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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

João Rodrigues - As aparências enganam, isto não é um diário



Coimbra, sexta-feira, 5 de fevereiro de 2026 

Pus-me a caminho de Braga ao fim de almoço. Chovia, claro. Cheguei duas horas antes da hora. Braga é mais perto do que Lisboa e, no entanto, parece mais longe. Da distância à sua perceção, somos todos feitos de hábitos: afinal de contas, vivi uma dúzia de anos em Lisboa e vivo agora entre Vila Franca de Xira e Coimbra, as minhas duas cidades, Carina e Pedro. 

Planeei para ter tempo de ir rever a Sé, aproveitando uma aberta. Fui bem recebido na Almedina, a que fica no centro de Braga, ao pé da porta aberta da liberdade, monumento inaugurado a 25 de abril de 2024. 

A simpática responsável de uma livraria inaugurada há meses fez questão de me fazer uma visita, explicando a traça modernista muito bem restaurada da livraria, das estantes à escada. Tinha sido ali a livraria Vítor, de Vítor de Sá, antifascista bracarense e historiador (um dos principais prémios de História tem o seu nome). Ali estavam fotos da grande montra da livraria com buracos feitos por tiros da reação no PREC. Informou-me que as fotos tinham sido descobertas por acaso nas obras. 

Entretanto, um cidadão montanhista de oitenta anos, que tinha subido o Monte Branco há três anos, disse-me simpaticamente que lia todos os dias o blogue. Antes da sessão começar, ainda fui brevemente entrevistado por uma jornalista do Correio do Minho, perguntas diretas, como se quer: sim, o fascismo nasce do extremar do capitalismo, como titulou no dia seguinte.

Pequena digressão. Apresentar livros é uma das minhas atividades intelectuais favoritas. Tenho tido a sorte de praticamente só apresentar livros com os quais aprendi e com os quais ganhei tempo, de José Reis a António Avelãs Nunes, só para referir dois distintos intelectuais antifascistas, professores jubilados da cada vez mais neoliberal Universidade de Coimbra, com quem tenho aprendido. Há quem resista, claro. Eles resistem. 

Quem me lê sabe que tento ser mordaz na crítica, mas que também ensaio o elogio rasgado. Caldear é uma questão de justeza e uma forma de evitar o ressentimento que mata todo o conhecimento. Estou reconhecido e obviamente gosto de ser reconhecido, reciprocidade generalizada. Quem não? 

Nour Ribeiro dos comunistas de Braga, que também dinamiza sessões de apresentação de livros “insubmissos” e que me convidou, introduziu e moderou a sessão. Bruno Madeira, historiador e professor da Universidade do Minho, fez a apresentação propriamente dita. Cada um no seu estilo, mais breve um, com mais tempo o outro, tinham ambos excelentes intervenções escritas, que muito valorizaram o livro de ensaios de economia política do antifascismo. Fiquei meio sem jeito, ainda para mais são mais jovens, há mesmo progresso. 

Para disfarçar, lancei-me então ao ataque em pelo menos três frentes: ficheiros Epstein, inépcia governamental mais ou menos deliberada na catástrofe em curso e crítica do liberalismo até dizer chega. Procurei as ligações fascizantes no estado a que isto chegou em múltiplas escalas, tentando vislumbrar a alternativa antifascista, a que começa pela ação coletiva nos locais de trabalho e continua na reconstrução da economia mista, base material da soberania democrática. Houve boas intervenções da plateia e muita simpatia combativa, estava cheia a livraria. Autografei uns livros, com gosto. 

Já depois da sessão, à saída, uma estudante militante, que tinha estado a assistir e que está a fazer uma tese de mestrado em história sobre democratas bracarenses, informou-me: Vítor de Sá andava pela cidade com um carrinho de madeira a vender livros clandestinos. Recomendaram-me um ensaio dele sobre o fascismo no quotidiano. Estamos sempre a aprender.

“Nem os mortos estarão a salvo se o inimigo vencer”, escreveu Walter Benjamin em 1940. Eles ainda não venceram a guerra, embora tenham ganhado tantas batalhas. Chovia no regresso a Coimbra. Estava satisfeito por não ter faltado ao encontro, e só os encontros constantes nos podem valer, embora quem viaja por gosto também tenha o direito de se sentir cansado. 

Postado por João Rodrigues às 10.2.26

sábado, 24 de janeiro de 2026

Luís Fazenda - A algazarra das direitas. O voto antifascista reúne-se para Belém

* Lus Fazenda

24 de janeiro 2026
 
O confronto entre Seguro e Ventura é o confronto entre a democracia e o autoritarismo reacionário. Reproduz-se em Portugal um cenário como se viu nas últimas presidenciais do Brasil, por exemplo.

1 - A longa campanha eleitoral da primeira volta das presidenciais, com candidaturas anunciadas logo a seguir às legislativas de Maio, tornou-se num embate político significativo, sem desfecho previsível à partida. Este facto fez crescer a participação de eleitores.

A campanha, sobretudo à direita, teve pouca confrontação, ou sequer comparação, de programas e ideias e centrou-se nos perfis dos aspirantes a sucessor de Marcelo e nas sondagens constantes. Em parte, isso deveu-se a uma legião de comentadores de tv que censuram a discussão das políticas públicas porque supostamente tal facto seria "próprio" de eleições legislativas e não de eleições presidenciais. Os candidatos estariam limitados a expor a sua leitura das competências do cargo e, quando muito, falar de política internacional. A manobra é clara para poupar a crítica ao governo e fazer desaparecer as oposições.

2 - Os debates entre Gouveia e Melo e Marques Mendes, ou entre Ventura e Cotrim de Figueiredo, foram cenas reles de ataques pessoais e acusações sucessivas e mútuas de imoralidade. Foi grande a algazarra. O clima de quezília, que seria imediatamente contestado em qualquer candidato de esquerda, transportou-se para propostas hostis.

Foi o caso de Cotrim de Figueiredo. Fez um ultimatum a Montenegro, numa espécie de OPA ao PSD. E conseguiu 16%, mais 5 pontos que Mendes. Esta tentativa de acossar o líder do PSD, pretendendo que o candidato laranja saísse da corrida fica como uma manobra de ultrapassagem da IL ao PSD.

Como tem sido hábito, as sondagens e pretensos barómetros foram as principais protagonistas, para os quais os candidatos são instrumentais. Estudos diários de amostra reduzida insinuam empates e provocam transferências de votos, verificando-se no final diferenças de monta onde havia proximidade. O "empate" entre Seguro e Ventura cifrou-se em 8 pontos de diferença.  

3 - Os candidatos e a candidata à esquerda trouxeram o debate das políticas governativas da AD. Foi reconhecido por todos os quadrantes democráticos que Catarina Martins fez uma excelente campanha sobre como cuidar da democracia política e da democracia social e reagiu sem tibiezas ao assalto à Venezuela por parte de Trump.

Seguro, o improvável candidato do centro, trouxe uma olímpica posição presidencial sem demarcação do governo, embora afirmasse a defesa da Constituição, com poucas referências a compromissos concretos, exceto no SNS. Averbou 31% e classificou-se em primeiro lugar, graças à divisão da direita.

Felizmente, a greve geral irrompeu pela campanha adentro, mudando a agenda até aí dominada pelas políticas anti-imigração. As questões do trabalho vieram para primeiro plano, forçando Seguro e Gouveia e Melo a endurecer posição. Seguro promete veto ao pacote laboral. A nota artística vai para o Almirante que confessou que teria feito greve. A defesa dos Direitos do Trabalho trouxe de forma concreta a resistência constitucional que atravessou esta contenda eleitoral.

4 - O que Montenegro caracteriza como "uma dispersão de votos do centro" é uma forte derrota do governo e da AD. A AD tem um desgaste claro na sua base eleitoral. Contudo, o 5º lugar do candidato do governo não pode apenas ser atribuído à irritação popular pelos seus negócios pessoais, ou por ser mal amado pelos caciques do PSD. Os ziguezagues de Mendes sobre as leis laborais, ou sobre a ministra da Saúde, desagradaram a gregos e troianos. E pôs em relevo que uma parte do eleitorado do PSD está a ser atraído pelo radicalismo da extrema-direita e pelo radicalismo dos liberais. É previsível que o governo acentue a sua agenda de direita para recuperar apoio nas classes médias, hoje muito permeáveis a hostilizar o Estado social. Em particular, a IL é uma pedra no sapato do PSD. O que deixa uma pergunta óbvia: que faz ali o PS como sócio orçamental?

5 - A candidatura de Gouveia e Melo merece uma reflexão. Foi mais uma arremetida populista contra os partidos, considerando todos em geral responsáveis pela oligarquia que controla o Estado. Incapaz de apontar o periscópio à elite económica que capturou os Partidos do poder e que põe e dispõe nessa oligarquia, veio paradoxalmente reclamar-se de uma posição entre PSD e PS. Precisamente os partidos que têm sido as válvulas de segurança da oligarquia. Rodeou-se de várias figuras do PSD, do ex-recluso Isaltino e de empresários do pior do "sistema". Este foi o maior dos paradoxos para os seus apoiantes. Colheu votos heterogéneos à direita e à esquerda, perdendo muitos destes para Seguro na reta final da campanha. Foram 12% de votos que não têm destino e acompanham o Almirante sem espaço político. O caldo de cultura que cimentou esta candidatura é o mesmo que anima André Ventura. A saber: a hostilidade aos negócios da elite e a rápida confusão entre estes e o regime democrático.

