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sexta-feira, 2 de outubro de 2020

Mário Cláudio - José Tagarro

 

José Tagarro – "Auto-retrato" (1929), Museu Nacional de Soares dos Reis

* Mário Cláudio

Mais jovem do que se pinta, carrega a marca da labuta dos mondadores, homens de nuca tisnada num padrão de sulcos coriáceos, e de empinado traseiro, a devolvê-lo ao chimpanzé, nosso avoengo. O Tejo reconhecê-lo-á como filho, e os mineiros como irmão, votado a duas festas existenciais, a do desenho em que teima como um rupestre, e a da patuscada sazonal de eiroses e vinho tinto.

Avesso a fundas amizades, e a tratos prolongados, apenas uma vez por ano o descortinam, de cabelo abrilhantinado, no baile da Sociedade Filarmónica Cartaxense. Aí alternará a sua gráfica intuição com a aprendizagem do tango, solitário sempre, e da raça dos que parecem muito mais velhos do que as folhas correspondentes do calendário. Os passos esboçados à cadência do bandoneão, e o tosco arrebatamento da rapariga que ele aperta contra o peito, quedam-se aquém das evoluções do lápis, e do cheiro das tintas.

O autorretrato desenraíza-o da planície, e deixa-o a pairar entre as imagens de si. Antes de descer à vala comum dos ilustradores a nanquim, ou dos cartazistas a guache, uma vertigem o acomete. Mira-se ao espelho, indeciso entre reflexo e tela, e a nuvem azul de que emerge tem o tempo contado para a sua fixação.

Canhoto que a escola bem-pensante não foi capaz de corrigir, suspende-se da incerteza do crayon para entender a ousadia do seu gesto. O olhar vagueia-lhe pela indizível aguada, matéria do terceiro dia da Criação. Talentosíssima na sua dança, a pequena executa um ocho no chão de serradura empapada das chuvas, e ele despede-se pouco depois. Guardou na malinha de trolha os pincéis, as espátulas, os frascos, os panos, e uma navalha.

Meio pronto, o quadro aguarda o momento em que o escritor de causas extintas, obedecendo a um impulso em plena pandemia, se abeira de quantos comtemplarem um outro, ou a si mesmos se contemplarem, salvando a vida de se apagar.

https://expresso.pt/opiniao/2020-10-02-Jose-Tagarro

segunda-feira, 28 de setembro de 2020

Mário Cláudio - A chávena de chá

* Mário Cláudio
28.09.2020 às 10h00


Columbano Bordalo Pinheiro – "A Chávena de Chá", 1898, Museu do Chiado


Lisboa tem dias assim, vizinhos do solstício de Inverno, em que as cores esmaecem até se apagarem, e o frio me empalidece as mãos. Só as camélias entendem essa quadra do ano, quando o esforço de as ver através da vidraça embaciada é um desafio que não apetece aceitar. São momentos em que me assalta uma ânsia de anulação, sentimento vulgar nas estéreis, vivendo no ocaso dos seus propósitos, e submetidas a uma ideia inatingível.

Passo entre veludos, norteada pela luz do samovar, e da chávena de chá. Restrinjo-me ao cenário que me consentem, alumiada na face mais perfeita do rosto. Alguém tosse lá dentro, confiando na minha longínqua vigilância, sereno por saber que lhe classifiquei a correspondência, lhe arrumei as pastas, e lhe lavei os pincéis e as broxas. Um fio de prata esgueira-se de uma gravura antiga, e vem debruar a chávena que levanto para acolher o chá.

Mantenho-me alerta, não se dê o caso de precisarem dos meus serviços, destruindo-me num sopro o silêncio, e o descanso que o acompanha, Nada ouço, a não ser as passadinhas do gato no corredor, o recrudescimento das bátegas de chuva, e um estalido da credência. Desando a torneirita do samovar, e fazendo tremer um pouco a chávena sobre o pires, permito que ela se encha até meio. Bebê-lo-ei sem açúcar, e a ínfimos goles, debicando a intervalos a torrada com um mínimo de manteiga, tirada do prato à minha esquerda.

