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sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Francisco Louçã - Le Carré, o maior escritor britânico do pós-guerra

* Francisco Louçã 

Em outubro de 2019, o autor deixou um recado: os seus velhos espiões cansados são, como nós, testemunhas do desencantamento do nosso tempo

John le Carré sempre recusou que os seus livros fossem candidatos a prémios, e quando o seu nome apareceu, em 2011, na lista do Booker exigiu que fosse retirado. Hesitava em considerar-se um “autor”, e essa estranha modéstia favoreceu que a sua obra fosse acantonada num género entendido como secundário, o romance de espionagem. No entanto, nada de mais injusto. Le Carré foi o maior escritor britânico do pós-guerra e criou uma literatura sem par, inventou um estilo e, em contraste com Fleming e o seu 007, um dandy que brilha pela tecnologia e por um glamour passadista, criou personagens e enredos extraordinários, contraditórios e vivos. Depois da Guerra Fria, o tema dos seus primeiros grandes livros, Le Carré continuou a pintar um meticuloso inventário da viragem do século e nenhum outro autor se lhe compara nesse monumento.

UM VELHO ESPIÃO CANSADO

Como os obituários recordaram, Le Carré teve uma primeira vida como espião. Por mais de uma década, sob o disfarce primeiro de estudante e depois de diplomata, fez parte do MI5 e do MI6. O princípio não foi heroico: recrutado em Berna em 1948-1949, conta que um casal o abordou numa igreja, convencendo-o de que a pátria precisava dos seus serviços, voltou a Oxford encarregue de espiar esquerdistas na faculdade. Seguiu depois carreira na Alemanha, responsável por entrevistar desertores soviéticos de segunda linha. E começou a escrever os seus primeiros romances, até que o serviço o aconselhou a abandonar funções em 1963, temendo inconfidências ou a liberdade da pena, tanto mais que a sua identidade fora revelada pela mais bem sucedida toupeira dos serviços russos, Kim Philby. Mikhail Lyubimov, que dirigiu a espionagem russa em Londres de 1960 a 1964 e depois se ocupou em Moscovo do departamento britânico ao longo da década seguinte, confirmou que terá sido Philby a revelar a função de David Cornwell, aliás, Le Carré.

O culminar da sua obra é a figura de Geor­ge Smiley. No primeiro livro em que surge, “Chamada para a Morte”, de 1961, é apresentado pela sua mulher: “Quando Lady Ann Sercombe casou com George Smiley, no fim da guerra, descreveu-o às suas amigas de Mayfair, muito espantadas pela notícia, como um personagem de uma banalidade surpreendente.” Ele já era o “velho espião cansado”, um “solteirão falhado de meia idade” que preferia ter estudado obscuros escritores alemães do século XVII, mas que fora chamado para uma carreira nos serviços de informação. Smiley é o contraponto do misterioso e implacável Karla, que dirige os serviços de Moscovo, com quem joga um xadrez fascinante até ao fim.

Pergunta Borges, em ‘Notas sobre (para) Bernard Shaw’, incluído em “Outras Inquirições”: “Um autor pode criar personagens superiores a ele? Eu responderei que não, e nesta resposta irei abranger o intelectual e o moral. Penso que de nós não sairão criaturas mais lúcidas ou mais nobres do que os nossos melhores momentos.” Pois Le Carré prova o contrário. Smiley, que foi o seu “pai de substituição”, ou o seu “mentor secreto”, é mais verdadeiro para si próprio do que para as conveniências do seu criador. É um poderoso retrato de uma época, de uma atitude, é uma história: “Eles (os personagens) foram os veteranos de um conformismo burguês, encontram penosamente o seu lugar e respeitam a estabilidade das instituições burguesas. Parece-me que eram todos uns românticos que sofriam por serem testemunhas da sua morte espiritual na sociedade que defendiam”, escreve Le Carré. Essa decadência é penosa, e quando Smiley regressa, 56 anos depois da sua entrada em cena, foi para invetivar Trump e o ‘Brexit’ em “Um Legado de Espiões” (2017), uma vida de desilusão.

O MUNDO COMO ELE É

O primeiro sucesso de Le Carré foi “O Espião que Veio do Frio” (1963), mas foi depois “A Toupeira” (1974), que iniciou a trilogia de Karla (1977 e 1979), que o estabeleceu como o mestre do thriller de espionagem. Dez anos depois, a queda do Muro de Berlim deslocou a geopolítica da Guerra Fria, mas o autor recriou-se como o escritor das sombras, da duplicidade e da manipulação em que assenta o domínio. Percorreu o Ruanda, a Chechénia, a Turquia, o Panamá, voltou à Rússia e Alemanha, foi à Palestina, ao Caribe, ao Líbano, veio a Lisboa e escreveu. As suas duas dúzias de livros constituem um dos melhores retratos, se não o melhor, destas adaptações do poder como crime ao longo do fim do século.

Tratam do conflito israelo-palestino (“A Rapariga do Tambor”, 1983), dos traficantes de armas (1993, “O Gerente da Noite”), da mentira (“O Alfaiate do Panamá”, 1996), das manigâncias da lavagem de dinheiro (“Single & Single”, 1999), da exploração de África (“O Fiel Jardineiro”, 2001, “O Canto da Missão”, 2006), do papel de Tony Blair na invasão do Iraque (“Amigos até ao Fim”, 2003), das técnicas de sequestro e das prisões clandestinas da CIA (“Um Homem Muito Procurado”, 2008, que o “New York Times” considerou “a sua novela mais poderosa”) e, de novo, uma feroz denúncia do terror a pretexto da guerra ao terror (“Uma Verdade Incómoda”, 2013). Foi autobiográfico em “Um Espião Perfeito” (1986), polemizou acidamente com Salman Rushdie no confronto épico entre dois egos (1997) e, em outubro de 2019, com o “Agente em Campo”, deixou o seu testamento. Um livro melancólico, mais uma vez sobre um fracasso. Foi esse o recado de Le Carré: os seus velhos espiões cansados são, como nós, testemunhas do desencantamento do nosso tempo.

18.12.2020

quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Clara Ferreira Alves- A FOTOGRAFIA DE JOHN LE CARRÉ

* Clara Ferreira Alves 
PLUMA CAPRICHOSA

ERA UM GENIAL CONTADOR DE HISTÓRIAS, UM MÍMICO RESPEITÁVEL, CÓMICO E SÉRIO AO MESMO TEMPO. IMITAVA AS VOZES, OS MANEIRISMOS, ERA A MELHOR COMPANHIA QUE SE PODIA DESEJAR

O homem era muito alto. Bati com suavidade à porta, ele entreabriu, e pela fenda consegui dizer “sou jornalista, Expresso, venho para a entrevista”. O homem respondeu, agora não vou dar entrevista. Neste momento não. Insisti. Estava a ler e não ia interromper a leitura para falar comigo. Tudo dito com polidez glacial, naquele tom das classes educadas da Inglaterra. A fenda da porta alargou, ligeiramente. Conseguia agora ver a cara, fechada e sem um sorriso, com um sobrolho levantado. Percebido, lá se ia a oportunidade de falar com John le Carré. Perdido por cem perdido por mil, perguntei com insolência o que ele estava a ler que não podia ser interrompido. A porta abriu um pouco mais, deixando ver uma figura alta, com uma madeixa de cabelo de cor indefinida, louro branco, sobre a testa. Respondeu que era Flaubert, “Madame Bovary”. Aí eu não resisti e disse, adoro esse romance, já o li tantas vezes. E ele, eu também, quantas? Nove vezes. E dissemos os dois ao mesmo tempo, nove vezes. Nine times. Com esta declaração que parecia cronometrada, a porta abriu-se completamente. O escritor, admirado com a coincidência, continuou a falar de Flaubert, a atenção ao pormenor, discutimos ainda uma comparação com Tchekov, o modo como ambos conseguiam caracterizar uma personagem através do que a rodeava ou do estado da luz, ou das observações sobre a paisagem. E assim consegui a entrevista de David John Moore Cornwell. Aliás, John le Carré.

