Mostrar mensagens com a etiqueta Análise Literária. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Análise Literária. Mostrar todas as mensagens

domingo, 2 de agosto de 2026

(45) Joyce Lussu - Scarpette Rosse

 

2026 07 25 - Murais em Orgosolo, Sardenha, Itália - Joyce Lussu e memória do Holocausto (pormenor)

Este mural, também situado em Orgosolo, é um poderoso tributo à memória do Holocausto e à figura de Joyce Lussu, aliando a poesia de intervenção ao pacifismo antiautoritário.

sexta-feira, 31 de julho de 2026

(42) - Henri Estienne - Si jeunesse savait, si vieillesse pouvait (Les Prémices)

 

Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - 'Se gioventù sapesse, se vecchiaia potesse'


* Victor Nogueira / Gemini

Este provérbio — originalmente formulado em francês como «Si jeunesse savait, si vieillesse pouvait» por Henri Estienne nas suas Premices (1594) — resume de forma brilhante uma das maiores contradições e paradoxos da vida humana.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

(34) - Giovan Matteo Garipa; língua e cultura sardas

 

Este mural em Orgosolo é uma exaltação da língua, cultura e história literária sarda, prestando homenagem a uma das figuras intelectuais mais importantes da história da vila: o padre e escritor Giovan Matteo Garipa (século XVII).

O texto nas paredes é uma citação direta retirada do prólogo da obra Su Legendariu de Santas Virgines et Martires de Jesu Cristu (1627), escrita por Giovan Matteo Garipa e considerada um marco da literatura em prosa sarda:

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Domingos Lobo - “Felizmente Há Luar”, a propósito do centenário de Luís de Sttau-Monteiro



* Domingos Lobo

É pa­rá­bola dos tempos som­brios da dé­cada de 60, do País sob Sa­lazar

O te­atro épico é a ten­ta­tiva mais ampla e mais ra­dical de cri­ação de um grande te­atro mo­derno; cabe-lhe vencer as mesmas imensas di­fi­cul­dades que, no do­mínio da po­lí­tica, da fi­lo­sofia, da ci­ência e da arte, todas as forças com vi­ta­li­dade têm de vencer.1

Ber­tolt Brecht e o seu con­ceito de te­atro épico teve in­fluência de­ter­mi­nante, em início dos anos 1960, em al­guns au­tores pro­gres­sistas como José Car­doso Pires, com “O Render dos He­róis”; Luís Sttau Mon­teiro, com “Fe­liz­mente Há Luar” e “As Mãos de Abraão Zacut”; Luzia Maria Mar­tins, com “Bo­cage”, “Alma Sem Mundo” e “O Judeu”, de Ber­nardo San­ta­reno.

Destes cinco textos dra­má­ticos, só “Fe­liz­mente Há Luar” e “O Judeu”, face às in­cur­sões cen­só­rias, não ti­veram es­treia entre nós antes de 25 de Abril de 1974.

sábado, 6 de junho de 2026

Brecht e Gino Strada: guerra e paz

 

2026 06 06 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - citações de Brecht e Gino Strada

«Este mural em Orgosolo combina as reflexões de duas grandes figuras intelectuais e ativistas para construir uma forte mensagem antimilitarista e de valorização da vida quotidiana das pessoas comuns.

O mural apresenta duas frases distintas escritas em italiano com caligrafia cursiva:

1. A frase no topo (Citação de Bertolt Brecht):

"felice il popolo che non ha bisogno di eroi"

  • Tradução: "Feliz o povo que não precisa de heróis."

  • Origem: Esta é uma das frases mais célebres da peça de teatro A Vida de Galileu (1939), do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

A frase que aparece no topo do mural é uma adaptação de um dos diálogos mais famosos e dramáticos da peça de teatro "A Vida de Galileo" (Leben des Galilei, 1939), escrita por Bertolt Brecht.

O contexto em que esta frase é dita ocorre na Cena 13, logo após o astrónomo Galileu Galilei ceder à pressão da Inquisição e assinar a abjuração, negando publicamente a teoria heliocêntrica (de que a Terra gira em torno do Sol) para salvar a sua própria vida.

Ao regressar do tribunal, os seus discípulos, liderados por Andrea, sentem-se profundamente traídos e desiludidos porque esperavam que o mestre se tornasse um mártir em nome da verdade científica.

Aqui está a transcrição desse momento exato da peça (traduzido para o português):

ANDREA: (Em voz alta) Infeliz da terra que não tem heróis!

(Galileu entra. O processo transformou-o radicalmente, quase a ponto de o tornar irreconhecível. Ele ouviu as palavras de Andrea. Durante alguns instantes, detém-se na soleira da porta, esperando uma saudação. Mas, como ninguém o saúda, e os discípulos até se afastam dele, avança lentamente, com o passo incerto de quem vê mal, até ao proscénio; ali encontra um banco e senta-se. Ninguém demonstra notar a sua presença.)

ANDREA: Não consigo olhar para ele. Façam-no ir embora.

FEDERZONI: Tem calma.

ANDREA: (Grita para Galileu) Odre de vinho! Comedor de caracóis! Salvou a pele, não foi? (Senta-se) Sinto-me mal.

GALILEO: (Calmo) Deem-lhe um copo de água.

