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domingo, 8 de fevereiro de 2026

António Gil - Vivemos numa Era Pós-Verdade?

* António Gil

Muitos de vós talvez pensem que pós verdade e pós realidade sejam a mesma coisa mas não são: há uma enorme diferença em grau e género. Quando se admitia existir apenas uma realidade, mesmo se povoada de mentiras e manipulações, já um número indeterminado de verdades podiam coexistir, mesmo se existisse tensão e contradição entre algumas delas.

Agora, existem várias realidades fabricadas: numa delas, por exemplo, a Ucrânia está a vencer a guerra com a Rússia. Noutra há um impasse militar. Numa terceira a Ucrânia precisa de negociar para garantir a sua sobrevivência como Nação. E ainda há aquela que nos diz que a Rússia não só já venceu a Ucrânia como está a invadir os Países Bálticos e por isso é preciso accionar o artigo 5º da NATO (o que nos conduziria a uma guerra nuclear, pela certa).

Notem que todas elas são promovidas pelos políticos e pela imprensa ocidental, não raro até, alguns dizem uma coisa hoje e dirão outra coisa completamente diversa amanhã, estas dissonâncias já foram normalizadas e poucas pessoas as estranham.

Em cada um destes universos paralelos coexistem ‘verdades’ sabendo nós que mesmo num só desses universos muitas dessas ‘verdades’ excluiriam outras.

Há quem defenda que a pós realidade surgiu graças às IAs (sim, elas são muitas e não dizem todas o mesmo) que produzem vídeos, artigos e outras ‘provas’ da realidade que garantem ser a verdadeira e única. Mas já temos um número incontável dessas verdades ‘únicas’.

De resto, se grosso modo é assim, fino modo isto sempre se fez mas com meios mais limitados. A ficção sempre coexistiu com a realidade e alguém chegou a dizer (Oscar Wilde , creio) que a Vida (a realidade) copiava a Arte ( e o que é a Arte senão uma ficção bem sucedida?).

Deixem-me lembrar-vos só um – entre muitos – dos factos históricos que provam isso: depois de Goethe ter publicado Werther, o trágico romance de um sensível jovem alemão que se suicida porque a sua amada não pode corresponder ao seu amor, já que está presa pelo comprometimento com outro homem e não pode fugir a isso.

Ela não é uma Julieta tardia, é só uma mulher do seu tempo, que está enredada numa teia de compromissos familiares e não concebe sua vida fora desse contexto.

O romance foi publicado e foi um sucesso de tal ordem que muitos jovens alemães se suicidaram, seguindo esse exemplo ficcionado. Goethe respondeu com alguma arrogância a quem o tentou responsabilizar por isso: “todos os anos os nossos notáveis generais prussianos arrastam jovens para a morte em número muito superior e por causas mais frívolas que o amor. Permiti que pelo menos uma vez, um pobre escritor faça algo semelhante mas por algo superior”.

Mas então a ficção era só literatura e ainda assim cobrou seu preço. Hoje ela invadiu todas as áreas da nossa vida e mobiliza todo o tipo de recursos de que a IA já se apoderou, incluindo o das vidas virtuais, que decorrem, por exemplo, nos multiversos da Meta, nossa anfitriã na nossa página do Facebook.

Para quem não sabe, os habitantes dessas vidas virtuais (seus avatares, enfim) até aí compram, com dinheiro real, propriedades fictícias: mansões, fazendas, o que seja.

Pós realidade pois, não é exagero, muito menos ficção: já cá está.

Não se admirem pois, que as pessoas andem tão confusas tantas delas nem sabendo bem a que realidade pertencem nem em qual delas se desenrolam suas vidas. Na dúvida, compartimentalizam e vivem várias vidas o que quer dizer que não vivem vida nenhuma.

Se a isto podemos chamar progresso é muito discutível mas podemos recear que não haja mais, como não houve no passado relativamente a outras aquisições tecnológicas, nenhum caminho de regresso. Melhor não entrarmos por aí – esse é um caminho para a loucura e, quem queira saber o que realmente se passa num certo local, opte por ir lá, para verificar com seus próprios olhos.

fev 08, 2026

https://antoniojfgil.substack.com/p/are-we-living-in-a-post-truth-era?

