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sexta-feira, 25 de agosto de 2023

Sophia de Mello Breyner - Pelo negro da terra e pelo branco do muro

* Sophia de Mello Breyner Andresen

 10 de Agosto de 2002, 0:00

Há uma beleza que nos é dada: beleza do mar, da luz, dos montes, dos animais, dos movimentos e das pessoas. Mas há também uma outra beleza que o homem tem o dever de criar: ao lado do negro da terra é o homem que constrói o muro branco onde a luz e o céu se desenham. A beleza não é um luxo para estetas, não é um ornamento da vida, um enfeite inútil, um capricho. A beleza é uma necessidade, um princípio de educação e de alegria. Diz S. Tomás de Aquino que a beleza é o esplendor da verdade. Pela qualidade e grau de beleza da obra que construímos se saberá se sim ou não vivemos com verdade e dignidade. A obra do homem é sempre um espelho onde a consciência se reconhece. Quando olhamos à nossa roda as aldeias, vilas e cidades de Portugal temos de constatar que quase tudo quanto se construiu nas últimas décadas é feio. Feio e - ai de nós! - para durar. Feias as obras públicas e feias as obras particulares. As excepções à regra de fealdade são raras. Costuma dizer-se que a nossa pobreza é a origem dos nossos males. Mas o que caracteriza grande parte da nossa arquitectura desta época é o novo-riquismo. Um novo-riquismo exibicionista - quase sempre sem funcionalidade e sempre sem cultura e sem sensibilidade. Isto é especialmente triste quando comparamos o presente com o passado: de facto olhando os antigos solares de pedra e cal vemos que a nossa arquitectura soube criar nobreza sem riqueza. Daí a pureza e a dignidade de tantas casas antigas. Agora não se trata evidentemente de copiar o passado: a arquitectura é uma arte e a arte é criação e não imitação. Continuar não é imitar e imitar é sempre ofender e trair aquilo que é imitado. Mas é necessário que exista aquela consciência do passado e do presente a que chamamos cultura. Somos um país antigo. Dizem-nos que somos um país pobre. É estranho que destas coordenadas resulte uma arquitectura de novos ricos. A construção da cidade moderna traz problemas difíceis de resolver: problemas de espaço e de circulação. Mas entre nós estes problemas só existem em Lisboa e no Porto. No resto do país os problemas são quase unicamente problemas de humanidade, de bom senso, e de bom gosto ou seja problemas de moral, de inteligência e de sensibilidade e cultura. A regra a seguir é esta: uma casa para todos e beleza para todos. E a beleza não é cara. É geralmente menos cara do que a fealdade que quase sempre se chama luxo, monumentalismo, pretensão. A beleza é simplicidade, verdade, proporção. Coisas que dependem muito mais da cultura e da dignidade do que do dinheiro. Penso neste momento especialmente na terra do Algarve, com suas praias, suas grutas, seus promontórios, seus muros brancos, sua luz claríssima. É preciso não destruir estas coisas. É preciso que aquilo que vai ser construído não destrua aquilo que existe.  arte é sempre a expressão duma relação do homem com o mundo que o rodeia. A arquitectura é especificamente a expressão duma relação justa com a paisagem e com o mundo social. Fora destas coordenadas só há má arquitectura. Afirma-se que é necessário desenvolver turisticamente o Algarve. Para isso será preciso construir. Mas é necessário que aqueles que vão construir amem o espaço, a luz e o próximo. Existem todas as condições para que se possa criar no Algarve uma boa arquitectura: ali temos uma paisagem e uma luz que pedem "arquitectura", ali encontramos um uso belo e tradicional do barro e da cal; ali temos uma arquitectura local lisa e pura como uma arquitectura moderna, uma arquitectura popular cujos temas o arquitecto poderá desenvolver duma forma mais técnica e mais culta: ali temos um clima que facilita a vida e propõe soluções de extrema simplicidade. Ali poderemos ter os materiais, as inovações, a técnica e a cultura do nosso tempo. Ali poderão trabalhar os arquitectos competentes que existem no nosso país. Mas é urgente evitar os seguintes perigos:- A incompetência- O saloísmo- As especulações com os terrenos- Os maus arquitectos- O falso tradicionalismo- A mania do luxo e da pompa- As obras de fachada Acima de tudo é preciso evitar a falta de amor. De todas as artes a arquitectura é simultaneamente a mais abstracta e a mais ligada à vida. Aqueles que não amam nem o espaço, nem a sombra, nem a luz, nem o cimento, nem a pedra, nem a cal, nem o próximo, não poderão criar boa arquitectura.