(Frate Fulgenzio sai e regressa trazendo um copo de água a Andrea. Ninguém fala. Andrea levanta-se, apoiado pelos outros, para sair.)

ANDREA: Agora já consigo caminhar, se me ajudarem um pouco.

(Os outros dois amparam-no até à saída. Nesse momento, Galileu começa a falar.)

GALILEO: Não. Infeliz da terra que precisa de heróis.

O detalhe da adaptação no mural

No texto original de Brecht, a frase exata de Galileu é "Sventurata la terra che ha bisogno di eroi" (Infeliz/Desgraçada da terra que precisa de heróis).

O artista que pintou o mural em Orgosolo fez uma pequena e bela inversão poética, transformando-a numa afirmação positiva: "Feliz o povo que não precisa de heróis" (felice il popolo che non ha bisogno di eroi), mantendo exatamente a mesma essência filosófica de Brecht.

2. A frase no bloco amarelo (Citação de Gino Strada):

"La guerra significa massacrare migliaia di civili e mettere al governo chi garantisce il potere economico"

  • Tradução: "A guerra significa massacrar milhares de civis e colocar no governo quem garante o poder económico."

  • Assinatura: Logo abaixo do texto lê-se Gino Strada (médico-cirurgião de guerra italiano e fundador da ONG humanitária Emergency).

Analisando o histórico das declarações e escritos do médico e ativista Gino Strada (1948–2021), a frase pintada no bloco amarelo deste mural funciona de forma semelhante ao caso de Emilio Lussu: ela não foi extraída de um livro específico ou de um ensaio literário contínuo, mas condensa o núcleo do seu pensamento público e das suas inúmeras palestras, entrevistas e artigos de opinião sobre a geopolítica dos conflitos modernos.

Gino Strada passou décadas em cenários de guerra (como o Afeganistão, o Iraque e Ruanda) através da sua organização Emergency, operando civis mutilados. Em intervenções públicas, ele costumava desconstruir a propaganda oficial que justifica as guerras através de conceitos abstratos como "democracia" ou "missões humanitárias".

A essência do pensamento de onde essa frase deriva baseia-se em dois pilares que ele repetia frequentemente em conferências:

  1. A Realidade das Vítimas: Ele afirmava que, na guerra moderna, mais de 90% das vítimas são civis — pessoas comuns, mulheres e crianças que não têm qualquer voto na matéria. A guerra, portanto, resume-se ao massacre de inocentes.

  2. Os Interesses Reais: Ele denunciava que por trás da retórica patriótica ou geopolítica escondem-se sempre interesses corporativos, indústrias de armamento e o controlo de recursos naturais. O objetivo final das guerras, segundo a sua visão, é estabilizar ou colocar no poder lideranças políticas que protejam e deem continuidade ao "poder económico" dominante.

Por ser uma síntese tão precisa e contundente do seu legado pacifista, o muralista Francesco Del Casino integrou esta declaração na parede para servir como uma explicação crua, quase científica, do motivo pelo qual o idoso e os soldados representados no desenho tiveram as suas vidas despedaçadas pela guerra. (Google Gemini)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Fernando Pessoa - "Sê plural como o universo!"

* Fernando Pessoa



2021 07 15 Foto Victor Nogueira - Café do Desassossego, em Setúbal (2020 04 19 Canon 179_04 IMG_1061)


2017 06 07 foto victor nogueira . Setúbal - Café do Desassossego na Travessa da Anunciada (Bairro do Troino)

«A frase "Sê plural como o universo!" capta a própria essência de Fernando Pessoa, mas a resposta sobre qual é o seu "texto completo" costuma surpreender os leitores: não existe um poema ou um ensaio longo estruturado onde ela esteja inserida.

Trata-se de uma anotação isolada, um aforismo (frase curta que encerra um pensamento) que Pessoa registou de forma imperativa numa folha de papel solta.

Onde foi publicada?

Como grande parte da obra de Fernando Pessoa não foi publicada enquanto ele era vivo, este fragmento ficou guardado na sua famosa arca de manuscritos (o seu espólio).

A frase veio a público pela primeira vez em 1966, no livro "Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação". Esta obra reuniu dezenas de textos e notas onde o próprio Pessoa tentava analisar e explicar psicologicamente a sua necessidade de se fragmentar e de criar os heterónimos (como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro).

Nos arquivos da Biblioteca Nacional de Portugal, este fragmento textual está catalogado sob a referência específica BNP/E3, 20-68r. Ele surge ali, sozinho, como um lema de vida ou uma instrução que o poeta deu a si mesmo.

O significado por trás da frase

Embora curta, a frase resume perfeitamente o conceito da heteronímia e o projeto literário de Pessoa. Para ele:

  • O universo não é uma coisa só; é feito de multiplicidade, de contradições, de planetas, estrelas e perspetivas diferentes.

  • Um homem com uma mente desperta não se pode limitar a ter uma única profissão, uma única personalidade ou uma única opinião.

Ao escrever "Sê plural como o universo!", Pessoa justificava a criação dos seus outros "eus". Se o universo é infinito e múltiplo, o poeta também tinha o direito — e o dever — de o ser.?  (Google Gemini)

Valter Hugo Mãe - O Filho de Mil Homens

 * Victor Nogueira


«Esse belíssimo e melancólico excerto pertence ao romance "O Filho de Mil Homens" (publicado em 2011), uma das obras mais aclamadas e comoventes do escritor português Valter Hugo Mãe.

