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sábado, 14 de março de 2026

Daniel Oliveira - A Gestapo e a Stasi globais

*  Daniel Oliveira

A Anthropic recusou permitir o uso da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo será tecnológico

12 março 2026  

Enquanto o mundo acompanha a guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA), criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proi­bição de vigilância em massa dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar guerras.

A resposta da Administração foi declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem, como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.

Ninguém compra um tanque e aceita que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump. Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic, que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos. Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.

Roberto Schmidt/Getty Images

As leis, os regulamentos e as salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos. Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.

Já sabemos que chegue para perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento so­cial. Temo que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido, deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será tecnológico. E ele aí está.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-12-a-gestapo-e-a-stasi-globais-1bcaf1a4

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Khider Mesloub - Da Ku Klux Klan ao ICE: uma continuidade histórica da violência estatal fascista

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Por Khider Mesloub .

Assim como a Ku Klux Klan (KKK) não foi uma aberração marginal na história dos EUA, nem um mero desdobramento da loucura racista, o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) não é uma aberração motivada por questões de segurança, uma patologia trumpista. Ambos derivam da mesma matriz: a violência estatal fascista — racializada — como técnica para lidar com as contradições de classe do capitalismo americano.

Portanto, associar a Ku Klux Klan à polícia anti-imigração contemporânea não é anacrônico nem provocativo.

Embora a Ku Klux Klan e o ICE difiram em seu status legal (uma clandestina, ilegal e terrorista, a outra institucional, legal e também terrorista), convergem em sua função histórica: produzir um inimigo interno racializado para disciplinar todo o proletariado nacional . Incluindo, e especialmente, o proletariado branco, transformado em um auxiliar ideológico de sua própria opressão.

Como lembrete, a Ku Klux Klan surgiu em um momento específico da história dos Estados Unidos, após a Guerra Civil ( 1861-1865), que terminou com a abolição legal da escravatura. A Ku Klux Klan constituiu uma das formas mais violentas e explícitas da contrarrevolução social desencadeada após a abolição da escravatura. A KKK surgiu como uma força armada clandestina, incumbida de restaurar, por meio do terror, o que a lei acabara de destruir. Organização terrorista supremacista branca, a KKK estabeleceu-se como um instrumento para a manutenção de uma ordem social fascista, inseparável da dinâmica de poder econômico e político inerente ao capitalismo americano, concebida para impedir qualquer reorganização do proletariado em bases não raciais.

A Ku Klux Klan não apenas odeia; ela organiza o ódio . O racismo que promove não é uma paixão espontânea, mas uma ideologia política concebida para dividir a classe trabalhadora. Ao incitar trabalhadores brancos pobres contra trabalhadores negros, a Klan desvia a raiva social de seu alvo real (a burguesia proprietária) e a canaliza para um inimigo imaginário, essencializado e desumanizado.

Desde a sua origem, a KKK atuou como uma força policial auxiliar informal, encarregada de fazer o que o Estado hesitava ou se recusava a assumir abertamente: aterrorizar, expulsar simbolicamente ou mesmo fisicamente uma população negra que se tornara legalmente cidadã, mas socialmente indesejável.

A Ku Klux Klan impôs sua vontade por meio de táticas de intimidação em massa: patrulhas, vigilância, punições, linchamentos e execuções sumárias. Controlava a circulação, intimidava pessoas negras e impunha o medo como norma social. Em outras palavras, exercia uma função de policiamento racial, à margem da lei, mas tolerada (ou até mesmo apoiada) pelas autoridades locais.

Na verdade, a supremacia branca funciona como um ópio político, uma compensação simbólica oferecida aos brancos explorados: desprovidos de poder econômico, eles recebem uma superioridade racial fictícia, concebida para neutralizar qualquer consciência de classe. A Ku Klux Klan é, nesse aspecto, uma organização profundamente burguesa em sua função, mesmo quando recruta membros da classe trabalhadora.

Ao contrário da crença popular, a Ku Klux Klan nem sempre operou nas sombras. A partir da década de 1920, tornou-se uma força de massa, infiltrando-se no aparato estatal e controlando governadores, juízes e membros do parlamento. A violência racial deixou então de ser marginal; tornou-se governamental.

Nas últimas décadas, a Ku Klux Klan pode ter perdido seus capuzes e cruzes em chamas, mas o racismo estrutural que ajudou a estabelecer permanece, reciclado em formas legalmente aceitáveis, controladas pela mídia e politicamente vantajosas.


