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terça-feira, 7 de janeiro de 2025

João Fraga de Oliveira - Passagem de Ano?



POR JOÃO FRAGA DE OLIVEIRA TERÇA, 07 DE JANEIRO DE 2025

Não será que, afinal, no primeiro dia do ano de cada novo calendário, a vida neste tal ano «novo» vai continuar a ser apenas mais vida (e, infelizmente, para alguns nem isso…), a mesma vida … «velha»?

Uma das instituições sociais de séculos é a «Passagem de Ano».

Saudável pela participação social e partilha mais ou menos genuína da alegria e diversão, subjazem-lhe, no entanto, dois pressupostos cuja racionalidade é duvidosa: um, é o de que no último milionésimo segundo do último dia de cada ano para o primeiro milionésimo de segundo do ano seguinte há uma separação na vida de cada um e da sociedade; o outro pressuposto é o de que, então, há uma «passagem» para um outro tempo «novo» que sempre almejamos melhor («Bom», «Feliz», «Próspero»…) e não só mais tempo, o mesmo tempo.

Se bem que, afinal, quanto à classificação («velho», «novo») e separação dos anos, não surpreende, visto que tendemos a classificar tudo, a separar tudo:

- Separamos o passado do presente e este do futuro, quando sabemos (aprendemos com George Orwell) que o futuro é o passado que fizemos, tal como o presente é o futuro que quisermos;

- Separamos, por «idades», a própria vida em si: a idade da infância da idade da adolescência, esta da maioridade e, por sua vez, esta da idade maior, da velhice. Quando sabemos que, verdadeiramente, não existe na vida separação, mas sim íntima continuidade e interdependência entre estas idades humanas.

- Separamos a vida da morte, quando sabemos que a morte faz parte da vida e mesmo que, quando vimos (como já vimos) uma mãe (clinicamente) morta a dar à luz um bebé, a vida faz parte da morte;

- Separamos a saúde da doença, quando sabemos (aprendemos com a Organização Mundial de Saúde) que «saúde não é só a ausência de doença…»;

- Separamos a vida do trabalho, quando sabemos que a trabalhar, a «ganhar a vida», almejamos também ganhar vida (pela realização e integração profissional, pessoal e social) e não perder (ir perdendo, na doença) vida e, muito menos, num instante, perder (num acidente) a vida;

- Separamos a casa do trabalho, quando sabemos que «levamos» a casa (preocupações, pré-ocupações, pós-ocupações…) para o trabalho, tal como, até literalmente tantas vezes, levamos (o) trabalho para casa;

- Separamos o Homem da Natureza, quando sabemos que a natureza do Homem é fazer parte da Natureza;

- Separamos a Terra da Humanidade, quando sabemos que sem Terra não há Humanidade;

- Separamos e até abolimos, vamos abolindo (nas atitudes, nos comportamentos, nos propósitos, nas decisões e acções individuais ou colectivas e políticas), a humanidade da/na Humanidade, quando sabemos (aprendemos com Teixeira de Pascoaes) que «se eliminarmos a palavra humanidade ficaremos todos cobertos de pêlos num instante»;

- Separamos a economia da sociedade, quando sabemos (por exemplo, por Karl Polanyi e pelo Papa Francisco) que a economia, como ciência social que é – deve ser –, ou também é (para) a sociedade ou deixa de ser economia (para passar a ser mero economicismo);

- Separamos os pobres dos ricos, quando sabemos que «os pobres são pobres, porque os ricos são ricos» (e vice-versa);

- Separamos os negócios da amizade («amigos, amigos, negócios à parte»), quando sabemos que cada vez mais a própria amizade é objecto de negócio e que, assim, até são certas «amizades» que possibilitam grandes negócios (atas);

- Separamos o que dizemos do que fazemos, quando sabemos (aprendemos com Frei Tomás ...) que pouco diz o que dizemos se contraria o que (não) fazemos, tal como sabemos que pouco faz (se é que não desfaz) o que fazemos se contraria o que dizemos;

- Separamos o que somos do que fazemos, quando sabemos (aprendemos com Eduardo Galeano) que «o que somos é o que fazemos para mudar o que somos»;

- Separamos a teoria da prática, quando sabemos que não há melhor teoria do que uma boa prática e vice-versa;

- Separamos o caminhar do caminho, quando sabemos (aprendemos com António Machado) que «o caminho faz-se caminhando».

Separamos isto tudo e então, por esta altura, neste como em todos os anos da nossa vida, também, claro, separamos o «Ano Velho» do «Ano Novo».

