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segunda-feira, 27 de julho de 2026

Tiago Franco - OS AVENÇADOS DE ISRAEL |



* Tiago Franco

Por achar que já não tenho irritações que cheguem na vida, o algoritmo desta rede passa a vida a bombardear-me com "influencers" portugueses, de extrema-direita, pagos pelo estado de Israel para andarem por Gaza a repetir as narrativas que lhes são ditadas.

Vou deixar de lado esta coisa, muito do século XXI, da malta arranjar sustento a dizer banalidades e transmiti-las para uma geração onde, apesar da informação ao minuto, sobra ignorância. Quando vejo pessoal da minha idade, e mais velhos, a repetirem ideias destes gajos, vou perdendo um pouco a fé na humanidade. 

Não vou fazer publicidade a esta gente, são as novas Ferro Gouveia em potência e provavelmente vocês já os/as terão visto por aí. A gorducha da voz irritante, o anafado do táxi, a cruela da voz rouca e mais umas quantas azedas que por aqui andam.

Também não vou discutir o investimento que Israel faz em publicidade com influencers de vários países. Isso é do conhecimento público e nem aquele estado genocida o nega. 

Até percebo que se tenha que meter comida na mesa e, trabalhar, é algo que a poucos apetece.   Estou solidário nessa parte. Se pudesse andar a bater mundo e alguém me fosse pagando as contas, certamente chegaria mais depressa a alguns dos sonhos que me faltam concretizar. 

Mas não há um limite, de decência vá, para o preço da nossa alma? Por mais ódio e frustração que a vida nos traga, por mais racistas e intolerantes que sejamos, por mais xenófobos, conservadores ou islamofóbicos...não há uma linha vermelha a partir do qual se diz, "tenho que arranjar outra forma de pagar as contas"?

Há algum ser humano com coluna que, vendo o que os colonos na Cisjordânia estão a fazer, consiga encontrar um ponto de vista que justifique aquele terror e a expulsão dos palestinianos?

Alguém, que não siga fanaticamente a vida por um qualquer livro religioso, a bíblia, a tora, o corão ou outra merda qualquer, consegue encontrar uma justificação para as constantes chacinas em Gaza? Ainda se fala no 7 de Outubro como justificação? Os 70 000 (número onde parou a contagem) palestinianos mortos, maior parte deles mulheres e crianças, ainda não chegam para justificar o "direito de defesa" sobre a morte de 800 civis israelitas?

Quando vemos aquele inenarrável ministro de extrema-direita, Ben-Gvir, a entrar por Gaza a dentro, com uma horda de colonos, a gritar "quem diria, há 3 anos, que hoje estaríamos a controlar 70% da faixa de Gaza?", ainda conseguimos procurar uma narrativa que justifique as atrocidades de Israel?

Quase 2 milhões de pessoas, em Gaza, enfiadas num quintal, em condições desumanas e outros tantos na Cisjordânia, a sofrerem um processo de expulsão, patrocinado pelas IDF. E prestam-se estes "influencers", um pouco por todo o mundo, a troco de umas viagens e uns trocos para ficarem em casa a fazer vídeos mais uns meses, a mentir para as suas comunidades, fazendo parte de uma tentativa, à escala global , de limpar a imagem de Israel. 

Mas como? Sim, como meus amigos? Dá para apagar a morte de milhares de mulheres e crianças inocentes? Ou ainda estamos a vender a história de que cada pedra em Gaza era um terrorista do Hamas? Dá para apagar os vídeos diários de novos colonatos na Cisjordânia? Dá para apagar os vídeos do Ben-Gvir a celebrar a pena de morte para palestinianos? 

Também já perdi um pouco a paciência para as discussões das perspectivas ou das opiniões. Não há duas visões em crimes tão óbvios e tão desproporcionais.

Quem, a troco de dinheiro (ou não), se presta ao papel de tentar justificar um estado genocida, está exactamente a entrar no papel de colaboracionista, mas sem aquela desculpa clássica e histórica de quem luta pela sobrevivência. 

São, no fundo e apenas, uns filhos da puta

27 Junho 2026
https://www.facebook.com/tiago.franco.735

sábado, 6 de junho de 2026

Tiago Franco - A RESIGNAÇÃO DE UM POVO |



* Tiago Franco
 ·
O Expresso noticiava, em Abril deste ano, que Portugal tem um salário médio 38% inferior à média europeia. Faço estas contas repetidas vezes porque, apesar de este país ser cada vez menos recomendável, ainda é o mais parecido que tenho com o conceito de casa e gostava de um dia aqui trabalhar. 

Saio genuinamente irritado de sítios, onde quem me atende não tem qualquer culpa, por causa do custo de vida galopante. Como é que se vive? É sempre esta a minha interrogação. Como é que se vive nestas condições?

A esmagadora maioria dos portugueses leva para casa 1000 euros, um pouco mais ou um pouco menos. Ouvimos esta semana uma nova subida da Euribor que afectará as prestações dos créditos à habitação. Um depósito de gasolina já custa, sem grande esforço, cerca de 100 euros. A electricidade e o gás custam mais do que nos países mais ricos. 

Os preços das casas continuam a subir, o cabaz da alimentação também e já é certo que, no máximo, lá para Setembro, o BCE aumentará as taxas de referência. Uma notícia de ontem anunciava que o endividamento na banca sobe pelo oitavo mês consecutivo. Entretanto nós continuamos com os 1000 euros na mão, a escolher no que cortar. Alguém me faz essa conta? Como é que se suporta uma família com 1000 euros, em 2026 em Portugal?

As bombas da imagem distam pouco mais de 30 km. Na espanhola o governo resolveu absorver os custos. Na portuguesa, o governo de Montenegro aproveita o conflito do Irão para mais um jackpot de impostos.

Como é que nós aguentamos isto? Como é que um povo, que invade academias de futebol ou faz esperas a jogadores, não se junta e começa, por exemplo, a partir coisas? Sei lá...bombas de gasolina, supermercados, escadarias da AR. Como é que no desespero e na aflição de vermos a vida de miséria a que nos estão a condenar, não reagimos? Como é que aquele instinto animal, de sobrevivência e pouco maturado, reconheço, não aparece nestas ocasiões?

É que reparem, o governo pode fazer qualquer coisa para ajudar. Pode desde logo reduzir os impostos sobre os combustíveis. Pode incentivar políticas de trabalho remoto para que se poupe em deslocações. Pode parar com a idiotice de dar benefícios a senhorios ou construtores. Pode impôr regras fiscais que obriguem a uma distribuição mais justa da riqueza. Podem, enfim, tentar fazer algo pela melhoria de vida em vez de, repetidamente, nos tentarem convencer que todos os infortúnios resultam de factores externos e que nada, do nosso destino, é internamente controlado. 

Acho piada quando os grandes temas, em vez do passarem pelo nosso crónico empobrecimento, são o regozijo pelos imigrantes que resolvem abandonar Portugal ou as lutas de galinheiro sobre bandeiras, nacionalidade e opções sexuais.

Quando um português, mesmo daqueles um bocadinho mais fachos, percebe que nem um paquistanês cá quer ficar, não entende o que isso diz do nosso país?

Tudo isto me irrita. Um governo que nos rouba sem pudor e um povo que aceita, empobrecer, sem luta, sem combate, sem a rua.

Porque é a vida. Temos que aguentar e esperar por dias melhores. Que pena termos apenas uma vida.

2026 06 06

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sábado, 9 de maio de 2026

Tiago Franco - A GERAÇÃO DOS ESCRITORES |

 

* Tiago Franco
 
Sentei-me à mesa e fui falando com quem estava à minha frente. Ela, a companhia de cada dia. O restaurante era familiar, tradicional, bem decorado, perdido ali por uma das aldeias do Douro vinhateiro cujo nome não me consigo recordar.

ao tamanho que trouxe fama ao Norte mas a comida era óptima. O vinho, curiosamente, nem tanto. O Alentejo enche-me as veias, aparentemente. 

Posso ter andado distraído nestes últimos anos, é capaz, mas Portugal tornou-se um destino turistico pouco dado a "faça férias cá dentro". Qualquer tasca perdida na serra é gourmet, nos preços sobretudo, qualquer casa da tia é pousada de charme a 200 eur a noite. 

Não tenho por hábito fazer férias em Portugal, desde logo porque tenho poucos períodos a que posso chamar férias e depois, mais importante, porque vivo num sítio que já é um destino de ferias por si só. A ilha preenche-me quase todas as necessidades de viajar em Portugal. Quando é para torrar algum, tento mesmo ver coisas novas. 

