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sexta-feira, 17 de julho de 2026

(32) - Rui Belo - Esta rua alegre



* Rui Belo

Esta Rua é alegre

Esta rua é alegre. Não é alegre uma rua anónima
mas a rua de são bento em vila do conde
vista por mim certa manhã após a chuva
e o nevoeiro a dissipar-se já junto de santa clara
E no entanto não é a rua de são bento que é alegre
Alegre sou eu. E nem mesmo é que eu seja alegre
Acontece simplesmente que me sirvo destas palavras
numa manhã de chuva para falar falar por falar
e não falar de mim ou de uma certa rua
Não costumo por norma dizer o que sinto
mas aproveitar o que sinto para dizer alguma coisa
Isto, porém, são coisas que há já algum tempo se sabem
e talvez venham aqui para salvar este momento
para salvar romanticamente este momento
ou então para ilustrar um pouco desta vida que se perde
e não só ao viver-se mas ao pensar-se sobre ela
ao atraiçoá-la tantas vezes como condição indispensável do poema
Mas que dizia eu? Dizia apenas "esta rua é alegre"
O mais é só comigo e com a subjectiva forma como passo a minha vida

(31) - José Régio - Romance de Vila do Conde



* José Régio

Não se trata dum mural, mas resolvi incluí-lo nesta série. a partir duma inscrição na escadaria de acesso à Capela do Socorro, em Vila do Conde.


O excerto presente na lápide faz parte do poema "Romance de Vila do Conde", escrito por José Régio, uma composição lírica de tom nostálgico, onde o autor recorda com saudade as paisagens da sua infância e juventude na sua terra natal. 

O texto completo do poema é o seguinte:

domingo, 31 de maio de 2026

Fabrizio De André - "Preghiera in gennaio" ("Oração em Janeiro")




O poema parcialmente transcrito no mural de Fabrizio De André, em Orsolo, na Sardenha, chama-se "Preghiera in gennaio" ("Oração em Janeiro").

Como referi, esta obra foi escrita por De André em 1967 para homenagear o seu grande amigo e cantautor Luigi Tenco. Trata-se de uma das letras mais profundas da música italiana, escrita na perspetiva de Alguém que reza a Deus para que acolha no Paraíso aqueles que o dogma religioso da época condenava (os suicidas e os marginalizados).


Aqui tem o texto completo do poema/canção na sua língua original (italiano):

Preghiera in gennaio

Lascia che sia fiorito il tuo lungo viaggio prima di accettare il grande dono l'ultimo regalo del gregge di vedere l'alba che si leva a un nuovo mattino di ascoltare il vento che sussurra tra le foglie del bosco.

Quando attraverserai l'ultimo vecchio ponte lascia che i tuoi occhi si abituino al buio e che le tue orecchie sentano la musica che la terra canta a chi ritorna a lei.

Lascia che i tuoi passi siano leggeri sulla terra bagnata e che la tua anima voli via libera come un uccello che ha ritrovato il suo nido.

Dio di misericordia il tuo bel paradiso lo hai fatto soprattutto per chi non ha sorriso per quelli che han vissuto con la coscienza pura l'inferno esiste solo per chi ne ha paura.

Traditori della vita, di voi non mi importa avete sputato sulla terra che vi ha nutrito avete venduto il vostro fratello per un pezzo di pane e ora piangete sul suo corpo che avete ucciso.

Ma per lui, per il mio amico che ha scelto il silenzio io chiedo una carezza sul suo viso stanco io chiedo un posto dove possa riposare lontano dal vostro rumore, lontano dal vostro fango.

Dio di misericordia il tuo bel paradiso lo hai fatto soprattutto per chi non ha sorriso.

Tradução para Português

Para que possa acompanhar o sentido completo do poema, aqui está a tradução integral:

Oração em Janeiro

Deixa que seja florida a tua longa viagem antes de aceitares o grande dom, a última dádiva do rebanho: ver a alvorada que desponta numa nova manhã, escutar o vento que sussurra por entre as folhas do bosque.

Quando atravessares a última e velha ponte, deixa que os teus olhos se habituem à escuridão e que os teus ouvidos sintam a música que a terra canta a quem a ela regressa.

Deixa que os teus passos sejam leves sobre a terra molhada e que a tua alma voe livre, como uma ave que reencontrou o seu ninho.

