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sexta-feira, 29 de maio de 2026

António Rodrigues - A minha vida por um ecrã — apagado

O mundo que se conta a partir do que se diz.

* António Rodrigues

29 de Maio de 2026

 “Algumas das maiores empresas da história da humanidade não lutam para ganhar a sua atenção ou para merecer a sua atenção. Estão a tentar roubá-la”, Jonathan Haidt, psicólogo social norte-americano

A Suécia assumiu a vanguarda no que diz respeito à digitalização da sua educação e quase tão depressa como deu ecrãs às crianças para substituir o papel e a caneta, diminuir a interacção pessoal e fornecer as bases para navegação à bolina dos seus filhos nos mares da tecnologia está a arrepiar caminho e a regressar ao básico da educação: livros, cadernos, esferográficas e professores de carne e osso, com ecrãs desligados e fora da sala de aula.

A Suécia tinha criado a educação do futuro até se ver a braços com um presente envenenado. Depois de quedas abruptas nas provas internacionais de compreensão leitora, o Ministério da Educação voltou aos manuais em papel, proibiu os ecrãs para menores de seis anos e restringiu o uso de telemóveis durante o período de aulas.

Os suecos não são os únicos a sentir na pele a necessidade de regressar em força ao analógico. Estavam mais avançados que muitos outros, por isso, tiveram os resultados antes, mas noutras latitudes começa-se a chegar às mesmas conclusões.

Randi Weingarten, presidente de uma das mais importantes associações de professores dos Estados Unidos, a Federação Americana de Professores (AFT, na sigla em inglês), dizia nesta semana, num discurso intitulado Devices down, eyes up, hands-on: 10 points to boost student learning and success in the AI era, que “as crianças são resistentes, mas muitas vezes, não estão bem”, e uma das principais causas para isso é que “estão afundadas em tecnologia”.

“O ritmo desta revolução tecnológica tem sido vertiginosamente rápido e as crianças estão a ficar queimadas”, disse Weingarten, antes de recomendar dez medidas para defender os estudantes da disrupção causada pela inteligência artificial (IA). “A ubiquidade da IA torna ainda mais importante o pensamento crítico e o conhecimento aplicado. Os estudantes têm de ir além da memorização de factos e aprender a verificá-los, desafiá-los e sintetizá-los em novas ideias.”

Higienização

O tema está aberto a papers de investigadores até 25 de Setembro de 2026 e pretende ajudar à discussão crítica sobre a forma como as imagens de guerra são geradas, propagadas e recebidas nos ambientes de media, e como a sua “circulação, enquadramento e modulação” acabam por influir na perspectiva da opinião pública sobre os conflitos.

Criado pelo Frontiers, um dos maiores sites abertos de estudos científicos de revisão por pares, o tópico abre um leque enorme de possibilidades de abordagem na cobertura de guerras, que podem ir da simples adulteração de imagens até aos critérios editoriais usados na selecção do que transmitir e não transmitir, dos ângulos para olhar e das perspectivas de análise.

 “Os ritmos mediáticos e a densidade narrativa não afectam só a percepção; podem também ter um papel no processo de tomada de decisão política, da construção da legitimidade e a governança da informação em tempos de conflito”, lê-se no site.

 “À força de fazer desfilar as notificações, os alertas e as imagens de guerra nos nossos ecrãs, muitos dão por si a não sentir absolutamente nada”, escreve Nina Parage no site Psychologes. “Catástrofes climáticas, conflitos armados, acontecimentos violentos: a actualidade ansiógena parece produzir um ruído de fundo cruelmente banal.”

 O uso cada vez maior de meios digitais para travar as guerras, e a mediação editorial cada vez mais acentuada para as mostrar, correm o risco de higienizar a morte e a destruição transformando aquilo que deveria ser o último recurso da política, como uma forma banal de impor as perspectivas de uns às perspectivas de outros.

 E, como lembravam ainda recentemente, Lee-Ann d’Alexandry, Fabien Girandola e Lionel Souchet num artigo no site The Conversation: “A psicologia social mostra que aquilo que julgamos ‘aceitável’ não é nem natural nem estável: constrói-se colectivamente, ao longo das interacções, dos discursos e das repetições.”

Atenção

A Meta, a empresa de Mark Zuckerberg que detém o Facebook, o Instagram, o WhatsApp e o Threads, está avaliada em mais de um bilião de dólares (trillion em inglês), mesmo não cobrando aos seus seguidores para interagirem na rede social. Tudo porque “inventou um modelo de negócio que extrai atenção de quase metade de todos os seres humanos e a vende a anunciantes”, diz Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa.

“Outros sectores seguiram o mesmo caminho: videojogos, encontros, apostas — até o investimento foi ludificado e optimizado para nos manter a olhar e a deslizar o ecrã. Todos já tivemos a experiência de pegar no telemóvel, talvez por uma boa razão, e, uma hora depois, darmos por nós a fazer scroll de forma automática. Não é um acidente. É isso que os nossos telemóveis e aplicações foram concebidos para fazer.”

Na sua intervenção, na formatura da Universidade de Nova Iorque no dia 14, publicada na revista The Atlantic, Haidt lembra o famoso discurso do escritor David Foster Wallace na formatura do Kenyon College em 2005: “O verdadeiro significado da educação para pensar, que supostamente devemos receber num lugar como este, não é, realmente, sobre a capacidade de pensar, mas sim sobre a escolha daquilo em que pensar.” Mais de 20 anos depois, há muito sem Foster Wallace entre nós, “muitos homens poderosos e grandes empresas estão a tentar tirar-vos essa opção”, afirmou Haidt.

 Dar valor à nossa atenção é importante porque se para a Meta vale um bilião de dólares, para nós é incalculável. Aceitar a informação de mão beijada, os pensamentos já digeridos, os caminhos que os ecrãs luminosos nos apontam como única via, condenam-nos à dependência, a escolher lados, a atirar argumentos automáticos como bolas de neve (ou granadas de mão), a perder tempo com o acessório quando outros ditam o essencial.

Como disse Foster Wallace naquele dia, no Kenyon College, “as realidades mais óbvias e importantes são, muitas vezes, as que mais custa ver e discutir”.

Empatia

Uma das piores expressões que o capitalismo cunhou é essa ideia de que nada é pessoal, são só negócios. Argumento terrível que desresponsabiliza as empresas do seu papel social, arranca-lhes o humanismo e prescinde da ética no seu comportamento, pois tudo se resume à garantia do lucro para os seus accionistas.

Nestes tempos política e economicamente conturbados, marcados pela instabilidade geopolítica e pela aceleração tecnológica, os líderes empresariais precisam de tomar decisões com janelas cada vez mais curtas e instáveis. “Nestas condições, a carga cognitiva associada à tomada de decisões aumenta e a tolerância à ambiguidade diminui”, escreve Merete Wedell-Wedellsborg, psicóloga clínica especialista em psicologia organizacional. “Do ponto de vista da liderança, aquilo que, em contextos estáveis, podia ser visto como ponderado e inclusivo pode começar a parecer lento, indeciso ou avesso ao conflito.”

