* Papiniano Carlos
Vós podeis, tiranos, forjar ainda mais sólidas algemas,
chapear de aço as paredes das nossas e vossas cadeias,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, cravar mais fundo as vossas baionetas,
esmagar-nos nas ruas debaixo das patas dos vossos cavalos,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, roubar, incendiar, fuzilar sem descanso,
vedar os caminhos ainda livres, envenenar as fontes ainda puras,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, vir de novo descarregar a vossa cólera
sobre Oradour,
lançar vossa chuva de raios sobre nosso humano desejo de viver,
e fazê-lo-eis,
Vós podeis, tiranos, inventar ainda piores suplícios,
mordaças mais espessas, baixezas mil vezes mais desumanas
para Buchenwald,
inutilmente o fareis:
Esta simples criancinha dormindo em seu berço,
este menino ainda na barriga de sua mãe, olhai
como vos fitam
serenos e terríveis.
Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
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terça-feira, 7 de novembro de 2017
sábado, 9 de março de 2013
Era de noite e levaram, Catarina
AO RETRATO DE CATARINA
(Carlos Aboim Inglez)
Esses teus olhos enxutos
Num fundo cavo de olheiras
Esses lábios resolutos
Boca de falas inteiras
Essa fronte aonde os brutos
Vararam balas certeiras
... Contam certa a tua vida
Vida de lida e de luta
De fome tão sem medida
Que os campos todos enluta
Ceifou-te ceifeira a morte
Antes da própria sazão
Quando o teu altivo porte
Fazia sombra ao patrão
Sua lei ditou-te a sorte
Negra bala foi teu pão
E o pão por nós semeado
Com nosso suor colhido
Pelo pobre é amassado
Pelo rico só repartido
Tanta seara continhas
Visível já nas entranhas
Em teu ventre a vida tinhas
Na morte certeza tenhas
Malditas ervas daninhas
Hão-de ter mondas tamanhas
Searas de grã estatura
De raiva surda e vingança
Crescerão da tua esperança
Ceifada sem ser madura
Teus destinos Catarina
Não findaram sem renovo
Tiveram morte assassina
Hão-de ter vida de novo
Na semente que germina
Dos destinos do teu povo
E na noite negra negra
Do teu cabelo revolto
nasce a Manhã do teu rosto
No futuro de olhos posto
(Carlos Aboim Inglez)
Esses teus olhos enxutos
Num fundo cavo de olheiras
Esses lábios resolutos
Boca de falas inteiras
Essa fronte aonde os brutos
Vararam balas certeiras
... Contam certa a tua vida
Vida de lida e de luta
De fome tão sem medida
Que os campos todos enluta
Ceifou-te ceifeira a morte
Antes da própria sazão
Quando o teu altivo porte
Fazia sombra ao patrão
Sua lei ditou-te a sorte
Negra bala foi teu pão
E o pão por nós semeado
Com nosso suor colhido
Pelo pobre é amassado
Pelo rico só repartido
Tanta seara continhas
Visível já nas entranhas
Em teu ventre a vida tinhas
Na morte certeza tenhas
Malditas ervas daninhas
Hão-de ter mondas tamanhas
Searas de grã estatura
De raiva surda e vingança
Crescerão da tua esperança
Ceifada sem ser madura
Teus destinos Catarina
Não findaram sem renovo
Tiveram morte assassina
Hão-de ter vida de novo
Na semente que germina
Dos destinos do teu povo
E na noite negra negra
Do teu cabelo revolto
nasce a Manhã do teu rosto
No futuro de olhos posto
*****
Rosa de Sangue
(António Ferreira Guedes)

Na fome verde das searas roxas
Passeava sorrindo Catarina
Na fome verde das searas roxas
Ai a papoila cresce na campina!
Na fome roxa das searas negras
Que escondes, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
Ai devoraram corvos o horizonte!
Na fome negra das searas rubras
Ai da papoila, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
Trinta balas gritaram na campina
Trinta balas te mataram a fome
A fome, Catarina
*****
Podes mudar de nome, carrajola
pôr umas asas brancas, arvorar
... um ar contrito,
dizer que não, que não foi contigo,
disfarçar-te de andorinha, de sobreiro ou de velhinha,
podes mudar de nome, carrajola,
de aldeia, de vila ou de cidade
— és como um percevejo num lençol!
Quando tivermos Portugal nos braços
e pudermos amá-lo sem sofrer,
quando o Alentejo se puser a rir,
Catarina Eufémia, minha irmã,
então o teu filho há-de nascer!
O’Neill, Alexandre, Coração Acordeão, Lisboa: O Independente, 2004
(previamente publicado na Flama, 24 de Maio de 1974)
http://asfolhasardem.wordpress.com/2011/01/04/alexandre-oneill-um-poema-que-circulou-na-clandestinidade/
*****
.
Portugal ressuscitado
(José Carlos Ary dos Santos)
.
(...)
Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.
Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.
(...)
.
Podes ouvir aqui este excerto, na voz de Ary dos Santos
.
`*****
.







.
Os olhos dos camponeses
são fogos na madrugada
Mal o seu corpo tombou
a noite ficou cerrada.
...
Tiros soaram longe
no silêncio da campina
Rosa de sangue brotou
dos seios de Catarina.
Maduro se faz o trigo
em terra sem ser regada
Quem no sangue semeou
há de colher uma espada.
Os olhos dos camponeses
são fogos na madrugada
Mal o seu corpo tombou
a noite ficou cerrada.
Tiros soaram longe
no silêncio da campina
Rosa de sangue brotou
dos seios de Catarina.
Maduro se faz o trigo
em terra sem ser regada
Quem no sangue semeou
há de colher uma espada.
Os olhos dos camponeses
são fogos na madrugada
Mal o seu corpo tombou
a noite ficou cerrada.
*****
CANÇÃO DE CATARINA
(Papiniano Carlos)
Na fome verde das searas roxas
Passeava sorrindo Catarina
Na fome verde das searas roxas
Ai a papoila cresce na campina!
Na fome roxa das searas negras
Que escondes, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
Ai devoraram corvos o horizonte!
Na fome negra das searas rubras
Ai da papoila, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
Trinta balas gritaram na campina
Trinta balas te mataram a fome
A fome, Catarina
~~~~~~~~~~~~~~
ERA DE NOITE E LEVARAM
(Luís Andrade)
Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia
Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria
Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que na casa havia
na casa havia, na casa havia
Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia
casa vazia, casa vazia
Rosa branca, rosa fria
Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada
Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada, na madrugada
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia
Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria
Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que na casa havia
na casa havia, na casa havia
Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia
casa vazia, casa vazia
Rosa branca, rosa fria
Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada
Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada, na madrugada
*****
ABANDONO (FADO DE PENICHE)
(David Mourão-Ferreira)
Por teu livre pensamento
foram-te longe encerrar.
Tão longe que o meu lamento
não te consegue alcançar.
E apenas ouves o vento.
E apenas ouves o mar.
Levaram-te a meio da noite:
a treva tudo cobria.
Foi de noite, numa noite
de todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite,
e nunca mais se fez dia.
Ai dessa noite o veneno
persiste em me envenenar.
Ouço apenas o silêncio
que ficou em teu lugar
Ao menos ouves o vento!
Ao menos ouves o mar!
Tão longe que o meu lamento
não te consegue alcançar.
E apenas ouves o vento.
E apenas ouves o mar.
Levaram-te a meio da noite:
a treva tudo cobria.
Foi de noite, numa noite
de todas a mais sombria.
Foi de noite, foi de noite,
e nunca mais se fez dia.
Ai dessa noite o veneno
persiste em me envenenar.
Ouço apenas o silêncio
que ficou em teu lugar
Ao menos ouves o vento!
Ao menos ouves o mar!
*****
À MEMÓRIA DE CATARINA EUFÉMIA
(Alexandre O'Neill)
Podes mudar de nome, carrajola
pôr umas asas brancas, arvorar
... um ar contrito,
dizer que não, que não foi contigo,
disfarçar-te de andorinha, de sobreiro ou de velhinha,
podes mudar de nome, carrajola,
de aldeia, de vila ou de cidade
— és como um percevejo num lençol!
Quando tivermos Portugal nos braços
e pudermos amá-lo sem sofrer,
quando o Alentejo se puser a rir,
Catarina Eufémia, minha irmã,
então o teu filho há-de nascer!
O’Neill, Alexandre, Coração Acordeão, Lisboa: O Independente, 2004
(previamente publicado na Flama, 24 de Maio de 1974)
http://asfolhasardem.wordpress.com/2011/01/04/alexandre-oneill-um-poema-que-circulou-na-clandestinidade/
.
Portugal ressuscitado
(José Carlos Ary dos Santos)
.
(...)
Esses que tinham lutado
a defender um irmão
esses que tinham passado
o horror da solidão
esses que tinham jurado
sobre uma côdea de pão
ver o povo libertado
do terror da opressão.