Deus de misericórdia, o teu belo paraíso fizeste-o sobretudo para quem não sorriu, para aqueles que viveram com a consciência pura; o inferno existe apenas perante quem tem medo dele.

Traidores da vida, de vós não quero saber, cuspistes sobre a terra que vos alimentou, vendestes o vosso irmão por um pedaço de pão e agora chorais sobre o corpo que matastes.

Mas para ele, para o meu amigo que escolheu o silêncio, eu peço uma carícia no seu rosto cansado, eu peço um lugar onde ele possa repousar, longe do vosso ruído, longe do vosso lamaçal.

Deus de misericórdia, o teu belo paraíso fizeste-o sobretudo para quem não sorriu. (Google Gemini)

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Nocivo Shomon » Poesia da Madrugada


2018 01 09 Foto victor nogueira - em Setúbal no Largo de Santo António - "Na madrugada, escrevendo ao lado da solidão / Em cada linha escrita, um pedaço do coração"

São os versos finais da Letra da Música » Hip Hop/Rap » Nocivo Shomon » Poesia da Madrugada que pode ser ouvida em 


(Video Clip Oficial)


Licença sangue
Deixa eu te mostrar o que é poesia
Navego num mar de almas implorando alforria
Lutador luta agora e o covarde sempre adia
Se o errado tem voz o sábio nunca silencia
Grito de agonia, meu povo sorri chorando
Os mortos resistindo e os vivos se entregando
Tamo se aproximando, do fim cê ve o começo
Fulano ali se vende sim é só aumentar o preço
Música não tem cor, nem arte ou endereço
Postura uns morre sem, outros vem com ela de berço
Só quero o que mereço, meu santo não é de gesso
Vacilação total não aprender com o tropeço
Apresso o recomeço, apresso a futilidade
Os de mentira vive gritando que é de verdade
Julgando os meus defeitos não viu minha qualidade
Antes são na loucura que louco na sanidade
Uns são nem a metade, mas acham que pode tudo
Se a justiça tem voz , pra nóis sistema tá mudo
Humildade não é escudo, nem nosso sofro é orgulho
Se espantou pois esqueceu que vaia também e faz barulho
Maloca... vários monstro ao meu redor
Quanto mais gente conheço, mano, me sinto mais só
E o pastor que ontem se sentia entre nóis o melhor
Fez como o diz na Biblía, e retornou ao pó
Quem é você? Bota as cartas na mesa
Em cada coração a coleção de incerteza
Tristeza , na selva , que rouba a impureza
Vermes em demasia com mania de grandeza
Contra a correnteza suportei temporais
Bolando mais um Blunt com rimas transcedentais
Um monte chega na frente passando vários pra trás
Esquece teu passado que esse aí não volta mais

Na madrugada, escrevendo ao lado da solidão
Em cada linha escrita, um pedaço do coração


foto em 2017.03.17

https://kantophotomatico.blogspot.com/2018/01/nocivo-shomon-poesia-da-madrugada.html

sexta-feira, 21 de janeiro de 2022

Carolina Deslandes - Eco


#colors #carolinadeslandes #eco


* Carolina Deslandes


Silêncio, do silêncio eu faço um grito
E o corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco

[Verso]
Não escrevas empatia se não queres saber
Olha p'rá Palestina e p'rás casas a arder
Olha p'rá Colômbia e p'ró apelo à liberdade
P'rá polícia, p'rá milícia, para a agressividade
E queres falar do quê?
Da loja que fechou, da festa que alguém cancelou
Da roupa que não compraste
E 'tás a falar do quê? Das amigas que não viste
Quando a tristeza insiste em pintar a cidade
Não te vale o hashtag se a alma é pequena
Não há cardinal que salve, nem clout que roube a cena
O sangue corre nas ruas, bombas que caiem do céu
De famílias como a tua que ninguém socorreu
Não me ouças, não me sigas, se tu não te importas
Eu vim p'ra abrir ao pontapé todas as portas
Vim p'ra falar de genocídio, de racismo ao microfone
Há quem se esconda no cinismo, eu meto a boca no trombone
E rezo a Deus, acendo a vela, e pergunto:
"Porque é que nos deste a Terra, se não governaste o mundo?"
"Porque é que nos deste a guerra e a vontade de querer tudo?"
"Porque é que quem sofre, berra, e quem governa, é surdo?"
Abraço os meus filhos esta noite, com firmeza
Agradeço a paz e a comida na mesa
E só penso em quem ficou sem nada
Na sopa dos pobres, na sopa da mágoa
Não escrevas empatia só para aparecer
Ser empático, é comparecer
É sofrer por ver alguém sofrer
É a ferida no corpo dum outro que insiste em doer
Que insiste em doer, que insiste em doer
Que insiste em doer