(Publicado em Janeiro de 1963, no nº 21 da "Távola Redonda")

https://www.publico.pt/2002/08/10/jornal/pelo-negro-da-terra-e-pelo-branco-do-muro-173555

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Poemas de Sophia no funeral de Nuno Teotónio Pereira


22.01.2016 às 19h50

 A última homenagem ao arquitecto foi numa igreja com a sua assinatura
O funeral do arquitecto Nuno Teotónio Pereira começou ao som da “Cantata da Paz”. “Vemos, ouvimos e lemos/ Não podemos ignorar”, assim reza o refrão do célebre poema de Sophia de Mello Breyner, musicado por Francisco Fernandes, e que foi suavemente entoado por algumas centenas de pessoas que quiseram prestar a última homenagem ao cidadão arquitecto, cuja vida se confundiu com o catolicismo progressista dos anos sessenta e setenta. O poema, aliás, fora cantado pela primeira vez numa vigília contra a guerra colonial realizada na igreja de São Domingos, na passagem de 1968 para 1969, e organizada clandestinamente por Teotónio Pereira e pela amiga Sophia. Voltou a ser cantado ao princípio da tarde de hoje na igreja do Sagrado Coração de Jesus, em Lisboa, obra da autoria do arquitecto, que lhe valeu um dos quatro prémios Valmor e onde quis que o seu corpo ficasse em câmara ardente.

“CAPACIDADE DE REUNIR E ENVOLVER PESSOAS”

A cerimónia, muito simples, foi presidida pelo frei Bento Domingues, que conheceu Teotónio Pereira em 1962 e de quem também era grande amigo. O dominicano saudou a assistência, dizendo que lhe fazia lembrar “os encontros dos terceiros sábados”, como ficaram conhecidas as reuniões, promovidas por Teotónio Pereira e a primeira mulher, Natália Duarte Silva, perto do Campo Pequeno, e que há mais de 40 anos constituíam um habitual ponto de encontro de numerosos católicos progressistas. Bento salpicou a sua intervenção com várias leituras, incluindo uma crónica de 1995 do próprio arquitecto no Público, as bem-aventuranças do evangelho de São Mateus (numa velha versão do movimento Metanóia) e até uma frase de Raul Solnado, que lhe ouvira pouco antes de morrer: “Deus do amor, livra-me de um deus sem humor…” Socorrendo-se de numerosas citações do Papa Francisco, o sacerdote estabeleceu um certo paralelismo entre Jorge Bergoglio e Teotónio Pereira, em termos de irrequietude, inconformismo e alegria. Deste, elogiou a “sua capacidade de reunir e envolver pessoas”, de “inventar” e de “não fazer juízos de valor”. Bento Domingues quis terminar com mais um texto de Sophia, extraído da sua “Carta aos amigos mortos”: “E eu vos peço por este amor cortado/ Que vos lembreis de mim lá onde o amor/ Já não pode morrer nem ser quebrado./ Que o vosso coração que já não bate/ O tempo denso de sangue e de saudade/Mas vive a perfeição da claridade/ Se compadeça de mim e de meu pranto/ Se compadeça de mim e do meu canto.”
Da família, falou um dos netos, para um muito terno e comovido elogio do avô, que, disse, viveu os últimos tempos na obsessão de completar 94 anos – o que aconteceria no próximo dia 30 – e sobretudo de vir a conhecer o primeiro bisneto, nascido no longínquo Equador.

