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sábado, 27 de julho de 2024

José Pacheco Pereira - Porque é que na “geração mais preparada de sempre” a ignorância cresce?

Opinião

A ascensão da ignorância agressiva e o ataque ao saber são perigosos para a democracia e liberdade.

* José Pacheco Pereira

27 de Julho de 2024


Este é o tipo de artigos em que já se sabe de antemão as críticas, mais “bocas” do que críticas, que vai receber. Passadista, “velho do Restelo”, velho tout court, arrogante, reaccionário, antiquado, com incompreensão do que é a “nova” geração e as mudanças culturais em curso, com uma visão ultrapassada do que são as novas “competências”, não compreendendo os novos “saberes”, preso a um mundo que já acabou e a um elitismo sem sentido numa sociedade muito mais igualitária, em que os “saberes” do passado são inúteis. Muito bem, é tudo isto, mas, mesmo assim, reafirmo que o mundo cultural circulante nos dias de hoje é particularmente pobre, é pobre de referências, é pobre de “histórias”, é pobre de vocabulário, e alimenta uma ignorância agressiva, em particular nas redes sociais, e isso é péssimo para a democracia. Ainda mais, é um mundo que pela sua fragilidade cultural é particularmente sensível às modas, sem qualquer distanciação e consistência.

Tenho consciência de que este tipo de catastrofismo cultural, ainda por cima com uma componente geracional, é recorrente na história, tem características comuns que se repetem e tem-se revelado muitas vezes errado. É cíclico nas suas lamentações dos “velhos” para as gerações mais novas, mas se há coisa que a história também revela é que, às vezes, existe mesmo decadência. É um pouco aborrecido estar com estes caveats todos –​ aqui está uma palavra em desuso –, mas a ascensão da ignorância agressiva e o ataque ao saber são perigosos para a democracia e liberdade. Decadência é outra palavra maldita. 250 palavras gastas com prevenções.

Aqui há alguns anos eu dei aulas partilhadas com Jaime Gama sobre “relações internacionais” no ensino superior. Nos dias de exames, verifiquei que muitos alunos corriam à secretaria para obter um adiamento, “porque fazia muitas perguntas difíceis”. Tentei perceber quais eram as “perguntas difíceis” e de onde vinha o medo. Consegui identificar a origem num exame em que o tema que o aluno estava a expor eram os eventos da Revolta Húngara de 1956, que ele conhecia minimamente. De repente, suspeitei de algo estranho e perguntei-lhe esta simples coisa: onde é que é a Hungria. Pânico, e completa ignorância onde era a Hungria, onde estava o Danúbio, e após tentativas e erros a Hungria ficava para os lados do Cazaquistão. Comecei então a fazer perguntas deste tipo e estas eram as “perguntas difíceis”.


Daumier DR

Tratava-se de estudantes do ensino superior prestes a acabar a licenciatura. Mas, andando para trás e para a frente, tenho as mais sérias dúvidas que seja possível hoje ler a grande maioria da grande literatura portuguesa, Camões, Camilo, Eça, por exemplo, mesmo que, no caso de Eça, seja um dos raros autores ainda presente numa lista de leituras em grande parte jornalística. Em linhas gerais, a parte narrativa de alguns livros que ainda sobrevivem talvez subsista, mas duas grandes fontes da nossa cultura ocidental desapareceram do saber circulante: a Bíblia e a cultura greco-latina. Ora, duvido muito que textos literários que falam como quem respira de Orfeu, Sísifo, David, Golias, da Guerra do Peloponeso, de Marte, de Salomão, do Bom Samaritano, de Péricles, da “voz clamando no deserto”, de Abraão, de Ulisses, do Cavalo de Tróia, de Homero, mesmo de Caim e Abel, de César Augusto, de Esparta, do Hades, de Diana, a caçadora, de Herodes, etc., etc., hoje signifiquem alguma coisa. O mesmo para muitas lendas, metáforas, ditos, alcunhas, etc.

O mundo cultural da “geração mais preparada” é como o das conversas dos participantes do Big Brother. Vale a pena ouvir, uma mistura que não passa de uma espécie de psicologia barata. E tem um público jovem

É importante saber-se isto? Claro que é, por uma razão muito simples: é que não se sabendo é-se mais pobre da cabeça, até porque com esta ignorância vem um pacote de um mundo mais desértico. Há excepções, como é óbvio, mas as excepções não contam. O mundo cultural da “geração mais preparada” é como o das conversas dos participantes do Big Brother. Vale a pena ouvir, uma mistura que não passa de uma espécie de psicologia barata, e não é por acaso que uso esta comparação porque um dos alicerces desta ignorância agressiva é mesmo esse tipo de conversa, que vai muito para além da Casa e dos comentadores em estúdio. Ele estende-se aos/às influencers e ao mundo das redes do Chega, raiva, ressentimento, sentimentalismo barato, pseudodepressões, “bocas”, erros de ortografia, escasso vocabulário, e muita, muita ignorância. E tem um público jovem.


