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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Camões: O poeta do povo num mundo em mudança




Intervenção de Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP

22 Novembro 2025, Coimbra



 Gostaria de agradecer a todos a  presença neste concerto, inserido no programa do PCP de comemorações do V Centenário do nascimento de Luís de Camões.

Permitam-me uma saudação particular aos artistas, aos trabalhadores da cultura, a todos os que se empenharam na concretização desta iniciativa. 

É justo questionar como é que com tanta coisa para fazer e em tempos tão difíceis que exigem tanto e cada vez mais de todos nós, tempos de aperto na vida da maioria dos jovens, das mulheres, dos trabalhadores, tempos de injustiça, promoção do ódio, divisão, de incertezas, perigos e de desesperança para o povo, porque razão o PCP se lança de forma tão profunda e empenhada nas comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões com um programa tão diversificado como aquele que estamos a levar por diante? 

Pois bem, avançamos com estas iniciativas porque Camões é, como afirma o lema das comemorações, “o poeta do povo num mundo em mudança”.

Avançamos pela sua actualidade e porque é fundamental que o povo conheça a obra do poeta que lhe deu voz.

Avançamos nestas comemorações porque é imperativo intervir pela verdade histórica que confronta a mentira e a manipulação.

A obra de Luís de Camões foi manipulada pelo fascismo, procurando com ela dar cobertura ideológica a um regime opressivo e ao colonialismo com tudo o que o envolve. 

Camões não é o poeta dessa gente, não é o poeta do medo, do individualismo, da resignação, da manipulação de consciências, da censura, da repressão, do terror.

Camões é do Renascimento, desse pensamento novo que confronta o velho pensamento dogmático de classes dominantes que procuraram reprimir e conter, nomeadamente através da Inquisição.

Camões nunca foi protegido pelo poder nem pelos privilegiados do seu tempo, é o poeta de Os Lusíadas que tal com como Álvaro Cunhal, referiu e cito: 

«Camões não é a voz da reacção e do colonialismo. Camões é a voz do nosso povo, dos Lusíadas, a voz da insubmissão ante os privilégios, a voz do progresso social e científico, a voz da nação portuguesa, num elevado sentido humanista».

Camões é o poeta da aventura portuguesa nos oceanos, da descoberta mútua e das relações entre os povos, das trocas comerciais e culturais, das novas rotas, novas estrelas e dos novos céus.

Camões é o poeta do aguçar dos sentidos, das capacidades de descrição, raciocínio, experimentação e do conhecimento.

Como afirmou Garcia de Orta: «sabe-se mais num dia agora pelos portugueses do que se sabia em cem anos pelos romanos». 

Assinalar Camões pelo que foi, o que representa e quem representa na sua obra, é dar um contributo para o combate a ideias e concepções retrógradas, reaccionárias e bafientas que alguns procuram recuperar e difundir.

Mas é mais, é dar voz a esse povo por ele sempre exaltado, esse povo que lutou para defender a independência nacional, esse povo que com as suas mãos contraria sempre, mais cedo ou mais tarde, o conformismo que alguns querem impor. 

É esta a nossa história e assim foi nesse momento maior da vida do povo que foi a Revolução de Abril.

Essa data maior e única que alguns procuram fazer esquecer da memória colectiva, para fazer esquecer e pôr fim às suas conquistas e valores.

Essa data maior e única que alguns querem reescrever e substituir por outra qualquer, de forma a consolidar um rumo e uma política que aperta a vida da maioria e concentra a riqueza, benesses e privilégios nas mãos de uns poucos.

Um rumo de dezenas de anos, levado a cabo agora pelo Governo de turno de PSD e CDS, com uma política apoiada pelo Chega e pela Iniciativa Liberal, e que conta com a cumplicidade do PS. 

Um rumo que coloca Portugal nas mãos dos grandes grupos económicos e das multinacionais, um rumo e uma política  contrárias às necessidades da maioria dos que cá vivem e trabalham, de desinvestimento e ataque ao SNS, à escola pública, à cultura, à generalidade dos serviços públicos; de baixos salários e pensões, brutais dificuldades na habitação, manutenção e agravamento da precariedade e das condições laborais; de insistência no caminho de abdicação da soberania e da produção nacional.

Como assinalou Camões: «O fraco rei faz fraca a forte gente». 

Este rumo e esta política submissa perante os poderosos enfraquece o povo e a sua vida.

Comemorar Camões é também contribuir para fazer mais forte a nossa forte gente.

É afirmar o pensamento avançado, descobrir e respeitar as diferentes culturas, dar combate às injustiças e desigualdades, é afirmar a cooperação, solidariedade, respeito e soberania dos povos, fazer frente à guerra e lutar pela Paz.