QUATRO PRÉMIOS VALMOR

Nuno Teotónio Pereira ficou em campa rasa no cemitério do Lumiar. Na igreja, o Estado português esteve presente através da sua segunda figura, o presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues, e do primeiro-ministro, António Costa. À cerimónia compareceram inúmeras figuras do catolicismo progressista, mas também do extinto Movimento de Esquerda Socialista (MES), um pequeno partido de que Teotónio Pereira foi um dos principais dirigentes. Em termos políticos, viam-se personalidades de todos os quadrantes políticos, com destaque para o PS.
“As pessoas são mais importante que a obra”, afirmou Bento Domingues na sua intervenção, garantindo que essa fora sempre a perspectiva de Teotónio Pereira. A sua obra como arquitecto é vastíssima. Para além da igreja que o acolheu (feita em colaboração com o grande amigo Nuno Portas, que também esteve presente), foram distinguidos com o prémio Valmor três outros trabalhos seus: o edifício “Franjinhas”, na Rua Braamcamp (com João Braula Reis); um prédio de habitação na freguesia dos Olivais Norte (com António Pinto Freitas); e a estação de metropolitano do Cais do Sodré (com Pedro Botelho). Mas um dos trabalhos em que mais se revia esteticamente é o Bloco das Águas Livres, também em Lisboa, desenhado em colaboração com Bartolomeu da Costa Cabral.
Casado em segundas núpcias com a artista plástica brasileira Irene Buarque, Nuno Teotónio Pereira tinha três filhos e faleceu em Lisboa no passado dia 20.

http://expresso.sapo.pt/sociedade/2016-01-22-Poemas-de-Sophia-no-funeral-de-Nuno-Teotonio-Pereira



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Livraria Lello - Porto




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Livraria Lello
Rua das Carmelitas, 144
4050-161 Porto
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A história da livraria Lello remonta a 1869, ano em que é fundada na Rua dos Clérigos a Livraria Internacional de Ernesto Chardron.
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Após o imprevisto falecimento de Chardron, aos 45 anos de idade, a casa editora foi vendida à firma Lugan & Genelioux Sucessores.
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Em 1894 Mathieux Lugan vendia a Livraria Chardron a José Pinto de Sousa Lello que possuía então uma livraria na Rua do Almada.
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Associado ao irmão, António Lello, mantêm a Livraria Chardron, com a razão social de José Pinto de Sousa Lello & Irmão, até 1919, ano em que o nome da sociedade muda para Lello & Irmão Lda.
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A Livraria Lello e Irmão, também conhecida como livraria Chardron, ou simplesmente livraria Lello situa-se na Rua das Carmelitas,144 no Porto.
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A fachada neogótica é do engenheiro Xavier Neves
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Porto ~ Livraria Lello e Irmão



 guia

lazer 

 
© 2011 PÚBLICO







Por Nelson Garrido

 




27.01.11 Por Susana Cruto
É considerada uma das mais belas livrarias do mundo. A centenária Lello é uma instituição do Porto e é já visita obrigatória para quem vem de fora.

