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quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Luís Pedro Nunes - A tragédia incompreendida do homem engripado

Opinião

*  Luís Pedro Nunes

A “gripe masculina”, enquanto momento horrível e quase fatal da existência 
de um homem, tem sido alvo de chacota. Sim, há diferenças entre sexos. Só que...

Uma das “descobertas” do ano passado foi de que os rapazes estavam a ser vítimas de uma crise identitária e radicalizados online. A série britânica “Adolescence” serviu para criar uma narrativa que finalmente convenceu uma parte da população que estava cética quanto a uma modificação comportamental dos miúdos, mesmo quando os dados mostravam que os jovens do sexo masculino estavam a votar cada vez mais na extrema-direita, ao contrário das raparigas. Seguiram-se uns bons dois ou três meses de pânico social, com textos e peças televisivas de tom alarmista, e a coisa ficou por aí. A verdade é que pouco foi feito. Mas há dados que são impossíveis de ignorar. Há uma radicalização digital que leva a uma polarização online e que por vezes tem como consequência a violência real. E isto é verdade nos EUA, mas também na Europa e em Portugal.

Terminado o primeiro quarto do século XXI, corre livre, por entre os jovens rapazes, o ideal do homem misógino, que deve “sustentar a mulher”, que deve casar com uma mulher “com pouca rodagem”. Quanto a mim, que sou GenX, que me formei como ser humano nos anos 80/90 do século passado, este já nem era o discurso do meu pai. Era eventualmente dos meus avós, e vê-lo ressuscitado tecnologicamente não deixa de ser chocante, porque soa pura e simplesmente a absurdo, tanto mais que tentam sustentá-lo em terminologia de pseudociência da biologia evolutiva. Já os bilionários de Silicon Valley investiram milhões em antiaging e estão todos com um caparro descomunal. Mas sim: tendo um Trump como figura dominante do discurso político, tivemos um ano da “masculinidade alfa mal resolvida”.

A “gripe masculina” só começou a ser notada no Reino Unido há uns 30 anos, mas expandiu-se rapidamente

A meio do ano, uma notícia provocou um pequeno abalo nas fundações disto tudo — se apreciarmos ironia. E a notícia foi de que a “man flu”, a tão gozada “gripe masculina”, afinal talvez tivesse algumas bases científicas: talvez os homens sofressem de forma diferente; talvez houvesse de facto diferenças entre os sistemas imunitários de homens e mulheres a provocar reações diversas relativamente à gripe.

2026 01 07

Aqui, há que introduzir um pouco de contexto. A “gripe masculina” — enquanto momento atroz de sofrimento dos homens — só começou a ser notada no Reino Unido há uns 30 anos, mas expandiu-se rapidamente por todo o mundo ocidental: a ideia de que os homens dramatizam e as mulheres aguentam, e que eles até usam essa fraqueza como troféu no palco doméstico, em que se apresentam como mártires do vírus enquanto obrigam as mulheres a continuar nas lides e a servir-lhes o chazinho. Uma misandria recreativa. Durante anos, foi alimento de sketches humorísticos e memes: uma encenação, ou uma estratégia de o homem conseguir ser atendido e servido em casa pela mulher apenas por causa de uma mera gripe. Há memes clássicos: a mulher grávida de 9 meses a cuidar dos outros filhos e do marido com gripe; o “kit de sobrevivência da gripe masculina”, que é mesmo vendido online, constituído por um termómetro, lenços, vitamina C e um sino para chamar a mulher; e uma panóplia de textos em que cronistas descrevem os estados de quase morte dos maridos durante uma gripe. A “man flu”, a gripe masculina, é um objeto cultural com inúmeras referências em séries e filmes. É algo que existe na cultura ocidental e é relativamente recente. Não há relatos de gripes “mais fortes” nos homens na Ásia ou em África, pelo que se concluiu que era uma “construção cultural”. Treta. Manha.