O mundo não está brilhante, porque este tipo de gente é particularmente fácil de manipular.

O autor é colunista do PÚBLICO



 

sexta-feira, 3 de novembro de 2023

Joana Pereira Bastos - IA obriga faculdades a mudar avaliação de alunos

 

SOCIEDADE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL

Ensino superior Um ano depois de ter sido criado, o ChatGPT, ferramenta capaz de produzir textos em qualquer área, generalizou-se, gerando dúvidas sobre autoria de teses e trabalhos. Universidades já estão a mudar regras de avaliação

IA obriga faculdades a mudar avaliação de alunos, por   JOANA PEREIRA BASTOS

2023 11 03

No passado ano letivo, Rui Sousa Silva, professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, pediu um trabalho académico a uma turma de 50 alunos do 1º ano. Quando começou a corrigi-los, notou algo estranho: nenhum dos trabalhos continha um único erro ortográfico ou gramatical, nem sequer uma pequena gralha, coisa nunca antes vista. E as frases eram curtas e diretas, sem orações intercalares, um estilo típico do inglês mas pouco frequente na escrita portuguesa. Independentemente do conteú­do e do tema, que variava, a estrutura era praticamente igual em todos. Especialista em linguística forense, o docente rapidamente concluiu: “Estes textos não foram escritos por humanos.”

Na altura, o ChatGPT ainda era muito recente. Numa das aulas, Rui Sousa Silva tinha conversado com os alunos sobre esta ferramenta de inteligência artificial (IA) generativa que reproduz a linguagem humana na perfeição e é capaz de responder a perguntas e gerar, em poucos segundos, textos completos em qualquer área e à medida das instruções que recebe, desde poemas a ensaios ou teses académicas. Deixou claro que podiam usá-la para apoio na pesquisa, mas nunca para a realização integral dos trabalhos. Por isso estranhou que tivessem contrariado as suas indicações. Mas a análise linguística que tinha feito dos textos entregues pelos estudantes não oferecia dúvidas, assim como o facto de nenhuma das dissertações fazer referência aos autores que tinham sido abordados em aula. Quando os confrontou, a grande maioria dos alunos acabou por admitir que o verdadeiro autor dos trabalhos era o ChatGPT.

Criada há um ano, a ferramenta generalizou-se rapidamente, ultrapassando em apenas dois meses a marca dos 100 milhões de utilizadores a nível mundial e transformando-se no software com o crescimento mais rápido da História. Para as universidades, nunca nada foi tão potencialmente disruptivo. Ao acelerar a um ritmo inimaginável a capacidade de pesquisa e cruzamento de fontes, as aplicações de IA generativa, como o ChatGPT ou o Bard, por exemplo, podem ajudar a produção científica e, em última análise, fortalecer a aprendizagem; mas, ao mesmo tempo, são capazes de minar a integridade da avaliação dos alunos e até reduzir a sua capacidade de reflexão se os estudantes se limitarem a pedir à máquina que pense por si e a reproduzir acriticamente os textos gerados por esta.

Em todo o mundo, as instituições de ensino superior estão ainda a tentar perceber como adaptar-se à nova realidade. Algumas universidades de referência, como a francesa Sciences Po, proibiram estas ferramentas, mas a maioria acredita que é impossível travar o seu uso. Por isso muitas optaram por permitir esta tecnologia e até incentivar a sua utilização, desde que com regras e com ajustes ao modelo de avaliação. É essa também a tendência em Portugal.

“As tecnologias de IA no ensino não podem ser proibidas. Não há como. Dessa forma, pelo contrário, devem ser utilizadas por todos, em condições controladas, para se perceber como se pode tirar partido delas para aumentar a eficiência da aprendizagem sem pôr em causa o treino e aquisição de competências”, defende Rogério Colaço, presidente do Instituto Superior Técnico, frisando que os alunos têm de perceber que “não as poderão usar de forma acrítica ou fraudulenta”. Para o evitar, devem reforçar-se as avaliações presenciais, diz.