Entra-se e há livros... muitos livros. Um local onde o passado, o presente e o futuro se entrelaçam numa escadaria vermelha, que sozinha conta histórias e ilustra imagens. Na Rua das Carmelitas, no Porto, a Livraria Lello & Irmão faz na próxima quinta-feira 104 anos e já mostrou a quem por lá passa que é mais do que uma loja de instrumentos de leitura.
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Perto da ala nocturna da Rua das Galerias de Paris, onde os mais jovens acolhem a noite com risadas e euforia, está a requintada e histórica livraria - uma segunda casa para muitos, um ponto de visita para outros.
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Tacos de madeira, organizados, compõem o chão que os nossos pés pisam levemente. Dois andares e uma união arrebatadora: uma longa e característica escadaria vermelha. São mais de 120.000 títulos que embelezam este local de grande culto nas mais diversas áreas e línguas.
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Um refúgio sem dúvida hospitaleiro que faz parte da memória de Beatriz Pacheco Pereira desde criança. Fundou o Fantasporto, escreve sobre o Porto e luta pela cidade Invicta. "É uma livraria que me acompanha, mas tem um defeito grande. Entra-se atraído pelas montras, sempre cuidadas, mas depois há um momento de esplendor que nos faz esquecer por que entramos, o livro da montra que iríamos comprar. E talvez estes deslumbres sejam maus para o negócio dos livros", partilha. Mas também tem uma qualidade. "Continua a ser uma livraria a sério, como já não há muitas na cidade. Requintada, solene, um templo do livro e do saber. Magnífica. E, para raiva de muitos, no Porto...E o ambiente? Calmo, nada tecnológico e industrial. Entre o sublime e o realista."
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A Lello é um recanto sagrado, onde os livros fazem viajar a lugares encantados. Entramos num mundo cheio de pormenores que embelezam o número 144 da Rua das carmelitas. Em estilo neo-gótico, possui uma magnífica fachada, formada por um amplo arco abatido, cuja entrada se divide numa porta central, ladeada por duas montras que constituem verdadeiramente os expositores públicos da livraria. Dos lados da janela, destacam-se duas figuras pintadas, da autoria de José Bielman, simbolizando uma a Arte e a outra a Ciência.
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Um ambiente acolhedor, onde pontificam os livros e uma decoração imponente. Uma vasta sala, com uma galeria que dá acesso a uma escada ornamental, onde correm algumas mesas que servem para exposição dos livros. Bancos em madeira e revestidos a couro e estantes a toda a altura desta sala perfazem o espaço interior próprio de uma livraria actual, mas que guarda a memória do passado. À esquerda e à direita, nos longos pilares, distinguem-se os ilustres homens das letras, como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Teófilo Braga ou Guerra Junqueiro. E se é do tempo do filme O Xangô de Baker Street recorde-se que aqui foram filmadas algumas cenas desse filme baseado no romance de Jô Soares.
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Já dizia Fernando Pessoa que o poeta é um fingidor. Mas António Pedro Ribeiro não é de representar. Entrou pela primeira vez na livraria há cinco anos e ficou impressionado. Um poeta e cronista do Porto que invade poucas vezes a livraria, mas que já conseguiu traçar uma caracterização bastante poética. "A Lello é um espaço aberto ao leitor e à leitura. Um hino ao livro e à leitura. E é mais do que uma livraria. É uma maravilha da arquitectura. Uma casa do livro, do convite à leitura e do convívio entre leitores", qualifica.
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O aspecto arquitectónico chama logo à atenção a quem seja ou não arquitecto. Mas os especialistas da matéria têm mais a dizer. São amigos de longa data, mas foi há sete anos que Vasco Morais Soares, arquitecto da Lello & Irmão, convidou António Fuentes Flores a visitar a reabilitação que tinha concretizado. Veio do México, pisou a obra histórica e não escondeu que ficou encantado. E comenta, sem rodeios, as virtudes desta obra. "É um espaço bonito, muito bem feito, que preserva e respeita o seu estilo original, com trabalho de madeira também fantástico nas prateleiras. A escada central iluminada e um vidro manchado magnífico, assim como as inovações tecnológicas do seu tempo, como o carrinho de faixas para o transporte dos livros, são pormenores belos. Eu não me atreveria a mudar alguma coisa neste espaço", refere.
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A Lello & Irmão é considerada a livraria mais antiga de Portugal. Está no Porto desde 1881 e fica num prédio com vitrais, painéis, colunas e com uma escadaria no centro. "A principal, e extraordinária característica do edifício, é singular. Nunca se ouviu dizer que é parecido com..." - é assim que José Manuel Lello, um dos responsáveis da livraria, começa a descrição deste mundo dos livros. Já conhece os turistas e consegue revelar algumas das reacções a este espaço. "Os turistas, além de ficarem espantados à entrada - embora a conheçam de fotografias, querem conhecer o espaço ao vivo -, procuram livros sobre Portugal, o Douro, Vinho do Porto, azulejos, guias turísticos, literatura portuguesa traduzida na sua língua, e também recordações da livraria - brochura com a história, postais, etc.", conta.
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Há quem diga ao ouvido que, se a Lello fosse uma pessoa, poderia ser um filósofo aristocrata ou até mesmo Salomé, segundo os desenhos de Aubrey Beardsley para a peça de Oscar Wilde. Mas há quem vá mais longe e consiga relatar um dia completo desta mulher. Inês Botelho é autora da trilogia de fantástico O Ceptro de Aerzis, composta por A Filha dos Mundos (2003), A Senhora da Noite e das Brumas (2004) e A Rainha das Terras da Luz (2005) e narra assim um dia desta mulher Lello: "Vinha todos os dias sentar-se na esplanada, a figura elegante, mas nunca totalmente correcta. Na roupa de corte irrepreensível, entre o clássico e o moderno, havia uma bainha dobrada, ou uma pequena nódoa de tinta-da-china, ou um ombro deformado pelo peso da pasta sobrelotada de livros, revistas, jornais." E deixa correr a imaginação: "Ou então era o cabelo, bem penteado mas desgrenhado pelo vento, ou pelos dedos que o levantavam e enrodilhavam num gesto inconsciente. Ou talvez se limitasse a um excesso de perfume, um odor demasiado intenso a lavanda que lembrava prados junto a um castelo granítico após uma manhã de temporal, ou uma fragrância forte, a tender para o doce e a convocar noites quentes em cafés vagamente orientais." Mas põe um travão na fantasia e termina: "Algo incerto, imprevisível. Pequenas preciosidades, como os berlindes, canetas, flores secas, caderninhos que numa ou noutra ocasião lhe caíam dos bolsos."
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E se um dia for editado algum livro sobre a história da livraria, Beatriz Pacheco Pereira escreveria assim no prefácio: "Nasceu neogótica como era a grande moda do século XIX, com ares de Walter Scott, com toques pré-rafaelitas. Depois assumiu-se local de saber e do livro, depois local de romagem nostálgica ou divertidamente turística. Há uma confluência mágica na Lello." 

