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domingo, 7 de setembro de 2025

Enrique Dans - VER PARA CRER. A SÉRIO?

 LEITURAS MARGINAIS

* Enrique Dans, Medium.

Na semana passada, Will Smith publicou um vídeo de um dos seus concertos, parecendo estar rodeado de fãs em êxtase, o que suscitou a dúvida imediata de que tudo aquilo tinha sido criado com recurso à IA.

Verificou-se rapidamente que a multidão era real, mas o mal já estava feito: a suspeita instala-se automaticamente assim que algo parece demasiado perfeito, demasiado polido, uma suspeita que nunca desaparecerá.

O debate não é tanto sobre se Will Smith estava a fingir, mas sim sobre o facto de termos entrado num mundo em que qualquer imagem ou vídeo pode ser imediatamente questionado. O velho ditado de que a câmara não mente já não é válido. A capacidade de criar imagens altamente realistas através de algoritmos significa que já não podemos ter a certeza de que o que vemos nas redes sociais é verdadeiro. E essa incerteza, aplicada a tudo o que vemos, tem consequências culturais, sociais e políticas de primeira ordem.

A gravação do concerto de Smith era real, mas isso pouco importa. O que emerge é a intuição de que agora duvidamos de tudo o que vemos. A questão já não é o que aconteceu, mas o que acreditamos ser possível. A dúvida é suficiente para corroer a credibilidade. (…)

Até há pouco tempo, quando olhávamos para uma fotografia espetacular de um animal, de uma paisagem ou de um acontecimento histórico, fazíamo-lo com a certeza de que por detrás dela estava alguém que tinha estado lá, que tinha visto o que agora contemplávamos através da sua objetiva. Essa mediação ligava-nos à realidade do mundo e transmitia não só informação, mas também respeito pelo trabalho, paciência e olhar do fotógrafo. Agora, porém, tudo pode ser suspeito de manipulação ou síntese digital, e essa ligação perde força.

Esta mudança tem implicações culturais, sociais e políticas. Se qualquer imagem puder ser questionada, o seu valor como prova ou como registo diminui drasticamente. (…)

A consequência é que estamos a entrar numa nova fase cultural em que a autenticidade está a tornar-se um bem escasso. Ver algo e ter a certeza de que é real tornar-se-á cada vez mais difícil e, por conseguinte, mais valioso. Ao mesmo tempo, multiplicar-se-ão as iniciativas para certificar a origem das imagens, para garantir a sua rastreabilidade, para provar que houve uma câmara, um lugar e um momento específico por detrás delas. Mas mesmo essas certificações podem ser questionadas, porque a desconfiança é contagiosa e permanente. O mundo digital ensinou-nos que qualquer mecanismo de validação acaba por encontrar a sua vulnerabilidade.

Isto levanta questões profundas. Que valor tem uma fotografia se já não a conseguimos distinguir de uma imagem gerada por uma IA? Que mérito atribuímos ao fotógrafo quando um sistema pode replicar o seu trabalho com um simples comando de teclado? A criação artística sempre se moveu num espaço entre a técnica e a visão pessoal, entre o domínio da ferramenta e a capacidade de captar o excecional. Se o excecional pode ser fabricado a pedido, o que resta então do olhar humano? Talvez, precisamente, a autenticidade, a certeza de que alguém esteve lá e testemunhou o facto. Mas essa certeza tornar-se-á cada vez mais difícil de manter. (…)

A partir de agora, sempre que olharmos para uma multidão, um rosto, um animal ou uma paisagem, uma parte da nossa mente questionar-se-á se é real ou não. E essa pergunta constante vai mudar a nossa relação com as imagens. Viveremos rodeados de maravilhas visuais, mas com a dúvida permanente de que, ao admirá-las, não estamos realmente a admirar nada mais do que a habilidade de uma máquina que criou algo que nunca existiu.

Posted by OLima at sábado, setembro 06, 2025 

domingo, 15 de abril de 2018

José Jorge Letria - MORRER DE PÉ NA PRAÇA SYNTAGMA

* José Jorge Letria


Quando se ouviu um tiro na Praça Syntagma,
logo houve quem dissesse: “É a polícia que ataca !”.
Mas não, Dimitris Christoulas trazia consigo a arma,
a carta de despedida, a dor sem nome, a bravura,
e vinha só, sem medo, ele que já vivera os tempos
de silêncio e chumbo do terror dos coronéis.
Mas nessa altura era jovem e tinha esperança.
Agora tudo isso findara, mas não a dignidade,
que essa, por não ter preço, não se rende nem desiste.