Pior ainda. Hoje, renasce sob o uniforme do ICE , a agência federal americana vinculada ao Departamento de Segurança Interna (DHS), criada em 2003 após o 11 de setembro, como parte da mudança do Estado americano para uma abordagem focada na segurança. Sob a administração Trump, o ICE passou por uma transformação repressiva mortal. Deixou de ser um simples órgão administrativo e tornou-se o braço armado de um projeto político xenófobo e antissocial, uma milícia estatal, uma força repressiva especializada que opera contra uma população designada como inerentemente suspeita. O ICE foi transformado em um instrumento espetacular de soberania punitiva. Não se trata apenas de punir, mas de tornar isso realidade. A violência se torna uma mensagem dirigida à população americana subjugada: o Estado pode destruir vocês, expulsá-los, apagá-los.

Essa espetacularização da violência aproxima o ICE das milícias fascistas históricas, cuja função não era apenas repressiva, mas também simbólica: produzir um clima de terror como forma de dissuasão. Sob o governo Trump, a violência se torna uma linguagem política dirigida a toda a população americana oprimida.

Com o ICE, a figura do inimigo não é mais simplesmente a pessoa negra libertada, mas também o imigrante (principalmente latino) construído como invasor, potencial criminoso, parasita econômico (sic)

Os métodos do ICE são agora conhecidos mundialmente, sendo notícia todos os dias: batidas policiais ao amanhecer, muitas vezes sem mandado judicial claro; prisões arbitrárias, baseadas em perfilamento racial; separação de famílias, inclusive de crianças pequenas; centros de detenção semelhantes a prisões extrajudiciais; assassinatos de manifestantes.

Assim como a Ku Klux Klan, o ICE não se limita a aplicar a lei: cria um clima de terror com o objetivo de disciplinar toda a população americana. O terror se torna um instrumento de governo.

A diferença essencial entre a Ku Klux Klan e o ICE, portanto, não é moral, mas legal. A Klan agia fora da lei; o ICE age dentro da lei. Mas essa legalização não rompe com a função histórica da violência racial: ela a normaliza.

O imigrante não é o alvo final: ele é a figura experimental.

Onde a Ku Klux Klan queimava cruzes para marcar uma fronteira racial intransponível, o ICE ergue muros, campos e bancos de dados biométricos. Em ambos os contextos, cumprem a mesma função de classe. Em ambos os casos, a racialização serve para dividir as classes dominadas. A KKK impedia alianças entre trabalhadores negros e brancos pobres no Sul pós-escravidão. Sob Trump, o ICE desvia a raiva social de trabalhadores precários para imigrantes, acusados ​​de roubar empregos, sobrecarregar os serviços públicos e "ameaçar a identidade nacional".

A Ku Klux Klan e o ICE não são produto de uma aberração coletiva macabra nem da patologia individual de Trump. São produto de uma sociedade americana repleta de antagonismos de classe permanentes e irreconciliáveis.

A Ku Klux Klan e o ICE de Trump não são idênticos, mas estão historicamente relacionados. Um personifica a violência racial crua de um Estado em reconstrução após uma longa e sangrenta guerra civil. O outro, a violência administrativa de um Estado capitalista em declínio, ameaçado por uma guerra civil. A transição da Klan para o ICE representa menos uma ruptura do que um refinamento dos instrumentos de dominação e repressão. Quando o terror muda de uniforme, mas mantém seu alvo, o problema não é o excesso, mas a própria estrutura do poder americano, que está se tornando cada vez mais fascista.

Como o capitalismo americano está em crise sistêmica, ele exige uma população superexplorada, marginalizada, móvel e aterrorizada. Para alcançar esse objetivo, o Estado cria o aparato apropriado: a milícia do ICE.

Na verdade, o ICE não combate a imigração. Ele administra a ilegalidade para manter o proletariado americano em estado de medo perpétuo. O imigrante não é o alvo final. Ele é o sujeito experimental. O objetivo principal do ICE não é controlar estrangeiros. Ele serve para testar, normalizar e expandir técnicas de dominação e repressão aplicáveis ​​a toda a classe trabalhadora americana.

