Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Tiago Franco - OS AVENÇADOS DE ISRAEL |
sábado, 6 de junho de 2026
Tiago Franco - A RESIGNAÇÃO DE UM POVO |
sábado, 9 de maio de 2026
Tiago Franco - A GERAÇÃO DOS ESCRITORES |
terça-feira, 2 de dezembro de 2025
Tiago Franco, - UMA SAFRA DE FILHOS DA P*TA |
quarta-feira, 2 de abril de 2025
Tiago Franco - TRÊS HORAS DE ROMANCE |
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025
Tiago Franco - MOMENTOS DE EMBARAÇO A DAR COM UM PAU |
segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025
Tiago Franco - ANDRÉ, AMIGO, O TEU POVO ESTÁ CONTIGO |
* Tiago Franco
Quando escrevi o último post, há dois dias, pensei: "vou fazer uma paródia com o Chega e este rolo de casos bem catitas de beberolas, pedófilos e malas".
Entretanto a minha mulher chamou-me para arranjar qualquer coisa e nunca mais vi o sol. Dois dias em 2025 correspondem a 30 em 1994. Anda tudo muito depressa e as notícias de 6f já parecem a RTP Memória.
Poucos minutos depois de ter escrito a piadinha do último post vejo, no meio do meu zapping higiénico, o pastor Ventura a saltar entre a TVI e a CNN, numa tentativa arriscada de acalmar as hostes cheganas.
Devo dizer que, depois de ouvir o ensaio, perdi a vontade de o arrasar (ou ao Chega, já que são a mesma entidade). Aliás, até me vou levantar e bater uma saraivada de palmas ao André. Imaginem-me no Parlamento, ao lado do antigo repórter tauromáquico, a gritar "muto bâim". Porque Ventura foi absolutamente brilhante.
Passou o dia a debitar aos ouvidos de cada jornalista em que tropecou na AR um sonoro "não me escondo", "seja meu pai, meu filho ou meu irmão...se papa meninos, é para castrar!". Mete uns posts no FB, no X, pede ajuda à Rita Matias e ao Frazão para repetirem a mesma história nas suas redes (os outros 45 não sabem escrever e por isso foram dispensados da tarefa) e arranca para os estúdios de Queluz. A TVI ainda é em Queluz? Adiante...
Na televisão bate no peito em frente à Sandra Felgueiras e depois, na CNN, meio esbafurido, repete tudo sem perder a calma. É diferente dos outros políticos. Tem mais merda em casa, é verdade, mas agarra o touro pelos cornos e corta o mal pela raíz. Com ele não há paninhos quentes nem se abafam histórias.
Ao contrário dos outros partidos. E aqui comeca a disparar para todo o lado.
Fala na Mortágua e no Robles. Nenhum deles cometeu qualquer crime. Fala no Ferro Rodrigues que nem indiciado foi. Fala no Paulo Pedroso que foi preso, libertado, sem julgamento e, mais tarde, indeminizado pelo estado português. Ou seja, não cometeu qualquer crime. Fala no Sócrates que está em julgamento eterno e de quem o PS já se afastou há muito. Fala do Medina que não foi acusado no Tutti-Futti.
Num estilo clássico de Ventura, misturou inocentes com indiciados, investigados com ilibados. Mexeu tudo muito bem, juntou um dedo no ar e salpicou com indignacão. Voilá, está servido o político diferente, o Sebastião da limpeza, o mártir que não teve culpa dos bronhos que lhe recomendaram para a bancada parlamentar.
Com essa conversa, desvia as atencões dos 20% de deputados com acusacões formadas e problemas com a justica que passam por irregularidades financeiras, roubo, assédio de menores, imigracão ilegal, difamacão, agressões, declaracões falsas e violência doméstica. Os quadros do Chega estão a uma namorada nepalesa de fazerem bingo nas causas do partido.
Nem um hora tinha passado desta última intervencão (CNN) e, munido de luvas e galochas, fui nadar em caixas de comentários. Por aqui, no X (tenho mesmo que deixar de ir aquele esgoto) e nos jornais, a mesmíssima narrativa do pastor era reproduzida na perfeicão pelos fiéis. Até os nomes usados de pessoas dos outros partidos eram os mesmos.