[Refrão]
Silêncio, do silêncio eu faço um grito
E o corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco

Silêncio, do silêncio eu faço um grito
E o corpo todo me dói
Deixai-me chorar um pouco


Portuguese singer/songwriter @Carolina Deslandes delivers a velvety performance of her new single ‘Eco’ (produced by AGIR).

COLORSxSTUDIOS is a unique aesthetic music platform showcasing exceptional talent from around the globe. COLORS focuses on the most distinctive new artists and original sounds in an increasingly fragmented and saturated scene. All COLORS shows seek to provide clear, minimalistic stage that shines a spotlight on the artists, giving them the opportunity to present their music without distraction.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

José Mário Branco - o charlatão



Numa rua de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis d'ouro a um tostão
enriquece o charlatão


No beco mal afamado
as mulheres não têm marido
um está preso, outro é soldado
um está morto e outro f'rido
e outro em França anda perdido

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na ruela de má fama
o charlatão vive à larga
chegam-lhe toda a semana
em camionetas de carga
rezas doces, paga amarga

No beco dos mal-fadados
os catraios passam fome
têm os dentes enterrados
no pão que ninguém mais come
os catraios passam fome

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-s'em quatro zonas
instalados em poltronas

Pr'á rua saem toupeiras
entra o frio nos buracos
dorme a gente nas soleiras
das casas feitas em cacos
em troca d'alguns patacos

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Entre a rua e o país
vai o passo dum anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Milton Nascimento e Fernando Rocha Brant - Carta à República



* Milton Nascimento / Fernando Rocha Brant

Sim é verdade, a vida é mais livre
o medo já não convive nas casas, nos bares, nas ruas
com o povo daqui
e até dá pra pensar no futuro e ver nossos filhos crescendo e sorrindo
mas eu não posso esconder a armagura
ao ver que o sonho anda pra trás
e amentira voltou
ou será mesmo que não nos deixara?
a esperança que a gentecarrega é um sorvete em pleno sol
o que fizeram da nossa fé?

Eu briguei, apanhei, eu sofri, aprendi,
eu cantei, eu berrei, eu chorei, eu sorri,
eu saí pra sonhar meu País
e foi tão bom, não estava sozinho
a praça era alegria sadia
o povo era senhor
e só uma voz, numa só canção

e foi por ter posto a mão no futuro
que no presente preciso ser duro
que eu não posso me acomodar
quero um País melhor


sábado, 23 de novembro de 2019

Natália Correia - Queixa das jovens almas censuradas

 * Natália Correia



José Mário Branco - "Queixa das almas jovens censuradas"

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte

Poema de Natália Correia
Música de José Mário Branco
sobre um desenho de Jean Cocteau (1889-1963)

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Chico Buarque - As Caravanas

* Chico Buarque
 


É um dia de real grandeza, tudo azul
Um mar turqueza à la Istambul enchendo os olhos
Um sol de torrar os miolos
Quando pinta em Copacabana

A caravana do Arará — do Caxangá, da Chatuba
A caravana do Irajá, o combio da Penha
Não há barreira que retenha esses estranhos
Suburbanos tipo muçulmanos do Jacarezinho
A caminho do Jardim de Alá — é o bicho, é o buchicho é a charanga

Diz que malocam seus facões e adagas
Em sungas estufadas e calções disformes
Diz que eles têm picas enormes
E seus sacos são granadas
Lá das quebradas da Maré

Com negros torsos nus deixam em polvorosa
A gente ordeira e virtuosa que apela
Pra polícia despachar de volta
O populacho pra favela
Ou pra Benguela, ou pra Guiné

Sol, a culpa deve ser do sol
Que bate na moleira, o sol
Que estoura as veias, o suor
Que embaça os olhos e a razão

