
Fazemos apostas lindas sempre que vem cara nova
Cálculos,medidas infindas,como ela terá a cova!
Há quem diga que por si já não lhe tocou o fundo
Outros juram que era assim do tamanho deste mundo
Parecia uma piscina!-diz um do lado,espantado-
Nunca vi uma menina num estado tão desgraçado
(Aparte do autor,antigo militante das esquerdas baixas)
Num estado tão desgraçado,parece-me ouvir o povo
Chorando seu triste fado nas garras do Estado Novo
O ultimo que cegou cá morreu que nem um patego
Afogado e era mar nos abismos daquele pêgo
O coro dos cornudos acompanhado por S.Pedro emsurdina,entoa a moralidade,após ter limpado as últimaslagrimetas e suspirado como só os cornudos sabem:ahh!
Mulher não queiras sabida
Nem com vício desusado
Que podes perder a vida
Na estafa de dar ao rabo
Escolhe donzela discreta
Com os três no seu lugar
Examina-lhe bem a greta
Não te vá ela enganar
E depois de lhe veres o bicho
E as mamadeiras que tem
A funcionar a capricho
Já sabes se te convem
Mulher calma,é estima-la
Como a santa no altar
Cabra doida,é rifa-la
Que não venhas cá parar
Este conselho te dão
E não te levam dinheiro
Os cornudos que aqui estão
Com São Pedro hospitaleiro
Invejosos,quase todos
Dos cornos que o mundo guarda
Fazem mais um bocado de lamentação
(Nota do autor-quase,porque,entretanto alguns brincavam uns com osoutros.Rabolices...
Mas se fornicas a rodos tua vida aqui não tarda
Recomeça a moralidade,estilo 'estão verdes,não prestam'
Alguns bêbedos,cornudos despeitados ouamargurados,vozes pastosas (deve ler-se vinho...velhinho)
Melhor que a mulher é o vinho
Que faz esquecer a mulher
Que faz do amor já velhinho
Ressurgir de novo o prazer
Finale muito católico
Assim termina o lamento
Pois recordar é sofrer
A mãe fode
É bom sustento
E por nós reza o pater
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Luiz Pacheco,num dia em que se achou mais pachorrento.
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Retirada de
http://www.terravista.pt/meiapraia/1229/cornudos.htm
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. MÁRIO CESARINY A LUÍS PACHECO
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Lx. 1966
Meu Caro
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Gostei mais da tua carta que do texto que me enviaste a propósito da Cidade Queimada, embora este fosse, ou fosse a fingir, de altamente elogiativo: Corrijo: na tua boca, na tua maneira, ele é realmente elogiativo. Está lá o velho programa que traçaste para os teus mais próximos: cadeia, ou hospital. Tua ânsia, velha, que sempre te fez sobrepor-te, adiantar-te, esmerar, por conta própria, os serviços policiários. Conheço isso. Todos os presidiários falam de si mesmos e dos colegas como da classe aparte, ou a única que importa considerar. Estive preso, cá e lá, mas, muito pior que isso, tive cinco anos de liberdade vigiada que deram cabo de mim. Lembro-me de que nessa altura tu achavas graça a uma expressão do Lima: o poeta que vai à revista. O poeta foi à revista e matou-se aí. Ou mataram-no. Ficou uma coisa esquisita, de onde sai o excesso de pânico que me atravessa quando novas hipóteses se põem. Excesso, digo bem. E adiante. Por isso tenho memória de velha. De elefante. Não acho que sejam velhas coisas, estas. Nem tu. De enternecer, enfim, o preocupares-te com o tal teu amigo que diz que eu estou uma merda e com o G. Cruz que diz que eu perdi as imagens coitado. Olha, não te preocupes. Alguma coisa me diz que os meus poemas, com imagem ou sem, são a merda do pássaro. Essa os lambuza e ocupa, sejam más sejam fortes as cagadas. Quanto ao pássaro propriamente dito -- o canto -- ninguém viu. Acho que não o podem ver.
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Não me defendas. É pouca a paternidade: Ramos-Rosa-Gastão-Cruz que pões na tua carta. Estes e outros foram todos beber a um que dizia isso com mais graça: o Luiz Pacheco. Assinado por ti, fui um pobre diabo, um que pinta com merda, uma barata em ascensão para as coroas, um que está bom para saldos, não quer ir para a cadeia, lembrarás o resto. Quando um dia foi possível reeditar o Lisboa, cujas primeiras edições já não existiam, o horrível crime foi punido: pediu oito tostões à mãe para o eléctrico e foi à editora.
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É a isto que na tua carta chamas «verdade histórica»? Homenagem, querido, faço-te esta: a de tentar acreditar que tu acreditas nisso. Que é possível haver uma verdade para o dia 16 -- verdade com tal força de verdade que chega para assassinar em duas forças de linha o amigo mais próximo -- e haver outra correctiva da primeira ou mesmo, se preciso, sua antítese para o dia 18. Será verdade que acreditas nisso? Será possível que haja essa verdade? O assassinato da família do Kafka e a reabilitação do Kafka?
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Para mim, era-me impossível viver, ou morrer, se tivesse de chamar a isso verdade. Que é o que te acontece. E tu dizes: justiça! Horror dos horrores.