Não importa o que dizem os tribunais, não importa o estado de direito, nem sequer importa que maior parte dos iscos usados nem tenham cometido qualquer crime. Interessa, apenas, que o Ventura ensaia uma narrativa cheia de mentiras e omissões e os eleitores do Chega papam aquilo como se fosse Nestum em dia de preguica.
Julgo que foi o Daniel Oliveira (ou o Pedro Marques Lopes, não tenho a certeza) que disse que o BE seria mais castigado pelo despedimento das mães do que o Chega pela sucessão de casos com crimes (já provados). Não por causa da gravidade da accão do BE (não há comparacão com o furto de malas ou sexo pago com menores) mas por os eleitores do Bloco serem bem mais exigentes do que os do Chega (eu não diria apenas mais exigentes mas não me apetece falar do ensino obrigatório).
A mensagem passou com sucesso. Já não se discute a absoluta miséria que são os quadros do partido de um homem só. Não se fala dos crimes. Não se massacra o Chega como o Chega massacrou, desde o seu primeiro dia, cada deslize dos outros partidos. Lembram-se da "vergonha" que foi repetida, aos berros, em cada sessão parlamentar desde que Ventura era deputado único?
Tudo isso ficou para trás. O eleitorado do Chega fecha os olhos ao bando de criminosos e exalta com a bravura do líder que arruma a casa antes de continuar a limpar Portugal. Dou por mim sempre a pensar como é que há tanta gente com estas limitacões no raciocínio e na compreensão básica daquilo que acontece, aqui mesmo, em frente aos nossos olhos? Depois recordo-me que conseguimos ter taxas de abstencão em algumas eleicões de 60% e que, ainda há 4 ou 5 anos, metade da populacão nem o ensino obrigatório tinha.
Acabo este texto exactamente como disse que o iria terminar. Com pedófilos, ladrões, ilegais, corruptos e gajos que batem nas mulheres, o Chega ainda é capaz de subir nas intencões de voto.
Eles de facto são diferentes, o André é especial e vocês, que votam em gente desta, deviam ter direito a um cão-guia, para atravessarem a estrada.
Vou adiantando já servico, entre obras e arranjos. Deixo as notas dos próximos para não me esquecer:
1 - Venda de minérios raros na Ucrânia a troco de defesa
2 - Gaza, riviera do Médio Oriente
3 - Palestinianos, vão para a terra deles! (jordanos/egípcios/sauditas)
ps - pizza napolitana devia ser património da Unesco (isto não podem ser só desgracas)
2025 02 09
https://www.facebook.com/tiago.franco.735
sábado, 16 de novembro de 2024
Tiago Franco - SENSO E SENSIBILIDADE, CIRÚRGICOS |
sábado, 27 de julho de 2024
Tiago Franco - THE SHOW MUST GO ON
sexta-feira, 12 de julho de 2024
Tiago Franco - Morrer em Kiev ou desaparecer em Gaza
sexta-feira, 14 de junho de 2024
Tiago Franco - DIAS DE MERDA, QUEM OS NÃO TEM?
* Tiago Franco
Foi um daqueles dias em que tudo correu mal.
Um dos vários em que uma pessoa se levanta de
madrugada para ver o castelo de cartas a cair.
Gente desesperada no trabalho, despedimentos que
não terminam, projectos atrasados ou clientes que não aparecem. Chineses que
gritam em Xangai por mais, mais e mais. Somos apenas peças anónimas de uma
engrenagem que gera fortunas para uma minoria. Accionistas, membros da
direcção, gente dos tais mercados que nos juram ser o futuro.
Cá fora aquele frio de merda de um junho que
nunca foi de verão. Pedalar contra o vento, evitando os buracos numa cidade que
está em obras há quase 10 anos. Vai ficar um arraso de modernidade que espero
não ver.