E essa zoeira dentro da prisão
Crioulos empilhados no porão
De caravelas no alto mar
Tem que bater, tem que matar, engrossa a gritaria

Filha do medo, a raiva é mãe da covardia
Ou doido sou eu que escuto vozes
Não há gente tão insana
Nem caravana do Arará

quinta-feira, 15 de junho de 2017

José Afonso - Alípio de Freitas


 José Afonso - "Alípio de Freitas" do disco "Com as minhas tamanquinhas" (LP 1976)

Baía de Guanabara 
Santa Cruz na fortaleza 
Está preso Alípio de Freitas 
Homem de grande firmeza 

Em Maio de mil setenta 
Numa casa clandestina 
Com campanheira e a filha 
Caiu nas garras da CIA 

Diz Alípio à nossa gente: 
"Quero que saibam aí 
Que no Brasil já morreram 
Na tortura mais de mil 

Ao lado dos explorados 
No combate à opressão 
Não me importa que me matem 
Outros amigos virão" 

Lá no sertão nordestino 
Terra de tanta pobreza 
Com Francisco Julião 
Forma as ligas camponesas 

Na prisão de Tiradentes 
Depois da greve da fome 
Em mais de cinco masmorras 
Não há tortura que o dome 

Fascistas da mesma igualha 
(Ao tempo Carlos Lacerda) 
Sabei que o povo não falha 
Seja aqui ou outra terra 

Em Santa Cruz há um monstro 
(Só não vê quem não tem vista 
Deu sete voltas à terra 
Chamaram-lhe imperialista 

Baía da Guanabara 
Santa Cruz na fortaleza 
Está preso Alípio de Freitas 
Homem de grande firmeza 



Alípio de Freitas de Couple Coffee


José Afonso cantou Alípio de Freitas, agora Alípio canta José Afonso

O disco que os Couple Coffee dedicaram a José Afonso em 2007 é relançado com duas faixas extra e uma surpresa. Este domingo, no Musicbox, em Lisboa, pelas 21h30.
ªªª





Quando foi lançado Co’as Tamanquinhas do Zeca!, em Abril de 2007, contou-se a história improvável dessa ligação. José Afonso tinha feito, depois do 25 de Abril, uma canção dedicada a um padre transmontano que no Brasil se tornara guerrilheiro e ali fora preso. Dizia assim: “Baía da Guanabara/ Santa Cruz na fortaleza/ Está preso Alípio de Freitas/ Homem de grande firmeza// Em Maio de mil setenta/ Numa casa clandestina/ Co’a companheira e a filha/ Caiu nas garras da CIA.” Alípio ainda ficou preso durante quase dez anos, depois tornou-se amigo de José Afonso e seguiu-o de perto até à morte. E a filha citada na canção, de seu nome Luanda Cozetti, fez-se cantora e formou com Norton Daiello, seu companheiro na vida e na música, o duo Couple Coffe. Que em 2007 gravou um disco só com versões brasileiras de canções de Zeca Afonso. Ciclo fechado.

Ou quase. Luanda evitou gravar, por razões óbvias, a canção dedicada ao pai. Tal como não gravou, por exemplo, Traz outro amigo também, que para ela tinha ressonâncias bem diferentes daqueles que teve e tem em Portugal. Passados sete anos, já com o Couple Coffee bem instalado no meio musical português, resolveram relançar o disco. E arriscar essas duas canções, com uma curiosa abordagem. Traz outro amigo também conta com a voz do próprio Alípio de Freitas que, nascido em Vinhais, em 1929, deixa ali impresso o seu sotaque transmontano e altivo. Luanda conta, agora, como correu a experiência:

“Pôr o meu pai a cantar não foi nada difícil. Há uns dois anos que estávamos com essa ideia, mas fomos enrolando. Estas duas músicas tinham ficado de fora do disco. Alípio de Freitas por aqueles motivos todos e Traz outro amigo também porque foi uma música em que eu não queria mexer. Porque, para mim, ‘aqueles que ficaram’ são os que ficaram pelo caminho. Estou cercada de defuntos, enfim. Mas achei que agora era a hora dessa canção, propus ao meu pai e ele foi profissionalíssimo, 40 minutos de estúdio e gravou tudo, cantando, falando deu uma alegria, uma dignidade à canção. Quisemos deixar a forma como ele fala, o timbre muito transmontano, ficou muito lindo assim.”