6- A "normalização" do Chega ganhou um novo fôlego. O discurso de equiparar a democracia à corrupção faz o viés do caudilho que quer três salazares e pretende uma constituição autoritária e um sistema presidencialista. Enganaram-se aqueles que prenunciavam um Ventura cordato, escondendo as arestas da sua dinâmica reacionária. Com apoio em todas as classes, da alta-finança ao operariado, realizou uma campanha popular beneficiando da sobreexposição nos canais televisivos a somar à hegemonia que apresenta nas redes sociais. A boçalidade é justificada por falar para o povo. Ninguém pode subestimar a votação de Ventura, alcançando 23%. Na Madeira ver suceder a extrema-direita ao PSD é como passar a um novo inferno. Em todo o caso, a consolidação da extrema-direita segue os métodos internacionais e genericamente trumpistas. Sem disfarce, o Chega tenta ganhar balanço para disputar a chefia da direita ao PSD.

7 - Os votos da candidata e dos candidatos apoiados pelo Bloco de Esquerda, pelo PCP e pelo Livre foram reduzidos. Catarina Martins teve 2% e os outros menos.  Pode dizer-se que, em certa medida, representaram a resistência ao voto útil em Seguro. É uma votação do núcleo forte das respetivas áreas políticas e as eleições presidenciais dão para ver essa elasticidade. Esta observação vale para todos. Qualquer um destes partidos sabe que tem uma margem de simpatia superior aos votos obtidos. O que obriga a uma reflexão sobre a força do chamado voto útil. Conhecemos durante muitos anos o apelo ao voto útil, alegando vantagens de poder contra o PSD. Hoje, a esta dinâmica juntou-se outra: a do voto útil antifascista. A resistência e afirmação destas áreas é essencial para não deixar a oposição à esquerda completamente nas mãos do liberalismo democrático do PS sem qualquer projeto social nem perspetiva soberana.

8 - O quadro que se apresenta para a segunda volta, a 8 de Fevereiro, é marcadamente bipolar. O confronto entre Seguro e Ventura é o confronto entre a democracia e o autoritarismo reacionário. Reproduz-se em Portugal um cenário como se viu nas últimas presidenciais do Brasil, por exemplo. Um candidato democrata apoiado por setores da esquerda e da direita contra o candidato reacionário. A vitória de Seguro permite continuar a resistência constitucional aos ataques da extrema-direita e de parte da direita. Aqueles que lutam pelo Socialismo têm uma dupla tarefa: explicar que Seguro já se desfez do socialismo há muito, ao contrário do que diz Ventura, e de que não há luta a sério pelo socialismo sem democracia. A defesa do regime constitucional potencia o contra-ataque à AD e ao trumpismo mundial.

9- O governo de Montenegro e o PSD, tal como a IL decidiram não indicar o voto em Seguro num ato de suposta “neutralidade”.Alguns argumentam de que se trata de preservar o jogo parlamentar do governo para permitir maiorias de voto. Na verdade, é a perda de compromisso democrático e cedência a Ventura.

Entretanto, a direita que vai apoiar Seguro quer que essa candidatura se defina como “moderada” contra o extremismo, sem referência à causa democrática. Querem prolongar a “normalização “do Chega, apagando o perigo autoritário. Pretendem descafeinar ainda mais a plataforma política de Seguro, tentando aproximá-lo do candidato de “centro-direita” que perderam para a segunda volta da corrida a Belém. O povo de esquerda dirá melhor nas urnas.

https://www.esquerda.net/opiniao/algazarra-das-direitas-o-voto-antifascista-reune-se-para-belem/97197
 

segunda-feira, 27 de maio de 2024

Agostinho Lopes - Catarina, mito e história – dimensões do anticomunismo

 


OPINIÃO

* Agostinho Lopes

Membro da Comissão Central de Controlo do PCP e responsável pela Comissão para os Assuntos Económicos

Os mitos e os símbolos só são perigosos e alienantes quando perdemos de vista o contexto histórico objectivo da sua construção e se transformam naquilo que não podem/devem ser: substitutos da acção, do combate, da luta de homens e mulheres por um mundo melhor, sem guerras nem exploração

27 MAIO 2024 18:31

As narrativas em torno de Catarina Eufémia sucedem-se desde o 25 de Abril na comunicação social e na edição (1). Até esta data Catarina era apenas uma referência no Avante! e noutras publicações do PCP (2). Depois da Revolução, em geral está presente uma persistente dimensão do anticomunismo em tudo o que se foi produzindo: a ocultação ou instrumentalização da «personalidade» para invectivar/atacar o PCP. Um anticomunismo latente ou patente que não tem sossego!

A tese é simples (ou simplória): alguém que foi herói, artista destacado, escritor, personalidade multifacetada que se destacou pelos seus méritos, comportamentos heróicos, obra humana ao serviço da sociedade, luta de resistência ou combate à opressão, exploração, humilhação da sua classe ou semelhantes, não pode ser comunista! Ou estava enganado na sua ingenuidade ou ignorância, ou o Partido o enganou, ou nunca perfilhou o ideário comunista, ou tinha/participava em actividades do PCP mas era sem saber, ou era mas depois deixou de ser, etc., etc... são muitas as possibilidades! E quando não há mais nada a fazer, então faz-se uma coisa mais simples: nega-se a sua condição de comunista ou membro do Partido, ou proximidade do Partido. Ocultando essa sua condição. Eliminando-a da biografia. Descobrindo divergências, zangas, confrontos entre a personalidade e o PCP. Então se arranjar declarações, mesmo confusas, duvidosas, … de familiares ou amigos, ou vizinhos, é ouro sobre azul!

A falta de seriedade relativamente a membros do Partido durante a ditadura, ou no mínimo alguma razoabilidade, deveria levar a reflectir quais os critérios e testemunhos adequados, consistentes, para se concluir se alguém era ou não membro do PCP, quando este e os seus militantes viviam numa rigorosa clandestinidade! E não a sua selecção e instrumentalização ao serviço das teses que se pretende exibir. Dir-se-ia que alguns gostariam que se exibisse um cartão, provavelmente com foto, para comprovar a filiação comunista. Ou então validar a pertença ao PCP por declaração em papel selado com selo branco da PIDE! Será que desconhecem que numerosos membros do Partido, pela sua situação partidária ou como resistência à arbitrariedade da prisão pela polícia, se recusavam a confessar pertencer ao PCP? Basta que algum familiar diga que não era militante, passado décadas, para não o ser? Desconhecem que, salvo situações extraordinárias, a condição de militante era salvaguardada inclusive dentro da família e familiares próximos, até para defesa destes? E como é que distinguem entre a credibilidade do testemunho de amigos/vizinhos/companheiros de trabalho se uns dizem que sim e outros dizem que não, ou ainda outros que não sabem? Ou acham que os nomes de uma célula local ou de empresa era conhecida de toda a gente, mesmo de todos os que a integravam? Será de perguntar talvez através de lista afixada na Junta de Freguesia! Seria, como pretende Felícia Cabrita na sua peça: “O homem (marido da Catarina) mantém a mesma fidelidade ao partido e passa a ter como aliada a companheira que, ao contrário do mito que em torno dela se edificou, nunca chegou a ser militante. Era mais uma comunista platónica.” (3) Platónica, como?, se a mesma jornalista constata que ela desempenhava um trabalho político de distribuição de panfletos? Se é visível dos testemunhos que recolhe o seu papel de agitadora junto de companheiras, e mesmo de dirigente quando encabeça o protesto que a leva à morte, assassinada pelo Carrajola? Se há outros testemunhos de companheiras de trabalho que referem inclusive uma iniciativa de recolha de fundos para o camarada Francisco

Miguel preso em Peniche? No filme “Seara Vermelha” da RTP1, para lá de se “esquecerem” que o movimento do grupo de mulheres encabeçado por Catarina é em si mesmo a presença do trabalho do PCP e da sua Célula Local de Baleizão, insistem na tese da falta de provas da filiação partidária de Catarina. Primeiro vem o depoimento salomónico de Pacheco Pereira: “Era militante do Partido Comunista ou não era? Se me perguntarem eu digo sim e não. A imagem tornou-se um símbolo e o Partido Comunista usa essa imagem de forma simbólica. Mas os esquerdistas depois também fizeram isso.” Depois o narrador consolida a tese: “Não existem provas inequívocas (o que serão num caso destes, provas inequívocas?) da ligação directa de Catarina ao Partido Comunista. Há dúvidas e incertezas, mas numa região onde o Partido dominava a partir da clandestinidade tornam-se naturais e particularmente relevantes alguns gestos e comportamentos.” E é claro que o narrador afirma tal para desvalorizar/anular a “prova” que fazem as declarações da filha de Catarina (Maria Catarina Baleizão do Carmo) – que se seguem no documentário – ao dizer que tem na memória imagens da mãe a “distribuir panfletos”!

Mas há o testemunho inevitável e irrecusável e inequívoco de António Gervásio, funcionário do PCP na região, deslocado logo após o assassinato para o distrito de Beja: “ Há gente que não gosta do PCP e procura negar que Catarina fosse militante do PCP. É necessário dar luta a essas mentiras. Catarina Eufémia era não só militante desde 1953, como era membro do Comité Local de Baleizão do PCP e um dos seus membros mais activos.” E também testemunhos de camaradas da Célula de Baleizão de Catarina, e que com ela participaram no protesto, como Francisca Bia. (4)

Pode alguém pensar ser o caso de Catarina uma excepcão, um acaso? Não pode, são peças numerosas e significativas de um anticomunismo militante que não tem hora nem descanso... como o licranço! Sempre pronto a ferrar o dente... A lista é numerosa... e não terá fim enquanto por cá andar o PCP. Lembremos o caso recente de Maria Lamas – “a mulher portuguesa mais importante do século XX” aqui no Expresso recordado há meses (5), poderíamos lembrar Bento de Jesus Caraça, ou mesmo mais recentemente o de Saramago. Mas será também de não esquecer o exemplar caso de Carlos Paredes nas notícias da sua morte, que perfaz 20 anos no próximo dia 23 de Julho.