Passo por dois cartazes dos liberais, ainda
resquícios das eleições. Um pergunta se quero as energias limpas ou o carvão
chinês? Pergunta feita numa zona onde o investimento chinês garante emprego a
milhares de pessoas. A hipocrisia é uma forma de fazer política quando se
apanha um ignorante pela frente. O outro cartaz pergunta-me se quero uma europa
democrata ou a tirania de Putin?
O que eu queria Zé Alberto (porta dos fundos -
googlem), era que não me fodessem.
Enquanto o tirano Putin andou a fazer discursos
no parlamento europeu e a vender gás e petróleo para a Europa, os eurodeputados
não estiverem muito preocupados com a tirania russa. Como não estão preocupados
com a tirania saudita ou azeri, enquanto fazemos negócios com eles.
Por outro lado...o que é que importam os 720
eurodeputados quando nem leis conseguem redigir e é aquela comissão não eleita,
com a Von der Leyen à cabeça, que vai decidindo a melhor forma de nos enterrar?
Ucrânia, Ucrânia, Ucrânia. Dia e noite, há mais
de 2 anos a ouvir que temos que apoiar esta merda. Há 28 meses que milhões de
pessoas, nas quais me incluo, trabalham dia e noite numa impotente tentativa de
compensarem a inflação, a perda do poder de compra e o aumento das taxas de
juro. O sufoco em que se transformou a luta diária para não perdermos o teto
debaixo do qual dormem as nossas famílias.
E no fim do dia lá aparecem mais uns quantos
milionários, não eleitos, que vão decidindo a continuação do sufoco. De um lado
a Lagarde a fazer o que pode para manter o jackpot para a banca mais uns anos
e, do outro, a Ursula a exigir percentagens do pib para armamento e para a
Ucrânia.
Quais idiotas úteis, vamos empobrecendo e dizendo
que sim. Achando que ao contribuir para mais mortes ucranianas, estamos a
ajudar outros que não os falcões da guerra e a indústria do armamento que, com
a banca, estão a lucrar como nunca.
Dois anos a enriquecer as farmacêuticas e os
laboratórios de análises e agora, mais dois anos para a banca e para o
armamento. No tal Ocidental civilizado, enquanto nos matamos a trabalhar para
alimentar uma elite profundamente corrupta, ainda discutimos a moralidade do
que é justo ou a certeza do que deve ser feito. Ainda ouvimos diariamente que
com mais armas, mais mortes e mais empobrecimento geral, os ucranianos vão
correr com os russos. Quando? Onde? Como? Já alguém consultou um livro de
história ou viu há quanto tempo os russos garantiram os territórios ocupados?
Alguém quer mesmo uma terceira guerra mundial por causa do Donbass, da Crimeia,
da Abecássia ou da Transnístria? Sabem sequer apontar essa merda no mapa? Ou o
nosso compasso moral contra invasores só aponta para o lado dos invadidos
louros? Se forem pretos ou mestiços, é uma luta contra o terrorismo? Estou
farto desta hipocrisia Ocidental que somos forçados a pagar.
A Alemanha oferece-se para dar uma ajuda
gigantesca na construção da Ucrânia. Não é ajuda, é criação de divida a favor
das construtoras alemãs. Tal como a "troika" que nos veio salvar e no
fim, tínhamos financeiras francesas e alemãs a meter cá dinheiro que depois
seria gasto a contribuir para as exportações alemãs e francesas. O Paulinho
Portas, versão antes de senador, explica.
Andamos sempre a lutar por migalhas enquanto
trabalhamos para enriquecer as elites. Por que raio decide o BCE o nosso
futuro? Como diria o poeta, quantos batalhões tem o BCE?
Dia e noite, uma guerra para a qual nada
contribuí, que não me sai da cabeça e não pára de me dificultar a vida. Quando
o Bugalho dizia que as armas serviam para defesa das famílias ucranianas eu
diria que, o fim dessas armas, serve para a defesa das restantes famílias
europeias. Pelo menos as famílias que não pertencem a elites e que contraíram
crédito à habitação.
A meio da batalha contra o vento passo em frente
à universidade e vejo a solidariedade com a Palestina. Envergonho-me de
imediato com o egoísmo dos meus pensamentos.