Comemorar Camões e a sua obra é lembrar sempre que as lutas de hoje – pelos salários, as pensões e os direitos, contra o pacote laboral e na construção da greve geral, pelo direito à habitação, à escola pública, à cultura – se inscrevem no mesmo processo histórico de denúncia e combate às injustiças e desigualdades em que Camões, ressalvada a diferença de contexto e de tempo, se inseriu.   
 
É também por isto tudo que o PCP se lança, nestes tempos, de forma tão empenhada nas comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões e que realizamos hoje mesmo este concerto.

Associemos agora ao engenho e arte de Luís de Camões, o engenho e arte dos artistas que hoje aqui vão intervir. 

Jaime Nogueira Pinto - Camões: o poeta cego, surdo e mudo




* Jaime Nogueira Pinto

A ideia de emitir uma moeda comemorativa dos 500 anos de Camões com uma efígie estilizada em que o “poeta cego” também surge surdo e mudo diz-nos muito de quem a encomendou e, em Dezembro, a aprovou.

08 jun. 2024

Por má fortuna, os quinhentos anos do que se convencionou ser o nascimento de Camões coincidiram com cinquenta anos do 25 de Abril. E o tempo, o modo e os fundos alocados pelo Estado às comemorações do Regime contrastaram flagrantemente com a incúria e a modéstia de fundos destinados à celebração do épico. E assim tinha de ser. O combatente do Império no Norte da África e na Índia, cantor exaltado e exaltante de feitos de guerra e de conquista, homem de sensibilidade, subtileza, erudição e experiência, capaz de dar voz ao contraditório e a todas vãs cobiças, capaz também de se deixar cativar por uma “cativa”, pode ser um homem para todos os tempos e estações… para todos, menos para este. Ou é-o pela ausência, pelo vazio, pela amordaçada mudez, pela surdez induzida e pela cegueira metafórica que a moeda comemorativa tão bem ilustra. Num tempo de maniqueísmo simplista, contrição oca e ignorância induzida, Camões só poderia ter lugar como saco de vento e “poeta cego”, ou mais precisamente, na designação oficial da moeda, como “efígie estilizada do poeta cego, com uma coroa de louros e uma gola típica do século XVI”. E depois havia ainda o colonialismo, o imperialismo, o “nacionalismo exacerbado”, a todos os títulos hostis a globalismos, federalismos e multiculturalismos generalistas.

Assim – e também pela qualidade formal e estilística e pela lucidez no juízo dos homens e dos tempos – era, desde logo, natural que Camões não despertasse grande entusiasmo entre a classe política dirigente e a intelectualidade desta Terceira República.

“Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram,
Cale-se de Alexandre e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram,
Que eu canto o peito ilustre Lusitano
A quem Neptuno e Marte obedeceram;
Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.”

…Cale-se e cesse também Camões e o seu ilustre peito lusitano que outros valores (mais altos?) se alevantam. Que valores exactamente não sabemos; sabemos só que não são nem podem ser os do “peito ilustre lusitano”.

Temo que Vasco da Gama, cujos 500 anos da morte também se cumprem este ano, em 24 de Dezembro, véspera de Natal, não venha a conhecer melhor sorte. Até porque, além do delito de “nacionalismo exacerbado”, que partilha com Camões, praticou alguns dos crimes pelos quais devemos ao mundo penitência e reparação.

De regime em regime

Como este agora o queria fazer pela ausência amordaçada, também os anteriores regimes se foram sucessivamente apropriando de Camões.

Em 1880, o nascente partido republicano usou o terceiro centenário da sua morte de para criticar a Monarquia. A ideia era pegar na grandeza do poeta, da épica e do Portugal de Quinhentos para a atirar bem à cara do Portugal decadente do rotativismo regenerador.

Assim, na fórmula de Teófilo Braga, o homem da iniciativa, Camões simbolizava “as glórias e os desastres de Portugal”. Para Teófilo – e  apesar do positivismo comteano da sua formação –,  tratava-se de através da emoção e dos sentimentos populares suscitados pela memória gloriosa de Quinhentos, de que o Poeta era digno protagonista e celebrante, mobilizar a opinião pública e popular mostrando-lhe o fosso entre a grandeza do século das navegações e conquistas e “a apagada e vil tristeza” do país da Regeneração. O que se pretendia era esse contraste histórico entre o presente de então e o Portugal do Príncipe Perfeito e do Venturoso, contado e celebrado por Camões nos Lusíadas, a diferença entre essa “Idade de Ouro”, real ou mitificada, em que tínhamos sido pioneiros nos mares e oceanos e grandes na conquista das terras e o presente. Era com tudo isso que o intelectual republicano Teófilo Braga, através da promoção de grandes comemorações camonianas nacionais e populares, ao modo das festas cívicas da Revolução Francesa, queria espicaçar o povo.

