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domingo, 23 de novembro de 2025

Raquel Varela - Do 25 de Novembro aos Nossos Dias


ª Raquel Varela
 
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A história é aquilo que dói, disse Frederic Jameson. Não cabe nem no entusiasmo dos saudosistas do Estado Novo, como o Chega, nem nas celebrações de Estado pilotados pelo PS e pela Associação 25 de Abril. A história do 25 de Novembro não cabe na disputa entre o PS e o Chega, há muito mais mundo lá fora. A história é uma ciência, com teorias, métodos e crítica de fontes, não é uma argamassa de memórias, usadas pelo presente para atirar aos adversários do momento. 
O golpe para acabar com a revolução, com o PREC, e retirar poder aos trabalhadores devia "parecer" um golpe de esquerda - explicaram então os seus autores; quem fez o golpe de direita (Soares, Grupo dos 9, Eanes) disse então que era para "salvar o socialismo" - estou a citar; a extrema direita que agora celebra o 25 de Novembro, estava ostracizada, barricada dentro da Igreja Católica e em Madrid, a preparar ataques terroristas com mortos, foi irrelevante em operações no 25 de Novembro, mas foi essencial na mobilização dos retornados e dos camponeses.

Cunhal e a direcção do PCP têm uma posição muito distinta da base do Partido, defendem mesmo na altura (depois de 1989 mudam de análise, mudam aliás 3 vezes) que o 25 de Novembro era uma forma também de acabar com a esquerda militar e com os revolucionários "aventureiros". Não por acaso António Filipe disse agora no debate das eleições que o PCP foi um dos vencedores do 25 de Novembro (ouviu quem quis). Tal como nós estudámos a documentação do PCP sobre o 25 de Novembro, António Filipe sabe que o PCP foi o Partido moderado de então, e que teve um papel, contra a sua base, na decapitação da esquerda militar, como o PCP face à esquerda revolucionária na Catalunha em 1937. A obediência a Ialta era maior do que aos trabalhadores. E que isso levou sectores importante do Partido, entre eles Saramago, a questionar a direcção.

Antes do páras saírem somam-se atentados de direita e mesmo a mobilização de armas para a guerra civil, quer pela direcção do PS quer por organizações como a CAP (Confederação da Agricultura Portuguesa), que se barricam horas antes. A CAP que se preparar para celebrar esse dia, com orgulho e não escondendo o que fez, armar-se para defender os latifúndios. Doa a quem doer. 

O 25 de Novembro não foi um golpe pacifico contra a revolução, uma "contenção" democrática como refere o historiador Fernando Rosas, apoiando a visão do PS e mesmo da direcção do PCP de então. Foi um golpe violento contra a revolução que implicou centenas de prisões de oficiais que ficaram sem quaisquer direitos durante meses, sem poder sequer ver as famílias, e seguiram-se, nas horas seguintes, a supressão da democracia e milhares de despedimentos, a começar, logo e principalmente, nos media públicos, afastando o jornalismo auto-organizado nas redacções, um saneamento generalizado de esquerda nas redacções e nos quartéis - dominar as armas e a comunicação era o objectivo da burguesia, que através do PS, recuperava o controlo sobre o aparelho de Estado e mediático. 

As conquistas de Abril não se perderam agora,  quase todas terminaram até ao final dos anos 1980, quando o Estado Social foi substituído pelo Estado assistencial - fim da gestão democrática nas escolas, 1976, fim do poder das comissões de trabalhadores, 1979, fim da gestão democrática dos hospitais, 1982 e por aí fora, até à entrega das empresas capitalizadas como a Banca, comunicações e transportes a accionistas privados, regressados de Copacabana, num negócio financeiro que ruiu em 2008. E cuja resposta foi a venda de solos do país para salvar os banqueiros salvos em 2008 - há um fio condutor de 25 de Novembro de 1975 até aos dias de hoje.