Quanto à canção Alípio de Freitas, que José Afonso incluiu no seu disco Com as Minhas Tamanquinhas, em 1976, a carga emocional que trazia consigo era imensa. “Levei oito anos para entender o que essa canção significava em Portugal”, diz Luanda. “Eu tinha uma visão minha, dolorida, e não entendia porque é que aquele refrão, que falava de tortura, era tão p’ra cima, tão alegre. Mas à medida que vamos conhecendo o Zeca percebemos que ele era de uma eficiência impressionante e eu fui entendendo a canção. P’ra mim a canção significava ‘tirem meu pai daqui, que bom que alguém se lembrou’, enquanto para Portugal era uma exortação, era quase uma canção passionária!”

 Mesmo assim foi difícil, para ela, cantar. “Gravei de uma vez só, meti na cabeça que papai era o Zorro, e fui embora. O Júlio Pereira estava com medo que eu gravasse a coisa soturnamente, mas não. Cantei, só eu e o baixo (do Norton), depois o Júlio meteu o bouzouki e o cavaquinho. Ficou bonito, gostei. E acho que com isso fecho um ciclo.”

O disco Co’as Tamanquinhas do Zeca!, para além de Luanda Cozetti (voz) e Norton Daielllo (baixo eléctrico) conta ainda com os músicos Sérgio Zurawski (guitarra eléctrica) e Ruca Rebordão (percussões). Entre os dezasseis temas do disco original encontram-se temas como Tenho um primo convexo, Menino d’oiro, O avô cavernoso, Vampiros, Teresa Torga, Menino do bairro negro, Balada do Outono, Era um redondo vocábulo ou Utopia.

Nas duas faixas extra, agora acrescentadas, participaram Alípio de Freitas (voz) e Júlio Pereira (bouzouki e cavaquinho). O disco, que volta às lojas a partir de 31 de Março, será lançado este domingo com um espectáculo no Musicbox, em Lisboa, pelas 21h30. O preço da entrada (12,99 euros) dá direito a levar para casa o disco reeditado.


https://www.publico.pt/2014/03/30/culturaipsilon/noticia/jose-afonso-cantou-alipio-de-freitas-agora-alipio-canta-jose-afonso-1630333


OPINIÃO

Alípio de Freitas, o repouso do guerreiro

Alípio morreu esta semana e repousa agora no Alvito. Lembrá-lo não tem data, é coisa de hoje e do futuro.
Já aqui se falara dele, este ano, a propósito de uma homenagem e de um livro. Agora haverá outra homenagem, em forma de concerto, mas póstuma. Alípio de Freitas morreu. Fisicamente perdemo-lo, num final sereno, mais uma batalha por ele ganha aos males que por desumana tirania quase sempre infligem dor.



Alípio de Freitas no Alvito, em 2012  RUI GAUDÊNCIO

Quem é Alípio de Freitas? As notícias apresentaram-no como jornalista, mas isso é uma ínfima parte do seu trabalho. Porque, como escreveu anteontem a direcção da Associação José Afonso (de que foi um dos fundadores e à qual chegou a presidir), “entre muitas outras coisas [ele] foi padre, fundador das Ligas Camponesas no Brasil, militante político, cooperante em Moçambique, jornalista na Rádio Televisão Portuguesa, professor universitário. Foi, também co-fundador da Casa do Brasil em Lisboa, membro da Comissão Coordenadora do Tribunal Mundial sobre o Iraque (Audiência Portuguesa), Presidente da Direcção da Associação José Afonso.”

Nascido Alípio Cristiano de Freitas em Bragança, no dia 17 de Fevereiro de 1929, foi ordenado padre em 1952 e desde então manteve ligação estreita com as camadas mais pobres. Primeiro como pároco de Guadramil e Rio de Onor, depois no Brasil, no Maranhão, para onde foi exercer e leccionar a convite do arcebispo local. Iniciou-se na política brasileira, participando em protestos públicos e juntando-se às Ligas Camponesas, o que lhe valeu ser sequestrado pelo exército durante cinquenta dias e, mais tarde, já depois do golpe militar de 1964, preso e torturado (esses tempos recorda-os ele no livro Resistir é Preciso, com edição brasileira da Record, em 1981, e editado em Portugal este ano pela Âncora).

