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sexta-feira, 27 de março de 2026

Alfredo Barroso - NÃO É CÓMODO SER DE ESQUERDA



*  Alfredo Barroso 

O eurodeputado e famoso ex-ministro da Saúde de um governo do PS, António Correia de Campos, escreveu no Público, em 21 de Janeiro de 2013, que «o povo não come ideologia». Claro que não! Tal como não come música, literatura, artes plásticas, cinema e muitas outras coisas consideradas fúteis pelos economicistas de serviço. Ao contrário dos hamburgers da McDonald’s, por exemplo… Ou dos bifes que a drª Isabel Jonet acusou o povo de comer todos os dias, para ruína da pátria e da república… E quem não se recorda daquele ministro de Berlusconi que se atreveu a contrariar jornalistas que insistiam em falar-lhe de Cultura, dizendo que «a ‘Divina Comédia’, de Dante, não serve para comer porque com ela não podemos fazer sanduíches»?! 

«O povo não come ideologia» é uma frase muito batida, normalmente utilizada pela direita ou por políticos oriundos da extrema-esquerda sempre em trânsito para a direita. É característica do pragmatismo sem princípios que tomou conta dos partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas membros da Internacional Socialista, na última década do século passado, a partir da fracassada Terceira Via teorizada por Anthony Giddens e adoptada por Tony Blair, Gerhard Schroeder, António Guterres e «tutti quanti» por essa Europa fora. No fundo, não passou de uma conversão encapotada às delícias do neoliberalismo. Foi uma abdicação ideológica que os tornou comparsas da direita e reforçou o «rotativismo» no poder, com as mordomias que ele confere e os tachos que permite distribuir.

«Ser de esquerda não tem necessariamente de ser cómodo. Quase nunca é» - dizia João Martins Pereira, uma referência ideológica para muitos da minha geração. E o que é uma ideologia? Para não complicar as coisas, recorro a um dicionário bem conhecido, o da Porto Editora, que reza assim sobre ideologia: «1. Sistema de ideias, valores e princípios que definem uma determinada visão do mundo, fundamentando e orientando a forma de agir de uma pessoa ou de um grupo social (partido político, grupo religioso, etc.) 2. Estudo da origem e da formação das ideias».

Claro que há ideologias boas e ideologias más, democráticas e totalitárias, pluralistas e intolerantes. Mas, ao contrário do que costuma afirmar a direita (sempre demagógica até ao tutano), não me parece que, em si mesmo, o conceito de ideologia seja um papão. Nem uma sanduíche de Dante. Nem um bife à Isabel Jonet. Aliás, só um «prodígio sem ossos» («boneless wonder», como chamava Churchill a um dos seus adversários políticos) é que pode singrar na política sem qualquer quadro de valores e princípios, sem uma visão do mundo que lhe sirva de referência, caminhando aos ziguezagues, recorrendo à navegação de cabotagem por incapacidade de se fazer ao largo e de correr riscos, definindo novos rumos e tentando mudar o estado das coisas para que os cidadãos consigam viver melhor, numa sociedade menos desigual, mais justa e mais solidária. 

Um «prodígio sem ossos» não faz grandes ondas, provoca apenas uma ligeira ondulação enquanto aguarda tranquilamente a sua vez para regressar ao poder. A Internacional Socialista está cheia de «prodígios sem ossos» ansiosos por agradar a plutocratas, banqueiros, grandes empresas e seus accionistas, gestores e patrões. A Internacional Socialista está em crise profunda porque os partidos que dela fazem parte cortaram as suas raízes históricas, abdicaram de ter um pensamento próprio, autónomo, original, e julgaram erradamente que se renovavam catrapiscando ideias e propostas dos seus adversários da direita neoliberal e neoconservadora. Os resultados estão à vista. De facto, não é nada cómodo ser de esquerda…

05/Fevereiro/2013

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sexta-feira, 6 de março de 2026

Alfredo Barroso - MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES


MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES, ADMIRÁVEL CRONISTA E, SEM DÚVIDA, GRANDE ROMANCISTA QUE LI POUCO POR PREGUIÇA…

- confessa Alfredo Barroso, mais virado para as crónicas

António Lobo Antunes era sobretudo, para mim, um cronista genial, da envergadura de Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz, admiráveis cronistas do século XIX português. Oxalá reeditem, e tornem a pôr à venda as crónicas que ele escreveu. Leem-se, tal como as de Camilo e Eça, por puro prazer, deleite e admiração pela extraordinária riqueza e flexibilidade da escrita.

Foi um amigo meu, o Joaquim Brandão, quem me alertou, já lá vai quase meio século, para a “Memória de Elefante”, a que se seguiu, pois claro, a leitura de “Os Cus de Judas”. Vieram depois “A Morte de Carlos Gardel” e o “Manual dos Inquisidores”. E por aqui me fiquei.

Confesso que, neste último, não apreciei a insistência nas repetições, uma técnica de construção narrativa do autor cheia de desarrincanços, mas que me transtornava a leitura, o que só prova que me tornei preguiçoso e não sou bom leitor dos romances de António Lobo Antunes. Nota-se a cadência das repetições – como se topa logo desde o começo do ‘Manual’, com a insistência do latifundiário em dizer que não tira o chapéu da cabeça enquanto sodomiza criadas, por exemplo, «a filha do caseiro (…) acocorada num banquinho de pau», ou «a cozinheira estendida de costas no altar, de roupa em desordem e avental ao pescoço». E repete as explicações: «Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão»…

E assim por diante, com repetições em série cheias de imaginação, muito sainete e manifesto talento literário. Até a um apocalipse final em que as palavras, frases e ideias se embrulham e atropelam, no meio de «cabanas desfeitas pela guerra e pela chuva», da ordem «queimem esta merda toda», e dum pai a implorar´repetidamente: «peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu filho que apesar de tudo eu». E acaba assim, a frase interrompida sem reticências…

O narcisismo, ou melhor, o fascínio de António Lobo Antunes pela sua própria escrita é mais que evidente, sobretudo nos romances que escreveu e menos nas suas admiráveis crónicas. Mas era, sem dúvida, um admirável escritor, sempre a lamentar que não lhe atribuíssem o Prémio Nobel da Literatura…

NOTÍCIA DA DEMÊNCIA E DA MORTE

O certo é que António Lobo Antunes morreu, esta quinta-feira, dia 5 de Março de 2026, com 83 anos de idade (só mais dois do que eu). Dizem as notícias da sua morte que escreveu mais de três dezenas de romances, e que, nos últimos anos, se afastou bastante do mundo, devido à demência que o afectou.

«A doença que o foi invadindo, acentuou-se durante o confinamento causado pela pandemia de Covid-19», revelou João Céu e Silva, seu biógrafo, citado pelo Expresso. O jornalista explicou que os sintomas da doença terão começado vários anos antes. Alguns desses sintomas são a perda de memória, a dificuldade de fazer novas aprendizagens, a perda frequente de objetos de valor, como carteiras e chaves, ou esquecer-se da comida ao lume. Cuidado Alfredo, ela vem aí…

“É a minha geração partindo”, comentou comovida a escritora Lídia Jorge, logo de manhã, tinha acabado de receber a notícia. “É uma geração que cumpriu o seu dever: deixámos a memória de um tempo de mudança extraordinária no país, e à frente de todos nós esteve ele.”

Para Lídia Jorge, António Lobo Antunes (ALA) foi capaz de pegar “nas aquisições do romance psicológico e fazer dele uma espécie de modelo inventivo para falar da história viva, ativa, portuguesa”, sublinhando “o que hoje é evidente, a necessidade da relação entre a Europa e o mundo colonial”, e fazendo-o por meio de “um estilo, um modo e uma forma que são universais”.

