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sexta-feira, 3 de março de 2023

Clara Pinto Correia - O verdadeiro milagre

A DERIVA DOS CONTINENTES

por Clara Pinto Correia // março 3, 2023

Desprezava-os a todos sem excepção,

esses velhos jardineiros enregelados dos canteiros do amor.

Charles Dickens

DAVID COPPERFIELD, ou

The Personal History, Adventures, Experience and Observation of

David Copperfield the Younger of Blunderstone Rookery,

1850


Para grande incredulidade dos meus filhos quando eram pequeninos[1], tive o privilégio de crescer num tempo em que só se escrevia à mão, só se faziam contas utilizando a memorização da tabuada, num mundo em que os gadgets ainda não existiam, e lá em casa nem sequer tínhamos uma mera televisão a preto e branco, daquelas só com dois canais e de horário muito limitado, uma vez que os nossos Pais partilhavam firmemente o credo de que a televisão destruía as famílias, impedindo-as de conversar[2]. O que é que esse MAGICAL MYSTERY TOUR[3] me deu? O gosto pela observação, sem dúvida; e, com ele, deu-me desde logo o prazer de inventar histórias. Mas, se soube inventá-las, foi porque vivi uma infância riquíssima passada a devorar livros atrás de livros. Aos oito anos, numas férias grandes em que estava doente e via da janela ao lado da minha cama as pessoas que iam para a praia todas satisfeitas com os seus chapéus de sol e os seus baldes de plástico, eu estava ainda mais satisfeita do que elas: iam-se todos embora, ninguém me chateava, a coberto de todo aquele sossego tinha começado a ler A MARAVILHOSA VIAGEM DE NILS HOLGERSSON ATRAVÉS DA SUÉCIA, da Selma Lagerlof[4], e agora não conseguia parar. Até soneguei algures uma lanterninha para não parar nem à noite. Estava positivamente enfeitiçada. Já tinha lido imensos livros antes, mas isto era diferente. Naquela cama, sem poder ir àquela praia por intervenção directa de Deus, eu acabava de descobrir o verdadeiro milagre da literatura.


Os verdadeiros livros, quando são verdadeiramente bons, têm a generosidade de não esperarem que as crianças cresçam para se deixarem ler, e, assim fazendo, imprimir nelas a qualidade que fica marcada nos seus passos. Aquele meu excitex do Nils Holgersson continuou a caminhar comigo. Aos dez anos, veio parar-me às mãos[5] um romance pouco conhecido de Erico Veríssimo, CAMINHOS CRUZADOS[6]. Não sei quantas vezes o terei lido, mas foram dezenas, de certeza. Fiquei a conhecer de cor todos os personagens, fiz a lápis folhas inteiras de esquemas de como os caminhos de todos eles se cruzavam ao longo do romance.´


CPC E O SEMINÁRIO

“Estás a ouvir, Sebastião?

“Repara bem na pérola do Dickens que pus em epígrafe. David está tão apaixonado por Dora que despreza todos os seus colegas do Tribunal que não amam ninguém. A metáfora é fabulosa, e o humor é irresistível: David está ridiculamente apaixonado, e como os leitores já foram avisados várias vezes de que o caso vai ter um desfecho trágico esse enlevo ainda é mais ridículo. É contra todas as regras do bom inglês usar várias comparações numa única metáfora, e Dickens usa imensas palavras mas nunca abandona os jardineiros e os jardins. Não se é considerado um dos melhores escritores do mundo por acaso.”
Note-se a expressão atenta, concentrada, e positivamente maravilhada do canídeo.

Claro que aprendi várias coisas sobre as vicissitudes do comportamento humano, mas o que aprendi de mais importante, já lá vão 53 anos, foi como se constrói em três parágrafos uma proeza literária autêntica, que neste caso assinala o início da história. Já tive muitas décadas para tentar, mas ainda não consegui chegar nem perto da qualidade com que o autor começa a sua narrativa, descrevendo o nevoeiro que cobre a cidade na primeira luz da manhã.

Vivi em Alfama, onde caminhei muitas manhãs por entre esse nevoeiro. Estudei em Monterey, onde de madrugada esse nevoeiro era quase intransponível. Já por várias vezes, nos meus próprios livros, dei o meu melhor para descrever o mundo enfeitiçado das manhãs de nevoeiro. Mas, embora nunca mais tenha lido o CAMINHOS CRUZADOS, sei que o nevoeiro do Erico Veríssimo sempre foi melhor do que os meus.