O acirrar da ditadura levou-o a exilar-se no México e a receber treino militar em Cuba, integrando depois movimentos guerrilheiros na América Latina e no Brasil, onde esteve preso de 1970 a 1979, período em que José Afonso, sem o conhecer pessoalmente, lhe dedicou uma canção que diz assim: “Baía da Guanabara/ Santa Cruz na fortaleza/ está preso Alípio de Freitas/ Homem de grande firmeza”. A canção, Alípio de Freitas, foi gravada em 1976 no disco Com as Minhas Tamanquinhas, mas só anos mais tarde os dois viriam a conhecer-se. Libertado no Brasil, no dia em que completou 50 anos, Alípio viria depois a trabalhar em Moçambique, em projectos agrícolas, só regressando a Portugal em 1984 (três anos antes de José Afonso morrer). Aqui foi jornalista na RTP (até 1994) e exerceu cargos em diversas associações, algumas já mencionadas, recebendo em 1996 a condecoração de Grande Oficial da Ordem da Liberdade da República Portuguesa.

Apesar do seu envolvimento em guerrilhas, no reverso de violências ditatoriais, Alípio foi sempre um humanista e o seu pensamento esteve e está (porque permanece, para lá da sua extinção física) nos antípodas das carnificinas dos terrorismos, antigos ou modernos. A sua firmeza, de que fala a canção, é a de um homem que acredita que a dignidade do ser humano pode resistir à mais bárbara das provações. No livro citado, ao descrever uma das sessões de tortura a que foi sujeito, Alípio escreveu (pág. 33): “Senti o meu fim próximo e alegrei-me. Uma alegria calma e serena de quem parte por vontade própria. A alegria do combatente que deixa o campo de batalha depois de, em luta desigual, ter derrotado a soberba dos inimigos. Assim eu partia.” Enganou-se, viveria ainda mais quase meio século. Partiu esta semana, serenamente, e os pensamentos que em 1970 dirigiu aos algozes poderia agora tê-los dirigido à doença.

No dia 17 há um concerto-homenagem no Fórum Lisboa, às 21h30, com nomes como Ariel Rodriguez, Luanda Cozetti (filha de Alípio), Filipe Raposo, Janita Salomé, Mauro Ciavattini, Nilson Dourado, Chullage, Selma Uamusse, Vitorino ou Uxia (a Galiza era outra paixão sua). Estava marcado e não foi desconvocado: ficará em sua memória. Alípio morreu no dia 13 e repousa agora no Alvito, terra à qual se dedicou e onde em vida procurou a paz. Lembrá-lo não tem data, é coisa de hoje e do futuro.

https://www.publico.pt/2017/06/15/.../alipio-de-freitas-o-repouso-do-guerreiro-1775569

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

José Mário Branco - Eu vim de longe



Eu vim de longe



Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de maio começou
Eu olhei para ti
Então entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha na outra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
Pra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não hesitei
E os hinos cantei
Foram feitos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão

Quando a nossa festa se estragou
E o mês de Novembro se vingou
Eu olhei pra ti
E então entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi pra esta força que apontou

E então olhei à minha volta
Vi tanta mentira andar à solta
Que me perguntei
Se os hinos que cantei
Eram só promessas e ilusões
Que nunca passaram de canções

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

Quando eu finalmente eu quis saber
Se ainda vale a pena tanto crer
Eu olhei para ti
Então eu entendi
É um lindo sonho para viver
Quando toda a gente assim quiser

Tenho esta viola numa mão
Tenho a minha vida noutra mão
Tenho um grande amor
Marcado pela dor
E sempre que Abril aqui passar
Dou-lhe este farnel para o ajudar

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou p´ra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

E agora eu olho à minha volta
Vejo tanta raiva andar a solta
Que já não hesito
Os hinos que repito
São a parte que eu posso prever
Do que a minha gente vai fazer

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei prá aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

http://amusicaportuguesa.blogs.sapo.pt/540307.html

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Fausto - A guerra é a guerra



* Fausto

Salto no escuro; Entre dentes trago a faca
E nos meus olhos coloridos; Juro
Vem ver o fogo no mar; Os peixes a arder
Ó Ana vem ver; Ó Ana vem ver; Ó Ana vem ver