A tragédia incompreendida do homem engripado
Hiraman/Getty Images
Mas há pouco tempo, estudos apontaram exatamente para dar razão à existência da “gripe masculina”: as mulheres libertam mais corticosterona e suprimem melhor os sintomas de infeção; mulheres com menstruação têm melhor resposta imunitária; há uma diferença entre “dor e sofrimento”; os homens esperam mais tempo para ir buscar ajuda médica e desenvolvem mais infeções secundárias. Diferentes estudos têm vindo a dizer que há de facto diferenças entre os sistemas imunitários de homens e mulheres e que tal interfere na reação à gripe. Os homens têm uma imunidade mais fraca; as mulheres tendem a detetar mais rápido os invasores e a produzir anticorpos. A hipótese evolutiva sugerida é que haveria aqui um trade-off em que as mulheres “ganhavam” para favorecer a proteção e o cuidado da descendência.

Mas calma: isto não prova a existência da “man flu”. Pelo contrário: ao ter um sistema imunitário mais forte, tal pode gerar uma resposta também mais forte em infeção respiratória ligeira e as mulheres podem sentir-se pior. Ou seja: o facto de os homens terem sistemas imunitários mais fracos até pode fazer com que tenham sintomas menos fortes do que as mulheres. Tudo aponta afinal para que a horrível, pavorosa, mortífera “gripe masculina” seja mesmo treta. Uma narrativa de sofrimento que exige sopinha na cama, uma coreografia doméstica em volta de um supervírus imaginário que escolhe por sexo. Uma doença que quer validação por serviço de quartos. Ou de sofá.

No ano em que os homens, alguns homens, decidiram que era a altura de dar um murro na mesa e exigir de volta a sua masculinidade expurgada — via comunicados drásticos online e ameaças no TikTok —, quase que ficou a saber-se que tinham razão e que a gripe, quando os atacava, era muito mais perniciosa. Mas não. Afinal, é o mesmo, apenas o de sempre. Por detrás de um machão bad boy, está um menino que quer uma mãezinha para lhe levar a sopinha quando tem dói-dói na garganta. O triste é ser tudo tão antigo. A “man flu”. A misoginia. Querer as mulheres de volta para casa. E cá estamos em 2026. Para onde retrocederemos?