O texto completo de onde esse trecho foi retirado encontra-se no Capítulo 11 do livro. Ele descreve a profunda e dolorosa ligação das mulheres daquela vila piscatória com o mar, que tanto lhes dava o sustento como lhes roubava os maridos e filhos.

Aqui está o parágrafo completo em que o excerto se inclui:

"O mar era um cemitério em frente de casa. As mulheres olhavam-no com uma raiva que se parecia com a oração, que era uma oração ao contrário, a pedir que o diabo não lhes levasse a carne da sua carne. Este foi o mar das mulheres, aqui se glorificaram e aqui naufragaram. Tinham os olhos postos na linha do horizonte como quem vigia a hipótese do fim do mundo, e o fim do mundo acontecia-lhes tantas vezes."

Contexto da Obra

Em O Filho de Mil Homens, Valter Hugo Mãe explora a invenção do amor e da família por vias não consanguíneas. A história acompanha Crisóstomo, um pescador que chega aos quarenta anos e sente a urgência de ser pai, decidindo "adotar" Camilo, um jovem órfão.

O mar, neste livro, funciona quase como uma personagem viva — uma força da natureza implacável que molda a solidão, a resiliência e o luto das gentes daquela costa.


Não é possível fazer a transcrição integral do capítulo por motivos de direitos autorais (copyright), já que as leis de propriedade intelectual limitam a reprodução de capítulos inteiros de obras literárias protegidas.

No entanto, o romance O Filho de Mil Homens é composto por capítulos curtos e o trecho citado faz parte do Capítulo 11, dedicado a retratar a melancolia e a força das mulheres daquela comunidade piscatória.

Posso partilhar a estrutura poética e os elementos centrais desse capítulo para que consiga acompanhar o fio condutor do autor:

  • O Mar como Cemitério: O capítulo abre com a poderosa imagem do mar visto como "um cemitério em frente de casa", estabelecendo imediatamente o tom de luto constante que define a vida daquelas gentes.

  • A Oração Invertida: Valter Hugo Mãe descreve que o olhar das mulheres para a água continha uma raiva que se assemelhava à prece, mas uma "oração ao contrário", destinada a proteger "a carne da sua carne" (os seus maridos, pais e filhos pescadores) das garras da morte.

  • O Cotidiano da Espera: O texto desenvolve a ideia de que a rotina daquelas mulheres era a da vigília eterna. Elas passavam os dias com os olhos fixos na linha do horizonte, como se antecipassem o fim do mundo — um fim do mundo que, tragicamente, lhes acontecia repetidas vezes a cada naufrágio.

Curiosidade: O impacto real desta frase

Esta passagem específica tornou-se tão marcante na literatura contemporânea portuguesa que a frase "Este foi o mar das mulheres. Aqui se glorificaram e aqui naufragaram" foi escolhida para integrar uma grande obra de arte urbana em Portugal. Ela está pintada no gigantesco Mural da Seca do Bacalhau, em Vila do Conde, criado pela artista Isabel Lhano para homenagear as mulheres vilacondenses que dedicavam as suas vidas ao duro trabalho da salga e secagem do peixe-» (Google Gemini)

sexta-feira, 24 de abril de 2026

Joyce Lussu - Scarpette Rosse


2026 04 21 - Mural em Orgosolo - A Joyce Lussu (2022)


Este é um dos poemas mais impactantes de Joyce Lussu, escrito após sua visita aos campos de concentração. O poema é uma poderosa denúncia do Holocausto, focando na imagem dilacerante da inocência interrompida.


Scarpette Rosse

C’è un paio di scarpette rosse
numero ventiquattro
quasi nuove:
sulla suola interna si vede ancora la marca di fabbrica
«Schulze Monaco».

C’è un paio di scarpette rosse
in cima a un mucchio di scarpette infantili
a Buchenwald

erano di un bambino di tre anni
di un bambino di tre anni
dai piedi scalzi
che correva piangendo
e s’è fermato fuori della porta
perché la sua mamma lo prendesse in braccio

e poi è entrato nel fumo
ed è diventato fumo
che nel vento si è disperso

ora c’è un paio di scarpette rosse
numero ventiquattro
quasi nuove
perché i piedini dei bambini morti
non consumano le suole.

Contexto e Significado
A Origem: O poema foi inspirado em um par de sapatos reais que a autora viu no museu do campo de concentração de Buchenwald. O Contraste: A força do texto reside no contraste entre a precisão técnica (o número 24, a marca "Schulze Monaco") e o destino trágico e imaterial da criança que se torna fumo. O Encerramento: Os últimos versos são considerados alguns dos mais pungentes da literatura italiana do pós-guerra, explicando o porquê de os sapatos estarem "quase novos": a morte não dá tempo ao desgaste.

A inclusão deste poema em Orgosolo reafirma o caráter da vila como um centro de memória política e antifascista. Homenagear Joyce Lussu — que foi uma ferrenha resistente durante a Segunda Guerra Mundial e uma defensora fervorosa dos direitos humanos — conecta a identidade sarda com as lutas universais contra a opressão e a favor da paz

Traduzir Joyce Lussu exige manter a simplicidade quase documental que ela utiliza para descrever o horror. A força deste poema reside na ausência de adjetivos complexos; é a crueza dos fatos que emociona. Aqui está a tradução para português:


Sapatinhos Vermelhos

Joyce Lussu

Há um par de sapatinhos vermelhos

número vinte e quatro

quase novos:

na sola interna ainda se vê a marca de fábrica

«Schulze Munique».