Em alguns cursos da Universidade do Minho já foram mesmo introduzidas alterações na avaliação, “promovendo-se a substituição de trabalhos escritos por provas orais”. Também no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG), em Lisboa, foram aprovadas pelo Conselho Pedagógico várias recomendações no sentido de privilegiar avaliações presenciais, como exames ou trabalhos elaborados nas aulas. Os que forem realizados fora das salas terão de contemplar uma apresentação oral com um peso significativo na nota — entre 50% e 60% no caso de teses de mestrado e doutoramento — para “confirmar a autoria do trabalho”. E será exigido aos alunos que declarem em que tarefas ou fases da investigação usaram estas tecnologias. “Fugimos do modelo proibicionista. A nossa ideia é mitigar os riscos da utilização da IA generativa, potenciando as suas vantagens”, explica Tiago Cruz Gonçalves, professor do ISEG e membro do grupo de trabalho que produziu estas recomendações.

ERROS, FALSIDADES E ALUCINAÇÕES

Nas suas aulas, o docente ajuda os alunos a usar o ChatGPT ou o Bing para melhorarem a pesquisa, alertando-os para os riscos: ao recorrerem a uma quantidade gigantesca de informação disponível na internet sem distinguir o que é verdadeiro ou falso, estas ferramentas podem reproduzir erros e fontes que não são fiáveis e replicar “enviesamentos cognitivos”, geográficos ou de género, por exemplo.

Na Escola de Tecnologias Aplicadas do ISCTE este tipo de formação é obrigatória para os estudantes de todas as licenciaturas. No módulo Trabalho Académico com IA os jovens aprendem a usar devidamente estas aplicações, até porque a qualidade dos textos produzidos depende da forma mais ou menos sofisticada como lhes forem dadas as instruções e for formulada a pergunta ou o pedido. E ganham consciência das limitações desta tecnologia — que não são poucas. “O ChatGPT tem grande dificuldade em apresentar os dados que sustentam as afirmações que produz e não refere as fontes em que se fundamenta. Quando pedimos as referências bibliográficas em que se baseia, muitas vezes alucina e inventa, invocando artigos científicos que não existem”, adverte o diretor da escola, Ricardo Paes Mamede.

Ainda assim, o docente considera que a ferramenta “é muito boa a organizar e sintetizar argumentos” e tem uma ótima qualidade de escrita, “melhor do que a da maioria dos alunos”. Foi isso, aliás, o que o levou a perceber que a tese de mestrado que um orientando lhe apresentou não tinha sido produzida por ele mas pela aplicação. Conhecia bem a escrita do aluno e não batia certo com o que via à sua frente. “Do ponto de vista da estrutura do texto e da redação, foi a dissertação mais bem escrita que já alguma vez vi”, diz. Mas, além de constituir uma fraude, a tese não era apresentável, por não conter quaisquer referências ou citações ao longo do texto nem fundamentar as afirmações, violando um princípio básico da ciência.

Ricardo Paes Mamede deu duas opções ao aluno: ou refazia a tese por ele próprio ou tinha de referir as fontes em que esta se baseava. Sem conseguir encontrá-las, o jovem acabou por apresentar uma dissertação efetivamente sua, usando a aprendizagem do ChatGPT apenas para melhorar a sua redação. “Pode estar menos bem escrita ou pior estruturada, mas é dele, é original, e refere as fontes que consultou. Isso é o mais importante”, salienta. Agora, o diretor do ISCTE Sintra incentiva os estudantes a recorrerem à IA generativa sobretudo para rever e aprimorar os textos que produzem, melhorando a escrita e a estrutura. Desse modo aprenderão a dominar uma tecnologia emergente respeitando princípios éticos e científicos.

HUMANO VS. MÁQUINA

Depois do surgimento do ChatGPT, muitas plataformas de deteção de plágio usadas pelas universidades receberam atualizações para abranger também a deteção de escrita gerada por inteligência artificial, indicando o grau de probabilidade de determinado texto ter sido escrito por uma máquina. Um pouco por todo o mundo, os professores têm recorrido a estes softwares para perceber se há fraude na autoria dos trabalhos, mas os resultados ainda são pouco fiáveis.

Foi o que Rui Sousa Silva comprovou. Sendo especialista em linguística forense e deteção de plágio, conseguiu perceber a fraude, depois confessada pelos alunos, mas o software foi incapaz de a detetar. E também já foram reportados casos em que aconteceu o oposto, isto é, em que o software gerou “falsos positivos”. Por exemplo, uma destas plataformas apontou como muito provável a Constituição dos EUA ter sido escrita pelo ChatGPT. Assim sendo, há a possibilidade real de alunos inocentes serem injustamente acusados e de colegas fraudulentos escaparem impunes. “Todas as ferramentas que vi até agora falham bastante na deteção da IA. E pairar um ambiente de dúvida é muito pouco saudável”, diz o docente.