Ainda assim, e isto é apenas uma curiosidade de observador, uma vez que não percebo nada da poda, não será arriscado meter as fichas todas no turismo e, em simultâneo, praticar preços que 80% dos portugueses não conseguem pagar? Quando os estrangeiros de bolso mais fundo desaparecem, o que acontece? Pedem apoios? E até lá? Os portugueses fazem de porteiros da Disneyland em que nos tornámos?

Enquanto falava via uma cena na mesa do lado que me ia incomodando. É um dos meus problemas, não me consigo focar numa coisa só e fechar o cérebro a sinais exteriores. 

Um casal muito novo, com jeitos de andar nos primeiros encontros, senta-se, faz a encomenda e volta para os telefones. Durante 10 minutos não trocaram uma palavra enquanto davam seguimento às suas vidas virtuais. Levantaram a cabeça quando a comida chegou.

Eu faço parte daquela geração que cresceu à volta da mesa. Sem televisão, logicamente sem telefones e com conversas que se arrastavam para lá do café. Convivo, por isso, muito mal com o silêncio e seria incapaz de estar, numa mesa, calado, com alguém à minha frente.

A angústia era tal que, a dada altura, apeteceu-me sentar na mesa do lado e arranjar-lhes um tema de conversa para que falassem. Vejo muitas cenas destas em Portugal. Até com famílias inteiras que escolhem sair de casa, ir para um restaurante largar uma pipa, para fazerem o que fazem em no sofá da sala, ou seja, olhar para o telefone. 

Será talvez conversa de velho do Restelo mas a fraca aptidão social desta geração estará, em parte, na mudança que aconteceu na forma de comunicar. Trocou-se o olhar em frente, na direção de uma cara, para o olhar para baixo, mirando um ecrã. 

A minha geração também tem uma dose de culpa, quando desistimos de ser pais e mães e entregámos os putos ao silêncio e tranquilidade de um ecrã. Quem é que quer estar a correr atrás deles na rua, num dia frio, quando os pode largar no quentinho hipnótico de um iPad? Ah pois...

Ouço um puto no concerto dizer a outro: "fui lá pedir o insta dela para lhe escrever " e pensei com os meus botões, porque é que não falaste só com ela, ali, mesmo à tua frente?

Teremos provavelmente a geração mais incapaz socialmente mas, aposto, nascerão poetas, escritores e guionistas como nunca antes

2026 Maio 09
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terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Tiago Franco, - UMA SAFRA DE FILHOS DA P*TA |

* Tiago Franco

O dia já estava destinado a ser mau e portanto, comecamos logo pelo título a mostrar a paciência que vai embrulhada na escrita. Já lá vão 5 dias desde que deu à costa a operação "safra justa", um esquema de escravatura levado a cabo no Alentejo (Beja), controlado por 10 GNRs e 1 PSP, num conjunto de herdades agrícolas que, aparentemente, não pertencem a ninguém. Há várias reflexões que me parecem interessantes tirar daqui. Algumas óbvias, outras nem tanto.

1 - Quem são os donos das herdades? Estão presos? 

2 - Percebem, através de casos como este (já nao é o primeiro), como o discurso de ódio contra imigrantes os deixa mais vulneráveis e sujeitos a estas redes de escravatura? 

3 - O Chega fez dos imigrantes o seu alvo favorito nos últimos 2 anos. As forças policiais são, entre os vários sectores profissionais, aquele em que o Chega tem melhor penetração de quadros. Conseguem perceber o sentimento de impunidade e libertação de consciência que isso assegura, no tratamento com imigrantes, de alguns elementos das forças de segurança?

4 - Tem sido tema dos debates presidenciais que 40% do trabalho no sector agrícola é garantido por mão de obra imigrante. Muita dela em regime de pura exploração. Sabendo que Portugal precisa de mão de obra e que o governo de extrema-direita vai dificultar a entrada de imigrantes, todos percebemos o que vai acontecer, não é? As redes clandestinas vão aumentar porque, havendo a necessidade económica de ter o trabalhador, certamente o tráfico se encarregará de o fazer chegar ao seu destino.

5 - Há alguém, entre os "portugueses de bem", que veja os imigrantes a serem tratados como escravos, odiados, enquanto pagam impostos (de uma forma geral) e aguentam a segurança social, e no fim, se sinta ligeiramente envergonhado? Há algum apoiante do Chega que veja um caso destes e perceba a quantidade de tangas que lhe dizem diariamente no tik-tok?

6 - Por fim, há algum jornalista que tenha o Cotrim por perto e lhe possa pedir para repetir aquela frase, icónica, de que "os empresários portugueses não pagam mal por desporto"? 

Não é por desporto, não. É mesmo por crueldade e uma ganância sem limites. Que absoluta vergonha que sinto a ler sobre casos de escravatura, no meu país, em pleno século XXI. Que puta de injustiça na forma de tratar outro ser humano.

Dito isto, quero apenas perceber duas coisas. O tempo que o ministério público demorará a formalizar uma acusação aos donos das herdades e, que reação oficial terá o Chega, o partido incitador do ódio contra os imigrantes.

Portugal torna-se, a cada dia que passa, um local menos recomendável. Isto sim, é que é uma vergonha.

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Ps - 1000 comentários depois, algumas centenas da ganadaria, resolvi dar aqui uma ajuda na compreensão de textos. Não está escrito em lado nenhum que o mau trato a imigrantes começou com o Chega ou que não havia abusos na agricultura antes de 2019. O que se tenta explicar (talvez eu deva começar a usar desenhos), é que o incitamento ao ódio que é todo o programa eleitoral do Chega, deixa imigrantes, já de si em situações problemáticas, ainda mais vulneráveis. Há hoje em dia uma espécie de carta branca na sociedade para se odiar imigrantes ou ser racista sem complexos.

2025 12 02

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quarta-feira, 2 de abril de 2025

Tiago Franco - TRÊS HORAS DE ROMANCE |

 * Tiago Franco

Esta administracão americana junta à ignorância, e falta de chá já agora, uma falta de inteligência processual que chega a ser arrepiante.

Não há propriamente uma grande novidade nisto de anexar territórios. Toda a minha vida vi este "business as usual" mas os métodos eram mais graciosos. Havia sempre uma razão moral para meter a pata em território alheio.

Ou iam levar camiões de democracia ou derrubar um ditador que fazia mal ao seu povo. Não se dizia à boca cheia que o interesse era sacar petróleo.

E quando o tema não era pilhar recursos mas sim criar governos amigos, também se fazia tudo com algum "glamour". Patrocinavam-se uns "Contras", escolhia-se a dedo um presidente, interferia-se com a democracia sem grande alarido. Eram bons tempos, cheios de histórias secretas, conspiracões em bailes de gala, recepcões a embaixadores ou desembarques de mercenários em baías vigiadas.

Todo o império tem a sua, ou as suas, Bielorrússias. A arte está na forma que usam para nos convencerem da anexacão. Agora, vir um bronho com a melhor alcunha de sempre (Mango Mussolini), dizer repetidas vezes na televisão que "temos que ter aquilo porque há navios chineses e russos por todo o lado"...epá...corta todo o romance e encanto da espionagem e da política externa.

Nós sabemos que é por isso que queres aquilo. Nós sabemos a história da guerra aos recursos naturais....mas mente, pá! Mente! Dá algum charme a esta coisa de se anexar território alheio.

Uma coisa é perceber no início do século 20 que o Hawai dá jeito para encaixar umas bases. Anexa-se e ninguém se queixa. Nem havia instagram nessa altura. Tudo bem.

Mas hoje em dia, com a velocidade a que a informacão se espalha, francamente, é deprimento ver o facho encartado a visitar um território sem ser convidado e, de forma improvisada, a fazer uma conferência de imprensa na base militar onde se dirigia às maravilhosas pessoas da Gronelândia e às lindíssimas paisagens, quanto desancava os dinamarqueses.

JD...tu conheces alguma pessoa na Gronelândia? Viste alguma paisagem nas 3h que passaste na base? Sinceramente fico desiludido porque os EUA habituaram-nos com espectáculos muito melhores e bem mais ensaidados. Estes gajos são muito amadores, nem chegam a actores de fimes B. São o Stevan Seagel numa sequela que pedia Denzel Washington.

Dito isto...tenho dúvidas técnicas. Se de facto os americanos se abarbatarem com a Gronelândia:

1 - A Nato mete as botas no terreno para correr com eles de lá, cumprindo o artigo 5?

2 - A Ursula vai cobrar-nos mais impostos para apoiar a Gronelândia for as long as it takes?

