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sábado, 26 de outubro de 2019

Um poema duas traduções – HANS MAGNUS ENZENSBERGER

Hans Magnus Enzensberger


RAJADA

há palavras
leves
como sementes de álamo
erguem-se
levadas pelo vento
e voltam a cair

difícil agarrá-las
porque se afastam muito
como sementes de álamo

há palavras
que mais tarde talvez
removerão a terra

que espalharão sombra
uma sombra delgada
ou talvez não


HANS MAGNUS ENZENSBERGER
(tradução de Eugénio de Andrade
in Trocar de Rosa, idem)

ventogesto

algumas palavras
leves
como sementes de álamo

sobem
viradas pelo vento
mergulham

difíceis de aprender
levam longe
como sementes de álamo

algumas palavras
soltam a terra
talvez mais tarde

lancem uma sombra
uma sombra subtil
ou talvez não

HANS MAGNUS ENZENSBERGER

(tradução de Almeida Faria,
in Poemas Políticos,
publicações Dom Quixote, 1975) 






segunda-feira, 14 de março de 2016

Almeida Faria - Ainda e sempre o Alentejo -

25

A mata dos eucaliptos é um silêncio de mar ao meio do dia; meio-dia, hora branca, meio-dia para todos, almoço para quem no tem; o deus do caos não tem aqui lugar, no seio dos eucaliptos acenando do alto uma luz de presença e de rumor do sol; perto cresce o viveiro dos eucaliptos finos, difíceis e pequenos, plantados com raiz funda durante o ano anterior, e dos pinheiros que os homens semearam e com força cresceram desde o ano anterior ao anterior; qual um golpe de machado certeiro e muito seco, estala um distúrbio ao longe de entre os ramos, um vibrar de asas para o vento e qualquer coisa de larvar com pêlos germinando; é o fogo; vem sobre os seixos respirando redondo um ritmo compassado e muito fundo num rugir de animais de dentro da floresta; nas águas houve círculos de peixes, um touro chorou dentro do mito e um cavalo com as crinas testeiras incendiadas e o peito branco de suor morreu sob uma nuvem; o fogo cobria a terra e o ar as águas, as cópulas dos elementos eram longas e lentas; dizem que o chefe que escapou ao fogo não voltou; um touro o levou e não o trouxe vivo; o seu gémeo e ele no ventre da virgem ficaram para sempre; o fogo estava ali, porém vinha de sempre, desde quando a terra se vestira de gente, de faunas e de flores, de florestas; no instante do fogo o medo se apossou dos homens da planície, a quem os deuses Ataegina e Corneus desapareceram; foi certamente então que vieram estrangeiros e lhes tiraram tudo, violaram as mães, estupraram as filhas; depois do fogo não mais nasceram sémenes das flores e as serpentes fugiram para as águas, os seus olhos não mais arrebataram aves, e os gatos, sós como crianças deixadas nos portais das ruas de noite sem ninguém, miaram para ninguém; as águas infiltradas queimaram as raízes; porém foram plantadas muitas cruzes e elas frutificaram amplamente; dum fogo assim nasceu o Alentejo, e nele uma tragédia despida de horizontes; horizontes de fogo; mar de fogo; o fogo; fogo no Alentejo; pelas manhãs de verão, quando o calor fatiga como agora e, na vila, a gente se recolhe à sombra dos portais, ou em noites varridas de invernos e de ventos, quando em volta das braseiras se juntam as famílias (a pata do vento cobre a vila, com chuva nos telhados e a névoa, como um fantasma branco, doloroso e mudo, corre as ruas desertas, brilhantes de humidade, por onde passos fogem ao silêncio das casas; oh, medo que tudo invades e tudo deixas morto, a alma, se ainda existe, está nos corpos fechada, com gordura por cima, e braseiras e sono; o tempo já não é «número do movimento» e a ordem deste, o ritmo, não é mais, pois tudo está aqui como preso da morte; a vila dorme, dorme; quem imagina a vida de tantos seres pequenos, sem interesse e contudo querendo ser humana? O mísero empregado de cartório, de armazém, que à noite, sob essa luz mortiça e alta e sem calor do tecto, escreve e labora contas que os mortos só conferem, se conferem; ele trabalha, no seu trabalho sórdido, despido de horizontes e de esperança, para um certo senhor invisível, absurdo, que o vigia e domina pelos olhos da fome; sai do emprego tarde, gelado, sem paixão, aguentando a vida na sua iniquidade; para quê este trabalho, para quê estes escravos? (escravo, não te esqueças que és escravo, que a tua condição não é certa nem justa, antes velha, imunda e destrutível; não hesites, que o tempo não consente a hesitação; não penses na mulher nem nos teus filhos, mas só nos filhos dos teus filhos, nos netos que nascerem quando estiveres já morto, e que nascerão livres se quiseres; crê, escravo, quer; não adormeças de tal modo que um dia acordes escravo já para além da morte; não confies tudo à eternidade; o tempo não consente que continues dormindo pelo eterno a dentro; acorda, vive, vê; não te enroles no sono como na mulher quente; não te esqueças do tempo; que te lembres a tempo; põe o despertador antes das sete; estamos na primavera e às sete é já dia; toma cuidado não acordes demasiado cedo; é preciso, porém, estar preparado antes de vir o dia, e ouvir os mais pequenos movimentos da noite, com os seus velhos monstros paquidérmicos; é necessário que durmas vigilante, que descanses desperto; e que saibas o sabor negro do tempo; e que sejas por fim o próprio tempo) o senhor será sempre senhor, enquanto for; longe, talvez, nas remotas cidades, homens lutam e esperam por qualquer coisa outra; é possível, e achamos até que fazem bem; mas nós, os que aqui vegetamos enterrados há tanto, sujeitos a esta rotina sem apelo, por que esperaríamos senão pelo jantar? Senhor, tem piedade dos que arrotam de fome, e salva-os ao menos, como esperam, desta pocilga, lá, em outra parte; porque, se para isto nos fizeste, criaste, que havemos de pensar de ti senão bem mal, que podes limpar as mãos da bela obra feita? Que ao menos o jantar não esteja hoje salgado, e que a chuva e o vento acabem cedo, e que durmamos esta noite em paz; que ainda assim as nossas digestões sejam mais fáceis, e que o almoço de amanhã não esteja, Senhor Deus, salgado), subitamente surge um grito de sereia crescendo e decrescendo como quem pede auxílio; é o fogo, um desastre, uma faísca verde que caiu num montado e o incendiou de raiva; e os bombeiros acorrem, levantam-se se dormem, interrompem a merenda, o almoço, o jantar, deixam os seus trabalhos e, seguros, sem uma hesitação no olhar firme, correm para o quartel, vestem-se e partem; e os miúdos os seguem, vão gritando; e a vila agita a vida; Jó os segue também e pede que os deixem ir com eles, vai com eles; os carros vermelhos atravessam a vila buzinando, tocando, com o jeep e a maca de socorros atrás; o fogo agita a vida; e a vila acorda, vive, nasce sob o baptismo inicial do fogo.


Almeida Faria
 (A Paixão – 1963)

http://aspalavrassaoarmas.blogspot.pt/2016/03/ainda-e-sempre-o-alentejo-almeida-faria.html