CATARINA EUFÉMIA E OS MITOS

Outra via para destruir o essencial de qualquer correcta narração histórica e a sua articulação com a luta do PCP e o PCP é através da transformação/transfiguração em mito de um acontecimento/acontecimentos que marca, ou é marcado por uma personalidade, dissolvendo nesse processo a heroína/herói (em geral responsabilizando o PCP por tal…) É o que surge também nas três abordagens já referidas (1), em que se chega a escrever: “Baleizão é uma espécie de Cova da Iria. E Catarina o mito “mariano” dos sem-terra do Alentejo.”

Mas o problema não é o do “mito” criado em torno de Catarina – seria natural que um acontecimento com a sua valência histórica e exemplar na luta antifascista, pela sua envoltura dramática e colhido pela poesia e a música de poetas e cantores, acabasse por impulsionar essas narrativas que inevitavelmente arrastariam o PCP de forma mais ou menos correcta… O problema é apenas a sua instrumentalização e sobreposição à história dos acontecimentos, com o objectivo de socavar o papel do PCP no processo histórico da luta, esvaí-lo do seu sangue revolucionário, confrontar mesmo o PCP com a multiplicação de variantes mais ou menos fantasiosas, e se possível afastar a “heroína/herói” da história da luta do PCP. Neste caso, negar Catarina ao PCP, negar Catarina à luta que o PCP organizava e impulsionava no Alentejo contra o latifúndio e a ditadura fascista.

Os “mitos” (símbolos) são uma invariância no reino da necessidade das sociedades humanas de todos os tempos, ou pelo menos das que têm um tempo histórico conhecido. Inclusive, nos dias conturbados que são os nossos. Na religião. Na política. Na cultura. No desporto. E etc... O homem/mulher continua a não (conseguir) viver sem mitos/símbolos. E qualquer leitura simplista ou redutora, racista ou xenófoba, (a)histórica ou (a)cultural, ou mesmo interesseira/mesquinha perderá a enorme riqueza humana que eles contêm. A imensa humanidade que representam, construídos que são sobre a fome e a sede, a opressão e a injustiça, a doença e a dor, o medo e o terror perante o ignoto, dos homens e mulheres no seu lento, longo, complexo caminhar até hoje. Mesmo quando são coisas alienantes e alienadas visões da história, da sociedade, da realidade.

Catarina Eufémia foi (e ainda é) um desses mitos/símbolos que alimentaram muitos anos de combate à ditadura fascista, na esperança da revolução que trouxesse o pão, a paz e a liberdade a Portugal inteiro, e não só aos alentejanos. Como todos os mitos/símbolos que revestiram o corpo de um homem/mulher, real ou inventado, foi no processo de “construção” descarnado do seu concreto ser e viver humano, transfigurado e exaltado de forma quase exclusiva, na sua dimensão mítica, de símbolo político da luta do povo alentejano contra o latifúndio. A pouca “carne”/vida concreta que transporta procura assegurar a sua existência real, verdadeira.

É assim de pouco interesse saber hoje (como acontece com alguns escritos anti-PCP ) de muitos dos pormenores, claros e escuros, em que mergulham por vezes a história da vida e morte de Catarina. O crime não é mais ou menos hediondo, não se reduz ou aumenta a dimensão heróica da sua figura. (E isto sem desvalorizar todo o aprofundamento do estudo histórico dos dramáticos acontecimentos que deve continuar a ser feito). Ela era uma pobre trabalhadora rural explorada pelo latifúndio. Ela resistiu e foi morta. E assim se transformou em símbolo/mito dos comunistas e do seu Partido. Que animaram essa luta heróica de resistência à fome, desemprego, exploração dos latifundiários. Que tinham na Ditadura o poder político que os defendia e que era sua emanação.

Os poetas são fervorosos construtores de mitos e símbolos. Leiam-se os poemas de Sofia e Ary e compreendemos toda a humanidade presente em Catarina, camponesa assassinada em Baleizão a 19 de Maio de 1954. Para não falar da canção de Zeca Afonso construída sobre um poema de Vicente Campinas. E faltam muitos e muitas a esta curta lista.

Os mitos e os símbolos só são perigosos e alienantes quando perdemos de vista o contexto histórico objectivo da sua construção (mesmo quando não conseguimos a sua integral racionalização) e se transformam naquilo que não podem/devem ser: substitutos da acção, do combate, da luta de homens e mulheres por um mundo melhor, sem guerras nem exploração. Se o mito não ilude, perturba, apaga o grito presente no último verso de Sofia para Catarina: “E a busca da Justiça continua”.

(1) Para este texto tenho apenas em consideração as “narrativas” de três abordagens: (i) “Como morreu a ceifeira que ficou na história”, Felícia Cabrita, SOL, 25ABR24; (ii) “Chamava-se Baleizão, Catarina Eufémia”, Paulo Barriga, Público, 19MAI24; e (iii) “Seara Vermelha”, documentário, José Manuel Portugal, RTP1, 17MAI24. Sendo diferentes nos formatos e ângulos de análise, têm todos marcas do que criticamente referimos no artigo: anticomunismo. No mínimo a tentativa de contrapor o discurso do PCP às palavras de familiares e gente que foi próxima de Catarina, mesmo que o texto de Felícia Cabrita o exiba de uma forma despudorada e acintosa.

(2) A peça de Felícia Cabrita exibe na página 11, numa fotografia intitulada “Recortes Imprensa/Regional”, quatro fac-smiles de notícias de jornais sem verificar que são todos recortes de n.ºs do Avante! clandestino!

(3) Página 4 do artigo de Felícia Cabrita atrás referido.

(4) “À memória de Catarina Eufémia, Militante Comunista Alentejana”, de António Gervásio, no livro Catarina de Baleizão, 50 anos depois da morte, Coordenação de João Honrado, Cooperativa Cultural Alentejana, 2004. Ver também neste livro os testemunhos de duas companheiras de Catarina: Antónia da Graça Leandro e Mariana Cascalheira.

(5) “Ocultação”, Expresso online, 09FEV24, Agostinho Lopes.

(6) Neste caso um jornal diário, Público de 24JUL04, em seis páginas e um Editorial sobre Carlos Paredes (ainda o jornal era publicado no formato “Tabloide”) as únicas vezes em que se refere PCP é no fim da peça “Depoimentos”, citando cinco curtas linhas do Comunicado de Secretariado do CC: “A morte de Carlos Paredes constitui uma grande perda para a arte e cultura portuguesa e também para o PCP, do qual era membro desde 1958 e militante generoso até ao fim da sua vida activa”, e na sua biografia: “1958 – É preso pela PIDE – DGS (a polícia política do Estado Novo) sob a acusação de pertencer ao Partido Comunista Português – de que de facto era militante, vindo a ser libertado no final de 1959”. Foram escritos importantes textos de Eduardo Lourenço, Manuel Alegre e Vasco Graça Moura, mas nenhum de qualquer personalidade da área do PCP – não devia haver nenhum! Um Editorial em que não se faz qualquer referência ao seu Partido, o PCP. E pior, no artigo central conseguiram mesmo insultar o seu Partido e o próprio artista: “Carlos Paredes fez da música e da guitarra portuguesa a sua vida. À esquerda e à direita (como???), a “inteligentsia” reivindicava-o como herói da sua causa. Foi vê-lo (a ele e a outros) actuar de graça por esse país fora no rodopio do 25 de Abril, a cantar a “liberdade” e a “justiça” em nome de partidos com poucos escrúpulos. Estava encontrado com despesas reduzidas de manutenção, o embaixador do nosso fado e dos valores tradicionais ou o “porta-voz” das classes desfavorecidas na luta pelos amanhãs que cantam, conforme o exigiam a ocasião e os interesses em causa. Ele existia e tocava, tocava sempre, e isso bastava-lhe”. Não, nunca bastou a Carlos Paredes… que toda a vida percebeu bem a luta e a vida do seu povo e a ela entregou parte importante da sua vida! Parte desta Nota são do artigo “Na morte de um comunista – Máscaras do Anticomunismo”, Agostinho Lopes, Avante!, 29JUL04.

27 Maio 2024

https://expresso.pt/opiniao/2024-05-27-catarina-mito-e-historia--dimensoes-do-anticomunismo-955c7d85

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Nuno Pacheco - Anónimos de Abril, a história cantada de desconhecidos que ajudaram à revolução



Rogério Charraz, José Fialho Gouveia, Joana Alegre e João Afonso são os rostos deste espectáculo que resgata da sombra figuras da resistência e do 25 de Abril. A estreia é esta segunda-feira.

Nuno Pacheco

28 de Janeiro de 2024, 20:05

 

Foto

Rogério Charraz, José Fialho Gouveia, Joana Alegre e João Afonso: os rostos não anónimos dos Anónimos de Abril LUÍS FILIPE CATARINO

Sabem quem foi Aurora Rodrigues? Belmira Gonçalves? Francisco Miguel Duarte? Albina Fernandes? Jorge Alves? Luís e Herculana Carvalho? João Arruda? As suas vidas estão ligadas à resistência contra o Estado Novo e ao 25 de Abril, mas os seus nomes permanecem desconhecidos para a quase totalidade dos portugueses. É deles, e de outros como eles, que nos fala (e canta) Anónimos de Abril, em estreia esta segunda-feira no Tivoli BBVA (21h), em Lisboa. O espectáculo, inserido nas comemorações dos 100 anos do Teatro Tivoli, vai ser gravado pela RTP, para posterior transmissão.