A empatia já não abunda em muitos ambientes empresariais extremamente competitivos, em que se tomam decisões com a faca nos dentes e a disposição de matar ou morrer. Nestes tempos difíceis e de alto grau de imprevisibilidade, com muitas relações profissionais estabelecidas e mantidas através de meios tecnológicos, os terrenos para a empatia medrar tornam-se ainda mais estéreis.

No entanto, como refere Wedellsborg no site do International Institute for Management Development, “correr para declarar o fim da empatia arrisca criar uma falsa dicotomia”, porque o que está em causa não é se “a empatia interessa, mas como é integrada”. Abandonar a empatia na gestão poderá “erodir a confiança, reduzir o esforço discricionário e estreitar a perspectiva — tudo factores que podem tornar-se estrategicamente perigosos”.

Para a autora de Battle Mind: How to Navigate in Chaos and Perform Under Pressure, a inteligência emocional ainda é necessária. Neste mundo de força bruta e fria tecnologia, é o garante da manutenção do lado humano do gestor. Até porque, se se limitar a ser apenas máquina, máquinas haverá para o substituir.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2025

hélder moura - (562) Quando as mentiras passam a ser verdades

  •  hélder moura
  •  17.12.25


A repetição, muitas vezes sobrevalorizada por se acreditar na capacidade inferior das massas para a perceber e recordar, é, contudo, importante porque as convence da consistência ao longo do tempo, H. Arendt.

 

O termo “lavagem de cérebro”, apesar de carecer de qualquer fundamentação científica validada, entrou para o imaginário da nossa sociedade como um conjunto de técnicas científicas.

 

O nosso problema é que as pessoas são obedientes quando as prisões estão cheias de pequenos ladrões enquanto os grandes ladrões comandam o país, H. Zinn.

 

 

 

Não é por acaso que nos EUA (não só) a chamada e assumida Direita Cristã tem vindo a impor que o criacionismo, ou o “desígnio inteligente” faça parte dos programas escolares, a ser ensinado em pé de igualdade científica com o evolucionismo. Ela sabe que o descrédito das disciplinas racionais, pilares do Iluminismo, é fundamental para destruir a indagação intelectual honesta e desapaixonada. A partir daí, os factos passam a poder ser intermutáveis com as opiniões.

O conhecimento da realidade não necessita já de ter por base a colheita elaborada de factos e evidências. Só por si, a ideologia é a verdade. Os factos que se interponham no caminho da ideologia podem ser mudados. As mentiras passam a ser verdades.

 

Mais abrangente, Hannah Arendt, explica-nos nas Origens do Totalitarismo, o comportamento de aceitação das massas:

 

Aquilo que convence as massas não são os factos, nem mesmo os inventados, mas apenas a consistência do sistema de que eles presumidamente fazem parte. A repetição, muitas vezes sobrevalorizada por se acreditar na capacidade inferior das massas para a perceber e recordar, é, contudo, importante porque as convence da consistência ao longo do tempo.”

 

 

É a 24 de setembro de 1950 que o Miami News publica um artigo do jornalista americano Edward Hunter em que pela primeira vez aparece o termo “lavagem de cérebro” (brain washing), que apesar de carecer de qualquer fundamentação científica validada, vai entrar para o imaginário da nossa sociedade como o conjunto de técnicas psicológicas que manipulam ações ou pensamentos contra a vontade, o desejo ou o conhecimento de uma pessoa, reduzindo-lhe a capacidade de pensar criticamente ou de forma independente, permitindo a introdução de novos pensamentos e ideias indesejáveis ​​na sua mente.

Segundo Hunter, combinando a teoria Pavloviana com a tecnologia moderna, os psicólogos chineses e russos conseguiram desenvolver técnicas poderosas de manipulação do cérebro das pessoas. Hunter cunhou o termo após entrevistar ex-prisioneiros chineses que foram submetidos a um processo de "reeducação”, bem como às técnicas de interrogatório que o KGB utilizava durante as purgas para extrair confissões de prisioneiros inocentes e, a partir daí, conseguiram variações - controlo da mente, alteração da mente, modificação do comportamento e outras.

Um ano depois, Hunter publica a sua obra base, Brain-Washing in Red China: The calculated Destruction of Men’s Minds, (Internet Archive, pdf), como alerta para o que entendia ser um vasto sistema maoísta de "reeducação" ideológica. A nova terminologia encontrou o seu caminho de aceitação maioritária na nossa sociedade como provam o mais vendido romance O Candidato da Manchúria e os filmes com o mesmo nome de 1962 (de John Franenheimer, com Frank Sinatra) e de 2004 (de Jonathan Demme, com Denzel Washington e Meryl Streep).

Talvez seja importante notar que Hunter fez parte de várias organizações de propaganda da CIA, e durante uma sua deposição perante o Comité de Atividades Antiamericanas da Câmara dos Representantes dos EUA, afirmou que os EUA e a NATO perderam a Guerra Fria devido à vantagem dos comunistas na propaganda e na manipulação psicológica, e que o Ocidente perdera a Guerra da Coreia por não estar disposto a usar a sua vantagem em bombas atómicas. Não via qualquer diferença entre os vários países comunistas e advertiu que tanto a Jugoslávia como a China estavam tão empenhadas na dominação mundial comunista quanto a União Soviética.

 

Estava criado o ambiente social e político para que a partir do início da década de 1950, a Agência Central de Inteligência (CIA) e o Departamento de Defesa dos EUA realizassem pesquisas secretas, incluindo o Projeto MKUltra, para o desenvolvimento de procedimentos e identificação de drogas que pudessem ser usadas para alterarem o comportamento humano. Estas experiências incluíram "desde a terapia de eletrochoques, hipnose, privação sensorial, isolamento, abuso verbal e sexual  a altas doses de LSD e outras formas de tortura, tendo como base experiências em humanos anteriormente efetuadas pelos nazis.

À frente do projeto (que incluía mais de 30 instituições e universidades envolvidas no programa de experimentação de drogas em cidadãos "de todos os níveis sociais, altos e baixos, nativos americanos e estrangeiros" sem o seu conhecimento, e em ainda mais de mil militares voluntários e empregados da CIA, e outros fora dos EUA nos black sites), Sidney Gottlieb e a sua equipa conseguiram "destruir a mente existente" de um ser humano utilizando técnicas de tortura; no entanto, o conseguir a reprogramação, em termos de encontrar "uma forma de inserir uma nova mente neste vazio resultante", não foi alcançada.