3 - Os Dinamarqueses vão passar a terroristas na lista do FBI?

4 - A UE vai impôr sancões económicas a Washington?

5 - Os refugiados dinamarqueses também vão para o Ruanda (para onde eles mandam os que lá chegam) ou fazemos uma vaquinha para os acomodar em Alicante?

Esta história da Grônelandia promete ser apaixonante, tanto na parte da narrativa histórica como na das anexacões democráticas. É certo como o destino que os chineses ainda vão ser os culpados disto. Bem vistas as coisas, ainda só passaram dois meses do Donald. Dois mesitos.

Eu já só quero que me expliquem isto com o papel da conta à frente. Retencões na fonte, IVA, IRC, IRS, taxa do audiovisual, imposto nos combustíveis...não importa. Digam-me só quanto é que nos vão sacar para mais esta e tudo bem, seguimos cantando e rindo, a pagar.

2025 04 02

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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

Tiago Franco - MOMENTOS DE EMBARAÇO A DAR COM UM PAU |

* Tiago Franco 

A conferência de Munique, pelo furacão que lá passou, fez-me ligar a televisão. 

O resumo do que me pareceu ouvir, e que me fez corar de vergonha, está aqui:

- JD Vance, numa conferência sobre segurança, falou do clima, de firewalls e de imigração. Desprezou totalmente a questão ucraniana. 

- Mark Rutte (o novo bibelot da Nato) disse que as negociações de paz não incluem a adesão mas que no futuro, numa galáxia distante, quem sabe?

- Keith Kellogg, o enviado especial de Trump para as questões da Ucrânia, disse que a Europa não estaria na mesa das negociações e, que a própria Ucrânia, estaria numa fase mais adiantada (basicamente para lhes comunicarem a decisão)

- Trump aceita metade dos minérios raros do território ucraniano e, em troca, faz o acordo de capitulação da Ucrânia (é apenas isso que está a acontecer, nada mais). 

- Von Der Leyen diz que não há negociações de paz sem a Ucrânia (tal como não havia mísseis sem chips das máquinas de lavar)

- Costa diz que juntos somos mais fortes e pergunta se é cheia para todos ou se há quem prefira italiana.

- Zelensky acena com a hipótese de um exército europeu, partindo do ucraniano (que é neste momento o maior). Questiona também como é que é possível haver negociações sem a Ucrânia e alguém lhe fala no plano de paz/vitória que ele apresentou à Europa e à EUA (do Biden) sem mandar uma cópia ao Putin.

- Macron, vendo a bandalheira em que se tornou a conferência e o enxovalho que os americanos, totalmente alinhados com a Rússia, foram fazer a Munique, convoca os países europeus para uma reunião de emergência. Ali haverá muito brainstorming e medição de pilas. Portugal não foi convidado para o sonho molhado francês o que é uma pena. Ninguém mede como nós.

Feita a cronologia, resta-me dizer o seguinte. Quando Von Der Leyen e demais inúteis líderes europeus, andaram a fazer de capachos dos interesses americanos, quem os criticou foi apelidado de putinista. Lembram-se desses tempos?

Quando Von Der Leyen, sem exército ou armas, prometia apoiar a Ucrânia "for as long as it takes", fartaram-se de meter bandeirinhas e jurar "slavas" aos filhos dos outros que iam morrendo.

Quando a população europeia foi empobrecendo para pagar esta merda, vendo o óbvio lucro a ir para o outro lado do Atlântico, passámos a primários anti-americanos, nossos eternos aliados, que por acaso eram os beneficiários das sanções à energia russa e do fornecimento de armas.

Quando nos buzinaram, durante 3 anos, que mais uma remessa de armas X e a Ucrânia, venceria, não se podia dizer que, desde Maio de 2022, as posições russas estavam estabilizadas.

A Europa andou 3 anos a servir os interesses dos EUA e do seu braço armado, graças a uma casta de líderes do mais incompetente e desprovidos de tomates que alguma vez me lembro de ter visto. A custo de uma geração absolutamente arrasada na Ucrânia, que fez frente aos segundo maior exército do mundo, enquanto idiotas com responsabilidades nas políticas europeias nos juravam que os russos estavam a dias do colapso. Tudo isto foi dito, escrito, repetido. Nada do que está a acontecer hoje pode ser uma surpresa de tão óbvio que era (com ou sem Trump, já agora).

3 anos depois a Europa está cheia de regimes amigos de Putin (a próxima deverá ser a Alemanha) e os próprios EUA viraram para uma autocracia, onde apenas a lei do comércio importa. 

Dá dó ver Zelensky a ser entalado por quem lhe disse para avançar. Sinto vergonha com a impotência do discurso europeu que tenta mostrar uma posição de força sem ter como derramar sangue. Chegamos ao ponto de ver o velho continente a ser relegado para segundo plano, enquanto os impérios decidem as divisões que se seguem. E para piorar, ainda temos que aturar figuras patéticas como o Macron na liderança do grito do Ipiranga.

Em 2022 escrevi, não me recordo das palavras ao certo, que em 100 anos de história, só me lembrava de uma ou duas vezes (Afeganistão por exemplo) em que os russos, uma vez num conflito, voltassem de lá com as mãos a abanar. Mas não...a Ursula disse que com sanções, F16s e chuva de dinheiro, a coisa ia lá. O problema é que estava a falar com as calças do pai vestidas e ele, agora, resolveu pedi-las de volta.
Acabo como já acabei N textos sobre a Ucrânia. Estávamos exactamente neste ponto há 3 anos, no que a território dizia respeito. Tínhamos era mais um milhão de rapazes vivos, coisa que importa rigorosamente nada a quem decidiu este conflito, da Casa Branca ao Kremlin, passando por Londres e Bruxelas.

Num mundo ideal e com governantes dignos desse nome, esta era o momento em que a Europa começava a subir a escada da independência e da libertação deste papel de fantoche menor.

Com as actuais lideranças e a subida da facharia um pouco por todo o lado, temo que nada disso aconteça. 

O futuro na europa, com todos estes sinais, parece estar destinado a ser algo que nunca vivi mas que todo o livro de História, em especial do séc.XX, se encarrega de explicar.

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***
Antonio Gil
Algumas observações que não vão bulir nada com o tom geral deste texto:

Se a afirmação que a Ucrânia enfrentou o 2º exército mais poderoso do mundo tem em mente os EUA como o 1º não podia estar mais equivocada. Se nela está implícito que a China é o 1º mesmo assim é matéria para discussão (que não farei aqui).

Não estávamos exactamente neste ponto há 3 anos, no que diz respeito a território ganho pelos russos, nem de perto nem de longe. Isso é o que os média nos querem fazer acreditar quando falam de impasse. É observar como os russos avançaram desde o fim da chamada 'contra-ofensiva' ucraniana até aos dias de hoje e em aceleração constante, de lá para cá.

Tudo o resto subscrevo.

 Tiago Franco
Antonio Gil o primeiro é obviamente o exército chinês.

Antonio Gil
Tiago Franco : sob muitas métricas sim. Não todas porém.
 
Filipe Dourado
Eu que muitas vezes em campanha ando a falar com as pessoas já foi apelidado de Putinista 1000 vezes e os contra argumentos, quando tento explicar a posição política , são do nível pré-histórico com palito na boca . Alguns ainda dizem que foram camaradas mas que agora deixaram de ser pela posição que o Pcp tem sobre a guerra na Ucrânia . Ter razão tem consequências , pelos vistos negativas.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Tiago Franco - ANDRÉ, AMIGO, O TEU POVO ESTÁ CONTIGO |

* Tiago Franco   


Quando escrevi o último post, há dois dias, pensei: "vou fazer uma paródia com o Chega e este rolo de casos bem catitas de beberolas, pedófilos e malas".

Entretanto a minha mulher chamou-me para arranjar qualquer coisa e nunca mais vi o sol. Dois dias em 2025 correspondem a 30 em 1994. Anda tudo muito depressa e as notícias de 6f já parecem a RTP Memória.

Poucos minutos depois de ter escrito a piadinha do último post vejo, no meio do meu zapping higiénico, o pastor Ventura a saltar entre a TVI e a CNN, numa tentativa arriscada de acalmar as hostes cheganas. 

Devo dizer que, depois de ouvir o ensaio, perdi a vontade de o arrasar (ou ao Chega, já que são a mesma entidade). Aliás, até me vou levantar e bater uma saraivada de palmas ao André. Imaginem-me no Parlamento, ao lado do antigo repórter tauromáquico, a gritar "muto bâim". Porque Ventura foi absolutamente brilhante.