O projecto de Rogério Charraz e José Fialho Gouveia, com as participações de Joana Alegre e João Afonso (vozes) e dos músicos Alexandre Frazão (bateria), Carlos Garcia (piano), Marco Reis (guitarra) e Nuno Oliveira (baixo), surgiu quando o cantor e compositor viu num texto de uma rede social a história de Celeste Caeiro, recorda ao PÚBLICO. "Já conhecia o nome, sabia que começou por dar um cravo a um militar, mas a maior parte dos portugueses está convencida de que era florista, quando de facto ela trabalhava num restaurante que fazia um ano no dia 25 de Abril [de 1974].”

Ele próprio não conhecia a história e isso aguçou-lhe ainda mais a curiosidade. “Quando dei por mim a deliciar-me com ela, pensei que deve haver muitas pessoas que tiveram um papel simbólico ou até fundamental na resistência ou na revolução e que não são muito faladas de cada vez que se celebra o 25 de Abril. Foi esse o ponto de partida para este Anónimos de Abril: ir à procura de histórias enterradas ou guardadas na gaveta.”

O passo seguinte foi falar com José Fialho Gouveia, que já havia colaborado com Rogério Charraz, como letrista, nos discos O Coreto (2021) e Reunião de Condomínio (2023), para combinar uma ida aos arquivos, tarefa que começou a ser feita a dois.

“Fomos encontrando histórias”, diz José Fialho Gouveia. “Falámos com pessoas que nos passaram figuras que podiam encaixar neste projecto e fomos construindo uma lista que depois tivemos de ir encurtando. Quisemos diversidade: não queríamos quatro ou cinco exemplos cujo aspecto central fosse a vida na clandestinidade; quisemos equilíbrio entre homens e mulheres, porque o 25 de Abril também foi feito por muitas mulheres, embora os nomes mais conhecidos sejam de homens; e quisemos regiões diferentes do país.”

O compositor acrescenta: “No caso das mulheres, tivemos também a preocupação de não ir buscar apenas as que eram de facto apoio de homens, como a Arajarir Campos [secretária de Humberto Delgado, morta pela PIDE na mesma emboscada em que ele foi assassinado, em Fevereiro de 1965], mas mostrar os vários papéis que tiveram.”

Arajarir está entre os “anónimos” aqui cantados. Tal como, entre vários outros, Belmira Gonçalves, morta a tiro durante a “Revolta das Águas” na Madeira, em 1962; o Padre Alberto Neto, fundamental na vigília da Capela do Rato; Jorge Alves, o militar da GNR que ajudou na célebre fuga dos presos do Forte de Peniche; Francisco Sousa Mendes, neto do cônsul Aristides Sousa Mendes, que integrou a coluna de Salgueiro Maia; Aurora Rodrigues, estudante presa em 1973 e torturada durante três meses; ou o casal Luís e Herculana Carvalho. De uma família abastada do Porto, estes pais de um destacado militante do PCP, Guilherme da Costa Carvalho, conseguiram autorização para visitar o filho na colónia penal do Tarrafal. Ali tiraram fotografias às campas dos prisioneiros mortos e no regresso percorreram o país a entregar as imagens aos familiares dos detidos.

Recolhidas as histórias, foi a vez das canções. “O processo foi o mesmo que usámos nos dois discos anteriores”, conta Rogério Charraz. “Partir da história, da personagem, fazer a letra – um trabalho do Zé, depois de aprofundar a pesquisa inicial, ao ler os livros, conhecer as histórias a fundo, os pormenores –; em cima das letras, eu construí as canções e os arranjos, para depois meter as vozes, minha, do João e da Joana.”

Os cantores foram já escolha de ambos. “Na minha cabeça, há um lado colectivo no canto de intervenção”, explica o compositor. “Os cantautores cantavam muitas vezes juntos, com as suas guitarras e as suas vozes, e isso está muito presente no nosso imaginário. Fazia sentido ir buscar outras vozes, [aliás] com ligações familiares a figuras da resistência: a Joana é filha de Manuel Alegre e o João é sobrinho do José Afonso.”

Depois dos palcos, um disco

Joana Alegre aceitou o convite antes de ouvir as canções, mas o que leu e ouviu deixou-a tranquila: “Agradou-me muito a perspectiva literária, transversal, não panfletária, igualitária, de contar a história de pessoas anónimas que também construíram a liberdade”, diz.

“Esta narrativa corrige um bocadinho aquela de que as mulheres ficaram reféns, e que menorizava o seu papel na resistência e na construção da liberdade", sublinha a cantora. "Há aqui histórias muito sensíveis, porque estamos a entrar no plano dos traumas individuais, do sofrimento pessoal, mas as letras foram feitas pelo Zé Fialho com muito cuidado.”

João Afonso corrobora: “Também aceitei o desafio sem conhecer os poemas, mas a ideia em si atraiu-me logo – porque é muito interessante a abordagem. O 25 de Abril que conhecemos foi feito por oficiais, homens, mas estas histórias vão mais além, falam do trabalho de resistência escondido, de personagens que não vêm nos livros escolares.”

Após a estreia do espectáculo em Lisboa, há já mais oito datas marcadas, além de outras ainda à espera de confirmação: Portimão (16 de Março), Montijo (6 de Abril), Fafe (19 de Abril), Vila do Conde (20 de Abril), Santa Maria da Feira (24 de Abril, com a Orquestra Sinfónica de Jovens), Barcelos (27 de Abril), Grândola (21 de Setembro) e Loulé (26 de Outubro). Anónimos de Abril deverá ainda dar lugar a um CD, a lançar em 2025.

tp.ocilbup@ocehcap.onun

https://www.publico.pt/2024/01/28/culturaipsilon/noticia/anonimos-abril-historia-cantada-desconhecidos-ajudaram-revolucao-2078040

domingo, 26 de novembro de 2023

Atilio Boron - A vitória de Milei, uma construção mediática planificada

– Em 2018 fizeram-lhe 235 entrevista e teve 193 547 segundos de tempo de antena – mais do que qualquer outro político. O mesmo verificou-se nos anos seguintes.

Atilio Boron [*]
entrevistado por Correo del Alba
 
Milei é o que no campo político se chama de um outsider. O que se passou com sua figura tão controversa, apoiada por jovens, homens na sua maioria, que ascendeu como espuma? A velha guarda peronista não o viu subir? Ela tem responsabilidade nos resultados deste 19 de Novembro?


Vejamos por partes. Em primeiro lugar, Milei era um outsider na arena política, mas não nos meios de comunicação social. Mariana Moyano, a jornalista que infelizmente desapareceu há algumas semanas, verificou que ele foi o economista mais consultado nos programas de rádio e televisão em 2018. Segundo essa fonte, nesse ano ele foi entrevistado 235 vezes e teve 193.547 segundos de tempo de antena. Nenhuma outra figura da vida política se aproxima sequer destes números, e o mesmo aconteceu nos anos seguintes. Por outras palavras, foi uma construção mediática cuidadosamente planeada.


Em segundo lugar, o papel da juventude, a principal vítima do processo de informalização, "desalarização" e precarização do trabalho. O segmento entre 18 e 29 anos de idade, num total de oito milhões 337 mil 914 pessoas, representa 24,29% do eleitorado nacional. Além disso, um milhão 163.477 jovens entre 16 e 17 anos estão aptos a votar. A nível nacional, esta faixa etária representa apenas 3,3% do total dos cadernos eleitorais, uma proporção quase igual à da província de Entre Ríos. Por conseguinte, estamos a falar de um pouco mais de 27% do eleitorado constituído por jovens que pouco ou nada se sentem motivados a votar no candidato do partido no poder, ou que não têm uma memória muito viva dos acontecimentos de 19 e 20 de novembro de 2001 e mesmo da época dourada do kirchnerismo. Não estavam encantados com a proposta oficial, algo que era evidente até mesmo para um cego, bastando comparar o fervor juvenil dos eventos de Milei - cuidadosamente encenados, sem dúvida, mas adequados para despertar o entusiasmo dos jovens - com a embalagem e uma certa indiferença que prevaleceu em quase todos os eventos que o aparelho da Frente de Todos organizou para Massa.


Para concluir esta resposta, é óbvio que a velha guarda peronista, egocêntrica e entrincheirada na defesa dos seus interesses corporativos e sectoriais, há muito que não vê o que está para vir, nem tem a mínima compreensão do que é e como funciona a sociedade contemporânea. Não é a única, mas é certamente o principal responsável por este desastre.


Quanto do que Milei prometeu na sua campanha é possível realizar na Argentina de hoje?


É difícil fazer um prognóstico. Há áreas em que a resistência social, espontânea, vinda de baixo, será muito forte. Estou a pensar no caso da tentativa de avançar com a privatização da segurança social, dada a experiência catastrófica da AFJP em todo o mundo. Noutros, talvez não tanto, por exemplo, se o objeto desta política fosse a Aerolíneas Argentinas; mas também aí pode haver surpresas. No caso da YPF, as coisas serão um pouco mais complicadas, porque as províncias são as proprietárias das riquezas do subsolo, o que implicaria abrir um debate difícil de prever para o governo, dada a composição das duas câmaras do Congresso. Em suma, será necessário olhar para cada caso e medir a correlação de forças que prevalece em cada instância.


Há muitos factores que influenciam esta disparidade de reacções. Um deles é o facto de muitas das organizações sociais e forças partidárias estarem muito enfraquecidas e deslegitimadas. Segundo, a decomposição do universo popular, fragmentado numa miríade de situações laborais marcadas pela precariedade absoluta, pela falta de representação sindical e pela ausência total de legislação protetora que beneficie um sector cada vez mais minoritário da população economicamente ativa. Terceiro, a luta no seio do bloco dominante heterogéneo, onde as fracções ligadas à especulação financeira têm mais influência do que as ancoradas na produção industrial e mesmo na agroindústria. Os resultados variáveis desta disputa entre fracções das classes dominantes serão muito importantes para facilitar ou dificultar a concretização das promessas de campanha do novo presidente.