Mesmo sabendo que «nada é cindível na vida» (citando uma saudosa primeira-ministra portuguesa, Eng.ª Maria de Lurdes Pintassilgo), mesmo sabendo que, como na canção (Sérgio Godinho) e na poesia (e nada há mais verdadeiro do que a poesia, no caso a de Eduardo Guerra Carneiro), «isto anda tudo ligado».

«Ano Velho» e «Ano Novo». Verdadeiramente, separamo-los?

É que então, se estes anos, o «velho» e o «novo», na realidade são inseparáveis, incindíveis, na nossa vida e na da sociedade, que «passagem» há de um para o outro, senão a de um calendário velho para um calendário novo?

Não será que, afinal, no primeiro dia do ano de cada novo calendário a vida neste tal ano «novo» vai continuar a ser apenas mais vida (e, infelizmente, para alguns nem isso…), a mesma vida… «velha»?

«É que então, se estes anos, o "velho" e o "novo", na realidade são inseparáveis, incindíveis, na nossa vida e na da sociedade, que "passagem" há de um para o outro, senão a de um calendário velho para um calendário novo?»

A não ser que entendamos que tempo não é (como não é) algo não meramente abstracto, que tempo é vida (individual, colectiva, social, …), vivência, que tempo é o que se faz (desfaz, refaz, deixa de se fazer…) com ele.

E, assim, «passagem de ano» poderá então não ser apenas mudar de calendário mas, na realidade, mudar de referências, de objectivos, de práticas. Enfim (José Mário Branco), «mudar de vida». Ao que não pode deixar de subjazer mudar apenas mudar de calendário, mas sim, sobretudo, mudar de ideário.

Um ideário que contemple, por exemplo – que não pode ser mais pertinente, porque actual, premente –, a passagem:

- Das desigualdades para a justiça social;

- Da competição desenfreada para a solidariedade;

- Do egoísmo para o altruísmo;

- Do individualismo para o relacionamento e participação social;

- Da exclusão e racismo para a inclusão;

- Da marginalização para a integração;

- Da pobreza para a dignidade das condições de vida;

- Da degradação das condições de trabalho e salários exíguos para o trabalho digno;

- Da exiguidade das (baixas) pensões para a dignidade da velhice e da invalidez;

- Do neoliberalismo para o Estado Social;

- Da mentira para a Verdade;

- Da guerra para a Paz…

Bem, mas de qualquer modo, à meia-noite em ponto de todos os anos, lá paramos (mesmo que a rodopiar alegremente num baile) todos (ou quase todos…) para «separar» o «Ano Novo» do «Ano Velho», para, na alegria (com)participada – o que é saudável – de umas passas, espumoso, música, fogo de artifício, festejarmos, feéricos, a «Passagem de Ano».

Ainda que no dia seguinte, logo um que tanto a isso agora nos empurra (como Dia Mundial da Paz), nos perguntemos: Passagem de Ano? Mesmo?

https://www.abrilabril.pt/nacional/passagem-de-ano

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

Cid Simões - Boas-Festas de punho erguido

*  Cid Simões 
 
 

 «Não há nada isento das revoluções, e alterações do mundo; tudo nele se muda, porque tudo se move; por isso a firmeza é violenta, ao mesmo tempo que a inconstância é natural.»

Matias Aires

O mundo está uma arrastadeira, um caneco onde me recuso a viver de braços caídos. Prometo-te amigo, cidadão, camarada que lutarei até ao fim pela reconquista da dignidade usurpada, pela justiça onde o ser humano seja o sujeito das nossas preocupações, o objeto e o objetivo das nossas vidas, para que um dia possamos desejar as boas-festas sem o terror da incerteza a esmagar os nossos sonhos.

Cid Simões 

O medo aí está: frio e amorfo como a angústia. O que poderia ser um excelente pretexto para manifestarmos os nossos profundos sentimentos, e solidariedade atuante, não vai além da ladainha habitual, despersonalizada, frouxa, sem alma. Boas-festinhas nha-nha-nhá, com o mesmo jerico e as receitas requentadas do costume, servidas em inglês, francês, espanhol, alemão, pois claro, cirílico, árabe e japonês que, pela grafia, se depreende.
 

Este ano o meu bilhete de boas-festas será ilustrado com um bispote. O vaso em questão, bacio, doutor ou penico, deixo o vocábulo ao vosso gosto, é o símbolo mais eloquente da civilização e do momento histórico que estamos vivendo.