Em 1979, John D. Marks escrevia no seu livro "The Search for the Manchurian Candidate" que, até ao encerramento efetivo do programa MKUltra em 1963, os investigadores da agência não tinham encontrado uma forma fiável de fazer uma lavagem cerebral a outra pessoa, uma vez que todas as experiências terminaram sempre em amnésia ou catatonia, tornando impossível qualquer utilização operacional.

 

Mas algo se aproveitou: um relatório bipartidário do Comité de Serviços Armados do Senado, divulgado parcialmente em dezembro de 2008 e na íntegra em abril de 2009, relatou que os instrutores militares dos EUA que estiveram em Guantánamo em dezembro de 2002, basearam um curso de interrogatório num gráfico copiado de um estudo da Força Aérea de 1957 sobre técnicas de lavagem cerebral "comunistas chinesas" utilizadas para obter falsas confissões de prisioneiros de guerra americanos durante a Guerra da Coreia. O relatório mostrou ainda como a autorização do Secretário da Defesa, em 2002, para a utilização destas técnicas agressivas em Guantánamo, levou à sua utilização no Afeganistão e no Iraque, incluindo em Abu Ghraib.

 

 

E tão bem foram estas operações realizadas (servindo apenas para criar a tal “perceção da realidade”), que hoje acabamos a viver num mundo desejado estranhamente obediente. Eis o que Howard Zinn conclui:

 

Sempre que dizemos que o problema é a desobediência civil, estamos a dizer que o nosso problema é a desobediência civil. Esse não é o nosso problema… O nosso problema é a obediência civil. O nosso problema é o número de pessoas em todo o mundo que obedeceram às ordens dos líderes dos seus governos e foram para a guerra, e milhões foram mortos por causa dessa obediência. E o nosso problema é aquela cena em ‘Nada de Novo na Frente Ocidental’, onde os alunos marcham obedientemente em fila para a guerra. O nosso problema é que as pessoas são obedientes em todo o mundo, apesar da pobreza, da fome, da estupidez, da guerra e da crueldade. O nosso problema é que as pessoas são obedientes quando as prisões estão cheias de pequenos ladrões enquanto os grandes ladrões comandam o país. Esse é o nosso problema.”

https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/562-quando-as-mentiras-passam-a-ser-224760


domingo, 22 de setembro de 2024

José Gameiro - Os pais não são amigos dos filhos

* José Gameiro

Psiquiatra e piloto

Seria impensável há poucas gerações que os filhos comentassem opções amorosas ou de outro tipo, dos pais
 
19 setembro 2024 

Otítulo pode parecer chocante, para os que pensam que o papel e a responsabilidade dos pais é serem solidários, compreensivos, educadores, cuidadores dos seus filhos. Sem dúvida que quase todos somos, fazemos tudo por eles, sofremos quando eles sofrem, apoiamos quando mais ninguém é capaz de o fazer.

Mas a relação dos pais com os filhos tem evoluído. Na infância nada de muito substancial terá mudado, a mais significativa alteração é a muito maior responsabilização dos homens. Os estereótipos clássicos, figura afetuosa e figura de autoridade, tendem a esbater-se, de uma forma em que os dois papéis se confundem e são solidários entre si.

O papel da família enquanto fonte de modelos relacionais, de transmissão de valores, até de endogamia social, tem vindo a sofrer uma notável mudança, em que outros atores podem ser de grande importância. Quantas vezes queremos falar com os filhos sobre questões mais sensíveis, como a questão sexual, e ouvimos, já sei tudo. Relações sexuais, cuidados a ter, preservativos, pílula do dia seguinte e outras tretas, como eles, por vezes, nos dizem.

Posso estar a ser injusto ou exagerado, mas instalou-se, nalgumas famílias, um novo paradigma. Os pais e os filhos são amigos. Esta relação pressupõe que são iguais, falam de igual para igual, tentando que desapareça, não a autoridade, que naturalmente na vida adulta dos filhos já quase não existe, mas que seja uma relação em que nos aceitamos uns aos outros, tal como os amigos fazem, sem críticas, sem remoques, com total abertura de todas as confidências.

Seria impensável há poucas gerações que os filhos comentassem opções amorosas ou de outro tipo, dos pais. Atualmente, qualquer comentário sobre um genro ou uma nora, feito discretamente, a casa vem abaixo. A própria relação dos avós com os netos é frequentemente condicionada e vigiada. No entanto, os filhos permitem-se opinar sobre estilos de vida e outras formas de estar dos pais, como se estivessem numa roda de amigos e dissessem, mas tu és parvo ou quê?

Há pais que vão atrás disto. Engolem sapos, em nome da paz familiar, encostando-se cada vez mais às tábuas, desculpem-me a imagem tauromáquica. Os que o fazem, ou decidem que passaram a ser amigos dos filhos, ou foram obrigados a prescindir de um valor secular, a responsabilidade, até à morte, de mostrarem os valores que têm, mesmo que aceitem que tudo mudou e nada era como dantes. É esta confusão entre culturas geracionais e desrespeito por uma autoridade, sempre discutível, mas necessária, que tem feito com que, por vezes, vemos famílias em que não conseguimos reconhecer os laços de sangue. Exagerado, com certeza.  

Quando num casal acontece um divórcio e a constituição de uma nova relação, o receio de alguns dos futuros “nubentes” acerca da reação dos filhos pode ser assustadora, como se os filhos tivessem qualquer direito de opinar sobre as escolhas amorosas dos pais. Se numa roda de amigos, podemos dizer, eh pá, vais viver com essa gaja ou com esse gajo, que disparate, fazer o mesmo em relação aos pais é considerar que o à vontade, à vontadinha, como agora se diz, é completo.

Podem pensar e bem, que isto é conversa de velho. Mas não é só. Confundir filhos adultos, com direito à sua vida e as suas opções, com amigos, pode ser mais prático e calmo do que manter a hierarquia, mas não se esqueçam que eles são nossos filhos e que, em situações limite, não nos querem como amigos, querem-nos como pais.

https://expresso.pt/opiniao/2024-09-19-os-pais-nao-sao-amigos-dos-filhos-2b013641

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Entrevista a João Paulo Guerra



Cultura

24 de julho 2016 - 16:15

O segundo romance do jornalista e escritor João Paulo Guerra conta uma história ficcional baseada numa doença real, a Perturbação Pós-Stresse Traumático. É uma doença crónica e contagiosa, que só foi reconhecida em Portugal em 1995, vinte anos depois do fim da guerra colonial. Entrevista de Joana Louçã.

porJoana Louçã

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"Era uma vez uma mulher que viu um filho partir para a guerra. E quando o filho regressou, a mãe não era a mesma mulher e o próprio filho era outro, embora não o soubesse." Assim começa o segundo livro de João Paulo Guerra, que serviu de mote a esta entrevista, que pode ser vista, parcialmente, em vídeo aqui e lida na íntegra em baixo.