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

António Gil - Os porcos estão no poder


* António Gil


E eles são muito mais animais que os outros

Considerando o número de políticos, membros de famílias envolvidos em relações sinistras com Epstein e além disso jornalistas, intelectuais e artistas, a única hipótese que restaria ao ‘Ocidente’ era vassourada total no topo das várias hierarquias (as de sangue, hereditárias, as de conluio intelectual, as de cumplicidade criminosa de políticos) e recomeçar do zero.

Falemos de uma grande cama, onde todos promiscuamente conviviam, no bordel que Ghislaine Maxwell e Jeffrey Epstein, por esta ordem, já que ela era a madame patroa, ele era o ‘segurança’ do bordel. A prova desta hierarquia é que ele foi suicidado ela nunca o será porque está bem protegida como acontece sempre com quem está no topo.

Nessa grande cama, dormiram tantos, tantos, dos ditos ‘líderes ocidentais’ dos dois sexos e seus derivados genéricos, acompanhados por todos os seus asseclas: os escribas, os roteiristas, os realizadores de cinema, as estrelas pop da música e das artes performativas e -é claro – os produtores, os que fianaciaram todo aquele filme hardcore.

Uma prova, se ainda necessitássemos de tal coisa, que milhares de pessoas podem guardar longamente um segredo, protegendo-o dos rumores, da má língua, mesmo dos ‘teóricos da conspiração,’ essa ‘raça’ sempre tão desconfiada à qual desde sempre me orgulhei de pertencer.

É muita gente, é gente muito poderosa. Não são pessoas como nós, ninguém os censura, ninguém os cancela, ninguém os desmonetariza e ninguém os castiga da forma como mereceriam. Já viram alguém preso? Algum julgamento marcado, além da madame Maxwell?

Não admira que muitos deles e delas se vejam no papel de deuses e deusas, com poderes exclusivos para disporem de corpos alheios, sejam eles crianças impúberes ou humanos maduros ou anciãos, todos dispensáveis.

Estamos diante disso, agora. E não importa se acreditamos ou não em deuses e deusas, importa sim saber que há humanos arrogando-se tal estatuto e agindo como se tivessem criado o Universo ou mesmo os multiversos.

Não se trata já de resistir a estas criaturas, o desafio é mais radical: ou nos livramos de tais monstros ou, nalgum ponto elas se livrarão de todos os que consideram humanos excedentários. E decerto a maioria esmagadora de nós está nessa categoria, para tais seres aberrantes.

E os que não estão, se não pertencerem a esse clube exclusivo e desapiedado, servirão enquanto tiverem corpos apetecíveis ou produzam prosápia envenenada, para enganar os leitores mais crentes. Depois disso, esgotarão seus prazos de validade e serão jogados no lixo, como todos os outros.

Se a impunidade prevalecer e -como prevejo – não houver outra punição para estas criaturas aberrantes senão o breve embaraço e a ligeira maçada de verem seus nomes publicamente expostos, a mensagem desse laxismo jurídico será clara mas incomodará pouca gente: os poderosos não estão sujeitos às leis que eles mesmos impõem aos outros, não sofrem as legítimas punições e podem, portanto, continuar alegremente a executar suas presas para satisfação de seus mais baixos instintos.

2026 02 02

https://antoniojfgil.substack.com/p/the-pigs-are-in-power?

domingo, 1 de fevereiro de 2026

António Gil - Apocalipse ontem, hoje e amanhã


* António Gil

(Eis algo que desde sempre ‘vende’)

Nas fitas de Hollywood o mundo já acabou muitas vezes e de várias formas: holocausto nuclear, um meteoro, insectos gigantes, invasões de aliens etc, etc. Desde a adolescência, vi dezenas de vezes as grandes metrópoles devastadas por ‘’grandes fenómenos’‘.

Os chamados filmes catástrofe tiveram sempre vasto público e provocava-me dúvidas o fascínio das pessoas - dos países mais ricos, os outros andavam ‘’entretidos’‘ na busca de algo por meter na panela- pelos cataclismos.