Deus andava a mandar-me estas revelações de dois em dois anos, sem dúvida para que eu conseguisse digeri-las convenientemente na minha tenra idade. E foi assim que, aos doze anos, durante as férias de Natal, alguém me ofereceu de presente[7] AS VINHAS DA IRA, de John Steinbeck[8]. Dois anos antes do 25 de Abril, toda aquela saga da tenacidade dos pobres e da indiferença dos ricos, com todos aqueles pequenos pormenores de outras histórias constantemente intercalados, deu comigo em doida.

Pela primeira vez na minha vida, sublinhei várias passagens e dobrei os cantinhos dessas páginas[9]. Andei ali uns tempos a escrever à Steinbeck, sempre a meter aquelas pequenas narrativas de circunstância no meio da história principal. Há poucos inícios tão bons como o de CAMINHOS CRUZADOS. Mas há poucos finais mais belos do que o de TORTILLA FLAT[10], quando Danny já morreu, a sua casa já ardeu, e todos os seis amigos que ali partilharam com ele a estranha vida de aventuras dos anos anteriores contemplam os escombros:

“A gente de Tortilla Flat dissolveu-se na escuridão. Os amigos de Danny continuaram a olhar para a ruína fumegante. Olharam de forma estranha uns para os outros e voltaram a olhar para a casa queimada. Instantes depois, voltaram-se e afastaram-se lentamente, sem que, ao lado de um, caminhasse outro.”

Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora


[1] Note-se a importância deste “eram pequeninos”: estavam naquela idade em que os meninos acreditam em tudo o que lhes dizem as Mães. Mas, mesmo assim, um mundo sem PCs, sem calculadoras, sem smartphones, sem TV-Cabo… “Oh, Mãe! Não digas essas coisas que eu fico cheio de medo!” E foram perguntar ao Pai se era verdade, os pestinhas. Based on a true story.

[2] Sempre reconheci que eles tinham uma certa razão, e agora ainda acho mais, sobretudo quando as famílias se sentam à mesa do restaurante, cada um agarra no seu tm, e nunca mais se ouve um pio. Para que conste, nunca dei tms aos meus filhos, quando os brindei com um PC era para fazer os TPCs durante duas horas e “ir a sítios” durante quinze minutos, a televisão esteve seriamente regulada até o mais velho fazer quinze anos, e nunca lhes comprei nenhuma PlayStation nem nenhum outro monstro desses. Resposta a bombardeamentos de solicitações usando a técnica do golpe baixo que se ouvia mais vezes lá em casa: “MAS-EU-NÃO-SOU-A MÃE-DOS-OUTROS-MENINOS!”

[3] Para benefício dos mais novos, o MAGICAL MYSTERY TOUR é o album psicadélico dos Beatles em que John Lennon canta I AM THE WALRUS (letra escrita totalmente em ácido durante dois fins-de-semana diferentes, o que explica ser tão difícil de perceber) e STRAWBERRY FIELDS FOREVER (escrita só de uma vez e baseada na infância de Lennon, portanto de compreensão um pouco mais fácil).

[4] Claro que a ideia não foi minha, que só tinha oito anos, quand mêmme. Foi a minha professora primária, a Madalena, que eu adorava e achava linda, que nos leu umas passagens nas aulas. Oh. Nunca mais larguei a minha Mãe até ela me comprar o livro.

[5] Não sei como. De certeza que foi Deus.

[6] “Então, Clarinha, o que é que a menina está a ler agora?” – “É um romance do Erico Veríssimo.” – “Ah, muiito bem! Com que então está a ler o CLARISSA?” – “Não. O CLARISSA é para meninas. Este é mesmo um romance de crescidos, e chama-se CAMINHOS CRUZADOS.” – “Ah, muito bem, muito bem.” E lá ia a puta da velha (que, pensando bem nisso, provavelmente era bastante mais nova do que eu)  confabular com a minha Mãe sobre o tal de romance para crescidos.

[7] Ou então, no meio de caos das dezenas de prendas da família, foi Deus que lhe pôs na capa um post-it a dizer CLARINHA e está a andar. Foi assim, aliás, que nasceram os post-its.

[8] Era a tradução portuguesa, claro está. Aos 28 anos, quando estava em Monterey (no meio do nevoeiro) e, ao tentar traduzir o título usei THE RAISINS OF ANGER, toda a gente me percebeu mas fui gozada até mais não. O verdadeiro título original do livro é THE GRAPES OF WRATH. Eu sei que Deus queria facilitar-me a vida com a tradução portuguesa, mas depois também se devem ter divertiso imenso à minha custa, lá nos Céus.

[9] Haviam de ver os meus livros agora. É cantinhos de página dobrados por tudo o lado, e, na ausência de lápis nas proximidades, chego a marcar passagens, e até a gatafunhar notas à margem, a esferográfica vermelha, ou a marcador de ponta de grossa. E o que é que tem? Os livros são meus, ou não são?