Dimitris Christoulas podia ser apenas um pai cansado,
um avô sem alento para sorrir, um irmão mais velho,
um vizinho tão cansado de sofrer. Mas era muito mais
do que isso. Era a personagem que faltava
a esta tragédia grega que nem Sófocles ou Édipo
se lembraram de escrever, por ser muito mais próxima
da vida do que da imaginação de quem efabula.
Ouviu-se o tiro, seco e certeiro, e tudo terminou ali
para começar logo no instante seguinte sob a forma
de revolta que não encontra nas bocas
as palavras certas para conquistar a rua.
Quando assim acontece, o silêncio derruba muralhas.
Aos jovens, que podiam ser seus filhos e netos,
o mártir da Praça Syntagma pediu apenas
para não se renderem, para não se limitarem
a ser unidades estatísticas na humilhação de uma pátria. Não lhes pediu para imitarem o seu gesto,
mas sim que evitassem a sua trágica repetição.
E eles ouviram-no e choraram por ele, e com ele,
sabendo-o já a salvo da humilhação
de deambular pelas lixeiras para não morrer de fome.

Até os deuses, na sua olímpica distância,
se perfilaram de assombro ante a coragem deste gesto.
Até os deuses sentiram desprezo, maior do que é costume, pela ignomínia de quem se vende
para tornar ainda maior a riqueza de quem manda.
A Dimitris bastou um só disparo, limpo e breve,
para resumir a fogo toda a razão que lhe ia na alma. Estava livre. Tornara-se herói de tragédia
enquanto a Primavera namorava a bela Atenas,
deusa tantas vezes idolatrada e venerada.
Assim se despedia um homem de bem,
com a coragem moral de quem o destino não vence.

Quando o tiro ecoou na praça de todas as revoltas,
Dimitris Christoulas deixou voar uma pomba,
uma borboleta, uma gaivota triste do Pireu
e disse, com um aceno: “Eu continuo aqui,
de pé firme, porque nada tem a força de um homem
quando chega a hora de mostrar que tem razão”.
Depois vieram nuvens, flores e lágrimas,
súplicas, gritos e preces, e o mártir da Syntagma,
tão terreno e finito como qualquer homem com fome,
ergueu-se nos ares e abraçou a multidão com ternura.

José Jorge Letria
(6 de Abril de 2012)


partilhado por





Carlos Fonseca
Foto por 
Túmulo do Soldado Desconhecido
Parlamento Grego
Praça Syntagma
Atenas
Grécia
http://joanamirandafotografia.blogspot.pt/2010_07_01_archive.html

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Olhares .. sobre a emigração portuguesa em França




EI-LOS QUE CHEGAM*
QUINTA-FEIRA, 10 DE SETEMBRO DE 2015
PUBLICADO POR RICARDO M SANTOS

“São esquisitos, baixos e com bigodes e barbas. Chegam, na esmagadora maioria, homens. Elas, quando vêm, cobrem os cabelos com panos e não usam saia acima do joelho. Muitas são proibidas pelos maridos de cortarem o cabelo. Por vezes, eles ameaçam-nas com uma chapada ou um murro; elas, subservientes, baixam a cabeça e colam as mãos ao ventre. Trazem com eles uma paixão fervorosa pela religião. Usam colares com o símbolo das suas crenças e são capazes de dar mais do que têm para que o seu local de culto, na sua terra natal, tenha um relógio ou um telhado novo. Rezam, pelo menos, de manhã e à noite. Se puder ser, ao final da tarde, cumprem mais um ritual.

Chegam sem falar uma palavra da nossa língua. Parece que fogem de uma guerra qualquer lá no país deles, da fome e da miséria. Não têm, por isso, noção de amor à nação. Fogem em vez de defenderem o seu país e lutarem por uma vida melhor lá, na terra deles, vêm para aqui sujar o nosso país com a sua imundície. Atravessam países inteiros a pé ou à boleia para chegarem aqui. Pagam milhares para saírem do seu país e vêm ficar na miséria. Alguns têm muitos filhos, muito mais do que aquilo a que estamos habituados. Deixam-nos sozinhos ou com os irmãos mais velhos, que não vão à escola. Mas são muito trabalhadores.