Passou o dia a debitar aos ouvidos de cada jornalista em que tropecou na AR um sonoro "não me escondo", "seja meu pai, meu filho ou meu irmão...se papa meninos, é para castrar!". Mete uns posts no FB, no X, pede ajuda à Rita Matias e ao Frazão para repetirem a mesma história nas suas redes (os outros 45 não sabem escrever e por isso foram dispensados da tarefa) e arranca para os estúdios de Queluz. A TVI ainda é em Queluz? Adiante...

Na televisão bate no peito em frente à Sandra Felgueiras e depois, na CNN, meio esbafurido, repete tudo sem perder a calma. É diferente dos outros políticos. Tem mais merda em casa, é verdade, mas agarra o touro pelos cornos e corta o mal pela raíz. Com ele não há paninhos quentes nem se abafam histórias.

Ao contrário dos outros partidos. E aqui comeca a disparar para todo o lado.

Fala na Mortágua e no Robles. Nenhum deles cometeu qualquer crime. Fala no Ferro Rodrigues que nem indiciado foi. Fala no Paulo Pedroso que foi preso, libertado, sem julgamento e, mais tarde, indeminizado pelo estado português. Ou seja, não cometeu qualquer crime. Fala no Sócrates que está em julgamento eterno e de quem o PS já se afastou há muito. Fala do Medina que não foi acusado no Tutti-Futti.

Num estilo clássico de Ventura, misturou inocentes com indiciados, investigados com ilibados. Mexeu tudo muito bem, juntou um dedo no ar e salpicou com indignacão. Voilá, está servido o político diferente, o Sebastião da limpeza, o mártir que não teve culpa dos bronhos que lhe recomendaram para a bancada parlamentar. 

Com essa conversa, desvia as atencões dos 20% de deputados com acusacões formadas e problemas com a justica que passam por irregularidades financeiras, roubo, assédio de menores, imigracão ilegal, difamacão, agressões, declaracões falsas e violência doméstica. Os quadros do Chega estão a uma namorada nepalesa de fazerem bingo nas causas do partido.

Nem um hora tinha passado desta última intervencão (CNN) e, munido de luvas e galochas, fui nadar em caixas de comentários. Por aqui, no X (tenho mesmo que deixar de ir aquele esgoto) e nos jornais, a mesmíssima narrativa do pastor era reproduzida na perfeicão pelos fiéis. Até os nomes usados de pessoas dos outros partidos eram os mesmos. 

Não importa o que dizem os tribunais, não importa o estado de direito, nem sequer importa que maior parte dos iscos usados nem tenham cometido qualquer crime. Interessa, apenas, que o Ventura ensaia uma narrativa cheia de mentiras e omissões e os eleitores do Chega papam aquilo como se fosse Nestum em dia de preguica.

Julgo que foi o Daniel Oliveira (ou o Pedro Marques Lopes, não tenho a certeza) que disse que o BE seria mais castigado pelo despedimento das mães do que o Chega pela sucessão de casos com crimes (já provados). Não por causa da gravidade da accão do BE (não há comparacão com o furto de malas ou sexo pago com menores) mas por os eleitores do Bloco serem bem mais exigentes do que os do Chega (eu não diria apenas mais exigentes mas não me apetece falar do ensino obrigatório).

 A mensagem passou com sucesso. Já não se discute a absoluta miséria que são os quadros do partido de um homem só. Não se fala dos crimes. Não se massacra o Chega como o Chega massacrou, desde o seu primeiro dia, cada deslize dos outros partidos. Lembram-se da "vergonha" que foi repetida, aos berros, em cada sessão parlamentar desde que Ventura era deputado único?  

Tudo isso ficou para trás. O eleitorado do Chega fecha os olhos ao bando de criminosos e exalta com a bravura do líder que arruma a casa antes de continuar a limpar Portugal. Dou por mim sempre a pensar como é que há tanta gente com estas limitacões no raciocínio e na compreensão básica daquilo que acontece, aqui mesmo, em frente aos nossos olhos? Depois recordo-me que conseguimos ter taxas de abstencão em algumas eleicões de 60% e que, ainda há 4 ou 5 anos, metade da populacão nem o ensino obrigatório tinha.

Acabo este texto exactamente como disse que o iria terminar. Com pedófilos, ladrões, ilegais, corruptos e gajos que batem nas mulheres, o Chega ainda é capaz de subir nas intencões de voto.

Eles de facto são diferentes, o André é especial e vocês, que votam em gente desta, deviam ter direito a um cão-guia, para atravessarem a estrada.

Vou adiantando já servico, entre obras e arranjos. Deixo as notas dos próximos para não me esquecer:

1 - Venda de minérios raros na Ucrânia a troco de defesa 

2 - Gaza, riviera do Médio Oriente

3 - Palestinianos, vão para a terra deles! (jordanos/egípcios/sauditas)


ps - pizza napolitana devia ser património da Unesco (isto não podem ser só desgracas) 

2025 02 09

https://www.facebook.com/tiago.franco.735

sábado, 16 de novembro de 2024

Tiago Franco - SENSO E SENSIBILIDADE, CIRÚRGICOS |

 

https://www.nytimes.com/video/world/middleeast/100000009825987/israel-strike-gaza-mawasi.html?

* Tiago Franco

Tomo como boa a fonte (NY Times). Aconteceu ontem em Gaza, perto de um campo de refugiados e, como se vê na imagem, as defesas anti-aéreas resumem-se a um puto que vê o míssil antes dos outros e grita o mais que pode.

Não preciso de vos dizer que este bombardeamento, ali no meio daquele pessoal que circulava, foi "cirúrgico" e pretendia atingir um depósito de armas. Matou uns e feriu outros que tiveram o azar de estar ali. Ou noutro sítio qualquer da Faixa de Gaza. Estão presos, entre muros, não podem fugir nem procurar abrigo. 

O Hamas está derrotado, não é? Então bombardeiam diariamente o quê? Há algum pedaço de Gaza ainda por rebentar? Aquela população que vive em tendas e que está rodeada por torres de vigia, tem que aguentar esta merda até quando?

Já agora, para a reduzida, mas sonora, cambada de filhos da puta que se insurgem por aqui e no twitter (aí é mesmo esgoto a céu aberto), contra manifestações e ataques a judeus, em várias cidades da Europa, a pretexto de jogos de futebol ou outra coisa qualquer...o que é que esperavam?

Com um genocídio em marcha há cerca de 1 ano, em cima de uma população absolutamente massacrada por décadas de humilhações e mortes, que já vivia uma ocupação numa prisão aceite pelo Ocidente, quem é que pode, ao dia de hoje, ter qualquer simpatia por Israel? Um governo de assassinos , sem qualquer interesse na paz ou na solução dos dois estados. 

Matam diariamente INOCENTES. Crianças, mulheres, civis que já estavam presos dentro daqueles muros e que agora, sem hipótese de fuga, contam as horas de vida entre bombas.

Vendo isto - o genocídio mais documentado da história, com imagens em direto e sem qualquer sombra de dúvida do que ali se passa - quem é que pode ficar chateado por uns adeptos do Maccabi terem levado uns tabefes enquanto queimavam bandeiras ou glorificavam a morte de palestinianos?

Mas digo mais. Quem é que pode, estando minimamente são e com algum sentido de justiça, depois de 1 ano e 44000 mortos, ter a mínima simpatia por qualquer consequência que os actos do governo israelita tragam para o seu próprio povo?

Netanyahu continua no poder, portanto, é porque a oposição interna não é relevante na discordância e muito menos na sua dimensão. Assim sendo, quem apoia a chacina diária de uma população, não se pode vitimizar quando o azar bate à porta.

Aos palestinianos não foi dada qualquer ajuda para se defenderem. Mas pior do que isso, nem lhes foi dada a possibilidade de fuga. Os muros não abriram e eles ali ficaram, quais peixes num aquário em dia de pesca.

Tenham vergonha na cara, os poucos alucinados que ainda aparecem nas televisões a defender isto. Ouço disparates como "perseguição a judeus" e "nazismo está de volta".

Por acaso são os judeus que estão a ser assassinados todos os dias, suas bestas? Por mais ódio e racismo que essas cabeças de merda possam ter, não conseguem fechar os olhos à cor da pele e ouvir apenas aquela criança a gritar? Se fosse o vosso filho? O vosso primo? O vosso irmão? O vosso pai?

Que gente doente. Que asco. Trump nomeou um fanático apoiante de Israel para a embaixada local e, portanto, espera-se que o massacre continue.