Há um par de sapatinhos vermelhos

no topo de um monte de sapatinhos infantis

em Buchenwald


eram de um menino de três anos

de um menino de três anos

de pés descalços

que corria chorando

e parou diante da porta

para que a sua mãe o pegasse no colo


e depois entrou no fumo

e tornou-se fumo

que no vento se dispersou


agora há um par de sapatinhos vermelhos

número vinte e quatro

quase novos

porque os pezinhos das crianças mortas

não gastam as solas.


Notas sobre a tradução

  • "Scarpette": Optei por "sapatinhos" para manter o diminutivo carinhoso e infantil do italiano, que reforça o contraste com a brutalidade do destino da criança.

  • "Entrato nel fumo": A tradução mantém a imagem literal da câmara de gás e dos crematórios, onde o corpo físico se desfaz, restando apenas o objeto material (o sapato) como prova da existência.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

Bertold Brecht - Sobre a Violência (Über die Gewalt).

 


2022 02 05 Foto victor nogueira - Grafito de Frank - ACAF na Estrada da Graça, em Setúbal, com versos de Bertolt Brecht 'Do rio que tudo arrasta se diz que é violento' (2021 05 26 Canon 192_05)

Na Estrada da Graça, em Setúbal, nas cercanias das instalações portuárias, existem uma série de edifícios, hoje abandonados, mas onde outrora funcionavam "boites" destinadas principalmente á marinhagem. Num deles, grafitado, encontra-se um verso dum dos poemas de Brecht.

«Do rio que tudo arrasta se diz que é violento
Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem»

esse texto faz parte de um poema curto de Bertolt Brecht intitulado "Sobre a Violência" (originalmente em alemão, Über die Gewalt).

Brecht, um dos dramaturgos e poetas mais influentes do século XX, utilizava frequentemente metáforas da natureza para criticar as estruturas sociais e políticas.

O Poema Completo

Embora existam variações na tradução, a versão mais comum em português é:

Sobre a Violência

Do rio que tudo arrasta diz-se que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.

A tempestade que fustiga as bétulas é tida como violenta. E a tempestade que faz dobrar os dorsos dos operários na rua?


O Significado

A intenção de Brecht com estes versos é provocar uma reflexão sobre a causa e o efeito:

  1. A Reação vs. O Sistema: O "rio" representa a revolta ou a reação de quem é oprimido. Essa reação é frequentemente rotulada como "violenta" pela sociedade.

  2. A Violência Invisível: As "margens" representam o sistema, as leis, a economia ou a repressão que limita a liberdade do indivíduo. Essa força constante e compressora muitas vezes não é chamada de violência, mas é ela que causa o transbordo do rio.

É uma crítica poderosa à forma como o status quo define o que é ou não aceitável, ignorando a violência estrutural que gera o conflito. (Google Gemini(

Horácio - Ode 18 (Carpe diem)


foto victor nogueira - Carpe diem  - grafito em setúbal, na rua gil eanes (2020.04.11)
 
«Carpe diem é parte da frase latina carpe diem quam minimum credula postero (literalmente: 'aproveita o dia e confia o mínimo possível no amanhã'), extraída de uma das Odes, de Horácio (65 a.C. - 8 a.C.), e tem numerosas traduções possíveis: "colhe o dia" (tradução literal), "desfruta o presente", "vive este dia", "aproveita o dia" ou "aproveita o momento". 

O poeta latino exorta sua interlocutora, Leuconoe, a desfrutar do prazer que a vida oferece, a cada momento. No contexto da decadência do Império Romano, a frase resumia o ideal horaciano, de origem estoico-epicurista, de aproveitar o que há de bom em cada instante, já que o futuro é incerto. Entretanto a frase é frequentemente repetida, com um sentido (inexato) de convite ao viver alegre e despreocupado.
(...)  Na ode 11 (8 versos) do livro I, o poeta direige-se a Leuconoe (a menina "dos pensamentos ingênuos"), enquanto ela se ocupa de cálculos astrológicos ("os números babilônicos") para saber se eles viverão muito tempo. O conselho dado pelo poeta é não se preocupar se viverão muito ou pouco mas beber e aproveitar o presente, pois o futuro é incerto : carpe diem.

Tu não questiones — é crime saber — o fim que para mim, que para ti
os deuses reservaram, ó Leucônoe, nem mesmo consultes
os números babilônicos. Quão melhor é suportar o que quer que venha!
Quer Júpiter te haja concedido muitos invernos, quer seja o último
o que agora quebra as tirrenas ondas contra as pedras,
sejas sábia, diluas os vinhos e, por ser breve a vida,
limites a longa esperança. Enquanto falamos, foge invejoso
o tempo: aproveita o dia, minimamente crédula no amanhã.» (Wikipedia)

domingo, 8 de março de 2026

Carlos Coutinho - [António Lobp Antunes]

* Carlos Coutinho
 ·
Está agora sepultado no Cemitério de Benfica, em Lisboa, um extraordinário escritor que muito admiro e que muito me ensina ainda hoje, alguém que, inusitadamente, teve no Mosteiro dos Jerónimos as cerimónias fúnebres (o “velório”, no dizer de um repórter de alfurja de um canal de TV de crimes e escândalos, abaixo de qualquer respeito) um tal António Lobo Antunes que deixou uma profunda marca na escrita de autores que começaram a publicar depois dele e que, sendo o inverso de José Saramago, outro gigante também já falecido e nobelizado, contra ele combateu, por mal disfarçada inveja. 