André Casado, professor na Faculdade de Ciências Humanas da Universidade Católica, confrontou-se este ano com o peso dessa incerteza. A tese de mestrado de um aluno seu na área de Marketing foi classificada pelo software usado pela instituição como tendo uma probabilidade superior a 50% de ter sido escrita por IA, mas o estudante não assumiu. “Não temos como provar”, assume o professor. É a palavra de um humano contra o veredicto de uma máquina sobre se a tese é, afinal, do humano ou da máquina.

Entre tantas incertezas, as universidades estão ainda a refletir sobre como devem proceder. Ninguém duvida das potencialidades desta tecnologia, mas são também muitos os re­ceios. “Pode ser bastante enriquecedora para o ensino e para a ciência. Mas se for usada sem controlo, vai acabar por condenar o pensamento e a escrita”, teme Rui Sousa Silva.

FRASES

“Não há como proibir as tecnologias de IA no ensino. Por isso, devem ser usadas por todos, em condições controladas, para se perceber como se pode tirar partido delas”

Rogério Colaço

Presidente do Instituto Superior Técnico

“O ChatGPT pode ser bastante enriquecedor para o ensino e para a ciência. Mas se for usado sem controlo, vai acabar por condenar o pensamento e a escrita”

Rui Sousa Silva

Professor da Faculdade de Letras do Porto

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2662/html/primeiro-caderno/sociedade/ia-obriga-faculdades-a-mudar-avaliacao-de-alunos-

segunda-feira, 17 de março de 2008

Os movimentos sociais e o movimento estudantil


Com a redemocratização da vida política no Brasil, a partir dos anos 70, surgiram novos protagonistas da luta de classes no país: os movimentos sociais. Desde então, compreender sua dinâmica, características e funcionamento, tem sido um desafio. Muito tem sido produzido sobre a natureza dos movimentos sociais surgidos no Brasil a partir da abertura políticas da década de 70, com destaque aos estudos sobre o surgimento do MST, da CUT, das Comunidades Eclesiais de Base (CEB’s) e sobre a reorganização do movimento estudantil com a refundação da UNE, em 1979.


Por Juliano Medeiros*



Mas afinal, que novidades trouxeram à vida política do país estes movimentos sociais? Não existiram movimentos sociais até a década de 70? E quais as características gerais destes movimentos? Quais suas contribuições à luta anticapitalista? Qual sua semelhança com os movimentos sociais na Europa? Estas são algumas das muitas perguntas que surgem diante do desafio de conhecer os movimentos sociais e caracteriza-los minimamente.


Evidentemente, os movimentos sociais no Brasil não surgem apenas como fenômeno da redemocratização. O ativo movimento camponês, sindical e estudantil pré-1964 são prova disso. Porém, com o golpe militar e o aumento da repressão às organizações populares a partir da edição do Ato Institucional nº5, em 1969, o movimento de massas regrediu, perdendo força gradualmente, ao mesmo tempo em que se multiplicavam as pequenas organizações de vanguarda. Após um período de luta quase absolutamente clandestina (entre 1968 e 1977), surgem do combate ao regime militar novas expressões da luta social de massas, como as Comunidades Eclesiais de Base e o vigoroso movimento operário do ABC paulista. Em 1979 acontece o congresso de refundação da UNE e no início dos anos 80 nascem a CUT e o MST, inaugurando um período de ascenso da luta popular no Brasil.


Em busca de um conceito


Nas últimas décadas o capitalismo passou por inúmeras transformações. Estas transformações criaram novas contradições ao capital, tanto no âmbito de sua reprodução quanto no âmbito de suas conseqüências mais gerais (a questão ambiental, por exemplo). Isto não significa que estas mudanças tenham alterado a contradição "capital versus trabalho", mas que em diversos aspectos, a reestruturação produtiva fez surgir novas condições de exploração que apresentam desafios a uma crítica radical de seus efeitos. Em outras palavras, em momentos de crise como os vividos pelo capital com a desaceleração que se inicia nos anos 60, surgem novas contradições, que se movimentam no interior de dadas condições, apresentando novas demandas e desafios. O neoliberalismo é uma expressão deste fenômeno. Conforme destaca Boaventura (1995):


É, por exemplo, seguro dizer que a difusão social da produção contribuiu para desocultar novas formas de opressão e que o isolamento político do movimento operário facilitou a emergência de novos sujeitos sociais e de novas práticas de mobilização social.
Ainda que o referido "isolamento político do movimento operário" seja no Brasil um fenômeno bem mais recente que na Europa, é inegável sua contribuição para o fortalecimento de novas expressões da luta popular. Por exemplo, poucos anos atrás seria impensável o surgimento de um "movimento de desempregados" fora da esfera da luta sindical, o que hoje já é uma realidade em várias cidades do Brasil com o Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD).