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Oscar Niemeyer e o comunismo como valor

Leonardo Boff



Apesar dos abatimentos nacionais e internacionais deste agônico 2007, tivemos, no dia 15 de dezembro, uma discreta alegria: os cem anos de nosso maior arquiteto Oscar Niemeyer. Sua voz suave e cansada nos conclama para a solidariedade e para uma grande simplicidade de vida.

Sua visão de mundo se funda no comunismo, ao qual foi fiel durante toda a vida, em tempos em contratempos,. Mas trata-se de um comunismo como valor ético que visa a resgatar da sociabilidade humana, a capacidade de sentir o outro e de caminhar com ele como companheiro e não como competidor. "É preciso olhar o outro, ser solidário; as pessoas que só pensam em suas profissões não vêem a pobreza; só querem ser vencedores". Para ele o importante "não é ser arquiteto, ser especialista, ser mundialmente reconhecido. O importante é a vida e a amizade. A palavra mais importante da minha vida é solidariedade".

Essa solidariedade especialmente para com os pobres, o torna simples como simples são as suas formas arquitônicas. Vive a verdadeira humildade de quem comunga do mesmo húmus (donde vem humildade):"todo mundo é igual; a pessoa vem à Terra, conta a sua historinha e vai embora".

Nunca esquecerei uma longa conversa com ele durante um almoço em Petrópolis no final dos anos 70. Naquele dia acabava de retornar de Cuba. Eram ainda os tempos de relativa abundância, antes da queda da União Soviética. Contava-lhe como era universal o sistema de saúde, como o ensino era aberto a todos, independentemente de sua extração social ou racial, como não se viam favelas na ilha e como a população incorporara uma vida de austeridade compartilhada. E referi-lhe as longas conversas com Fidel, noite a dentro, sobre religião e a teologia da libertação que tentava e ainda tenta fazer do Cristianismo uma força de transformação histórica contra a pobreza e a marginalização social. Dizia-lhe citando Frei Betto: "Cuba parece uma Bahia que deu certo". Vi que Oscar ouvia tudo atentamente e seus olhos brilhavam de satisfação.