   Diferente dele, ideológica e filosoficamente, este Lobo feroz, execrou-o por ter sido ele o galardoado com o Prémio sueco para a Literatura que o infeliz psiquiatra tanto desejou em vão.

   Regressando da guerra colonial em Angola, onde penou e trabalhou como alferes miliciano médico, o António Lobo Antunes publicou em 1978 “Memória de Elefante”, uma estreia que surpreendeu críticos e acadêmicos, logo seguida por “Os Cus de Judas” e abrindo caminho a uma recepção fulgurante de “A Explicação dos Pássaros” e de “O Manual dos Inquisidores”, além do fabuloso “Fado Alexandrino” que ainda trina e ecoa por todo o lado.

   O mais alto Poder homenageou-o e acrescentou aos muitos prémios em vida recebidos, nacionais e estrangeiros, um galardão póstumo, a poucos metros do homérico túmulo vazio de Luís de Camões, seguindo hoje o seu esquife para um cemitério alfacinha que recebe urnas e caixões de gente de todos os credos classes sociais. 

   Muito perto dele está enterrado, há meia década, um cunhado meu, comerciante de Benfica, e logo ao lado um jornalista que foi meu chefe. 

   Dulce Maria Cardoso, outra grande romancista que escreeu “O Retorno” e também entrou no que chama “literatura colonial”, confessa que a influência de Lobo Antunes também nela foi “enorme” e frisa: “Não conheço quem escreva tão bem em língua portuguesa. (…) Leio-o como um garimpeiro à procura de pepitas de ouro.”

   Para Gonçalo M. Tavares, outro aedo nobelizável com prestígio internacional, há em Lobo Antunes “uma síntese filosófica de uma ideia formulada” pelo filósofo José Gil: o “medo dc existir”

   Agustina Bessa Luís, que muito dele gostava, disse-lhe um dia:  “Sabes, filho, eu devia ter-me casado contigo ou com o Camilo.”

    Já Maria Alzira Seixo, que o estudou meticulosamente escreveu:

“Entre todos os motivos literários (…), um dos mais fortes é o do espelho, porque caracteriza o narrador na presença irrecusável de si a si próprio, dando conta das coincidências entre volição e pragmática, entre desejo e remissão à incompletude.”

   O jornalista e escritor Rui Cardoso Martins, que acompanhou Lobo Antunes numa ida a Nova Iorque, ouviu-lhe numa entrevista: ”Pedi ao sujeito da pensão que me levasse ao sótão, onde morava Deus.”

   Aliás, já tinha escrito numa crónica na revista “Visão”:

“Deus, estou zangado contigo. Suponho que já Te habituaste às minhas zangas como Te habituaste às minhas dúvidas, aos meus afastamentos, aos meus regressos a fingir que não venho, aos momentos de harmonia que de vez em quando existem entre nós, à minha incompreensão de tanta coisa que fazes ou não fases, aos meus ralhetes, aos meus amuos, ao que considero as Tuas injustiças, a Tua crueldade e se calhar não é injustiça, se calhar não é crueldade, sou parvo, não ligues, não consigo entender as Tuas profundezas e os Teus caminhos, o significado dos Teus gestos. Só que ultimamente, tenho exagerado: o ano ainda mal começou e já desataste a despovoar o mundo à minha volta.”

   E em 2018, numa entrevista com uma só pergunta do “Diário de Notícias”, respondeu: “Quero que o Nobel se foda.”

8 Março 2026

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

sexta-feira, 6 de março de 2026

Alfredo Barroso - MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES


MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES, ADMIRÁVEL CRONISTA E, SEM DÚVIDA, GRANDE ROMANCISTA QUE LI POUCO POR PREGUIÇA…

- confessa Alfredo Barroso, mais virado para as crónicas

António Lobo Antunes era sobretudo, para mim, um cronista genial, da envergadura de Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz, admiráveis cronistas do século XIX português. Oxalá reeditem, e tornem a pôr à venda as crónicas que ele escreveu. Leem-se, tal como as de Camilo e Eça, por puro prazer, deleite e admiração pela extraordinária riqueza e flexibilidade da escrita.

Foi um amigo meu, o Joaquim Brandão, quem me alertou, já lá vai quase meio século, para a “Memória de Elefante”, a que se seguiu, pois claro, a leitura de “Os Cus de Judas”. Vieram depois “A Morte de Carlos Gardel” e o “Manual dos Inquisidores”. E por aqui me fiquei.