Logo apresentamos o nosso livro "", com apresentação do Mário Tomé e do Ricardo Cabral Fernandes. Não é a bíblia sobre o 25 de Novembro, porque não acreditamos em bíblias. Mas em debate cientifico, feito de diálogo entre conceitos e evidências, e que certamente gerará controvérsias, dúvidas e questões por resolver. Isso é a história. O que certamente não é, o nosso livro, é a história das "comemorações oficiais", que em grande medida será feita na Gulbenkian num congresso de afirmação da visão do PS sobre o 25 de Novembro, e que hoje é, paradoxalmente, a prova mais evidente do papel do PS então - tentaram ficar longe da direita contra a revolução e acabaram engolidos pela direita, porque só ao lado da revolução poderiam ter evitado chegar aqui, serem o side-car de um governo de extrema direita que criminaliza imigrantes para baixar o preço do seu salário. 

2025 11 21

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Joaquim Moedas Duarte
Gosto de ler as suas análises, são um exemplo de como é fácil manipular a História. Basta pormo-nos num lado da barricada e ver tudo com uns binóculos a partir dessa trincheira. Análises que vêm sempre acompanhadas de referências à cientificidade da História, para que o bom povo perceba que, baseadas em muitos estudos e leitura crítica das fontes, estas análises é que desvendam a verdade histórica.

O problema é que a História se ri das ilusões científicas, quando apresentadas como A VERDADE! 

O bom Historiador é humilde, põe hipóteses, não faz juízos de valor. Tem consciência de que a História, quanto mais contemporânea, mais amálgama de histórias ela é. O caso do 25 de Novembro de 1975 é um exemplo disso.

Por isso a historiadora Irene F. Pimentel fala do "efeito Rashomon" quando analisa o 25 de Novembro no seu livro "Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975". O "efeito Rashomon" refere-se a situações onde diferentes pessoas têm percepções e interpretações contraditórias e opostas sobre o mesmo acontecimento, o que impossibilita a definição de uma VERDADE OBJECTIVA sobre ele. O que há são versões da verdade.

Para descrever um cubo é preciso observá-lo sob todos os ângulos, de modo a analisar as suas seis faces.

Irene Pimentel conclui "As opiniões sobre o que se passou em 25 de novembro de 1975 dividem-se consoante o lugar no espectro político em que são expressos":

Nessa perspectiva, ela limita-se a descrever as diferentes interpretações dos que estiveram envolvidos nas movimentações militares e políticas do 25 de Novembro. Não toma partido, .

Quando se toma partido cai-se facilmente na caricatura histórica, como se vê nas "comemorações" do 25 de Novembro promovidas pela direita e pelos coisos fascistas.

Receio que a profª drª Raquel Varela esteja a cair no mesmo, embora com sinal contrário...

Oscar Manuel Carvalho
Oficial de Prevenção no dia. Quartel ligado à esquerda. Na porta de armas fui chamado para acalmar sindicalistas da cintura industrial que exigiam entrar: "nós estivemos na guerra, sabemos melhor que vocês o que há a fazer. Isto é um golpe fascista e o nosso partido mandou-nos para casa"

Carlos Pernes
Um reparo importante: não foram só oficiais, foram milhares de sargentos e praças, membros das coordenadoras do MFA, nas Unidades Militares dos 3 ramos das Forças Armadas. Os oficiais e sargentos do quadro muitos foram detidos e suspensos, os oficiais, sargentos e praças milicianos foram expulsos liminarmente. Foram abertos inquéritos aos militares expulsos para denunciarem outros militares que não inspiravam confiança aos golpistas; uma autêntica caça às bruxas ponto

Margarida Varela
Espero pelo seu livro.Eu vivi-quase chorei-o 25 de Novembro.Estou farta de ouvir teses sobre o que aconteceu.Fico contente por a Raquel,que é historiadora,reponha a verdade.Obrigada

Madalena Marques
Importante este post para se saber a verdade!Mesmo que a direita e alguma esquerda venham oferecer outro ponto de vista.Claro que houve muitos jogadores nisto!