Estava em Lisboa para fazer pesquisa sobre “A Casa da Rússia”, e Mário Soares convidou-o para almoçar em Belém. Deu uma entrevista, aquela, naquele tempo não dava entrevistas. Estava em exílio voluntário de quaisquer comunicações com a imprensa, detestava o meio literário londrino e considerava certa condescendência da crítica perante a obra um pecado original da mediocridade. As recensões aos livros e a frase repetida de que era um escritor de romances de espionagem que queria ser levado a sério deixavam-no mortificado. Tinha publicado “Um Espião Perfeito”, o livro que Philip Roth considerou o melhor romance inglês do pós-guerra. Tinha publicado “O Espião que Saiu do Frio” e “Tinker Tailor Soldier Spy”, o primeiro volume da trilogia “The Quest for Karla”, juntamente com “The Honourable Schoolboy” e “A Gente de Smiley”. A trilogia é um monumento literário. Antes das pressões de marketing dos grupos editoriais, os escritores davam raras entrevistas e Le Carré era uma estrela da literatura, com os livros adaptados ao cinema e televisão.

Abriu o minibar e perguntou se queria um whisky, uma garrafinha anã. Bebemos os dois, cada uma com a sua garrafinha, no quarto do Ritz, um quarto com duas camas. Nada de suítes presidenciais. O fotógrafo chegou, o António Pedro Ferreira, e fotografou no final da entrevista. Não foi o princípio de uma bela amizade, mas enquanto esteve em Lisboa voltámos a falar, queria saber coisas sobre o país, a capital pós-imperial que iria ser parte do livro que estava a escrever.

A entrevista saiu na Revista, com uma bela fotografia na capa, um primeiríssimo plano da cara. De Lisboa, o escritor seguiu para Moscovo. Quando regressou a Londres, viu a entrevista, traduzida, suponho que pela gente da agência dele. Gostou, e gostou da fotografia.

Tempos depois, recebi uma carta da agência, solicitando a fotografia para a contracapa da edição original de “A Casa da Rússia”, “The Russia House”. A agência pagaria o que pedíssemos, e a fotografia seria assinada. Uma oportunidade de ouro, visto que só os grandes fotógrafos tinham fotografado Le Carré, um escritor que sempre cuidou da pose e que respeitava a imagem e a estética da representação, e não resistia a aparecer em cameo nos filmes. Os fotógrafos idolatravam-no. Anton Corbijn, que melhor o capturou, acabaria a filmar “O Homem Mais Procurado”, uma fiel adaptação das luzes e sombras do universo Le Carré.

Provavelmente, a fotografia da edição inglesa seria a da edição americana. Num alvoroço, entreguei o pedido ao António Pedro Ferreira, para que respondesse logo, combinando o modo de fazer chegar o negativo ou o slide, não me lembro. Não voltei a receber correspondência da agência, o livro ia ser publicado. E foi. Sem a fotografia portuguesa. O fotógrafo era Terry O’Neill, um retrato estudado, como tantos que faria do escritor. Foi um dos seus retratistas favoritos. Um grande plano da cara, ocupando a contracapa. Terry O’Neill estava casado com Faye Dunaway nessa altura, e era um dos nomes grandes da fotografia. O que aconteceu?

O António Pedro Ferreira nunca respondeu à agência, porque a fotografia se tinha estragado na gráfica. Estava riscada. A única coisa que me disse, ao princípio, foi que oferecia a fotografia, antes de saber que estava danificada. As gráficas não tinham cuidado. Embaraçado, o meu amigo fotógrafo deixou o silêncio falar. Perguntei se não deveriam ter sobrado fotografias, tão boas como aquela. O A. P. F., que eu escolhera para o trabalho de fotografar Le Carré, manteve teimosamente que era aquela ou nenhuma. E aquela não podia ter sido.

E assim dei por mim a escrever uma longa carta a Le Carré pedindo desculpas, explicando o imbróglio, a gráfica, a teimosia do fotógrafo e sobretudo a ausência de uma resposta da nossa parte. Nem uma linha na volta do correio. Quando o livro já tinha sido publicado, com a assinatura de Terry O’Neill, tive uma sessão de descompostura com o A. P. F. Voltei a escrever, para dizer o que pensava sobre o livro, quando já se filmava a versão com Sean Connery e Michelle Pfeiffer. Recebo meia dúzia de linhas datilografadas, polidas, agradecendo o interesse e as palavras. Fim de comunicação. “David Cornwell, call me David”, dissera ele em Lisboa, ficara irritado? Nunca saberei.

Voltei a ver John le Carré muitos anos depois, na Cornualha, perto de Penzance, onde ele vivia à beira-mar, em Land’s End. No fim da terra. Passava em Londres apenas o tempo suficiente para tratar de assuntos, nunca mais de dez dias. Um amigo meu era amigo de um amigo dele. Fomos todos a um pub, num dia de chuva miudinha e rançosa, beber e conversar. O escritor estava mais velho. E, se possível, mais famoso. Falámos de Lisboa, da melancolia da cidade, da luz, dos pormenores gravados na imaginação. E falámos do Médio Oriente, onde passámos tempo suficiente. Era um genial contador de histórias, um mímico respeitável, cómico e sério ao mesmo tempo. Imitava as vozes, os maneirismos, era a melhor companhia que se podia desejar. O Alec Guinness (Smiley, na versão da BBC) era perfeito. Conhecia meio mundo, e era conhecido no mundo inteiro. Tinha uma vida internacional, viajada, e tinha uma vida monástica, disciplinada, para poder escrever. Todas as tardes, dava uma caminhada. O resto do tempo, escrevia. Continuava a gostar de whisky e a bebê-lo.

Terry O’Neill continuou a fotografá-lo, mas não é um dos cinco autores dos cinco retratos de John le Carré na National Portrait Gallery. Cinco. O homem tornou-se um tesouro nacional. Um dos retratos é de Lord Snowdon, que foi casado com a princesa Margaret. Numa das sessões de fotografia, a primeira, Lord Snowdon perguntou-lhe se podiam passar a nomes próprios, sem títulos. Claro, respondeu David Cornwell. Você tem mais a perder do que eu.

in  

A fotografia de John le Carré

18.12.2020

sábado, 16 de maio de 2020

Clara Ferreira Alves -O espião chinês

PLUMA CAPRICHOSA
CLARA FERREIRA ALVES

A CHINA E OS SERVIÇOS SECRETOS CHINESES NUNCA ATRAÍRAM A NATA DOS ROMANCISTAS DE ESPIONAGEM. A CHINA TEM OS MAIS SECRETOS E MAIS BEM ORGANIZADOS SERVIÇOS DE INTELLIGENCE DO MUNDO

A
cabou “Segurança Nacional”. A série aguentou oito temporadas sem que a intriga tenha destrambelhado, como costuma acontecer a séries de alto risco com uma história cheia de curvas e contracurvas, escrita por dezenas de argumentistas. Vimos envelhecer as personagens e estamos muito longe da “traição” inicial, mas o final é uma descoberta, com Carrie Mathison a transformar-se em Nicholas Brody. A mancha de Rorschach desenha a simetria das duas personagens, Carrie e Brody, o nó romântico e trágico da série. Howard Gordon e Alex Gansa nunca perderam o fio à meada e controlaram o resultado.

Claro que Hollywood, como o resto das ficções de espionagem, nunca encontrou melhor inimigo e adversário do que a Rússia e a antiga União Soviética. Os árabes e muçulmanos substituíram às vezes e aguentaram o papel de inimigos secundários, no banco dos suplentes, mas tanto antes como depois do 11 de Setembro, as histórias de terroristas e dos vapores tóxicos do Médio Oriente nunca conseguiram destronar a atração do cinismo eslavo e da inquietação gerada pelo KGB, hoje GRU. Para os romances de espionagem, que ganharam a consagração durante a Guerra Fria e a Cortina de Ferro, no caldo fumegante do pós-guerra e da construção do Muro de Berlim e de Checkpoint Charlie, as intrigas e traições dos serviços secretos, com as histórias e personagens nascidas das brumas, com o jogo de espelhos, são o material de excelência.