Quando a Perturbação Pós-Stresse Traumático foi diagnosticada, chamaram-lhe “corações irritáveis”, nome que deu origem ao título do seu romance. De onde surgiu a ideia deste livro?

A ideia de escrever este livro surgiu a partir de trabalho que fiz como jornalista. Fiz, nos anos 90, uma série de entrevistas em que consegui entrevistar stressados de guerra que tinham muita relutância em falar, eu também não queria violentar a sua privacidade, queria respeitar a sua privacidade. Mas através de contactos com os médicos que os tratavam, escolhemos alguns stressados que podiam falar e aos quais até faria bem da sua doença.

Tive longas conversas com eles, para perceber bem os mecanismos, como é que funcionava, como é que tinham adquirido aqueles sintomas, porque de alguma forma tinha assistido a manifestações primárias daquela doença no tempo em que fiz o serviço militar, em Moçambique. Assisti a cenas que me mostraram que as pessoas se transformam, se transtornam, fica perturbadíssimas. Cenas de pancadaria por coisa nenhuma. Num café em Vila Cabral [atualmente chamada Lichinga] assisti a uma cena de extrema violência com soldados a agredirem-se, a atingirem-se uns aos outros com latas de cerveja que rebentavam e explodiam, uma coisa de uma violência extrema depois saíam todos amigos dali, era só deitar cá para fora qualquer coisa que tinham muito reprimida dentro deles. 

Num café em Vila Cabral assisti a uma cena de extrema violência com soldados a agredirem-se e depois saíam todos amigos dali, era só deitar cá para fora qualquer coisa que tinham muito reprimida dentro deles. 

Tinha esses vislumbres do tempo em que estive em Moçambique, no tempo da guerra colonial, e interessei-me mais ainda por aqueles casos e fiz uma série de entrevistas e de reportagens, algumas das quais dolorosas para os entrevistados e para mim, e provavelmente mais perturbadoras mais para mim do que para eles. Na altura, trabalhava na TSF e fiz uma grande emissão num dia 25 de abril, a TSF tinha adotado o lema para aquele dia de comemorações do 25 de abril o facto de fazer 20 anos de ter acabado aquela guerra e eu perturbava aquela paz, dizendo que a guerra ainda não acabou.

Começava a minha parte naquele programa com uma conversa, e uma montagem, com stressados de guerra, clínicos, terapeutas, pessoas que conviviam com eles, os seus pesadelos. Foi aí que me interessou. E com esta bagagem que tinha, os conhecimentos que tinha, até de pessoas, de escritos, assisti a muitas palestras dos psiquiatras que se dedicaram à doença e de associações que se formaram, como a Apoiar, uma associação de apoio aos stressados de guerra. Assisti a muitas conferências e debates promovidos por eles e tinha muito conhecimento disto. Achei que o conhecimento que eu tinha merecia que eu dedicasse alguma coisa a esta causa, que é falar deste problema, é uma sobrevivência de uma guerra que todas a gente pensa que acabou, mas para estes homens não acabou, continua e entretanto se transmite às mulheres e aos filhos.

A primeira vez que o stress de guerra foi identificado foi no século XIX. Em que circunstâncias se deu o primeiro diagnóstico médico da doença em Portugal?

Em Portugal a doença foi identificada muito tardiamente. Durante a guerra evitou-se sempre classificar estes homens, identificar que doença tinham, eram simplesmente internados no hospital militar. Em Luanda, no hospital, os casos mais graves, que se manifestavam de forma mais exuberante, eram “tratados” com choques elétricos. Foi sempre tentado não levantar ondas com esta doença.

A lei que reconhece a doença do stress de guerra só foi publicada em Portugal em 1995 e tem tantos alçapões, que, um homem que sofra do stress de guerra, desde que se queixa até ao momento em que começa a ser tratado, terão passados 15 anos.

Foi através dos próprios doentes que o Estado foi obrigado a reconhecer a doença. Levou muito tempo, a lei que reconhece a doença do stress de guerra, que já era reconhecida pela Organização Mundial de Saúde e que já era reconhecida nos Estados Unidos desde o século XIX, só foi publicada em Portugal em 1995. E foi publicada com tantos alçapões, com tantas dificuldades que, aplicando aquela lei, um homem que sofra do stress de guerra, desde que se queixa até ao momento em que começa a ser tratado, terão passados 15 anos.

É preciso que ele vá buscar uma certidão de onde esteve e que tipo de serviço militar prestou, depois que vá ao médico de família, depois que vá ao médico militar, depois que vá a uma Junta que nunca mais o chama e com isto passam-se 14, 15 anos. Foi a revelação deste prazo enorme e desumano que tive conhecimento numa sessão de divulgação desta doença e sobre a situação destes doentes, foi uma das coisas que me motivou para ajudar, de alguma forma. E a forma que tenho de ajudar os outros é escrevendo.

A experiência de viver uma guerra, no caso do seu livro a guerra colonial, é algo definidor da vida das pessoas que o experienciam. À pergunta se o marido “fez” a guerra (e note-se a utilização do verbo fazer e não “estar”), a mulher do personagem responde “não, a guerra é que o fez a ele”. A guerra passa a ser “a guerra infinita”, “a guerra dele não acabou” como refere no livro.

Uma personagem diz “esta doença é uma bomba ao retardador. Por vezes manifesta-se ou degenera alguns anos após os acontecimentos traumatizantes. Também acontece que os traumas ficam adormecidos e, por esta ou por aquela razão, despertam.” O que pode levar a este despertar e, uma vez despertos os traumas, as pessoas conseguem levar uma vida independente, quotidiana?

Em primeiro lugar, quero falar sobre a questão se ele fez a guerra ou se a guerra é que o fez a ele. Quando comecei a escrever este livro, achei que já se tinham escrito muitos romances sobre a guerra colonial. O Lobo Antunes, o João Aguiar, muita gente escreveu, as pessoas que passaram por lá deixaram os seus testemunhos, etc. E eu pensei que um dos meus objetivos era não escrever sobre os homens que fizeram a guerra, o sofrimento, o que eles passam. Não, pensei, não vou escrever um livro sobre os homens que fizeram a guerra, vou escrever sobre o que a guerra fez aos homens, que é o que é este livro, o que é que a guerra fez a estes homens, a estes, e a outros. 

E eu pensei que um dos meus objetivos era não escrever sobre os homens que fizeram a guerra, o sofrimento, o que eles passam. Não, pensei, vou escrever sobre o que a guerra fez aos homens, que é o que é este livro, o que é que a guerra fez a estes homens. 