Qual não foi a minha supresa quando dias após li na Folha de São Paulo um artigo dele sobre a nossa conversa com um desenho de sua autoria: duas montanhas uma das quais encimada por uma cruz. E lá dizia: "descendo a serra de Petrópolis, eu que não creio, rezava ao Deus de Frei Boff, para que aqueles benefícios que Cuba realizou para o seu povo, chegassem também, um dia, ao povo brasileiro".

Por causa de sua solidariedade para com o povo cubano que sofre ainda um atroz embargo imposto pelos Estados Unidos, está abrindo em Cuba um posto avançado, uma escola de arquitetura, sem qualquer lucro, apenas o necessário para manter o escritório.

Pessoas assim nos fazem crer que o ser humano é resgatável, que a voracidade da acumulação privada de riqueza distorce o sentido da vida, que o ideal capitalista é profundamente perverso porque inumano, nada solidáro e alheio à qualquer comiseração para com o próximo.

Sua mensagem maior que vale mais que qualquer discurso de alguma autoridade religiosa foi expressa no Jornal do Brasil de 21 de abril deste ano:"O fundamental é reconhecer que a vida é injusta e só de mãos dadas, como irmãos e irmãs, podemos vivê-la melhor".

Com estas palavras fechamos 2007 com a esperança de que 2008 comece a realizar o sonho singelo deste ancião sábio e simples que na construção da catedral de Brasília com seus braços estendidos ao céu, deu forma à sua secreta mística da solidariedade, nascida do mais puro ideal comunista.

- Leonardo Boff é Teólogo, da Comissão da Carta da Terra


http://alainet.org/active/21389

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

OSCAR NIEMEYER em "CONVERSA DE ARQUITECTO"


OSCAR NIEMEYER
CAMPO DAS LETRAS REEDITA "CONVERSA DE ARQUITECTO"

Oscar Niemeyer é unanimemente considerado um dos maiores vultos de sempre da arquitectura mundial, tendo assinado projectos como a cidade de Brasília, ou a sede das Nações Unidas em Nova Iorque assim como muitas, muitas outras obras de indiscutível valor, espalhadas pelas mais diversas cidades do Mundo.

Oscar Niemeyer faz no próximo sábado, dia 15 de Dezembro, 100 anos!

A Campo das Letras associa-se às inúmeras comemorações do seu centésimo aniversário reeditando
"Conversa de Arquitecto", um livro que resultou de um pedido feito a Oscar Niemeyer para que preparasse alguns textos que dessem a conhecer aos interessados em arquitectura, e aos jovens em especial, uma aproximação aos seus métodos e concepções de trabalho.
O resultado é esta pequena obra-prima da literatura e plasticidade.

Outros livros de Oscar Niemeyer
na Campo das Letras:

"Meu Sósia e Eu"

"As Curvas do Tempo"


Não é o ângulo recto que me atrai
nem a linha recta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e sensual,
a curva que encontro nas montanhas
do meu país,
no curso sinuoso dos seus rios,
nas ondas do mar,
no corpo da mulher preferida.
De curvas é feito todo o universo,
o universo curvo de Einstein.