É desta que a Europa se assume como uma potência formada por gente civilizada ou, até a América de Trump, nos vai continuar a grab by the pussy?

2024 11 15 

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sábado, 27 de julho de 2024

Tiago Franco - THE SHOW MUST GO ON

* Tiago Franco
 
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Sou um grande fã de "volte-faces" nas lides políticas. Um dia estamos a lamentar o pior atentado da história e a ver como um velhinho debilitado ficou ainda mais irrelevante e, no dia seguinte, batemos palmas a uma renovada Kamala enquanto ela recebe uma chamada da Michelle "we got your back" Obama.

Na Europa fazem-se coisas destas e, até em Portugal, transformamos políticos falhados em senadores do comentário televisivo. Mas os americanos, na arte de dar espectáculo, não pedem lições a ninguém. Tudo é Hollywood.

Reparem na montanha russa de emoções. Primeiro Biden está perdido perante a humilhação do debate e o seu estado físico. Trump, com apenas 78 anos é um jovem enérgico. Aparece o tiro na orelha e aquela foto à Che Guevara. Trump, o mais escroque que alguma vez ocupou a casa branca, é elevado a revolucionário e resistente. 

A corrida está perdida para os democratas. Trump está virtualmente eleito e aparece na convenção seguinte como um moderado. Alguém que quer unir a América. Eu ainda estou a processar como é que mais de 100 milhões de eleitores apreciavam aquele discurso de ódio do dia anterior e, agora, tento perceber como é que alguém acredita naquele espectáculo montado.

Trump joga golfe durante o dia sem penso, à noite coloca o penso e vai para a convenção. Há centenas de idiotas que lá vão também com um bandex na orelha, por "solidariedade" com o novo herói. 

São doses cavalares de estupidez acompanhadas de luz e cor. O show nunca pára. Há sempre um novo idiota para enrolar.

Biden desiste. Kamala assume o palco. Pela primeira vez na história uma mulher com 60 anos é uma jovem. Michelle liga-lhe em direto e diz que "ma girl" e "got your back", com a câmara ligada e o telefone em alta voz. Calma, calma. Os democratas não vão apenas rebolar. Também querem dar show.

A Kamala usa o cv de combate ao crime para se atirar a Trump. O orange man larga o discurso de união e volta à praia do ódio. Chama-lhe Marxista. Trump não faz puto de ideia quem foi Marx e metade dos que o ouvem  muito menos. Metade? Bom...adiante.

O circo está montado e na Europa começam as manifestações de apoio nas eleições que de facto mexem com a nossa vida. Entre dois maus candidatos, como é normal, escolhemos o menos mau. Ao contrário das eleições europeias, as americanas influenciam mesmo o futuro dos povos da Europa. Pelo menos enquanto as Ursulas andarem por lá.

Zelensky já percebeu que a coisa pode ficar mais difícil e abriu as discussões de paz. A Europa mais moderada quer Kamala que seguirá o business as usual de Biden (e isso implica muito dinheiro para o lobby das armas). Os chineses sabem que terão sanções com qualquer candidato mas, em princípio, seguirão no controle de tudo. Como paciência como é seu timbre e com muito pouco espectáculo, luzes e cor.

Trump é um ser abjecto que deveria estar preso. Kamala vai-me dar cabo da prestação da casa. Trump vai apoiar, ainda mais, o genocídio em Gaza. Kamala vai contribuir para a militarização da Europa.

O que eu queria, mesmo, era que as eleições nos US and A, como dizia o Borat, fossem para o ca*****. Mas para isso acontecer tinham os destinos da Europa que ter estadistas à altura e não moços de recados.
Não sendo possível, pois continuem lá com o arranca-rabo entre elites.

De uma maneira ou de outra, o povo precisa de entretenimento and the show must go on.

2024 07 27
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sexta-feira, 12 de julho de 2024

Tiago Franco - Morrer em Kiev ou desaparecer em Gaza


* Tiago Franco 

Não sei se sabem onde fica Khan Yunis e por isso recorro ao amigo Google para ilustrar. Como podem verificar, fica ali naquela zona sul de Gaza para onde a populacão foi aconselhada a procurar "refúgio", durante o período em que o exército israelita tratava da saúde ao Hamas.

Há pouco dias uma escola em Khan Yunis foi atingida por um míssil, enquanto uns miúdos jogavam à bola e outros ocupantes (a escola estava transformada em abrigo) assistiam. Morreram 31 pessoas, entre mulheres e criancas, e outros 50 ficaram feridos.

Não houve discussão sobre o autor do ataque, dúvidas ou sequer desculpas de última hora. Israel disse, apenas, que usou um míssil de alta precisão para matar um importante alvo do Hamas. Matou 31 e feriu mais de 50, para acertar em 1. Agora imaginem se não fosse de alta precisão.

Aqui do nosso lado, no famoso Ocidente, tudo bem. Pouca discussão, nenhuma condenacão e obviamente sem solidariedade que se apalpe. Como nos diz Helena Ferro Gouveia, a culpa das mortes em Gaza é exclusivamente do Hamas. E aqui entre nós, mesmo que não fosse, quem é que quer saber de árabes que andam a morrer há décadas? Aquilo é gente que só está bem a rebentar, como nos diria um gato que já foi fedorento. 

É aliás caricato culpar o Hamas pelo genocídio em curso na faixa de Gaza. Foi o Hamas que construiu muros, meteu palestinianos numa prisão a céu aberto e os humilhou, durante décadas, em gaiolas e revistas, só para poderem ir trabalhar. Andamos, aqui no Oeste (selvagem), a desculpar as atrocidades contra palestinianos que se arrastam desde o século passado. Quando a resposta dos povos ocupados aparece em formato de guerrilha (não podem ter outro dada a desproporcão de meios), passamos a culpá-los por não aceitarem apenas morrer em silêncio.

Não vos dá, por um segundo que seja, vergonha de serem representados por uma retórica hipócrita e desonesta?

Em Kiev um hospital foi atacado por um míssil. Morreram duas pessoas (adultos) e ficaram outros 16 feridos (7 criancas). Ao contrário da nossa Helena, eu acho aborrecido morrer e não faco esse aborrecimento depender da zona geográfica em que acontece a morte. E também não separo mortes por credos, etnias, cor da pele ou quantidade de cachos no cabelo. Lamento a morte de um homem num hospital de Kiev, de um miudo em Gaza, de um soldado das IDF ou de um russo no Donbass. São os pobres que dão o corpo, militar ou civil, para enriquecerem as elites, os senhores da guerra e os interesses corporativos das nacões. 

Depois do missil ter aterrado no hospital, seguiram-se dias de absoluta condenacão e discussões nas mais altas instâncias (NU, por exemplo). Os representantes ucranianos mostraram a rota do missil para provar que era russo e os russos, por seu lado, rejeitaram as acusacões, dizendo que se tivesse sido um missil deles, o hospital tinha ficado todo no chão. O alvo, segundo os russos, era uma fábrica de armamento ali ao lado e o que atingiu o hospital foi um da defesa anti-aérea. 

Não faço ideia quem diz a verdade e sei ainda menos se existe verdade sequer. Morreram pessoas e é esse o problema. É essa a consequência de quando queremos perpetuar uma guerra. Pessoas morrem.

Eu entendo pouco de mísseis e, como tal, fui ouvir quem sabe da coisa. Dizem os entendidos que o KH-101 (o tal míssil que afirmam ter caído no hospital) é uma coisa com quase 8 metros, tem umas asas e quando bate não pede licenca. Em princípio não deveria ser muito difícil apresentar destrocos de um projétil com 8 metros mas, segundo o que vou lendo, ainda não apareceu.

Ainda assim, esta discussão é, na minha opinião, estéril. Já passámos por isto na central de Zaporizjzja, em Mariupol, no Nordstream 2 e até no avião da Malasia Airlines. A primeira vítima de uma guerra é a verdade e eu não espero que de um lado venham as virtudes e, do outro, os defeitos. É uma guerra e, no seu curso, não existem bons e maus. Quem vê isso (ainda) assim, como diria Miguel Tiago, andou a aprender história no Rambo III.

O que realmente me importa discutir aqui são os valores do Ocidente e como a UE, que nos representa, se mete nisto. Se morrem 2 pessoas num hospital de Kiev, o discurso inflama-se e até a Nato comeca a apertar com os chineses. Já se um hospital é arrasado em Gaza ou se uns putos, perto de Rafah, levam com um  missil enquanto jogam à bola...são os danos colaterais. Lembrem-se que "nós" cantámos vitória quando Israel matou 300 pessoas para libertar 4.