John Le Carré, filho de Joseph Conrad e de Graham Greene, os precursores, conferiu ao género uma qualidade literária, que começa com “O Espião que Saiu do Frio”, o primeiro best-seller do autor e a matriz fundadora desta literatura na segunda metade do século XX. O romance, de 1963, apresenta-nos o espião relutante Alec Leamas, um agente britânico enviado para a Alemanha Oriental fazendo-se passar por dissidente para espalhar desinformação sobre um importante oficial da secreta comunista do lado de lá. Leamas, ao contrário de muitos espiões, tinha uma consciência. A consciência do espião, e as suas valorações axiológicas, que o fazem hesitar, duvidar, ou estar disposto a morrer antes de triunfar, é o que distingue o espião bom do espião mau. O bem do mal, se quiserem. Carrie Mathison está sempre à beira de perder a consciência, tal como o mentor Saul Berenson, mas recuperam-na no fio da navalha por onde deslizam como o caracol do coronel Kurtz.

Com a trilogia “The Quest for Karla”, “Smiley Versus Karla” em português, Le Carré atingiu a plenitude do género. A trilogia é uma obra-prima. Smiley, o chefe do MI6, joga um xadrez geoestratégico na intimidade com o homólogo Karla, chefe do KGB. Smiley é um anti-herói e Karla também, entretidos a sacrificar peões num tabuleiro onde a vida vale pouco e corre em estado líquido. Tudo em nome da pátria. O jogo é o que lhes interessa, não tanto a pátria. Smiley não joga For Queen and Country, joga para xeque-mate. Teoricamente, o jogo acaba assim, mas Smiley perde tanto como Karla quando ambos ficam soterrados na poeira dos escombros do império. São dois espiões velhos e desempregados, aposentados à força e avessos às tecnologias e às políticas da imagem. Ambos deitaram vidas a perder sem perderem o respeito um pelo outro. O mundo novo e digital do século XXI nunca os aceitaria ou compreenderia, são ambos produtos da mesma cultura fortíssima, a europeia, a da Europa que ia de São Petersburgo a Londres, passando por Praga, Viena, Paris e Berlim. Putin é um avatar deste mundo antigo e literário, na versão autocrática pós-moderna. E não é dotado de consciência, foi arregimentado pela cobiça imperial. Um czar fora de época, muito bem-sucedido porque os inimigos não estão à altura. Não se pode conceber um bom drama de espiões com medíocres atores.

As grandes centrais de espionagem romanesca foram sempre a CIA, o KGB, a Mossad, O MI6 e, tangencialmente, os serviços secretos franceses ou alemães para servirem cafés. A implacável Mossad ocupa o topo da tabela, com proezas mais militares do que de intelligence, e com uma mitologia duramente construída em paralelo com a fundação do Estado de Israel e o combate ao inimigo palestiniano. Em “A Rapariga do Tambor”, Le Carré foi seduzido pela região e as guerrilhas no deserto moral das religiões, mas não ficou muito tempo. O território dele é a Alemanha, a Inglaterra, a Rússia. Berlim, Londres, Moscovo. Afastou-se para outros continentes e regressou sempre a casa. Sozinho, John Le Carré, aliás David Cornwell, refundou o género, cristalizando na imaginação coletiva a figura do espião intelectual e indeciso sobre a pertença e identidade. Todos os espiões com consciência são espelhos do autor, refletindo a ambiguidade moral e identitária de uma condição universalista sobreposta a um nacionalismo que cria e alimenta marionetas movidas pela ambição e ganância da burocracia política e militar das nações.

A aventureira Carrie Mathison herda esta ambiguidade, característica mais inglesa do que americana. A realidade da CIA não ostenta muitas personagens como Carrie e Saul, filhos dos espiões da Guerra Fria e das operações do Médio Oriente no tempo em que se usavam luvas. E Carrie tem mais de T.E. Lawrence do que de James Jesus Angleton. Ela acaba na Rússia, desertora e traidora, a recusar going native. Na série, o apartamento de Moscovo parece-se mais com um de Manhattan do que com a modéstia dos aposentos que a Rússia reservou para os traidores ocidentais. Kim Philby vivia num cinzento prédio estalinista, encostado ao tédio e ao samovar, com um copo de whisky na mão e saudade dos prados ingleses. E não consta que Edward Snowden esteja bem instalado.

É um facto curioso que a China e os serviços secretos chineses nunca tenham atraído a nata dos romancistas de espionagem. A China tem os mais secretos e mais bem organizados serviços de intelligence do mundo, e trava uma guerra ideológica permanente com um bloco ocidental que despreza e deseja submeter. Ao contrário dos extremistas da Jihad, um bando de assassinos maltrapilhos e desorganizados, o perigo da nossa “submissão”, para usar o título do livro de Houellebecq, nunca veio daqui. Qualquer diplomata sabe que o perigo, mais do que a Rússia, é a China. Demasiado poderosa para ser confrontada. Demasiado corruptora.

O grande livro sobre a secreta chinesa tem por título “Chinese Intelligence Operations”, de Nicholas Eftimiades, a bíblia para quem queira saber alguma coisa sobre o assunto. Sobre o assunto sabe-se quase nada. Impenetrável, mais impenetrável do que a Al-Qaeda dos sauditas, a China age no segredo e na discrição milenar. Está mais ativa do que nunca, controlando a narrativa da pandemia e os danos para o país, financiando espiões e idiotas úteis, movendo as peças para capturar a rainha e dar xeque ao rei americano. Por baixo do radar, a China observa e ordena, e será a única superpotência do futuro. No entanto, raros são os escritores que se interessam por tais manobras. Nunca saberemos o que aconteceu em Wuhan, para lá da especulação. Os escritores e ficcionistas não se interessam pelo que desconhecem, nem por uma cultura referencial que lhes é estranha. A língua, os usos e costumes, os comportamentos, as paisagens. A China é o maior país do mundo e o mais bem guardado segredo do mundo.

domingo, 23 de outubro de 2016

John Le Carré - O escritor que nasceu espião



O escritor que nasceu espião
23.10.2016 às 12h00

 
HARRY BORDEN/GETTY IMAGES

Sem esperar pela resposta do biógrafo, John le Carré tomou as rédeas do seu passado. “O Túnel de Pombos — Histórias da Minha Vida”, que saiu esta semana em Portugal, é uma coleção de memórias, um aglomerado de acontecimentos que muito dizem sobre o século XX mas também sobre a obra do escritor e os seus bastidores 

Ainda o mundo tentava enfrentar os horrores da II Guerra Mundial, o morticínio dos campos de concentração nazis, já o general Reinhard Gehlen, chefe dos serviços secretos de Hitler na Frente Oriental, se instalava na Baviera, a coberto da CIA. Um acordo feito antes do fim da guerra, no qual ele oferecera o seu precioso arquivo aos americanos, transformara-o no chefe da espionagem da Alemanha Ocidental. Nesta nova agência antissoviética, o general de Hitler iria liderar velhos camaradas do núcleo nazi que, tal como ele, ganhavam uma nova vida. Em 1947, o passado era já um país estrangeiro onde crimes hediondos podiam ficar enterrados ao lado dos mortos e os seus executores alcançar redenção.

56 anos depois, o escritor inglês John le Carré (n. 1931) desloca-se ao local onde Gehlen se instalara. Em 2003, o escritor conta 72 anos. É conhecido pelos livros e famoso pela transformação destes em filmes de Hollywood (como “O Espião Que Saiu do Frio”, “A Rapariga do Tambor”, “A Casa da Rússia”, “Assassinato de Qualidade”, “O Alfaiate do Panamá” ou “O Fiel Jardineiro”), sem contar com as séries de televisão. Le Carré é recebido na bela propriedade do sul da Alemanha pelo então presidente dos serviços secretos alemães, August Hanning. Ao descer as escadas do bunker, construído pelo antigo proprietário, Martin Bormann (secretário privado de Hitler), o escritor descobre que o lugar se encontra classificado como monumento protegido ao abrigo da lei estatal da Baviera.