Não tinham armas é certo
mas tinham toda a razão
quando um homem morre perto
tem de haver distanciação
uma pistola guardada
nas dobras da sua opção
uma bala disparada
contra a sua própria mão
e uma força perseguida
que na escolha do mais forte
faz com que a força da vida
seja maior do que a morte.
(...)
.
Podes ouvir aqui este excerto, na voz de Ary dos Santos
.
.

Cartaz para a libertação dos presos políticos no Chile de Pinochet

Forte de Caxias

Campo de Concentração do Tarrafal - a frigideira

Libertação dos presos políticos, que a Junta de Salvação Nacional presidida por Spínola tentou impedir, ao mesmo tempo que tentava manter a PIDE e a proibição dos partidos políticos, incluindo o PCP



quinta-feira, 10 de janeiro de 2013
Papiniano Carlos - Presente ainda hoje e sempre
- Fernando Miguel Bernardes
Papiniano Carlos
Presente ainda hoje e sempre
Presente ainda hoje e sempre
A voz e o gesto de Papiniano Carlos colocam-nos desde o primeiro contacto com a sua pessoa perante uma personalidade muito apreciável. Um misto de modéstia e de firmeza clamam perante nós que há um Homem em nossa frente que nos quer ouvir e nos quer falar, dar e receber o que de melhor houver no ser complexo que cada um de nós constitui e ali está presente.
A sua serenidade impõe-se, sem que de qualquer modo Papiniano dê mostras de querer suplantar-se a quem o acompanhe. Antes pelo contrário, Papiniano amodesta-se, como que oferece ao seu interlocutor a oportunidade de conduzir a relação amigável.
Um ser ameno e calmo foi o que sempre senti ao meu lado quando com ele tive a oportunidade de me encontrar. Um homem que sabe também não ser devedor de gentilezas, pois desta qualidade possui ele avonde no seu íntimo generoso.
Quando em 1958 obtive o seu livro de poemas Caminhemos Serenos não pude deixar de sorrir perante o título: onde um casamento mais perfeito entre a epígrafe de um livro e o seu autor? E pensei: se me propusessem a adivinha, mostrando-me a capa e ocultando-me em cima o nome do escritor, «Quem é ele?», perguntavam-me, e se principalmente no Porto nos encontrássemos, creio ainda hoje que não podia deixar de acertar: «Papiniano Carlos, pois quem mais poderá ser?»
Mas, atenção!, serenidade em Papiniano não rima com forçada calma; e muito menos com indiferença. Abro, para matar saudades, aquele velho livro e à sorte sai-me o poema:
INSCRIÇÃO
Aqueles que para vencer-te pulverizaram
tua carne teu último reduto grita-lhes
que no centro do último átomo resistes
esperas a primavera
Para consolo nosso, deixem-me pôr mais este:
RETRATO
Eis a montanha brava
mai-la sua face mansa:
É no fundo que dormem
as torrentes de lava:
Violado, mísero homem,
em ti próprio guardas
tua cólera, tua esperança.
Aqui está, quanto a mim, nestes simples exemplos, o que diríamos um auto-retrato do autor: na sua face mansa guardadas andam sua cólera, sua esperança – e a Primavera. E sua revolta, sua confiança, acrescentarei, com a devida vénia eu, seu amigo de mais de meia vida.
Guardo na memória, rica de trágicos mas também de exaltantes acontecimentos vividos, uma passagem nos dias de Papiniano, que talvez tu, caro poeta e sensível autor de textos para crianças, tenhas olvidado: lembrar-te-ás certamente do julgamento, no Tribunal Plenário do Porto, dos 52 réus acusados de actividades contra a segurança interna e exterior do Estado, e recordarás que deles foste testemunha de defesa; aliás, como tantos outros homens e mulheres de prestígio em todo o País. O que talvez te tenha esquecido, pouco pensando em ti próprio como sempre, foi o episódio da tua identificação naquela qualidade. Perante os réus, os corajosos advogados que nos acompanhavam, e a assistência que, contra a vontade do tribunal e do regime que representava, sempre comparecia com o seu calor humano, perguntou-te o juiz presidente, às formalidades, o nome e a profissão. Declinaste a primeira parte, fizeste uma pausa; e o juiz: «Profissão?» Aí respondeste, sereno: «escrevo»... «Não lhe perguntei o que faz, pergunto-lhe a profissão!» Então tiveste mesmo de deixar a modéstia para outras ocasiões e, em voz alta, o que em ti era raro, avançaste: Sou escritor! Não calculas, querido amigo, como corei de prazer a essas palavras tuas. Ali tínhamos mais uma testemunha por inteiro, um homem assumido, uma profissão esclarecida, um humanista, um poeta que todos admirávamos.
E o melhor ainda foi depois: a defesa sincera, sentida, vivida, que fizeste, daquelas dezenas de jovens e outros já não tanto; e que com brio soubeste e quiseste assumir como um inconformado que também te sentias.
Assim apresentaste naquele acto, como testemunha de defesa, um libelo de acusação contra o regime que nos oprimia e ali nos julgava; como um resistente que tu próprio eras – e em nós serás, pois hoje não podemos de igual modo deixar concretizar aos «de cima» todas as iniquidades que pretendem, tal como naquelas datas não deixávamos o campo livre para que executassem todos os malefícios dos seus programas e respectivas intenções e práticas.
Assim interveniente, escritor comprometido, te vi e vejo, te conheci e conheço: mesmo agora, que em corpo nos deixaste.
Até sempre, companheiro!
__________
CAMINHEMOS SERENOS
(Para Julius e Ethel Rosemberg)
Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas,
caminhemos serenos.
De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade,
caminhemos serenos.
Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
dos que nem com a morte podem vencer-nos,
caminhemos serenos.
O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia connosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.
No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas, caminhemos serenos.
In «Caminhemos Serenos» - 1958
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Poesia
quinta-feira, 6 de dezembro de 2012
Poemas de Papiniano Carlos
Canção
Nas ruas exaustas de morte e silêncio,
entre rios mortos e áspera solidão,
passeio contigo, Afonso Duarte.
Sob teu rosto grave, teus nevados cabelos,
seara cansada de tantas espigas,
couves e rosas, Afonso Duarte.
Um galo canta longínquo, ou é tua voz
a seiva do chão, oculta e milenária,
a cantar ainda, Afonso Duarte?
Em teu jardim de angústia (ao longe o mar) colho
no ramo quebrado nossa ave imperecível
e a dor da Pátria, Afonso Duarte.
E vendo-te, raiz e flor, a meio do teu povo,
(eu mesmo cavo e sou quem poda a vida)
só te digo: Bom-dia, Afonso Duarte.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Caminhemos Serenos
Cântico
Poema
http://www.astormentas.com/PT/poemas/Papiniano%20Carlos/1
Na fome verde das searas roxas
passeava sorrindo Catarina.
Na fome verde das searas roxas
ai a papoula cresce na campina!
Na fome roxa das searas negras
que levas, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
ai devoravam os corvos o horizonte!
Na fome negra das searas rubras
ai da papoula, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
trinta balas gritaram na campina.
Trinta balas
te mataram a fome, Catarina.
passeava sorrindo Catarina.
Na fome verde das searas roxas
ai a papoula cresce na campina!
Na fome roxa das searas negras
que levas, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
ai devoravam os corvos o horizonte!
Na fome negra das searas rubras
ai da papoula, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
trinta balas gritaram na campina.
Trinta balas
te mataram a fome, Catarina.
____________________
Bom Dia, Afonso Duarte
entre rios mortos e áspera solidão,
passeio contigo, Afonso Duarte.
Sob teu rosto grave, teus nevados cabelos,
seara cansada de tantas espigas,
couves e rosas, Afonso Duarte.
Um galo canta longínquo, ou é tua voz
a seiva do chão, oculta e milenária,
a cantar ainda, Afonso Duarte?
Em teu jardim de angústia (ao longe o mar) colho
no ramo quebrado nossa ave imperecível
e a dor da Pátria, Afonso Duarte.
E vendo-te, raiz e flor, a meio do teu povo,
(eu mesmo cavo e sou quem poda a vida)
só te digo: Bom-dia, Afonso Duarte.
~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~
Caminhemos Serenos
Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
caminhemos serenos.
De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniqüidade
caminhemos serenos.
Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
caminhemos serenos.
O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia conosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.
No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
caminhemos serenos.
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
caminhemos serenos.
De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniqüidade
caminhemos serenos.
Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
caminhemos serenos.
O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia conosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.
No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
caminhemos serenos.
~~~~~~~~~~~~~~~~
Belo é ver florir os galhos
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:
Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza
é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.
das velhas árvores.
E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.
E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:
Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza
é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.
~~~~~~~~~~~~
Antes isto fosse
mãos e pés verdadeiros,
caminho verdadeiro
e machados,
arados,
mãos crescendo nas trevas.
Antes isto fosse
um canto de galos
além nos quintais,
e homens correndo
nas sombras da noite.
Ah, fossem isto ventos,
fossem isto ventos!
desabar de casas,
largada de navios
na madrugada
com acenos e gritos reais.