A imigração é um pretexto conveniente, um laboratório para a repressão. A derrocada rumo ao fascismo sempre começa com a criminalização do segmento vulnerável do proletariado: o imigrante. Nesse caso, nos Estados Unidos, o imigrante constitui um campo de testes ideal. O que é imposto aos imigrantes hoje — ou seja, detenção administrativa, suspensão de garantias legais, vigilância constante e terror doméstico — poderia ser estendido amanhã a todo o proletariado americano.

O objetivo de generalizar e normalizar a Iniciativa de Cooperação Econômica (ICE) é incutir disciplina por meio do exemplo. A função central da ICE não é a deportação, mas sim a demonstração. A mensagem é simples: os direitos não são universais; são condicionais e revogáveis.

Assim, até mesmo o trabalhador americano precisa entender que seus direitos podem ser suspensos, redefinidos ou revogados. O ICE desempenha um papel estratégico: dividir a classe trabalhadora americana. Essa divisão visa impedir qualquer consciência de classe unificada. Um proletariado americano dividido é um proletariado que pode ser forçado à servidão e explorado à vontade. E, sobretudo, neste período de marcha forçada rumo a uma guerra generalizada, pode ser transformado em bucha de canhão. 


A violência do ICE é deliberadamente pública, tornada visível, filmada e transmitida.

Deliberadamente teatral, para enviar uma mensagem clara a todo o proletariado americano, o principal alvo do terror. Assim, o verdadeiro alvo é o proletariado americano como um todo, incitado a se acostumar com o medo, com o terror de Estado, com o excepcionalismo, com a repressão sangrenta e com a revogabilidade permanente de seus direitos.

O ICE não se dirige contra estrangeiros . Dirige-se contra toda a população americana, considerada supérflua pelo capitalismo. O imigrante é o primeiro. Ele não será o último . O ICE não defende as fronteiras dos Estados Unidos. Defende fronteiras de classe.

O ICE não é uma exceção. É uma vanguarda repressiva.

O que hoje é reservado aos imigrantes será aplicado aos desempregados, sindicalistas radicais, populações empobrecidas, manifestantes políticos, dissidentes, antimilitaristas e ativistas revolucionários.

Historicamente, as milícias surgem quando o Estado precisa recorrer à violência que não consegue justificar ideologicamente. No caso da América capitalista, essa violência é reintegrada ao Estado. A Ku Klux Klan realizava o trabalho sujo da perseguição racial à margem da lei. O ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) faz isso dentro da lei, pago e recompensado pelo Estado fascista. Sob o governo Trump, a milícia não usa balaclavas brancas nem braçadeiras paramilitares: ela ostenta um distintivo federal, tem orçamento público e age em nome da lei. É justamente isso que a torna mais formidável: o terror tornou-se sancionado pelo Estado.

A impunidade do ICE não é um escândalo para o estado pirata americano.

Trata-se de uma necessidade operacional para o capital americano em declínio, apesar de seu poder hegemônico. Um aparato concebido para aterrorizar uma população não pode ser submetido a um controle genuíno. O controle destruiria sua eficácia repressiva. O governo Trump sabe disso. Portanto, orquestra a opacidade, a proteção institucional e a irresponsabilidade criminosa.

Diante do Estado burguês fascista que governa pelo terror e pelo assassinato legalizado, a alternativa para o proletariado americano se apresenta agora de forma inequívoca: ou suportar a generalização da repressão mortal ou iniciar uma ruptura revolucionária por meio da luta anticapitalista radical. Não há uma terceira via.


https://les7duquebec.net/archives/304054

https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/do-ku-klux-klan-ao-ice-a-continuidade-244670

segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

António Galopim de Carvalho - O Estado Novo de Salazar, na memória de quem o viveu



 
* António Galopim de Carvalho


«A todos os meus amigos com os votos de um bom Doningo.

Só os portugueses e as portuguesas com mais ou menos 15 anos no dia 25 de Abril de 1974, hoje a rondarem os 65, podem ter memória crítica de algumas particularidades dos últimos estertores do Estado Novo, que viram cair. Rapazes e raparigas com menos idade, ou seja, as crianças desse tempo, talvez se lembrem de um pormenor ou outro. Assim sendo, torna-se evidente que a grande maioria dos nossos adultos no activo pouco ou nada sabem de um regime que nos privou de todas as formas de liberdade, torturou muitos de nós, durante quase meio século e que caiu de podre no dia em que os cravos floresceram nas espingardas dos soldados.