O cenário aquece-me na tranquilidade da penumbra, e descaio na dormência como num nirvana intemporal. O aguaceiro suspendeu-se, cedendo lugar a uma poalha que enegrece à medida que se extingue a tarde. Há um hiato na permanência do jardim, favorável ao surto de certos organismos rastejantes e moles, as lesmas, os caracóis, mais raramente uma salamandra.

Rodo o pescoço, furtando-me à atenção de quem me observa, e que jamais identificarei. Mulher envergonhada da sua falta de brilho, aprendi a subtrair-me a confrontos, não por temor de outrem, mas por pânico do meu reflexo nas pupilas de um anónimo qualquer.

Regresso ao samovar, e deixo que escorra o bastante para segunda meia chávena de chá. A medo, não se prove que os fantasmas existem, estendo-a a quem, há infinito tempo, não repara em mim. Fico presa do longo silvo da máquina, e aguardo que o sono se apodere da minha desolação.

https://expresso.pt/opiniao/2020-09-28-A-chavena-de-cha

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Mário Cláudio -Aurélia de Sousa

 

Aurélia de Sousa – Auto-retrato, 1882, Museu Nacional de Soares dos Reis

* Mário Cláudio

Alfobres de tísicos e japoneiras, as quintas barrocas do estuário do Douro, quando não convertidas em hospícios e cooperativas, ou arrasadas para dar espaço a condomínios fechados, fariam de nós uma geração de nostálgicos. Não fugiria à regra a chamada “da China”, assombrada por uma pintora delgadinha, e mais bambu do que junco, cujos pulmões pagavam tributo às manhãs esponjosas em que a bruma ocultava uma margem da outra. Daí que a permanente fadiga que a afligia se somasse à dor de, sempre que revisitava alguma das suas telas antigas, se aperceber de que uma fosca velatura aderira entretanto aos pigmentos.

As tintas levavam longo tempo a secar, e enquanto ela as vigiava, desempenhando função paralela à da irmã que lhe tirava a temperatura, Aurélia recapitulava as viagens que empreendera na demanda de si mesma, e do seu ofício. Liquidados os anos de Paris, vagabundeara por Londres e Roma, por Veneza e Amsterdão, constantemente só, sujeitando-se a que a Cidade lhe inventasse infâmias, e estimulando as amigas a atribuir-lhe heroísmos. Levada pela urgência de se masculinizar, vira-se como um santo mendicante, e afivelara sucessivas máscaras, até se confundir com um cavaleiro geométrico, e porventura o seu tanto feminino, restrito ao casaco vermelho de excêntrico indiferente à vox populi.

Mas bastava uma tarde de chuviscos, demorando-se pela “Quinta da China”, para que a identidade se lhe esvaísse, dupla do revenant que aparecia no salão, manifestando-se pela mais luminosa das brancuras, e evaporando-se sem rasto, nem sequer o do aroma das violetas. Retornava à quietude, pairando entre um ele e uma ela, criatura que poderia revelar-se implacável como um guarda prisional, ou exacta como um ministro das finanças, de alfinete redondo que lembrava um pingo de lacre, a marcar-lhe a obsessão do asseio. Assim anularia os seus medos maiores, o de se extraviar num labirinto imaginário, o de se esgotar nos arranjos de costura, e o de se vulgarizar nas rosas a óleo que lhe encomendavam.

Quando o Douro crescia lá ao fundo, transbordando para os campos, e arrastando troncos de salgueiro, cabeceiras de cama, e vestidos de noiva em farrapos, o sono abatia-se sobre ela após um acesso de tosse. Vogava-lhe na memória o nevoeiro do Tamisa, o fauno de mármore da villa romana, o chape-chape da água do Gran Canale, ou a folhagem que cobria o pátio holandês.