Eu e muitos europeus, lutamos com bancos e
empregadores, para não perder casas e modos de vida. Os Palestinianos não
chegam sequer a ter tempo de negociar com ninguém ou a lutar para salvar o
tecto que lhes dá guarida. Não chegam a acordar, eles e as respectivas
famílias, mortos debaixo dos escombros, a cada passagem do exército genocida de
israel.
E sempre, mas sempre, com o patrocinio do
Ocidente. O nosso, portanto.
Lembrem-se que houve quem festejasse a morte de
300 Palestinianos para resgatar 4 israelitas. 75 vidas por uma. É como
metralhar uma sala de cinema cheia para trazer uma só pessoa e no fim...cantar
vitória. Foi aqui que chegámos.
Por vezes a vida só precisa de um pouco de
perspectiva para nos fazer corar de vergonha com aquilo que julgamos ser a
injustiça.
2024 06 14
https://www.facebook.com/tiago.franco.735
sexta-feira, 12 de abril de 2024
Tiago Franco - Este é melhor não, que é coisa para queimares o arroz que está ao lume
* Tiago Franco
ESTE É MELHOR
NÃO, QUE É COISA PARA QUEIMARES O ARROZ QUE ESTÁ AO LUME |
Quem me conhece
razoavelmente bem sabe que o meu sonho, desde há muito, muito tempo, é dar a
volta ao mundo. Desde que me lembro que é assim. Há duas razões mais ou menos
simples para isso. A primeira é por gostas de estar em sítios onde aconteceu
algo que apenas vi num livro de história. Era a minha disciplina favorita na
escola e julgo que se tivesse crescido num país de primeiro mundo, com empregos
e salários decentes, provavelmente teria ido por aí. A outra é que eu gosto
genuinamente de ver as diferencas culturais entre os povos, até para perceber
melhor o meu próprio contexto cultural. No fundo, um acumular de padrões para
não ficar fechado e bloqueado num continente que cada vez mais levanta muros em
vez de os destruir.
Raramente volto
como fui e procuro, sempre que posso, o mais diferente possível daquela que é a
minha história. Nesta fase da vida já não tenho paciência para Venezas, Paris e
Londres. Quero Kigalis, Vientianes e Managuas. Poucas vezes viajei sozinho porque
detesto a solidão e quando o fiz, nunca foi algo que quisesse guardar como
memória. A vida, na forma como a imagino, é para ser vivida com afecto,
sorrisos e companhia.
Quando não
estou a viajar estou a pensar no próximo destino. Não o consigo evitar. Podemos
estar entre guerras, pandemias ou crises financeiras. Pode até o meu emprego
estar na linha como está, permanentemente, desde que decidi trabalhar por
contratos temporários (ou seja, quase toda a minha vida profissional). Mas todo
o santo dia eu abro o Google Maps (até porque faz parte do meu trabalho) para
procurar caminhos novos.
Ora, tenho a
sorte de ter por perto quem me vá aturando nestes sonhos e repita, com alguma
frequência, "ok Tiago, qual foi a ideia desta vez?". Eu sonho
acordado.
Sou um péssimo
companheiro de deslocacão (porque odeio voar) mas acho que compenso quando
metemos os pés no chão e as mochilas nas costas. Ir de A para B de carro,
comboio ou barco é, de longe, o mundo ideal.
Esperei 11 anos
para regressar ao Sudoeste Asiático. Tempo a mais para uma vida que é sempre
curta. Parti de um sítio frio, de céu cinzento, onde estava a pressão laboral e
a corrida contra o tempo para agradar a mercados capitalistas. Onde todos
trabalhamos a troco de salários altos que são absolutamente devorados pelos
juros dos créditos à habitacão ou a elevadíssima carga fiscal. Deixei para
trás, por uns dias, a sociedade que produz e que se esfola diariamente para
conseguir pagar as contas, ditadas por um banco em Frankfurt ou uma guerra que
alguém escolheu alimentar em meu nome.