Eu não entendo, mas não entendo mesmo, como é que vidas podem ter valores tão diferentes e solidariedade com povos invadidos pode ser tão distante.

Na Ucrânia enfrentam-se dois exércitos, um deles patrocinado por todos nós. Mesmo todos nós, querendo ou não. Em Gaza enfrentam-se um exército e um bando de gajos com rockets e motas famel. No primeiro caso o mundo pára e faz tudo para segurar o invasor. No segundo, bom, o invasor só se está a defender contra um exército que não existe e um povo que eles próprios prenderam.

Em Kiev morrem pessoas, gente que existe e com quem todos nos preocupamos. Em Gaza desaparecem seres humanos sem nome que, quanto muito, vão ser relembrados em forma de número, no gráfico das mortes.

Se isto não é a mais simples, básica e cristalina, definicão de racismo, então não sei o que será.

2024 07 12

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sexta-feira, 14 de junho de 2024

Tiago Franco - DIAS DE MERDA, QUEM OS NÃO TEM?


* Tiago Franco 


Foi um daqueles dias em que tudo correu mal.

Um dos vários em que uma pessoa se levanta de madrugada para ver o castelo de cartas a cair.

Gente desesperada no trabalho, despedimentos que não terminam, projectos atrasados ou clientes que não aparecem. Chineses que gritam em Xangai por mais, mais e mais. Somos apenas peças anónimas de uma engrenagem que gera fortunas para uma minoria. Accionistas, membros da direcção, gente dos tais mercados que nos juram ser o futuro.

Cá fora aquele frio de merda de um junho que nunca foi de verão. Pedalar contra o vento, evitando os buracos numa cidade que está em obras há quase 10 anos. Vai ficar um arraso de modernidade que espero não ver.

Passo por dois cartazes dos liberais, ainda resquícios das eleições. Um pergunta se quero as energias limpas ou o carvão chinês? Pergunta feita numa zona onde o investimento chinês garante emprego a milhares de pessoas. A hipocrisia é uma forma de fazer política quando se apanha um ignorante pela frente. O outro cartaz pergunta-me se quero uma europa democrata ou a tirania de Putin?

O que eu queria Zé Alberto (porta dos fundos - googlem), era que não me fodessem.

Enquanto o tirano Putin andou a fazer discursos no parlamento europeu e a vender gás e petróleo para a Europa, os eurodeputados não estiverem muito preocupados com a tirania russa. Como não estão preocupados com a tirania saudita ou azeri, enquanto fazemos negócios com eles.

Por outro lado...o que é que importam os 720 eurodeputados quando nem leis conseguem redigir e é aquela comissão não eleita, com a Von der Leyen à cabeça, que vai decidindo a melhor forma de nos enterrar?

Ucrânia, Ucrânia, Ucrânia. Dia e noite, há mais de 2 anos a ouvir que temos que apoiar esta merda. Há 28 meses que milhões de pessoas, nas quais me incluo, trabalham dia e noite numa impotente tentativa de compensarem a inflação, a perda do poder de compra e o aumento das taxas de juro. O sufoco em que se transformou a luta diária para não perdermos o teto debaixo do qual dormem as nossas famílias.

E no fim do dia lá aparecem mais uns quantos milionários, não eleitos, que vão decidindo a continuação do sufoco. De um lado a Lagarde a fazer o que pode para manter o jackpot para a banca mais uns anos e, do outro, a Ursula a exigir percentagens do pib para armamento e para a Ucrânia.

Quais idiotas úteis, vamos empobrecendo e dizendo que sim. Achando que ao contribuir para mais mortes ucranianas, estamos a ajudar outros que não os falcões da guerra e a indústria do armamento que, com a banca, estão a lucrar como nunca.

Dois anos a enriquecer as farmacêuticas e os laboratórios de análises e agora, mais dois anos para a banca e para o armamento. No tal Ocidental civilizado, enquanto nos matamos a trabalhar para alimentar uma elite profundamente corrupta, ainda discutimos a moralidade do que é justo ou a certeza do que deve ser feito. Ainda ouvimos diariamente que com mais armas, mais mortes e mais empobrecimento geral, os ucranianos vão correr com os russos. Quando? Onde? Como? Já alguém consultou um livro de história ou viu há quanto tempo os russos garantiram os territórios ocupados? Alguém quer mesmo uma terceira guerra mundial por causa do Donbass, da Crimeia, da Abecássia ou da Transnístria? Sabem sequer apontar essa merda no mapa? Ou o nosso compasso moral contra invasores só aponta para o lado dos invadidos louros? Se forem pretos ou mestiços, é uma luta contra o terrorismo? Estou farto desta hipocrisia Ocidental que somos forçados a pagar.

A Alemanha oferece-se para dar uma ajuda gigantesca na construção da Ucrânia. Não é ajuda, é criação de divida a favor das construtoras alemãs. Tal como a "troika" que nos veio salvar e no fim, tínhamos financeiras francesas e alemãs a meter cá dinheiro que depois seria gasto a contribuir para as exportações alemãs e francesas. O Paulinho Portas, versão antes de senador, explica.

Andamos sempre a lutar por migalhas enquanto trabalhamos para enriquecer as elites. Por que raio decide o BCE o nosso futuro? Como diria o poeta, quantos batalhões tem o BCE?

Dia e noite, uma guerra para a qual nada contribuí, que não me sai da cabeça e não pára de me dificultar a vida. Quando o Bugalho dizia que as armas serviam para defesa das famílias ucranianas eu diria que, o fim dessas armas, serve para a defesa das restantes famílias europeias. Pelo menos as famílias que não pertencem a elites e que contraíram crédito à habitação.

A meio da batalha contra o vento passo em frente à universidade e vejo a solidariedade com a Palestina. Envergonho-me de imediato com o egoísmo dos meus pensamentos.

Eu e muitos europeus, lutamos com bancos e empregadores, para não perder casas e modos de vida. Os Palestinianos não chegam sequer a ter tempo de negociar com ninguém ou a lutar para salvar o tecto que lhes dá guarida. Não chegam a acordar, eles e as respectivas famílias, mortos debaixo dos escombros, a cada passagem do exército genocida de israel.

E sempre, mas sempre, com o patrocinio do Ocidente. O nosso, portanto.

Lembrem-se que houve quem festejasse a morte de 300 Palestinianos para resgatar 4 israelitas. 75 vidas por uma. É como metralhar uma sala de cinema cheia para trazer uma só pessoa e no fim...cantar vitória. Foi aqui que chegámos.

Por vezes a vida só precisa de um pouco de perspectiva para nos fazer corar de vergonha com aquilo que julgamos ser a injustiça.

2024 06 14

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sexta-feira, 12 de abril de 2024

Tiago Franco - Este é melhor não, que é coisa para queimares o arroz que está ao lume



* Tiago Franco

 

ESTE É MELHOR NÃO, QUE É COISA PARA QUEIMARES O ARROZ QUE ESTÁ AO LUME |

Quem me conhece razoavelmente bem sabe que o meu sonho, desde há muito, muito tempo, é dar a volta ao mundo. Desde que me lembro que é assim. Há duas razões mais ou menos simples para isso. A primeira é por gostas de estar em sítios onde aconteceu algo que apenas vi num livro de história. Era a minha disciplina favorita na escola e julgo que se tivesse crescido num país de primeiro mundo, com empregos e salários decentes, provavelmente teria ido por aí. A outra é que eu gosto genuinamente de ver as diferencas culturais entre os povos, até para perceber melhor o meu próprio contexto cultural. No fundo, um acumular de padrões para não ficar fechado e bloqueado num continente que cada vez mais levanta muros em vez de os destruir.

Raramente volto como fui e procuro, sempre que posso, o mais diferente possível daquela que é a minha história. Nesta fase da vida já não tenho paciência para Venezas, Paris e Londres. Quero Kigalis, Vientianes e Managuas. Poucas vezes viajei sozinho porque detesto a solidão e quando o fiz, nunca foi algo que quisesse guardar como memória. A vida, na forma como a imagino, é para ser vivida com afecto, sorrisos e companhia.

Quando não estou a viajar estou a pensar no próximo destino. Não o consigo evitar. Podemos estar entre guerras, pandemias ou crises financeiras. Pode até o meu emprego estar na linha como está, permanentemente, desde que decidi trabalhar por contratos temporários (ou seja, quase toda a minha vida profissional). Mas todo o santo dia eu abro o Google Maps (até porque faz parte do meu trabalho) para procurar caminhos novos.