Provocação, insensibilidade, mau gosto?

Provocação seria enviar-vos as boas-festas sem esboçar um gesto de revolta face aos crimes que, neste preciso momento, estão a ser cometidos ou cooperar na farsa dos que, para alijar a conscienciazinha, deixam à saída do supermercado uns baguitos de arroz, um pacote de bolacha-maria e a alma aliviada.

Insensibilidade seria também não corar de vergonha ao assistir a peditórios para “dar de comer a quem tem fome”. Fome, artimanha do destino, espécie de flagelo incontrolável, catástrofe natural ou crime contra o qual se esgrima com pipocas, coca-cola e uns torrões de açúcar, sem que, por cobardia intelectual, física, social ou pela cómoda inércia que usa óculos fumados não coloca a questão essencial: Porquê a fome?

Mau gosto era ignorar ou banalizar a clássica questão de Garrett: “quantos pobres são necessários para fazer um rico?” Quando é sabido que um só homem, pode possuir uma fortuna superior a mais de uma dezena de países do dito terceiro mundo, países onde morrem à fome milhões e milhões de crianças e, face a este genocídio, friamente organizado, à porta dos supermercados, deixar-lhes uns brinquedos, saquinhos de rebuçados e algum dó, por ser mais cómodo do que gritar: assassinos! ou ir para a rua alertar para o crime e dizer onde se encontram os seus algozes!

Com o óbolo pio, um pacotito de bolacha-maria, por exemplo, seguem confortadas as boas almas a tempo de não perder o fio às telenovelas que limitam as preocupações, o raciocínio e a inteligência, no casulo morno do doce lar. Se a fome algum dia também lhes bater à porta… logo se verá!

Tão-pouco se apercebem que o óbolo oprime, despersonaliza e ofende quem o recebe, deixando no “benfeitor” o rasto bolorento de gestos a esconder.

Provocação ainda seria desejar boas-festas, a seco, aos desempregados cujo pão não lhes chega à mesa e o acesso a medicamentos, transportes e outros bens essenciais lhes estão vedados, os compromissos fixos aumentam e o trabalho precário continua.
 
A realidade impõe a mudança pela qual lutamos: uma sociedade SOCIALISTA!



QUINTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2020
PUBLICADA POR CID SIMOES À(S) 19:54

http://aspalavrassaoarmas.blogspot.com/2020/12/boas-festas-de-punho-erguido.html


quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Carlos Drummond de Andrade - Receita de Ano Novo

 * Carlos Drummond de Andrade




Mário Quintana - Poema de Ano Novo

* Mário Quintana

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
- Ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança…
E em torno dela indagará o povo:
- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA…
()

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

António Bagão Félix - Revisitar Torga entre um ano e o seguinte

***



30 de Dezembro de 2015, 15:00

Por


Revisitar Torga entre um ano e o seguinte

Até hoje, a humanidade ainda não criou nenhuma associação de angustiados. Nem podia.
Porque, no fundo, a angústia é íntima percepção da radical incomunicabilidade.
(Miguel Torga, 1907–1995)



Hoje, no que resta de 2015, volto a Miguel Torga. Num regresso à sua pena apurada nos anos oitenta. Nestas vésperas de Ano Novo, submergido na primazia da puerilidade e dos desejos por atacado, prefiro deixar-me envolver pela limpidez da razão e pela translucidez do olhar sobre o mundo de Torga. E, em jeito de paradoxo epistemológico, sossego o meu espírito através do seu desassossego. O autor dos “Diários” era uma alma poliédrica, simultaneamente rejubilante e amarga. De um pungente e inquietante sentido da terra, ora a descarnar a alma, reflectida e demoradamente, ora em itinerário de implacável e amargurada questionação através do seu cinzel granítico.