Do outro lado
estava um mundo relativamente diferente, com mais sorrisos, com outros
problemas certamente mas também com outras solucões. De alguma maneira a vida
parece mais fácil debaixo de sol, com sumos de fruta fresca a toda a hora, mar
quente, budistas e uma gastronomia que não aborrece nem envergonha. Dizia-me um
dos companheiros que por lá já se sentia em casa: "já reparaste que eles
estão sempre a sorrir?"
Mesmo com
história dramáticas e traumas recentes (por exemplo o genocídio no Cambodia que
arrasou com 25% da populacão), aquele pessoal consegue, aparentemente, ter a
alegria e a forca de focar nas coisas básicas e importantes da vida. E não
pensemos que estamos a falar dos pobrezinhos e coitados. O sudoeste asiático já
não é apenas o sítio onde as multinacionais vão coser roupa. Não vi mais gente
a dormir nas ruas de Banguecoque do que, por exemplo, no centro de Lisboa,
Paris ou Roma.
É dificil
explicar a sensacão de viver no aparente caos destas cidades super povoadas. Eu
não me importo com a confusão, a enxurrada de gente ou o barulho. Sinto-me
acompanhado em ambientes desses. Mas há algo de especial em estar o dia todo na
agitacão para, de seguida, dar de caras com uma praia deserta, daquelas que
vemos nos postais. Ou entrar numa rua escura ao calhas e uma senhora abrir a
cozinha para nos fazer o último pad thai da noite. O que estou a tentar dizer é
que, parece-me, por aqui cada dia conta e é vivido de forma intensa. Ainda
assim, sem grande pressão ou horários definidos. Tudo se arranja, tudo se
desenrasca, há sempre alguém que conhece alguém.
Regresso de um
mundo onde tudo vibrava, tinha cor e cheiros para o meu espaco. O tal ocidente
civilizado, velho continente que ensina os demais a viver. E o que vejo? Em
Portugal voltam-se a discutir temas de 1950, desenterrados por um livro
apresentado por Passos Coelho e escrito, entre outros, por fachos como o Jaime
Nogueira Pinto. Um idiota daquele partido que teve 100 000 votos sem querer,
afirma que as neves do Kilimanjaro ainda lá estão, portanto, isto do
aquecimento do planeta é uma tanga.
Parece que
ficamos mais estúpidos quanto mais informacão nos disponibilizam. Eu estive no
cume do Kilimanjaro em 2008. Os glaciares já eram muito menores nessa altura do
que em décadas anteriores. É só ver as imagens aéreas para perceber. Os lagos
reduziram o seu tamanho, os glaciares também mas...o facto de existirem, ainda
que menores, não quer dizer nada. É tudo uma conspiracão.
Na televisão
vejo velhos que, na sua juventude fugiram à guerra colonial, dizerem que o
apoio à Ucrânia não pode parar e que é tempo de enviar soldados. Isto porque,
claro, já não são as costas deles que lá vão bater. Já para não falar do
genocídio em Gaza que nem nos rodapés aparece. Será também estudado daqui a 20
anos.
No meu bairro,
em Gotemburgo, há casas a serem vendidas em hasta pública por execucão
bancária. Algo que eu nunca tinha visto em 20 anos. Famílias que, por causa das
taxas do BCE e a eterna desculpa da Ucrânia, passaram a pagar 3, 4 ou 5000
euros pelas prestacões ao banco e simplesmente...estouraram. Eu já nem consigo
perceber como é que se sobrevive em Portugal quando nos países ricos comecam a
ficar depenados.
E depois...tudo
em nome de quê? Chegamos a meio da nossa vida, eu pelo menos espero ter
chegado, a trabalhar dia e noite para pagar contas, sustentar guerras,
patrocinar a corrupcão e sermos governados por entidades como o BCE.
Eu, que sou um
ferrenho apoiante do estado social e da solidariedade, trabalhei 20 anos para
entregar mais de 50% do meu rendimento em impostos e, mesmo assim, ser
extorquido mensalmente pela banca, sem que os governos eleitos facam
absolutamnete nada. A Europa transformou-se numa zona muito pouco recomendável
onde, sem darmos por isso, ficámos acorrentados a um jogo cujas regras mudaram
no espaco de 4 anos (desde 2020) e que foram decididas, a meias, entre a banca
e a comissão europeia. Nada ou ninguém que eu me lembre de ter eleito para
falar ou decidir em meu nome.