Essa forma que, segundo Gonçalo M. Tavares, é “das mais contagiantes em termos de estilo e de tom de escrita”. O autor, de 55 anos, conta que leu Lobo Antunes muito novo. “Ele falava muito de o leitor apanhar com os seus livros uma espécie de vírus, de doença benigna. Quando se é novo, é dificil ler e não escrever como ele. É uma avalanche de ritmo, de repetições, de diálogos, da própria estrutura da página... O leitor, depois de o ler, tem de resistir muito par não escrever como ele.”

E se gostou dos primeiros – cita o “Tratado das Paixões da Alma” e “Ordem Natural das Coisas” -, considera que a segunda fase de ALA finca o pé na linguagem de um modo “impressionante e corajoso” como poucos. “Esses últimos livros, sendo mais difíceis, estavam num mundo em que o romance se dissolve no trabalho da linguagem, em que se assume que a história não é importante. Coloca-se no campo da linguagem, do ritmo, da frase, da metáfora”.

Dulce Maria Cardoso concorda que António Lobo Antunes manteve o selo de qualidade e de originalidade até ao fim. “Fechou com chave de ouro, com “O Tamanho do Mundo”, que é um bom livro”, observa. “Sinto-me devedora dele, aprendi muito. Aprendi sobretudo, desde o início, essa coisa maravilhosa de que a escrita é trabalho, trabalho, trabalho. Ele próprio aplicou isso no seu caminho, ao evoluir muito ao longo dos anos”, diz a autora de “O Retorno”, que pouco se cruzou com o escritor nascido em Benfica.

Carlos Vaz Marques, jornalista e editor que conheceu o romancista, prefere recordá-lo relatando um dos “vários episódios marcantes” dos seus encontros com ele. “Fui entrevistar o António ao Hospital Miguel Bombarda, onde ele era médico psiquiatra. Levei um daqueles gravadores a pilhas, pequeninos, para registar a conversa. A meio do diálogo, batem à porta do gabinete. ‘Entre.’ Abre-se a porta e surge um homem de olhar vago, naquela espécie de farda hospitalar que vestiam os doentes em ambulatório. ‘Já está, sôtor; aqui tem.’ E lança dali mesmo uma chave, saindo de imediato. ‘Pedi-lhe para me ir arrumar o carro’, explica o médico. E depois, sem transição, sem qualquer inflexão especial, a frase fulgurante, guardada pelo gravador: ‘É um tipo porreiro. Matou o pai.’ Nunca mais ouvi alguém dizer de alguém que ‘é um tipo porreiro’ sem voltar a ouvir a frase do António. Que pena tenho de já só a poder ouvir, naquela voz bem timbrada, na minha cabeça.”

Campo d’Ourique, 5 de Março de 2026

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Alfredo Barroso - Crimes de guerra não foram só os da Alemanha, da Itália e do Japão

 


LIVROS SOBRE O IMPERIALISMO OCIDENTAL, EUROPEU E AMERICANO, E A ARROGÂNCIA E GANÂNCIA DO PODER DOS ESTADOS-UNIDOS

- livros sugeridos por Alfredo Barroso, porque, se fossem lidos pela esmagadora maioria dos comentadores epecialistas das TV's privadas, eles perceberiam melhor os disparates que proferem ao falarem do «imperialismo Russo»...

Alfredo Barroso

2026 02 26

HISTÓRIA E LITERATURA FIDEDIGNAS SOBRE CRIMES DE GUERRA COMETIDOS PELO OCIDENTE DESDE A II GUERRA MUNDIAL

Para não ser apenas eu a fruir dos livros da minha biblioteca, aqui vão cinco sugestões de leitura sobre história e literatura fidedignas acerca dos crimes de guerra cometidos pelo Ocidente, sobretudo pelo Reino Unido, durante a II Guerra Mundial. E pelos Estados-Unidos da América desde então até à actualidade. Ei-las:

«DER BRAND. DEUTSCHLAND IM BOMBERKRIEG, 1940-1945» («EL INCÊNDIO. ALEMANIA BAJO LOS BOMBARDEOS, 1940-1945), por JÖRG FRIEDERICH (2002) – Os bombardeamentos que assolaram as cidades, vilas e aldeias alemãs durante os cinco anos da II Guerra Mundial não têm paralelo na história. Foram bombardeadas mais de mil urbes e localidades. Trinta milhões de civis – na sua maioria velhos, mulheres e crianças – foram vítimas de cerca de um milhão de toneladas de bombas incendiárias e explosivas. Morreram mais de um milhão de civis e perdeu-se para sempre grande parte do património urbanístico, modelado desde a Idade Média.

Até à publicação deste livro, em 2002, nenhum relato histórico tinha oferecido uma narrativa sobre a verdadeira dimensão dos factos e o destino real das vítimas. O historiador berlinense JÖRG FRIEDERICH veio colmatar essa falta com esta obra sobre a campanha de destruição que os britânicos e os norte-americanos planearam e executaram, de forma sistemática, contra as cidades alemãs.

Com base em numerosas fontes, o autor mostra-nos a evolução e aperfeioçoamento das bombas, o seu efeito devastador no terreno, a experiência traumática da população refuguada em “bunkers” e caves, as mortes por calor e asfixia, a brutal pressão do ar e os gases tóxicos e o desmoronar de uma herança cultural de incomensurável riqueza.

JÖRG FRIEDERICH (nascido em 1944) investigou os delitos de Estado do nazismo e os seus crimes de guerra. Colaborou na ‘Enciclopédia do Holocausto’ e produziu inúmeras séries de televisão sobre Criminologia da Guerra, tanto terrestre como aérea. Foi galardoado com diversas distinções internacionais em virtude dos seus trabalhos.

«LUFTKRIEG UND LITERATUR» («HITÓRIA NATURAL DA DESTRUIÇÃO»), por W. G. SEBALD (1999) – Através deste texto magistral, o grande escritor W.G.Sebald (1944-2001) revela como os bombardeamentos massivos do solo alemão pelas tropas aliadas, nos últimos meses da II Guerra Mundial, se tornaram um tabu no seio da sociedade e da literatura alemãs. Rejeitando o sentimento de culpabilidade dos intelectuais alemães, que falseia o seu julgamento tanto quanto a sua inspiração estética, W. G. Sebald preencheu a lacuna por uma evocação à sua maneira desses “raids de aniquilação total” que custaram a vida a cerca de um milhão de civis alemães.

«Da destruição como elemento da história natural» é uma obra incisiva e poderosa, ilustrada por fotos e documentos, que torna palpável o sofrimento do seu país, escrita por um dos mais notáveis escritores contemporâneos, W. G. Sebald, autor de várias obras marcantes como: “Os Emigrantes” (1999); «Os Anéis de Saturno» (1999); «Vertigens” (2001); e «Austerlitz» (2002).

(Edição portuguesa da TEOREMA)

«HIROSHIMA», por JOHN HERSEY (1946 e 1986) – Este é o livro mundialmente mais conhecido do jornalista e escritor norte-americano John Hersey (1914-1993). Publicado pela primeira vez em quatro capítulos pela revista ‘New Yorker’, em 1946, John Hersey acrescentou um quinto capítulo em 1986. Este livro publica a versão integral.

Quando a bomba atómica alcunhada ‘Little Boy’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Hiroshima, a 6 de Agosto de 1945, a menina TOSHIKO SASAKI, funcionária do departamento de pessoal da Fábrica de Estanho do Leste Asiático, estava a conversar com uma colega. O dr. MASAKAZU FUJII, proprietário e único médico de um hospital, acabara de instalar-se com todo o conforto no seu alpendre. A senhora HATSUIO NAKAMURA, viúva, estava à janela a observar uma cena estranha. O padre WILHELM KLEINSORGE, sacerdote alemão, lia uma revista jesuíta. O jovem cirurgião TERUFUMI SASAKI caminhava pelo corredor dum hospital com uma amostra de sangue destinada a um teste Wassermann. O reverendo KIIOSHI TANIMOTO, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, preparava-se para descarregar o conteúdo de um carro de mão numa casa dos subúrbios da cidade.