Fosse isto sangue
a ensopar-me a camisa,
fosse isto sangue!
quente e espesso
nas minhas mãos.
mãos e pés verdadeiros,
caminho verdadeiro
e machados,
arados,
mãos crescendo nas trevas.
Antes isto fosse
um canto de galos
além nos quintais,
e homens correndo
nas sombras da noite.
Ah, fossem isto ventos,
fossem isto ventos!
desabar de casas,
largada de navios
na madrugada
com acenos e gritos reais.
Fosse isto sangue
a ensopar-me a camisa,
fosse isto sangue!
quente e espesso
nas minhas mãos.
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Poesia
Papiniano Carlos: um voo sobre a cidade dos homens
N.º 1824
13.Novembro.2008
Muitos outros fizeram questão de estar presentes e se associarem a esta efeméride, como Armando Alves, que artisticamente concebeu a obra publicada a propósito desta data, outros que nela participam com os seus poemas, como Francisco Duarte Mangas, Albano Martins, José Viale Moutinho, Nuno Higino, João Pedro Mésseder, João Manuel Ribeiro, Virgílio Alberto Vieira, entre as dezenas que se associaram na sua promoção e muitos outros intelectuais, de diferentes sensibilidades políticas e expressões artísticas que quiseram estar presentes neste momento.
Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, fez também chegar a sua saudação. Entre as intervenções de homenagem e a poesia lida por actores do Teatro Experimental do Porto, sublinha-se o carinho, a imensa fraternidade, o reconhecimento inevitável de uma vida de militância cultural, cívica e política de um comunista que sempre afirmou, em todas as dimensões da sua intervenção, os mais elevados ideais humanistas e a inabalável convicção na construção de uma sociedade nova.
Papiniano Carlos: um voo sobre a cidade dos homens
● José António Gomes
Papiniano Carlos – o «nosso» Papiniano, em cujo estranho nome há uma ressonância paternal –, o homem delicado, generoso e militante, que quis abrir um amoroso espaço, nos seus versos, um imenso espaço onde coubesse a companheira de todas as horas, Olívia – seu esteio, como ele esteio dela –, este Papiniano que hoje saudamos, nasceu há noventa anos. E aqui está, de pedra e cal, para celebrar connosco uma vida de luta e de escrita, para celebrar também o futuro(1). Porque Papiniano ensina-nos que vale a pena resistir: viver resistindo, e resistir vivendo e escrevendo – actos, atitudes que nele se confundem.
Revisito, em poucas linhas, a sua trajectória de homem de letras. E o que é sintetizar a trajectória de um homem, de um artista, senão ficar aquém, tão aquém!, de captar esse tempo de uma existência a que ele conferiu, e continua e conferir, sentido? – como se viesse lembrar-nos que a vida vale a pena se soubermos dar-lhe esse sentido de que ela, diariamente, carece.
Hoje como ontem. Ontem, durante os quarenta e oito anos da peste, que Papiniano atravessou com firmeza e coragem, enfrentando a censura e a repressão fascistas, nesses sombrios dias de Salazar e Marcelo Caetano, e dessa minoria de senhores do dinheiro e da terra que eles serviam, como competentes ditadores que eram. Ontem, escutando – como Papiniano escutou –, umas vezes sofridamente, outras vezes com alegria, os ecos da Guerra Civil espanhola, os da Segunda Guerra Mundial, os das guerras da Coreia e do Vietname, os das lutas dos povos pela emancipação do jugo colonial e do imperialismo, em Moçambique, em Angola, na Guiné-Bissau e noutras regiões do vasto mundo.
E hoje, continuando um combate, retomado em 25 de Abril de 1974, após o derrube da ditadura. Um combate sob o signo da esperança, sob o signo de uma convicção alicerçada em valores e ideais: a de que é possível construir um mundo diferente, mais justo e pacífico, igualitário e solidário, um mundo de todos para todos, e não só de alguns e para alguns. E construir um país onde uma democracia avançada, económica e social, cultural e política, seja viável, em vez da «apagada e vil tristeza», de fachada democrática, que mais e mais nos sufoca, trinta e quatro anos volvidos sobre o 25 de Abril, e a que não podemos ficar indiferentes e sem alternativa. Refiro-me à alternativa que estes dias reclamam: a que rompe com a exploração desenfreada das forças do trabalho, a precariedade, o desemprego, a efectiva pobreza, produtos, enfim, da institucionalização da ganância, da corrupção e, claro está, de um sistema cujas armas são a propaganda e a mentira.
Releve-se, então, a modéstia destas palavras que mais não pretendem do que recordar um percurso, um caminho que vale a pena seguir, de mãos dadas com Papiniano Carlos, lendo, relendo, dando a ler os seus livros às novas gerações.
E esses livros não são poucos: uma dezena de recolhas de poesia, editadas entre 1942 (data da publicação de Esboço) e 1973, o ano em que A Ave sobre a Cidade vem a lume, reunindo composições dos livros anteriores e ainda os vinte e um textos de «Os Ciclistas»; o ano em que é editada também a antologia Sonhar a Terra Livre e Insubmissa, que, sob a epígrafe de um verso de Daniel Filipe, alberga composições de três dos principais dinamizadores dos cadernos de poesia «Notícias do Bloqueio», Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão e Papiniano Carlos. Esses que, entre 1957 e 1961, dariam, com outros, novo fôlego a uma escrita herdeira do que de melhor nos legou o tão vilipendiado neo-realismo. Uma poesia, a de Papiniano, que Fernando Lopes Graça e Luís Cília, por vezes, converteram em canção (quem não se lembra da «Canção de Catarina», de Lopes Graça, dedicada à memória de Catarina Eufémia) e a que diversos antologiadores e críticos se referiram, como E. M. de Melo e Castro e Maria Alberta Menéres, Jorge de Sena, Luísa Dacosta ou Fernando J. B. Martinho. Os dois primeiros escreveram: «Papiniano Carlos, superando os limites parassocialistas do neo-realismo, consegue uma poesia fluente e rica de ressonâncias do humanismo integral das massas.»(2) Uma poesia que também Luísa Dacosta comenta nestes termos: «Servido por uma linguagem directa em que as palavras têm a pureza da significação primeira, a poesia de Papiniano Carlos, forma encontrada para um conteúdo de dor e sonho, afirma-se autêntica criação.»
A estas obras, a que vêm somar-se a plaquette Canto Fraternal (2005) e vários poemas dispersos, juntem-se um livro de contos com três edições, Terra com Sede, de 1946 (a primeira edição com capa de Júlio Pomar), e um belo romance, O Rio na Treva (1975), a par de A Rosa Nocturna(1961), «excelente volume de crónicas», no dizer do crítico Serafim Ferreira. Dos livros de ficção desprende-se uma prosa segura, não raro de cariz poético, atenta a diferentes registos de língua – nomeadamente o popular –, uma escrita enraizada no real, capaz de erguer personagens que quase diríamos de carne e osso, em que se destacam as crianças e certos tipos populares como o inesquecível Chico Miana, textos, em suma, que configuram um expressivo retrato de certas franjas da sociedade portuguesa durante os tristes «anos da peste». Recorde-se ainda o livro A Memória com Passaporte: Um tal Perafita na «Casa del Campo», editado em 1998 com o subtítulo Relato de um Prisioneiro na PIDE do Porto, em 1937, testemunho impressivo de quem preza a memória e o companheirismo na luta.
Outra vertente, e uma das mais relevantes, da criação literária de Papiniano Carlos vamos encontrá-la nas suas sete obras para crianças, nas quais descobrimos narrativas em prosa e em verso e alguns poemas: A Menina Gotinha de Água (1963), O Cavalo das Sete Cores e o Navio (1977),Luisinho e as Andorinhas (1977), O Grande Lagarto da Pedra Azul (1989), A Viagem de Alexandra (1989), A Gaivota Branca (in J. A. Gomes (org.), Contos da Cidade das Pontes, 2001) e Era Uma Vez (2001). Algumas destas obras, muito reeditadas, são verdadeiros «clássicos» da nossa literatura para a infância – como A Menina Gotinha de Água, centrado no ciclo da água, e Luisinho e as Andorinhas, inspirado em Beethoven e dedicado a Lopes Graça. Neste conjunto de livros infantis, Papiniano emparceirou com ilustradores de renome, como João da Câmara Leme, João Machado, Henrique Cayatte, Manuela Bacelar e António Modesto, para apenas citar alguns. E soube aliar a poesia a breves relatos emblemáticos da aventura humana, exprimindo uma crença inabalável no engenho dos homens e das crianças, no poder da ciência, mas também na dinâmica renovadora da Natureza, encarada, por vezes, como espelho simbólico da própria inventividade humana – traços que perpassam também a poesia comprometida de Papiniano. O autor de O Rio na Treva contribuiu, deste modo, logo desde os anos 60, para a nova literatura para a infância que, em Portugal, haveria de emergir no início da segunda metade do século XX, pela mão de autores como Aquilino Ribeiro (com O Livro de Marianinha, de publicação póstuma, em 1967), Sidónio Muralha, Alves Redol, Ilse Losa, Matilde Rosa Araújo, Norberto Ávila, Maria Rosa Colaço e, no seu modo peculiar, Sophia de Mello Breyner Andresen.