A desilusão é
tal que, aos poucos, vou desligando as notícias, perco a vontade de escrever,
simplesmente não quero saber. Não importa, não interessa. Isto já não é a vida
que vinha no guião do "vai estudar e esforca-te para seres o melhor
possível no teu local de trabalho". Isto é apenas uma merda.
A vida devia
ter menos Ursulas, Putins, Zelenskis e Venturas e mais momentos em família,
fotos para a posteridade, recordacões que nos fazem pensar que valeu a pena
passar pelo planeta.
Digo isto
várias vezes aos meus filhos e é algo em que acredito profundamente. Depois da
educacão que será a ferramenta deles para enfrentarem o futuro, tudo o que lhes
quero dar são momentos. Experiências, paisagens, um pouco de mundo. Algo que
lhes fique na memória e que lhes permita ter um conceito de "bairro"
mais alargado quando comecarem, sozinhos, a definir o seu. É esse, para mim, o
verdadeiro sentido da vida. É conhecer em vez de acumular. É ir em vez de
esperar. É, no fundo, perceber onde estamos e o que fazemos aqui, como dizia o
poeta em tempos de má memória.
Em resumo, eu
quero que a Ucrânia se foda, que a Rússia se foda, que a Ursula se foda, que a
Lagarde se foda, que o Trump se foda, que os fachos se fodam, que os idiotas
que apoiam o genocídio em Gaza se fodam ou que os burros que acham que uma
Europa com muros é a solucão, se fodam.
No fundo era só
isto, mas o poder de síntese nunca fo o meu forte.
2024 04 12
sábado, 9 de setembro de 2023
Tiago Franco -· O MEU OBRIGADO AO PS/PSD |
quarta-feira, 14 de dezembro de 2022
Tiago Franco - A magia do directo à portuguesa
VISTO DE FORA
por Tiago Franco // dezembro 14, 2022
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CATEGORIA: OPINIÃO
TEMAS: TIAGO FRANCO, VISTO DE FORA
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Em Campo Maior, numa rua cheia de lama, com carros ao monte, há pessoas de galochas e pás na mãos, encasacados até à cabeça, recolhendo o entulho e empurrando a água para as entradas de esgoto.
Percebe-se, em apenas cinco segundos, o que estão ali a fazer.
A jornalista, obrigada a criar qualquer coisa para o directo, aproxima-se, obriga um dos senhores a parar tarefa e atira-lhe a pergunta do milhão de dólares:
“Então, o que estão aqui a fazer?”
O camarada alentejano levantou os olhos da enxada, olhou para a jornalista e deve ter pensado num “f***-se!! O que é que te parece que estamos a fazer??”. Mas respirou, lembrou-se que tinha ali uma câmara, e disse, de rajada e em volume aceitável: “LIMPEZAAA!”
Os directos são um mistério para mim. Nunca percebi o interesse de, por exemplo, ter alguém numa cidade a 1.000 quilómetros de uma frente de batalha para entrar à noite, em directo do hotel, a tempo de nos contar o que alguém lhe disse que está a acontecer a oito horas de carro dali.
Compreendo, obviamente, o interesse da reportagem em directo, que nos traz as imagens do que está a acontecer. Mas a necessidade extrema de criar conteúdo com interesse informativo nulo, para além de deixar uma sensação de vergonha alheia, acaba apenas por atrapalhar quem, de facto, está a tentar fazer algo de jeito.
A história de Campo Maior fez-me lembrar um dos incêndios deste Verão, quando uns jornalistas, da CNN julgo, tentavam entrevistar bombeiros enquanto estes apagavam o fogo, o que é, só por isso, bizarro. Acabaram por ouvir, entre corridas desesperadas, que “têm que desviar o carro para o camião conseguir passar”.