Camões, nesse tempo, servia a uma esquerda nacional, republicana e patriota: era um poeta que celebrava o Portugal da Renascença, promotor de Modernidade, um poeta que, para o futuro primeiro presidente provisório da República jacobina, enfileirava com Virgílio e Dante, guias do entendimento e da cultura da Humanidade. Para Teófilo, Camões, tal como Leonardo e Miguel Ângelo, fazia a transição da Idade Média para a Renascença.

Na Geração de Setenta, quer Oliveira Martins, quer Antero de Quental foram críticos desse seu entusiasmo, por razões ideológicas e políticas: Oliveira Martins achava a versão de Teófilo de uma Renascença mais ou menos esclarecida, um mito; para ele, o cristianismo fundamentalista e identitário e o imperialismo político-militar não eram dissociáveis ao século de Quinhentos português; e Antero, no seu pessimismo, via em Camões e nos Lusíadas mais um epitáfio celebrativo do fim do ciclo da grandeza que uma proposição para memória e ressurreição nacionais. E Martins, em 1891, já depois da crise e humilhação do Ultimato, diria que o “entusiasmo de 1880” tinha “ardido como palha”.

Hoje, depois do enaltecimento do Estado Novo do Poeta e da épica, a Esquerda não está muito interessada nem em Camões, nem em lembrar as glórias do Século de Ouro.  Ou tão pouco parece interessada – por ideologia, desinteresse ou falta de tempo ou ciência – nas suas complexidades e na crítica do Poeta à época em que escreve ou à gesta do passado.  O governo socialista que, curiosamente, podia reclamar alguma ascendência da esquerda republicana e patriota que, há quase 150 anos, por interesse político de circunstância, mobilizou os lisboetas e os portugueses para o centenário da morte de Camões, pouco ou nada fez por este Quinto Centenário do Poeta. Olhou para o lado, ocupadíssimo a planear e financiar os 50 anos de Abril e a acolher a agenda educacional da extrema esquerda. Tanto que, na organização (ou ausência dela) das comemorações camonianas, não constava sequer o Ministério da Educação, agora justamente reposto como parceiro.  Afinal, para quê implicar o Ministério da Educação nas comemorações, congestionada que já estava a Educação com tantas, tão determinantes e tão inclusivas agendas?

O melhor era ignorá-lo e festejar Abril. E depois, o Poeta, na sua vida irrequieta e perigosa, nos seus amores impossíveis, nas suas servidões e grandezas militares, nas suas “desajustadas” devoções a Deus, à Pátria e ao Rei, na sua consciência de contemporâneo e agente da original “exportação de Estado” pelos portugueses, não se coadunava com as esquerdas festivas das nostalgias anti-coloniais e muito menos com o simplismo das esquerdas do cancelamento e da vitimização à la carte.  Tão pouco poderia “civilizar-se”, “pacificar-se” e “liberalizar-se” aquele a que a época forçara a outros modos.

Era coerente. Como dar volta ao Camões de Ceuta e da Índia, ao Camões dos Lusíadas, ao contador de uma história que, à luz dos valores em promoção e circulação, não passava de um marginal belicista, nacionalista, imperialista, colonialista, autor de uma narrativa épica que punha os guerreiros que fundaram e defenderam Portugal do lado certo da História?

Todo um outro programa

O facto de esses guerreiros, os reis e heróis da História e do poema camoniano, serem os defensores da pátria e da terra portuguesa – Afonso Henriques na primeira guerra da independência, o Mestre de Aviz e Nun’Álvares na segunda, D. Manuel na decisão de mandar Vasco da Gama à Índia, e os Almeidas, os Albuquerques e Castros que por lá andaram, lutaram e, alguns, morreram – parece ter-se tornado relativamente irrelevante. Bem como o facto de Camões não ser um servidor acéfalo dos poderes vigentes: deixa a contradição do Velho do Restelo por resolver (como observa Carlos Maria Bobone no seu recente Camões: Vida e Obra ) e está particularmente atento aos factores e riscos dos desvios do poder, ao abuso, à corrupção, à tirania, ao mau conselho que podem transformar o monarca em tirano e subverter o bom governo. Os exemplos podem ser do Estado da Índia, mas a crítica ao poder é clara.