Representado em diversas antologias da poesia portuguesa e da literatura para a infância, editadas em Portugal e no estrangeiro (Espanha, França, Brasil, Argentina); com uma discografia em que podemos ouvi-lo a ler os seus próprios poemas (Papiniano Carlos por Papiniano Carlos, Porto, Orfeu – Arnaldo Trindade) ou escutar a sua Menina Gotinha de Água lida por Carmen Dolores (Lisboa, RR Discos Lda.); com um filme de Alfredo Tropa (produção RTP) a que a mesma Menina Gotinha de Água serve de base, Papiniano Carlos não se devotou apenas à sua própria escrita. A vivência moçambicana (nasceu em 1918 na actual Maputo, antiga Lourenço Marques) – a que se seguiram estudos secundários no Porto e uma frequência universitária do curso de Engenharia – deixou raízes e atraiu-o de novo ao continente africano. Em 1958, contacta artistas, jornalistas e escritores de Angola e Moçambique, entrevistando-os e recolhendo material a que dará divulgação em publicações diversas, como o Jornal de Notícias, o República, a Seara Nova, Bandarra e os cadernos «Notícias do Bloqueio».
A terminar este apontamento biobibliográfico, não resisto a citar um excerto da nota introdutória ao livro A Ave sobre a Cidade, assinado por alguém que fez e continua a fazer da vida e da escrita um voo livre e ininterrupto. E que, talvez por isso, tem como um dos símbolos recorrentes da sua obra a figura da gaivota, em particular, e da ave em geral. Em 1973, decorridas mais de três décadas de produção poética e a um ano do fim da censura fascista, Papiniano Carlos afirmava: «Nestes tempos de silêncio foi difícil cantar. Mas a cigarra nunca pensou que da negrura dos céus o raio podia descer para fulminá-la em pleno canto. Nem os poetas deste país. Quem os não ouviu cantar nesta longa noite? Como poderiam eles deixar de cantar? // Estes poemas são talvez uma obscura e breve nota desse canto. Um vibrante acento talvez. Uma rude mas apaixonada estrofe do cancioneiro destes tempos, que não ouviram elegias cantando as desgraças sofridas ou os companheiros mortos na estrada, mas em que, no barro amassado em suor e sangue, se começou a moldar “o rosto épico” do futuro.» (3)
Aqui estamos nós, Papiniano, a tomar em mãos o testemunho e a continuar a moldar esse rosto por vir. Hoje como ontem – assim o escreveu este poeta – «caminhemos serenos» (4).
Notas
(1) O presente texto foi lido na sessão de homenagem a Papiniano Carlos, realizada no Ateneu Comercial do Porto, em 9 de Novembro de 2008, dia do 90.º aniversário deste poeta e militante comunista.
(2) Cito a partir de uma página de paratexto que abre o livro, de Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão e Papiniano Carlos,Sonhar a Terra Livre e Insubmissa (Porto: Inova, 1973). Nesse mesmo local é reproduzida a frase de Luísa Dacosta adiante citada. «Papiniano Carlos e A Menina das Gotas de Água» é o título do artigo de Serafim Ferreira também citado neste texto e publicado no n.º 84 do jornal A Página da Educação, ano 8, Outubro de 1999, p. 29.
(3) A Ave sobre a Cidade. Porto: Paisagem, 1973, p. 7.
(4) Título de um dos livros de poesia de Papiniano Carlos, publicado em Coimbra (Textos Vértice), em 1957.
Uma arma no combate ao fascismo (*)
● José Casanova
Há 90 anos, dois dias depois desse 9 de Novembro de 1918, terminava a I Guerra Mundial – e um ano antes, a Revolução de Outubro, afirmando-se como acontecimento maior da história universal, iniciara o primeiro grande acto de ruptura com o capitalismo, e dera os primeiros passos na construção de uma sociedade nova – nova, porque sem exploradores nem explorados. Enquanto por cá, logo a seguir, correspondendo a uma necessidade histórica da sociedade portuguesa, nascia o PCP e a classe operária portuguesa encontrava a sua firme e segura vanguarda. E cinco anos depois, era implantada a ditadura que durante quase cinco décadas mergulharia o País na longa e negra noite fascista.
(...) No nosso País, o papel dos intelectuais na resistência ao fascismo, assumiu forte expressão. A realidade mostrou que o fascismo não só não atraiu a si como teve contra si, a grande maioria dos escritores e artistas portugueses, entre eles muitas das maiores figuras da literatura portuguesa do século XX.
E nesses tempos de guerra e de pós-guerra, a literatura, nas suas múltiplas formas, deu voz à luta popular e à realidade do País que a propaganda fascista mistificava.
(...) É nesse vasto conjunto de artistas talentosos e intervenientes que surge Papiniano Carlos – em 1942 com o seu primeiro livro de poemas (Esboço) e, em 1949, aderindo ao PCP.
Assim, a literatura, designadamente a poesia, era uma arma no combate ao fascismo. E os poemas de Papiniano Carlos, entre os de vários outros poetas, eram, naqueles tempos de opressão e repressão, poemas-companheiros dos que resistiam das mais diversas formas, dos que se recusavam a baixar os braços e lutavam e assumiam as consequências dessa luta no Aljube, em Caxias, em Peniche, na Rua do Heroísmo.
Nos convívios antifascistas da minha juventude, esses poemas eram presença certa. Sabíamos de cor poemas da «Estrada Nova»: «Nós estamos rasgando uma estrada nova/ vimos em fúria dos confins do mundo!»; imprimíamos em lentos copiógrafos manuais, poemas de «Mãe Terra», de «As Florestas e os Ventos», de «Caminhemos Serenos»: «Sob as estrelas, sob as bombas/Sob os turvos ódios e injustiças/no frio corredor de lâminas eriçadas/no meio do sangue, das lágrimas/caminhemos serenos». E cantávamos, muitas vezes em surdina, as Heróicas: «Na fome verde das searas roxas/passeava sorrindo Catarina».
E esses poemas davam-nos mais força, acrescentavam esperança e confiança, multiplicavam coragens.
(...) Abro aqui um parêntesis para um «desabafo»: nesses convívios, líamos e aplaudíamos - para além de poetas de nossa eleição como Papiniano Carlos, Luiz Veiga Leitão, Sidónio Muralha, Egito Gonçalves, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado, etc., - vários poemas cuja qualidade maior residia no seu conteúdo antifascista, o que não sendo, naqueles tempos, de todo irrelevante, não deixava de fazer deles poemas de curta vida.
No entanto, há vários críticos literários que, com uma pertinácia iniciada nesses tempos e que ainda hoje, certamente por herança, se mantém bem acesa, me obrigam a lembrar-me desses pobres poemas – tantas são as vezes que aludem à má poesia neo-realista...
Contra os tiranos, sempre
(...) E é estranho que esses pobres poemas nos sejam permanentemente lembrados por críticos que, simultânea e curiosamente, ignoram e silenciam os grandes poetas do neo-realismo – ou que, quando os referem, é tão-somente para louvarem aquilo a que chamam «a luta em duas frentes» travada por uns quantos paladinos da liberdade e da pureza literária, nestes casos apresentados como os que (cito) «mais batalharam a dura batalha da liberdade em Portugal», porque teriam lutado contra (cito): «a ditadura salazarista e o monopólio cultural do partido comunista – por interposta corrente literária do neo-realismo – impostos durante décadas aos cidadãos deste país»… E lendo esta prosa é-nos fácil imaginar esses heróicos batalhadores da dura batalha da liberdade, batalhando nas tais «duas frentes»: na primeira frente, varrendo à espadeirada os carcereiros da ditadura fascista e abrindo caminho até ao Aljube, a Caxias, a Peniche, à Rua do Heroísmo – e aí chegados, na segunda frente, estilhaçando portas e grades, entrando nas celas e destroçando implacavelmente quem lá estava: esses sinistros protagonistas do monopólio cultural do partido comunista que eram os poetas neo-realistas…
Desculpem: o desabafo foi longo, mas não é todos os dias que se proporciona desabafarmos sobre este tema. O que significa que é tempo, talvez, de ensaiar respostas frontais às múltiplas facetas – e esta é, a meu ver, uma delas - de que se reveste a poderosa operação de branqueamento do fascismo em curso – que é, simultaneamente, uma operação de menorização e apagamento da resistência antifascista em todas as suas vertentes.
(...) Os tiranos de hoje – netos e filhos dos de outrora – vestem roupagens diferentes e falam outras linguagens. Mas não diferem tanto como à primeira vista pode parecer nos métodos e práticas adoptados, e em nada diferem quanto a objectivos essenciais.
Não têm Auschwitz: têm Guantánamo – e, à custa de centenas e centenas de milhares de vidas inocentes, esmagam países e povos.