Em linhas gerais, podemos dizer que os movimentos sociais são a expressão organizada do descontentamento social frente às limitações estruturais do capitalismo. Este descontentamento pode tomar variadas formas, do corporativismo à luta de classes franca e aberta. Como assinala o filósofo István Mészáros (2002), os limites dos movimentos sociais europeus, cuja principal expressão são o "ambientalismo" e certos "feminismos", está exatamente na ausência de uma crítica radical dos efeitos da ordem do capital sobre a vida humana, as relações sociais e o planeta. Um conceito que nos é oferecido por Dalton e Kuechler (1990) diz que os movimentos sociais são "um setor significativo da população que desenvolve e define interesses incompatíveis com a ordem política e social existente e que os persegue por vias não institucionalizadas, invocando potencialmente o uso da força física ou da coerção" (p. 227).


Este conceito, pelo nível de abrangência, pouco explica certas especificidades dos movimentos sociais. Se nos países centrais os principais movimentos hoje são o movimento feminista, ecológico e pacifista, na América Latina temos o MST, as CEB’s e Pastorais, os piqueteros, o movimento indígena na Bolívia, México e Equador, etc. Em nosso continente os movimentos sociais têm conseguido, ao contrário da Europa, dar uma dimensão universalizante à suas pautas[3]. Neste sentido, os movimentos sociais na América Latina, notadamente no Brasil, são a expressão da ampliação dos limites da ação política para além do binômio partido/sindicato a partir de demandas historicamente represadas pelas classes dominantes, como a reforma agrária.


Isto porque, como desataca Mészáros (2002), dado o patamar social historicamente alcançado do antagonismo entre capital e trabalho, não há possibilidade de "emancipação parcial" ou "libertação gradual". Não há libertação da mulher no capitalismo, ou capitalismo sustentável, ao contrário do que afirmam os movimentos feminista e ambiental na Europa, afinados com a perspectiva social-democrata.


Devido às próprias características da sociedade brasileira, combinam-se nela movimentos típicos de países centrais (movimento ecológico ou feminista – ainda que com reivindicações concretas e perspectivas estratégicas distintas) e movimentos orientados para o enfrentamento de problemas próprios de nossa formação social, como o Movimento dos Sem Terra e sua luta por reforma agrária (SANTOS, 1995). Como conseqüência, com a ofensiva neoliberal desencadeada nos anos 90 parcela importante dos movimentos sociais se tornou linha de frente na luta contra o neoliberalismo, colocando em xeque a primazia do operariado na condição de direção da luta de classes.


O movimento estudantil


O movimento estudantil é um movimento social de massas, pluriclassista, formado em sua grande maioria por jovens. Podemos encontrar seus vestígios desde o século XV. A Sorbone conheceu nove meses de greves em 1443 em defesa de imunidades fiscais e contra a submissão da universidade ao Parlamento de Paris. Dez anos depois, a universidade entrou novamente em greve, em protesto pela morte de um estudante.


Na América Latina, o movimento estudantil deu seus primeiros passos na Revolta de Córdoba, o chamado Cordobazo, a primeira greve estudantil do continente, quando dezenas de estudantes da Universidade de Córdoba, Argentina, perderam a vida lutando pela reforma universitária e o fim da estrutura medieval da universidade. No Brasil, o movimento estudantil ganhou expressão nacional e peso social, a partir da fundação da UNE, em 1937.


O movimento estudantil é um movimento social da educação. Nem, por isso é um movimento social essencialmente progressista. Está em disputa, sofrendo e reproduzindo as tensões presentes na sociedade, podendo, diante de determinadas condições, caminhar na direção de uma ação transformadora. Nessa perspectiva, grande parte de suas lutas está vinculada à defesa da garantia de direitos como a universalização do ensino superior público, a regulamentação do ensino privado, a garantia de métodos de avaliação institucional socialmente referenciados, o funcionamento democrático das instituições de ensino, etc. Todavia, no decorrer do século XX o movimento estudantil destacou-se exatamente por sua capacidade de transpor os muros das escolas e universidades e dar expressão de massas a temas universais. Foi assim na França em maio de 1968, quando o movimento estudantil expressou o questionamento e a crítica aos costumes e valores dominantes da época. No Brasil, o movimento estudantil esteve presente nos principais momentos da vida política do país. Foi assim na campanha "O Petróleo é nosso", na luta contra o nazi-fascismo na década de 40 ou contra a ditadura militar a partir de 1964; na defesa das eleições diretas ou na luta pela anistia dos presos políticos. Na defesa da redemocratização, o movimento estudantil voltou às ruas. Não limitou suas reivindicações apenas aos temas relacionados à educação, sendo solidário com as lideranças operárias e populares na luta contra o regime militar.