Nos anos de 1930 e 1940, os das duas primeiras décadas de consolidação do Estado Novo, Portugal viveu em situação de ditadura, distinguindo apoiantes do novo regime e oposicionistas, de entre os quais se evidenciaram, por serem publicamente conhecidos, os que “se metiam na política”, localmente referidos como sendo “os do reviralho”. Eram os da chamada oposição democrática, consentida por Salazar, com destaque para os do Movimento de Unidade Democrática (MUD). Criado em 1945, foi extinto três anos depois, em virtude do grande apoio popular que registou, agrupando muitos opositores até então isolados, entre os quais muitos intelectuais e profissionais liberais.

Outros opositores, que quase ninguém conhecia, militando na clandestinidade pelo Partido Comunista, eram activamente perseguidos, primeiro pela PVDE (Política de Vigilância e Defesa do Estado), entre 1933 e 1945, e, depois, pela sua substituta PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado). A estes opositores, os “pides” deitavam-lhes a mão, levavam-nos para Lisboa, onde os interrogavam, brutalizavam, guardando-os depois, pelo tempo que entendessem, e, em alguns casos, assassinavam. Para os localizarem e denunciarem havia os informadores, também referidos por “bufos”, uns conhecidos, outros, não, pelo que se dizia que as mesas dos Cafés, os bancos do jardim, as paredes de todo o lado e até as pedras da caçada tinham olhos e ouvidos.

Para além das restrições à liberdade e da censura, fez-se sentir, também aqui, o decreto 27 003, de 14 de Setembro de 1936, que determinava: «Para admissão a concurso nomeação efectiva ou interina, assalariamento, recondução, promoção ou acesso, comissão de serviço, concessão de diuturnidades e transferência voluntária, em relação aos lugares do estado e serviços autónomos, bem como dos corpos e corporações administrativos, é exigido o seguinte documento com assinatura reconhecida: Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas». E, mais adiante: «Os directores e chefes dos serviços serão demitidos, reformados ou aposentados compulsivamente sempre que algum dos respectivos funcionários ou empregados professe doutrinas subversivas, e se verifique que não usaram da sua autoridade ou não informaram superiormente».

Embora na letra da Constituição de 1933, figurasse o princípio da igualdade entre cidadãos perante a lei, o Estado Novo considerava a mulher como mãe, dona-de-casa e, em quase tudo, submissa ao marido. A lei portuguesa de então, designava o marido como chefe de família, sendo reservado à mulher o governo da casa, o que se traduzia pela imposição dos trabalhos domésticos como obrigação, não tendo os mesmos direitos na educação dos filhos. Não tinha direito de voto, não podia ascender a determinadas chefias nem exercer cargos na magistratura, na diplomacia e na política. Sendo casadas, as nossas mulheres perdiam o direito a intervir nas suas propriedades, não podiam viajar para fora do país sem autorização dos maridos e não podiam trabalhar sem autorização destes. O marido podia dirigir-se ao empregador declarar não autorizar a mulher a trabalhar, o que implicava o seu imediato despedimento.

Em muitos hospitais as enfermeiras podiam ser impedidas de casar. Se casassem, podiam ser obrigadas a abandonar a profissão. As professoras tinham de pedir autorização para casar, o que só era permitido se o noivo satisfizesse determinadas condições, autorização publicada e em Diário da República O divórcio era proibido, devido ao acordo estabelecido com a Concordata de 1940, numa submissão do Estado à Igreja Católica. Assim, todas as crianças nascidas de uma nova relação, posterior casamento, eram consideradas ilegítimas, não podendo ter o nome do pai, ou seja, o do companheiro.

Na orientação ideológica antiliberal e de cariz católica do ditador, a existência da mulher confundia-se com a da família, estando-lhe reservado o espaço doméstico. A Obra das Mães pela Educação Nacional, organização feminina do Estado Novo, criada em 1936, tinha por objetivo “estimular a acção educativa da família e assegurar a cooperação entre esta e a escola nos termos da Constituição” de 1933.

Nascida em 1912, como suplemento feminino do jornal “O Século” a revista semanal “Mulher – Modas & Bordados” dirigida nos primeiros tempos a uma pretensa elite feminina, fornecia-lhe conselhos nos domínios da moda, da culinária, das boas-maneiras e da beleza. Mostrou, porém, alguma preocupação de valorização da mulher, testemunhada pela publicação regular de sonetos da grande poetisa alentejana, Florbela Espanca (1894-1930), uma das primeiras mulheres a frequentar o Liceu Masculino André de Gouveia, onde permaneceu até 1912. Foi, porém, com Maria Lamas (1893-1983), opositora ao regime e feminista, na direcção desta revista que a luta contra a secundarização da mulher se fez sentir, não só em Évora, onde tinha ligações familiares, como no país.