Le Carré visitara, em 1949, os campos de concentração de Dachau e Bergen-Belsen, “enquanto o fedor ainda persistia”. Anos mais tarde assistira, em Bona, enquanto jovem diplomata britânico e espião, à tomada de poder da velha guarda nazi e à subalternização das gerações alemãs mais novas, nas quais não havia mácula a registar. Ainda assim, está à entrada do bunker e admira-se. “Bem, talvez na minha idade eu não devesse ter parecido tão surpreendido. Não estive em tempos na profissão [serviços secretos]? O meu próprio serviço não trocara energicamente informações com a Gestapo até 1939? Não manteve relações amigáveis com o chefe da polícia secreta de Kadhafi até aos últimos dias deste no poder — relações suficientemente amigáveis para despachar os seus inimigos políticos, até mesmo mulheres grávidas, e vê-los encarcerados e interrogados com todas as melhores técnicas?”, confessa no livro “O Túnel de Pombos — Histórias da Minha Vida”, que chegou às livrarias portuguesas esta semana numa edição da Dom Quixote.

Em 2012, entrevistei John le Carré na sua casa de Londres, no bairro de Hampstead, antes da publicação de “Uma Verdade Incómoda”. Tratava-se do seu vigésimo terceiro romance, o último, por sinal, antes de “O Túnel de Pombos”. Encontrei um homem afável, generoso, disponível, diplomático o suficiente para poder imaginá-lo, como descreve agora neste livro de memórias, a acenar sagazmente, a abanar a cabeça quando devia, a tentar dizer uma piada para aliviar a tensão perante todos os homens e mulheres que, por terem poder, o atraíam. Para só mais tarde, já no seu quarto de hotel, tirar do bolso um bloco de apontamentos e então dar um sentido a tudo o que tinha visto e ouvido, a tudo o que julgava que os movia e que ele não entendia. E que, de resto, ainda não entende. É nessa militante incompreensão, nessa incansável vontade de chegar à verdade, do mundo ou dos que o lideram, mesmo que as descobertas sejam inoportunas, que devemos procurar a causa da sua surpresa à entrada do bunker de Gehlen; mas também a origem de uma empatia que faz com que o seu rosto se emocione e contraia quando pergunta, nessa entrevista, como vamos nós por cá, nós portugueses retraçados, submergidos pela crise.

John le Carré nasceu David Cornwell. Ronnie, o pai, é um caso, um mistério tão grande ou maior do que a mãe, Olive, com a qual não “se consumiu”, porque ela o abandonou aos 5 anos, quando ele e o irmão, dois anos mais velho, dormiam à noite na cama. Le Carré só voltou a encontrá-la aos 21 anos, numa estação de comboios. Sobre Olive, pouco mais soube, além das histórias traumáticas que ela guardara desse casamento violento e que insistia em relatar, anos depois, aos filhos adultos. Le Carré escreve no seu livro de memórias: “Desde o dia do nosso reencontro até ela morrer, a criança gelada em mim não demonstrou o mínimo sinal de descongelar.” Ronnie, nome pelo qual o escritor se refere ao pai, era um aventureiro, um fantasista, um vigarista que tinha dentro dele um elenco de personagens de ficção “de fazer vir água à boca ao escritor mais sofisticado”. Um homem capaz de eternamente se reinventar para poder fazer uma espalhafatosa vida de rico, apesar de a prisão lhe ter retirado a capacidade de abrir as portas, estancando em frente destas à espera que alguém lhe desse permissão para as atravessar.

Neste livro de memórias avulsas, Ronnie é remetido para o fim, pois Le Carré não quer que ele seja cabeça de cartaz — ao contrário, como diz, do que o pai, sempre “à procura das luzes da ribalta”, teria preferido, se pudesse escolher: “Matá-lo foi uma das minhas primeiras preocupações e subsistiu de modo intermitente mesmo depois da sua morte.” É esse pai que o exaspera, por não o conseguir compreender, que o levará a escrever romances em adulto. E é esse mesmo pai que lhe impõe a espionagem à nascença, “tanto como suponho o mar foi imposto ao [escritor] C. S. Forester”. Não admira, por isso, que Le Carré diga que o seu ingresso nos serviços secretos britânicos, ainda jovem estudante de um colégio suíço, seja apenas um regresso a casa: “Não foi a espionagem que me levou ao secretismo. A evasão e os enganos eram as armas necessárias da minha infância.” Ora, a espionagem e a escrita de romances, explica, foram feitas uma para a outra: “Ambas pedem um olhar atento à transgressão humana e às muitas vias para a traição.” E a infância, por seu lado, como o próprio lembra, citando Graham Greene, é o saldo credor do escritor. “Por essa medida, pelo menos, eu nasci milionário”, assegura no tal capítulo que deixa para as últimas páginas do livro de memórias, ‘Filho do Pai do Autor’.

ANTES SNOWDEN TIVESSE SIDO ESCRITOR...

Primeiro veio a espionagem. Depois a escrita de romances. Não foi o único. Somerset Maugham, Graham Greene, Compton Mackenzie, como Le Carré lembra em “O Túnel de Pombos”, foram também espiões escritores... Homens que escrevendo ficção se escusaram, na sua opinião, à alta traição, evitando caminhos como o percorrido pelo famoso agente britânico que fornecia informações ao sector soviético, Kim Philby, amigo por sinal de Graham Greene: “Comparando com o inferno que poderíamos criar por outros meios, escrever é tão inofensivo como uma brincadeira de crianças. Como os nossos pobres espiões devem estar a desejar que Edward Snowden tivesse antes escrito um romance.”

Se por um lado Le Carré acredita que, na ficção, retratou os serviços secretos britânicos como uma organização mais competente do que alguma vez tivera razões para considerar, por outro reconhece que foi lá que aprendeu a escrever: “A instrução mais rigorosa sobre como escrever em prosa que alguma vez recebi [...] veio dos agentes seniores com estudos clássicos no último andar da sede do MI5 [...] que liam os meus relatórios com um pedantismo deleitado, manifestando desprezo pelas minhas orações incompletas e pelos meus advérbios desnecessários e riscando as margens da minha prosa chã com comentários como: redundante — omita — justifique — vago — quer realmente dizer isto? Nenhum editor que encontrei desde então foi alguma vez mais exigente ou teve tanta razão.”


 Le Carré Pseudónimo de David Cornwell, nascido em 1931, em Inglaterra
Le Carré Pseudónimo de David Cornwell, nascido em 1931, em Inglaterra
FOTO DAVID LEVENSON/GETTY IMAGES

“O Túnel de Pombos” parece uma coleção de falhanços, de situações caricatas, que por isso mesmo Le Carré deve recordar melhor do que outras, até porque nunca manteve o hábito regular de alimentar um diário. Noutros casos, o escritor fala de encontros com algumas das personalidades mais importantes do século XX, como Arafat, Thatcher, Andrei Sakharov, o poeta Joseph Brodsky (com quem estava a almoçar quando este foi informado que acabara de ganhar o Prémio Nobel da Literatura), os realizadores Fritz Lang, Sidney Pollack, Francis Ford Coppola, Stanley Kubrick (com quem nunca chegou a fazer os filmes que estes lhe propuseram) ou com figuras que, embora menos conhecidas, em muito contribuíram para a narrativa desse tempo, como o correspondente norte-americano para o Sudeste Asiático e Médio Oriente David Greenway, que o ajudou a conhecer o mundo e a viajar.

Mas Le Carré não se limita a uma vã enumeração de momentos partilhados com ilustres figuras. A parte mais interessante desta coleção de memórias está na descrição de desconhecidos que de uma forma ou de outra acabaram por inspirá-lo, ao ponto de se transformarem no coração e na alma das personagens dos seus livros. E se um dos capítulos mais apaixonantes é provavelmente aquele que descreve a sua viagem à Palestina para dançar o dabke com Arafat, no Ano Novo de 1982, outra valiosa passagem é a que explica a razão pela qual se obriga a ir até às montanhas palestinianas, à porta do bunker do secretário de Hitler, às valas do Mekong no Vietname, ao refúgio dos senhores da guerra no Congo: “Primeiro vem a imaginação, depois a busca da realidade. De seguida, o regresso à imaginação e à secretária à qual agora estou sentado.”

OS TÚNEIS QUE LHE MUDARAM A VIDA

John le Carré não foi espião durante muitos anos, embora a espionagem, como conta no livro, nunca o tenha largado, imprimindo nele uma marca perene, sempre visível aos olhos dos outros. Apesar de deixar os serviços secretos ainda jovem, continuará a ir buscar inspiração ao tempo passado no MI5, até ao momento em que descobre, em Hong Kong, em 1972, a existência de um túnel. Não é o túnel de pombos que dá o nome a este livro. É outro túnel, mas terá um efeito profundamente transformador. Le Carré acabara de entregar o romance “A Toupeira” à tipografia.