Porque uma das características desta doença é que há um número estimado de doentes, que é grande, são dezenas de milhares de doentes portugueses em resultado da sua participação na guerra colonial. Entretanto, muitos já morreram, mas o número ainda é muito alto. Mas a maior parte deles nem tem consciência que tem a doença. São pessoas de quem a família diz, “ah, ele quando voltou da guerra veio diferente, passou a ser outra pessoa, tornou-se mais irascível, tem menos paciência para mim, bebe mais, dorme menos”. As pessoas começam a referir os sintomas como uma coisa que lhe aconteceu e não como uma doença que ele tem e que se pode tratar ou, pelo menos, que se pode acompanhar e que se pode minimizar. É isso que a medicina faz, porque isto é uma doença e nesse caso deve ser a medicina que trata dela, nesse caso, a medicina mental, a saúde mental que deve tratar estes doentes.

Muitas destas pessoas começaram a dar por isso, porque tinham reações despropositadas a alguns acontecimentos, bate uma porta e atiram-se para o chão, vão na rua e ao estrondo de um escape de um automóvel atiram-se para o chão, aterrorizam-se. Começaram a perceber que isto não era um susto que apanharam uma vez ou outra, é uma coisa sistemática, que está com eles, que reside neles, na cabeça deles. Alguns destes homens começaram a procurar auxílio médico.

Em Portugal, os primeiros foram os primeiros a ser encaminhados para o serviço de psicoterapia temperamental do Hospital Júlio de Matos, com o Dr. Afonso de Albuquerque e a Dra. Fanny Lopes e muitos outros, mas foram estes os primeiros. Ele diagnosticou rapidamente o que tinham porque quando o médico tenta fazer o diagnóstico, não vai só perguntar “de que é que se queixa?”, “queixo-me que quando bate uma porta, eu atiro-me para o chão”. E o médico pergunta “ah, sim, e por onde é que você andou ao longo da sua vida?”. E vai encontrar que esteve na guerra, e que esteve debaixo de fogo, por exemplo, e que ouviu explosões de minas, ou de obuses, ou de outra coisa qualquer. E o médico vai identificar a causa e o que são os efeitos que estão a acontecer.

Foi isto que foi acontecendo em Portugal e depois uns combatentes diziam a outros, há muitas associações de combatentes e muita proximidade. Aquilo foi uma experiência tão violenta na vida das pessoas que elas procuram-se muito umas às outras, é umas com as outras que desabafam, então estas que têm marcas na sua vida, como é este caso. E começaram a falar uns aos outros, houve uma altura em que havia já 200 doentes a receber tratamento médico no Hospital Júlio de Matos em Lisboa.

Muitas destas pessoas começaram notar que tinham reações despropositadas a alguns acontecimentos, bate uma porta e atiram-se para o chão, começaram a perceber que isto é uma coisa sistemática, que está com eles, que reside neles, na cabeça deles. Alguns destes homens começaram a procurar auxílio médico.

Um dos grandes problemas que se deparou é que isto não saía de Lisboa, do Hospital Júlio de Matos, até que esta lei de 1995 criou apoios para os doentes, ligados aos Centros de Saúde, mas há um número ínfimo de serviços a funcionar e, se alguém experimentar ir a um Centro de Saúde e queixar-se, o mais certo é que não havia nenhum serviço organizado para o acolher e o tratar. 

“Na guerra que estes homens travam, os inimigos são agora eles próprios”, afirma uma personagem no livro. “Eles sofrem porque são humanos. A sua humanidade não suporta os horrores que viram”, esclarece outra. O que é que alguém com esta doença pode fazer, que tipo de acompanhamento há?

O tratamento, tal como com outras doenças mentais, é um tratamento de grande persistência, entrar no mais íntimo que as pessoas têm, as suas memórias e recordações, más ou boas, o seu temperamento, a sua maneira de reagir às coisas, de estar com os outros, tudo isto, e tentar corrigir o que está mal por motivo da doença que o doente tem. Claro, também é tratado com meios químicos e com sessões de tratamento de psicoterapia de grupo. Há casos em que é útil que eles falem, há outros em que falar os perturba, portanto, o médico diagnostica o que é melhor para ele e segue esse tratamento.

Ela “não soube, mas a partir daquele dia começou a interiorizar, sem o ter vivido, o estrondo das explosões e o silêncio das esperas, o fogo das armas e o terror de matar, tudo isso e mais todos os delírios e alucinações de uma mente perturbada e de um coração irritável, tudo isso ela veio a assumi-lo com efeitos devastadores”. Os investigadores concluíram que o stress de guerra não só é crónico, como contagioso. Como se dá esse contágio?

Ligando estas duas informações, que o tratamento existe na lei, mas que é muito demorado e que entretanto as mulheres e os filhos vão ficando também contagiados, isto torna esta doença quase uma epidemia.

Isso foi uma das coisas que aprendi frequentando sessões de divulgação sobre a doença e os doentes, concretamente esse foi uma sessão da associação Apoiar, em que uma psicóloga deu esses dados, que na altura eram uma novidade, que é que a doença é crónica e é contagiosa. No caso, inicialmente só havia doentes homens, porque esta guerra foi feita por homens. Naquele tempo a incorporação militar era de homens, as mulheres que participavam na guerra eram voluntárias e participavam como enfermeiras, como enfermeiras paraquedistas, etc. Tinham funções subsidiárias, não propriamente em combate. Portanto, os stressados de guerra conhecidos são homens. Stressados dessa guerra, porque agora já há stressados portugueses das guerras do Afeganistão, e do Kosovo, estamos sempre metidos em todas essas coisas.

Ligando estas duas informações, que o tratamento existe na lei, mas que nunca mais acontece, é muito demorado, que é uma questão de sorte ser tratado, dar com o médico certo e com o tratamento certo. Sendo que isto demora este tempo todo e que entretanto as mulheres e os filhos vão ficando também contagiados, isto torna esta doença quase uma epidemia. Porque não são só uma alguns dos antigos combatentes que apresentam sintomas desta doenças, mas são já as famílias que começam a manifestar os sintomas e a receber tratamento e a viverem com isto.

“O país estava em guerra, uma guerra civil não declarada. Uma guerra quase desconhecida e que o país institucional, o país comodamente sentado, acomodado, amodorrado, conhecia mas ignorava.” Em Portugal, há alguma estimativa da dimensão da doença? 

Os números variam muito, porque não há, verdadeiramente, estatísticas, há estimativas. A primeira que houve foi porque havia estatísticas nos EUA sobre a guerra do Vietname e fez-se uma comparação. Quantos homens estiveram mobilizados para a guerra do Vietname, quantos soldados militares estiveram mobilizados para a guerra do Vietname e quantos estiveram mobilizados para a guerra de Portugal em Angola, Guiné e Moçambique. Em função do numero de estressados que existiam nos EUA, estimou-se um numero que poderia haver para os stressados que haveria em Portugal. E estamos só a falar de Portugal, não estamos a falar do outro lado. A Portugal, provavelmente, já não lhe competia ter atenção aos doentes do outro lado, mas deveria ter atenção aos africanos que combateram no exército português e que eventualmente poderão também sofrer da doença. 