Depois de duas décadas de confronto com o liberalismo e o republicanismo, a chamada pax salazarista proporcionou à Igreja (grandemente afectada durante a Primeira República) um terreno propício à sua reimplantação e reestruturação interna. Nestes propósitos, assumiu papel fundamental o então Patriarca de Lisboa, Dom Manuel Gonçalves Cerejeira (1888-1977), dirigindo a Igreja Católica Portuguesa durante o Estado Novo. Elevado ao cardinalato, em 1929, pelo Papa Pio XI, foi amigo íntimo e companheiro de Salazar (militante católico nos tempos da Primeira República), no Centro Académico da Democracia Cristã, em Coimbra.

Com a subida de Salazar ao poder, o cardeal Cerejeira pôde garantir, à Igreja, potecção, respeito e liberdade de acção. Estava na sua mente recuperar e salvaguardar os privilégios do catolicismo, como Igreja do Estado, afastados pela Primeira República, tendo tido papel fundamental na assinatura da Concordata com a Santa Sé, em 1940, na criação da Acção Católica Portuguesa, visando a “recristianização” da sociedade, na obrigatoriedade do ensino religioso, na abertura de novos seminários e casas religiosas, bem como no desenvolvimento da imprensa católica.

Em 1936, com Carneiro Pacheco no Ministério da Educação Nacional (anteriormente chamava-se da Instrução Pública), reforçara-se o papel da escola no controlo ideológico e orientação política dos alunos, na prevalência do livro único, no culto das virtudes nacionalistas e no elogio da vida modesta e rural. O fervor patriótico e o cunho religioso enquadrados na ideologia oficial do Estado Novo estavam diluídos nas matérias curriculares, nomeadamente, na Leitura, na História e na Geografia, no propósito de, a partir dos bancos da escola, então com início aos sete anos de idade, estimular estas virtudes nos homens e mulheres do futuro.

Nestes anos, o ensino obrigatório ainda terminava com o exame da 3ª classe (3º ano, como agora se diz), certificado pelo diploma do “Primeiro Grau”, exigível, por exemplo, para ingresso nos lugares mais humildes da função pública, no comércio, como caixeiro, nos correios, como carteiro ou boletineiro e, até, para ser eleitor. Ler, escrever e contar era tudo o que, o cidadão comum necessitava para fugir à vida do campo, ao aprendizado artesanal ou oficinal e a outros trabalhos que apenas fizessem uso da força braçal. Esta habilitação mínima vigorou até 1956. A partir de então, a escolaridade aumentou para 4 anos, apenas para os rapazes. Só quatro anos depois, esta obrigatoriedade foi decretada para as raparigas.

Na Escola Primária, a pedagogia estava na ponta da régua, versão escolar da tradicional palmatória ou menina de cinco olhos. Com algumas professoras, as reguadas estalavam nas mãos das crianças “por dá cá aquela palha”, quer por motivos de disciplina, quer por erros nos ditados, nas contas e em quaisquer outras matérias.

À margem da Escola Primária havia as chamadas “Escolas Incompletas”, criadas em 1930, mais tarde designadas “postos escolares”, com o propósito de combater o analfabetismo no seio de populações sem escola nem condições mínimas de fixar professores. Aqui o ensino era ministrado por “regentes escolares”. Na imensamente maioria mulheres, ganhavam metade do ordenado de um professor, bastava que possuíssem a 4ª, que demonstrarem ter bom comportamento moral e adesão ao regime e eram, de preferência, oriundas dos próprios locais.

A análise histórica da documentação permite verificar que, nesses anos, os professores, diplomados pelas Escolas Normais, foram sendo substituídos pelos regentes escolares, em especial nas aldeias e na periferia das cidades. A escolaridade obrigatória, como se disse, baixara para a 3.ª classe e as crianças estavam preparadas para trabalhar e ouvir o sermão do senhor padre aos Domingos.