No livro havia uma perseguição de ferry no estreito de Kowloon que o escritor criara com a ajuda de um velho guia turístico comprado na Cornualha. Mas em Hong Kong, acabadinho de chegar, descobre de imediato que existe um túnel nesse mesmo sítio. Não a tempo, porém, de parar a impressão do novo livro para alterar a cena, ajustando-a à realidade: “Jurei que nunca mais voltaria a descrever uma cena num local que não tivesse visitado [...] A meio da vida , eu estava a ficar gordo e preguiçoso e a viver à custa de um fundo de experiência passada que estava a esgotar-se. Chegara o momento de abordar mundos não familiares.

Uma máxima de Graham Greene [sempre Greene] soava-me algures ao ouvido; algo como, se estávamos a relatar a dor humana, tínhamos o dever de a partilhar.” Hong Kong era o ponto de partida de um périplo pelo mundo que o tem feito viajar pelo Cáucaso, Rússia, Camboja, Vietname, Israel, Palestina, América Central, Quénia, Congo. Em todas essas investidas, fez-se acompanhar de personagens que o protegem: “Quando me vi encolhido numa trincheira ao lado do rio Mekong e pela primeira vez na minha vida ouvi balas a baterem contra a terra enlameada acima de mim, não foi a minha mão trémula que confidenciou a minha indignação a um reles bloco de apontamentos, mas a mão do meu corajoso herói ficcional, o repórter da linha da frente Jerry Westerby.”

O túnel que deu nome a este livro é outro. É um que o leva de volta à infância e que várias vezes pensou em imprimir como título de outras obras. Era um túnel ou, na verdade, vários pequenos túneis que existiam junto ao casino de Monte Carlo, nos quais eram inseridos pombos vivos que teriam de esvoaçar para se transformarem “em alvos dos cavalheiros desportistas”. Os pombos que sobreviviam voltavam ao telhado, onde os esperavam as mesmas armadilhas que os colocariam de novo nos túneis e logo na mira dos atiradores.

A imagem perseguiu-o tanto como provavelmente a sombra do seu pai, a calcar-lhe o rasto um pouco por todo o mundo, a assinar os seus livros como “Pai do Autor” ou a lembrar-lhe que ele até seria conhecido mas não uma celebridade. No capítulo que lhe dedica, Le Carré conta que chegou a contratar detectives para investigarem a vida de Ronnie e a sua: “Saiam por esse mundo, disse-lhes levianamente. Fica tudo por minha conta. Encontrem testemunhas vivas e os registos escritos, tragam-me um relato factual de mim e da minha família e do meu pai e eu recompensá-los-ei.”

Em Hampstead, em 2012, John le Carré dizia que tinha um biógrafo há três anos e que de tempos a tempos ele voltava, trazendo-lhe memórias de pessoas que o tinham conhecido na escola. As memórias dos outros eram, porém, quase sempre diferentes, e até melhores, das que ele tinha dele próprio. Num golpe surpreendente até para o biógrafo, Le Carré resgatou as suas recordações, não escondendo neste livro que à memória faz corresponder uma coleção de enganos (“A memória de um escritor velho é a prostituta da sua imagem”) e à vida reserva “vagas de gratidão” sempre que caminha pelos penhascos da Cornualha, onde tem uma casa na qual se refugia a escrever. “Só o escritor em mim manteve o seu curso.”

Em exclusivo para o Expresso John Le Carré escreve sobre a vida e esse tópico precioso e misterioso que é a fonte da criatividade

UM SEGREDO MARAVILHOSO

Quando publiquei o meu livro de memórias, “The Pigeon Tunnel”, prometi que não daria mais entrevistas a ninguém, em parte alguma, e, com surpresa minha, parece que tenho cumprido a promessa. O meu motivo declarado era completamente razoável. Estava — e estou — a meio da escrita de um romance ambicioso e não quis ser novamente puxado a discutir um livro do qual tento o mais possível emergir. O meu motivo respeitável é que não gosto de viver a minha vida em público. Qualquer versão da minha vida que ofereça há de surgir rodeada por fronteiras invisíveis, portanto acho que tinha receio de ser atraído para território inimigo. Não estou a falar de casos amorosos ou de esqueletos no armário da família, mas de assuntos bastante mais íntimos e duradouros, tais como a própria fonte da criatividade, um tópico demasiado precioso, e misterioso, para ser diluído em especulações fáceis minhas. Num romance, tenho a liberdade de explorar a minha identidade sob diferentes chapéus. Na vida, é um processo embaraçoso.

Qual é a relação entre as minhas ficções e o mundo exterior ao qual presumem referir-se? Essa pergunta, que me fazem repetidamente, requer de mim uma exibição de falsa sabedoria. As minhas ficções são a única realidade que conheço. O mundo exterior, por comparação, é um enorme livro infantil de mistérios, previsível apenas no sentido de que podemos contar que excederá o pior que imaginarmos: por exemplo, o delirante Donald Trump; os usurpadores políticos do meu próprio país, tal como o odioso Boris Johnson, o nosso atual ministro dos Negócios Estrangeiros, que, tendo insultado a maioria das pessoas decentes no planeta e enganado o eleitorado para aceitar uma ideia na qual ele mesmo não acreditava, tocou a sua flauta de mentiroso e retirou-nos da nossa própria casa, despejou-nos numa rua vazia e disse-nos para irmos à procura de outro lugar para vivermos.

Sim, o meu pai era um vigarista e um criminoso, e foi também uma grande influência na minha vida de escritor. Era igualmente um vendedor de certezas falsas, que nas suas muitas prisões — umas físicas, outras de sua própria criação — nunca perdeu a convicção de ser o filho escolhido de Deus. Bem, conheço alguns artistas que não são assim muito diferentes nesse aspeto, e até um ou dois escritores. Mas embora, quando estou em baixo, às vezes sucumba à afirmação do meu pai de que os meus talentos eram inteiramente os seus — por outras palavras, que eu era uma versão imatura dele, jogando com vidas de brinquedo em vez da versão humana, adulta e destrutível —, cedo me persuadi a sair dessa particular cadeia. Se devo alguma coisa ao meu pai — e devo — é o desconforto universal que assombra os meus personagens quando eles, como soldados gaseados, tropeçam entre a sua lealdade a uma causa maior, qualquer que ela seja, e a repulsa pelo modo como têm de a servir. Nunca lutei com o meu pai. Ele era demasiado grande para falhar. Menti-lhe e, ao inventar um universo ilusório paralelo ao seu, descobri um lugar para me esconder dele. Quando entrei no mundo ilusório da espionagem, sim, tive uma sensação de regressar a casa. Quer dizer, não aprendi nada que não tivesse já aprendido aos joelhos do meu pai: que, se dissermos a mentira certa no tom messiânico certo e acrescentarmos o aliciante de grandes recompensas no final do arco-íris, veremos espantados os anjos que caem. Quanto ao resto, dado que a realidade ilusória do mundo secreto nunca chegou ao nível da minha própria, não fazia sentido ficar por lá.

Poderá o simples espião humano dos velhos tempos ganhar a sua côdea neste mundo eletronicamente saturado da recolha de informações, onde sugamos informação da ionosfera com o mesmo entusiasmo irresponsável com que as traineiras industriais aspiram o último peixe?

Vou contar-vos um segredo maravilhoso que se calhar já conhecem mas que os espiões de hoje estão a aprender à sua custa. Velho é bom. Uma máquina de escrever, uma nota manuscrita, uma única cópia ou uma peça de microfilme enfiada numa caixa de correio desativada são bastante mais seguras do que o mais protegido computador superencriptado que existe no mundo. Quando eu era criança, o bloco de notas era inviolável. Espiões em todo o mundo assim pensavam, e enganavam-se. Hoje, à medida que se vão sucedendo os avanços revolucionários na ciberesfera, a contrarrevolução analógica também avança.