Na altura não me ocorria que a perspectiva apocalíptica tinha fundas raízes na matriz judaico-cristã (mais na cristã que na judaica, reconheça-se), apenas me perguntava por que razão a malta gostava tanto de ver cidades sendo inundadas, consumidas pelo fogo, ou destruídas por armas poderosas - humanas ou aliens, há armas para todos os gostos.

Mas talvez essa fantasia seja mais velha que qualquer religião em vigor. Suspeito, por vezes, era este mundo era ainda jovem e haveria quem desejasse o seu fim - por exemplo, num dia em que tudo lhe tivesse corrido mal.

Seja como for, os produtores e realizadores da dita Meca do cinema não eram parvos e iam dando seguimento ao catastrofismo. Havia sempre margem para algo mais assustador que o filme-catástrofe anterior: os gafanhotos (praga bíblica) gigantes só mexiam com os nervos de algumas pessoas? ah mas um meteoro gigante e descontrolado, vindo sabe-se-lá-donde é coisa mais verosímil e esse não pode ser liquidado (um medo mais ‘’científico’‘, por assim dizer).

O terreno para plantar estes pavores sempre existiu, portanto. A semente - - a nossa fragilidade, somos mortais e sabemos disso - também sempre andou por aí.

Se alguém for perverso o suficiente para tratar da ‘’plantação’‘, é quase certo que terá sua colheita (vejam as seitas religiosas, quase todas apocalípticas e o quanto elas ‘’rendem’‘ a seus fundadores/sacerdotes).

A gestão dos medos colectivos pode tornar algumas pessoas muito poderosas mas produzirá porém sempre frutos podres: seitas inteiras assassinaram seus filhos cometendo suicídio colectivo logo depois. O fim do mundo não veio mas podem ter a certeza que alguém, algures, lucrou com a crendice suicida.

Portanto, quanto a catástrofe prometida é grande, o pobre deve desconfiar. E se a difusão dessa promessa apocalíptica é enorme em escala e eficácia, maior deverá ser a desconfiança a adoptar. Ou já nos esquecemos quem domina os grandes meios de comunicação de massas?

A ‘Meca do Cinema’ mas também o país que ela representa já experimentaram o tantos anos andou nesse subconsciente onde o masoquismo encontra -creio mesmo nisto - solo fértil numa cultura violenta, genocida e portanto subrepticiamente vergada sob sentimentos de culpa e da necessária expiação do pecado. com os incêndios que assolaram Los Angeles. é provável que o local não recupere, dado o trauma.

Los Angeles não foi escolhida por acaso pela indústria cinematográfica. Foi algo racional: clima aprazível, possibilidades infinitas de filmar no exterior sem grandes cenários artificiais: o mar ali tão perto (diz quem lá esteve, tão mediterrânico, águas quentes, poucas ondas). Deserto também tão perto (ideal para filmes de cow-boys ou westerns) . Montanhas e vales ( bom até para filmar coisas ‘noutros planetas’.

O fogo dos infernos soltou-se sobre tantos lugares, alguns até paradisiacos como Malibu Beach. Mansões de bilionários consumidas, a paisagem invoca Hiroshima, com o pormenor (pormaior eu acho) de os edifícios terem sido nivelados até ao solo enquanto algumas árvores orgulhosas se mantêm de pé, mal chamuscadas. O que se passou ali exactamente ainda é difícil de adivinhar e suscita inúmeras ‘teorias da conspiração’

Hollywood provavelmente irá deslocalizar-se. É uma indústria como as outras certo? Silicon Valey também já não é o que era, a migração para outros Estados já começou. Talvez faça outsourcing da sua produção e produzir seus filmes na Ásia? em Bollywood, India, por exemplo?

Nesse caso teríamos talvez apocalipses mais exóticos mas eles não desapareciam. Ou não fossem Xivah e Cali deuses indianos

2026 02 01

https://antoniojfgil.substack.com/p/apocalypse-yesterday-today-and-tomorrow? 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A barganha de Mark Rutte sobre a Groenlândia

A barganha de Mark Rutte sobre a Groenlândia
E a Dinamarca? E a UE? Não têm nada a dizer?