No discurso de Salazar, proferido em 12 de maio de 1935, na sede da Liga 28 de Maio, em Lisboa, Salazar disse: Oiço muitas vezes dizer aos homens da minha aldeia, «Gostava que os pequenos soubessem ler para os tirar da enxada». E eu gostaria bem mais que eles dissessem: «Gostaria que os pequenos soubessem ler, para poderem tirar melhor rendimento da enxada»

7.12.25

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quarta-feira, 3 de dezembro de 2025

Helder Moura - (560) A apropriação do ciclo do caranguejo

  •  hélder moura
  •  03.12.25

Estes ciclos biológicos há muito que são do conhecimento e prática dos nossos mandantes como forma de conservar o poder.

É preciso mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma, C. Malaparte.

A Polícia de Cincinnati afirma que até ao final deste ano, 90% de todas as ocorrências serão primeiro atendidas por um drone.

Não nos vamos espantar quando virmos os novos drones para ambientes interiores a percorrer as nossas casas.

Em 1935, o médico, geógrafo e cientista social brasileiro Josué de Castro, publica O Ciclo do Caranguejo, onde descreve a vida de extrema pobreza de famílias que vivem num mangue da cidade do Recife, em que não tendo mais nada para comer que caranguejos aí apanhados que lhes provocam diarreia que acaba servindo para alimentar outros caranguejos que por sua vez vão servir para alimentar as famílias, num ciclo de interdependência que constitui o ecossistema do mangue.

Estes ciclos biológicos há muito que são do conhecimento e pratica dos nossos mandantes como forma de conservar o poder. Veja-se, por exemplo, o que se passa na educação, nos serviços de saúde, nas polícias, etc.: não se dão condições aos serviços para funcionarem, incentiva-se a insatisfação, propõe-se então a solução desejada, deixam de mostrar as manifestações de insatisfação, o sistema continua a funcionar.

Como variante, Estes ciclos biológicos há muito que são do conhecimento e pratica dos nossos mandantes como forma de conservar o poder.. Por exemplo, convencem-nos que é uma poupança económica dotar as forças de polícia com armamento do exército, e nós acreditamos, esquecendo que a utilização de novos armamentos e proteções implica sempre a adoção das táticas que lhes vêm associadas.

Skydio é uma empresa americana fundada em 2014 que em poucos anos passou de uma relativa obscuridade para a maior fabricante de drones nos EUA. Os seus drones quadricópteros com IA, povoam hoje os céus das cidades americanas.

De acordo com uma pesquisa efetuada por Nate Bear, nos últimos 18 meses quase todas as grandes cidades americanas assinaram contratos com a Skydio, incluindo Boston, Chicago, Filadélfia, San Diego, Cleveland e Jacksonville. Atualmente, a empresa tem contratos com mais de 800 agências de segurança em todo o país.

Os seus drones têm estado a ser utilizados pelos departamentos de polícia municipais e outros organismos (como Universidades), para recolherem informações em protestos, ajuntamentos e outros.

 Em Atlanta, a empresa fez uma parceria com a Fundação da Polícia para instalar uma estação permanente de drones dentro do Centro de Formação de Segurança Pública de Atlanta. Detroit, gastou recentemente quase 300 mil dólares na aquisição de catorze drones, de acordo com um relatório de compras da cidade. A Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA também comprou trinta e três drones capazes de rastrearem e perseguirem automaticamente um alvo.

Um porta-voz da polícia de Nova Iorque, que foi uma das primeiras a adotar os drones Skydio, declarou recentemente a um site de notícias que o Departamento de Polícia de Nova Iorque (NYPD) realizou mais de 20.000 voos em menos de um ano com 41 drones, o que significa que os drones são lançados pela cidade 55 vezes por dia.

O sistema de IA por detrás destes drones é alimentado por chips da Nvidia que permitem a sua operação sem um operador humano. Possuem câmaras de imagem térmica e podem operar em locais onde o GPS não funciona. Também reconstroem edifícios e outras infraestruturas em 3D e podem voar a mais de 48 quilómetros por hora.

Antes de março deste ano, as regras da FAA determinavam que os drones só podiam ser utilizados pelas forças de segurança dos EUA se o operador mantivesse o drone à vista. Também não podiam ser usados ​​sobre ruas movimentadas da cidade.