Fazendo a comparação com o número de stressados que havia nos EUA por causa da guerra do Vietname, o número em Portugal seria cerca de 140, 150 mil. Nunca se chegou próximo de identificar esse número de casos.

Os números variam muito, são muito incertos. Houve uma altura em que se falava em 140, 150 mil. Em Portugal tinham sido mobilizados para as três guerras coloniais perto de um milhão de jovens portugueses, ou militares de carreira. Fazendo a comparação com o número de stressados que havia nos EUA por causa da guerra do Vietname, o número em Portugal seria esse. Nunca se chegou próximo de identificar esse número de casos.

O número de casos identificado foi sempre variando, começou a haver mais pessoas a irem ao médico e a queixarem-se desta doença. Isto começou a permitir outras extrapolações para outros números em Portugal. Os últimos números que ouvi são bastante diferentes, um anda à volta dos cem mil, outro anda à volta dos cinquenta mil, mas são todos estimativas, não são estatísticas.

A que tratamento tem acesso quem vive fora de Lisboa?

Quem vive fora de Lisboa tem que vir a Lisboa, se pensar em alguém que vive numa pequena terriola no interior que tenha um Centro de Saúde e que vá lá e que se queixe que não dorme, que diga que acorda com pesadelos, “mas não dorme porquê, tem pesadelos porquê?”. “Ah, estive na guerra”… se lá chegar! Porque não há meios, porque os meios não foram criados. A lei que reconhece a doença deveria ter sido acompanhada pela criação de uma estrutura que seguisse a par do SNS e que permitisse que o SNS atendesse estes doentes, com especialistas.

Porque não há meios, porque os meios não foram criados. A lei que reconhece a doença deveria ter sido acompanhada pela criação de uma estrutura que seguisse a par do SNS e que permitisse que o SNS atendesse estes doentes, com especialistas.

 

Numa sessão em que estive recentemente da Apoiar, em que ouvi falar não só ex militares stressados, mas mulheres stressadas e filhos stressados pela guerra que os pais fizeram, nessa sessão, foi dito por algumas pessoas que chegam a ser tratadas com algum desprezo, as pessoas que se vão queixar a um Centro de Saúde, a dizer “então, ainda não me deram resposta”, “lá vem este”… as pessoas ouvem, lá por estarem perturbadas não deixam de ouvir os comentários depreciativos que fazem a seu respeito. Dizerem isto não só não contribui para a melhoria do seu estado de saúde, como com certeza contribui para que piore.

As pessoas contagiadas, mas que não estiveram na guerra também têm acesso ao tratamento?

Sim, se os ex combatentes da sua família tiverem a ser acompanhados. Mas depois há coisas quase perversas. Se uma mulher apresentar sintomas do stress de guerra e o marido estiver a ser acompanhado, ela tem direito ao acompanhamento. Mas se o marido morrer, a mulher perde o direito ao acompanhamento. Porque o direito não é um direito dela, é um direito do marido, extensivo a ela. E, portanto, morrendo o marido, acaba-se o direito a que ela tem por tabela, não por direito próprio.

No livro há a referência a um jornalista, Carlos Gualdino, é uma representação de si próprio? 

Não, pode ter algumas referências, por exemplo, estar com frequência desempregado, fui despedido tantas vezes ao longo da vida profissional como jornalista! Pode ter alguma coisa de muitos jornalistas que conheci, e conheci muitos. Quando comecei a trabalhar no Rádio Club Português, trabalhava com pessoas que eram os seus fundadores, das primeiras pessoas que falaram ao microfone, estavam ali, trabalhavam comigo. Eu tinha 20 anos e eles 50, 60.

Acho que é bom escrever-se com lágrimas nos olhos, com sentimentos, porque as pessoas não são máquinas, e o código deontológico não pode ser um espartilho para as pessoas deixarem de ter sentimentos e passarem a ser autómatos. Eu sofro com o sofrimento dos outros e ponho esse sofrimento naquilo que escrevo.

 

Nela posso estar eu e podem estar muitos outros jornalistas que conheço e que conheci ao longo da minha vida profissional. Sobre a personagem, usei a frase e atribuí-a a Batista Bastos, o autor, dizendo que “escreveu uma reportagem com lágrimas nos olhos”. Porque acho que é bom escrever-se com lágrimas nos olhos, com sentimentos, porque as pessoas não são máquinas, e o código deontológico não pode ser um espartilho para as pessoas deixarem de ter sentimentos e passarem a ser autómatos, amorfos e indiferentes ao sentimentos dos outros. Não, eu sofro com o sofrimento dos outros e ponho esse sofrimento naquilo que escrevo.

Também fez o serviço militar em Moçambique, o que o levou a focar-se nesta temática?

Não foi tanto por mim, por ter estado na guerra, que até tive uma guerra um bocado “exótica”, a saltar de uns lados para os outros, desde o Grupo Recreativo das Forças Armadas, coisas assim. Não foi tanto por isso, mas porque acho que foi o acontecimento mais importante da segunda metade do século XX em Portugal, para Portugal. A guerra e, depois, o fim da guerra. Com a consequência de o fim da guerra ter trazido consigo a democracia. Para acabar com a guerra, foi preciso implantar a democracia em Portugal.

Estes acontecimentos conjugados, a teimosia da guerra, que foi levar um milhão de jovens para uma guerra que os profissionais chegaram à conclusão que não era possível vencer, que militarmente não tinha solução, e com isto morreram milhares de pessoas, foi um acontecimento muito importante na história de Portugal, que depois se resolveu, quando os próprios militares puseram fim à guerra e puseram fim à ditadura. Isso é um acontecimento importantíssimo em Portugal e eu tenho sempre muito gosto em ser testemunha, naquilo que digo, faço e escrevo, foi um acontecimento que tive a felicidade de viver.


Sobre o/a autor(a)

Joana Louçã

Doutorada em sociologia da infância

https://www.esquerda.net/artigo/entrevista-joao-paulo-guerra-sobre-o-livro-coracoes-irritaveis/43780    

sábado, 20 de julho de 2024

Helena Bento - Saúde mental e dependência do telemóvel

Levar o telemóvel para todo o lado, até “para a casa de banho”, pode ser sinal de alerta. A Ordem dos Psicólogos sugere estas estratégias


A Ordem dos Psicólogos lançou um manual que aborda os benefícios e os riscos do uso de ecrãs, bem como os principais sinais que podem indiciar uma utilização excessiva e as estratégias para uma utilização segura. Dirige-se a mães e pais, mas não só: também há informação para adultos e idosos, que enfrentam igualmente riscos


Levar o telemóvel para todo o lado, até “para a casa de banho”, pode ser sinal de alerta. A Ordem dos Psicólogos sugere estas estratégias

Helena Bento

Jornalista

As tecnologias digitais vieram, em vários aspetos, melhorar a nossa vida, mas também trazem riscos e perigos. Como é que pais e mães podem garantir, por exemplo, que os filhos utilizam ecrãs de forma segura e benéfica?