domingo, 19 de janeiro de 2020

Luís Pedro Nunes - Negação, raiva e cenas

* Luís Pedro Nunes

A TECNOLOGIA É BOA PARA O AMOR. INÚTIL NAS SEPARAÇÕES
Temos que aceitar com a tolerância que se tem com as coisas modernas que as relações e a intimidade têm hoje variantes que podem parecer patéticas mas que só são criticáveis porque tem um coração empedernido e/ou não é dado a questões tecnológicas. Ou ambas. Tomei conhecimento que casais separados geograficamente, ou que tenham uma relação amorosa mas vivam em casas separadas (namoradinhos), estão a aderir à moda de dormir, a noite toda, com o FaceTime (ou similar) ligado. Ou seja, de certa forma dormem ‘juntos’ cara com cara no ecrã. Isto é impossível de inventar. Estou a ler na “The Atlantic”: “Couples Who Sleep Thogether Over Videochat” — 3 de janeiro de 2020. E ali se relata a beleza de até se poder baixar o som quando o companheiro/a ressona (detalhe que consta do artigo revelado por uma entrevistada). O facto de se repartir o leito com um ecrã ligado à pessoa amada resolve algumas das misérias da convivência partilhada na cama tal como alguns imprevistos que o corpo exala na sua humanidade ou o sempre inevitável hálito matinal. Pela manhã, na pantalha digital, somos apenas despenteados e relativamente mal-encarados e mesmo assim há sempre uns filtros do Snapchat que podem remediar.
Mas, cuidado, e isto também é referido, este tipo de vídeo-relação, exige wi-fi ilimitado. Nada de meros pacotes de dados. Ou temos drama financeiro conjugal. Uma das vantagens, revela uma das entrevistadas, é que assim tem a certeza que a sua cara-metade não está (naquele momento, naquela noite) a ter um caso extraconjugal. Sente-o ‘ali’ deitado com ela numa vídeo-presença. Há, pois, uma sensação de conforto e fidelidade. Bolas!, isto chega a ser romântico. Demonstra esforço e devoção no compromisso (nas separações geográficas). Fica, pois, aqui ponto assente que para as relações à distância a tecnologia tem sido benéfica. E isto é bonito. E mostra fé, por um lado. De que o amor perdure independentemente da quilometragem. E é das maiores faltas de confiança no outro que já vi, dado que exige que esteja live, no vídeo, para impedir que salte a cerca. É escolher.
Já para as separações, a tecnologia tem feito muito pouco para ajudar. Um homem/mulher que é abandonado, que vê acabar uma relação duradoira, fica irremediavelmente reduzido a um traste e quando menos espera está nas redes sociais a cuscar onde é que a/o ex anda. Uns aprendizes de stalker. O que não abona a quem por esta altura já perdeu dignidade (calha a todos). A questão das separações é que, ao contrário da tecnologia, todos somos mais ou menos peritos, todos somos psicólogos inatos e temos uma bagagem conceptual que — embora não tenha funcionado connosco — achamos que pode ser servida a título de conselho gratuito ao amigo que chora baba e ranho no nosso ombro e diz que nunca mais vai amar e o mais que se diz quando somos largados na sarjeta.
— Então... então... tens de começar a fazer o luto...
E, fazendo rapport com tanto filme comédia-romântica e série de TV no bucho, manda-se esta: “Ainda estás em negação amigo... sabes, é o teu cérebro a defender-se e a preparar-te para a ‘raiva’... é o que aí vem, percebes? Raiva. Muita. Mas são as fases por que todos passamos...”
Não são. Ou melhor: as pessoas gostam de pensar que é assim. Que perante uma perda, um evento traumático, um amor que nos deu um pontapé nos fundilhos, todos reagirmos segundo um script idêntico, formatado, composto por cinco fases: negação, raiva, negociação, depressão e aceitação. Buscamos padrões, queremos que o mundo faça sentido, que haja Ordem sobre o Caos. Não queremos que a nossa vida íntima seja uma presidência do Trump. É por isso que esta cronologia de sentimentos é tão catita. O problema é quando não acontece. E se depois da ‘negação’ não sentir raiva e passar rapidamente para a depressão? Ou para a aceitação? O que estou a fazer de ‘errado’? Não sou ‘normal’? Ou — por esta não esperava — se galguei fases do luto, este amor... não era amor?
Estou para aqui a dizer isto à boss, mas estava convencido que era assim até ter lido que o modelo de Kubler-Ross (a investigadora que determinou essas fases para doentes terminais) não é propriamente funcional para miudezas da vida quotidiana, para quando perdemos a carteira de marca ou, mais uma vez, a alma gémea. Para ser sincero, irritam-me alguns destes ataques às verdades que nos arrumavam a vidinha e que antigamente se chamava “experiência de vida” ou ser batidão. Tiram-nos tudo é o que é.
Nesse artigo da “Psychology Today”, tenho-o à minha frente, também desmitificavam teorias como a do “gene da depressão” (não existe), a do “filho mais velho dominador” (não se verifica), a da “adição sexual” (não se comprova), a do hemisfério do cérebro dominante (são ambos) e por aí fora. Bonito serviço. Perdi várias certezas que tinham as suas virtudes timoneiras. “O gene da depressão... ah, pois... uma chatice.”
Que fazer, então, se não há um script boia de salvação para corações partidos, copiado aos moribundos? Estamos por nossa conta. Quando dá para o torto, já não há um GPS do luto. A seguir à ‘negação’ vêm cenas. Sabe-se lá o quê. Tenha bom senso e preserve o que tem. Se preciso for, durma a fazer conchinha com um smartphone ligado, para não perder o sentido de intimidade com a amada e talvez a impedir que seja infiel. É o que há.