Milei é uma mudança de paradigma que representa mais a juventude que vem crescendo acompanhada por redes sociais que circunscrevem a realidade a nada mais do que seus interesses?


Ele é um emergente dessa situação de extrema vulnerabilidade de uma juventude brutalmente atingida pela pandemia e pela quarentena e, além disso, por uma política económica que aprofundou a exclusão económica e social e aumentou a pobreza para níveis sem precedentes, com exceção dos breves episódios hiperinflacionários de maio-julho de 1989 e janeiro-março de 1990. Para esta categoria social, a experiência do governo de Alberto Fernández e do seu ministro das Finanças, Sergio Massa, foi um desastre absoluto. Para estes jovens, não havia políticas económicas que permitissem aumentar os salários (exceto para uma minoria, o que era insuficiente), nem uma epopeia que lhes permitisse verem-se como militantes de uma causa nacional, e muito menos um aparelho de comunicação que reforçasse as suas reivindicações e fizesse ouvir a voz dos detentores do poder. Resultado: uma corrida quase maciça em direção a alguém que, astutamente, foi apresentado pelos poderes dominantes como fresco, jovem, inovador, apesar de ser um homem de 53 anos. Surpreendente? Não para aqueles de entre nós que estudam o papel das redes sociais, dos algoritmos e das novas técnicas de neuromarketing político.


Ou para aqueles que, como eu, andaram a pregar no deserto a necessidade de travar a batalha das ideias para a qual tínhamos sido convocados por Fidel desde o final do século passado e que a esquerda em geral e o movimento nacional-popular subestimaram irresponsavelmente. O resultado: triunfo da "anti-política"; identificação da "casta" e do Estado como agentes predadores, ocultando o papel da burguesia e das classes dominantes como agentes da exploração colectiva; exaltação do hiper-individualismo e seus correlatos, abandono, senão repúdio, das estratégias de ação colectiva e das organizações de classe, territoriais ou laborais, confiança na "salvação" individual e condenação dos que participavam em protestos colectivos, tudo em benefício da exaltação irracional de um hábil demagogo patrocinado pelos capitais mais concentrados.


Perante esta configuração cultural, era quase impossível, sobretudo com uma inflação a rondar os 13% ou 15% ao mês, que um ministro da Economia responsável por esta situação ganhasse as eleições. Perante este cenário, a votação obtida por Massa é verdadeiramente espantosa.


Será ele capaz de pôr fim ao Estado-providência que caracteriza a Argentina desde meados do século passado, com Perón e Evita?


A primeira pergunta responde em parte a esta questão. Mas há que acrescentar à Argentina de Perón e Evita os importantes avanços económicos e sociais dos anos do kirchnerismo, embora seja evidente que, por muito louváveis que tenham sido, não foram suficientes para enfrentar com êxito os estragos que a acumulação capitalista produz em todo o mundo e, muito especialmente, num país com um Estado tão débil e ineficaz como a Argentina.


Note-se que, como nos assegura um relatório da Central de Trabalhadores da Argentina (CTA), entre 2016 e 2022 a transferência de rendimentos do trabalho para o capital ascendeu a 87 mil milhões de dólares, dos quais 48 mil milhões de dólares foram transferidos em 2021 e 2022, anos em que governou uma coligação "nacional e popular". O resultado: uma degradação muito grave dos salários, que na economia formal se situam mesmo abaixo do limiar de pobreza. Seria de esperar outra coisa que não fosse a frustração e a cólera de largas camadas do eleitorado face a esta dolorosa realidade económica? De que anticorpos dispunham para não se deixarem seduzir por um discurso disparatado, repleto de mitos absurdos (como, por exemplo, o de que a Argentina no início do século XX era o país mais rico do mundo, entre tantos outros absurdos!), mas que vociferava a necessidade de pôr fim a uma situação intolerável, deixando de lado tudo o que era antigo e execrando uma suposta "casta" que, em seu próprio benefício, os tinha condenado à pobreza e à miséria?


Como encara a oposição a Milei, haverá um movimento para vigiar o seu programa?


Dependerá da reorganização e rearticulação do campo popular, das suas propostas concretas de luta, do carácter da sua estratégia defensiva face aos ataques previsíveis de um governo obcecado em cortar direitos laborais e sociais e em provocar um ajustamento máximo da economia. Depende também do surgimento de lideranças credíveis e com grande poder de convocação, capazes de atrair os milhões de pessoas mergulhadas na miséria e na insegurança pela voracidade ilimitada do capital.


O sistema partidário entrou em colapso e, pior ainda, as forças e identidades políticas que marcaram grande parte da vida política argentina desde meados do século passado até há poucos anos –- o radicalismo e o peronismo – entraram numa crise de proporções sem precedentes. Provavelmente reaparecerão, em chave neoliberal e sob formas mutantes e provavelmente aberrantes que pouco ou nada terão a ver com o ADN que os constituiu.


O radicalismo orgânico desvaneceu-se e os seus eleitores lançaram-se com todas as suas forças na votação de alguém que tinha insultado grosseiramente os dois líderes mais importantes dessa força política: Yrigoyen e Alfonsín. E o aparelho do peronismo, e os eleitores dessa corrente, só em minoria apoiaram a candidatura de Massa. Basta ver o que se passou nas províncias que costumam ser bastiões do voto peronista (La Rioja, Salta, Tucumán, Chaco, Catamarca, Santa Cruz e, em menor medida, outras) para ver que esse eleitorado está agora disponível para qualquer demagogo ou qualquer arranjo cupular decidido pelos grupos que em cada província se apoderaram do selo de aprovação peronista. Nem os radicais nem os peronistas são hoje forças políticas com uma organização, liderança e estratégias de luta política de âmbito nacional. Fragmentaram-se em 24 partidos, um para cada província, e estão dispostos a negociar o seu voto de acordo com as circunstâncias.


Como é e como será a relação de Milei com as forças armadas?


Penso que será muito boa. A vice-presidente Victoria Villarruel é uma apologista descarada da ditadura genocida, uma admiradora do ditador Jorge Rafael Videla e dos seus comparsas na violação dos direitos humanos; será ministra da Defesa e da Segurança.


A socialização política reacionária das Forças Armadas, tarefa para a qual o Comando Sul e os vários tratados de colaboração militar entre os EUA e a Argentina desempenham um papel muito importante, abrirá certamente o caminho para que estas se encarreguem da repressão que as políticas ultraneoliberais de Milei irão necessariamente exigir.


Na linha do que disse e fez Patricia Bullrich enquanto ministra da Segurança do regime de Macri, Milei dará sinal verde às Forças Armadas e à polícia para libertarem impunemente o seu potencial repressivo contra o "inimigo interno". A "Doutrina Chocobar" era um protocolo que permitia às forças federais disparar sem dar o alarme contra qualquer suspeito, o que implica um retrocesso muito grave em termos de respeito pelas garantias individuais e pelo Estado de direito. Foi revogado por uma das primeiras iniciativas do governo de Alberto Fernández, mas infelizmente parece que esta doutrina vai regressar com o novo governo.


No entanto, resta saber como reagirão as forças de segurança quando se confrontarem com milhares de jovens, mulheres e crianças que exigem justiça, embora as lições da história contemporânea da América Latina mostrem que a confusão entre segurança interna e defesa externa tende a ser a mãe de violações muito graves dos direitos humanos, como aconteceu no México nos anos anteriores ao governo de Andrés Manuel López Obrador. Nos Estados Unidos e nos países europeus, ambas as funções estão claramente delimitadas. O novo governo argentino parece disposto a fazer uma aposta com consequências desastrosas mais do que óbvias. Mas, nesta como noutras questões, como as políticas de redução ou anulação de direitos, seria um erro subestimar a reação da sociedade argentina, que em várias ocasiões se mostrou contrária a ditaduras ferozes ou a planos de ajustamento económico selvagens.


A história argentina oferece numerosos exemplos de resistência e, embora a sociedade tenha mudado muito nos últimos tempos, não seria estranho que essa rebeldia reaparecesse com força vulcânica, mesmo na ausência de estruturas organizativas adequadas. O "Cordobazo" de 1969 e a insurreição popular de 19 e 20 de dezembro de 2001 são espectros que, sem dúvida, perturbarão os sonhos daqueles que pretendem destruir as conquistas económicas, sociais e culturais que o povo argentino obteve através de grandes lutas.


Como o triunfo de Milei pode afetar geopoliticamente a região?


Em primeiro lugar, prejudicará a Argentina porque, de acordo com as exigências de Washington, fará da Argentina um aríete para reduzir a presença da China na região, mesmo à custa de prejudicar os interesses nacionais da Argentina, os seus sectores de exportação e a mão-de-obra a eles ligada. A vitória de Milei é provavelmente uma vitória de "sonho" para o establishment norte-americano, porque encontra no sul do continente um fanático disposto a executar sem questionar as mais pequenas sugestões de Washington: Anticomunista convicto (numa definição tão vaga que vai de Lula ao Papa Francisco, passando pela China, Cuba, Venezuela e Nicarágua); alinhado incondicionalmente com o Império, justificador do genocídio em curso em Gaza, admirador do Estado terrorista israelense e da sociedade norte-americana, Milei na Casa Rosada encorajará com o seu exemplo comportamentos semelhantes entre os líderes de direita dos países vizinhos.


Talvez, e mais uma vez devemos ter em conta as divisões no seio do bloco dominante, ele possa ir ao ponto de não só excluir a Argentina da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) e da Comunidade dos Estados Latino-Americanos e das Caraíbas (Celac), mas também de rejeitar ou adiar sine die a incorporação decisiva do nosso país nos BRICS plus, que deverá ter lugar a 1 de janeiro do próximo ano.