Armando Pinho
Vamos ser claros Raquel Varela queria e ainda quer que Portugal fosse a Cuba da Europa!.....aproveita as viagens low cost e vai para lá....se gostas tanto!

Joao Inacio
Concordo com a Raquel sabendo que o comitê central e seus dirigentes na altura o que fizeram foi evitar uma ameaça de guerra civil.

Deixo aqui o discurso de Álvaro Cunhal de agosto de 1975 .

Deixo também este enxerto que ilucida bem as ameaças que havia na altura.

É uma crise política, com uma vasta e aberta ofensiva terrorista da contra-revolução, com contradições e conflitos internos nos órgãos do poder, com dissidências nas duas componentes essenciais do processo (no MFA e no movimento popular e democrático), com uma vasta e activa oposição ao processo revolucionário conduzida pelos dirigentes do PS, pelo PPD e pelo CDS, com um ambiente de conspiração podendo conduzir a choques armados.

https://www.pcp.pt/intervencao-de-alvaro-cunhal-na-reuniao-plenaria-do-comite-central-do-pcp

Vladimiro Mendes Inacio
Esta senhora vem agora nesta fase da luta fazer alusões ao PCP porquê. Faz-me lembrar o MRPP na altura do PREC com a mesma actuação. Quer ressuscitar o MRPP? Esse partideco, que se apresentava pretenciosamente como educador da classe operária morreu. A luta agora está noutro nível, os trabalhadores não precisam de mais confusão, precisam de unidade e acção contra o pacote laboral. Quer discutir o Marxismo Leninismo ou os eventos do 25 de Novembro no facebook? Tenha paciência e organize-se no seu local de trabalho e não venha agora com cantilenas discutíveis e insinuosas nesta difícil fase da luta contra o grande patronano que tem o apoio do governo e dos partidos de direita.

Victor Barroso Nogueira
A História não é Ciência, é uma interpretação de factos e acontecimentos com "descrições" que resultam do olhar e das lentes de quem os "lê" ou "treslê" e sobre eles se pronuncia. Nunca é bacteriologicamente "pura". A "verdade " histórica não é absoluta mas "tendencial". Quanto muito, uma confluência ou não entre linhas paralelas, divergentes ou convergentes !

sexta-feira, 12 de maio de 2023

Marcelo, uma antologia ontológica, por Alfredo Barroso

  


* Alfredo Barroso
2023 05 12    


O QUE JÁ DISSERAM DELE, “ARRASANDO” MARCELO PR, 22 (VINTE E DUAS) PERSONALIDADES COMPLETAMENTE DIFERENTES...


- uma antologia de horrores, a não perder, sobre o comentador e político Marcelo, «capaz de qualquer patifaria inconsequente»`