Ou pior, quando perguntavam a populares o que por ali faziam, num incêndio junto ao Fundão, se a memória não me falha, e uma senhora, a carregar baldes de água, lhes disse: “se largassem o microfone e agarrassem nuns baldes é que era de valor!”
Que informação relevante é que pode dar um popular, no meio de uma aflição, a quem precisa de encher uns minutos de directo? Não entendo, a sério que não.
Mas pior do que as horas de irrelevância informativa, é a estratégia editorial. Seja qual for o tema, desde que apareça como novo, é espremido até à exaustão, como se deixasse de existir mundo a partir desse momento informativo.
Quando a covid-19 rebentou tínhamos directos do aeroporto de Lisboa para acompanhar a chegada dos portugueses que tinham sido evacuados da China. O pessoal médico estava vestido com uns fatos da NASA, como naquele filme Outbreak dos anos 90 (com Dustin Hoffman), e lá atrás da rede de protecção, as câmaras das televisões faziam o zoom possível para nos mostrar qualquer coisa.
Dois anos com directos dos hospitais, conferências do Infarmed, powerpoints do Costa, vacinas do almirante, regras e mais regras. Polícias na rua a correr com velhotes que comiam sandes num banco de jardim, restauração na falência, palminhas nas varandas. Mal nos apercebemos que já havia rockets no Donbass.
Nos Verões são os incêndios, nos Invernos as cheias. Enquanto acontecem, temos horas e horas de directos, debates, diagnósticos do que está mal (matas, num caso, e sarjetas sujas, no outro) para, um ano depois, repetirmos todo o processo: directo, debate, diagnóstico. Pelo meio, mete-se o Natal e os directos passam para os centros comerciais ao som de Mariah Carey ou Wham.
Chega a guerra – a de 2014 até 2022 foi só o aquecimento – e durante meses temos tanques no quintal e mapas de ocupação. Desaparece o resto do Mundo novamente. Acaba a covid-19 de forma oficial.
Em Novembro, a guerra acalmou para ligarmos aos diretos do Qatar. Até a selecção portuguesa ser eliminada, ninguém se magoou em Donetsk. Por essa altura, interessou saber tudo, mas mesmo tudo, que Ronaldo disse, pensou, fez, disse mas não fez, pensou mas não disse, disse mas não queria dizer, e todas as demais combinações.
É importante massacrar um jogador até que já ninguém, nem sequer entre os seus colegas, consiga ouvir falar mais no tema. É importante não discutir o que joga ou podia jogar uma equipa de 25 e criar, em vez disso, uma gigantesca onda negativa em torno de uma equipa que, afinal, todos queríamos que vencesse.
O golo marroquino acontece e o São Pedro começou a castigar o território ibérico. Os mouros estão de volta. Há água por todo o lado, carros a boiar, casas alagadas, cidades transformadas na Veneza dos subúrbios.
Percebo a gravidade, os problemas e os dramas, mas, tal como nos demais temas, o Mundo volta a desaparecer. Como se, com tantos recursos de recolha de informação, cada linha editorial só conseguisse lidar com um tema de cada vez. Ou até como se, para representar uma calamidade, seja necessário entrevistar pessoas que limpam as ruas em cada aldeia do país. Vi um directo do Muxito. Do Muxito!
Para vós que sois menos versados em cultura urbana da margem sul, o Muxito era uma mata que, na minha juventude, era conhecida por ser um sítio de paragem para profissionais de um ramo profissional muito antigo, ligado à venda de sensações cutâneas. Não é uma zona que tenha visto os seus primeiros líquidos nesta enchente.
E enquanto escrevia isto, pensando que então que terminara o texto, notei que o directo regressou a Campo Maior e apanhou outro senhor. O homem estava a carregar móveis, cheio de lama na cara e nas mãos, e, mal lhe cheira a pergunta, vira as costas ao jornalista que, para desenrascar, diz: “as pessoas não querem falar, mas as imagens falam por si”.
Aleluia irmão!, aleluia!
Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)
https://paginaum.pt/2022/12/14/a-magia-do-directo-a-portuguesa/