Torga sempre fez da autenticidade — esse bem notoriamente escasso e em vias de desaparecer — o seu fundamento para comunicar e para valorizar a eticidade da sua inegociável liberdade ontológica. Com sofrimento: “Sim, fui infeliz porque tive a sina de ser autêntico”. Ou, através de um aparente paradoxismo, “infelizmente sou uma desconsolação humana. Só presto para ser livre”.
Retiro do Diário XIV (1982–1986) o transbordante actualismo da sua palavra. Citando-o e deixando a quem ler este texto espaço para uma reflexão sobre a excelência, intemporalidade e profundidade do nosso escritor mais Nobel do que muitos laureados.
Sobre o tempo da vida (e a vida no tempo), escreve que “o futuro é concebido como uma síntese dialéctica da tradição e da invenção” para se definir como “sim, sou um nó de contradições: mas que seria de mim se o desatasse? Se, em vez de uma unidade na diversidade, fosse uma diversidade sem unidade?”.
A propósito do património da memória, sobre que reflecte com sadia obsessão, escreve que “ter memória é construir imediatamente um celeiro” para, de seguida, afirmar que “a memória é a faculdade mais precária que temos. E, no entanto, é só nela que o pretérito joga o seu futuro”. Com fundamentada ironia fala-nos, também, da falência memorial — hoje tão presente — para nos dizer que“o esquecimento é o único espaço onde os sucessos se eternizam”.
 À questão do envelhecimento, hoje glosado com a adjectivação tecnocrática de “activo”, Torga prefere a seriedade da lucidez: “a velhice é isto: ou se chora sem motivo, ou os olhos ficam secos de lucidez” ou, ainda,“ficamos velhos e na boca  o gosto de ser mudos”. Lucidez que ele alia permanentemente à ideia construtiva e regeneradora da dúvida porque “o meu drama foi viver a vida a duvidar sempre de mim”, com “medo do abismo aberto pela nossa própria lucidez”.
 Sobre o questionamento iluminado por uma incorruptível seriedade intelectual, lega-nos o seu pensamento sobre o labirinto misterioso da transcendência:“Deus: o pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem de o negar, mas nunca a força de o esquecer”, para concluir que “no fundo, é do meu velho problema religioso que se trata. Nunca lhe dei uma solução capaz. Em vez de ser um crente adulto confiado, sou um temente infantil desconfiado”. E deixa-nos (deixa-me, enquanto crente) um aviso: “também no mundo do sagrado há rotina e cansaço”. Por isso, Francisco é hoje um protagonista da esperança renovadora.
 Neste breve percurso torguiano, ao mesmo tempo que deparamos com as agora omnipresentes técnicas de “marketing” na profusão de autores, livros e livrinhos, não resisto a citar algumas asserções sobre o próprio acto criador da escrita (“escrevo para que me leiam; não gosto, porém, de me ver lido”). Reflecte ele, em dois dos seus mais expressivos e belos pensamentos: “Um escritor, se é autêntico, se é fiel ao temperamento, varia de caneta mas não varia de tinta. Em novo ou em velho escreve com o próprio sangue. E resigno-me à ideia de ver o meu hemograma em cada página que me sai das mãos.” Ou de uma forma ainda mais teluriana, “eu sou um homem de impressões digitais, das mãos aos pés. O sulco do arado é tão impressivo para mim como o traço da caneta. Leio tanto numa lavrada alentejana como num livro”. Por outro lado, a sua frontalidade, não isenta de acidez, reflecte-se ao dizer que “A entronização dos escritores, agora, faz-se pela negativa. Quanto menos legíveis, melhor”.
 Seja-me permitido terminar este post com uma outra confissão de Miguel Torga: “Quando não trabalho sinto-me em pecado mortal”. Como eu o compreendo!

http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2015/12/30/revisitar-torga-entre-um-ano-e-o-seguinte/

sábado, 31 de dezembro de 2011

Dois poemas para 2012



Carlos Drummond de Andrade


Receita de ano novo 




Para você ganhar belíssimo Ano Novo 

cor do arco-íris, ou da cor da sua paz, 

Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido 

(mal vivido talvez ou sem sentido) 

para você ganhar um ano 
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras, 
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser; 
novo 
até no coração das coisas menos percebidas 
(a começar pelo seu interior) 
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota, 
mas com ele se come, se passeia, 
se ama, se compreende, se trabalha, 
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita, 
não precisa expedir nem receber mensagens 
(planta recebe mensagens? 
passa telegramas?) 



Não precisa 

fazer lista de boas intenções 

para arquivá-las na gaveta. 

Não precisa chorar arrependido 

pelas besteiras consumidas 
nem parvamente acreditar 
que por decreto de esperança 
a partir de janeiro as coisas mudem 
e seja tudo claridade, recompensa, 
justiça entre os homens e as nações, 
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal, 
direitos respeitados, começando 
pelo direito augusto de viver. 



Para ganhar um Ano Novo 

que mereça este nome, 

você, meu caro, tem de merecê-lo, 

tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil, 

mas tente, experimente, consciente. 
É dentro de você que o Ano Novo 
cochila e espera desde sempre.