«A bomba atómica [de Hiroshima] matou cem mil pessoas, e estas seis contavam-se entre os sobreviventes. E ainda se interrogam como foi possível sobreviverem quando tantas outras pereceram».

Ao mesmo tempo que o holocausto produzido pelo nazismo está presente na memória social, ‘o outro holocausto’ seu contemporâneo parece ter-se diluído na existência irreal dos homens. E, no entanto, o emprego da arma atómica contra duas cidades japonesas [a bomba atómica ‘Fat Man’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Nagasaki em 8 de Agosto de 1945] constitui uma denegação de sentido equivalente aos extermínio das «raças inferiores» pelos nazis. Auschwitz e Hiroshima são duas marcas do terror absolutamente contíguas, constituindo as figuras máximas da descivilização no século XX: os campos da morte e o emprego militar da energia atómica.

(Edição portuguesa da ANTÍGONA)

«CHAIN OF COMMAND» («DOMMAGES COLLATÉRAUX. LA FACE OBSCURE DE LA “GUERRE CONTRE LE TERRORISME”), por SEYMOUR HERSH (2004) – Nesta obra impressionante, o grande jornalista norte-americano Seymour Hersh deslinda para nós o complicado feixe de manipulações e de manobras que conduziram ao ataque contra o World Trade Center e ao escândalo das torturas na prisão do Exército dos EUA em Abu Ghraib, no Iraque. Alimentado por inúmeras confidências de «fontes» altamente colocadas, o relato de Seymor Hersh faz-nos mergulhar no próprio coração do poder americano. Quer se trate das manigâncias da ‘Cabala’, o pequeno grupo de neo-conservadores que ‘fabricaram’ a guerra no Iraque; quer se trate do relatório confidencial de 2002 denunciando as torturas em Guantanamo Bay, prefiguração directa do que iria acontecer em Abu Ghraib; quer se trate da operação ‘Anaconda’, durante a qual os ‘GI’, por incompetência do seu comando, deixaram escapar Ossama Bin Laden…

Vale a pena salientar que nem uma das informações reveladas neste livro por Seymor Hersh foi desmentida pela Administração, cuja única resposta foi: «Seymour Hersh é um mentiroso».

Este livro lê-se como um antídoto à desinformação.

SEYMOUR M. HERSH (nascido em 1937) é já uma lenda do jornalismo de investigação. Durante quatro décadas, foi uma ‘pedra no sapato’ de todos os Presidentes que se sucederam na Casa Branca, por causa das suas investigações exemplares. Foi ele que revelou o terrível massacre de My Lai, cometido em Novembro de 1969 por tropas dos EUA durante a Guerra do Vietnam. Jornalista independente, trabalhou muitos anos para o ‘New York Times’ e foi grande repórter da revista ‘New Yorker’. Publicou vários livros sobre as suas investigações e foi galardoado com o Prémio Pulitzer (de Jornalismo).

«DIRTY WARS, THE WORLD IS A BATTLEFIELD» («DIRTY WARS, LE NOUVEL ART DE LA GUERRE») por JEREMY SCAHILL (2013) – Um Exército secreto. Uma Missão sem fronteiras. Uma Guerra sem fim. A leitura desta obra-prima do jornalismo de investigação tem o efeito dum electrochoque. Jeremy Scahill leva-nos longe das frentes oficiais, lá onde bem poucos jornalistas conseguem chegar e onde o Estado toma o gosto por práticas inconfessáveis. E o Presidente dos EUA Barak Obama (2009-2017), com os seus ‘drones’ assassinos, foi um dos mais flagrantes exemplos.

Nesta impressionante investigação que assume a forma de um ‘thriller’, Jeremy Scahill foca o projector nas manobras clandestinas do Joint Special Operations Command (JSOC), esse corpo de exército colocado directamente sob as ordens da Casa Branca, munido de uma autorização para matar com toda a impunidade, e para o qual o mundo não passa dum campo de batalha. Do Afeganistão ao Yémen, passando pelo Paquistão, pela Somália e pelos Estados-Unidos, o jornalista dá a palavra às vítimas dessa guerra suja (‘dirty war’), às famílias destruídas, homens e mulheres que têm de escolher entre a dor resignada e a ‘djihad’ contra uma América deveras sanguinária.

JEREMY SCAHILL é jornalista de investigação e correspondente de guerra da revista americana ‘The Nation’. É também autor de “Blackwater: a ascensão do exército privado mais poderoso do mundo”. Depois de ter participado na revelação do escândalo ‘Prism’, com os jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras, Jeremy Scahill fundou ‘The Intercept’, uma revista on-line que difunde nomeadamente as informações reveladas por Edward Snowden.

Este seu livro foi considerado um dos 10 melhores livros do ano de 2013 nos Estados-Unidos da América pela “Publishers Weekly”.

Campo d’Ourique, 26 de Fevereiro de 2026 (e 29 de Julho de 2022)

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domingo, 23 de novembro de 2025

Alfredo Barroso - VENTURA, O POLÍTICO DE EXTREMA-DIREITA LÍDER DO "CHEGA"



* Alfredo Barroso

Agora que está na moda qualquer bicho careta «quebrar o silêncio» por dá cá aquela palha, também o vou fazer - e cuidado com os estilhaços! - para procurar compreender o relativo sucesso de André Ventura, o político português de extrema-direita que mais tenta forçar o destino achando que já CHEGA de 25 de Abril, de democracia, de pluralismo, de imigração, de ofensas ao colonialismo português e às guerras coloniais, de acusações de racismo e xenofobia, e de tantas outras ‘tropelias’ democráticas que a liberdade de expressão e o Estado de Direito dito Democrático consentem - em prejuízo de Deus, Pátria & Família, dos latifundiários e dos plutocratas. Reconhecendo um módico de talento à criatura, há que saber como se edificou, até agora, o relativo êxito de André Ventura, recorrendo a uma compilação de alguns ensinamentos colhidos sobretudo do maior dos seus mestres: Adolf Hitler. 

Como é que Ventura já logrou convencer uma significativa quantidade de eleitores, por mais medíocres, grosseiros e sem talento que sejam quase todos os seus seguidores? Como é que Ventura, empoleirado numa tribuna, ou falando perante as câmaras da TV, consegue atrair apoiantes para o seu mundo fechado, prenhe de rancor, ódio, desprezo pelo semelhante e dos mais baixos instintos de vingança e exclusão de ‘outros’? Como é que Ventura convence tantos ouvintes a pensarem como ele quer que eles pensem?  Adolf Hitler, o grande demagogo do século XX, dava uma resposta: pela «magia da simplificação perante a qual todas as resistências claudicam». O simples deve ser sempre o mais simplificado possível.  

Vejamos um exemplo dado por alguns peritos: «O grande público sabe que A é a primeira letra do alfabeto. Se lhe explicar que B é a letra que vem imediatamente depois, parte do público já deixou de o seguir». Mais: «E se você quiser explicar que, depois de A e B, vem uma terceira letra chamada C, já mais de metade das pessoas deixaram de dar ouvidos às suas explicações. E se você quiser ir além da letra D, ainda será pior».

