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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Jorge Reis - Matai-vos uns aos outtros




Matai-vos Uns aos Outros
"Croniqueta de província", redigida em Paris, em 1958, a narrativa é protagonizada pelo agente da judiciária António Santiago, destacado para Vila Velha para averiguar a morte de um rico proprietário, Manuel dos Santos, que morrera envenenado depois de uma ceia com dez amigos. Colhendo estratégias narrativas firmadas pelo neorrealismo, e submetendo-as à estrutura do romance policial, a narrativa é construída através da alternância e oposição entre o discurso interior do agente, em itálico, e o discurso das diversas testemunhas. Além da paródia ao intertexto bíblico, visível desde o título e corroborada com múltiplas outras alusões que invertem o sentido da mensagem evangélica ("o assassino está no meio de nós"), o romance, que tem como pano de fundo um contexto da repressão policial sobre o povo de Vila Velha, formula uma crítica à desumanização capitalista: "Ele não sabia, nem os seus pares o sabem, que são condenados à espera da morte, cadáveres em cata de sepultura!... E são-no, na medida em que a grandeza deles é feita do empobrecimento de outrem... Mas eles não o sabem, ninguém o sabe... [...] De onde vêm? Para onde vão? Não sabem. Ninguém sabe. Vivem, sem curar desvendar o sentido dos seus atos. Nada!..."
    Como referenciar: in Língua Portuguesa com Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2016. [consult. 2016-02-06 13:36:58]. Disponível na Internet: 
    Terça-feira, 18 de Outubro de 2005

    JORGE REIS (1926-2005) 

    Quase por acaso percebo que os fusíveis da vida deram mais um estoiro e romperam-me uma companhia que nunca usufruí no vivo de presença física. E no entanto, a sua voz e a sua pena marcam de forma impressiva a minha formação como homem social.

    Por um lado, um velho livro - que livro! – que descarnava magistralmente as teias das cumplicidades sacanas dos “situacionistas bem instalados” na modorra do sabor do poder eterno numa qualquer cidade de província do Portugal assalazarado. A escrita era (e é) de primeira água (leiam-no agora e digam se agora se escreve melhor), o título era um panfleto (“Matai-vos uns aos outros”) e o livro, logo proibido e apreendido, era comprado por baixo do balcão naqueles livreiros que se governavam à pala das proibições da Censura.

    Depois, ainda a televisão não irrompera ou ainda era coisa de poucos e com os noticiários feitos propaganda do fascismo, era uso que a fita de cinema fosse antecedida de desenhos animados e de uma coisa que nos ligava às notícias do mundo, chamada “Actualidades Francesas”. A locução era feita por uma voz em bom português mas com sotaque especial (explicíto mas afrancesado) e uma ênfase de narração envolvente que pontualializava os altos das notícias de uma mundivivência que nos parecia vir de muito longe do nosso ruralismo pacóvio e presbítero. A voz era a do romancista de curta obra.

    Fugido da PIDE em 1949, este ribatejano de muitas e duras cepas, homem das grandes greves de 1944, ficou-se por França e marcou a nossa diáspora que ali caiu fugida á fome ou à guerra colonial. Julgo que tão agarrado ficou ao exílio, aos exilados e emigrantes, lá construindo família, que nem o 25 de Abril lhe conseguiu impor regresso à sua lezíria ribatejana onde lhe cresceram as raízes da razão, da luta e da sensibilidade.

    Com atraso - ele morreu no passado 1 de Outubro - soube da sua tão silenciosa e silenciada perda aqui. Onde também fiquei a saber que esse homem que foi meu Mestre “à distância” se chamava Atilano Jorge dos Reis Ambrósio. E onde leio essa singela e estética nota necrológica:

    “Hélène, a sua esposa, Annie e Jean-Claude, os seus filhos, Alexandra e Olivier, os seus netos, têm a profunda tristeza de anunciar a morte de Jorge Reis, escritor, jornalista, cronista, Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, que faleceu em Paris, no dia 1 de Outubro de 2005. A cerimónia fúnebre decorreu no Cemitério Père-Lachaise de Paris, no dia 8 de Outubro. Que a memória de Jorge Reis continue presente no espírito dos que o conheceram.”