Nos anos 90, o movimento estudantil, assim como grande parte dos movimentos sociais, atravessou um refluxo de lutas e mobilizações. A partir do "Fora Collor", em 1992, as entidades nacionais deram poucas respostas aos ataques do neoliberalismo à educação pública. Mesmo em momentos de maior acirramento, como na greve das universidades federais em 1998, a direção da principal entidade nacional dos estudantes, a UNE, pouco fez para garantir a direção política do movimento.


A ofensiva neoliberal provocou efeitos devastadores sobre a juventude brasileira. Os índices de participação política dos jovens são decrescentes e a crise do movimento estudantil – que não se resume a uma "crise de direção" – teve efeitos dramáticos. Os valores e práticas dominantes disseminam-se pelo movimento estudantil, provocando um processo de cooptação e burocratização que compromete uma geração inteira de lutadores e lutadoras. Superar esta situação, disputando os rumos do movimento estudantil a partir de uma nova concepção de movimento, democrática, radical, combativa e autônoma é tarefa central.


A unidade do movimento estudantil com os demais movimentos sociais é condição fundamental para o desenvolvimento destas novas práticas. Superar a relação utilitária de setores dos movimentos sociais com o movimento estudantil pode fazer avançar as lutas contra o neoliberalismo. Alguns passos significativos foram dados em 2007, como na luta contra os convênios da Aracruz Celulose com a UFES e UFRGS, quando centenas de mulheres camponesas e estudantes barraram o convênio desta empresa com a universidade na defesa da educação pública e da função social da pesquisa nas universidades federias.
Tarefas, limites e possibilidades


O neoliberalismo provoca um fenômeno contraditório. Se por um lado, a ofensiva ideológica sobre a sociedade em geral, e a juventude em particular, dificultam nosso trabalho de disputa da consciência do povo para um projeto anticapitalista, por outro as tensões que se acumulam a partir das injustiças provocada pela lógica do próprio sistema podem favorecer explosões sociais que se generalizem com rapidez e intensidade. Por isso, o principal desafio do movimento social é articular trabalho de base, organização popular e agitação anticapitalista.


A partir dos anos de 1990, ingressamos num longo período de refluxo das lutas sociais. A ofensiva do capital ao aumentar as taxas de exploração causou profundo impacto na organização da classe trabalhadora. Desde a derrota da greve nacional dos petroleiros, em 1995, o movimento sindical não mais conseguiu enfrentar o bloqueio jurídico repressivo, mantendo mobilizações que, embora importantes, permanecem localizadas, de impacto restrito e corporativo. As demais mobilizações dos movimentos sociais, embora importantes para a organização dos trabalhadores, não conseguiram até o momento alterar essa correlação de forças.


Por isso, deve ser objetivo central dos movimentos sociais no curto prazo a articulação de uma grande frente contra o neoliberalismo, capaz de derrotar seu principal sustentáculo político na atual conjuntura – o governo Lula e seus aliados – e iniciar um novo ciclo de vitórias e conquistas. Para isso, a unidade dos lutadores e lutadoras sociais é imprescindível.


Sendo o movimento estudantil um movimento social capaz de dar expressão de massas a diversas demandas populares, seu desafio é articular a luta em defesa da educação pública, gratuita e de qualidade com a luta anticapitalista em suas mais variadas expressões. Para isso, é preciso articular três objetivos centrais:


a) Unidade dos movimentos sociais contra o neoliberalismo


O fim do ciclo de unidade em torno de uma única alternativa partidária e o esgotamento político, ideológico e moral desta alternativa, iniciou um processo de dispersão das forças populares em diversas propostas organizativas. Em que pese a centralidade do papel do partido político como espaço capaz de universalizar as diversas demandas da luta socialista, o enfraquecimento desta referência traz, sem dúvida, uma maior dificuldade em garantir a unidade daqueles que lutam contra o neoliberalismo. Entretanto, recentemente os setores populares deram mostras de sua capacidade de unidade em pelo menos três episódios importantes.