Ao ler no Público a versão expurgada da fala do Primeiro-Ministro, Luís Montenegro, sobre comemorações de Camões, assustei-me, pensando que o Poeta, esquecido e marginalizado pelos seus antecessores, ia agora ser celebrado de modo “democrático e inclusivo”, conforme o jornal dava a entender.  Felizmente fui ler as declarações de Montenegro na íntegra.  Afinal, o que o primeiro-ministro tinha dito era que não queria celebrar Camões “de um modo passadista ou saudosista”, mas que também não queria “modernizá-lo em termos anacrónicos falsificadores da verdade histórica…”. O que é todo um outro programa.

Ainda que o tempo não esteja de feição para grandes poetas ou heróis, nas suas contradições e errâncias, na profunda verdade da sua vida e da sua obra, Camões é Portugal ou também é Portugal. E é um grande intérprete do colectivo, do mundo e da comunidade, do universo e da pátria que nos fala do grande mundo a que Portugal se abriu e abriu.  Merece ser celebrado – e lido.

 https://observador.pt/opiniao/camoes-o-poeta-cego-surdo-e-mudo/

 

quarta-feira, 11 de junho de 2025

Discurso de Lídia Jorge em 20 de Junho de 2025

 


JOSÉ SENA GOULÃO/LUSA

Contra a possibilidade de loucos atingirem o poder e contra "a fúria revisionista que assalta pelos extremos", a escritora e conselheira de Estado Lídia Jorge dedicou o discurso que proferiu no âmbito das celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas a uma condenação do racismo, da escravatura e da cultura da mediocridade. Para ler aqui na íntegra

Política

10.06.2025 às 21h48

Lídia Jorge, conselheira de Estado falava enquanto presidente da Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de Junho, em Lagos, num discurso que antecedeu o do chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa.

Na sua intervenção, com cerca de 30 minutos, citou Shakespeare, Camões e Cervantes, “três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência”.

O discurso na íntegra

Parte inferior do formulário

“Os países escolhem datas de referência para celebrarem a sua história, contemplando memórias de batalhas, ações de independência, encontros civilizacionais, momentos importantes em torno dos quais concitam a unidade dos cidadãos e promovem o orgulho patriótico.

Mas, em Portugal, é a data da morte de um poeta que protagoniza o nosso momento cívico de unidade mais relevante.

Muito se tem discorrido sobre o significado desta nossa singularidade e, muitas vezes, é difícil explicar que não se trata de um sinal de melancolia, mas sim do seu oposto.

Há a assunção de que um poeta do século XVI nos legou uma obra tão vigorosa que acabou por ser adotada no seu conjunto como exemplo da vitalidade de um povo e que a própria biografia do seu autor se oferece como exemplo não só de um percurso português, mas se transformou em símbolo universal da nossa peregrinação prometeica sobre a terra.

A fidelidade que Camões manteve em relação à pátria, quando se encontrava em paragens remotas, alimenta a simbologia que lhe é atribuída como exemplo da proximidade que os portugueses que se encontram longe mantêm com a sua cultura de origem.

O país retribui-lhes, reconhecendo, desde há muito, que as comunidades portuguesas são o corpo essencial do nosso ser identitário.

Mas as celebrações deste ano de 2025 têm um cunho muito particular. Em primeiro lugar, porque voltam a ter lugar na cidade de Lagos. No século passado, foi cidade anfitriã em 1996.

Passados 29 anos, esta cidade do Algarve continua a ser democrática, livre, próspera.

O que mudou e o que justifica que, de novo, tenha sido escolhida para ser palco das celebrações foi a nova consciência de que Lagos passou a representar um lugar obrigatório quando se pretende avaliar as relações entre os povos ao longo dos séculos.

É sabido que Lagos, lugar de saída para a África e lugar do comércio prático, tem como símbolo complementar o Promontório de Sagres.

A escassos 40 quilómetros de distância, Sagres e Lagos representam historicamente uma dualidade contrastiva cujo papel se encontra em avaliação.

A comunicação digital que se afirmou a partir dos anos 90 permite agora uma divulgação ampla dos estudos que os arqueólogos, antropólogos e historiadores estão a realizar neste espaço geográfico designado por Terras do Infante.

Era a altura de atribuir a Lagos, de novo, o estatuto de cidade vencedora e de apoiar estas celebrações de importância ou de interesse cultural.

Mas há outro motivo para que, este ano, a celebração deste dia seja particular. Desde há dois anos que estamos a invocar o nascimento de Camões, ocorrido há 500 anos, presume-se que entre 1524 e 1525. Calcula-se que assim tenha sido, mas vale a pena refletir sobre o facto, pois, tal como não sabemos como decorreu a sua infância, nem a sua formação, também desconhecemos o local e o dia em que o poeta nasceu.