Carta ao Filho - Nazim Hikmet



Carta ao filho

  

Não vivas sobre a terra como um estranho
Um turista no meio da natureza.
Habita o mundo como a casa do teu pai.
Crê na semente, na terra, no mar.
mas acima de tudo crê nas pessoas.
Ama as nuvens,
as máquinas,
os livros,
mas acima de tudo ama o homem.
Sente a tristeza do ramo que murcha,
do astro que se extingue,
do animal ferido que agoniza,
mas acima de tudo
Sente a tristeza e a dor das pessoas.
Alegra-te com todos os bens da terra,
Com a sombra e a luz,
com as quatro estações,
mas acima de tudo e a mãos cheias
alegra-te com as pessoas.



Nazim Hikmet, (1902 - 1963) c. 1960.


Traduzido do inglês por Carlos Eugênio Marcondes de Moura.


Escritor e poeta turco nascido em Salonica, Grécia, então parte do império otomano, que, perseguido por suas idéias políticas, marcou profundamente a literatura turca ao romper com a tradição islâmica e sob a influência dos futuristas russos, propôs a despoetização da poesia. Pensando seguir uma carreira militar, entrou para a academia naval de Istambul e serviu na Marinha, da qual foi expulso (1919) por atividades revolucionárias. Partiu para Moscou, onde estudou ciências políticas e sociais por cinco anos, na Universidade Comunista de Moscou. Regressou à Turquia (1924), após a proclamação da república e tornou-se conhecido com seus primeiros poemas, de cunho patriótico. Condenado (1938) pela suposta participação num complô, após ser posto em liberdade (1950) por força de uma intensa campanha internacional, radicou-se então em Moscou, onde morreu. Publicou as coletâneas 835 satir (1929) e 1 + 1 = 2 (1930), os poemas históricos Sesini kaybeden sehir (1931) e Benerci kendini niçin öldürdü? (1932), as peças para teatro Kofatos (1932) e Unutulan adam (1935) e lançou uma autobiografia em Berlim (1961).

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

VN - Antologia de Poesia de Ano Novo


Vivam
Com os meus votos dum bom ano, aqui fica alguma poesia.
VM
.
Ano Novo (Popular – Brasil)
Chegamos em sua morada
Eu e meus companheiros
Nós andamos festejando
O primeiro de janeiro

Entrada do ano novo
Com prazer e alegria
Com grande contentamento
Eu festejo este dia

Eu festejo o Ano Novo
Com muita moralidade
Deus do céu lhe dê saúde
E muita felicidade

Acordai se estás dormindo
Neste sono tão profundo
Levante e seja bem-vinda
Mais um ano neste mundo

Senhora dona da casa
É uma flor de maravilha
Venha nos dar seu anos
Junto com sua família

O meu terno está cantando
Para alegrar a todo ano
Nós andando festejando
A entrada do Ano Novo

Meu senhor dono da casa
Deus do céu que lhe ajude

-->
Que passe este 60
Gozando boa saúdeEu festejo o Ano Novo
Nesta data querida
É mais um ano que passamos
No calendário da vida

Meu senhor dono da casa
Estamos aqui de novo
Parabéns muita saúde
E um feliz Ano Novo

RECEITA DE ANO NOVO
Carlos Drummond de Andrade
.
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)

-->novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegrama?).
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.-->
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre..


PASSAGEM DO ANO
- Carlos Drummond de Andrade
.

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o
[ calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
[ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
[ clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do
[ acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
[ séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
[ espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

-->Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

 Ano Novo
Chico Buarque
.
O rei chegou
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
É pra cantar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
-->
Estava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo
Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E que já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo
-->A minha nega me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que não está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar
E quem for cego veja de repente
Todo o azul da vida
-->Quem estiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo




ANO NOVO, VIDA NOVA ...

(Maria Isabel de Mendonça Soares)

-->Hoje, que o ano começa,
e para que comece bem,
vou fazer uma promessa
ao meu pai e à minha mãe.
E para não a esquecer
e que ninguém me desminta,
nesta folha de papel
aqui fica escrita a tinta.
Prometo solenemente
não brincar com o meu irmão,
repartir com toda agente
-->brinquedos, bolos ou pão;
ter sempre tanto juízo
quer de dia, quer de noite,
que nunca há-de ser preciso
apanhar nenhum açoite.
Se assim fizer, hei-de ter
muitos amigos e amigas
porque a amizade se pega
mais que o sarampo e as bexigas.