Equilibrar o tempo de uso de ecrãs, utilizando-o como “recompensa” e não como um “dado adquirido ou um direito”, incentivar e realizar atividades que não envolvam tecnologia, fazer as refeições sem smartphones ou consolas por perto e estabelecer um dia para “desligar”, que envolva toda a família, são algumas das recomendações feitas pela Ordem dos Psicólogos num manual sobre este tema publicado recentemente.

O documento, intitulado “Vamos Falar sobre Ecrãs e Tecnologias Digitais”, disponível online, aborda os benefícios e os perigos do uso de ecrãs, bem como os principais sinais que podem indiciar um uso excessivo ou problemático e as estratégias para uma utilização segura. Dirige-se a mães e pais, mas não só: também há informação para adultos e pessoas mais velhas, que enfrentam igualmente riscos no uso de ecrãs.

Em crianças entre os dois e os cinco anos, ver televisão ou outros ecrãs mais de duas horas por dia, “sem critérios e sem acompanhamento”, pode “atrasar o desenvolvimento da linguagem e ter consequências negativas na visão”, bem como “comprometer a motricidade fina”, atrasando ou dificultando que a criança ande, corra ou coordene diferentes partes do corpo.

Já entre os seis e os 11 anos, várias horas de videojogos “podem refletir-se numa menor coordenação e flexibilidade motora”, e contribuir para o excesso de peso. Quando adequados à idade, podem melhorar a capacidade de orientação espacial e de raciocínio lógico; e se envolverem vários jogadores ajudam a desenvolver comportamentos de cooperação e entreajuda.

Até aos 12 meses, não é recomendada qualquer interação com ecrãs, refere o documento, com base nas diretrizes de organizações como a OMS (Organização Mundial da Saúde).

O uso de ecrãs por parte dos adolescentes também pode ter impactos negativos, embora certos videojogos ajudem a promover competências como a resolução de problemas e a criatividade, e as redes sociais possam transformar-se num “lugar de suporte” quando há solidão ou “incompreensão” por parte dos outros. As principais consequências negativas são a diminuição da autoestima e bem-estar, por via da comparação com outros utilizadores das redes sociais, e a diminuição da qualidade das interações quando há um “uso excessivo de ecrãs, várias horas por dia e durante momentos de convívio”.

Ivone Patrão, psicóloga clínica e investigadora na área da dependência de ecrãs, foi uma das convidadas do episódio do podcast "Que Voz é Esta?" dedicado ao uso problemático de internet

QUE VOZ É ESTA?

“Já tive casos bastante graves de dependência de internet, jovens que não se levantavam da cadeira nem para as necessidades mais básicas”

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Dos vários riscos e perigos do uso de ecrãs para as crianças e jovens, o manual destaca, entre outros, o “cyberbullying”, problemas de saúde mental, aliciamento sexual e dependência. “O uso excessivo dos ecrãs pode refletir-se em comportamentos aditivos, tal como acontece com o uso excessivo de álcool, tabaco ou outras drogas. É possível ficar-se adicto a videojogos, a encontros online, a jogos de apostas online ou, simplesmente, às redes sociais”, lê-se no documento.

Há sinais que indiciam este uso problemático, a que os pais e os próprios adolescentes devem estar atentos: ficar “perturbado, irritado, angustiado ou triste" quando a atividade online é interrompida, sentir dificuldades em reduzir o tempo online (mesmo quando é o próprio a tomar essa iniciativa), saltar refeições, ficar várias horas sem ir à casa de banho, e entrar em conflito com a família por questões relacionadas com o tempo de ecrã.

Tanto em crianças como em adolescentes, há estratégias que podem ser colocadas em prática para promover um uso responsável. Definir horários e tempos para o uso de ecrãs, utilizar as tecnologias em conjunto, utilizar o tempo de ecrã “como uma recompensa por conquistas realizadas fora do mundo digital" - em vez de permitir que faça parte das rotinas - e realizar atividades com as crianças e jovens fora do mundo digital são algumas das estratégias sugeridas.

A Ordem dos Psicólogos também sugere que as refeições sejam feitas sem smartphones ou consolas à mesa e que, no dia a dia, estes dispositivos estejam em espaços comuns da casa e não no quarto da criança ou do jovem. Também é recomendado à família que estabeleça um dia comum para “desligar”. “Pode ser estabelecido um dia da semana, por exemplo, se possível, um dia de fim-de-semana, para ninguém utilizar ecrãs e tecnologias digitais, dedicando-se a família a realizar outro tipo de atividades, individualmente e em família.”

Ainda na secção dirigida a pais e mães, são discutidas as vantagens e desvantagens de dar um smartphone às crianças, a importância de monitorizar a atividade online dos filhos e como esta supervisão deve ser feita, sendo certo que “proibir completamente e de forma indiscriminada o uso de ecrãs pode ter o efeito contrário ao pretendido”.

LEVAR O TELEMÓVEL PARA A CASA DE BANHO PODE SER SINAL DE ALERTA

Os riscos e perigos a que os adultos estão expostos são semelhantes aos das crianças e jovens, mas incluem também a invasão de privacidade, fraudes e burlas online. O documento detalha alguns dos esquemas fraudulentos mais comuns.

O uso excessivo de ecrãs pode ser identificado quando um adulto tem dificuldade em ficar longe do smartphone. "Podemos tê-lo verificado há cinco minutos, mas voltamos a fazê-lo. Ficamos mais tempo a utilizá-lo do que queríamos e, muitas vezes, perdemos a noção do tempo e atrasamo-nos ou esquecemo-nos de fazer algo. Levamo-lo para todo o lado, mesmo que seja dentro de casa, até quando vamos à casa de banho.” Quando, em vez de combinar atividades com a família ou amigos, a pessoa prefere ficar em casa a conversar através das redes ou a assistir a eventos pelo ecrã, isso também pode ser um sinal de uso inadequado.

As recomendações incluem filtrar os conteúdos seguidos - dispensando aqueles que “não têm um propósito claro e positivo para o bem-estar”, e evitar comparações com “conteúdos irrealistas”, especialmente sobre beleza, bem-estar e estilos de vida, que “não correspondem à realidade da maioria das pessoas”. Estar três a quatro horas por dia sem usar qualquer ecrã e realizar mais atividades offline, durante as quais “podemos desligar o som do telemóvel, colocar em modo avião ou simplesmente não o levar connosco”, é outras das recomendações.