Para sermos justos sobre a sua vida inicial, apenas podemos dizer o que um certo maestro célebre disse de Beethoven: Um dia Camões nasceu e nunca mais morreu. Nunca mais morreu.

Provam-no a forma como, passados cinco séculos, tem sido revisitado ao longo destes dois últimos anos. As escolas, a academia, o mundo da edição, os vários campos das artes e das ciências humanísticas em Portugal têm dado rosto a toda uma espécie de comemoração espontânea e informal em torno do nosso poeta maior.

Novos autores têm surgido, atualizando a exegese sobre os seus poemas e o conhecimento acumulado em torno da vida de Camões.

O jovem ensaísta Carlos Maria Bobone pôs recentemente em relevo o papel decisivo que Camões desempenhou ao fixar uma língua nova à altura de um pensamento novo que resultaria definitivamente na Língua Portuguesa moderna que hoje usamos.

Demonstrou como a língua portuguesa, manobrada no seu esplendor, resultou como uma dádiva que devemos ao grande cantor do Oceano, como lhe chamou Baltasar Estaço.

Por sua vez, a biógrafa Isabel Rio Novo, numa visita recente, profusamente documentada que faz à vida de Camões, no final, não deixa de se comover com os testemunhos sobre os últimos dias do poeta, demonstrando que as histórias que correm sobre certos passos da sua vida, afinal, não são lendas, são verdades.

O receio de sermos românticos não nos deveria afastar da realidade testemunhada. E assim, a mim, não me pareceria errado que os adolescentes portugueses conhecessem o comentário que Frei José Índio redigiu na margem de um exemplar d’Os Lusíadas, presumivelmente oferecido pelo próprio autor na hora de partir. Escreveu o frade: Yo lo vi morir en un hospital en Lisboa sem tener uma sábana com que cobrisse, despues de haver navegado 5.500 léguas per mar.

Assim foi, sem um lençol. Terá sido um amigo quem lhe enviaria a sábana, já depois de morto.

Não me parece que daí se devam retirar conceitos patrióticos ou antipatrióticos. Conceitos sobre a vida humana e seu mistério, isso, talvez.

Entretanto, por contraste, sobre a obra que deixou, milhares de páginas de novo têm sido escritas, confirmando a dimensão invulgar do poeta que foi.

Hélder Macedo, um dos seus leitores mais subtis, disse recentemente numa entrevista que, se Camões tivesse continuado a viver, ninguém mais em Portugal teria sido capaz de escrever um verso. Essa hipérbole é linda.

Assim como é reconfortante saber que os professores deste país continuam a ler às crianças epigramas, redondilhas e vilancetes de Camões, como se fossem filos modernos, feitos de palavras, o que mostra que os portugueses continuam vivamente enamorados do seu poeta maior.

Mas se o patrono destas celebrações é o poeta do virtuosismo verbal e do amor conceptual, o amor maneirista, o poeta do questionamento filosófico e teológico, como é em “Sôbolos rios que vão”, e o poeta dos longos versos enfáticos sobre o heroísmo dos viajantes do mar, ao regressarmos a todos esses versos, escritos há quase 500 anos, encontramos coincidências que nos ajudam a compreender que os tempos duros que atravessamos têm conformidade com os tempos em que o próprio viveu.

Camões, tal como nós, conheceu uma época de transição, assistiu ao fim de um ciclo e, sobre a consciência dessa mudança, no conjunto das 1.102 oitavas que compõem Os Lusíadas, 22 delas contêm avisos explícitos sobre a crise que se vivia então.

Aliás, hoje é ponto assente que o poema épico encerra um paradoxo enquanto género, o paradoxo de constituir um elogio sem limites à coragem de um povo que havia resultado da criação do Império e, em sentido oposto, conter a condenação das práticas que, passados 50 anos, impediam a manutenção desse mesmo Império.

E nesse campo pode-se dizer que Os Lusíadas, poema que no fundo justifica que o dia de Portugal seja o dia de Camões, expressa corajosas verdades dirigidas ao rosto dos poderes que elogia.

É bom lembrar que, entre os séculos XVI e XVII, três dos maiores escritores europeus de sempre coincidiram no tempo apenas durante 16 anos e, no entanto, os três desenvolveram obras notáveis de resposta ao momento de viragem de que eram testemunhas.

Foram eles Shakespeare, Cervantes e Camões. De modo diferente, mas em convergência, procederam à anatomia dos dilemas humanos e, entre eles, os mecanismos universais do poder, corpus que continua válido e intacto até aos nossos dias: sobre o poder grandioso, o poder cruel, o poder tirânico, o poder temeroso e o poder laxista.