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Assentemos pois nesta verdade: deixa-os dizer o pior, e o pior do pior. Não intervenhas, ficas caricato. Nada disso me ocupa, nem sequer incomoda. Golpe fundo foram os teus ataques, duplamente mortais para o nosso convívio: se justos -- o poeta na «decadência» -- de uma crueldade desnecessária; se injustos -- o poeta a braços com um amigo louco -- de uma crueldade de louco.
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A minha pergunta -- era uma pergunta o que te fazia ao enviar-te o teu postal de há 8 anos, -- não é ao acaso. Tenho um livro a sair, «A Intervenção Surrealista». Dentro em breve, as provas. Como é de obrigação, surges nele. Há no livro documentos bem mais antigos do que as tuas campanhas contra mim. E não estão nada velhos. Em nada. Por isso perguntava: que faço eu com isto? Se achas que envelheceu, que já não é verdade, é uma resposta, com linguagem tua. Se achas verdade histórica, além de esquisito, é pouco. E é de lado.
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Dúvida, é isto: incluo, não incluo o teu artigo sobre o meu «Picto-Abjeccionismo»? Sei que o retiraste do teu livro, mas: achas que podemos fazer isso? É, com o artigo do Virgílio, a única coisa que apareceu na Imprenso.
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Se incluo, vais ouvir coisas horríveis, porque te dou resposta. Se não incluo, voltamos ao mesmo: que faço eu com isto?
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A tua verdade histórica é a merda.
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Diferente na minha neste ponto: é possível que a minha vida tenha dado cabo de mim, ou eu cabo de mim nela; o amor que tenho à vida fez-me sempre evitar dar cabo da vida dos outros. Não «enterrei» ninguém sempre até à última quis a vida dos outros. Tu incluído. A tua pressa em dar cabo dos outros, diz-me que vida é. E que espécie de cabo. Sempre até à última quis a vida do António Maria Lisboa. Mesmo nas edições que dele fiz. Toda a égloga fúnebre afastada. «Não se trata de um homem que vai morrer»... E do teu medo de perder o que ainda não perdeste dos textos do Lisboa, não terá culpa alguma o próprio Lisboa. Se tens medo de perder o que ainda não está perdido, põe em lugar seguro, ainda há alguns. Mas acaba com a chantagem insinuada na tua carta. Se quer fazer-se uma edição decente, ideia de luxo excluída, digo decente, colaborarei com gana. Se quer fazer-se uma edição despachativa só porque tu podes perder o resto, mando-te já à merda, a ti e à edição. Falando com o Victor, parece já conseguida uma certa concessão da parte da editora: farão um livro integrado na colecção mas em formato maior e maior cuidade gráfico.
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Dizes que no ano passado te salvei a vida. Se é verdade, fico contente. Salvá-la-ia muitas vezes mais, se pudesse. Conforte-te saber, se não puder repetir-se, que da única vez que tive dinheiro meu, o reparti contigo, quanto pude. E que fiz o meu melhor para que outros fizessem algo parecido. E fizeram, mesmo pouco parecido. Há muito anos que joguei em ti, a favor teu, não como editor -- por mais que isso te ofenda -- não, também não, como a louca dos papelinhos que trazia a cidade divertidíssima e para quem o papelinho e a sua função, diversa, contava muito mais que a verdade. Qualquer verdade. Da qual verdade o burgo não queria. Tu também não. Joguei, eu, no que tinhas de melhor. «O senhor não é palhaço, o senhor é escritor». Estas linhas do Lisboa, cantei-tas várias vezes, em vários tons. Soube isso no teu texto dos Doutores, Salvação, e Menino, que continua a ser para mim o texto lúcido que, em literatura, a época forneceu. Soube-o de novo, com imensa alegria, na publicação do Teodolito. Diante de um texto tal hão-de curvar-se, sem querer, todos os merdas do literato lisboeta. E, o que é mais: pela primeira vez encontrava a tua humanidade, a tua forma natural de sorrir -- tens o sorriso mais bondoso, espanta-te, de quantos vi a tentar abrir os lábios: sai quase sempre careta, lá o diz o Lautréamont -- diante das calamidades. Melhor: eras o homem que se confessava isso, homem, e em que mundo assim, de que maneira! Nada a ver com os teus papelinhos acusatórios, de boa ou má esguelha, para a vida ou para a morte dos outros. Creio que não piorei o texto publicando-o com as «emendas» ou «chaves» que tu próprio aceitaste. Acho mesmo que ficou melhor, o que decerto te ofende. Outros textos tens parido de igual, ou maior altura? Este o Luiz Pacheco que conheço, o único que de facto existe e posso amar, mesmo conservando na gaveta, como conservo, e não esquecendo, não são para esquecer, feridas abertas. Em corpo frágil.
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P.S. -- Na folha publicitária que o Victor Tavares te fez, leio que te consideras velhote. Não te preocupes. Nem te defendas tanto. Parece mal. Será manobra, também. Não me preocupo. Preocupa-me -- outra vez!! -- o destino dos inéditos. Exceptuada a raiva, que permanece, vi-te sempre abandonar tudo, todos. Em que nome, não se percebe bem. Aceitemos que no do teu registo, L. Guerreiro Pacheco. Não é assim tão feio. Fiquemos aqui.
Lx. 1966
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in Mário Cesariny, Jornal do gato, [s.l.]: ed. autor, 1974, pp. 47-51
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retirado de

http://luizpacheco.no.sapo.pt/textos/