Ora, tenho a sorte de ter por perto quem me vá aturando nestes sonhos e repita, com alguma frequência, "ok Tiago, qual foi a ideia desta vez?". Eu sonho acordado.

Sou um péssimo companheiro de deslocacão (porque odeio voar) mas acho que compenso quando metemos os pés no chão e as mochilas nas costas. Ir de A para B de carro, comboio ou barco é, de longe, o mundo ideal.

Esperei 11 anos para regressar ao Sudoeste Asiático. Tempo a mais para uma vida que é sempre curta. Parti de um sítio frio, de céu cinzento, onde estava a pressão laboral e a corrida contra o tempo para agradar a mercados capitalistas. Onde todos trabalhamos a troco de salários altos que são absolutamente devorados pelos juros dos créditos à habitacão ou a elevadíssima carga fiscal. Deixei para trás, por uns dias, a sociedade que produz e que se esfola diariamente para conseguir pagar as contas, ditadas por um banco em Frankfurt ou uma guerra que alguém escolheu alimentar em meu nome.

Do outro lado estava um mundo relativamente diferente, com mais sorrisos, com outros problemas certamente mas também com outras solucões. De alguma maneira a vida parece mais fácil debaixo de sol, com sumos de fruta fresca a toda a hora, mar quente, budistas e uma gastronomia que não aborrece nem envergonha. Dizia-me um dos companheiros que por lá já se sentia em casa: "já reparaste que eles estão sempre a sorrir?"

Mesmo com história dramáticas e traumas recentes (por exemplo o genocídio no Cambodia que arrasou com 25% da populacão), aquele pessoal consegue, aparentemente, ter a alegria e a forca de focar nas coisas básicas e importantes da vida. E não pensemos que estamos a falar dos pobrezinhos e coitados. O sudoeste asiático já não é apenas o sítio onde as multinacionais vão coser roupa. Não vi mais gente a dormir nas ruas de Banguecoque do que, por exemplo, no centro de Lisboa, Paris ou Roma.

É dificil explicar a sensacão de viver no aparente caos destas cidades super povoadas. Eu não me importo com a confusão, a enxurrada de gente ou o barulho. Sinto-me acompanhado em ambientes desses. Mas há algo de especial em estar o dia todo na agitacão para, de seguida, dar de caras com uma praia deserta, daquelas que vemos nos postais. Ou entrar numa rua escura ao calhas e uma senhora abrir a cozinha para nos fazer o último pad thai da noite. O que estou a tentar dizer é que, parece-me, por aqui cada dia conta e é vivido de forma intensa. Ainda assim, sem grande pressão ou horários definidos. Tudo se arranja, tudo se desenrasca, há sempre alguém que conhece alguém.

Regresso de um mundo onde tudo vibrava, tinha cor e cheiros para o meu espaco. O tal ocidente civilizado, velho continente que ensina os demais a viver. E o que vejo? Em Portugal voltam-se a discutir temas de 1950, desenterrados por um livro apresentado por Passos Coelho e escrito, entre outros, por fachos como o Jaime Nogueira Pinto. Um idiota daquele partido que teve 100 000 votos sem querer, afirma que as neves do Kilimanjaro ainda lá estão, portanto, isto do aquecimento do planeta é uma tanga.

Parece que ficamos mais estúpidos quanto mais informacão nos disponibilizam. Eu estive no cume do Kilimanjaro em 2008. Os glaciares já eram muito menores nessa altura do que em décadas anteriores. É só ver as imagens aéreas para perceber. Os lagos reduziram o seu tamanho, os glaciares também mas...o facto de existirem, ainda que menores, não quer dizer nada. É tudo uma conspiracão.

Na televisão vejo velhos que, na sua juventude fugiram à guerra colonial, dizerem que o apoio à Ucrânia não pode parar e que é tempo de enviar soldados. Isto porque, claro, já não são as costas deles que lá vão bater. Já para não falar do genocídio em Gaza que nem nos rodapés aparece. Será também estudado daqui a 20 anos.

No meu bairro, em Gotemburgo, há casas a serem vendidas em hasta pública por execucão bancária. Algo que eu nunca tinha visto em 20 anos. Famílias que, por causa das taxas do BCE e a eterna desculpa da Ucrânia, passaram a pagar 3, 4 ou 5000 euros pelas prestacões ao banco e simplesmente...estouraram. Eu já nem consigo perceber como é que se sobrevive em Portugal quando nos países ricos comecam a ficar depenados.

E depois...tudo em nome de quê? Chegamos a meio da nossa vida, eu pelo menos espero ter chegado, a trabalhar dia e noite para pagar contas, sustentar guerras, patrocinar a corrupcão e sermos governados por entidades como o BCE.

Eu, que sou um ferrenho apoiante do estado social e da solidariedade, trabalhei 20 anos para entregar mais de 50% do meu rendimento em impostos e, mesmo assim, ser extorquido mensalmente pela banca, sem que os governos eleitos facam absolutamnete nada. A Europa transformou-se numa zona muito pouco recomendável onde, sem darmos por isso, ficámos acorrentados a um jogo cujas regras mudaram no espaco de 4 anos (desde 2020) e que foram decididas, a meias, entre a banca e a comissão europeia. Nada ou ninguém que eu me lembre de ter eleito para falar ou decidir em meu nome.

A desilusão é tal que, aos poucos, vou desligando as notícias, perco a vontade de escrever, simplesmente não quero saber. Não importa, não interessa. Isto já não é a vida que vinha no guião do "vai estudar e esforca-te para seres o melhor possível no teu local de trabalho". Isto é apenas uma merda.

A vida devia ter menos Ursulas, Putins, Zelenskis e Venturas e mais momentos em família, fotos para a posteridade, recordacões que nos fazem pensar que valeu a pena passar pelo planeta.

Digo isto várias vezes aos meus filhos e é algo em que acredito profundamente. Depois da educacão que será a ferramenta deles para enfrentarem o futuro, tudo o que lhes quero dar são momentos. Experiências, paisagens, um pouco de mundo. Algo que lhes fique na memória e que lhes permita ter um conceito de "bairro" mais alargado quando comecarem, sozinhos, a definir o seu. É esse, para mim, o verdadeiro sentido da vida. É conhecer em vez de acumular. É ir em vez de esperar. É, no fundo, perceber onde estamos e o que fazemos aqui, como dizia o poeta em tempos de má memória.

Em resumo, eu quero que a Ucrânia se foda, que a Rússia se foda, que a Ursula se foda, que a Lagarde se foda, que o Trump se foda, que os fachos se fodam, que os idiotas que apoiam o genocídio em Gaza se fodam ou que os burros que acham que uma Europa com muros é a solucão, se fodam.

No fundo era só isto, mas o poder de síntese nunca fo o meu forte.

 

2024  04 12

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sábado, 9 de setembro de 2023

Tiago Franco -· O MEU OBRIGADO AO PS/PSD |



* `Tiago Franco

Já perdi a conta aos períodos de despedimento colectivo que atravessei em 18 anos. Acaba por ser normal quando se vende a força de trabalho à hora, é um facto, mas não deixa de ser chato.

A meio desses processos que trazem sempre alguma angústia dou por mim a pensar que será a última vez. É desta que me deixo de vender à hora, qual reta de Coina versão digital, e passo à estabilidade dos contratos mais duradouros que os casamentos. 

Pelo meio aparece sempre o mercado dos amigos liberais que me conta que não faltam sítios para vergar a mola. Há falta é de quem a queira vergar e, no fim, continuo a meter todas as fichas no risco. A vida é um casino. Ninguém disse mas foi pena.

Nunca fui ceifado pelas derrocadas do despedimento colectivo. Umas vezes sei como, outras nem tanto. Mas desta vez foi diferente. Já não canto a solo e há toda uma banda que pede mais algum cuidado.

São miúdos, ainda ontem estavam em casa dos pais. Emigraram, confiaram em estranhos, vieram cumprir o primeiro emprego a 3500 km de casa. São 7, faltam 2 na fotografia. 

Desde que formámos uma equipa estabelecemos regras básicas de convívio e crescimento profissional. Quem vai a casa e cria mais trabalho para quem fica, traz uns pastéis de nata. É o mínimo aceitável. Os aumentos de salário são para todos. Se não for assim, quem recebe divide com os outros. Quem perde no pingue-pongue paga a cervejinha chinesa, um biberão de 0.6 L. Quem tem salário mais baixo tem prioridade nas horas extra. Quem sabe explica, quem não sabe pergunta. Não saber deixa de ser tema ao fim de umas semanas. Todos vão ver a família quando muito bem entenderem e tiram férias quando lhes apetecer. Ser do Sporting é aceitável, do Porto veremos quando acontecer. 