Em suma, a cruzada contra o "inimigo chinês", segundo os documentos do Conselho de Segurança Nacional dos EUA, encontrou o seu profeta nestas distantes e turbulentas terras do Sul. E, do ponto de vista geopolítico, com Milei na presidência da Argentina, fica afetado negativamente o tabuleiro de xadrez internacional da América Latina e das Caraíbas.



24/Novembro/2023

[*] Sociólogo, argentino. Algumas das suas obras encontram-se em resistir.info/livros/livros.html


https://resistir.info/argentina/milei_24nov23.html

O original encontra-se em www.lahaine.org/mundo.php/boron-el-triunfo-de-milei 

Alexandre Hoffmann - A crónica de um (anunciado) Inverno argentino

*  Alexandre Hoffmann 

21 NOVEMBRO, 2023
 

A estupidificação de parte das lideranças mundiais tem resultado, sobretudo, de dois processos distintos: o esvaziamento da social-democracia na construção de soluções capazes, face à heterogeneização de um mundo convulso, social, política e economicamente falando, e à mediatização, carregados em ombros pela imprensa, dos movimentos, e de seus líderes, que agrupam em sua órbita as correntes políticas populistas e fascistas.


O falhanço da política social-democrata

Num mundo e num momento de profundas convulsões sociais e económicas, a terceira via e as suas políticas frugais e de circunstância, que tentam manter um irrealizável equilíbrio entre a sobrevivência do sistema capitalista e o desenvolvimento dos povos, configuram uma alternativa que se tem vindo democraticamente, nas actuais fronteiras das definições e conceitos de democracia ocidental, a esgotar-se. Com a sua amplitude ideológica, e convenientemente esparsa, os campos políticos da democracia burguesa aumentaram a sua esperança média de vida, arrebanhando os eleitorados possíveis, mediante a manipulação em seu favor do concreto de cada realidade eleitoral e, sobretudo, a definição a tempos e espaços e ao sabor dos ventos dos dias das suas falsas bandeiras e posicionamentos políticos. Porém, com todas as experimentações e combinações políticas e de governo, possíveis e imaginárias, mas sempre subservientes aos interesses do grande capital, da exploração e do imperialismo, e às respectivas instituições internacionais que preconizam tais ideais, resultaram num cenário absolutamente escabroso para os povos dos países dito desenvolvidos e emergentes. Perante a situação de inflação e retraimento económico, de empobrecimento generalizado e de profundas convulsões sociais, o surgimento dos movimentos neofascistas e populistas, não resulta de uma necessidade orgânica e de base, mas antes como o seguro de vida do sistema capitalista, e inclusivamente, a prazo, da via social-democrata e da direita tradicional, que saberão esperar, durante o triunfo fascista, o seu regresso. Antes penar do que desaparecer, que a alternativa preconizada pelos movimentos populares determinaria, não por imposição mas por experimentação, o seu fim, assim o liberalismo económico surge como um mal menor.

Discursos messiânicos como resposta às crises económicas e sociais

Líderes populistas brotando em cada esquina são a versão modernizada de figuras sacras e virgens surgindo em árvores. Se as políticas dos campos da social-democracia não surtem os efeitos desejados na vida das pessoas, pese embora as proficientes oportunidades que lhes vão sendo entregues nos vários e consecutivos plebiscitos eleitorais, a descrença no sistema promove o espaço para curas milagrosas e discursos messiânicos. A iliteracia política, uma erva daninha entre o povo ocidental, promovida, e em muito bem-querida, pelo capitalismo, num fervor de falsa modernidade que em muito também lhe convém, o que importa a política afinal?, desbrava caminhos até ao poder, promovendo um desinteresse e apatia generalizada pelos processos políticos e democráticos em primeira instância, e posteriormente num desespero, perante a carestia de vida, que num ímpeto de sobrevivência se lançam parte dos povos marginalizados em apoio a estes movimentos inorgânicos, crendo que nestes discursos aparentemente salvadores, de anticorrupção e de anti-sistema, assentes mediante a necessidade e circunstância em bodes expiatórios. Afinal se esta gente é pobre, a culpa é do cigano ou do negro ou do emigrante, do subsídio ou do sindicato, enfim, do “socialismo”. Mas por que razão parece teimar colar este argumentário vazio?

O papel da imprensa

A imprensa pública e estatal, que assim-assim vai cumprindo o seu papel constitucional dentro de um estado de direito, é aparentemente o único inimigo comum na cruzada fascista e neofascista, no que toca à imprensa de uma forma geral, entenda-se. Não é por mera coincidência que, de forma transversal, se encontre a premissa neste tipo de projectos ultraliberais a intenção programática de encerramento ou privatização dos órgãos de comunicação estatais, e, por sua vez, o enaltecimento dos seus pares de iniciativa privada, nas mãos companheiras que alimentam os seus projectos políticos. A iniciativa privada no campo da informação, não configura, nem pode configurar, jornalismo independente, isto é, se é financiado e se tem como objectivo uma sustentabilidade económica e fomentação de lucro trata-se de um negócio e não de um serviço, que obedecerá, não aos critérios rigorosos de informação imparcial, mas sim aos interesses de regime dos seus proponentes. Está para lá, bem para lá, do curioso, quando se atenta ao tempo de antena e destaque, que grande parte da comunicação social insiste em ofertar a este tipo de movimentos e partidos políticos que giram em seu redor, exponenciando a sua força e relevância, que nunca encontra paralelo nas ruas, nos campos, nas fábricas e nas escolas, é, portanto, de realçar, para reflexão urgente, o papel da imprensa na construção destes fenómenos. Não obstante, a resposta aos seus porquês será bem mais simples do que poderá aparentar: servem os seus interesses de classe e o sistema de que ambos se alimentam.

O paradoxo dos movimentos ‘ele não’

Vão valendo os legados históricos dos movimentos de massa, que os seus processos, mesmo que intermitentes em bastantes cenários ocidentais, deixam as suas organizações, métodos e aprendizagem, ao longo das gerações. No entanto, o revisionismo encontrou, mesmo à esquerda, os seus espaços e outras terceiras vias, que construíram, ou replicaram, erros de montra com efeitos altamente contraproducentes. A desorganização e fragmentação, e até algumas fragilidades, das forças progressistas fizeram com que, não raras vezes, as frentes unitárias que se propuseram fazer frente a um determinado projecto político de regressão, encorpassem o seu discurso e acção no antagonizar de determinada figura individual, enfocando toda a energia no ataque a um conjunto de características pessoais, retirando do centro da discussão e do esclarecimento as suas propostas políticas, de construção de alternativa e de representação popular. Bastaria já o palco mediático ofertado a este tipo de agremiações e personagens, e este tipo de campanhas, centradas nestas personagens, e relembrando que não existe tal coisa como má publicidade, são do seu total interesse e conveniência, e disso é prova todo o exemplo saído dos últimos actos eleitorais, mundo fora, em que grande parte das forças democráticas resumiram o seu discurso e luta a um esvaziado “ele não”.

O projecto-comum do neoliberalismo e do fascismo

Pelas lentes de onde nos encontramos, politica e socialmente, em muito é-nos difícil distinguir a diferença, e, sobretudo as consequências, entre um projecto manifestamente liberal e um outro fascista. A sobrevivência de um está dependente da força do outro, e a teia que garante a vantagem económica e de lucro, a quem serve o liberalismo, assenta a sua estrutura e manutenção na concretização das políticas fascizantes, pelas mãos dos seus grupos políticos, que acabam, e que teimam, por financiar, sobretudo, nos ciclos recorrentes de regressão económica, decretada a tempos como impõe o capitalismo no seu normal funcionamento. Não se condene à partida o viés dos óculos com que temos aprendido estas coisas, que do lado de lá, sublinhando a importância do momento de crise, qualquer coisa à sua esquerda, mesmo bem lá para a direita, perto e encostado a si, o liberalismo apelida tudo de “socialismo”, impondo os forjados caminhos de ambição num reconstruído regime e numa fraca figura de estado como salvação, e em tudo se alinha, aqui e ali, no discurso paralelo entre uns e outros, para a destruição dos serviços públicos, para a diminuição da estrutura do estado, para o entrecorte de direitos sociais e laborais, e para a mercantilização de tudo e todos, só não há garantias de qualquer avanço, prometendo que nada desse passo em frente é necessário e fará falta. Quem já pouco tem, pouco se importa de aventurar por estes caminhos ardilosos, afinal alguma solução haverá de existir, que seja então a mais berrada e a mais gritada, mas este será, seguramente, a desgraça dos povos.

O projecto particularmente grave de Javier Milei

Aqui estamos nós a individualizar a questão, mas atente-se que é por pertinácia e circunstância dos dias vividos no país do Sol de Maio, e não por outro motivo. Porque o que aqui se escreverá de seguida, encontra paralelo e exemplo em todos os lugares, e estes projectos não são, nem configuram, nada de novo. Javier Milei, novo presidente eleito da Argentina, reúne em si um conjunto de características desejáveis, aos olhos do amedrontado capital, que replicou ali o já antes tentado, com sucesso reconheça-se, noutros países, e afastemo-nos dos exemplos concretos, amplamente sabidos por todos. Se a repetição individual é de fácil percepção, mais facilitada está-nos a vida nos projectos que encorpou a sua candidatura, que no fascismo e no liberalismo é cientificamente comprovada uma máxima, de que nada se ganha, muito se perde e, sobretudo, nada se transforma.