Inteligência não é informação. Não é conhecimento. Mesmo quando se torna conhecimento, tem de ser conhecimento no lugar correto, com as etiquetas de prioridade corretas, no edifício correto e no dia correto. Quantas vezes nos têm dito, retrospetivamente, que toda a informação necessária para agir já existia mas nunca foi processada, nunca foi lida pelas pessoas certas e portanto não serviu de nada? Será possível ter demasiada informação — pois quanto mais os nossos famosos espiões eletrónicos devorarem menos serão capazes de digerir?

Então imagine, neste mundo de excesso informativo, a atração mágica da lendária fonte humana com o seu ouvido nos buracos da fechadura dos grandes. Imagine as poupanças em tempo de computador e de especialistas. Imagine passar por cima de todo o erro humano e negligência e pura patetice que são inerentes a qualquer organismo de espionagem demasiado poderoso. Imagine substituir tudo isso por uma voz humana lúcida e fiável que se sobrepõe ao balbuciar eletrónico. Imagine que, em lugar das infindáveis horas gastas em vão a tentar decifrar os códigos do Presidente Putin, se consegue dispor da sua bonita secretária particular a um irrisório milhão de dólares por hora, migalhas quando comparado ao custo de uma rede de computadores tão grandes como o “Titanic”.

Um sonho impossível? Claro que é.

Juntemos todas as fontes humanas que tiveram sucesso a trabalhar para qualquer lado ao longo dos últimos cem anos e, fazendo a soma, percebemos que mesmo as melhores entre elas deram uma contribuição muito pequena. Ou não foram acreditadas, ou a informação que deram não era acionável, ou a verdade que contavam era demasiado real para ser tolerável; por exemplo, os relatórios da CIA para o Presidente Johnson nas fases tardias da guerra do Vietname.

Os nossos espiões ocidentais não sabiam que o Muro ia ser erguido. Não sabiam que ia cair. A CIA achava que Gorbatchov era um aldrabão e sobrestimou muito a ameaça estratégica soviética. Durante as recentes crises no Médio Oriente, espiões comprados à pressa e por grosso a preços inflacionados revelaram-se inúteis, na melhor das hipóteses; e, na pior, mentirosos perigosamente credíveis. Apesar desta análise, que é uma experiência de humildade, continuam os nossos serviços de informação a procurar incessantemente os espiões de amanhã nos becos do mundo? Claro que sim. E, mesmo que no mundo real não o façam, fá-lo-ão no meu. Podem apostar nisso o vosso último dólar.

Texto de Jonh Le Carré
Tradução de Luís M. Faria


http://expresso.sapo.pt/cultura/2016-10-23-O-escritor-que-nasceu-espiao

domingo, 18 de agosto de 2013

"Um Espião Perfeito", de John Le Carré


"Um Espião Perfeito", de John Le Carré,
na Colecção Mil Folhas
Numa obra tão abundante e tão boa como a do escritor britânico John Le Carré será difícil dizer que o livro "Um Espião Perfeito" é a sua mais brilhante pérola. A legião dos que acham que sim é imensa mas qualquer outra legião de adeptos de outros livros de Le Carré não será menor. No entanto, "Um Espião Perfeito" é, sem dúvida, a mais imortal obra do autor e a de maior densidade literária, que o fez conquistar um lugar na galeria dos grandes escritores do século XX.

Publicado em 1986, "Um Espião Perfeito" é o livro em que John Le Carré mais apostou enquanto escritor e em que mais se expôs enquanto pessoa no terrível ajuste de contas com a sua história familiar e a vida de espião que abraçou muito cedo, ainda estudante em Oxford, onde, tal como outros notáveis agentes secretos da sua geração, denunciou as simpatias comunistas de muitos dos seus amigos.

Atravessado por uma incursão autobiográfica do autor, o livro tem essa perturbadora marca da história pessoal de Le Carré, que transforma "Um Espião Perfeito" numa viagem pelos caminhos da traição. A traição dos amigos, da família, das causas. A dupla traição do Ocidente e do Leste remete para uma leitura política do livro, mas esta perde força face à magnitude da riqueza humana e psicológica das personagens construídas por Le Carré. Este é, afinal, mais um livro sobre a complexidade inextricável da raça humana do que um romance, porventura "o romance", da Guerra Fria.
David Cornwell, verdadeiro nome de John Le Carré, só em 1993 admitiu publicamente que quase toda a vida trabalhara para os serviços secretos britânicos. Começa aí a conhecer-se uma biografia profissional e pessoal do autor, que se cruza inteiramente em "Um Espião Perfeito" com a vida de Magnus Pym, o agente secreto sem causa que sobretudo tem uma paixão irresístivel pelo género humano, o que o leva invariavelmente a esbarrar na impossibilidade de juntar, em qualquer circunstância da vida, o melhor de dois mundos.

A sua infância foi muito difícil e atravessada por um conflito interior profundíssimo contra o seu pai, um adorável vigarista que conheceu prisões, hóteis de cinco estrelas, casinos e mulheres por esse mundo fora. Gastava hoje o que julgava vir a ganhar amanhã. Rick Pym é a personagem de "Um Espião Perfeito" que caminha sobre a vida de Ronnie Cornwell, o pai de John Le Carré, e nunca sai de uma interminável conversa com Magnus Pym, a principal personagem do livro que nos vai dando a chave de todas as evasões possíveis.


   “O escritor observa, escuta, regista. Depois, conta uma história, juntando a imaginação à experiência. E esta leva, inevitavelmente, as cicatrizes da alma.”http://static.publico.pt/docs/cmf3/escritores/85-JohnLeCarre/texto.htm
***


Opinião
Berna, Londres, Viena, Berlim… um retrato poderoso da Guerra Fria. Espiões, agentes secretos, profissionais do disfarce e do embuste, homens sem identidade, perdida entre mil e uma imagens construídas para mentir à procura da verdade. 

Pym é o agente perfeito – vendido aos dois lados – que procura durante toda a vida encontrar-se consigo mesmo e redimir a traição à amizade por Axel – o amigo/inimigo. 

Por outro lado há o pai – memórias de um progenitor criminoso mas herói. Daqui resulta uma narrativa quase psicanalítica, marcada pelas recordações do passado e escrita, disfarçadamente, na primeira pessoa do singular.
 
O enredo revela toda a arte de Le Carré, capaz de manter aquele tom enigmático que prende o leitor ao longo de 575 enormes e recheadas páginas. Um livro longo, a espaços cansativo mas nunca maçador. 

No final, fica a ideia de um homem sem identidade, perdidos nos disfarces e numa eterna procura que, nos últimos tempos, tenta redimir todo o passado que o tortura. 

Na vida de Pym, fidelidade e traição são conceitos ambíguos que vivem lado a lado e se misturam permanentemente. De entre todos os sentimentos conflituosos, emerge em Pym um único que conquista a primazia: a amizade, o valor supremo. Uma amizade que nasce da traição – a única realidade capaz de gerar felicidade. 

“A traição é uma profissão repetitiva” (Pág. 564) 

quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Entrevista: John Le Carré

Entrevista: 

John Le Carré
"A humanidade não avança"

O mais famoso autor de livros de espionagem
diz que o Ocidente derrotou o comunismo, mas
agora precisa aprender a domar o capitalismo