CAMPO DAS LETRAS - Editores, S.A. > Edifício Mota-Galiza - R. Júlio Dinis, 247 - 6º E 1 > 4050-324 Porto
campo.letras@mail.telepac.pt > Tel. (351) 22 608 08 70 > Fax (351) 22 608 08 80


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quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Niemeyer, o Brasil e o mundo



Esta semana será de intensas comemorações -- que já vêm se dando ao longo deste ano de 2007 – dos cem anos de nosso arquiteto maior, Oscar Niemeyer. Equipes de televisão e rádio, jornais e revistas do mundo inteiro se revezam em visitas diárias ao seu escritório da Avenida Atlântica, no Rio de Janeiro, criando problemas para a sua rotina. “Não consigo trabalhar, são tantos jornalistas querendo falar comigo, mas procuro desviar do assunto arquitetura, e falo da vida, da luta política, isso que é importante”, dizia ele à revista Princípios numa destas entrevistas. Niemeyer chega todo dia às 10h30 para o trabalho. Atualmente desenvolve três projetos, dos quais o que mais o estimula é o do Centro Cultural Oscar Niemeyer – Avilés – na Espanha.


Em relação ao Brasil, Niemeyer considera que o atual governo de Luiz Inácio Lula da Silva tem se mostrado a favor do povo, contra a miséria, a violência e, principalmente, contra o intervencionismo norte-americano. Sobre a perspectiva futura, declarou por e-mail ao caderno Mais da Folha de S.Paulo que ”prefere pensar que um dia a vida será mais justa, que os homens não se olharão a procurar defeitos uns dos outros, como tantas vezes acontece. Que, ao contrário, haverá sempre a idéia de que em todos há um lado bom, uma dada qualidade a destacar (Lênin dizia que 10% de ualidades já seriam suficientes). Nesse dia, será com prazer que um procurará ajudar o outro. É a solidariedade – que ainda não existe, de um modo geral – a prevalecer”.


Niemeyer nasceu em 15 de dezembro de 1907, no Rio de Janeiro. Logo em 1934 formou-se em arquitetura pela Escola Nacional de Belas Artes e em 1935 começa a trabalhar no escritório de Lúcio Costa. Em 1936 conhece o renomado arquiteto Le Corbusier, com quem trabalhou em 1947 no projeto da sede da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque, nos EUA. Em 1940, a convite do então prefeito de Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek, projeta o cassino, a Casa do Baile, o clube e a igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, na capital mineira. Em 1945 filia-se ao Partido Comunista do Brasil, com a sigla PCB. Em 1951 projeta o Ibirapuera e o prédio Copan, no centro de São Paulo. Em 1955 funda a revista "Módulo", especializada em arquitetura no Rio de Janeiro. Em 1956 organiza o concurso para a escolha do plano piloto de Brasília, finalmente vencido por Lúcio Costa. Em 30 de junho de 1958 inaugura o Palácio da Alvorada, primeiro edifício brasiliense. Em 1963 Oscar Niemeyer recebe o Prêmio Lênin internacional em favor da paz mundial. Em 1968 projeta a sede da editora italiana Mondadori.


A partir de 1972, Niemeyer abre um escritório em Paris, na França. Em 1983 projeta o espaço público do Sambódromo no Rio de Janeiro. Em 1988 recebe o prêmio Pritzker, uma espécie de prêmio Nobel da arquitetura. Em 1989 inaugura o conjunto arquitetônico do Memorial da América Latina, numa iniciativa do Governo Orestes Quércia em São Paulo. Em 1991 projeta o Museu de Arte Contemporânea de Niterói (RJ). Em 2003 inicia a construção do auditório do Parque do Ibirapuera, em São Paulo e em 2006 inaugura o Museu Nacional Honestino Guimarães e a Biblioteca Nacional Leonel de Moura Brizola, que completam o Complexo Cultural da República, previsto pelo projeto de Brasília dos anos 50. Tem espalhadas pelo mundo dezenas de obras das quais as mais significativas são a mesquita de Argel, na Argélia, a sede do Partido Comunista Francês e a do jornal L'Humanité, a praça da cidade portuária de Le Havre, na França, entre outras. A vida de Oscar Niemeyer tem sido um exemplo de excelência em sua arte, e ao mesmo tempo de compromisso militante em prol de uma sociedade mais justa e do socialismo.

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in vermelho 10 DE DEZEMBRO DE 2007
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ver também

Fundação Oscar Niemeyer

Oscar Niemeyer - Wikipédia