[10] Tortilla Flat é um pequeno planalto, cimeiro a Monterey, onde se acolhe a camada populacional incapaz de pagar os custos extravagantes da vida na cidade. Porque é que este título foi traduzido em português como O MILAGRE DE SAN FRANCISCO, sendo que, ainda por cima, o romance não nos fala de milagre absolutamente nenhum – a menos que a amizade entre os homens deva, de facto, considerar-se um milagre? Estamos certos de que as más traduções não provam a existência de Deus. Por outro lado, no entanto, pode ser que provem a existência do Diabo. Já era meio caminho andado para Deus existir mesmo.

https://paginaum.pt/2023/03/03/o-verdadeiro-milagre/

sábado, 17 de dezembro de 2022

Clara Pinto Correia - Este é o corpo de Cristo

A DERIVA DOS CONTINENTES
 
* Clara Pinto Correia // dezembro 16, 2022

Jesus Maria Corcovan era uma vereda que ia dar ao humanitarismo. Tentava aliviar o sofrimento, procurava mitigar a dor, compartilhava a felicidade. Não existia nenhum Jesus Maria endurecido, ou com pensamentos negros. O seu coração estava sempre disponível para quem dele quisesse fazer uso. A sua energia e o seu engenho estavam abertos a todos os que, nestes dons, fossem menos ricos do que ele.” (John Steinbeck - ..Tortilla Flat)

Pois então, ora muito bem.

Sendo a realidade aquele monstro incontornável que mais cedo ou mais tarde nos apanha a todos nas curvas, também eu acabo de passar pela experiência suis generis de já estar extremamente doente em casa, acabar por ser socorrida pelos bombeiros, e depois ficar a receber o tratamento para a minha colite em cima de uma maca, nas Urgências de um grande hospital, durante os oito dias consecutivos que contribuiram para instalar a minha pneumonia. E atenção, nem imaginam a quantidade de velhinhas como eu que para ali estavam. Exactamente como eu, reitere-se: de batinha aberta atrás e  cabelo empastado, de fraldinha e algália, algumas de nós em prantos e outras de nós em brados, todas nós com a nossa dignidade a esquivar-se para cada vez mais longe.

Agora, eu sei que esta descrição confere com todos os horrores que nos contam a propósito do Sistema Nacional de Saúde, mas metesse-me pelos olhos dentro que seria criminoso deixar a descrição ficar por aqui depois de ter sido pessoalmente chamada a fazer parte integrante de um pesadelo desta envergadura.

Acontece que todas as ladainhas das desgraças da Saúde, tantas vezes recitadas aos ouvidos cansados dos Portugueses, têm um outro lado da moeda, e é absolutamente inacreditável que ainda ninguém tenha dito uma palavra a seu respeito. Porque, desse lado da moeda, de noite e de dia, estão a compaixão, o carinho, a paciência, de todo aquele pessoal encarregue de zelar por nós: auxiliares, enfermeiros, medicozinhos fresquinhos acabadinhos de sair do curso, e ainda maqueiros, bombeiros, meninos sangradeiros – toda aquela gente nos tratava como Jesus tratou os pobres, os pescadores, e as prostitutas. Toda aquela gente levava muito a sério o seu Juramento Hipocrático. Toda aquela gente, por muito que se estafasse, estava impecavelmente organizada para nos acudir. E, depois de percebermos isso, já podíamos respirar fundo e entregar-nos nas suas mãos. Com um alívio imenso, pelo menos do tamanho das nossas dores e maleitas…

… Não estou a brincar, nem a inventar, nem a exagerar. Fiz mesmo o número das velhinhas, 100% by the book: passei tanto tempo naquela minha maca que deu para perceber que as histórias das outras senhoras mal se distinguiam da minha.

E então a narrativa é mais ou menos assim, no que diz respeito às partes que eu recordo[1]:

Comecei por ficar fechada em casa porque seria de loucos ir às Urgências por causa de uma mera intoxicação alimentar. Depois comecei a deixar cair tudo das mãos, e a espalhar cacos por todos os meus cantos. Depois comecei a tropeçar, e depois comecei mesmo a cair. Depois comecei a ter períodos de inconsciência, ao que consta cada vez mais prolongados.

E depois, por fim, um dos meus melhores amigos, a quem eu nunca mais atendia o telefone, assustou-se. Não esteve para mais meias medidas, e chamou logo os bombeiros. Os bombeiros, profissionais de salvar velhinhas, arrombaram-me logo a porta e vieram em meu socorro.