Conclusão a tirar: ficar só pela letra A. Reduzir ao máximo a actividade mental do «grande público». Para isso, estruturar todo o discurso à volta dum número limitado de afirmações elementares. Não é preciso que sejam brilhantes, novas ou originais. Daí, por exemplo, o recurso ao nome de Salazar – a triplicar já foi demais porque se prestou à chacota. Basta que as afirmações seduzam pela sua forma, a sua concisão. Eis alguns exemplos: o país está a ser invadido pelos imigrantes; é preciso correr com eles para as terras donde vieram; se nada for feito, será o caos, será catastrófico para Portugal; todos os políticos democratas são corruptos, e cúmplices; só eu tenho coragem de dizer a verdade, de dizer em voz alta aquilo que vocês pensam em voz baixa; só eu poderei salvar Portugal.

Há que martelar infatigavelmente estas ideias. Como dizia Gustave Le Bon: «A afirmação pura e simples, destituída de todo o raciocínio e de qualquer prova, constitui o meio mais seguro para fazer penetrar uma ideia no espírito das multidões. Quanto mais concisa ela for, mais desprovida de provas e de demonstração, mais autoridade ela terá. Os livros religiosos e os códigos de todas as épocas procederam sempre por simples afirmação». 

O líder fascista francês Jean-Marie Le Pen (1928-2025), candidato na eleição presidencial de 1988, ousou recorrer a este ‘slogan’, o mais afrontosamente simplista concebível: «As minhas ideias? São as vossas!». Mais esta, tão primária: «O ‘Front National’, são vocês!». A ver se André Ventura não aproveita para o imitar: «O CHEGA, são vocês!».

Nada de meias-tintas, compromissos, nuances. Pensamento binário sempre! Há ou preto ou branco. O cinzento não existe. Há os bons e os maus. Os Portugueses e os estrangeiros. Os defensores da ordem e os fautores de tumultos. Há os fortes e os fracos. Os heróis e os cobardes. Os trabalhadores e os parasitas. Os normais e os alienados. A gente honesta e os assassinos. Os bravos soldados e os bem instalados na vida. Os homens sadios e os contagiosos. A regeneração e o declínio. Os civilizados e os bárbaros. Só há nós e eles. 

Como escreveu Jean-Luc Porquet (*), «o demagogo tem a mania de catalogar tudo, mas só tem dois ficheiros: o do Bem e o do Mal». É bom o que é bom para Portugal, é mau o que é mau para Portugal. E é ele que decide. Uma simplicidade repousante. Eis o André Ventura: forte, heróico, trabalhador, soldado valente (terá ele feito a tropa?), sadio, civilizado. Instalado enfim no campo do Bem, na sua luta constante contra o Mal. Não se riam.

Hitler desenvolveu até ao mais alto ponto esta capacidade de simplificação, e orgulhava-se disso constantemente. E dizia, como relatou Hermann Rauschning: «Eu, tenho o dom de simplificar e de reconduzir os problemas ao seu dado essencial […]. Fiem-se na vossa intuição, no vosso instinto ou naquilo que quiserem, mas nunca no vosso conhecimento […]. As dificuldades só existem na imaginação». Tal faculdade de simplificação garantia a Hitler uma superioridade evidente sobre os que o rodeavam, nota Hermann Rauschning: «As banalidades, quando proferidas com uma forte convicção, agem como evidências, e nem sempre se consegue estabelecer a diferença entre as grandes ideias simples e as pequenas ideias simplistas».

À força de simplificar ideias e conceitos, os demagogos, como André Ventura, acabam muitas vezes por acreditar que a realidade também vai deixar-se simplificar, rectificar e negar. Mas Adolf Hitler, em caso de dificuldades, «deixava friamente cair os planos que ele próprio tinha elaborado e lançado, sem se preocupar com as consequências, tantas vezes ruinosas, da sua desenvoltura». E não suportava que se voltasse a falar neles. 

Todas as interpretações do mundo, por mais fundamentadas que sejam, pecam por preconceitos, arbitrariedades, axiomas indemonstráveis, contradições internas, opacidades e etc, pois em toda a resposta germina sempre uma nova questão. «A asneira consiste em querer tirar conclusões definitivas», afirmava o grande escritor Gustave Flaubert. De facto, a prova da realidade acaba, regra geral, por esfumar as nossas convicções sobre o definitivo e o absoluto. Mas o demagogo crê que é possível acabar por alcançá-los, chegar até ao fim. E por isso imagina «soluções finais». Como Hitler.

(*) Jean-Luc Porquet «LE FAUX PARLER, ou l'art de la demagogie» (Éditions Balland, Paris,  1992)

Campo d’Ourique, 22 de Novembro de 2025

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quarta-feira, 17 de setembro de 2025

Alfredo Barroso - [A 3ª via ou a viragem pró-capitalista da Internacional Socialista]

 


* Alfredo Barroso
 ·
Para se perceber porque é que o PS é hoje um partido social-liberal…

A DERIVA RUMO À DIREITA DOS PARTIDOS SOCIALISTAS, SOCIAL-DEMOCRATAS E TRABALHISTAS DA INTERNACIONAL SOCIALISTA 

- por Alfredo Barroso (impedido de publicar artigos nos jornais)

Foi a «Revolução conservadora» levada a cabo por Margaret Thatcher no Reino Unido – entre 1975 e 1990, onze anos dos quais no Governo (1979-1990), empurrando ainda mais para a direita a própria direita conservadora – o fenómeno político que influenciou, decisivamente e profundamente, a viragem à direita da social-democracia europeia, isto é, dos partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas membros da Internacional Socialista.

De facto, o regresso ao poder, em 1997, do ‘Labour Party’ comandado por Anthony Blair, não constituiu sequer uma ruptura com o legado dos anos Margaret Thatcher-John Major. Como esecreveram dois autores em 2011, «não houve contra-revolução nem vingança trabalhista, e sim adaptação do ‘New Labour’ à situação deixada pelos conservadores. E residiu aqui uma das chaves da viragem à direita do Reino Unido» (1).

Em 1981, a criação por um movimento dissidente do ‘Labour Party’ de um Partido Social-Democrata, que depois se fundiu com o Partido Liberal para ser tornar o Partido Liberal-Democrata, fez com que um 'Labour' demasiado à esquerda (defendia o desarmamento unilateral, era anti-União Europeia), fosse objecto. ainda antes da chegada de Tony Blair à liderança do partido, de uma chamada «modernização» levada a cabo, primeiro por Neil Kinnock (1983-1992) e depois por John Smith (1992-1994), apoiando-se no grupo Parlamentar do partido para contrariar a base, tradicionalmente sob o domínio dos sindicatos. 

E foi germinando cada vez mais nas cabeças dos dirigentes do ‘Labour’, como escreveu John Crowley (2), a ideia segundo a qual «os inimigos são os extremistas de esquerda». E em 1987, trata-se já de recentrar o ‘Labour’ para tentar conquistar as novas classes médias. 

Com a morte de John Smith, em 1994, foi a vez do «modernizador» Tony Blair tomar conta do partido, que irá deixar de ser ‘Old Labour’ para se tornar ‘New Labour’ (o líder actual, Keir Starmer, é um imitador de Blair, reaccionário e belicista). Mas a primeira vitória de Tony Blair foi suprimir o artigo 4º, não o do tratado da Aliança Atlântica, mas o dos Estatutos do ‘Labour’, que previa a socialização dos meios de produção. Depois reduziu significativamente o peso dos sindicatos no aparelho do partido fazendo dos militantes os seus principais interlocutores.

Ascendendo ao Governo ao vencer eleições, Tony Blair empenhou-se em estruturar o seu partido, e também o Estado, à imagem e semelhança duma empresa privada. Pôs em prática a «sociedade de mercado» submetida aos preceitos do «novo management público», e à «mercantilização», quer das práticas de Governo e de administração do Estado, quer da direcção do partido, transpondo para a política métodos do «marketing», e apoiando-se nos «especialistas em comunicação» incumbidos de «vender o produto ‘New Labour’».