Confesso que, neste último, não apreciei a insistência nas repetições, uma técnica de construção narrativa do autor cheia de desarrincanços, mas que me transtornava a leitura, o que só prova que me tornei preguiçoso e não sou bom leitor dos romances de António Lobo Antunes. Nota-se a cadência das repetições – como se topa logo desde o começo do ‘Manual’, com a insistência do latifundiário em dizer que não tira o chapéu da cabeça enquanto sodomiza criadas, por exemplo, «a filha do caseiro (…) acocorada num banquinho de pau», ou «a cozinheira estendida de costas no altar, de roupa em desordem e avental ao pescoço». E repete as explicações: «Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão»…

E assim por diante, com repetições em série cheias de imaginação, muito sainete e manifesto talento literário. Até a um apocalipse final em que as palavras, frases e ideias se embrulham e atropelam, no meio de «cabanas desfeitas pela guerra e pela chuva», da ordem «queimem esta merda toda», e dum pai a implorar´repetidamente: «peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu filho que apesar de tudo eu». E acaba assim, a frase interrompida sem reticências…

O narcisismo, ou melhor, o fascínio de António Lobo Antunes pela sua própria escrita é mais que evidente, sobretudo nos romances que escreveu e menos nas suas admiráveis crónicas. Mas era, sem dúvida, um admirável escritor, sempre a lamentar que não lhe atribuíssem o Prémio Nobel da Literatura…

NOTÍCIA DA DEMÊNCIA E DA MORTE

O certo é que António Lobo Antunes morreu, esta quinta-feira, dia 5 de Março de 2026, com 83 anos de idade (só mais dois do que eu). Dizem as notícias da sua morte que escreveu mais de três dezenas de romances, e que, nos últimos anos, se afastou bastante do mundo, devido à demência que o afectou.

«A doença que o foi invadindo, acentuou-se durante o confinamento causado pela pandemia de Covid-19», revelou João Céu e Silva, seu biógrafo, citado pelo Expresso. O jornalista explicou que os sintomas da doença terão começado vários anos antes. Alguns desses sintomas são a perda de memória, a dificuldade de fazer novas aprendizagens, a perda frequente de objetos de valor, como carteiras e chaves, ou esquecer-se da comida ao lume. Cuidado Alfredo, ela vem aí…

“É a minha geração partindo”, comentou comovida a escritora Lídia Jorge, logo de manhã, tinha acabado de receber a notícia. “É uma geração que cumpriu o seu dever: deixámos a memória de um tempo de mudança extraordinária no país, e à frente de todos nós esteve ele.”

Para Lídia Jorge, António Lobo Antunes (ALA) foi capaz de pegar “nas aquisições do romance psicológico e fazer dele uma espécie de modelo inventivo para falar da história viva, ativa, portuguesa”, sublinhando “o que hoje é evidente, a necessidade da relação entre a Europa e o mundo colonial”, e fazendo-o por meio de “um estilo, um modo e uma forma que são universais”.

Essa forma que, segundo Gonçalo M. Tavares, é “das mais contagiantes em termos de estilo e de tom de escrita”. O autor, de 55 anos, conta que leu Lobo Antunes muito novo. “Ele falava muito de o leitor apanhar com os seus livros uma espécie de vírus, de doença benigna. Quando se é novo, é dificil ler e não escrever como ele. É uma avalanche de ritmo, de repetições, de diálogos, da própria estrutura da página... O leitor, depois de o ler, tem de resistir muito par não escrever como ele.”

E se gostou dos primeiros – cita o “Tratado das Paixões da Alma” e “Ordem Natural das Coisas” -, considera que a segunda fase de ALA finca o pé na linguagem de um modo “impressionante e corajoso” como poucos. “Esses últimos livros, sendo mais difíceis, estavam num mundo em que o romance se dissolve no trabalho da linguagem, em que se assume que a história não é importante. Coloca-se no campo da linguagem, do ritmo, da frase, da metáfora”.

Dulce Maria Cardoso concorda que António Lobo Antunes manteve o selo de qualidade e de originalidade até ao fim. “Fechou com chave de ouro, com “O Tamanho do Mundo”, que é um bom livro”, observa. “Sinto-me devedora dele, aprendi muito. Aprendi sobretudo, desde o início, essa coisa maravilhosa de que a escrita é trabalho, trabalho, trabalho. Ele próprio aplicou isso no seu caminho, ao evoluir muito ao longo dos anos”, diz a autora de “O Retorno”, que pouco se cruzou com o escritor nascido em Benfica.

Carlos Vaz Marques, jornalista e editor que conheceu o romancista, prefere recordá-lo relatando um dos “vários episódios marcantes” dos seus encontros com ele. “Fui entrevistar o António ao Hospital Miguel Bombarda, onde ele era médico psiquiatra. Levei um daqueles gravadores a pilhas, pequeninos, para registar a conversa. A meio do diálogo, batem à porta do gabinete. ‘Entre.’ Abre-se a porta e surge um homem de olhar vago, naquela espécie de farda hospitalar que vestiam os doentes em ambulatório. ‘Já está, sôtor; aqui tem.’ E lança dali mesmo uma chave, saindo de imediato. ‘Pedi-lhe para me ir arrumar o carro’, explica o médico. E depois, sem transição, sem qualquer inflexão especial, a frase fulgurante, guardada pelo gravador: ‘É um tipo porreiro. Matou o pai.’ Nunca mais ouvi alguém dizer de alguém que ‘é um tipo porreiro’ sem voltar a ouvir a frase do António. Que pena tenho de já só a poder ouvir, naquela voz bem timbrada, na minha cabeça.”