Escondia o rosto entre os braços, adormecia no tampo da mesa, e o cromatismo de um remoto Verão recusava-se a fixar-se numa paisagem esquecida

https://expresso.pt/opiniao/2020-09-23-Aurelia-de-Sousa

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

Mário Cláudio - Lázaro Leitão Aranha

* MÁRIO CLÁUDIO

OPINIÃO - 
18.09.2020 às 10h25

Vieira Lusitano – Lázaro Leitão Aranha, c. 1747, Museu da Segurança Social -  DR

Oartista que contratei para me pintar, e que anda em voga, compreenderia desde o início que o sedentarismo me governa como um tirano, e que sem ele jamais eu teria chegado aonde cheguei. Pedi ao mordomo que o guiasse na visita à minha casa da Junqueira, edifício de que muitos troçam por lhes parecer um pavilhão de férias fora do sítio, mas que outros admiram por se lhes afigurar precursor condigno da Real Barraca, mais tarde levantada para resistir à repetição do grande terramoto. O homem regressou na consciência do meu poderio, armou o cavalete, e lançou-se a produzir a obra que tenho agora diante dos olhos.

O artista que contratei para me pintar, e que anda em voga, compreenderia desde o início que o sedentarismo me governa como um tirano, e que sem ele jamais eu teria chegado aonde cheguei. Pedi ao mordomo que o guiasse na visita à minha casa da Junqueira, edifício de que muitos troçam por lhes parecer um pavilhão de férias fora do sítio, mas que outros admiram por se lhes afigurar precursor condigno da Real Barraca, mais tarde levantada para resistir à repetição do grande terramoto. O homem regressou na consciência do meu poderio, armou o cavalete, e lançou-se a produzir a obra que tenho agora diante dos olhos.

Nela compareço como soberbo dignitário, mas com a dose de naturalidade bastante a alimentar o diálogo com uma pessoa qualquer. É provável que quem aí me observar descubra sobre mim tanto quanto eu, e que o pintor maravilhosamente adivinharia. Cavalheiro atarracado, fui construindo a minha envergadura de lente de Cânones, amante da acumulação de objectos preciosos, ou simplesmente pitorescos, refastelado em almofadas por mor do hemorroidal que atenaza os bulímicos da minha espécie. Metido em sedas e damascos, apoio a mão esquerda no bastão áulico, e com a direita seguro o barrete clerical. Assim me comprazo com a imagem de mim, réplica lusíada, posto que com século e meio de atraso, do romano cardeal Barberini.

Fiquei muito bem, e ao abrigo da peruca sem pó, na qual uns quantos reconheceriam a minha aristocracia modesta, estrumada pelos campos do Marco de Canavezes que me viram nascer. Repoltreado hoje na bergère, e na atmosfera rosa-chá, delicio-me com o aroma da murta do jardinete, a penetrar pela porta entreaberta. Em tal estado poderei acolher as viúvas do Recolhimento de Nossa Senhora dos Anjos, fundado por mim, e em exclusivo destinado a damas de subida condição. Apaparicam-me com os coscorões da sua lavra, e há sempre uma mais jovem que, fitando-me com atenção por cima do sinal falso que lhe pica a face, me canta uma modinha em que se trata de violas, corações e praias ao luar.

O mestre ocultou-me as pernas onde reside o meu martírio maior, consequência da ureia que se encarniça contra mim, nas pesadas vestimentas que escolheu para me representar. Ninguém lhe recomendou que me beneficiasse, mas eis que, velho como eu, intuiria ele que nada deverá oferecer-se de premonitório a tutti quanti nos desejam a morte.

Destituído de amásias em odor de santidade, e à imagem e semelhança de El-Rei, deslocar-me-ei em breve para o leito que estremecerá sob o meu peso, e adormecerei de imediato, dispensando-me de prestar a Deus contas pelo dia que se extinguiu. Gracilmente colorido, permaneço entretanto no salão, tão imóvel, e tão silencioso, que até os ratos se atrevem a vir banquetear-se com as migalhas dos coscorões.

https://expresso.pt/opiniao/2020-09-18-Lazaro-Leitao-Aranha