1. FRANCISCO PINTO BALSEMÃO: «Marcelo, como o escorpião da lenda, não resiste a matar a rã (…) Algumas pessoas amigas que consultei avisaram-me e tentaram evitar que o convidasse para o Governo: ‘Estás a meter o veneno em casa’ – dizia um. ‘Estás a aproximar-te do escorpião da fábula, e tu serás a rã’ – dizia outro».
2. PACHECO PEREIRA: «Marcelo é o criador e principal fautor de um jornalismo dos cenários que nunca se realizam, jornalismo apenas especulativo que não leva a lado nenhum e que tem o condão de falsear toda a atividade política».
3. BELMIRO DE AZEVEDO (1998): «Marcelo Rebelo de Sousa deveria ser eliminado. Não tem categoria. Que retirem a cadeira a esse senhor».
4. PASSOS COELHO: «Catavento de opiniões erráticas, em função da mera mediatização gerada em torno do fenómeno político». 
5. PAULO PORTAS: «Marcelo é filho de Deus e do diabo, Deus deu-lhe a inteligência, o diabo deu-lhe a maldade».
6. MARIA JOÃO AVILEZ: «Marcelo tem tomado o espaço da oposição ao governo. E para cúmulo é ele próprio que manda colocar nos jornais conversas a propósito. Toda a gente sabe dos telefonemas e das intrigas. É demasiado interventivo e não percebe que não pode ser ele o líder da oposição, mas comporta-se como tal».
7. HENRIQUE RAPOSO: «Um presidente que já é sem qualquer dúvida o presidente mais fraco desde 74». 
8. MIGUEL MONJARDINO: «O comentador Marcelo Rebelo de Sousa (M.R.S.) constitui, pelo seu recente comportamento, uma ameaça à credibilidade da instituição da Presidência da República e ao futuro de Portugal (…) Em vez de um Presidente da República, elegemos um comentador com urgência pessoal e compulsão para se pronunciar, instantaneamente, sobre tudo».
9. ANTÓNIO RIBEIRO (jornalista): «É falso como as cobras. Tem ar de avô bondoso, é beato, não tem vida própria. Mas cospe veneno. Parece que apoia, mas é exímio a puxar tapetes a quem detesta, embora finja apoiar. Olha para as tendências da opinião pública, dia a dia, como oportunidade de negócio (…) Essencialmente, ele não presta (….) Que ninguém confie nele, porque ele é do Antigo e não do Novo».
10. CINTRA TORRES: «Marcelo comenta de manhã, à tarde, à noite e de madrugada. Comenta à porta do Coliseu, na rua, nos jardins, na escadaria da Gulbenkian, comenta em Portugal e no estrangeiro, comenta no adro e na praia, no palácio e na feira, no café e no congresso, comenta futebol e o tempo, comenta vivos e mortos, acidentes e festivais – e comenta há 50 anos, desde que entrou para o ‘Expresso’, onde permanece até hoje, por via de corneta alheia, o principal alimentador e protagonista do diz-que-disse político nacional».
11. CARLOS ESPERANÇA: «Marcelo é um neto legítimo do 28 de maio e um dedicado enteado do 25 de Abril, não se pode exigir-lhe mais do que a sua natureza consente.»
12. JOSÉ CID (cançonetista): «O homem não tem tempo para nada, está sempre em qualquer lado, que não é parte nenhuma».
13. PAULA FERREIRA (jornalista): «Marcelo fala de tudo e, por esse motivo, poucas são as vezes em que fala de alguma coisa».
14. VÍTOR MATOS NO LIVRO (BIOGRAFIA) «MARCELO REBELO DE SOUSA» (2012): «Poucas coisas dão mais prazer a Marcelo do que realçar os pontos fracos dos outros, em privado, em público ou no jornal (…) Marcelo é capaz de qualquer patifaria inconsequente (…) Por uma boa piada, Marcelo não se importa de perder um amigo».
15. VASSALO DE ABREU: «O Dr. Marcelo desfaz-se em muitos abraços e cai no goto do povão! Ele é como o ‘Preço Certo’: Não tem ponta por onde se lhe pegue, mas o povão gosta… Que fazer?».
16. LUÍS PAIXÃO MARTINS: «Marcelo é o chefe-General do Estado Maior das forças mediáticas».
17. J.-M. NOBRE-CORREIA: «Temos um personagem que há cinquenta anos instrumentaliza compulsivamente os média. Com a ‘criação de factos’. Com pseudo-análises da atualidade política. Com constantes declarações a propósito de tudo e de nada».
18. AMADEU HOMEM: «Eu acho o Presidente da República um oligofrénico e um trambolho democrático».
19. PAULO QUERIDO: «Temos um Presidente da República sibilino e sinistro — o agente político mais perigoso para uma sociedade decente, tolerante, progressista e bem sucedida depois de Oliveira Salazar, capaz de driblar todas as instituições democráticas, a começar por uma das suas especialidades, a Constituição».
20. TELMO AZEVEDO FERNANDES: «É sabido que temos um Presidente da República que não lida maravilhosamente com a verdade. Tal como um menino traquinas que ainda faz chichi na cama, Marcelo é invariavelmente um palrador fingido, trapaceiro e dissimulado, que não hesita em inventar tretas e tramas, para manipular a opinião pública e tentar intervir de forma desleal e traiçoeira na política nacional».
21. MARINA COSTA LOBO (politóloga): «Marcelo, pensando no seu lugar na história, quer usar os poderes que tem para deixar Belém com outro inquilino em São Bento, um primeiro-ministro do seu partido, o PSD».
22. ARTUR VAZ (que também tenho direito!): «Em tantos anos das conversas de Marcelo, alguém se recorda de uma ideia ou proposta minimamente razoável e consistente que tenha sido da lavra de inteligência tão brilhante?»