No caso de Camões, de que se queixa ele quando interrompe o poema das maravilhas da história para lembrar a mesquinha realidade que envenenava o presente de então? Queixava-se da degradação moral, mencionava “o vil interesse e sede imiga/Do dinheiro, que a tudo nos obriga”, e evocava, entre os vários aspetos da degradação, o facto de sucederem aos homens da coragem que tinham enfrentado um mar desconhecido, homens novos, venais, que só pensavam em fazer cultura. Mais do que isso, queixava-se da subversão do pensamento, queixava-se da falta de seriedade intelectual, que resultava depois, na prática, na degradação dos atos do dia a dia.

Escreve o poeta no final do canto oitavo: “Este deprava às vezes as ciências,/ Os juízos cegando e as consciências./ Este interpreta mais que sutilmente/ Os textos; este faz e desfaz leis;/ Este causa os perjúrios entre a gente/E mil vezes tiranos torna os Reis”.

Na verdade, Camões, Cervantes e Shakespeare, de modos diferentes, expuseram os meandros da dominação, envolvidos com o tempo histórico dos impérios que viveram.

Por essa altura, sobre os reis de Portugal, Espanha e Inglaterra, dizia-se que lutavam entre si pelo domínio do globo terrestre. Ou mais concretamente, dizia-se então que os três competiam para ver quem acabaria por pendurar a terra ao pescoço como se fosse um berloque.

Os três autores perceberam bem que, em dado momento, é possível que figuras enlouquecidas, emergidas do campo da psicopatologia, assaltem o poder e subvertam todas as regras da boa convivência.

Escreveu Shakespeare no ato IV do Rei Lear: “É uma infelicidade da época que os loucos guiem os cegos”.

Enquanto isso, Cervantes criava a figura genial do alucinado Dom Quixote de La Mancha, que até hoje perdura entre nós como o nosso irmão ensandecido.

Por seu lado, Camões, no corpo d’Os Lusíadas, não falou da loucura, mas a vida haveria de lhe demonstrar que as páginas escritas por si mesmo haviam sido proféticas, em resultado dela, da loucura. O desastre de Alcácer-Quibir, ocorrido em 1578, estava assinalado numa das últimas estrofes do Canto X. Era a história, como sempre, a confirmar o pressentimento experimentado pela literatura.

No entanto, o fim do ciclo, que neste caso aqui interessa, não é mais uma transição localizada que diga apenas respeito a três reinos da Europa.

Nos dias que correm, trata-se do surgimento de um novo tempo que está a acontecer à escala global. Porque nós, agora, somos outros.

Deslocamo-nos à velocidade dos meteoros e estamos cercados de fios invisíveis que nos ligam para o espaço.

Mas alguma coisa desse outro fim de século, que se seguiu ao tempo da Renascença malograda, relaciona-se com os dias que estamos a viver. O poder demente, aliado ao triunfalismo tecnológico, faz que a cada dia, a cada manhã, ao irmos ao encontro das notícias da noite, sintamos como a terra redonda é disputada por vários pescoços em competição, como se mais uma vez se tratasse de um berloque.

E os cidadãos são apenas público, que assiste a espetáculos em ecrãs de bolso. Por alguma razão, os cidadãos hoje regrediram à subtil designação de seguidores. E os seus ídolos são fantasmas.

É contra isso e por isso que vale a pena que Portugal e as Comunidades Portuguesas usem o nome de um poeta por patrono. Por isso mesmo, também vale a pena regressar a Lagos.

Sobre estes areais, aconteceram momentos decisivos para o mundo.

No início da Idade Moderna, Lagos e Sagres representaram tanto para Portugal e para a Europa que à sua volta se constituíram mitos que perduram. O Promontório e a silhueta do Infante austero que sonhou com o achamento de ilhas e outros descobrimentos, como parte de uma guerra santa antiga, e tudo realizou a poder de persistência férrea e sagacidade empresarial, transformou-se numa figura de referência como criador de futuros. À sua figura anda associado um sonho que se realizou e depois se entornou pela terra inteira e a lenda coloca-o a meditar em Sagres.

Numa referência um tanto imprecisa, mas que permite a sua evocação, Sophia escreveu: “Ali vimos a veemência do visível/ o aparecer total exposto inteiro/ e aquilo que nem sequer ousáramos sonhar/ era o verdadeiro”.

Esta ideia de que, na mente do Infante, se processou uma epifania, anda-lhe associada enquanto mentor de uma equipa mais ou menos informal que teve a capacidade de motivar e dirigir. Sagres passou, assim, para a história e para a mitologia como lugar simbólico de uma estratégia que mudaria o mundo.