Se é difícil diminuir o tempo de utilização do smartphone, há várias estratégias que podem ajudar: alterar a paleta de cores do ecrã para tons de cinzento - tornando o ecrã “mais aborrecido e menos apelativo” - desativar as notificações, utilizar uma app para bloquear outras apps, usar as redes sociais apenas no computador ou criar um lembrete acessível que “interrompa o comportamento automático de verificar o smartphone” e lembre que é hora de “voltar para a vida offline”.

IDOSOS TAMBÉM PODEM FICAR DEPENDENTES DE ECRÃS

O documento também aponta os benefícios e impactos negativos dos ecrãs nas pessoas mais velhas. “Os conteúdos que vemos nos ecrãs, incluindo nas redes sociais, podem ter influência nas nossas decisões, por exemplo, se nos cruzamos com muitas notícias trágicas ou falsas é possível ficarmos demasiados preocupados e agirmos sem ponderação.”

Há vários sinais que podem indiciar um uso excessivo: pensamento e fala mais “preguiçosos” - utilizando a pessoa cada vez “menos palavras” - dificuldade em escrever à mão, fazer contas de cabeça ou tratar sozinha de assuntos fora de casa. “O uso excessivo dos ecrãs pode cruzar-se com as dificuldades associadas ao envelhecimento e à demência, acelerando o declínio cognitivo e os processos demenciais”, alerta a Ordem dos Psicólogos.

Os familiares ou cuidadores de pessoas mais velhas também podem contribuir para uma utilização mais benéfica das redes sociais. Por exemplo, ajudando a relativizar o que se vê. “Muitas horas de notícias podem criar uma visão pessimista do mundo, pois os meios de comunicação social focam-se no que é incomum e trágico. É importante equilibrar o tempo de ecrã com outras atividades ocupacionais”.

Nas estruturas residenciais para idosos, devem ser privilegiadas atividades interativas nos ecrãs, em vez de “atividades passivas, como ver televisão”. Se não existirem atividades ocupacionais, os familiares devem apelar à sua criação junto das estruturas.


 SOCIEDADE  (Expresso 14 JULHO 2024) 

https://expresso.pt/sociedade/2024-07-14-levar-o-telemovel-para-todo-o-lado-ate-para-a-casa-de-banho-pode-ser-sinal-de-alerta.-a-ordem-dos-psicologos-sugere-estas-estrategias-dbe36cb3


domingo, 20 de março de 2016

Byung-Chul Han - Psicopolítica


Psicopolítica

 
Byung-Chul Han é natural de Seul, onde nasceu em 1959 e onde estudou Metalurgia.
No fim da década de 80 emigrou para a Alemanha para estudar Filosofia na Universidade de Friburgo e Literatura Alemã e Teologia na Universidade de Munique. Actualmente ensina Filosofia na Universidade das Artes de Berlim.
Psicopolítica está editado em Portugal pela Relógio de Água e faz uma análise crítica sobre as novas técnicas de poder usadas pelo capitalismo, técnicas essas fundadas na influência sobre vida psíquica, eleita doravante como principal força de produção.
A psicopolítica, tal como o autor a entende, serve-se do Big Data, uma espécie de Big Brother Digital, que faz uso dos dados e informações pessoais que os indivíduos partilham de modo voluntário, podendo assim não só prever os seus comportamentos, mas influenciá-los ao nível do subconsciente.
Segundo Byung-Chul Han, a psicopolítica é um mecanismo que visa transformar a liberdade de expressão, que nos dias de hoje tem como suporte as diferentes redes sociais, num verdadeiro panóptico, um sistema de controlo e vigilância no qual os cidadãos participam voluntária e empenhadamente, sem se aperceberem que, afinal, aquilo que se lhes afigurava como um espaço de liberdade é, na realidade, uma super-estrutura de vigilância, repressiva e manipuladora.
O autor evoca, a dado passo, a obra de Naomi KleinA Doutrina do Choque, na qual se conta a história de Ewen Cameron, um psiquiatra nascido na Escócia, adepto do uso da electroconvulsivoterapia como método de correcção das “anomalias” do cérebro. Cameron considerava que os choques eléctricos, hoje em franca recuperação pela psiquiatria, eram o método ideal para construir a tabula rasa neurológica e emocional, a partir da qual uma nova personalidade poderia ser construída. Sem memória nem emoções. Sem princípios, carácter ou ética.
Cameron defendia a chamada “destruição criativa”, um termo que se ouviu muito em Portugal em anos recentes, pela boca dos que preconizaram o processo de “ajustamento” conhecido por Austeridade e que destruiu o país económica, social e animicamente.
O outro protagonista do livro de Naomi Klein, o segundo Doctor Shock, éMilton Friedman, o ayatollah do neoliberalismo. A autora estabelece uma analogia entre ambos, entre Cameron e Friedman, identificando neste último a teoria segundo a qual o estado social de choque após a catástrofe, designado pelos eufemismos de “ajustamento” ou “austeridade”, cria as condições necessárias ao estabelecimento, à “instalação limpa”, de uma sociedade neoliberal, dominada pelos “mercados”. Assim, o regime neoliberal opera socialmente também através de uma electroconvulsivoterapia cujo propósito é esvaziar a alma, terraplanar o universo social dos símbolos, desmatar a consciência crítica colectiva, a subjectividade, até que todas as estruturas sociais se submetam voluntariamente ao novo paradigma e a uma “reprogramação radical” facilitada pelo stres traumático do tratamento de choque.
Percebe-se melhor hoje por que eram completamente desajustadas as críticas que durante anos se fizeram ao governo PSD-CDS, críticas essas que, acompanhadas de abstenções violentas, apontavam o “insucesso” das políticas de austeridade, o “não cumprimento” dos objectivos, o “erro estratégico” dessas políticas. Na verdade, nunca houve insucesso, nem incumprimento, nem erro, pois o objectivo central da governação de Passos Coelho e Paulo Portas era, precisamente, arrasar socialmente o país, queimar a terra simbólica, esmagar a economia e qualquer veleidade de auto-suficiência e soberania, para sobre o deserto erguer o palácio de Friedman e Cameron, a barbárie neoliberal controlada pelos “mercados” omniscientes.
Mas Byung-Chul Han acha que Naomi Klein está errada e que o neoliberalismo não faz uso dos processos ortopédicos e disciplinadores do panóptico. Antes opta pela “positividade”, pela magia hipnótica do “Gosto” e do “Partilhar”, lambendo as botas à Alma em vez de a submeter ao sofrimento do choque eléctrico. O Big Data regista e processa até ao mais ínfimo pormenor as tendências, os anseios, os medos, os desejos, as necessidades, e antecipa o país das maravilhas antes mesmo de o termos imaginado. É a vitória mais saborosa dos negreiros e da escravatura ver a submissão operar-se de forma voluntária e alegre.
Um livro a ler.
https://aventar.eu/2016/03/20/psicopolitica/#more-1249699