    Se continua presente! O seu livro é de estimação perene. A sua voz chegou-me outra vez, e do ouvido já não sai, como se fosse ele mesmo a ler, no “Actualidades Francesas”, a notícia do seu último exílio sem regresso. E eu a sentir-me sentado numa sala escura de cinema a ligar-me ao mundo, ouvindo-o, antes que a película do filme esperado comece a rodar nos carretos da maquineta que tem fama de fabricar ilusões.
    Publicado por João Tunes às 15:30

    http://agualisa6.blogs.sapo.pt/877247.html

sábado, 21 de janeiro de 2012

O Dia Seguinte De Luiz Francisco Rebello



O Dia Seguinte


De Luiz Francisco Rebello, publicada, em 1954, no volume coletivo Encontro, a peça O Dia Seguinte foi reeditada no primeiro volume de Teatro do autor, com O Mundo Começou às 5 e 47 e Alguém Terá que Morrer, em 1959. Vindo a ser objeto de várias traduções e sucessivas representações no estrangeiro, a sua estreia no Teatro Nacional, em 1952, foi proibida pela censura, sendo representada apenas em 1963, depois de ter sido levada à cena em Paris, em Espanha, no Brasil, na Bélgica e em Israel. No posfácio a Teatro I, o autor integra o texto numa fase "experimental" que atravessou entre 1946 e 1951, considerando O Dia Seguinte a sua peça preferida por ser a que realiza melhor a sua conceção de teatro: "Partindo de uma base realista, mas voltando deliberadamente as costas a todo o realismo literal de superfície; procurando captar a vida na sua totalidade, e por isso misturando propositadamente o real e o imaginário, o que foi e o que poderia ter sido; situando as personagens num mundo acima do espaço e do tempo que é, ou pretende ser, a transposição mítica do mundo fechado em que vivemos - O Dia Seguinte vale, pelo menos, como documento de uma época batida por todos os desesperos e rica de todas as promessas." (cf. posfácio a Teatro I, 1959, p. 225). Depois de a vida lhes ter tirado tudo, "amor, confiança, coragem", não vendo nenhuma solução para a sua miséria, um jovem casal decide suicidar-se, dizendo não a uma vida que não traria futuro ao filho que em breve iria nascer. Depois da morte, são julgados e acusados de traição por não terem feito "do próprio desespero uma razão para lutar". As cenas retrospetivas e as visões de acontecimentos que não ocorreram porque as personagens com a sua desistência os impediram, a introdução de personagens hipotéticas pautam a noite que conduzirá ao "dia seguinte" e ao fim de "tudo o que foi e tudo o que não chegou a ser... tudo o que nunca será". Deste modo, o "dia seguinte a que alude o título da (...( peça não é apenas o primeiro dia da morte dos seus protagonistas - mas o primeiro dia da vida que eles não souberam ou não lhes pareceu possível viver" (cf. posfácio a Teatro I, 1959, p. 225).

O dia seguinte
Um jovem casal ,com um filho prestes a nascer, e não aguentando as dificuldades financeiras em que vive, decide suicidar-se. Já mortos, são chamados a prestar contas dos seus dias em vida, o que os leva a reviver os seus momentos mais importantes, desde os mais optimistas e esperançados no futuro aos de desespero que os levam à própria morte e à negação da vida do filho. Assim são levados a reconhecer o erro que cometeram, mas já é tarde de mais. Mas fora do drama deste casal, outros homens não renunciam à vida e lutam para que "o dia seguinte" valha a pena ser vivido.
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Apesar do drama das personagens, esta peça é marcada por uma ideia de esperança na humanidade e na marcha imparável da vida que, apesar das dificuldades que muitas vezes se impõem ao individuo, traz sempre um " dia seguinte", uma nova luz que renasce todas as manhãs. «Vale pelo menos como documento de uma época batida por todos os desesperos e rica de todas as promessas.» ( L.F: Rebello, pósfácio de Teatro I)
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Drama em um acto, estreia-se no Théâtre de la Huchete, a 12 de Janeiro de 1953 (tradução francesa de Claude-Henri Frèches e encenação de Jean Marcellot)
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A sua estreia em Portugal estava prevista para a 19 de Abril de 1952, no Teatro D. Maria II, mas foi cancelada por proibição imposta pela censura.
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«A verdade é que "o Dia Seguinte" não podia agradar à ditadura fascista; era um protesto e era, simultaneamente, um grito de esperança, uma afirmação de confiança no futuro, isto numa época de desespero, na época em que o imperialismo arrastava o sabre atómico e o fascismo odiava tudo quanto lhe cheirasse a certeza, à vitória de um dia seguinte - dia que não era seu... »
Mário Castrim in Diário de Lisboa, data desconhecida