Javier Milei preconiza um programa político de “flexibilização” do emprego, que atirará às ruas muitos mais argentinos do que agora estão, em grande conluio com as confederações patronais, propõe a desintegração da saúde pública gratuita, promove a conceptualização abstracta da meritocracia e do estado mínimo. Anuncia-se como anarcocapitalista, odiando o estado, mas ansiando paradoxalmente ser ele o estado, proclamando a extinção de vários ministérios, muitos ligados às tutelas de questões laborais e sociais, tudo valendo para angariar a franja que engoliu o discurso de demonização da figura estatal, aproveitando para um dos maiores ataques aos trabalhadores daquele país que há memória.

Propõe uma Argentina grande e soberana, independente e interventiva, afirmando que encerrará o Banco Central, em larga medida, bem ou mal, garante relativo da independência monetária do país, apenas para enveredar por uma dolarização da economia, que não se abaixe tanto as calças ao domínio americano, não vá cair por terra tão enobrecido intento, enquanto que anuncia em simultâneo a saída da MercoSur, que em muito contribuiu para o desenvolvimento e soberania das economias sul-americanas. Para Milei, tudo e todos, neste regime democrático, são parasitas, subsidiários e oportunistas, e configuram o grande mal económico e financeiro do país, mas não nunca, o grande capital sedento e vampiresco, que pese a crise argentina, mantém incólume o seu lucro.

Tudo isto vos poderá soar, e bem, a uma replicação de vários cenários similares, uns perto outros mais afastados, uns aqui e outros acolá, mas a cada povo e nação cabe, em desditosa fortuna, ter o seu pequeno führer de bolso. Milei, que mandou clonar o seu cão, sorte que a cada existência corresponda uma só alma, imaginem a sorte, ou falta dela, de ser bicho de estimação em duas rodadas de vida de Javier Milei, e que através dos seus cães fala com deus, reveste-se das suas próprias particularidades e desideratos políticos, como a legalização de compra e venda de bebés, a proibição do aborto, a liberalização de órgãos, o armamento geral da população, o combate ao “marxismo-cultural”, seja o que isso for, o fim da escolaridade obrigatória e a subsidiação ao ensino privado, teremos já ouvido esse argumento de que “os pais possam escolher livremente onde os filhos estudam”, e, por substituição à saúde pública e gratuita, a criação de um seguro de saúde universal, por fim, que não pedirá desculpa por ter um “pénis”, não o teria de fazer, o que nos preocupa é que seja esse mesmo o seu membro mais intelectualizado.

Se parece ser certo que só o povo salva o povo, é também certo que só o fascismo poderá salvar o capitalismo, e mais à sua sanha imperialista e belicista, e à sua injusta e criminosa acumulação de riqueza. Se isto é, efectivamente, um passo atrás, então a resistência, a organização, a unidade e a luta, serão o único garante para dois à frente.

https://manifesto74.pt/a-cronica-de-um-anunciado-inverno-argentino/

terça-feira, 15 de agosto de 2023

DN - Entrevista a João Soares, por Pedro Cruz

 

João Soares: "Sócrates fez uma asneira porque quem foi líder de um partido, não se demite dele"

Artigo originalmente publicado a 14 de abril de 2023. O DN, durante o mês de agosto, republica algumas entrevistas marcantes e mais lidas desde o verão de 2022..

João Pedro Henriques e Pedro Cruz

15 Agosto 2023 

Filho do principal fundador do PS, João Soares, ex-deputado, ex-presidente da Câmara de Lisboa e ex-ministro de Costa, diz que todos os ex-líderes devem ser convidados para a festa dos 50 anos, inclusivamente Sócrates, apesar da "asneira" de ter deixado o partido.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973? Mário Soares e a mulher Maria Barroso estavam na Alemanha, na reunião da fundação do Partido Socialista. Maria Barroso é, aliás, a única mulher presente na fotografia que se tornou icónica e que marca o nascimento do partido. E os filhos, Isabel e João? João Soares tinha 23 anos. Hoje, com 73 anos, afastado da política depois de ter sido deputado, presidente da câmara de Lisboa e (muito esporadicamente) ministro (da Cultura), João Soares dá nesta entrevista DN/TSF a sua visão do que foi a fundação do PS.

Onde é que estava no dia 19 de abril de 1973?

Eu e a minha irmã estávamos em Paris, curiosamente, mas estávamos evidentemente a par do que se ia passar na Alemanha. E até recebemos indicações para, no final dos trabalhos, mandar um telegrama para o Porto, para os irmãos Cal Brandão ou para o António Macedo, com um texto perfeitamente anódino e pré combinado que sinalizaria que as coisas tinham corrido bem e que o desfecho tinha sido aquele que todos eles esperávamos.

sábado, 3 de dezembro de 2022

Manuel Rocha -Sinais de alarme


* Manuel Rocha

Tinha seis anos quando comecei a ir sozinho para a escola. Apanhava o (elétrico) 4 na Conchada e saía em Montes Claros. Na longa volta do regresso a casa, entre Montes Claros e a Conchada (passando pela Baixa), o 4-Cruz-de-Celas passava numa parede que já não existe, onde uma pichagem declarava em letras garrafais, enquadradas por uma cruz céltica mal-amanhada, “Basta-nos! Fora com os comunistas”. Aos seis anos eu já sabia ler (sou letrado da Cartilha Maternal). Compreendia o significado de “basta-nos” e de “fora com os”, mas o vocábulo “comunistas” não era coisa que o João de Deus nos ensinasse.

Numa cidade despida de anúncios e de cartazes, em que a literatura de caminho se reduzia às tabuletas das lojas e das instituições por onde o 4 passava (recordo com saudade as maiúsculas do Teatro Avenida), aquele “basta-nos! Fora com os comunistas” tinha o significado de uma manchete no jornal do meu percurso diário. Intrigava-me. Por aqueles dias, em resposta à minha dúvida, o meu pai desvendaria o mistério, com as cautelas que o tempo fascista impunha, e a explicação virou do avesso a minha natural benevolência para com uma frase que não entendia. Os tais “comunistas” eram, afinal, o meu vizinho Santos Ventosa, o Manuel Simões que era poeta, o Fernando António que se escondeu lá em casa antes do “salto” para Argel, o Vítor Costa e a Nina, o Vilaça e a Natércia, o Luís Carlos, a Cristina, o João Vilar do TEUC, o velho Gomes, o Horácio Leitão, o Raul de Sousa, o Jorge Seabra, o Deniz-Jacinto – tudo gente valorosa, trabalhadora, imerecedora de “bastas” e menos ainda de “foras” naquela Coimbra dos anos de 1970. “Os comunistas” da pichagem eram, afinal, os ativistas que eu conhecia do Ateneu de Coimbra, um lugar de democracia cultural que me revelou o “Garoto de Charlot” e “Mel, Pastel e um Boneco de Papel”, o espaço fraternal que abria as portas de um posto médico militante que anunciava já um SNS para todos.

Vem esta falação a propósito dos trabalhos de reescrita da História, destinados a equiparar o comunismo ao fascismo. Desde o Parlamento de uma Europa em acelerada deriva de direita, ao insistente comentário televisivo, a tese é apresentada como verdade absoluta.

Para isso apagam-se dos “ismos” os humanos que por elas responderam e respondem, associando ao hábil procedimento palavras como “liberdade” ou “democracia” destituídas, por sua vez, da essência emancipadora e da memória histórica que as fez bandeira de luta e razão de entrega, às vezes da própria vida. Se apenas nos cingíssemos ao espaço de Portugal, e ao setor das artes e das ideias, “os comunistas” daquela pichagem chamavam-se Adriano Correia de Oliveira, Álvaro Cunhal, Carlos Paredes, Lopes-Graça, Mário Sacramento, Pires Jorge, Lousã Henriques – só para citar alguns daqueles que têm ligação a esta Coimbra. Nomes que permitem, neste pequeno território, desmontar a acusação de uma equivalência que, insultuosa, visa tão-só a absolvição do fascismo através da desmemoriação. Venha, pois, quem aqui consiga debitar um par de nomes de “equivalentes” fascistas portugueses que tenham, de algum modo, acrescentado felicidade e luz à nossa existência coletiva. E, olhando mais longe, venha quem consiga encontrar na História recente fascistas “equivalentes” a Pablo Picasso, Paul Éluard, Vladimir Maiakovsky, Victor Jara, Oscar Niemeyer, os perseguidos pelo Mackartismo nos EUA, Pasolini, Frida Khalo, Luigi Nono, Bertold Brecht.

A História não é isenta de controvérsia, e a discussão dos destinos dos humanos, e os factos que lhes estão associados, não têm estado isentos de violência. Por haver existências que não se comparam, uns analisam com cuidado a História e tomam medidas para que os desastres não se repitam. Outros não – é que a violência que nuns é mancha, noutros é essência. Quando o presidente da “comunitária” Polónia de Auschwitz se curva perante a estátua do colaboracionista nazi Stepan Bandera, quando a extrema-direita xenófoba e neoliberal é promovida em dilatado tempo de antena, quando os lucros dos poderosos crescem ao ritmo do empobrecimento desesperado dos desvalidos, os sinais só podem ser de alarme. Porque na “equivalência” que se alardeia, ontem como hoje, os sabotadores da Civilização são os cultores e os beneficiários do lado da cruz gamada


https://aspalavrassaoarmas.blogspot.com/2022/12/sinais-de-alarme.html

domingo, 10 de janeiro de 2021

António Santos - Amigos não deixam amigos ser fascistas

OPINIÃO|ANTIFASCISMO

* António Santos

Nunca na minha vida contei a ninguém o segredo do João. Já adulto, não o via há sei lá quantos anos, e às vezes pensava nele, pá («em frente!»), a abrir caminho à quadrilha, a deboiçar mato de cisto a golpes de braços nus.