Não têm pides, nem aljubes, mas têm práticas anti-democráticas e leis dos partidos e do financiamento dos partidos que qualquer tirano de outrora não desdenharia subscrever.
Não prendem, no Aljube ou no Largo Soares dos Reis, os trabalhadores que fazem greve, mas com o emprego precário e com o Código do Trabalho fazem da greve e dos direitos dos trabalhadores actos proibidos – roubando direitos humanos fundamentais e remetendo as relações laborais para o tempo desses tiranos de outrora.
No entanto, a luta continua. E o mundo avança. E, mais importante do que tudo, hoje como outrora, «Os meninos nascem» e «fitam /serenos e terríveis» os tiranos dos tempos actuais.
E a poesia continua: «Os Ciclistas» de hoje, como os de outrora – «rosto baixo, mãos no guiador, pés/ bem firmes nos pedais, geram/o movimento, o ritmo alado/das máquinas frágeis que cavalgam/ao amanhecer» – lutam, certos de que merecerão a voz de Orfeu.
Certos de que vencerão.
(*) Excertos da intervenção na Homenagem a Papiniano Carlos
13.Novembro.2008
90 anos de Papiniano Carlos
Homenagem ao Arado Luminoso
A Heróica Jornada de Lopes-Graça e José Gomes Ferreira entoou no piano de Fausto Neves e na voz das 200 pessoas que encheram o Ateneu Comercial do Porto para homenagear o Poeta Papiniano Carlos pelos seus 90 anos de vida e obra. Uma sentida e justa homenagem onde participaram José Casanova, membro da Comissão Política do PCP, José António Gomes, escritor e membro da DORP do PCP, Ana Margarida Ramos, professora, César Príncipe, jornalista, Júlio Gago, director do TEP, e a Olívia, sua companheira de sempre.
Muitos outros fizeram questão de estar presentes e se associarem a esta efeméride, como Armando Alves, que artisticamente concebeu a obra publicada a propósito desta data, outros que nela participam com os seus poemas, como Francisco Duarte Mangas, Albano Martins, José Viale Moutinho, Nuno Higino, João Pedro Mésseder, João Manuel Ribeiro, Virgílio Alberto Vieira, entre as dezenas que se associaram na sua promoção e muitos outros intelectuais, de diferentes sensibilidades políticas e expressões artísticas que quiseram estar presentes neste momento.
Jerónimo de Sousa, secretário-geral do PCP, fez também chegar a sua saudação. Entre as intervenções de homenagem e a poesia lida por actores do Teatro Experimental do Porto, sublinha-se o carinho, a imensa fraternidade, o reconhecimento inevitável de uma vida de militância cultural, cívica e política de um comunista que sempre afirmou, em todas as dimensões da sua intervenção, os mais elevados ideais humanistas e a inabalável convicção na construção de uma sociedade nova.
Papiniano Carlos: um voo sobre a cidade dos homens
● José António Gomes
Papiniano Carlos – o «nosso» Papiniano, em cujo estranho nome há uma ressonância paternal –, o homem delicado, generoso e militante, que quis abrir um amoroso espaço, nos seus versos, um imenso espaço onde coubesse a companheira de todas as horas, Olívia – seu esteio, como ele esteio dela –, este Papiniano que hoje saudamos, nasceu há noventa anos. E aqui está, de pedra e cal, para celebrar connosco uma vida de luta e de escrita, para celebrar também o futuro(1). Porque Papiniano ensina-nos que vale a pena resistir: viver resistindo, e resistir vivendo e escrevendo – actos, atitudes que nele se confundem.
Revisito, em poucas linhas, a sua trajectória de homem de letras. E o que é sintetizar a trajectória de um homem, de um artista, senão ficar aquém, tão aquém!, de captar esse tempo de uma existência a que ele conferiu, e continua e conferir, sentido? – como se viesse lembrar-nos que a vida vale a pena se soubermos dar-lhe esse sentido de que ela, diariamente, carece.
Hoje como ontem. Ontem, durante os quarenta e oito anos da peste, que Papiniano atravessou com firmeza e coragem, enfrentando a censura e a repressão fascistas, nesses sombrios dias de Salazar e Marcelo Caetano, e dessa minoria de senhores do dinheiro e da terra que eles serviam, como competentes ditadores que eram. Ontem, escutando – como Papiniano escutou –, umas vezes sofridamente, outras vezes com alegria, os ecos da Guerra Civil espanhola, os da Segunda Guerra Mundial, os das guerras da Coreia e do Vietname, os das lutas dos povos pela emancipação do jugo colonial e do imperialismo, em Moçambique, em Angola, na Guiné-Bissau e noutras regiões do vasto mundo.
E hoje, continuando um combate, retomado em 25 de Abril de 1974, após o derrube da ditadura. Um combate sob o signo da esperança, sob o signo de uma convicção alicerçada em valores e ideais: a de que é possível construir um mundo diferente, mais justo e pacífico, igualitário e solidário, um mundo de todos para todos, e não só de alguns e para alguns. E construir um país onde uma democracia avançada, económica e social, cultural e política, seja viável, em vez da «apagada e vil tristeza», de fachada democrática, que mais e mais nos sufoca, trinta e quatro anos volvidos sobre o 25 de Abril, e a que não podemos ficar indiferentes e sem alternativa. Refiro-me à alternativa que estes dias reclamam: a que rompe com a exploração desenfreada das forças do trabalho, a precariedade, o desemprego, a efectiva pobreza, produtos, enfim, da institucionalização da ganância, da corrupção e, claro está, de um sistema cujas armas são a propaganda e a mentira.
Releve-se, então, a modéstia destas palavras que mais não pretendem do que recordar um percurso, um caminho que vale a pena seguir, de mãos dadas com Papiniano Carlos, lendo, relendo, dando a ler os seus livros às novas gerações.
E esses livros não são poucos: uma dezena de recolhas de poesia, editadas entre 1942 (data da publicação de Esboço) e 1973, o ano em que A Ave sobre a Cidade vem a lume, reunindo composições dos livros anteriores e ainda os vinte e um textos de «Os Ciclistas»; o ano em que é editada também a antologia Sonhar a Terra Livre e Insubmissa, que, sob a epígrafe de um verso de Daniel Filipe, alberga composições de três dos principais dinamizadores dos cadernos de poesia «Notícias do Bloqueio», Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão e Papiniano Carlos. Esses que, entre 1957 e 1961, dariam, com outros, novo fôlego a uma escrita herdeira do que de melhor nos legou o tão vilipendiado neo-realismo. Uma poesia, a de Papiniano, que Fernando Lopes Graça e Luís Cília, por vezes, converteram em canção (quem não se lembra da «Canção de Catarina», de Lopes Graça, dedicada à memória de Catarina Eufémia) e a que diversos antologiadores e críticos se referiram, como E. M. de Melo e Castro e Maria Alberta Menéres, Jorge de Sena, Luísa Dacosta ou Fernando J. B. Martinho. Os dois primeiros escreveram: «Papiniano Carlos, superando os limites parassocialistas do neo-realismo, consegue uma poesia fluente e rica de ressonâncias do humanismo integral das massas.»(2) Uma poesia que também Luísa Dacosta comenta nestes termos: «Servido por uma linguagem directa em que as palavras têm a pureza da significação primeira, a poesia de Papiniano Carlos, forma encontrada para um conteúdo de dor e sonho, afirma-se autêntica criação.»
A estas obras, a que vêm somar-se a plaquette Canto Fraternal (2005) e vários poemas dispersos, juntem-se um livro de contos com três edições, Terra com Sede, de 1946 (a primeira edição com capa de Júlio Pomar), e um belo romance, O Rio na Treva (1975), a par de A Rosa Nocturna(1961), «excelente volume de crónicas», no dizer do crítico Serafim Ferreira. Dos livros de ficção desprende-se uma prosa segura, não raro de cariz poético, atenta a diferentes registos de língua – nomeadamente o popular –, uma escrita enraizada no real, capaz de erguer personagens que quase diríamos de carne e osso, em que se destacam as crianças e certos tipos populares como o inesquecível Chico Miana, textos, em suma, que configuram um expressivo retrato de certas franjas da sociedade portuguesa durante os tristes «anos da peste». Recorde-se ainda o livro A Memória com Passaporte: Um tal Perafita na «Casa del Campo», editado em 1998 com o subtítulo Relato de um Prisioneiro na PIDE do Porto, em 1937, testemunho impressivo de quem preza a memória e o companheirismo na luta.