Bem, na verdade, não roubam exactamente o nosso trabalho, porque aqui há leis que não nos permitem trabalhar 18 horas diárias, embora isso exista e dê jeito a alguns patrões. Mas de certeza que nos roubam qualquer coisa. São diferentes de nós e isso causa-nos má impressão.

Não são muito limpos, cospem para o chão e as suas maneiras em público deixam muito a desejar. Vivem em bairros de lata que mais parecem campos de refugiados. Não sei como conseguem. Se é para viverem na miséria, mais valia ficarem na terra deles.”

Diário de um Parisiense,1969

*Embora pudesse ser um relato verdadeiro, demonstrativo da nossa estupidez colectiva, este texto é ficção. É da minha autoria. Não está em mais lado nenhum que não no blogue nem é excerto de coisa alguma. 

* Foto de  Gérald Bloncourt (http://bloncourtblog.net/2014/07/l-immigration-portugaise.html)
* Texto original de Ricardo M. Santos em 
http://manifesto74.blogspot.pt/2015/09/ei-los-que-chegam.html




http://www.bloncourtblog.net/2014/07/l-immigration-portugaise.html


sábado, 22 de fevereiro de 2014

poesia de antónio reis 03


22 de Fevereiro de 2014 às 13:36
* antónio reis

24
Também eu trago a saudade
nos sentidos

se dissesse que não
era mentira

também eu perdi um cão
casas
rios

Mas hoje
tenho mulher
amigos
e uma saudade mais real
é que me inspira


27
Conheço
entre todas
a jarra que enfeitaste

têm o jeito
com que compões o cabelo
as flores
que tocaste


30
Que semente
procuras
no sal

areia
ou neve

pérola

Não contemples
é gosto

é água salgada
já

ao de leve


32
Olhas tu a chuva
e são linhas de prata

agulhas compridas
picando
a vidraça

Porque
te
debruças


34
Não é o vento
não
são gritos amiga

como eu
tu sabes
o que é uma ferida

mas é bom sentir
a tua mão na minha

porque
queres
mentir


35
Já não fazes
renda

não queres
que
nos fios

o coração se prenda

Fogem os teus dedos
das malhas para as folhas

queres que nos livros
os teus olhos teçam


37
Só pelos joelhos
sentimos as estações

com saudades de água

violeta

com saudades
de árvores

velhas
a nascer

Ah natureza dos sentidos
perdida

e da terra

penso
olhando o trânsito
rápido
da janela


38
Também eu gosto da noite
como vinho

também eu gosto das rosas
e do sal

também eu caminho
sonho
e imagino

sou natural

mas trago nos pés um espinho
o bem
o mal


41
Partem todos

o abandono os leva
um barco
o medo

Quando voltam
para nenhum de nós
é um segredo


43
O mesmo pensamento
a mesma ira

Para que serve a mão

Perde o sentido
o próprio
 sofrimento

o coração
a lira


44
Não esqueço os mortos

Não esqueço os heróis

Não esqueço o luto das famílias

todos silenciosos

Denuncio publicamente a nossa cobardia

e quem mente


45
E digo
que são também homens
os traidores

embora os não ame

embora
sobre eles
silêncio
e dores

derrame


46
Aos que perseguem
um conselho
um aviso

pensem
com tempo
no dia do juízo

justo
certo

um espelho
de vidro


47
E

àqueles que chamaram agentes
aos amigos
um pesadelo

em sonho

a febre
o gelo

a nódoa numa ferida

Só depois o despertar

calvos

só depois a honra
perdida

o  dia


Esta fotografia pertence ao arquivo de Margarida Cordeiro e foi retirada do catálogo "António Reis e Margarida Cordeiro - a poesia da terra", organizado por Anabela Moutinho e Maria da Graça Lobo, pág. 173, publicado pelo Cineclube de Faro em 1997.  in http://antonioreis.blogspot.pt/2004/10/049-antnio-reis-em-trs-os-montes.html
Esta fotografia pertence ao arquivo de Margarida Cordeiro e foi retirada do catálogo "António Reis e Margarida Cordeiro - a poesia da terra", organizado por Anabela Moutinho e Maria da Graça Lobo, pág. 173, publicado pelo Cineclube de Faro em 1997. in http://antonioreis.blogspot.pt/2004/10/049-antnio-reis-em-trs-os-montes.html