Mas mais importante do que tudo, quem nos contrata sabe o que tem em mãos. Não é o Zé, o Manel ou o António. É uma equipa. A quem tudo se pode pedir, a qualquer hora do dia e em qualquer dia da semana mas...nada de mexer. Se quiserem despedir um, trocar outro ou mexer na dinâmica da coisa, pegamos nas violas e vamos todos cantar para o prédio do lado. É este o acordo desde o primeiro dia. 

Portanto, enquanto numa sala cheia de gente, quem mandava explicava que iam ser despedidas umas dezenas largas de trabalhadores, nós já sabíamos que a faca passaria ao largo.

Mais tarde, essa mesma pessoa disse-se, em privado, "ainda estou para perceber como é que vocês conseguiram meter tudo a funcionar em tão poucos meses". Não sabe ele, nem sei eu. É a clássica história da ponte que todos os que passaram pelo ISEL ouviram no primeiro semestre de aulas.

O que realmente importa é que nos safámos, pelo menos desta vez, até que os chineses se lembrem de outra. Os chefes (suecos) agradecem à equipa portuguesa salvar a área de negócio em Gotemburgo, eu agradeço ao ISEL - Instituto Superior de Engenharia de Lisboa ter formado estes putos e também ao Centrão por criar condições de trabalho em Portugal tão miseráveis. E graças a essa combinação de factores, agradece o estimado leitor, também, por ter, pela primeira vez na história, a possibilidade de comprar um volvo baratinho (30 000 eur ou lá o que é) com coisas da Google lá dentro. 

De aperto em aperto, os dias acabam sempre por ser bons. Uma pessoa envelhece mais depressa a este ritmo, é verdade, mas é preciso não esquecer que também só faltam 4 anos para a reforma. Dá para aguentar. 

Ontem, um dos directores que anda atrás de novos projectos disse-me: "achas que conseguíamos convencer a Google a alinhar com a Aston Martin? Podia aparecer o logo numa cena do James Bond ou algo do género".

Epá...James Bond. Qualquer dia ainda começo a gostar da engenharia. 

Bem vistas as coisas, a Google é que nos devia começar a patrocinar a ginja. Estes putos vão longe, é o que vos digo. Continuem a viver para os turistas e a exportar engenheiros. O primeiro mundo agradece.

2023 09 09

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Tiago Franco - A magia do directo à portuguesa

 


VISTO DE FORA

por Tiago Franco // dezembro 14, 2022

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CATEGORIA: OPINIÃO

TEMAS: TIAGO FRANCO, VISTO DE FORA

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Em Campo Maior, numa rua cheia de lama, com carros ao monte, há pessoas de galochas e pás na mãos, encasacados até à cabeça, recolhendo o entulho e empurrando a água para as entradas de esgoto.

Percebe-se, em apenas cinco segundos, o que estão ali a fazer.

A jornalista, obrigada a criar qualquer coisa para o directo, aproxima-se, obriga um dos senhores a parar tarefa e atira-lhe a pergunta do milhão de dólares:

“Então, o que estão aqui a fazer?”

O camarada alentejano levantou os olhos da enxada, olhou para a jornalista e deve ter pensado num “f***-se!! O que é que te parece que estamos a fazer??”. Mas respirou, lembrou-se que tinha ali uma câmara, e disse, de rajada e em volume aceitável: “LIMPEZAAA!”

Os directos são um mistério para mim. Nunca percebi o interesse de, por exemplo, ter alguém numa cidade a 1.000 quilómetros de uma frente de batalha para entrar à noite, em directo do hotel, a tempo de nos contar o que alguém lhe disse que está a acontecer a oito horas de carro dali.

Compreendo, obviamente, o interesse da reportagem em directo, que nos traz as imagens do que está a acontecer. Mas a necessidade extrema de criar conteúdo com interesse informativo nulo, para além de deixar uma sensação de vergonha alheia, acaba apenas por atrapalhar quem, de facto, está a tentar fazer algo de jeito.

A história de Campo Maior fez-me lembrar um dos incêndios deste Verão, quando uns jornalistas, da CNN julgo, tentavam entrevistar bombeiros enquanto estes apagavam o fogo, o que é, só por isso, bizarro. Acabaram por ouvir, entre corridas desesperadas, que “têm que desviar o carro para o camião conseguir passar”.

Ou pior, quando perguntavam a populares o que por ali faziam, num incêndio junto ao Fundão, se a memória não me falha, e uma senhora, a carregar baldes de água, lhes disse: “se largassem o microfone e agarrassem nuns baldes é que era de valor!”

Que informação relevante é que pode dar um popular, no meio de uma aflição, a quem precisa de encher uns minutos de directo? Não entendo, a sério que não.

Mas pior do que as horas de irrelevância informativa, é a estratégia editorial. Seja qual for o tema, desde que apareça como novo, é espremido até à exaustão, como se deixasse de existir mundo a partir desse momento informativo.

Quando a covid-19 rebentou tínhamos directos do aeroporto de Lisboa para acompanhar a chegada dos portugueses que tinham sido evacuados da China. O pessoal médico estava vestido com uns fatos da NASA, como naquele filme Outbreak dos anos 90 (com Dustin Hoffman), e lá atrás da rede de protecção, as câmaras das televisões faziam o zoom possível para nos mostrar qualquer coisa.

Dois anos com directos dos hospitais, conferências do Infarmed, powerpoints do Costa, vacinas do almirante, regras e mais regras. Polícias na rua a correr com velhotes que comiam sandes num banco de jardim, restauração na falência, palminhas nas varandas. Mal nos apercebemos que já havia rockets no Donbass.

Nos Verões são os incêndios, nos Invernos as cheias. Enquanto acontecem, temos horas e horas de directos, debates, diagnósticos do que está mal (matas, num caso, e sarjetas sujas, no outro) para, um ano depois, repetirmos todo o processo: directo, debate, diagnóstico. Pelo meio, mete-se o Natal e os directos passam para os centros comerciais ao som de Mariah Carey ou Wham.

Chega a guerra – a de 2014 até 2022 foi só o aquecimento – e durante meses temos tanques no quintal e mapas de ocupação. Desaparece o resto do Mundo novamente. Acaba a covid-19 de forma oficial.

Em Novembro, a guerra acalmou para ligarmos aos diretos do Qatar. Até a selecção portuguesa ser eliminada, ninguém se magoou em Donetsk. Por essa altura, interessou saber tudo, mas mesmo tudo, que Ronaldo disse, pensou, fez, disse mas não fez, pensou mas não disse, disse mas não queria dizer, e todas as demais combinações.

É importante massacrar um jogador até que já ninguém, nem sequer entre os seus colegas, consiga ouvir falar mais no tema. É importante não discutir o que joga ou podia jogar uma equipa de 25 e criar, em vez disso, uma gigantesca onda negativa em torno de uma equipa que, afinal, todos queríamos que vencesse.

O golo marroquino acontece e o São Pedro começou a castigar o território ibérico. Os mouros estão de volta. Há água por todo o lado, carros a boiar, casas alagadas, cidades transformadas na Veneza dos subúrbios.

Percebo a gravidade, os problemas e os dramas, mas, tal como nos demais temas, o Mundo volta a desaparecer. Como se, com tantos recursos de recolha de informação, cada linha editorial só conseguisse lidar com um tema de cada vez. Ou até como se, para representar uma calamidade, seja necessário entrevistar pessoas que limpam as ruas em cada aldeia do país. Vi um directo do Muxito. Do Muxito!

Para vós que sois menos versados em cultura urbana da margem sul, o Muxito era uma mata que, na minha juventude, era conhecida por ser um sítio de paragem para profissionais de um ramo profissional muito antigo, ligado à venda de sensações cutâneas. Não é uma zona que tenha visto os seus primeiros líquidos nesta enchente.

E enquanto escrevia isto, pensando que então que terminara o texto, notei que o directo regressou a Campo Maior e apanhou outro senhor. O homem estava a carregar móveis, cheio de lama na cara e nas mãos, e, mal lhe cheira a pergunta, vira as costas ao jornalista que, para desenrascar, diz: “as pessoas não querem falar, mas as imagens falam por si”.

Aleluia irmão!, aleluia!

Tiago Franco é engenheiro de desenvolvimento na EcarX (Suécia)

https://paginaum.pt/2022/12/14/a-magia-do-directo-a-portuguesa/