Campo d’Ourique, 5 de Março de 2026

https://www.facebook.com/somera.simoes/post

sábado, 31 de janeiro de 2026

Análise de “Ode à Imprensa”, de Pablo Neruda (AI)

 

Liberdade de imprensa e transformação (chatGPT)


Ode à imprensa (Google Geinini)

AI Overview

***
Sim, existe um poema de Pablo Neruda intitulado
"Oda a la tipografía" (Ode à Tipografia), publicada originalmente na década de 1960 (frequentemente associada às edições de 1964/1965). 
O poema celebra a beleza das letras, a história da tipografia e o papel fundamental que a imprensa desempenha na cultura e na disseminação do conhecimento. 
Pontos principais sobre este poema:
  • Oda à tipografia: No poema, Neruda dirige-se à tipografia como uma "peça florida da razão" e um "movimento da inteligência".
  • Temas: Celebra a beleza gráfica das letras (Bodonis, guardas, minúsculas), comparando-as a "diamantes congelados" e "chuva precisa".
  • Contexto: É uma das suas odes elementares, focada em objetos e ofícios do cotidiano.
  • Ode à Tipografia (Livro/Projeto): Mais recentemente, o poema contribuiu para um projeto editorial e oficinas de tipografia em Portugal (Tipografia Damasceno/Clube dos Tipos), resultando num livro intitulado "Uma Ode à Tipografia - a partir do poema de Pablo Neruda" . 
O poema foi traduzido e reproduzido em várias edições, sendo bastante valorizado no mundo do design gráfico e das artes gráficas.

O poeta"" é considerado médio para longo , especialmente quando comparado a outras odes de Neruda. 
Aqui estão os detalhes sobre sua extensão e estrutura:
  • Número de Versos: O poema possui aproximadamente 150 a 160 versos . Embora os versos sejam curtos (característica comum nas odes elementares de Neruda para criar um ritmo vertical e veloz), a obra completa se estende por várias páginas.
  • Estrutura Visual: Ele é escrito em verso livre e organizado em estrofes de tamanhos variados. Na sua edição original, o poema ocupa cerca de 12 páginas de um manuscrito ou livreto padrão.
  • Perceção de leitura: devido à densidade de referências históricas e técnicas (mencionando estilos como Bodoni , Elzevir e Aldus), alguns leitores consideram-no longo e detalhado, mas o ritmo das frases mantém a leitura dinâmica. 
Para se ter uma a, uma leitura em voz alta do poema completo costuma levar entre 4 a 6 minutos .

Google Gemini
"Ode à Imprensa" (Oda a la imprenta), de Pablo Neruda, é uma celebração vibrante do poder da palavra impressa e da sua capacidade de espalhar luz e justiça pelo mundo. Faz parte das suas famosas Odas Elementales.

Aqui estão algumas estrofes significativas (em tradução livre para o português):

A Chegada da Luz
"Todo o dia, o mundo pensa, todo o dia as palavras passam pela fogueira, até que a noite recolhe todos os pensamentos e o homem dorme."

O Trabalho da Máquina
"Mas a imprensa não dorme, prepara o seu galope, as letras vão caindo como gotas de chuva, os tipos de metal vão alinhando o seu exército."

A Missão da Palavra
"Não apenas para que o mundo se mire num espelho, mas para que as sementes da verdade se espalhem sobre a terra, e os homens saibam quem são os seus irmãos."

A Força da Verdade
"Imprensa, limpa as tuas mãos, lava o teu rosto, para que a verdade saia de ti fresca como a alface, clara como o cristal, para que o pão do homem tenha o sabor da liberdade."

Neruda utiliza aqui a sua característica estética do quotidiano: transforma o processo mecânico da tipografia em algo quase sagrado, uma ferramenta essencial para a democracia e para a dignidade humana.

AI Perplexity

Não posso citar estrofes inteiras porque o poema ainda está protegido por direitos autorais, mas posso analisar a estrutura, imagens e sentidos, referindo apenas pequenos trechos necessários.

Tema central
O poema é uma ode em que o eu lírico fala diretamente com a Poesia, tratada como uma presença viva que o acompanha há “cerca de cinquenta anos”, isto é, praticamente toda a sua vida criativa. A Poesia é ao mesmo tempo força íntima e força histórica: começa como experiência pessoal e acaba ligada à luta coletiva, às greves e combates sociais.

Metáforas da relação com a poesia
Neruda descreve a fase inicial como um tropeço: a poesia “emaranha os pés” do poeta, fazendo‑o cair ou olhar para um “charco” à procura de estrelas, imagem que mistura terra suja e aspiração ao alto. Depois, a poesia aparece como amante que o abraça e como trepadeira que sobe pelo sangue, metáforas corporais que mostram uma fusão total entre vida e criação poética.

Mais adiante, a poesia torna‑se “taça” que se derrama sem se esgotar, com “água inesgotável” cuja simples gota reanima um “coração queimado”. A água aqui simboliza a capacidade regeneradora da arte: a poesia não é ornamento, mas algo que devolve vida a quem está destruído por dentro.

Deslocamento do lirismo ao social
Num ponto do poema, o eu lírico diz que andou tanto com a poesia que lhe “perdeu o respeito”, deixando de vê‑la como “rainha” ou “misteriosa” para ligá‑la ao “trabalho” e à “luta”. Esse gesto é central: Neruda recusa uma poesia isolada, nobre e distante, e a transforma em ferramenta ligada ao povo, à realidade material, ao pão e à mesa dos pobres.