Desfile dos «coletes amarelos» em Estrasburgo, França, dia 3 de Dezembro de 2018, durante a terceira jornada nacional daquele movimento.CréditosVincent Kessler / Reuters

Nunca na minha vida contei a ninguém o segredo do João. Já adulto, não o via há sei lá quantos anos, e às vezes pensava nele, pá («em frente!»), a abrir caminho à quadrilha, a deboiçar mato de cisto a golpes de braços nus, indiferente às silvas que a nós nos cortavam nas canelas como canivetes («esquerda volver!») e o gajo, pá, de calções, sem um arranhão, sei lá como, isento de amores-de-burro que a nós se nos abotoavam aos atacadores e às meias da raquete. O João, pá, a desbravar a tarde alentejana como um bandeirante na Serra dos Motrinos1. Até que a um gesto seu a coluna estacava («sentido!») e o João, pá, com perícia militar, a dar o azimute («olhar esquerda!») do bando de pardais às nove horas («apresentar arma!»).

Eu era o único do grupo que sabia do extraordinário fenómeno sobrenatural que ia ali repetir-se diante dos nossos olhos. Já nem sequer tirava a patilha de segurança da pressão de ar («pelotão de execução: preparar!»). Ali ficava, a apreciar aquela cena por cima do cano do fuzil, pá, sorridente e invisível à minha unidade de guerrilheiros do sétimo ano que pelas miras só podiam ver pardais («apontar!») e não podiam ver o João, e não o poderiam entender.

«É demasiado fácil dizer que não se debate com fascistas e o Ventura agradece sempre que bloqueamos mais um amigo do Chega no Facebook. É preciso ter paciência e explicar-lhes, um a um, como estão errados com todas as armas que o Ventura não tem: argumentos que demoram mais que cinco minutos, provas, estatísticas, lógica, ciência, razão»

E então, uma fracção de segundo antes da troada calar as cigarras («fogo!»), um chumbo antecipava-se contra o céu, assobiava muito acima das cabeças dos pardais em debandada e dissolvida-se em vapor na tremulina. «Porra, pá! Outra vez? Mas quem é que disparou antes?! Fugiram todos!». E eu sorria, silencioso aos protestos furiosos do João, porque o segredo dele estaria sempre seguro comigo, mesmo que um dia tivéssemos 18 anos e as armas fossem a sério e ele ainda se recusasse a matar, já não um pardal, mas uma ideia, ou um sonho, ou um amigo.

Resumidamente, pá, o João era o miúdo mais doce, o mais puro, do nosso grupo de amigos. Entre os rapazes, especialmente na aldeia, era vezo não se admitirem maiores expressões de afecto. A amizade masculina tem destas coisas: uma espécie de parcimónia permanente, um esforço incessante de ser homem, como se não ser homem, e por consequência ser mulher, fosse algo de adquirido e insuportável: uma fraqueza de que os rapazes deviam erguer-se, a pulso de embargar lágrimas e esconder sentimentos. É que não é só o espírito milenarmente subjugado das mulheres que o capitalismo teima em engavetar em estreitas cofragens: o sexo masculino também não escapa ao cilindro que nos faz mais "homens" e nos torna menos humanos. A lei não escrita dos homens (com H muito, muito pequeno) tornava-nos ridículos. Impunha-nos um pudor que nos apertava o peito com as cordas lívias da conveniência e impingia um decoro que nos atava com nós a garganta e o coração. Obrigava-nos a comunicar por sinais de fumo e através de uma linguagem gestual da qual só assimilávamos o sentido geral. Tornava-nos, como escreveu Saramago, em espantalhos a gesticular através do vidro. A todos, menos ao João.

Talvez tenha começado assim, não sei. Só sei que, no nosso grupo de putos, apesar de uma suspeita generalizada, nunca houve qualquer reunião para discutirmos porque é que nunca, mesmo nunca, caçávamos nada. O coração do João era bom, pá.

Quando o íamos buscar outra vez depois do jantar, nunca cruzávamos a ombreira da porta. A casa do João só tinha três divisões: o quarto que os pais partilhavam por duas camas com quatro filhos, a cozinha, que também fazia as vezes de sala e uma casa de banho, onde nunca entrei. Um dia, mais tarde, o pai emigrou. A casa ficou menos abarrotada e o João ficou mais triste.

Naquelas noites de estio, em que não tínhamos hora para estar em casa e nos deitávamos de costas na estrada de alcatrão a ferver, o João trocava a farda de soldado pela sotaina de pregador: tinha coragem para nos dizer, assim, preto no branco, como gostava tanto de todos nós. Prometia violências terríveis se alguma vez alguém fizesse mal a qualquer um de nós. Declarava-nos como a única coisa importante na vida, e prometia-nos, algo poético para aquela idade, pá, sem noção da efemeridade da adolescência, que a vida devia ser estarmos sempre unidos, sermos bons uns para os outros e nunca nos abandonarmos. E nós não nos riamos. Só ouvíamos. Porque, toda a gente sabe, não se vêem carros nem sarcasmo nem cinismo sob as estrelas da noite do Alentejo.

«O único ponto de contacto entre a verdade e o João é a realidade da vida dele: o salário que ganha, as horas que trabalha, a riqueza que produz, a renda que paga, a raiva que sente. Em última análise, só assim poderemos retirar o fascismo das cabeças dos nossos amigos como o João: no trabalho, na rua, na realidade concreta, na grande escola que é a luta»

Um dia, o João foi trabalhar com o pai para França e nunca mais nos vimos, mas para mim ele permanecia nos mesmos lugares, a acabar de jantar a correr para vir salvar pássaros com a pressão de ar, deitado ali naquela curva onde agora já passam mais carros, pá, com a cabeça cheia de sonhos contra o alcatrão.

E há pouco tempo reencontrei o João no Facebook. Tive de ver as fotografias várias vezes para me certificar de que era mesmo ele. Nem sei como é que não chorei, pá. O gajo agora só partilha coisas do Chega, mete frases do troglodita do Ventura, faz comentários racistas, apela à morte de ciganos, comunas, pretos, paneleiros… O João, pá. O João, porra.

A minha vontade, a minha raiva, era eliminá-lo da lista de amigos, bloqueá-lo, sei lá, nunca mais ver aquelas merdas, para não me incomodar. Tão fácil, tão simples, tão rápido, tão limpo, tão egoísta. O problema é que o João ficou fascista exactamente porque eu não me incomodei o suficiente.

Tive de lembrar-me do João de 12 anos, que nunca me apagaria, que nunca me bloquearia. E depois, à medida que lhe percorria as fotografias do perfil, comecei a entender como é que a vida fez do João um fascista. Estavam ali dez anos anos a gritarem-lhe, a roubarem-no, a humilharem-no, a empobrecerem-no, a destruírem-no. E eu, onde é que eu estava esse tempo todo?

Hoje não gostaria de voltar a explorar a Serra dos Motrinos com o João. O segredo dele estragou-se, talvez irreparavelmente, e não tenho dúvidas de que amanhã ele dispararia a matar contra os pardais e, agora que já somos crescidos, até mesmo contra mim. E apesar disso, eu não só não o apaguei, como voltei a falar com ele.

O João ficou fascista em França porque só os fascistas é que falavam em virar o tabuleiro do jogo. Outros andavam mais preocupados em preservar a estabilidade do Estado burguês e em apresentarem-se como parceiros responsáveis aos seus inimigos de classe. Não tinham nada para dizer a gente como o João. Não falavam a língua dele. Não sentiam a raiva dele. Por isso, nunca ninguém lhe falou de classes sociais nem de mais-valia. O João não teve a oportunidade de aprender história, não teve amigos nem colegas que lhe descodificassem as notícias que parecem dar sempre razão aos fascistas. Sem surpresas, quando o João voltou para Portugal foi parar ao Chega.

«Por estes dias, o João ainda me polui o feed com lixo do Chega e ainda acha que o governo tem medo dos ciganos. A diferença é que agora tem contraditório, e o fascismo é uma doença que se cura a pensar e a discutir. Agora, o João tem um amigo que, enquanto houver memória e estrelas nas estradas do Alentejo, não o deixará nunca continuar a ser fascista»

É demasiado fácil dizer que não se debate com fascistas e o Ventura agradece sempre que bloqueamos mais um amigo do Chega no Facebook. É preciso ter paciência e explicar-lhes, um a um, como estão errados com todas as armas que o Ventura não tem: argumentos que demoram mais que cinco minutos, provas, estatísticas, lógica, ciência, razão.

É uma batalha epistemológica desigual: o João não precisa de provas para acreditar nas teses fascistas e não só me exige que lhe seja eu a provar que as crenças dele são falsas (como é que se prova que o «lobby gay» não manda no mundo?), como acha que toda a evidência científica que o desmente se baseia numa gigantesca conspiração globalista. O único ponto de contacto entre a verdade e o João é a realidade da vida dele: o salário que ganha, as horas que trabalha, a riqueza que produz, a renda que paga, a raiva que sente. Em última análise, só assim poderemos retirar o fascismo das cabeças dos nossos amigos como o João: no trabalho, na rua, na realidade concreta, na grande escola que é a luta.

Por estes dias, o João ainda me polui o feed com lixo do Chega e ainda acha que o governo tem medo dos ciganos. A diferença é que agora tem contraditório, e o fascismo é uma doença que se cura a pensar e a discutir. Agora, o João tem um amigo que, enquanto houver memória e estrelas nas estradas do Alentejo, não o deixará nunca continuar a ser fascista. E um dia destes, quem sabe, ainda nos reencontraremos os dois, pressão de ar no talabarte («arma ombro!») para salvar pássaros e sonhos na Serra dos Motrinos («Apontar, fogo!»).

POR ANTÓNIO SANTOS QUINTA, 16 DE JANEIRO DE 2020

https://www.abrilabril.pt/nacional/amigos-nao-deixam-amigos-ser-fascistas