Ainda me lembro de estar a vê-los subir a escada.

E, depois disto, não me lembro de mais coisíssima nenhuma.

Entrei inconsciente no Hospital de Évora, recuperei os sentidos já em cima da tal maca, demorei um bocado a perceber onde estava e a lembrar-me do nome da cidade onde vivo, ainda meti água da primeira vez que me perguntaram a idade[2], e a seguir começaram a passar dias e dias e dias, todos iguais e todos perfeitamente amparados pela tenacidade e pela dedicação das equipas que se iam sucedendo à cabeça do serviço.


.Ouvimos dizer que este era o Corpo de Cristo. CPC esteve infiltrada e investigou.

Todos os dias vinha sempre uma dupla de uma auxiliar com uma enfermeira, de peso e altura muito bem calibrados, para evitar desequilíbrios, fazer-nos os chamados posicionamentos. Ou seja, nós torcemo-nos todas a tentar dormir, e a dupla repõe-nos direitinhas dentro dos confins complicados da nossa maca, para evitar mais dores musculares. E vêm ter connosco sempre de cara alegre, embora muitas vezes o nosso peso bruto as obrigue a verdadeiros trabalhos forçados. Mais: vêm sempre a tratar-nos por querida, vizinha, meu amor, princesa, e outra coisas assim. Coisas mesmo boas de ouvir no caos aparente de uma Urgência.

Todos os dias vinha sempre um médico muito querido fazer-nos o update da nossa situação clínica com voz de veludo, e explicar-nos, uma vez mais, que só estávamos ainda ali nas Urgências porque não existia, mesmo, qualquer espécie de vaga na Medicina Interna. Isto está assim em todos os hospitais. Não há mais espaço, e não há mais pessoas. Mas os portugueses, abalados pela crise da COVID, e logo a seguir pela crise da Guerra da Ucrânia, andam cada vez mais deprimidos. O que quer dizer que ficam cada vez mais doentes. Mas agora não se preocupe, e tente mesmo descansar.

Todos os dias íamos fazer um ou outro exame, e depois o especialista punha-nos a mão no braço com muito cuidado, e dizia, com toda a sinceridade, então as suas melhoras.

Todos os dias alguém nos levava até à casa de banho, a empurrar a maca com imenso jeitinho. E, depois de lá estarmos dentro, a pessoa lavava-nos e dava-nos um banho. Tal e qual como a Madre Teresa quando lavava as chagas dos párias de Mumbay. Este é o corpo de Cristo.

Todos os dias aparecia por lá o maqueiro Ricardo, que nos brindava com piadas eruditas, tipo, confie em mim que eu sempre fui um homem muito à frente e até tirei logo a carta de condução em 1652 que era para ficar despachado.

O que a Comunicação Social nos diz é uma tanga descarada ao pior estilo tuga da esperteza saloia.

É muito fácil apupar, denegrir, e deitar abaixo tudo o que ainda estiver em pé. Entretanto, em absoluto anonimato e subjugado por faltas de condições orçamentais que o ultrapassam, o Serviço Nacional de Saúde continua a funcionar com a maior abnegação deste mundo. Num País nada espartano e muito pouco dado a heróis, estas pessoas que acumulam horas, e dormem em hotéis para conseguirem acudir-nos a todos por igual, são a verdadeira definição de tudo quanto é estóico e de tudo quanto é heróico.

Então e o nosso Presidente, que gosta tanto de condecorar os seus súbditos? Nem sequer lhes dá uma medalha?

Isto é tudo uma vergonha, uma vergonha, uma verdadeira vergonha![3]


~~~~~~~~Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora

[1] Disseram-me que houve várias outras, mas a questão parece-me despicienda. Foram todas partes gagas de velhinha.

[2] De certeza que foi por causa do romance que acabei agora mesmo de escrever. A principal protagonista tem 53 anos. Foi isso mesmo que eu comecei por dizer ao medicozinho Emanuel Noivo, quando, na realidade, estou quase a fazer 63. Em troca da gaffe, ele mediu-me a tensão e a temperatura. Sem comentários. Não se pergunta a idade às senhoras.

[3] Estava sempre a repetir a Dona Isilda, que passou cinco dias na maca ao lado da minha.

Nota: O título da crónica “Este é o corpo de Cristo” remete para a máxima que os frades e freiras da Ordem dos Missionários da Caridade (criada por Madre Teresa de Calcutá, em 1950) repetem uns para os outros e para si próprios enquanto lavam os corpos esqueléticos, imundos, e lacerados dos Intocáveis...

https://paginaum.pt/2022/12/16/este-e-o-corpo-de-cristo/