Há dias acabei um artigo com um poema de Fernando Pessoa (heterónimo Alberto Caeiro) . Hoje começo este com outro poema, no caso de Eduardo Alves da Costa, um poeta brasileiro não muito conhecido, texto que é erroneamente muitas vezes atribuído a Maiakovsky, talvez por causa de seu título:

NO CAMINHO, COM MAIAKOVSKI

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

Vem isto a propósito de como Mark Rutte decidiu entregar parte da Groenlândia aos EUA, concedendo-lhes o direito de instalar por lá as bases militares que entendessem e possuindo DE FACTO os territórios onde tais bases vierem a ser construídas.

Naturalmente, na versão de Donald Trump além dos locais onde tais bases venham a ser instaladas, os EUA possuiriam também todo o direito de explorar os recursos energéticos e minerais da grande ilha. Estamos portanto na fase em que os ladrões do poema de Maiakovsky já pisaram as flores.

Deve Mark Rutte ficar preocupado? Foi ele foi o cão que não ladrou quando a primeira flor foi roubada. Ele será a próxima vítima? Talvez não, dependendo de quem seja o seu dono.

De qualquer forma, está a esgotar-se o tempo da Dinamarca e seus supostos aliados europeus dizerem alguma coisa, antes que suas vozes lhes sejam arrancadas das gargantas

https://antoniojfgil.substack.com/p/mark-ruttes-greenland-bargain? 

terça-feira, 1 de abril de 2025

António Gil - A ilusão de uma Europa pacífica



* António Gil

Um mito persistente mas agora moribundo.

Durante décadas acreditou-se que a União Europeia (antes CEE) seria a garantia de paz no continente. Eu mesmo, quando jovem acreditava nisso mas acordei para a dura realidade há mais de 3 décadas, por ocasião da guerra na ex Jugoslávia.

A crença era partilhada por muitos não europeus. Não por acaso, o neo con Robert Kagan escreveu que "Os americanos são de Marte e os europeus são de Vénus". Marte, como se sabe, era o Deus romano da guerra e Vénus a Deusa do amor. E a expressão resultou de uma conversão do título de um livro do filósofo John Gray ‘’Os homens são de Marte e as mulheres são de Vénus’’.

Bom, ambas as ideias estão erradas. No que ao impulso belicista diz respeito, a Europa esteve na origem de duas guerras mundiais. E depois disso, não apenas no caso jugoslavo mas também na Líbia, os europeus (franceses e ingleses, no caso) foram os verdadeiros iniciadores da guerra, a administração Obama acabou por se lhes juntar mais tarde.

Se algum mérito Trump teve, no caso da guerra da Ucrânia, foi dar a machadada final na crença que os EUA são entusiastas da guerra e os europeus apenas os seguem. Ninguém agora pode mais acreditar nisso.

A indignação de Macron, Starmer, Baerbock e Merz diante da possibilidade dos EUA simplesmente se retirarem de uma guerra que eles teimam em continuar é evidente. Os apelos de Ursula, Kallas e Mark Rutte (um holandês) para o rearmamento europeu, falam por si.

Isto é tanto mais grave quanto sabemos que duas guerras mundiais na Europa arruinaram o continente e levaram a sua perda de influência mundial. Uma terceira guerra generalizada ao continente devia, por isso, fazer soar todos os alarmes e despertar todos os terrores.

No entanto, não se nota, nas opiniões públicas europeias qualquer agitação. Em alguns países fala-se de serviço militar obrigatório, a Dinamarca irá mobilizar também as mulheres, Ursula propõe um kit ridículo de sobrevivência para 3 dias e poucos cidadãos reagem a tais propostas.