A primeira delas, a Jornada Nacional em Defesa da Educação Pública, articulada por entidades e movimentos como a UNE, Ubes, MST, Conlutas, Intersindical, entre outros, que organizou dezenas de atos em várias capitais, colocando na pauta política do país a democratização do acesso e a qualidade no ensino público a partir de uma agenda consensual de 18 pontos para a educação brasileira.


Um segundo momento importante foi o Plebiscito Popular pela anulação do leilão da Cia. Vale do Rio Doce. O Plebiscito, ainda que com enormes dificuldades, foi um marco na luta em defesa da soberania nacional, colocando no centro da agenda dos movimentos sociais o debate em torno do desmonte do Estado brasileiro operado pelo governo FHC e continuado pelo governo Lula. Os mais de três milhões de participantes no Plebiscito foram a prova da capacidade dos movimentos sociais em articular grandes temas numa escala de massas.


Um terceiro episódio que mostrou a possibilidade de unidade dos movimentos sociais, desta vez contra as políticas neoliberais do governo Lula, se deu no amplo movimento de solidariedade à greve de fome do Bispo Dom Luiz Cappio contra a transposição do Rio São Francisco. A truculência do governo federal ao não cumprir o acordo que previa a realização de um amplo debate público sobre os impactos ambientais e sociais da transposição, a intransigência do presidente e seus ministros mais conservadores em negociar condições para o fim da greve de fome de Dom Cappio, e a capacidade dos movimentos sociais em dar expressão de massas à crítica do Bispo à transposição, despertou a atenção da sociedade e colocou amplos setores do povo a favor da greve de fome e contra as obras no São Francisco.


Estes foram três episódios que demonstram a capacidade dos movimentos sociais em garantir uma agenda consensual de luta contra o neoliberalismo. Evidentemente, houve inúmeros retrocessos em todos estes processos, como na posição da CUT e da UNE em relação às perguntas do Plebiscito da Vale do Rio Doce, ou na greve de fome de Dom Luiz Cappio, quando estas entidades perderam a oportunidade de se manifestar abertamente contra a transposição. De qualquer forma, seja pelo governismo de certos setores, seja pelo sectarismo de outros, a unidade dos movimentos sociais segue sendo um desafio que devemos perseguir, e o movimento estudantil, como já demonstrou nestes e em outro episódios, tem plenas condições de dar uma contribuição decisiva.


b) Articulação de plataformas comuns entre os diversos movimentos sociais


Uma das tarefas centrais do movimento estudantil é retomar sua capacidade de articular plataformas comuns entre os diversos movimentos sociais. A atual conjuntura, de refluxo do movimento de massas, e de divisão dos lutadores e lutadoras do movimento estudantil em diversos movimentos, campos e entidades, torna esta tarefa ainda mais complexa.


O ano que passou foi marcado por avanços importantes na unidade dos setores populares. Para além dos episódios destacados anteriormente – Jornada em Defesa da Educação, Plebiscito da Vale e solidariedade à greve de fome de Dom Cappio – houve outras iniciativas que buscaram garantir a articulação de uma agenda comum de lutas entre os diversos movimentos sociais. Neste espírito aconteceu, em março de 2007, o Encontro Nacional contra as reformas neoliberais que reuniu mais de 6000 lutadores e lutadoras de diversos setores com o objetivo de garantir um calendário comum de lutas. Nesta ocasião surgiu o Fórum Nacional de Mobilização, formado por Intersindical, Conlutas, Pastorais Sociais, Oposição de Esquerda da UNE e entidades do movimento sindical, popular e estudantil em geral. Este Encontro aprovou a construção do dia 23 de maio como dia nacional de defesa do serviço público, a participação no dia 17 de abril em memória dos 11 anos do massacre de Eldorado dos Carajás, em conjunto com o MST, e a vitoriosa marcha do dia 24 de outubro em Brasília que reuniu mais 15 mil lutadores de todo o Brasil, repudiando a reforma da previdência preparada por Lula.