Campo d'Ourique, 12 de Maio de 2023

https://www.facebook.com/somera.simoes/posts/ 

sexta-feira, 22 de março de 2019

António Guerreiro - O que fazer dos pobres?


*  António Guerreiro

8 de Março de 2019, 10:58

o     
A sua classe é a dos homens mais ricos de Portugal, o que suscita invejas sem classe, como a dos que lhe chamam merceeiro, apoucando assim o dono do Pingo Doce e os seus balcões, fazendo dele uma figura com mundividência de bairro e contas feitas em papel pardo, por muitos zeros que tenham as somas finais. Na semana passada, Alexandre Soares dos Santos mostrou não só que tem uma aguda consciência das classes, da sua e da dos que ele tutela, mas também que faz dessa consciência uma força revolucionária: “Os pobres fizeram-se para a gente os transformar em classe média”, disse ele, ao Observador, numa “entrevista de vida”, um género que no jargão jornalístico designa a recitação, pelo entrevistado, do seu curriculum vitae, perante um jornalista extasiado com tanta vida do interlocutor .
Livro de recitações
“Há mais políticos com contratos permanentes nos media do que lugares na maior bancada parlamentar da Assembleia da República”

Rosa Pedroso Lima, in Expresso, 2/3/2019
Estes números confirmam a existência de uma nova classe que, na linguagem dos seus detractores, é a classe político-mediática. Evidentemente, ela também supõe a reversibilidade: a classe mediático-política. Quando já não houver mais nada para além da lei deste hífen, teremos atingido um estado homogéneo que se configura como uma nova versão do fim da História, isto é, do fim da política e do fim do jornalismo. O processo não se deu por invasão, mas por hospitalidade, o que o tornou mais sereno e eficaz. A pouco e pouco, os media transformaram-se em rampas de lançamento para políticos voadores, ou em estâncias de retiro para engordar reformas e cultivar prestígios de políticos opulentos. O espaço público mediático povoado por uma tagarelice política que funciona em circuito fechado, eis o nosso destino. A esta classe hifenizada devemos fazer a pergunta: quem são os políticos e quem são os jornalistas?