Voando em arco; Esgueiro o corpo num balanço
Como um piloto do inferno; Assalto
Nas asas guerreiras de um anjo; Seja louvado
Atacamos mui baralhados; Como um bando endiabrado
Por Jesus na sua cruz; Chora por mim ó minha infanta
Escorre sangue o céu e a terra; Ah pois por mais que seja santa
A guerra é a guerra

Coro:
Malaca Malaca; A guerra é a guerra
No céu e na terra; Nos dentes a faca
Avanço avanço; A guerra é a guerra
No céu e na terra; Balanço balanço
Cruzado cruzado; A guerra é a guerra
No céu e na terra; O mais enfeitado
Largar largar; O fogo no mar

Seja bendito; De todos o mais enfeitado
Olha p’ra mim o mais guerreiro; Ao vivo
Olha p’ra mim o teu amado; E o céu a arder
Ó Ana vem ver; Ó Ana vem ver; Ó Ana vem ver
Barcos em chamas; Erguidas
Parecia coisa sonhada; Queimados
Os gritos horrendos da besta; Ferida
E lá dentro ardiam homens; Encurralados
E cá fora à cutilada; Decepados
P’la calada; Pelos peitos já desfeitos
Chora por mim ó minha infanta; Escorre sangue o céu e a terra
Ah pois por mais que seja santa; A guerra é a guerra

(coro)

Foge saloio; Eh parolo
Aguenta António de Faria; E a fidalguia
Todo o massacre; E todo o desconsolo
Que já lá vem o Coja Acém; E o mar a arder
Ó Ana vem ver; Ó Ana vem ver; Ó Ana vem ver
Diz-nos adeus o pirata; O labrego
De cima daquele mastro; Trocista e airoso
Mostrando o traseiro cafre; Preto escuro de um negro
Levando-nos coiro e tesouro; Rindo de gozo
Perdeu-se o resto na molhada; Pelo estrondo
Na quebrada; No edema da gangrena
Chora por mim ó minha infanta; Escorre sangue o céu e a terra
Ah pois por mais que seja santa; A guerra é a guerra

É o sexto álbum de Fausto e o primeiro da trilogia "Lusitana Diáspora"
Música e letra de Fausto
Arranjo de Eduardo Paes Mamede e Fausto
Orquestração, direcção musical e produção de Eduardo Paes Mamede


Fausto Bordalo Dias, - (1948 - …) compositor e músico.
Autor de “Por Este Rio Acima”, editado pela primeira vez em 1982, remasterizado e re-editado em 1990, que se baseia nas viagens de Fernão Mendes Pinto, relatadas no seu livro “Peregrinação”.

Nota: Diário da viagem, Fernão Mendes Pinto
“De Diu embarquei para o estreito de Meca, daqui fomos a Maçuá e daí, por terra, ao Reino do Preste João. Passei ao Reino dos Batas e de fugida pelo Reino de Quedá como adiante darei parte. Em Patane conheci António de Faria, capitão a quem servi na venda da mercadoria. Fomos atacados e roubados pelo perro do Coja Acém, temido pirata depois que Heitor da Silveira lhe matara seu pai e dois irmãos. Por isso, Coja Acém havia prometido a Mafamede matar todos da geração de Malaca. Em pequenas fustas, enfrentei também a grande armada do turco que bordejava na nossa esteira com as velas quarteadas de cores e muitas bandeiras de seda.”

http://abeiralethes.blogspot.pt/2009/10/fausto.html


quinta-feira, 4 de agosto de 2016

John Lennon - Happy Xmas (War Is Over)



John Lennon - Happy Xmas (War Is Over)
 

So this is Xmas
And what have you done
Another year over
And a new one just begun
And so this is Xmas
I hope you have fun
The near and the dear one
The old and the young 

A very Merry Xmas
And a happy New Year
Let's hope it's a good one
Without any fear 

And so this is Xmas
For weak and for strong
For rich and the poor ones
The world is so wrong
And so happy Xmas
For black and for white
For yellow and red ones
Let's stop all the fight 

A very Merry Xmas
And a happy New Year
Let's hope it's a good one
Without any fear 

And so this is Xmas
And what have we done
Another year over
A new one just begun
And so happy Xmas
We hope you have fun
The near and the dear one
The old and the young 

A very Merry Xmas
And a happy New Year
Let's hope it's a good one
Without any fear
War is over, if you want it
War is over now