Foi o teórico Anthony Giddens quem orientou intelectualmente o que se convencionou designar por «blairismo. Foi ele quem concebeu o modelo de «uma ‘Terceira Via’ entre o conservadorismo ‘thatcheriano’ e o ‘trabalhismo tradicional’», diagnosticando o «arcaísmo da esquerda face à revolução neoliberal» tal como «o carácter obsoleto do Estado britânico», e afirmando o «carácter central e incontornável da mundialização». Ousou mesmo escrever que «os governos social-democratas já não podiam usar os métodos tradicionais de estimulação da procura e do recurso ao Estado, pops os mercados financeiros não o permitiriam». Ou seja, afirmando o poder da plutocracia, da banca e, acima de tudo, da finança internacional, a que deve submeter-se e tem de sujeitar-se a política.

Esta autêntica despolitização e mercantilização da política e dos partidos marca «o triunfo da forma sobre o conteúdo», sujeitando-os às técnicas de “marketing” e, sobretudo, aos “spin doctors”, indiferentemente rotulados como «peritos em dar a volta às opiniões públicas», ou como «fabricantes de consensos», ou como «especialistas em modelar a opinião», ou como «manipuladores», ou como «eminências pardas».

O sociólogo britânico Stuart Hall (1932-2014) escreveu: «A Srª Thatcher tinha um projecto, O projecto histórico de Blair é o de nos adaptarmos a ele» [ao projecto da Thatcher]. O blarismo soube jogar um jogo duplo: aceitando no fundo a mundialização como um fenómeno quase natural, autoregulador, unidireccional, não contraditório, envernizando a política de governo com uma perpétua “modernização encantatória”. A estratégia a longo prazo do ‘New Labour’ repousou naquilo que Gramsci designava por “transformismo”, ou seja, o momento em que a social-democracia se torna numa variante da ideologia neoliberal. Se o ‘New labour’ combina neoliberalismo económico e apego a uma «governação activa», nem por isso a dimensão neoliberal deixa de ser dominante, e a dimensão social-democrata subalterna. Mais ainda, a dimensão social-democrata é afinal constantemente transformada em dimensão neo-liberal.«O percurso social-democrata rumo ao neoliberalismo poderá muito bem acabar por ser a prova daquilo a que poderíamos chamar, parafraseando Lénine, “a melhor carapaça política” do capitalismo global», resumiu Stuart Hall. 

De facto, a «Terceira Via» blairista expandiu-se, no final do século XX, num movimento geral europeu de convergência ideológica de todos os partidos social-democratas, socialistas e trabalhistas da Internacional Socialista, com base no que se convencionou designar por «social-liberalismo», na prática uma versão atenuada do liberalismo. Na Alemanha, era então o chanceler Gerhard Schröder, líder do SPD e artífice do “Novo Centro”, a réplica alemã do “blairismo” e da “Terceira Via” de Anthony Giddens. “Terceira Via” que teve. em Portugal, como adepto incondicional o então primeiro-ministro e líder do PS, António Guterres. E todos os que lhe sucederam…

A apoteose deste vibrante movimento europeu sucedeu com a assinatura do «manifesto Blair-Schröder» precisamente antes das eleições europeias de 1999, quando a União Europeia contava, na época, com onze Governos social-democratas. socialistas e trabalhistas em 11 dos seus então15 países membros. A “Terceira Via” surgia como uma espécie de reconciliação entre «liberais» e «trabalhistas», numa dupla oposição ao «velho socialismo» e ao «capitalismo neoliberal». Mas não pegou, e nem sequer, durou perante as sucessivas derrotas eleitorais na década de 2000. E, sobretudo, perante o desastre que foi a participação do Reino Unido então governado por Tony Blair, ao lado dos EUA do então presidente Bush-filho, na sinistra invasão do Iraque, com justificações completamente falsas – e falsificadas!

Mas é verdade que – qual aldeia do gauleses, neste caso lusitanos, a Oeste da Europa, e bem juntinho ao Oceano – a chama do social-liberalismo brilha, embora com pouco fulgor, no Largo do Rato em Lisboa, empunhada, qual Astérix (Viriato, se preferirem), por José Luis “Carneirix”, coadjuvado pelos  exímios defensores de alianças com a direita, o filósofo Francisco “Assistix” e o comentador Sérgio Sousa “Pintaínhonix”… 

«Mais attention, nous reviendront!», como diziam os soldados e centuriões Romanos todos esfolados e “grogues”, depois de levarem uma sova mestra do Astérix, do Obélix & “aficionados”!

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quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Alfredo Barroso -[Como encontrei Camilo na Adraga ... ]


OMO REENCONTREI ALMEIDA FARIA NA ADRAGA E COMO SE NOS APRESENTOU UM DESCENDENTE DE CAMILO EM CARNE E OSSO

- Alfredo Barroso narra este inesperado encontro

Sempre fui imensas vezes à praia e nadava bastante bem (modéstia à parte) até há poucos anos, mas agora, quando vou (fui hoje pela primeira vez em 2020) apercebo-me, quando olho para as ondas do mar, que estou quase como as gravuras de Foz Côa (que não sabem nadar). Mas ao chegar à belíssima Praia da Adraga, tive o prazer de reencontrar um velho amigo que já não via há alguns anos: o magnífico escritor Almeida Faria. Ele é queirosiano e eu camiliano, mas sempre muito bem nos entendemos. E o inesperado aconteceu quando Almeida Faria me incitava a continuar a escrever sobre Camilo. Um sujeito que ouvia a nossa conversa a pequena distância social (como agora se diz) pediu-nos licença para se intrometer e explicar que, apesar de não ser homem de leituras grandes ou pequenas, era descendente directo de Camilo por via da mãe e de seus inúmeros ascendentes. Mostrou-nos o seu CC, disse-nos que só lera, de Camilo, "A queda dum anjo", e que viera de Famalicão, mais concretamente, de São Miguel de Ceide, para ver Lisboa e as praias para onde os políticos descritos por Camilo vinham com 'mulheres da vida' (ou seriam as 'espanholas'?) e que ficou muito espantado ao ouvir dois sujeitos citadinos a falarem do Camilo à boca da Praia da Adraga... O inesperado acontece, e quando é divertido e insólito não faz nenhum mal à saúde... Pois é, não acreditam, mas garanto-vos que foi mesmo verdade, juro!

Praia da Adraga, 3 de Setembro de 2020

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quinta-feira, 3 de julho de 2025

Alfredo Barroso - ASSIS E O FASCÍNIO PELO CENTRO-DIREITA

* Alfredo Barroso

A fama de Francisco Assis como estrénuo defensor do centro-direita já vem de longe. Em 1998, era ele presidente do grupo parlamentar do PS durante o primeiro governo de António Guterres, e já se apresentava publicamente como guru da «nova maioria» cor-de-rosa e teorizador em Portugal do «centro radical» ou «terceira via», na esteira da criatividade filosófica e da imaginação política de Anthony Giddens, considerado o guru do então primeiro-ministro britânico Tony Blair. 

Francisco Assis conquistou tal estatuto por direito próprio ao decretar, num texto dado à estampa no «Público» de 2 de Outubro de 1998, «o fim das ingenuidades ultraconstrutivistas» e o «cruzamento do liberalismo com a pulsão democrática», varrendo assim para o caixote do lixo da História «uma esquerda obsoleta e rigidificada em torno de conceitos historicamente inoperacionais». 