Mas existe uma outra perspetiva, como é sabido, e hoje em dia o discurso público que prevalece é, sem dúvida, sobre o pecado dos Descobrimentos e não sobre a dimensão da sua grandeza transformadora.

É verdade que a deslocação coletiva que permitiu estabelecer a ligação por mar entre os vários continentes e o encontro entre povos obedeceu a uma estratégia de submissão e rapto, cujo inventário é um dos temas dolorosos de discussão na atualidade.

É preciso sempre sublinhar, para não se deturpar a realidade, que a escravatura é um processo de dominação cruel, tão antigo quanto a humanidade.

O que sempre se verificou foi diversidade de procedimentos e diferentes graus de intensidade.

E é indesmentível que os portugueses estiveram envolvidos num novo processo de escravização longo e doloroso.

Lagos, precisamente, oferece às populações atuais, a par do lado mágico dos Descobrimentos, também a imagem do seu lado trágico.

Falo com o sentido justo da reposição da verdade e do remorso pelo facto de que se ter inaugurado o tráfico negreiro intercontinental em larga escala, como polos de abastecimento nas costas de África, e assim se ter oferecido um novo modelo de exploração de seres humanos que iria ser replicado e generalizado por outros países europeus até ao final do século XIX.

Lagos expõe a memória desse remorso. Mostra como, num dia de agosto de calor tórrido de 1444, desembarcaram aqui 235 indivíduos raptados nas costas da Mauritânia e como foram repartidos e por quem.

Alguém que, muito prezamos, encontrava-se em cima de um cavalo e aceitou o seu quinhão de 46 cabeças. Esse cavaleiro era nem mais nem menos do que o próprio Infante D.Henrique.

Lagos não se furta a expor essa verdade histórica.

Lagos também mostra o local onde depois levas sucessivas iriam ser mercadejados os escravos. E mais recentemente relata-se como eram atirados ao lixo quando morriam sem um pano a envolver os corpos. Até agora foram retirados desse monturo de Lagos os restos mortais de 158 indivíduos de etnia Banta.

Lagos mostra esse passado ao mundo para que nunca mais se repita. Talvez por isso estejamos aqui,no dia de hoje.

Aliás, a UNESCO criou a Rota do Escravo e inscreveu Lagos na Rota da Escravatura, para que saibamos como os seres humanos procedem uns com os outros, mesmo quando se fundamentam em religiões fundadas sob os princípios do amor e sob a lei dos direitos humanos.

Lagos mostra esse filme e faz-se parente de quem escreveu na porta de um lugar de extermínio moderno o pedido solene: Homens não se matem uns aos outros.

É verdade que só conhecemos o que sucedeu naquele dia 8 de agosto de 1444 porque o cronista do infante Dom Henrique o narrou. Eanes Gomes de Zurara não conseguiu evitar um sentimento de compaixão e comentou, de forma comovida, como a chegada e a partilha dos escravos era cruel. Felizmente que dispomos dessa página da “Crónica dos Feitos de Guiné” para termos a certeza de que havia quem não achasse justo semelhante degradação e o dissesse.

Aliás, sabemos que sempre houve quem repudiasse por completo a prática e o teorizasse.

O que significa que Lagos, a cidade dos sonhos do Infante de que Sagres é a metáfora, passados todos estes séculos, promove a consciência sobre o que somos capazes de fazer uns aos outros. Esta tornou-se, pois, uma cidade contra a indiferença.

É uma luta nossa, contemporânea.

Em Lagos, hoje em dia, está presente de outro modo a mensagem do cartoon de Simon Kneebone, datado de 2014, que tem corrido mundo.

A cena é nossa contemporânea. Passa-se no mar. Num navio enorme, aparelhado com armas defensivas, no alto da torre, está um tripulante que avista ao longe uma barca frágil, rasa, carregada de migrantes.

O tripulante da grande embarcação pergunta: de onde vêm vocês? Da lancha, apinhada, alguém responde: vimos da terra.

Sugiro que os jovens portugueses, descendentes de cavadores braçais, marujos, marinheiros, netos de emigrantes que partiram descalços à procura de trabalho, imprimam este cartoon nas camisas quando vão ao mar.

Consta que em pleno século XVII, 10% da população portuguesa teria origem africana.

Essa população não nos tinha invadido. Os portugueses os tinham trazido arrastados até aqui. E nos miscigenámos.

O que significa que por aqui ninguém tem sangue puro. A falácia da ascendência única não tem correspondência com a realidade. Cada um de nós é uma soma.