O levantamento desta proibição apenas se deu cerca de 10 anos mais tarde, estreando-se por isso a 15 de Fevereiro de 1963 no Teatro Nacional D. Maria II com a encenação de Pedro Lemos. Em 2 de Maio é também representada no Teatro Moderno de Lisboa, dirigida por Paulo Renato. Numa encenação de Correia Alves, foi transmitido pela RTP em 23 de Fevereiro de 1976.
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Desta peça resultam várias traduções estrangeiras. Para além da já referida tradução francesa, Le Lendemain, publicada na Revue Théâtrale em 1952, e da tradução de Luís Saraiva, Le jour Suivant estreada no Festival de Teatro Universitário de Moncton , Canadá , em Fevereiro de 1967, é de destacar a tradução espanhola de Eduardo Sánchez, estreada em Valência pelo Teatro de Câmara " El Paraiso ", a 12 de Abril de 1953, e publicada na revista "Teatro" de Madrid (nº 14), em 1955 ; e também a versão de Carlos-José, estreada em Madrid pelo Teatro de Câmara «TOAR», a 12 de Maio de 1956, e mais tarde transmitida pela TV espanhola.Handen von Morgen é a tradução flamenga de Marcel de Baecker, levada à cena pelo "Tonelsstudio 50 ", de Gand, em 20 de Janeiro de 1960 e reposta em cena pelo grupo de teatro experimental "Yver doet Leeren", também de Gand, em 20 de Março de 1970. Arrigo Repetto é responsável pela tradução italiana Il Giorno Dopo , publicada na revista " Il Dramma" em Dezembro de 1968, representada em 1970 no Teatro Valle, de Roma , em várias outras cidades italianas , e trasmitida pela TV da Suiça Italiana em 29 de Agosto de 1974. Przebudzenie, é o nome dado à tradução polaca da Danuta Zmij-Zielinska e Witold Wojciechomski, publicada na revista "Dialog", de Varsóvia, em Outubro de 1974. A tradução para alemão, Das Erwachen, por Peter Ball, foi tansmitida pela Rádio da Republica Democrática Alemã em 1976, havendo também outra versão nesta lingua de J. F. Branco, editada numa antologia de Teatro Português Contemporâneo pela Henschelverlag ( RDA ) no ano de 1978.
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Esta peça foi ainda traduzida para hebraico, por Alex Hadary, japonês, pela Prof.ª Nonoyama, inglês, por Bob Vincent e húngaro, por Miklos Hubay, o que permitiu a sua representação em países tão diversos como a Bélgica, Israel, Jugoslávia, Áustria e com destaque para o Brasil onde tem sido levada ao palco por vários grupos entre os quais o Teatro do Estudante do Panamá, dirigido por Armando Maranhão, em Julho de 1972.
CITI ]

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Alda Lara - Poesia e breve biografia

Alda Lara



"À prostituta mais nova / Do bairro mais velho e escuro, / Deixo os meus brincos, lavrados / Em cristal, límpido e puro... / E àquela virgem esquecida / Rapariga sem ternura, / Sonhando algures uma lenda, / Deixo o meu vestido branco, / O meu vestido de noiva, / Todo tecido de renda..."





Biografia

Poemas:


Biografia
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(Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque. Benguela, Angola, 9.6.1930 - Cambambe, Angola, 30.1.1962). Era casada com o escritor Orlando Albuquerque. Muito nova veio para Lisboa onde concluiu o 7º ano do Liceu. Freqüentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e Coimbra, licenciando-se por esta última. Em Lisboa esteve ligada a algumas das atividades da Casa dos Estudantes do Império. Declamadora, chamou a atenção para os poetas africanos. Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prêmio Alda Lara para poesia. Orlando Albuquerque propôs-se editar-lhe postumamente toda a obra e nesse caminho reuniu e publicou um volume de poesias e um caderno de contos. Colaborou em alguns jornais ou revistas, incluindo a Mensagem (CEI).
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Obra poética:
Poemas, 1966, Sá de Bandeira, Publicações Imbondeiro;
Poesia, 1979, Luanda, União dos Escritores Angolanos;
Poemas, 1984, Porto, Vertente Ltda. (poemas completos).


Testamento
À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...
E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...
Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...
E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...
Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...
Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...
Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...