O entrevistado, por modéstia, diz “a gente”, mas é apenas uma maneira de dizer “nós, os líderes”. E ao dizê-lo tinha certamente em mente a pergunta que John Locke fez em 1697, numa exposição escrita que apresentou no Ministério do Comércio: “O que fazer dos pobres?”. Como resposta, o filósofo propunha algumas soluções plausíveis. A primeira, condição indispensável para a realização de todas as outras, consistia em “pôr os pobres a trabalhar”, retirá-los do vício e da ociosidade, o que limitaria desde logo a sua inclinação para o deboche. Mais de três séculos depois, a pergunta não perdeu pertinência e continua a ser formulada nas cúpulas, onde o imperativo é operare, fazer obra, sempre fazer: o que fazer então dos pobres, hoje? A resposta, agora, pinga mais doce: transformá-los obviamente em classe média, de acordo com o movimento inexorável da História, à escala planetária. Quem o diz não tem apenas consciência das classes, e não foi em rolos de papel pardo que leu que o conceito de classe estabelece uma ligação entre sociedade e natureza e organiza um sistema coerente da vida social; quem o diz tem também iluminações da psicologia social. E sabe que a classe média é uma criação (aliás, tardia; há mesmo quem diga que ela só foi inventada para alimentar a sociedade de consumo) e resulta de um processo de transformação que se pretende irreversível: ascende-se à classe média e nunca mais se quer voltar à origem. Mesmo que se desça nos critérios materiais, o ethos da mediania de classe ficou inculcado e não se apaga. Mas ficar lá para sempre também não basta, não traz a alegria que se esperava. A classe média tem a superstição de um sucesso que depois não existe de facto. E isso só engendra medos e discordâncias em relação ao ambiente social. No fundo, mesmo que não o admita nem o racionalize desta maneira, a classe média tem complexos de pobreza intelectual. E não tem nada de fascinante pertencer à classe média. Por isso é que não há tanta generosidade como parece, nem tanto progresso como insinua, neste homem rico do Pingo Doce que transforma a matéria-prima pobre em mercadoria medianamente enriquecida. Na verdade, nenhum pobre alguma vez disse que queria chegar à classe média. Os pobres, todos os pobres de todos os tempos e latitudes, o que dizem é que querem ser ricos, sem terem de passar pelas etapas medianas, medíocres, onde ficam sujeitos a um olhar que sempre os relativiza: ora são considerados ricos porque estão além do limiar dos pobres; ora são considerados pobres porque estão abaixo dos ricos. Esta classe média que era pobre antes de se tornar média, se mora na Bobadela não quer ir morar para os Olivais. Quer é instalar-se em Nova Iorque. Mas isto não percebe, ou não quer perceber, o homem que é dos mais ricos de Portugal, a quem se deve a transformação virtuosa dos seus pobres já não em pobrezinhos, como fazia outrora a classe abastada, mas em classe média. Ele faz questão de afirmar que tem nas suas mãos os comandos do ascensor social (ou diz-se antes elevador?), deixa bem claro que essa deslocação vertical é por ele controlada e tutelada. Sem ele, sem “a gente”, dos pobres nada feito. Que assim seja, é motivo de regozijo e não justifica mais exigências. Para se sentir privilegiada, menos exigente e menos fatigada, a classe média só tem de visitar todos os dias os pobres na televisão.


12 COMENTÁRIOS
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1.   
Aqui mesmo08.03.2019 20:17
Para quem gosta de pensar as pessoas em termos de classe poderá ser um texto interessante para ler. E quem gosta de pensar as pessoas em termos de classe não são os pobres. Estes podem-no fazer por razões de luta, não evocam as classes sociais pelo prazer que isso lhes dá. Uma pessoa está muito para lá destas qualificações que são próprias de quem tem uma visão determinista da sociedade.
Portugal08.03.2019 19:25
A frase é realmente chocante (“Os pobres fizeram-se para a gente os transformar em classe média"), tão chocante quanto aquela outra: "brincamos aos pobrezinhos" na Herdade da Comporta, propriedade de uma família que só aparentemente caiu em desgraça na praça pública. Mas esta última "pérola" parece bem mais ardilosa, por estar de acordo com o zeitgeist predador e totalitário que é o nosso presente. Afinal, se eu quiser, não poderei regredir triunfalmente de classe? Não poderei sequer propor-me a tal? E logo eu que não compro há quase dez anos no PD!

2.   
08.03.2019 19:23
O merceeiro do pingo doce referia-se aos pobres portugueses que ele e outros como ele fazem com gosto e alta eficiência diária. Ainda hoje Ferraz da Costa, esse intelectual de cepa, avisava que há muitos a ganhar demais. Os fazedores de pobres gostam de ser eficazes cortando o salário, reformas, pensões, prestações sociais, não o atualizando salários, congelando progressões nas carreiras e denunciando unilateralmente a contratação coletiva. Isso é a política oficial da UE/BCE e está em curso em Portugal pela ação do "arco da governação" PS, PSD, CDS que ocupam 100% dos cargos de gestão das instituições e empresas públicas e privadas. O problema do merceeiro é ter observado que, por mais promoções que faça, não vende mais por causa dos pobres terem a característica de não terem dinheiro.