Outra vertente, e uma das mais relevantes, da criação literária de Papiniano Carlos vamos encontrá-la nas suas sete obras para crianças, nas quais descobrimos narrativas em prosa e em verso e alguns poemas: A Menina Gotinha de Água (1963), O Cavalo das Sete Cores e o Navio (1977),Luisinho e as Andorinhas (1977), O Grande Lagarto da Pedra Azul (1989), A Viagem de Alexandra (1989), A Gaivota Branca (in J. A. Gomes (org.), Contos da Cidade das Pontes, 2001) e Era Uma Vez (2001). Algumas destas obras, muito reeditadas, são verdadeiros «clássicos» da nossa literatura para a infância – como A Menina Gotinha de Água, centrado no ciclo da água, e Luisinho e as Andorinhas, inspirado em Beethoven e dedicado a Lopes Graça. Neste conjunto de livros infantis, Papiniano emparceirou com ilustradores de renome, como João da Câmara Leme, João Machado, Henrique Cayatte, Manuela Bacelar e António Modesto, para apenas citar alguns. E soube aliar a poesia a breves relatos emblemáticos da aventura humana, exprimindo uma crença inabalável no engenho dos homens e das crianças, no poder da ciência, mas também na dinâmica renovadora da Natureza, encarada, por vezes, como espelho simbólico da própria inventividade humana – traços que perpassam também a poesia comprometida de Papiniano. O autor de O Rio na Treva contribuiu, deste modo, logo desde os anos 60, para a nova literatura para a infância que, em Portugal, haveria de emergir no início da segunda metade do século XX, pela mão de autores como Aquilino Ribeiro (com O Livro de Marianinha, de publicação póstuma, em 1967), Sidónio Muralha, Alves Redol, Ilse Losa, Matilde Rosa Araújo, Norberto Ávila, Maria Rosa Colaço e, no seu modo peculiar, Sophia de Mello Breyner Andresen.
Representado em diversas antologias da poesia portuguesa e da literatura para a infância, editadas em Portugal e no estrangeiro (Espanha, França, Brasil, Argentina); com uma discografia em que podemos ouvi-lo a ler os seus próprios poemas (Papiniano Carlos por Papiniano Carlos, Porto, Orfeu – Arnaldo Trindade) ou escutar a sua Menina Gotinha de Água lida por Carmen Dolores (Lisboa, RR Discos Lda.); com um filme de Alfredo Tropa (produção RTP) a que a mesma Menina Gotinha de Água serve de base, Papiniano Carlos não se devotou apenas à sua própria escrita. A vivência moçambicana (nasceu em 1918 na actual Maputo, antiga Lourenço Marques) – a que se seguiram estudos secundários no Porto e uma frequência universitária do curso de Engenharia – deixou raízes e atraiu-o de novo ao continente africano. Em 1958, contacta artistas, jornalistas e escritores de Angola e Moçambique, entrevistando-os e recolhendo material a que dará divulgação em publicações diversas, como o Jornal de Notícias, o República, a Seara Nova, Bandarra e os cadernos «Notícias do Bloqueio».
A terminar este apontamento biobibliográfico, não resisto a citar um excerto da nota introdutória ao livro A Ave sobre a Cidade, assinado por alguém que fez e continua a fazer da vida e da escrita um voo livre e ininterrupto. E que, talvez por isso, tem como um dos símbolos recorrentes da sua obra a figura da gaivota, em particular, e da ave em geral. Em 1973, decorridas mais de três décadas de produção poética e a um ano do fim da censura fascista, Papiniano Carlos afirmava: «Nestes tempos de silêncio foi difícil cantar. Mas a cigarra nunca pensou que da negrura dos céus o raio podia descer para fulminá-la em pleno canto. Nem os poetas deste país. Quem os não ouviu cantar nesta longa noite? Como poderiam eles deixar de cantar? // Estes poemas são talvez uma obscura e breve nota desse canto. Um vibrante acento talvez. Uma rude mas apaixonada estrofe do cancioneiro destes tempos, que não ouviram elegias cantando as desgraças sofridas ou os companheiros mortos na estrada, mas em que, no barro amassado em suor e sangue, se começou a moldar “o rosto épico” do futuro.» (3)
Aqui estamos nós, Papiniano, a tomar em mãos o testemunho e a continuar a moldar esse rosto por vir. Hoje como ontem – assim o escreveu este poeta – «caminhemos serenos» (4).
Notas
(1) O presente texto foi lido na sessão de homenagem a Papiniano Carlos, realizada no Ateneu Comercial do Porto, em 9 de Novembro de 2008, dia do 90.º aniversário deste poeta e militante comunista.
(2) Cito a partir de uma página de paratexto que abre o livro, de Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão e Papiniano Carlos,Sonhar a Terra Livre e Insubmissa (Porto: Inova, 1973). Nesse mesmo local é reproduzida a frase de Luísa Dacosta adiante citada. «Papiniano Carlos e A Menina das Gotas de Água» é o título do artigo de Serafim Ferreira também citado neste texto e publicado no n.º 84 do jornal A Página da Educação, ano 8, Outubro de 1999, p. 29.
(3) A Ave sobre a Cidade. Porto: Paisagem, 1973, p. 7.
(4) Título de um dos livros de poesia de Papiniano Carlos, publicado em Coimbra (Textos Vértice), em 1957.
Uma arma no combate ao fascismo (*)
● José Casanova
Há 90 anos, dois dias depois desse 9 de Novembro de 1918, terminava a I Guerra Mundial – e um ano antes, a Revolução de Outubro, afirmando-se como acontecimento maior da história universal, iniciara o primeiro grande acto de ruptura com o capitalismo, e dera os primeiros passos na construção de uma sociedade nova – nova, porque sem exploradores nem explorados. Enquanto por cá, logo a seguir, correspondendo a uma necessidade histórica da sociedade portuguesa, nascia o PCP e a classe operária portuguesa encontrava a sua firme e segura vanguarda. E cinco anos depois, era implantada a ditadura que durante quase cinco décadas mergulharia o País na longa e negra noite fascista.
(...) No nosso País, o papel dos intelectuais na resistência ao fascismo, assumiu forte expressão. A realidade mostrou que o fascismo não só não atraiu a si como teve contra si, a grande maioria dos escritores e artistas portugueses, entre eles muitas das maiores figuras da literatura portuguesa do século XX.
E nesses tempos de guerra e de pós-guerra, a literatura, nas suas múltiplas formas, deu voz à luta popular e à realidade do País que a propaganda fascista mistificava.
(...) É nesse vasto conjunto de artistas talentosos e intervenientes que surge Papiniano Carlos – em 1942 com o seu primeiro livro de poemas (Esboço) e, em 1949, aderindo ao PCP.
Assim, a literatura, designadamente a poesia, era uma arma no combate ao fascismo. E os poemas de Papiniano Carlos, entre os de vários outros poetas, eram, naqueles tempos de opressão e repressão, poemas-companheiros dos que resistiam das mais diversas formas, dos que se recusavam a baixar os braços e lutavam e assumiam as consequências dessa luta no Aljube, em Caxias, em Peniche, na Rua do Heroísmo.
Nos convívios antifascistas da minha juventude, esses poemas eram presença certa. Sabíamos de cor poemas da «Estrada Nova»: «Nós estamos rasgando uma estrada nova/ vimos em fúria dos confins do mundo!»; imprimíamos em lentos copiógrafos manuais, poemas de «Mãe Terra», de «As Florestas e os Ventos», de «Caminhemos Serenos»: «Sob as estrelas, sob as bombas/Sob os turvos ódios e injustiças/no frio corredor de lâminas eriçadas/no meio do sangue, das lágrimas/caminhemos serenos». E cantávamos, muitas vezes em surdina, as Heróicas: «Na fome verde das searas roxas/passeava sorrindo Catarina».
E esses poemas davam-nos mais força, acrescentavam esperança e confiança, multiplicavam coragens.
(...) Abro aqui um parêntesis para um «desabafo»: nesses convívios, líamos e aplaudíamos - para além de poetas de nossa eleição como Papiniano Carlos, Luiz Veiga Leitão, Sidónio Muralha, Egito Gonçalves, Manuel da Fonseca, Carlos de Oliveira, Joaquim Namorado, etc., - vários poemas cuja qualidade maior residia no seu conteúdo antifascista, o que não sendo, naqueles tempos, de todo irrelevante, não deixava de fazer deles poemas de curta vida.
No entanto, há vários críticos literários que, com uma pertinácia iniciada nesses tempos e que ainda hoje, certamente por herança, se mantém bem acesa, me obrigam a lembrar-me desses pobres poemas – tantas são as vezes que aludem à má poesia neo-realista...
Contra os tiranos, sempre
(...) E é estranho que esses pobres poemas nos sejam permanentemente lembrados por críticos que, simultânea e curiosamente, ignoram e silenciam os grandes poetas do neo-realismo – ou que, quando os referem, é tão-somente para louvarem aquilo a que chamam «a luta em duas frentes» travada por uns quantos paladinos da liberdade e da pureza literária, nestes casos apresentados como os que (cito) «mais batalharam a dura batalha da liberdade em Portugal», porque teriam lutado contra (cito): «a ditadura salazarista e o monopólio cultural do partido comunista – por interposta corrente literária do neo-realismo – impostos durante décadas aos cidadãos deste país»… E lendo esta prosa é-nos fácil imaginar esses heróicos batalhadores da dura batalha da liberdade, batalhando nas tais «duas frentes»: na primeira frente, varrendo à espadeirada os carcereiros da ditadura fascista e abrindo caminho até ao Aljube, a Caxias, a Peniche, à Rua do Heroísmo – e aí chegados, na segunda frente, estilhaçando portas e grades, entrando nas celas e destroçando implacavelmente quem lá estava: esses sinistros protagonistas do monopólio cultural do partido comunista que eram os poetas neo-realistas…
Desculpem: o desabafo foi longo, mas não é todos os dias que se proporciona desabafarmos sobre este tema. O que significa que é tempo, talvez, de ensaiar respostas frontais às múltiplas facetas – e esta é, a meu ver, uma delas - de que se reveste a poderosa operação de branqueamento do fascismo em curso – que é, simultaneamente, uma operação de menorização e apagamento da resistência antifascista em todas as suas vertentes.