Há um sonambulismo incompreensível dos europeus quanto a esta verdadeira ameaça a sua sobrevivência e ainda não entendi se ela resulta do cepticismo (ninguém acreditar em tal possibilidade) se de conformismo ou preguiça de reagir.

https://antoniojfgil.substack.com/p/the-illusion-of-a-peaceful-europe? 

segunda-feira, 17 de março de 2025

António Gil - Os líderes políticos actuais do ocidente foram escolhidos num casting



* António Gil


Os líderes políticos actuais do ocidente foram escolhidos num casting

Disso mesmo se gabou várias vezes Klauss Schwab, o patrão do Fórum Económico Mundial

.Se é verdade -como acredito que é - que a qualificação para a sobrevivência dos indivíduos, como dos povos, depende em larga medida da capacidade de adaptação a novas circunstâncias, então devo dizer que a civilização no seio da qual nasci parece irremediavelmente comprometida

Há um número indeterminado - mas grande - de indivíduos europeus, canadianos, americanos, australianos e neo-zelandeses que parecem ter ficado presos num tempo em que a URSS e os EUA putativamente decidiam os destinos do mundo. Bom, nem nessa época isso era verdade, imaginem agora, mais de uma geração depois.

Podemos certamente acusar os sistemas educativos e a propaganda ocidentais de tudo, certamente, menos de sofisticação. Não há nuances nem flexibilidade mental nas formas de conceber o mundo geo-político actual nas massas ocidentais. Só o preto e branco, sem sequer a qualidade imagética de Eisenstein, esse genial realizador que deixava os tons de cinzento implícitos, no seu gosto pelos grandes contrastes.

É tudo tão primitivo que ainda vemos gente falando sobre ditaduras comunistas e lutadores pela liberdade (anti-comunistas, dentro desse esquema simplista). E sim, para muitos a Rússia permanece comunista e os EUA os campeões do livre mercado, não importa quantas tarifas imponham aos produtos que …importam.

Tudo o que aconteceu depois do colapso do muro de Berlim? é como se não tivesse existido! se isto não representa um caso de estado coma mental, nem sei o que chamar-lhe. E não, isto não é uma percepção de ‘camponeses’, de gente iletrada, pelo contrário. Na verdade, esta visão foi imposta de cima para baixo, os ‘camponeses’ apenas papagueiam o que dizem suas supostas elites.

Nada disto seria novo, não se desse o caso de parecer cada vez mais evidente que as ditas ‘elites’ parecem realmente acreditar no que dizem. Em épocas históricas não tão distantes assim, a elite parecia ter -pelo menos - a noção que havia duas ‘realidades’ imiscíveis:
1- O que era preciso dizer à populaça para que esta se mantivesse ordeira. As elites do passado não acreditavam naquilo que diziam, mas sabiam o que era preciso dizer para manterem seus privilégios.

2- A realidade propriamente dita, que as elites conheciam e mantinham em circuito fechado, longe do conhecimento público. Essa realidade não era desprezada, dentro de um certo círculo, era mesmo estudada e aprofundada, com o mesmo objectivo: a manutenção ou ampliação dos privilégios próprios.

Hoje isso não parece acontecer. A própria elite parece acreditar piamente nas suas mentiras. Como explicar isso? 

Bom, na minha opinião a ‘elite’ que temos é pouco mais que um punhado de camponeses deslumbrados, pagos a peso de ouro mas nem por isso cientes do que dizem e do que fazem. Não são pessoas que alguma vez tivessem recebido (como os aristocratas do passado) qualquer rudimento da arte de governar, são ‘celebridades’, promovidas pelos mesmos processos que consagraram artistas da música pop ou do cinema. E tal como a maioria destes, vindos dos extractos mais baixos da sociedade. Talvez as chamadas democracias ocidentais se resumam a isto, afinal: pessoas escolhidas num casting para interpretarem o papel de governantes. E quando o casting falha, quem paga o ‘filme’ anula a escolha e avança com protagonistas de seu agrado, como aconteceu recentemente na Roménia.


mar 16, 2025
https://antoniojfgil.substack.com/p/the-current-political-leaders-of? 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

António Gil - Os russos estão a usar o secretismo como arma

* António Gil 

E isso é injusto porque os especialistas ocidentais não são capazes de calar a matraca.