Carlos Graieb, de Londres


Arnd Wiegmann/Reuters
"Quando a Guerra Fria acabou, podíamos ter reescrito a história. Mas não tínhamos um plano para a paz"
No começo dos anos 60, o inglês David Cornwell levava uma vida tripla. Oficialmente, trabalhava como diplomata na Alemanha. Clandestinamente, executava serviços de espionagem contra os comunistas. E, sob o pseudônimo John Le Carré, lançava-se numa carreira literária que logo ganharia força. Com romances como O Espião que Saiu do Frio (1963), o autor conquistou algo raro: um best-seller que a crítica também respeita. A queda do Muro de Berlim, em 1989, fez especular se Le Carré perderia o seu tema – o mundo dos agentes secretos. Mas ele continuou a produzir livros eletrizantes e inteligentes. O mais recente deles éAmigos Absolutos (Record; 415 páginas; 40,90 reais), que transita entre a Alemanha do fim dos anos 60, no auge da Guerra Fria, e o presente dos ataques terroristas. O romance anterior é O Jardineiro Fiel, que se passa no Quênia e contém uma dura invectiva contra as indústrias farmacêuticas. Ele acaba de ser transposto para o cinema pelo diretor brasileiro Fernando Meirelles, de Cidade de Deus – uma adaptação para a qual Le Carré só reserva elogios. Aos 73 anos, o romancista recebeu VEJA em sua casa em Londres para a seguinte entrevista.  
Veja – Quando a Guerra Fria terminou, disseram que os autores de livros de espionagem haviam perdido o seu tema. O senhor chegou a sentir isso?
Le Carré – Não, jamais. Cada vez que me diziam que não havia mais motivo para espionagem depois da queda do Muro de Berlim, eu pensava comigo mesmo: "Esperem só até divulgarem o novo orçamento da CIA. Aposto que terá crescido 35%". A idéia era muito simplista, e a indústria da espionagem, grande demais para morrer assim, de uma hora para outra. Isso posto, antes mesmo de tudo acontecer eu já estava tentando deixar a Guerra Fria e seu mundo de espiões para trás em minha obra. Principalmente na última década, creio que o motor principal de meu trabalho tem sido o fascínio por situações coloniais e pós-coloniais. São os fantasmas do passado que me atraem, e a maneira como criam novas catástrofes, seja no Panamá, uma antiga possessão americana, seja na Chechênia, uma antiga colônia soviética. A história do presente é, em boa parte, a história de como a herança colonial está vindo nos assombrar. Você não consegue entender o Iraque sem atentar para a presença britânica naquela região, como os cartógrafos colonialistas traçaram algumas linhas num mapa e assim criaram o país que mais tarde seria governado por Saddam Hussein. Um dos motivos por que há tanta incompreensão sobre a política atual é a falta de consciência histórica.

Veja – O senhor não escreveu apenas best-sellers sobre espionagem. Foi espião na juventude, durante a Guerra Fria. Por que realizou esse tipo de trabalho?
Le Carré – Essa é uma história que tem a ver com o tempo em que nasci, com a forma como fui educado, com o meu país. Meu pai era, digamos assim, um empreendedor muito peculiar. Ele foi parar na cadeia várias vezes. Mas estava determinado a fazer de mim uma pessoa respeitável. E para ser respeitável na Inglaterra você tem de freqüentar certas escolas privadas, você tem de aprender a linguagem, os modos, os padrões de comportamento da elite. Quando você cresce nesse ambiente, ou submerge nele de vez ou passa a vida tentando se reinventar, livrar-se das doutrinas que lhe foram incutidas. Pertenço à segunda espécie de homem. Ingressar no serviço secreto foi minha primeira tentativa de reinvenção. Espionei enquanto ocupava cargos diplomáticos. Comecei em postos baixos, depois fui secretário político na embaixada britânica em Bonn e conselheiro político em Hamburgo. Isso durou dos 17 aos 31 anos. Mas o processo de reinvenção continuou ao longo da vida. Hoje, aos 73, sinto-me intelectualmente livre. Finalmente saí do colégio.

Veja – Para um antigo espião ocidental, o senhor se tornou um crítico bastante acerbo do capitalismo. "Agora que derrotamos o comunismo, talvez tenhamos de combater o capitalismo", diz um personagem no final do livro O Peregrino Secreto, de 1991. O que o levou a essa posição?
Le Carré – Eu não renego a política dos tempos de Guerra Fria. Eu conheço pessoas que atuavam do outro lado, talvez seja amigo de algumas delas. Mikhail Lubimov, por exemplo, um antigo oficial da KGB, visitou minha casa várias vezes. Tive longas conversas com ele, e elas reforçaram minha convicção de que não jogávamos o mesmo jogo. Nós, deste lado, protegíamos algo que merecia ser protegido: uma sociedade aberta, apesar de todas as falhas. Eles operavam em nome de uma sociedade fechada. Muitas vezes disse a Lubimov que os agentes da KGB estavam mais perto da verdade sobre o Ocidente do que qualquer outra pessoa de seu mundo. Eles viviam entre nós, tinham informantes entre nós, sabiam que estavam tratando com uma sociedade aberta e relativamente decente. No entanto, guardaram essa informação como um segredo. Eles se tornaram culpados na posse do conhecimento. A queda do comunismo foi um acontecimento magnífico, uma dádiva. Isso posto, sinto-me bastante nauseado com o sabor atual do mundo – com o poder indecente das grandes corporações e a maneira como isso afeta as democracias. Tenho a terrível sensação de que a verdadeira vitória foi roubada de nós. A humanidade não avança.

Veja – O que deu errado?
Le Carré – Quando o conflito entre o mundo capitalista e o mundo comunista acabou, estivemos diante de um daqueles raros momentos em que a história poderia ter sido inteiramente reescrita. Só que não tínhamos nenhum plano de contingência para a paz. Tínhamos vários planos de guerra e nenhum projeto de reconstrução. Jovens americanos não foram enviados à antiga União Soviética para encontrar as pessoas que antes pretendiam matar, e vice-versa. Não houve esforço para fomentar entendimento. E, nesse vácuo, duas coisas aconteceram. Primeiro, vimos surgir a cultura da cobiça terminal. Creio que foi meu país que deu essa inestimável contribuição ao mundo. A parteira foi Margaret Thatcher, com seu enorme empenho político em desvalorizar a idéia de solidariedade social. Thatcher deixou um legado de total indiferença pelos problemas que afligem o mundo. Ela disse que privatizaria o ar se pudesse, e na cultura em que vivemos esse é um pensamento aceitável. A segunda coisa que aconteceu foi o início da busca por um novo inimigo. Podíamos sentir as lideranças à procura de um novo demônio, e elas finalmente conseguiram criá-lo. Elas criaram o demônio terrorista. A luta contra ele? Acho que o bombardeamento do Afeganistão foi um crime insuficientemente denunciado e a invasão do Iraque, injustificável tal como foi feita.  

Veja – O primeiro-ministro britânico, Tony Blair, usou documentos do serviço secreto sobre a existência de armas químicas no Iraque para justificar a adesão do Reino Unido à guerra. Mas as armas não foram encontradas. O que achou desse episódio?
Le Carré – Quando ficou claro que os Estados Unidos iam invadir o Iraque, em 2003, Blair prometeu que os seguiríamos, com ou sem as Nações Unidas, com ou sem a Europa. Houve então uma situação de pânico, uma pressão tremenda para que nosso serviço de inteligência apresentasse algo que o ajudasse. E eles tinham muito pouca informação com que lidar, já que Saddam Hussein periodicamente eliminava quadros inteiros de assessores, entre os quais muitas pessoas que provavelmente prestavam informações a nós. Finalmente, Blair revelou que o relatório sobre armas químicas de que dispunha se baseava numa fonte só. O que é ridículo. Ao menos no meu tempo, não seria possível para um relatório tão canhestro passar por todos os filtros internos do serviço e finalmente ser usado por uma autoridade do nível hierárquico de Blair. Do ponto de vista de alguém que trabalhou no serviço secreto, essa história é inimaginável.  

Veja – Qual foi a contribuição da espionagem no quadro da Guerra Fria?
Le Carré – Nós demos nossa contribuição colhendo informações, ajudando pessoas, impedindo isto ou aquilo. Mas não acho que se deva exagerar esse papel. Não foram os espiões que venceram a guerra, tampouco os soldados. Foi a sanidade que, aos poucos, se infiltrou naquela sociedade fechada que era a União Soviética. Foi a erosão econômica do regime. Como disse alguém, "o cavaleiro morria dentro de sua armadura".