(...) Os tiranos de hoje – netos e filhos dos de outrora – vestem roupagens diferentes e falam outras linguagens. Mas não diferem tanto como à primeira vista pode parecer nos métodos e práticas adoptados, e em nada diferem quanto a objectivos essenciais.
Não têm Auschwitz: têm Guantánamo – e, à custa de centenas e centenas de milhares de vidas inocentes, esmagam países e povos.
Não têm pides, nem aljubes, mas têm práticas anti-democráticas e leis dos partidos e do financiamento dos partidos que qualquer tirano de outrora não desdenharia subscrever.
Não prendem, no Aljube ou no Largo Soares dos Reis, os trabalhadores que fazem greve, mas com o emprego precário e com o Código do Trabalho fazem da greve e dos direitos dos trabalhadores actos proibidos – roubando direitos humanos fundamentais e remetendo as relações laborais para o tempo desses tiranos de outrora.
No entanto, a luta continua. E o mundo avança. E, mais importante do que tudo, hoje como outrora, «Os meninos nascem» e «fitam /serenos e terríveis» os tiranos dos tempos actuais.
E a poesia continua: «Os Ciclistas» de hoje, como os de outrora – «rosto baixo, mãos no guiador, pés/ bem firmes nos pedais, geram/o movimento, o ritmo alado/das máquinas frágeis que cavalgam/ao amanhecer» – lutam, certos de que merecerão a voz de Orfeu.
Certos de que vencerão.
(*) Excertos da intervenção na Homenagem a Papiniano Carlos
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O rumor vivo da esperança na obra de Papiniano Carlos
N.º 1825
20.Novembro.2008
Terra Com Sede traz atado à prosa enxuta do nosso mais pujante neo-realismo, uma galeria diversa e fecunda de personagens vivas, excessivas, brilhantes, saídas dos montes, das praças, dos escusos sombrios dos casebres de aldeia: alegres, tristes, ébrios de vinho e sonhos – como o João Travanca do conto «Nana é Tocador de Harmónica» – trágicos, estranhos, perdidos em lugares onde «o Diabo folga à noite», com lágrimas de dor e raiva mas com o coração ligado à voz e a alma a transbordar de uma incansável esperança.
Depois, esta fala, por vezes áspera e rude, vivifica-se, torna-se música dulcíssima para contar aos mais novos, de forma apaixonadamente pedagógica, em vibratto jubiloso, as histórias fantásticas de A Menina Gota de Água, ou percorre-nos as veias do corpo como quem viaja pelas águas do Amazonas, pelo Volga, pelo Nilo, pelo Yang Tsé, nessa fabulosa Viagem de Alexandra, que já anda, se as contas me não falham, pelos bem puxados 20 mil exemplares – é obra!
A poesia, essa, comecei por ouvi-la, cantada de forma sublime pelo Coro da Academia de Amadores de Música, com arranjo e partitura do nosso querido Fernando Lopes-Graça. A poesia, plana ou heróica, lírica ou épica, só se ergue plena em sua função metamórfica, se dita ou cantada pela voz do Povo. Esse emotivo encontro aconteceu numa sessão semi-clandestina organizada pela também semi-clandestina APTA – Associação Portuguesa de Teatro de Amadores, no salão dos Bombeiros, em Loures. Após o vibrante Acordai!, fez-se um breve silêncio para homenagear Catarina Eufémia e o maestro deu os tons e o coro começou a entoar, quase em surdina, os primeiros versos de Canção: «Na fome verde das searas roxas/passeava sorrindo Catarina», Catarina enfrentando os esbirros, as espingardas, o sol doido num céu inclemente, sangrando dir-se-ia, mas sem vergar, peito e corpo de mulher e mãe, de multidão, contra o medo, contra a servidão, trinta balas/ te mataram a fome, Catarina. Estávamos em Setembro, 1971, andava o Outono a insinuar-se no descarnado das árvores, num frio ténue. Só tivemos Primavera em Abril, 3 anos depois.
Da poesia de Papiniano Carlos lembro esse livro primeiro, de um realismo ardente mas jubiloso, de cadência assumidamente tradicional, mas já com ardis nas intenções doutrinárias detectáveis no sub-texto: Mãe-Terra, de 1949. Um nostálgico e sentido apelo às raízes mas corajoso na implícita denúncia. Mas, para mim, de todos o mais formalmente conseguido, rigoroso e maduro, de um descomplexado companheirismo geracional e político, por onde caminharam as vozes de Luís Veiga Leitão, Egito Gonçalves e tantos outros, representando já um grau superior da arte onde se fundem, em sagaz conciliábulo, uma linguagem iluminada e crítica, o lírico e o deslumbre das paisagens naturais e humanas (esse território perene de todos os afectos, onde o olhar do poeta se demora sensitivo), que transforma esta poesia num dos momentos mais raros no nosso neo-realismo. Falo, naturalmente, desse belíssimo Caminhemos Serenos.
Caminhemos serenos
Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
caminhemos serenos.
De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade
caminhemos serenos.
Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões do fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
caminhemos serenos
o que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia connosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?
Caminhemos serenos.
No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
Caminhemos serenos
Este livro de 1957, mas ainda hoje actualíssimo na frontalidade serena com que assume a urgência da dignidade do humano, na forma como expressa e capta o real armadilhado, nos modos de dizer a esperança e a coragem, de descascar subtilmente a violência dos dias amargos e das dores surdas. Um livro claro, ácido por vezes, certeiro, à espera que a ele regressemos com vagar para podermos recuperar o ânimo e o sentido do caminho justo que, por vezes, na voragem destes dias azedos, nos parece fugir do chão.
Entre o território (difícil) da literatura para a infância e juventude, o conto, a dramaturgia, a poesia e, a espaços, o ensaio (Papiniano Carlos dirigiu, em tempos ainda mais agrestes, a secção crítica da Vértice), o seu labor literário não esmorece e continua pujante de inventiva e criatividade. Aos 89 anos, vivendo arredado dos círculos literários (que, de resto, nunca o seduziram) Papiniano Carlos continua o projecto iniciado em 1942, com Esboço: sem desfalecimentos nem cedências. Escreve contra o silêncio. Escreve para transformar a vida, dar-lhe, através da palavra, um rosto mais humano e justo, dado que «agora, amigos, com a noite, eu vos falarei longamente – e estou cheio de esperança». ~
Que a tua fala perdure longamente, para que possamos juntos, de novo, sonhar a terra livre e insubmissa – que esse sonho se transfira do rumor aceso dos teus versos para o real da vida.
20.Novembro.2008
- Domingos Lobo
«SONHAR A TERRA LIVRE E INSUBMISSA»
Estou a reler, tantos anos volvidos, Terra Com Sede, numa cuidada 2ª. Edição, de 1969, da Editora Inova. Foi este um dos livros que escolhi para me resgatar, por instantes breves mas absolutos, ao absurdo da guerra colonial, quando o fascismo salazarento me impôs guia de marcha e o Vera Cruz me despejou no sofrido chão de Angola.
É estranho e salutar a um tempo, rever estas histórias e relembrar, em nostalgia mansa, os meus deslumbrados 20 anos, quando trazia os medos à ilharga – imperceptíveis e inconscientes – mas transportava aos ombros, incrédulos, os sonhos todos do mundo e verificar agora, na serenidade dos meus sessenta e picos, que este livro também fala disso, de gente que mesmo amordaçada, mesmo sentindo a pata bestial da opressão sobre os seus dias cercados, não deixou de cantar, de sorrir, de sonhar.
Terra Com Sede traz atado à prosa enxuta do nosso mais pujante neo-realismo, uma galeria diversa e fecunda de personagens vivas, excessivas, brilhantes, saídas dos montes, das praças, dos escusos sombrios dos casebres de aldeia: alegres, tristes, ébrios de vinho e sonhos – como o João Travanca do conto «Nana é Tocador de Harmónica» – trágicos, estranhos, perdidos em lugares onde «o Diabo folga à noite», com lágrimas de dor e raiva mas com o coração ligado à voz e a alma a transbordar de uma incansável esperança.