(poemas)
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Presença Africana
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E apesar de tudo,
ainda sou a mesma!
Livre e esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a irmã-mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto!...
.
- A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços
das palmeiras...
A do sol bom,
mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...
.
Sim!, ainda sou a mesma.
- A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11...Rua 11...)
pelos negros meninos
de barriga inchada
e olhos fundos...
.
Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...
.
E eu revendo ainda
e sempre, nela,
aquela
longa historia inconseqüente...
.
Terra!
Minha, eternamente...
Terra das acácias,
dos dongos,
dos cólios baloiçando,
mansamente... mansamente!...
Terra!
Ainda sou a mesma!
Ainda sou
a que num canto novo,
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu Povo!...
.
(poemas)

.
Anúncio
Trago os olhos naufragados
em poentes cor de sangue...
.
Trago os braços embrulhados
numa palma bela e dura
e nos lábios a secura
dos anseios retalhados...
.
Enrolada nos quadris
cobras mansas que não mordem
tecem serenos abraços...
E nas mãos, presas com fitas
azagaias de brinquedo
vão-se fazendo em pedaços...
.
Só nos olhos naufragados
estes poentes de sangue...
.
Só na carne rija e quente,
este desejo de vida!...
.
Donde venho, ninguém sabe
e nem eu sei...
.
Para onde vou
diz a lei
tatuada no meu corpo...
.
E quando os pés abram sendas
e os braços se risquem cruzes,
quando nos olhos parados
que trazem naufragados
se entornarem novas luzes...
.
Ah! Quem souber,
há-de ver
que eu trago a lei
no meu corpo...

. (poemas)
.

Prelúdio
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Pela estrada desce a noite
Mãe-Negra, desce com ela...
.
Nem buganvílias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guizos,
nas suas mãos apertadas.
.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
.
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...
.
Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo
Mãe-Negra!...
.
É que os meninos cresceram,
e esqueceram
as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram pra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...
.
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta bem calada.
.
É a tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada...

(poemas)

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Ronda
.
Na dança dos dias
meus dedos bailaram...
Na dança dos dias
meus dedos contaram
contaram, bailando
cantigas sombrias...
.
Na dança dos dias
meus dedos cansaram...
.
Na dança dos meses
meus olhos choraram
Na dança dos meses
meus olhos secaram
secaram, chorando
por ti, quantas vezes!
.
Na dança dos meses
meus olhos cansaram...
.
Na dança do tempo,
quem não se cansou?!
.
Oh! dança dos dias
oh! dança dos meses
oh! dança do tempo
no tempo voando...
.
Dizei-me, dizei-me,
até quando? até quando?

(poemas)



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Poemas que eu escrevi na areia
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I
.
Meu bergantim, onde vens,
que te não posso avistar?
Bergantim! Meu bergantim!
Quero partir, rumo ao mar...
.
Tenho pressa! Tenho pressa!
Já vejo abutres voando
além, por cima de mim...
Tenho medo... Tenho medo
de não me chegar ao fim.
.
Meus braços estão torcidos.
Minha boca foi rasgada.
Mas os olhos, estão bem vivos,
e esperam, presos ao Céu...
.
Que haverá p'ra além da noite?
p'ra além da noite de breu?
.
Ah! Bergantim, como tardas...
Não vês meu corpo jazendo
na praia, do mar esquecido?...
Esse mar que eu quis viver,
e sacudir e beijar,
sem ondas mansas, cobrindo-o...
.
Quem dera viesses já...
que vai ficando bem tarde!
E eu não me quero acabar,
sem ver o que há para além
deste grande, imenso céu
e desta noite de breu...
.
Não quero morrer serena
em cada hora que passa
sem conseguir avistar-te...
Com meu olhar enxergando
apenas a noite escura,
e as aves negras, voando...
.
II
.
Meu bergantim foi-se ao mar...
Foi-se ao mar e não voltou,
que numa praia distante,
meu bergantim se afundou...
.
Meu bergantim foi-se ao mar!
levava beijos nas velas,
e nas arcas, ilusões,
que só a mim me ofereci...
.
Levava à popa, esculpido,
o perfil, leve e discreto,
daqueles que um dia perdi.
.
Levava mastros pintados,
bandeiras de todo o mundo,
e soldadinhos de chumbo
na coberta, perfilados.
.
Foi-se ao mar meu bergantim,
Foi-se ao mar... nunca voltou!

.........................

E por sete luas cheias
No areal se chorou...