Veja – Como se conquista uma fonte no serviço secreto?Le Carré – O charme da espionagem – e aquilo que, a meu ver, a torna atraente para a literatura – é que todas as possibilidades de nosso caráter humano ficam expostas em suas tramas. As pessoas lhe servirão de fonte pelos motivos mais diversos: porque se sentem sozinhas, porque não gostam do chefe, porque vão com a sua cara, porque você as diverte, porque lhes paga uma bebida ou é simpático com sua mulher. Espionagem tem a ver com sedução, com confiança, com manter promessas. É uma atividade demasiado humana. Quando se fala de serviços de espionagem, as pessoas tendem a se transportar para um mundo estranho. Uma névoa desce sobre os olhos delas. Na verdade, estamos falando da busca de informação em meio ao comportamento humano mais comezinho. É muito próximo do jornalismo. O maravilhoso das histórias de espionagem está nessa riqueza de experiências que elas permitem mostrar – esse mundo de motivações e desejos que se tenta compreender e às vezes manipular. Também gosto do fato de que elas lhe permitem falar de temas políticos, do grande palco do mundo, sem soar pretensioso. Enquanto a história corre, os leitores o perdoam.  
Veja – Relações pai e filho são muito importantes em seus livros. Por quê?
Le Carré – Meu pai forjou a própria vida com um talento extraordinário – só que para o desastre, e não para o sucesso. Ele era basicamente um vigarista. Suas aventuras eram tão extraordinárias, tão irreais, que numa certa altura da vida passei a duvidar de minhas próprias memórias a respeito dele e fiquei obcecado pelo personagem. Cheguei a contratar dois detetives particulares para investigar sua vida e eu mesmo fiz um monte de pesquisas. Ele era um tipo extravagante, um completo fantasista, que num dia se candidatava ao Parlamento e no dia seguinte ia preso por fraudes. Certa vez, tive de tirá-lo da cadeia em Jacarta. Às vezes ele ganhava 1 milhão – e logo descobríamos que tinha outros 2 em débito. Ele morreu aos 69 anos com uma mulher no interior, duas amantes em Londres e uma casa cheia de empregados que não viam o salário havia tempos. Suponho que isso explique meu interesse pelo tema. De fato, há muitas histórias sobre pais e filhos em meus romances. Um deles, Um Espião Perfeito, é francamente autobiográfico e contém um retrato de meu pai no personagem Rick Pyn.

Veja – Os ingleses parecem ter uma obsessão por seu sistema escolar. Ela está muito presente na literatura, dos romances de Harry Potter aos seus thrillers de espionagem, quando é preciso descrever a origem de um personagem. Por que isso?
Le Carré – Colégios são importantes na formação de qualquer um, em qualquer lugar do mundo. Mas as escolas privadas e sobretudo os internatos da Inglaterra, com seus uniformes, seus brasões, e suas longas histórias, são realmente instituições muito peculiares. Nelas, categorizamos desde cedo nossos jovens. Eu fui professor durante um tempo. Ensinei alemão em Eton, um dos colégios mais tradicionais. Lá encontrei classes para os ultra-ricos, para os garotos promissores, para os criminosos em potencial, para os indomáveis. Todos já estavam em seus nichos. Além disso, ser despejado num internato inglês já é uma experiência e tanto. "Aqui estou eu. Meus pais me mandaram embora", pensa o garoto de, digamos, 5 anos. Foi nessa idade que eu mesmo caí numa dessas versões polidas de uma penitenciária. E então você se torna imediatamente seduzível e cooptável pelo poder daqueles que estão à sua volta e parecem capazes de lhe dar abrigo. Várias escolhas têm de ser feitas. Você não pode ser estúpido, nem esperto demais. Você tem de se acomodar ao padrão. Você precisa conviver com sistemas totalmente ilógicos de disciplina. Você pode apanhar muito – e carregar desde então uma grande indignação e uma grande raiva. Você precisa criar sistemas próprios de justiça. Os colégios são, enfim, instrumentos muito poderosos de socialização na Inglaterra – e também o palco de enormes dramas e batalhas.  

Veja – Como o processo de adaptação de O Jardineiro Fiel foi parar nas mãos do cineasta brasileiro Fernando Meirelles?
Le Carré – O projeto começou há quatro anos e, inicialmente, faríamos um filme no estilo americano. O diretor Mike Newell, deQuatro Casamentos e Um Funeral, estaria à frente dele. Mas Newell saltou do barco para filmar um dos episódios da sérieHarry Potter e, nesse ponto, entrou Fernando Meirelles. Ele deu ao filme o espírito que eu desejava. A história se passa no Quênia e fala de uma grande indústria farmacêutica que usa africanos como cobaias para testar remédios. Em Fernando, encontrei um diretor que entendia a questão da complexidade racial e que sabia falar da tragédia que é a destruição de vidas humanas, pois a mostrou de maneira admirável em Cidade de Deus. Além disso, ele tinha uma percepção não européia do livro, o que me pareceu excelente. Com ele, eu sabia que não teríamos somente um thriller e uma história de amor, mas também um olhar político sobre a ação das grandes corporações no mundo. Creio que Fernando está se tornando, rapidamente, um grande nome do cinema internacional. Deverá ser muito assediado por Hollywood, esse grande cemitério de talentos inocentes, mas sinto que tem o fogo e a inteligência para seguir um caminho próprio.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

"Uma Verdade Incómoda", de John Le Carré

Expresso

"Uma Verdade Incómoda", de John Le Carré

John Le Carré lançou na semana passada em Inglaterra o seu 23º romance. A Portugal "Uma verdade Incómoda" só chega em junho, numa edição D. Quixote.
Cristina Margato
 


O novo livro de John Le Carré,"Uma Verdade Incómoda", dificilmente deixa espaço para a esperança. A desolação é provavelmente o sentimento que prevalece no fim, perante a enorme incompetência e a inevitável e consequente maldade de quem nos governa guiado por interesses obscuros.
Para John Le Carré, que como confessa, sabe bem o que o leitor há-de sentir no momento em que fecha o livro, a explicação deve-se a uma aguda falta de esperança. "Continuo à procura dela (da esperança) para perceber onde é que os meus filhos e netos irão viver. A grande desvantagem de ser velho é perceber que pouco ou nada muda".
Crítico de Tony Blair, por ter levado "um país para guerra a partir de falsos pressupostos", Le Carré também não pouco críticas a Thatcher, e ao legado que ela deixou: "Quando comecei a escrever, na Guerra Fria, tínhamos de saber que não estávamos do lado errado, e sabíamos isso. Continuo a saber de que lado estou, mas cresci até um estado de ceticismo perante os políticos". Sentimento, que John Le Carré partilha com o homem comum: "Não temos fé nas autoridades, nos políticos, no serviço nacional de saúde ou na polícia".
"Uma verdade Incómoda", pretexto para esta conversa com o Expresso, é de resto um dos seus romances mais autobiográficos, metáfora de uma corrida à guerra do Iraque e das mentiras que a antecedem.
Para o romance criou duas versões de si próprio, dois homens que apesar de terem cerca de 30 anos de distância têm em comum algo primordial no universo do escritor, uma ética rigorosa: "Serviram o seu país com lealdade até não aguentarem mais e serem levados a fazer um protesto pessoal, usando canais ortodoxos."
Se o protesto parece não parece funcionar, a verdade é que o escritor defende acima de tudo o dever de protestar enquanto compromisso maior connosco e com a sociedade, nem que seja porque "Cristo também morreu na cruz!




Uma Verdade Incómoda
Por: John le Carré
Edição: Dom Quixote
Título original: A Delicate Truth
Páginas: 368
PVP: 18,90 €
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Chega esta semana às livrarias, pelas «mãos» da Dom Quixote, o mais recente thriller de espionagem de John le Carré.

Confira abaixo a sinopse de Uma Verdade Incómoda
Uma operação de contraterrorismo, batizada com o nome de código Vida Selvagem, está a ser montada na mais preciosa colónia britânica - Gibraltar. O seu objetivo: capturar e raptar um importante comprador de armas jihadista. Os seus autores: um ambicioso ministro dos Negócios Estrangeiros e um fornecedor privado de equipamentos de defesa que é também seu amigo íntimo. A operação reveste-se de tal delicadeza que nem o chefe de gabinete do ministro, Toby Bell, tem acesso a ela.

Suspeitando de uma desastrosa conspiração, Toby procura preveni-la, mas é rapidamente colocado no estrangeiro. Três anos decorridos, chamado por Sir Christopher Probyn, um diplomata britânico aposentado, ao seu arruinado solar da Cornualha, e seguido de perto pela filha de Probyn, Emily, Toby vê-se obrigado a escolher entre a sua consciência e o dever para com o serviço.

Mas, se a única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens bons nada façam, como pode ele manter-se calado?

http://www.revista21.net/2013/06/uma-verdade-incomoda-john-le-carre.html