Comentei então, na minha coluna do «Expresso», em 10 de Outubro de 1998, o «iluminado» texto de Francisco Assis, qualificando-o como um soberbo monumento ao vazio ideológico e uma peça lapidar da retórica política pós-moderna, em que a banalidade redonda e o lugar-comum pomposo se davam as mãos para cobrir a nudez forte da verdade com o manto diáfano da fantasia. No fundo, o que Francisco Assis então pretendia, e continua a pretender, é tão-só revestir com uma roupagem teórica de pacotilha o pragmatismo político sem princípios, o governo de navegação à vista, a táctica do compromisso sistemático com a direita e a estratégia da abdicação permanente. 

Para tanto, Assis não hesitava em elevar à dignidade pomposa de «matriz programática» a óbvia e comezinha necessidade de qualquer governo democrático tentar «conciliar a eficácia económica, a coesão social e a modernização cultural». Mais ainda: não hesitava em promover à categoria de «fundamentos doutrinários» evidências tão banais como a «redescoberta da tradição liberal», a «recusa do voluntarismo ultraconstrutivista», a «valorização do mercado», a «aproximação aos aspectos mais progressistas do capitalismo democrático», a «revalorização da política e de um certo empirismo assente no princípio do racionalismo crítico». Tudo isto para explicar como é que - tendo superado «a ilusão utópica de uma sociedade absolutamente harmoniosa» e compreendido «o papel do conflito» - «a esquerda, revalorizando a política, encontrou o caminho para o sucesso eleitoral». Como se fosse necessária tanta conversa fiada para justificar o poder legitimado pelo voto…

O que mais me impressionou na serena complacência de Francisco Assis perante as sujeições a que o poder obriga, é que ele já parecia então um jovem velhinho. E não era caso único. Entre a novíssima geração que dirigia o PS e governava o País, não era só ele que se levava tão a sério. Também o ministro José Sócrates e o secretário de Estado António José Seguro, por exemplo, quando apareciam a falar na televisão, me transmitiam, irresistivelmente, a ideia de terem saltado directamente do berço para a gravidade de Estado. Ou seja, sem terem passado sequer pela inquietação natural dos anos da juventude e pela irreverência de um qualquer protesto político radical. Independentemente do grau de competência que cada um deles tivesse ou deixasse de ter no desempenho dos seus cargos, a verdade é que rapazes assim tão certinhos e aprumados, jovens velhinhos a transbordar de sentido de Estado, me pareciam já autênticos políticos de plástico. Do género daqueles que raramente têm dúvidas e nunca se enganam - ou que já renunciaram a falar com o coração por julgarem ter sempre razão.

Por mais que os gurus dessa «nova esquerda» suave – New Democrats, New Labour, Die Neue Mitte, Nova Maioria – se esforçassem por encontrar justificação doutrinária para a «retórica modernizadora» do seu discurso, era cada vez mais indisfarçável a sensação de estarmos perante um mero exercício de maquilhagem eleitoral para a conquista e conservação do poder político. Diziam repudiar quer o «velho» socialismo democrático (ou social-democracia ou trabalhismo) quer o neoliberalismo - mas o «centro radical» ou «terceira via» que preferiam trilhar já estavam pejados de concessões à doutrina neoliberal e pouco ou nada retinham dos princípios, valores e referências essenciais do socialismo democrático. Diziam, já então, que a querela deixara de ser entre esquerda e direita – passando a ser entre «antigos» e «modernos» - mas o conteúdo do discurso político era completamente vazio, a doutrina era prosaica, as concessões eram sistemáticas, as piscadelas de olho ao eleitorado eram constantes. Passavam o tempo a reclamar, tal como a direita, «disciplina» no trabalho e nas empresas, «segurança» nas ruas, «estabilidade» no poder e «maioria absoluta» nas urnas. Não conseguiam disfarçar que o objectivo essencial era conservar o poder - e depois logo se veria se surgiriam novas ideias para justificar velhas políticas.

Tal como a direita radical descobrira o «centro moderado», acabando por esgotar-se na «ideologia do sucesso», que de ideologia não tinha nada, a esquerda suave descobrira o «centro radical», acabando por despistar-se na «terceira via», porque o alcatrão político era escorregadio e os pneus ideológicos tinham pouca aderência. Tanto Cavaco no PPD/PSD, sem ajuda, como Guterres no PS, ajudado por Francisco Assis, contribuíram decisivamente para a descaracterização ideológica e política dos seus partidos. Depois de Durão Barroso ter andado à deriva e ter fugido para Bruxelas, sucedeu-lhe no poder um José Sócrates claramente ancorado no «centro-direita», do qual António José Seguro nunca quis distanciar-se, antes pelo contrário, acompanhando, na oposição, a deriva de Passos Coelho, no poder, para a «direita radical». E é neste quadro que devemos considerar como histórica, positiva e corajosa a decisão de António Costa de virar à esquerda, abrindo o leque de opções do PS e libertando-o de uma política de alianças de sentido único.

Considero-me hoje um independente de esquerda e continuo a apoiar, com convic  ção e firmeza, o Bloco de Esquerda, porque é com ele que as minhas ideias políticas mais se identificam. O que não me impede de saudar a mudança ocorrida no PS e defender o seu actual Governo.

ALFREDO BARROSO (Público 8 Junho 2016)
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quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

Alfredo Barroso - OS INCÊNDIOS ATEADOS PELO "OCIDENTE" NA "ERA DOS EXTREMOS"


* Alfredo Barroso 

(que se limitou a actualizar de 140 para 160 anos a 1ª linha do texto publicado originalmente no 'Expresso' há 20 anos*)

Há 160 anos, em Setembro de 1864, no decurso da Guerra da Secessão americana (ou «Civil War», se preferirem), o general «nortista» William Sherman (que deu o nome a carros de combate) conquistou a cidade de Atlanta e mandou incendiá-la. Tal como faria em Savannah, no final de 1864, depois de ter devastado a Geórgia. Mas o incêndio de Atlanta é o mais conhecido e popular, por ter sido reconstituído em uma cena aterradora do filme «E Tudo o Vento Levou». 

A Guerra da Secessão americana (1861-1865), uma das mais brutais de todos os tempos, custou para cima de um milhão de mortos, embora só se saiba, com precisão, quantos militares morreram de ambos os lados. Ao todo, 617 mil mortos (359 mil entre os «nortistas» vitoriosos; 258 mil entre os «sulistas» derrotados). Quanto a vítimas civis, não é apresentado um número exacto, mas todos os especialistas concordam em apontar para «centenas de milhares» de mortos e feridos. 

O mesmo se passa em relação ao genocídio dos índios americanos [os ameríndios], que começou ainda antes da Guerra Civil e atingiria o auge bastante depois, em Dezembro de 1890, com o célebre «massacre de Wounded Knee», onde os soldados do famoso «7º de Cavalaria» se vingaram da derrota que os Sioux (chefiados por Crazy Horse e Sitting Bull) tinham infligido ao regimento (então comandado pelo general Custer) em Little Big Horn, no Verão de 1876. Além de ser um «castigo», a chacina dos amerindios foi um genocídio institucional (uma «sanção política do conquistador») e utilitário (uma «exploração da conquista colonial») no contexto da corrida para conquistar o Oeste («Go West»), apresentada, paradoxalmente, como um exemplo da «modernidade». Assim se consolidou, no século XIX («A Century of Dishonor», como escreveu Helen Hunt Jackson, em 1881), o país que hoje se considera  «farol» da «civilização ocidental» e «campeão» da liberdade contra a «barbárie».

Mas seria durante todo o século XX - «A Era dos Extremos», como lhe chamou Eric Hobsbawm - que a «civilização ocidental» revelaria toda a sua capacidade para praticar genocídios, crimes de guerra, massacres e carnificinas. Em suma: destruição e morte a uma escala nunca antes imaginada. Hitler - com o genocídio de judeus (holocausto), ciganos e opositores - e Estaline - com o genocídio pela fome na Ucrânia e com o Arquipélago do Gulag (entre o Estreito de Behring e o Mar Negro, atravessando as regiões mais inóspitas da Sibéria) - assassinaram milhões de seres humanos, em nome da «civilização», do «homem novo» e da «modernidade». Um e outro ocupam, indiscutivelmente, lugares no topo da escala do «terror». 