Entretanto, estas iniciativas não contaram com a participação de setores importantes do movimento social brasileiro. UNE e Ubes, por exemplo, seguiram tendo uma postura de tibieza diante das principais mobilizações que ocorreram em 2007. Em alguns casos, como na luta contra o REUNI, a posição aprovada pela direção majoritária da UNE tomou o sentido oposto ao das mobilizações que explodiram pelas diversas universidades federais país afora, colocando-se como fiadora das políticas educacionais do governo Lula. Em outros casos, como no Plebiscito da Vale do Rio Doce, a direção majoritária da UNE e a CUT foram contra a inclusão de qualquer pergunta que pudesse colocar em xeque as políticas do governo federal. Assim, estes setores dificultam a unidade dos movimentos sociais e desrespeitam a autonomia que estas entidades deveriam guardar em relação ao governo Lula.


c) Construção de uma ampla rede de agitação e propaganda antineoliberal


Por último, uma tarefa central na articulação entre o movimento estudantil e os demais movimentos sociais é a constituição de uma ampla rede de agitação e propaganda antineoliberal. Isto significa trabalhar pela rearticulação de uma corrente de pensamento contra-hegemônica de massas, através de meios tais como jornais, sites, campanhas públicas, etc. Entre os temas que devem compor uma agenda de lutas e mobilizações contra as políticas neoliberais em curso no Brasil estão: a) fim do monopólio dos meios de comunicação; b) reforma agrária já; c) contra a precarização e ataque aos direitos previdenciários e trabalhistas; d) redução da jornada de trabalho, sem redução de trabalho; e) suspensão do pagamento das dívida externa, com auditoria; f) pelo fim das privatizações e das Parcerias-Público-Privadas (PPP’s); g) reestatização da Cia. Vale do Rio Doce; h) defesa dos direitos dos povos indígenas e demarcação de suas terras; i) reforma tributária que taxe as grandes riquezas e controle a entrada e saída e capitais; j) abertura imediata de todos os arquivos da ditadura militar e punição de todos os crimes cometidos pelo regime militar; l) retirada imediata das tropas brasileiras do Haiti; m) fim da Desvinculação dos Recursos da União (DRU).


Estas são apenas algumas dos temas que poderiam compor uma plataforma para a esquerda brasileira em geral e para os movimentos sociais em particular. Cabe ao movimento estudantil trabalhar para ir além dos limites de sua direção nacional contribuindo para fazer avançar a unidade dos que lutam sinceramente contra o neoliberalismo.


* Juliano Medeiros é diretor de Movimentos Sociais da União Nacional dos Estudantes (UNE)


Fonte: Estudantenet

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in VERMELHO 15 DE MARÇO DE 2008 - 19h29

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terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Millenium on line - uma revista a folhear



Números anteriores da Revista Millenium

Número 1 - Fevereiro de 1996 ( Em Torno do Conceito de Ciência )
Número 2 - Abril de 1996 ( Debate sobre "O Erro de Descartes" )
Número 3 - Junho de 1996 ( Educação Matemática )
Número 4 - Outubro de 1996 ( Escola Superior Agrária )

Número 5 - Janeiro de 1997 ( A relação Ensino Superior / Empresa )
Número 6 - Março de 1997 ( Problemáticas das Ciências da Educação )
Número 7 - Julho de 1997 ( Ambiente )
Número 8 - Outubro de 1997 ( Português )

Número 9 - Janeiro de 1998 ( Ciências da Educação )
Número 10 - Abril de 1998 ( Educação Física )
Número 11 - Julho de 1998 ( Internacionalização da Educação )
Número 12 - Outubro de 1998 ( José Saramago - Prémio Nobel da Literatura )

Número 13 - Janeiro de 1999 ( O Presidente da República no I.S.P.V. )
Número 14 - Abril de 1999 ( 16.º Aniversário da E.S.E.V. )
Número 15 - Junho de 1999 ( Área Científica de Inglês da E.S.E.V. )
Número 16 - Outubro de 1999 ( 2.º MatViseu )

Número 17 - Janeiro de 2000 ( Ano Mundial da Matemática )
Número 18 - Março de 2000 ( E A I E - European Association for International Education )
Número 19 - Junho de 2000 ( Ano Mundial da Matemática )
Número 20 - Outubro de 2000 ( Ano Mundial da Matemática )

Número 21 - Janeiro de 2001 ( EURASHE - Associação Europeia de Instituições de Ensino Superior )
Número 22 - Abril de 2001 ( VISEU - herança cultural )
Número 23 - Agosto de 2001 ( Ano Europeu das Línguas )
Número 24 - Outubro de 2001 ( Dep. Matemática ESTV )

Número 25 - Janeiro de 2002 (EVT - ESEV)
Número 26 - Julho de 2002 (ESenf)

Número 27 - Abril de 2003
Número 28 - Outubro de 2003

Número 29 - Junho de 2004
Número 30 - Outubro de 2004 (30 anos da Escola Superior de Enfermagem de Viseu)

Número 31 - Maio de 2005

Número 32 - Fevereiro de 2006
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