Tem sangue do nativo e do migrante, do europeu e do africano, do branco e do negro e de todas as outras cores humanas. Somos descendentes do escravo e do senhor que o escravizou. Filhos do pirata e do que foi roubado. Mistura daquele que punia até à morte e do misericordioso que lhe limpava as feridas.

A consciência dessa aventura antropológica talvez mitigue a fúria revisionista que nos assalta pelos extremos nos dias de hoje, um pouco por toda a parte.

Agora que percebemos que estamos no fim de um ciclo e que um outro se está a desenhar, e a incógnita existencial sobre o futuro próximo, ainda desconhecido, nos interpela a cada manhã que acordamos sem sabermos como irá ser o dia seguinte.

A pergunta é esta: quando ficarem em causa os fundamentos institucionais, científicos, éticos, políticos e os pilares de relação de inteligência homem-máquina, entrarem num novo paradigma, que lugar ocuparemos nós como seres humanos? O que passará a ser um humano?

Comecei por dizer que Camões nasceu e nunca mais morreu.

Regresso à sua obra para procurar entender que conceito tinha a poeta sobre o que era um ser humano. Sobre si mesmo, toda a sua obra o revela como vítima da perseguição de todas as potestades conjugadas. A sua obra lírica é uma resposta a esse abandono essencial.

Em conformidade com essa mesma ideia, ao terminar o canto I d’Os Lusíadas, Camões define o ser humano como um ente perseguido pelos elementos: “Onde pode acolher-se um fraco humano,/ Onde terá segura a curta vida/ Que não se arme, e se indigne o Céu sereno/ Contra um bicho da terra tão pequeno”.

Nestes versos, se reconhece o conceito renascentista, o da grande solidão do ser humano e a sua luta estóica contra, centrada na confiança em si mesmo.

Mas, na prática, essa atitude representava uma orfandade orgulhosa que facilmente a fortuna não reconhecia. Curiosamente, no final da vida, o corpo nu de Camões só teve um lençol, o oferecido, a separá-lo da terra. Igual à sorte do seu corpo, essa sorte não difere daquela que mereceram os corpos dos escravos aqui em Lagos.

Mas entretanto, no século XIX, o direito à proteção beneficiada pelo Estado começou a emergir. Criaram-se documentos essenciais tendo em vista o respeito pelos cidadãos. Depois das duas guerras mundiais do século XX, foi redigida e aprovada a Carta dos Direitos Humanos e, durante algumas décadas, foi tentado implantá-los como código de referência um pouco por todo o mundo. Só que ultimamente regride-se a cada dia que passa.

O conceito de representatividade respeitável da figura do Chefe de Estado, oriundo do povo grego, princípio que sustentou a trama purificadora das tragédias clássicas, a que se juntou depois o princípio da exemplaridade colhida dos Evangelhos, essa conduta que fazia com que o rei devesse ser o mais digno entre os dignos, está a ser subvertida.

A cultura digital subverteu a regra da exemplaridade. O escolhido passou a ser o menos exemplar, o menos preparado, o menos moderado, o que mais ofende.

Um Chefe de Estado de uma grande potência, durante um comício, pôde dizer: adoro-vos, adoro os pouco instruídos. E os pouco instruídos aplaudiram.

Pergunto, pois, qual é o conceito hoje em dia de ser humano? Como proteger esse valor que até há pouco funcionava e não funciona mais?

Hoje, dia de Portugal, de Camões e das comunidades, não será legítimo perguntar, sem querer ofender quem quer que seja, perguntar como manteremos a noção de ser humano respeitável, livre, digno, merecedor de ter acesso à verdade dos factos e à expressão da sua liberdade de consciência?

Nós, portugueses, não somos ricos. Somos pobres e injustos. Mas, ainda assim, derrubámos uma longuíssima ditadura e terminámos com a opressão que mantínhamos sobre diversos povos e com eles estabelecemos novas alianças e criámos uma comunidade de países de língua portuguesa. E fomos capazes de instaurar uma democracia e aderir a uma união de países livres e prósperos que desejam a paz.

Assim sendo, por certo que ainda não temos as respostas, mas, perante as incógnitas que nos assaltam, sabemos que temos a força.

Leio Camões, aquele que nunca mais morreu, e comovo-me com o seu destino, porque se alguma coisa tenho em comum com ele, que foi génio, e eu não sou, é a certeza de que partilho da sua ideia, de que um ser humano é um ser de resistência e de combate. É só preciso determinar a causa certa.

Muito obrigada.”

https://visao.pt/atualidade/politica/2025-06-10-o-discurso-de-lidia-jorge-na-integra-a-mensagem-do-10-de-junho-que-sera-recordada/