(poemas)
.
in

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Alda Lara

Poetisa angolana, Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque nasceu a 9 de Junho de 1930, em Benguela.
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Tendo vindo para Portugal muito nova, concluiu em Lisboa o ensino secundário. Distinguiu-se como aluna no Colégio de Paula Frassinetti da cidade de Sá da Bandeira - hoje Lubango - e no Liceu D. Maria Amália Vaz de Carvalho, em Lisboa, onde terminou o 7.º ano.
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Começando por frequentar a Faculdade de Medicina de Lisboa, acabou o curso em Coimbra, onde apresentou uma tese sobre "Psiquiatria Infantil". Reconhecida no meio académico, esta tese proporcionou-lhe um convite para se especializar em Paris, para que depois ingressasse num estabelecimento psiquiátrico de Lisboa. Contudo, a sua dedicação e amor à Terra-Mãe impediu-a de responder a esta solicitação.
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Irmã do escritor Ernesto Lara Filho, casou-se com o escritor Orlando de Albuquerque, também médico de profissão, e frequentou, como muitos outros seus conterrâneos, a da Casa dos Estudantes do Império (CEI), onde desenvolveu imensa actividade.
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Com uma grande ligação ao mundo literário, Alda Lara era reconhecida pela sua capacidade de declamação, cuja singularidade atraiu, entre outros, os poetas africanos. Assim, fez vários recitais em Lisboa e Coimbra, transformando estes lúdicos momentos em verdadeiros veículos de divulgação da poesia negra, até então ainda muito desconhecida.
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Foi colaboradora de alguns jornais e revistas, nomeadamente do Jornal de Benguela , do Jornal de Angola , do ABC e Ciência e da revista Mensagem da CEI, da responsabilidade do Departamento Cultural da Associação dos Naturais de Angola (ANANGOLA). Nesta revista publicou, no número de Abril de 1952, o poema "Rumo", dedicado ao falecido estudante e contista moçambicano João Dias.
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Integrando a Geração da Mensagem, fortemente influenciada formal e tematicamente pela corrente Modernista de 1922 e pelo Neo-Realismo português, a autora vai saciar-se nas origens do seu povo, descaracterizado por imposição da cultura colonial. Neste pretérito ancestral, metaforicamente designado por "Mãe África", a autora, assim como todos os "poetas mensageiros" vai encontrar a Alma da sua produção textual através da qual procura "despir-se" da camisa opressiva da história colonial. O drama dos contratados, a situação da mulher angolana, a repressão exercida sobre o uso das línguas nativas, o desejo de regressar, etc., são, por isso, temas recorrentes e abordados de forma avassaladora: " Quando eu voltar/que se alongue sobre o mar/o meu canto ao Criador!/Porque me deu a vida e o amor,/para voltar? / Ah! Quando eu voltar?/Hão-de as acácias rubras,/a sangrar/numa verbena sem fim,/florir só para mim./E o sol esplendoroso e quente,/ o sol ardente,/há-de gritar na apoteose do poente,/o meu prazer sem lei?/A minha alegria enorme de poder/enfim dizer:/Voltei!?".
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Tendo sido publicada postumamente num volume de poesia e num caderno de contos pelo seu marido, Orlando de Albuquerque, a sua obra figura em diversas antologias, a saber: Antologia de poesias angolanas , Nova Lisboa, 1958; Amostra de poesia in Estudos Ultramarinos, n.º 3, Lisboa, 1959; Antologia da Terra Portuguesa - Angola, Lisboa, s/d; Poetas Angolanos, Lisboa, 1962; Poetas e Contistas Africanos , S. Paulo, 1963; Mákua 2, Antologia Poética, Sá da Bandeira, 1963; Contos Portugueses do Ultramar- Angola , 2.º volume, Porto, 1969; Livros Póstumos: Poemas , Sá da Bandeira, 1966; Tempo de Chuva , Lobito, 1973.
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Com uma actividade diversificada, fez também algumas conferências, uma das quais - "Conferência sobre problemas da Assistência Médica Missionária em África" - se encontra publicada, dada a sua importância e repercussão.
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Depois da sua morte, a Câmara Municipal de Sá da Bandeira instituiu o Prémio Alda Lara para poesia.
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Faleceu em Cambambe, no Kwanza-Norte, a 30 de Janeiro de 1962.



Como referenciar este artigo:
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Alda Lara. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2010. [Consult. 2010-06-10].
Disponível na www: .
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Alda Lara - Mulheres Angolanas Históricas (8) no Kant_O_XimPi

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