3.   
Porto08.03.2019 18:21
O texto tem tido diferentes interpretações dignas de Freud. Muito bom mesmo. Pelo texto e pelo que faz pensar (revelar) certas pessoas

4.   
08.03.2019 17:15
Depois de meia dúzia de anos sem ir a Londres, voltei lá na semana passada. Voltei lá e voltei para cá doente incomodado com tantos e tantos sem-abrigo. Muita gente nova, com menos de 30 anos.

5.   
08.03.2019 16:46
Este texto é mesmo muito bom. Até que enfim que apareceu alguém para comentar aquela frase. Soberbo. Parabéns

1.   
Steventon08.03.2019 18:06
Concordo com o Rogerio Borges. Excelente texto.

6.   
évora08.03.2019 13:38
o truque retórico favorito do opinante das sextas resume-se a descrever rigorosamente os factos e os valores da ascensão social da pobreza aos 'remediados', na sua história planetária, mas pôr nisso o tom escarninho do menino-mais-espertinho-que-os-outros-que-os-está-a-gozar-durante-o-recreio. Sinto aqui um tique retardado de adolescente. Claro que os ricos o querem ser mais, e o que os pobres querem é serem mais ricos ainda do que isso: o que julga o ás que é o euromilhões, feito de encomenda para a classe média? O ás não percebe que pertencer a uma classe é pertencer ao struggle aspiracional que mistifica, aliena e conserva em tensão superativa essa classe (sobretudo a classe média, em q o dispositivo foi afinado à perfeição). Se ele fosse pobre, calava mas era a boca e ia ao pingo doce.

1.   
évora08.03.2019 13:46
Que julga AG que é a China? Um pingo dulcíssimo a ser papado por uma classe média robusta galvanizada para essa espiral progressiva de produção-consumo (o mesmo hífen que explica o incesto dos poderes, na coluneta lateral) que atira o país para superpotência. Se tivesse um pouco mais de vida, era isso que o merceeiro teria dito: estamos aqui a tornar as nações europeias integradas em superpotência, graça ao embaratecimento da produção e distribuição em massa, que permite converter a pobreza económica em remediação social mediante o encontro de todos no consumo dessa ‘coca-cola’ igual para o presidente e para o varredor. O que lixa o esquerdismo do AG é que essa classe média é a burguesia triunfante. É essa humilhante aurea mediocritas q ele não perdoa. Porque é rico - e 'rico intelectual'.

7.   
Porto08.03.2019 12:23
Este artigo não é uma opinião, é um manifesto de alguém que vai morrer a pensar coisas como essa da classe média ter sido "inventada para alimentar a sociedade de consumo", como a de que “pôr os pobres a trabalhar” é para os impedir do "deboche". Pensava eu que viver na ociosidade à custa dos outros era algo que os comunistas abominavam, mas afinal não. Pode-se afinal não trabalhar e consumir. O que é preciso mesmo, é acabar com esses que têm a mania de ser classe média, acabar com todos os ricos substituindo-os por funcionários do partido para colocarem os pobres a trabalhar de maneira a que os funcionários vivam bem.

8.   
08.03.2019 11:52
Torná-los "classe média",para pagar os impostos

9.   

C. PIEDADE ALMADA08.03.2019 11:52
Classe média, - 700 euros por mês ao fim de +30 anos de trabalho nessa cadeia de mercearias?! Será que o sr. ensandeceu já? E, hoje o presidente do Fórum para a Competitividade, Pedro Ferraz da Costa, diz /muitas pessoas ar´ganham mais do que deviam" ...Lamentavelmente esqueceu-se de dizer que devia ser a começar por ele e seus congéneres.