Mas aparecem depois, a uma distância que não é assim tão grande quanto se julga, os «Aliados», sobretudo os EUA e a Grã-Bretanha, com os «crimes de guerra» que cometeram, quer na na Alemanha equer no Japão, durante a II Guerra Mundial. As duas bombas atómicas largadas pelos bombardeiros americanos B-29 «Enola Gay» e «Great Artist» (que belos nomes!) sobre Hiroshima e Nagasaki, em 6 e em 9 de Agosto de 1945, mataram, imediatamente e a curto prazo, mais de 200 mil civis. Isto é, mais do dobro dos civis chacinados pelos 279 bombardeiros americanos que arrasaram Tóquio no dia 19 de Março de 1945. Mas estas carnificinas não constituíram excepções. Durante cinco anos, mais de mil cidades, vilas e aldeias alemãs foram alvos de bombardeamentos brutais e constantes. Milhares de toneladas de bombas explosivas e incendiárias atingiram 30 milhões de civis - sobretudo velhos, mulheres e crianças- matando mais de um milhão, numa série de ataques planeados e executados com minúcia, e de forma sistemática, por «peritos» norte-americanos e britânicos. O objectivo foi o de causar a maior devastação possível, provocando o terror entre a população civil. As bombas foram especialmente aperfeiçoadas para atear incêndios e matar civis, não só pelo impacto, mas também pelo calor asfixiante, pela compressão do ar e pelos gases tóxicos.

É isto que o historiador berlinense Jörg Friederich descreve, num livro aterrador, intitulado «O Incêndio, a Alemanha sob as bombas, 1940-1945». Autor insuspeito, também se distinguiu a investigar os crimes de guerra nazis e foi colaborador da «Enciclopédia do Holocausto». Em complemento, vale a pena ler o ensaio do escritor alemão W.G. Sebald «Sobre a História Natural da Destruição», em que o autor reflecte sobre a tragédia alemã, concluindo que, nem por ter sido merecido, o castigo infligido à Alemanha foi menos brutal. A decisão de incendiar cidades alemãs, reduzindo-as a cinzas, provocando o que tecnicamente se chama «tempestade de fogo», leva-nos a concluir que «todos perderam a razão, porque o indivíduo desapareceu sob o horror em massa». A tecnologia foi posta ao serviço do terror com uma precisão implacável.

Sobre as origens desse terror e sua actualidade neste «mundo globalizado», de cuja «modernidade» o «Ocidente» tanto se orgulha, convém ler o livro de John Gray, «A Al-Qaeda e o significado de ser moderno», já publicado em Portugal. Chega-se à conclusão de que não foram os «ocidentais» a aprender os métodos de terror com os «bárbaros». É bem mais provável que tenham sido os «bárbaros» a aprender a praticar o «terror» com os «ocidentais». O pretenso «choque de civilizações» só serve para alimentar «guerras santas» e «vinganças de Deus». Noutro ensaio notável, «A Fractura Imaginária», sobre «as falsas raízes do confronto entre Oriente e Ocidente», o libanês Georges Corm critica o «discurso narcisista do Ocidente», que se fecha sobre si próprio e que faz da pretensa «excepcionalidade ocidental» um absoluto, condenando os outros à «barbárie». Como se vivêssemos num mundo maniqueu, dividido entre o Céu e o Inferno, entre o Bem e o Mal, entre um Ocidente exemplar - «racional, laico, técnico, materialista e democrático» - e um Oriente abominável - «místico, irracional e violento». São mitos perigosos.  

É essa «fractura imaginária» - já denunciada por Edward Said no seu magnífico ensaio sobre o «Orientalismo» (só agora publicado em Portugal) - que é preciso refutar. Porque é ao abrigo de tais mitos que florescem os apelos ao autoritarismo e se invoca o terrorismo como pretexto para limitar as liberdades e condicionar a democracia. Não é com «democracias musculadas» e «guerras preventivas» baseadas em mentiras que se combate o terrorismo. Com as «bombas inteligentes» só se ateiam mais incêndios! 

(*) O texto original foi publicado no 'Expresso" de 18/Setembro/2004


2024 12 26
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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

«Capitalism and Freedom»



NA ECONOMIA NEOLIBERAL, QUE QUEREM PPD-PSD, IL & CHEGA, O 'ESTADO SOCIAL' DESAPARECE, OS POBRES VÃO FICAR AINDA MAIS POBRES E DESPROTEGIDOS, E OS RICOS AINDA MAIS RICOS...

- salienta Alfredo Barroso, recordando o que foi o estrondoso fracasso da economia neoliberal no Chile, durante a sangrenta ditadura militar do general Augusto Pinochet, expressamente apoiado e aconselhado por Milton Friedman e Friederich Hayek, teóricos do neoliberalismo

«A contra-revolução neoliberal é essencialmente antidemocrática» – afirmou o economista norte-americano (Prémio Nobel) Paul Krugman. De facto, nenhuma maioria de eleitores desejaria ver reduzida a quase nada a cobertura social que protege a generalidade dos cidadãos. Isso nunca. Por isso mesmo, o único meio de forçar a mão do povo é levá-lo a acreditar que não há alternativa

Na sua obra «Capitalism and Freedom», o economista neoliberal norte-americano Milton Friedman ousa afirmar que, como a obtenção do lucro é a essência da democracia neoliberal, todo o governo que conduza políticas que contrariem o mercado está a portar-se de forma antidemocrática, sendo irrelevante o apoio de que goze por parte da maioria de uma população esclarecida.

Foi esta visão absolutamente perversa da democracia que fez com que ele próprio e Friederich Hayek manifestassem o seu apoio ao golpe de Estado do general Augusto Pinochet, no Chile – que depôs, em 1973, o governo democraticamente eleito do presidente Salvador Allende, dado que este estava a interferir com o controlo dos negócios da plutocracia da sociedade chilena.

Hayek foi mesmo ao ponto de declarar, em defesa do indefensável Pinochet, o seguinte: «Pessoalmente, prefiro uma ditadura liberal a um governo democrático completamente alheado do liberalismo». Foi essa 'ditadura liberal', brutal e selvagem, que os 'Chicago boys' - os discípulos de Milton Friedman - ajudaram a sustentar durante 15 anos, transformando o Chile num laboratório experimental das políticas neoliberais preconizadas por Hayek e Friedman.

Entretanto, ficou a saber-se que Friedrich Hayek, o ‘profeta’ venerado pelo general Pinochet e por Margaret Thatcher, não quis visitar os EUA em 1973 – a convite do milionário norte-americano Charles Koch, um dos pilares do desmantelamento do Estado-Providência – por ter medo de perder os seus direitos à Segurança Social no seu país, a Áustria. De facto, Hayek – que nos seus discursos e palestras proclamava que a Segurança Social é «essencialmente um absurdo» que urge banir – explica com todo o detalhe, na correspondência que trocou com Charles Koch, os benefícios sociais a que tinha direito, e que não queria arriscar-se a perder ausentando-se da Áustria.

Para além da hipocrisia pessoal, o que aqui se manifesta é a hipocrisia de um discurso que consiste em fazer crer às pessoas que aquilo que se pretende é apenas proteger a sua ‘responsabilidade’ e a sua ‘liberdade de escolha’ – quando, afinal, são despojadas dos seus direitos sociais e do seu dinheiro para encher os bolsos da ínfima minoria dos mais ricos do planeta, sem nunca chegarem a ter qualquer ‘liberdade de escolha’ por mais responsáveis que sejam.