Terra Com Sede é o livro de um poeta maior que transportou para a prosa a claridade solar do verso transgressor, corajoso e límpido e a preencheu de vozes múltiplas, intensas, num uníssono e vigoroso coro colectivo, trazidas desse universo real e doloroso, desse chão de lava em que mourejava este povo humilhado e sofrido. A saga heróica que este livro releva, está patente no conto Eu Sou o Chico Miana, onde o autor, com ortoépico comedimento, ergue a figura de um herói popular, como uma exemplar rarefacção e mestria oficinal. Neste livro magnífico a sintaxe, a expressividade do léxico popular, transforma-se, ganha uma outra sonoridade, uma impressiva loquacidade como só encontramos em Aquilino Ribeiro.
Depois, esta fala, por vezes áspera e rude, vivifica-se, torna-se música dulcíssima para contar aos mais novos, de forma apaixonadamente pedagógica, em vibratto jubiloso, as histórias fantásticas de A Menina Gota de Água, ou percorre-nos as veias do corpo como quem viaja pelas águas do Amazonas, pelo Volga, pelo Nilo, pelo Yang Tsé, nessa fabulosa Viagem de Alexandra, que já anda, se as contas me não falham, pelos bem puxados 20 mil exemplares – é obra!
A poesia, essa, comecei por ouvi-la, cantada de forma sublime pelo Coro da Academia de Amadores de Música, com arranjo e partitura do nosso querido Fernando Lopes-Graça. A poesia, plana ou heróica, lírica ou épica, só se ergue plena em sua função metamórfica, se dita ou cantada pela voz do Povo. Esse emotivo encontro aconteceu numa sessão semi-clandestina organizada pela também semi-clandestina APTA – Associação Portuguesa de Teatro de Amadores, no salão dos Bombeiros, em Loures. Após o vibrante Acordai!, fez-se um breve silêncio para homenagear Catarina Eufémia e o maestro deu os tons e o coro começou a entoar, quase em surdina, os primeiros versos de Canção: «Na fome verde das searas roxas/passeava sorrindo Catarina», Catarina enfrentando os esbirros, as espingardas, o sol doido num céu inclemente, sangrando dir-se-ia, mas sem vergar, peito e corpo de mulher e mãe, de multidão, contra o medo, contra a servidão, trinta balas/ te mataram a fome, Catarina. Estávamos em Setembro, 1971, andava o Outono a insinuar-se no descarnado das árvores, num frio ténue. Só tivemos Primavera em Abril, 3 anos depois.
Da poesia de Papiniano Carlos lembro esse livro primeiro, de um realismo ardente mas jubiloso, de cadência assumidamente tradicional, mas já com ardis nas intenções doutrinárias detectáveis no sub-texto: Mãe-Terra, de 1949. Um nostálgico e sentido apelo às raízes mas corajoso na implícita denúncia. Mas, para mim, de todos o mais formalmente conseguido, rigoroso e maduro, de um descomplexado companheirismo geracional e político, por onde caminharam as vozes de Luís Veiga Leitão, Egito Gonçalves e tantos outros, representando já um grau superior da arte onde se fundem, em sagaz conciliábulo, uma linguagem iluminada e crítica, o lírico e o deslumbre das paisagens naturais e humanas (esse território perene de todos os afectos, onde o olhar do poeta se demora sensitivo), que transforma esta poesia num dos momentos mais raros no nosso neo-realismo. Falo, naturalmente, desse belíssimo Caminhemos Serenos.
Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas
caminhemos serenos.
De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade
caminhemos serenos.
Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões do fogo
aos que nem com a morte podem vencer-nos
caminhemos serenos
o que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia connosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?
Caminhemos serenos.
No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas
Caminhemos serenos
Este livro de 1957, mas ainda hoje actualíssimo na frontalidade serena com que assume a urgência da dignidade do humano, na forma como expressa e capta o real armadilhado, nos modos de dizer a esperança e a coragem, de descascar subtilmente a violência dos dias amargos e das dores surdas. Um livro claro, ácido por vezes, certeiro, à espera que a ele regressemos com vagar para podermos recuperar o ânimo e o sentido do caminho justo que, por vezes, na voragem destes dias azedos, nos parece fugir do chão.
Entre o território (difícil) da literatura para a infância e juventude, o conto, a dramaturgia, a poesia e, a espaços, o ensaio (Papiniano Carlos dirigiu, em tempos ainda mais agrestes, a secção crítica da Vértice), o seu labor literário não esmorece e continua pujante de inventiva e criatividade. Aos 89 anos, vivendo arredado dos círculos literários (que, de resto, nunca o seduziram) Papiniano Carlos continua o projecto iniciado em 1942, com Esboço: sem desfalecimentos nem cedências. Escreve contra o silêncio. Escreve para transformar a vida, dar-lhe, através da palavra, um rosto mais humano e justo, dado que «agora, amigos, com a noite, eu vos falarei longamente – e estou cheio de esperança». ~
Que a tua fala perdure longamente, para que possamos juntos, de novo, sonhar a terra livre e insubmissa – que esse sonho se transfira do rumor aceso dos teus versos para o real da vida.
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Morreu Papiniano Carlos
| Papiniano Carlos 1918-2012 Escritor (poeta e ficcionista) |
Morreu Papiniano Carlos, o autor de A Menina Gotinha de Água
LUSA
O escritor Papiniano Carlos, um dos últimos representantes do neo-realismo português, morreu hoje, no Porto, informou, em comunicado, a Direcção da Organização Regional do Norte do Partido Comunista Português.
O poeta, autor de Sonhar a Terra Livre e Insubmissa, que somava mais de 60 anos de militância comunista, contava 94 anos.
Papiniano Manuel Carlos Vasconcelos Rodrigues nasceu em Lourenço Marques, actual Maputo, Moçambique, a 9 de Novembro de 1918, fixando-se no Porto, aos 10 anos, onde estudou.
Publicou o primeiro livro de poesia em 1942, Esboço, quatro anos antes de Terra com Sede, a sua estreia na ficção, e de Estrada Nova, com capa de Júlio Pomar, obra que seria apreendida pela PIDE, a polícia política da ditadura.
A adesão do escritor ao PCP remonta ao final da década de 1940, no pós-guerra, actuando na clandestinidade com o nome "Garcia", numa alusão ao poeta andaluz Federico Garcia Lorca.
Na mesma altura, depois de ter frequentado a Faculdade de Ciências da Universidade do Porto, dedicou-se ao ensino, que teve de abandonar, por se ter recusado a subscrever a “declaração anticomunista”, imposta pelo regime aos funcionários.
Deu explicações e foi delegado de propaganda médica. O escritor português foi preso três vezes pela PIDE.
Com Egito Gonçalves, Luís Veiga Leitão, António Rebordão Navarro e Daniel Filipe, dirigiu Notícias de Bloqueio, série de “fascículos de poesia”, publicados no Porto entre 1957 e 1961, designação da revista retirada do título de um poema de Egito Gonçalves.
Colaborou nas revistas Seara Nova e Vértice e integrou os corpos dirigentes do Círculo de Cultura Teatral do Teatro Experimental do Porto.
A Menina Gotinha de Água, para a infância, que viria a marcar o ressurgimento do género, a par das obras de Matilde Rosa Araújo, foi editada na década de 1960 e constitui um dos seus maiores êxitos editoriais.
Entre outros livros, Papiniano Carlos escreveu Mãe Terra (1948), As Florestas e os Ventos, A Rosa Nocturna (1961), A Ave sobre a Cidade (1973),O Rio na Treva (1975).
Na literatura infantil assinou ainda O Grande Lagarto da Pedra Azul e A Viagem de Alexandra.
Em 1998, publicou A Memória com Passaporte: Um tal Perafita na ‘Casa del Campo’ - Relato de um prisioneiro na PIDE do Porto em 1937.
Papiniano Carlos está representado na Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, Nueva Poesia Portuguesa e em La Poésie Ibérique de Combat, entre outras recolhas.
Luís Cília e Fernando Lopes-Graça compuseram canções sobre poemas do escritor.
O corpo de Papiniano Carlos encontra-se em câmara-ardente no Cemitério de Pedrouços (Maia), onde será enterrado quinta-feira, às 15h.
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sábado, 8 de setembro de 2012
Papiniano Carlos - ITINERÁRIO
Os milhares de anos que passaram viram
a nossa escravidão.
NÓS carregámos as pedras das pirâmides,
o chicote estalou,
abriu rios de sangue no nosso dorso.
NÓS empunhámos nas galés dos césares
os abomináveis remos
e o chicote estalou de novo na nossa pele.
A terra que há milhares de anos arroteámos
não é nossa,
e só NÓS a fecundamos!
E quem abriu as artérias? quem rasgou os pés?
Quem sofreu as guerras? quem apodreceu ao abandono?
E quem cerrou os dentes, quem cerrou os dentes
e esperou?
Spartacus voltará: milhões de Spartacus!
os anos que aí vêm hão-de ver
a nossa libertação.
Poema de Papiniano Carlos, nascido em 9 de Novembro de 1918
http://cadernosemcapa.blogspot.pt/2010/11/nos-92-anos-de-papiniano-carlos.html
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