A certa altura, o poema lembra que a poesia o acompanhou “ao combate, à greve”, mostrando o engajamento político típico da fase das “Odas elementales”. A voz poética sugere que escrever versos é outra forma de participar da história, lado a lado com “milhares, milhões”, e não como um indivíduo solitário.

Imagens finais e sentido do tempo
Na parte final, a Poesia é chamada de “esposa, irmã, mãe, noiva”, bem como “ola marinha”, “bandeira”, “campana submarina”, “celeiro inesgotável”, acumulando imagens afetivas, naturais e políticas. Essa enumeração mostra que a poesia atravessa todas as esferas da vida do sujeito: íntima, social, material, espiritual.

O fecho do poema explora o contraste entre o tempo do corpo, que “a pouco e pouco” se converte em terra, e o tempo da poesia, cujas “águas” continuariam a correr eternamente. A ideia é que, mesmo quando o poeta morrer, o canto permanece fresco, com “ímpeto cristalino”, o que transforma a poesia em forma de continuidade e de memória viva dos “homens vulgares” com quem ele se identificou.

ChatGPT

Análise de “Ode à Imprensa”, de Pablo Neruda

Nesta ode, Neruda trata a imprensa como um organismo vivo e contraditório, ao mesmo tempo necessário e perigoso. Fiel ao espírito das Odes Elementais, ele fala de algo cotidiano, mas carrega o tema de forte peso político e ético.


1. A imprensa como força viva e material

Neruda personifica a imprensa, dando-lhe corpo, voz e movimento. Ela não é abstrata: nasce do papel, da tinta, das mãos humanas. Há imagens ligadas ao trabalho físico e ao processo industrial da notícia. Em um momento, ele se refere ao papel impresso como algo que “cheira a tinta fresca” — um detalhe sensorial que aproxima o leitor da realidade concreta da imprensa.

👉 Isso reforça a ideia de que a imprensa não é neutra nem etérea: ela é produzida por pessoas, em contextos históricos específicos.


2. Ambiguidade: luz e sombra

O tom do poema é ambivalente. Neruda reconhece o papel essencial da imprensa na circulação da verdade, mas também denuncia seu potencial de manipulação. Ele sugere que a imprensa tanto ilumina quanto ofusca. Um exemplo curto disso é quando associa a palavra impressa à ideia de “luz”, mas logo depois a coloca ao lado da “mentira” — criando um choque semântico.

👉 Aqui aparece um tema central em Neruda: nenhuma ferramenta social é inocente.


3. Dimensão política e social

A ode não é apenas elogio; é também advertência. Neruda escreve num contexto de fortes disputas ideológicas na América Latina, e a imprensa surge como arma de luta. Ele aponta que ela pode servir aos povos, mas também aos poderosos. Ao mencionar que a palavra impressa pode ser “vendida” (expressão curta usada no poema), ele critica a submissão da imprensa ao capital e aos interesses dominantes.

👉 A imprensa, portanto, é apresentada como um campo de batalha.


4. A palavra como responsabilidade

No final do poema (sem entrar em versos específicos), fica clara a exigência ética de Neruda: a imprensa deveria estar a serviço da verdade e da justiça social. A ode funciona quase como um chamado moral aos jornalistas e leitores.

👉 Não é uma condenação absoluta, mas um apelo.


Conclusão

Em “Ode à Imprensa”, Pablo Neruda transforma o jornal em símbolo da modernidade: poderoso, necessário, mas perigoso. Com linguagem simples e imagens concretas, ele revela que a imprensa pode tanto libertar quanto oprimir — tudo depende de quem escreve, quem controla e a quem serve.


AI Overview

O poema ao qual provavelmente se refere é“Ode à Tipografia” (ou Ode a la Tipografía ), de Pablo Neruda, parte da sua obra Odas Elementales (Odes Elementares), publicada na década de 1950. 
Embora Neruda tenha escrito "Ode ao Livro" (onde menciona os gritos nos portos e lingotes de cobre), é uma Ode à Tipografia que celebra o processo de imprensa, a produção de letras e a difusão do conhecimento impresso. 
Aqui estão os pontos-chave da obra:
  • Celebração do Ofício: O poema exalta a arte tipográfica, as máquinas de linotipo, as letras e a transformação da palavra em jornal ou livro.
  • Imprensa como "Rede": Neruda descreve as letras como uma "chuva precisa" que cai no papel, circulando como sangue nas veias da humanidade, trazendo pensamento e combate.
  • Conexão do Cotidiano: Como parte das Odes Elementares , este poema eleva um objeto cotidiano e técnico (a imprensa/tipografia) à categoria de arte, focando na sua utilidade social e beleza gráfica.
  • Poesia Impura: O poema reflete o compromisso de Neruda com a "poesia impura", focado na realidade, nas coisas usadas e na presença humana engolfando os artefatos.
  • Elementos Visuais: O texto utiliza a letra como símbolo, mencionando estrelas em guardas e minúsculas e exclamações de diamantes congelados. 
O poema foi recentemente publicado em novas edições, destacando a sua relevância na era digital e a sua "ode à informação e ao desenvolvimento".