Também se tornou patente que o sistema neoliberal gera um perigoso e inevitável subproduto: uma cidadania despolitizada, caracterizada pela apatia e pelo cinismo. O neoliberalismo é, na prática, o primeiro e mais perigoso inimigo de uma genuína democracia participativa. É claro que actua melhor quando existe uma democracia eleitoral meramente formal, mas precisa que a população seja desviada das fontes de informação e dos debates públicos que a habilitem a formar opinião e a intervir nos processos de tomada de decisão.

A partir da noção crucial de «mercado über alles» – «mercado em todo o lado» – a democracia neoliberal cria ‘centros comerciais’ em vez de espaços comunitários e produz ‘consumidores’ em vez de cidadãos. E o resultado prático é uma sociedade atomizada, constituída por indivíduos desenraizados que se sentem desmoralizados e socialmente impotentes.


2024 02 08

ALFREDO BARROSO, no seu livro «Corações de Pedra - a maldição neoliberal» (Porto Editora, 2017)

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ADENDA, por Victor Nogueira

Kissinger

  • "Não vejo porque precisamos ficar parados e assistir um país tornar-se comunista por causa da irresponsabilidade do seu povo. As questões são muito importantes para deixarmos os eleitores chilenos decidirem por si mesmos."
Sobre o apoio dos EUA ao golpe que derrubou Salvador Allende, presidente democraticamente eleito do Chile, em 11 de setembro de 1973.
citado em Richard R. Fagen, "The United States and Chile: Roots and Branches", Foreign Affairs, January 1975.

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Marcelo, uma antologia ontológica, por Alfredo Barroso

  


* Alfredo Barroso
2023 05 12    


O QUE JÁ DISSERAM DELE, “ARRASANDO” MARCELO PR, 22 (VINTE E DUAS) PERSONALIDADES COMPLETAMENTE DIFERENTES...


- uma antologia de horrores, a não perder, sobre o comentador e político Marcelo, «capaz de qualquer patifaria inconsequente»`

1. FRANCISCO PINTO BALSEMÃO: «Marcelo, como o escorpião da lenda, não resiste a matar a rã (…) Algumas pessoas amigas que consultei avisaram-me e tentaram evitar que o convidasse para o Governo: ‘Estás a meter o veneno em casa’ – dizia um. ‘Estás a aproximar-te do escorpião da fábula, e tu serás a rã’ – dizia outro».
2. PACHECO PEREIRA: «Marcelo é o criador e principal fautor de um jornalismo dos cenários que nunca se realizam, jornalismo apenas especulativo que não leva a lado nenhum e que tem o condão de falsear toda a atividade política».
3. BELMIRO DE AZEVEDO (1998): «Marcelo Rebelo de Sousa deveria ser eliminado. Não tem categoria. Que retirem a cadeira a esse senhor».
4. PASSOS COELHO: «Catavento de opiniões erráticas, em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político». 
5. PAULO PORTAS: «Marcelo é filho de Deus e do diabo, Deus deu-lhe a inteligência, o diabo deu-lhe a maldade».
6. MARIA JOÃO AVILEZ: «Marcelo tem tomado o espaço da oposição ao governo. E para cúmulo é ele próprio que manda colocar nos jornais conversas a propósito. Toda a gente sabe dos telefonemas e das intrigas. É demasiado interventivo e não percebe que não pode ser ele o líder da oposição, mas comporta-se como tal».
7. HENRIQUE RAPOSO: «Um presidente que já é sem qualquer dúvida o presidente mais fraco desde 74». 
8. MIGUEL MONJARDINO: «O comentador Marcelo Rebelo de Sousa (M.R.S.) constitui, pelo seu recente comportamento, uma ameaça à credibilidade da instituição da Presidência da República e ao futuro de Portugal (…) Em vez de um Presidente da República, elegemos um comentador com urgência pessoal e compulsão para se pronunciar, instantaneamente, sobre tudo».
9. ANTÓNIO RIBEIRO (jornalista): «É falso como as cobras. Tem ar de avô bondoso, é beato, não tem vida própria. Mas cospe veneno. Parece que apoia, mas é exímio a puxar tapetes a quem detesta, embora finja apoiar. Olha para as tendências da opinião pública, dia a dia, como oportunidade de negócio (…) Essencialmente, ele não presta (….) Que ninguém confie nele, porque ele é do Antigo e não do Novo».
10. CINTRA TORRES: «Marcelo comenta de manhã, à tarde, à noite e de madrugada. Comenta à porta do Coliseu, na rua, nos jardins, na escadaria da Gulbenkian, comenta em Portugal e no estrangeiro, comenta no adro e na praia, no palácio e na feira, no café e no congresso, comenta futebol e o tempo, comenta vivos e mortos, acidentes e festivais – e comenta há 50 anos, desde que entrou para o ‘Expresso’, onde permanece até hoje, por via de corneta alheia, o principal alimentador e protagonista do diz-que-disse político nacional».
11. CARLOS ESPERANÇA: «Marcelo é um neto legítimo do 28 de maio e um dedicado enteado do 25 de Abril, não se pode exigir-lhe mais do que a sua natureza consente.»
12. JOSÉ CID (cançonetista): «O homem não tem tempo para nada, está sempre em qualquer lado, que não é parte nenhuma».
13. PAULA FERREIRA (jornalista): «Marcelo fala de tudo e, por esse motivo, poucas são as vezes em que fala de alguma coisa».
14. VÍTOR MATOS NO LIVRO (BIOGRAFIA) «MARCELO REBELO DE SOUSA» (2012): «Poucas coisas dão mais prazer a Marcelo do que realçar os pontos fracos dos outros, em privado, em público ou no jornal (…) Marcelo é capaz de qualquer patifaria inconsequente (…) Por uma boa piada, Marcelo não se importa de perder um amigo».
15. VASSALO DE ABREU: «O Dr. Marcelo desfaz-se em muitos abraços e cai no goto do povão! Ele é como o ‘Preço Certo’: Não tem ponta por onde se lhe pegue, mas o povão gosta… Que fazer?».
16. LUÍS PAIXÃO MARTINS: «Marcelo é o chefe-General do Estado Maior das forças mediáticas».
17. J.-M. NOBRE-CORREIA: «Temos um personagem que há cinquenta anos instrumentaliza compulsivamente os média. Com a ‘criação de factos’. Com pseudo-análises da atualidade política. Com constantes declarações a propósito de tudo e de nada».
18. AMADEU HOMEM: «Eu acho o Presidente da República um oligofrénico e um trambolho democrático».
19. PAULO QUERIDO: «Temos um Presidente da República sibilino e sinistro — o agente político mais perigoso para uma sociedade decente, tolerante, progressista e bem sucedida depois de Oliveira Salazar, capaz de driblar todas as instituições democráticas, a começar por uma das suas especialidades, a Constituição».
20. TELMO AZEVEDO FERNANDES: «É sabido que temos um Presidente da República que não lida maravilhosamente com a verdade. Tal como um menino traquinas que ainda faz chichi na cama, Marcelo é invariavelmente um palrador fingido, trapaceiro e dissimulado, que não hesita em inventar tretas e tramas, para manipular a opinião pública e tentar intervir de forma desleal e traiçoeira na política nacional».
21. MARINA COSTA LOBO (politóloga): «Marcelo, pensando no seu lugar na história, quer usar os poderes que tem para deixar Belém com outro inquilino em São Bento, um primeiro-ministro do seu partido, o PSD».
22. ARTUR VAZ (que também tenho direito!): «Em tantos anos das conversas de Marcelo, alguém se recorda de uma ideia ou proposta minimamente razoável e consistente que tenha sido da lavra de inteligência tão brilhante?»

Campo d'Ourique, 12 de Maio de 2023

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