Entende-se que os Ucranianos e seus Chefes ocidentais andem arreliados: o ano passado todas as semanas eles anunciavam publicamente o que iam fazer: atacar na direcção da Crimeia para cortar as tropas russas em duas fatias, recuperar Artemvisk (Bakhmut), ocupar a margem do Dniepr do outro lado da cidade de Kherson.


Eram informações honestas, não armadilhas, eles tentaram mesmo fazer tudo o que diziam. Os russos bem podiam retribuir, pensam eles, tendo a amabilidade de os informar de suas intenções. 


Mas não, eles são maus, mantêm a boca fechada. Até parece que a Guerra é um negócio secreto. Ah esperem, esperem, as guerras, antes da originalidade ucraniana, sempre foi um negócio secreto.


Já no passado, eles não avisaram os exércitos de Napoleão de que planeavam incendiar a Moscovo: deixaram-nos avançar para a grande cidade sem sequer um alerta amarelo. O alerta laranja e vermelho só piscaram quando Napoleão e seus guerreiros estavam tão pertinho da cidade que se podiam aquecer nas chamas.


Mais tarde, não avisaram o alto comando alemão que não abandonariam Leninegrado nem Estalinegrado.  Em consequência, a máquina propagandística de Goebbels ,anunciou várias vezes a captura das duas cidades enquanto os combates prosseguiam no miolo urbano das duas grandes povoações.

Tudo para zangar Goebbels, claro. E fazê-lo dizer: ‘foi desta, desta é que foi’’ para logo a seguir reconhecer: ‘ainda há escaramuças mas bom, nalgum ponto eles vão desistir’. Não desistiram, porém. Eles são teimosos e no fim foram os alemães que tiveram de retirar ou render-se.

Já deste lado, desde a 2ª guerra mundial, os chefes militares gostam de explicar nas TVs o que vão fazer. Não que isso seja mistério: eles usam sempre a táctica Obélix: Vamos lá (normalmente às capitais e grandes cidades dos países agredidos) e partimos aquela m*rda toda.

Uma legião de especialistas secunda-os, com mapas, modelos de aviões mísseis  e descrições abundantes de detalhes técnicos como a autonomia de voo, a velocidade, a capacidade explosiva de cada ogiva e por aí fora.

Os russos não fazem nada disso: são um país atrasado, diz-se. Eles não entendem que anunciar algo e fazê-lo mostra poder. Ainda estão naquela fase adolescente das festas-surpresa. 

Então, os militares, jornalistas, comentadores têm de tentar adivinhar: vai haver uma ofensiva a sério, daquelas com centenas de tanques e centenas de milhar de soldados? onde e quando? e de que estão eles à espera?

Que diabo: eles já têm tantos soldados fazendo pic-nics em terras que já pertenceram à Ucrânia! isto é uma guerra ou uma festa, para eles? por que não atacaram em força ainda? só para chatear, claro. Os russos são assim, adoram irritar seus inimigos, como se tivessem algo contra eles!

Esta espera está a matar os nossos especialistas todos, especialmente os que se movem a cocaína. Talvez eles devessem trocar um pó branco pelo outro: os opiáceos -diz-se - são também péssimos para a saúde mas pelo menos acalmam. 

mar 31, 2024

https://antoniojfgil.substack.com/p/russians-are-using-secrecy-as-a-weapon

sábado, 21 de abril de 2012

António Gil - Em vez da voz


Victor Nogueira partilhou a foto de Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen.
21/4
ANTÓNIO GIL in EM VEZ DA VOZ (A PUBLICAR)

descendo a ladeira dos anos
saberei de cor os matizes
do luar no mármore branco
e do sol que ilumina o flanco
do corpo dos dias felizes

deslizando na encosta do tempo
aprenderei docilento
os sinais do cio das águas
o procriar da luz nas fráguas
o parto de cada momento

fluindo no leito da memória
hei-de provar doçardente
o licor dos anos já idos
a polpa dos meses caídos
o sumo do dia presente

e assim ainda vou caindo
suave, um ou outro ressalto
tentando escorar-me no alto
o corpo sempre descendo
o olhar sempre subindo

*

Abstract Art: The Paintings of Jamie R. Morhaim

*

(LT)