Mas, uma isenção da FAA emitida nesse mês, veio permitir que a polícia e as agências de segurança operassem drones para além da linha de visão e sobre grandes multidões. Sem a necessidade de ver o drone, e com os drones livres para sobrevoarem as ruas da cidade, a polícia está cada vez mais a enviar drones em vez de polícias para atender ocorrências e para fins de investigação mais abrangentes. Cincinnati, por exemplo, afirma que até ao final deste ano, 90% de todas as ocorrências serão atendidas primeiro por um drone.

Esta ampla cobertura é possível devido à plataforma de acoplamento da Skydio. Estas plataformas estão posicionadas em locais estratégicos da cidade, permitindo que os drones sejam carregados, lançados e aterrem remotamente a muitos quilómetros de distância das sedes da polícia. Após o lançamento, todas as informações recolhidas durante os voos são guardadas num cartão SD interno e enviadas automaticamente para um software específico configurado para uso policial.

 Este software é desenvolvido pela Axon, um dos principais financiadores da Skydio, e permite, segundo um comunicado de imprensa da Axon, "o envio automático de fotografias e vídeos captados por drones para um sistema digital de gestão de provas".

Acontece que a Skydio é também um grande fornecedor do Departamento de Defesa, tendo assinado recentemente um contrato para fornecer drones de reconhecimento ao Exército dos EUA. Como fornecedor significativo tanto para as forças militares como para as forças de segurança civis, isto tem levantado algumas velhas questões (sempre atuais) sobre quais são ou serão as informações partilhadas entre os militares dos EUA e as agências de segurança interna através do sistema de gestão de provas digitais da Skydio-Axon.

Se nos lembrarmos que os conflitos são sempre os grandes laboratórios para o desenvolvimento das novas tecnologias de vigilância, onde elas são testadas, e se verificarmos que neste caso da Skydio ela captou centenas de milhões de dólares de capitalistas de risco israelo-americanos bem como de fundos de capital de risco com amplos investimentos em Israel, incluindo a empresa de Marc Andreessen, a Andreessen Horowitz, e que as Forças de Defesa de Israel (IDF) têm intensivamente usado os seus drones, não nos iremos espantar quando para o próximo ano virmos novos  drones para ambientes interiores a percorrer as casas das cidades americanas (e não só).

Tudo, evidentemente, a Bem da Nação.

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quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Boaventura de Sousa Santos - O Kampf de André Ventura

Boaventura de Sousa Santos

As primeiras intervenções dos principais candidatos às eleições para a Presidência da República portuguesa em Janeiro de 2026 têm levado muita gente (muita dela, angustiadamente) a pensar que André Ventura (AV), o candidato da extrema-direita, tem possibilidades de ganhar as eleições. Para alguns, a razão principal está na mediocridade dos outros candidatos. No caso do Almirante Gouveia e Melo, o grande operacional da luta contra o COVID-19, ocorre lembrar-lhe que o país não é uma pandemia nem a política é uma questão de logística. Já tivemos um presidente Almirante (no tempo da ditadura) e já foi demasiado. Marques Mendes é uma cópia de Marcelo Rebelo de Sousa, o actual presidente. É sabido que o original é sempre melhor que a cópia. Se o cinzento falasse e lhe perguntassem a identificação, ele responderia sem hesitação: António José Seguro, apoiado pelo partido socialista. Perante isto fica a sobrar o único candidato que não quer ser Presidente, porque, como a sua aspiração é mandar e conduzir, só o cargo de Primeiro-Ministro lhe serve. Pode então correr o risco de ser eleito contra a vontade.

A primeira vez que me chamaram a atenção para AV resultou de uma observação de uma jornalista perplexa com o facto de AV citar várias vezes o meu trabalho na sua tese de doutoramento. O intrigante era o facto de ele começar a ser conhecido como a figura principal da extrema-direita enquanto eu era conhecido como um intelectual de esquerda. Haveria alguma contradição ou algum conluio? Li a tese e conclui rapidamente que era uma tese competente e que as citações estavam certas e eram pertinentes. A tese era animada por um impulso securitário, mas dentro das normas académicas. Portanto, nada a comentar. Não havia nem contradição nem conluio.

Hoje, AV é o líder da oposição, uma oposição de extrema-direita a um governo de direita. Estou convencido de que a democracia portuguesa dificilmente sobreviverá à Presidência da República de AV. Tentarei explicar porquê. As razões têm a ver com a estratégia de AV e com as condições por que as sociedades europeias vão viver nos próximos anos.

AV em acção

Não há nenhuma originalidade nem nas ideias nem na estratégia de AV. Vêmo-la hoje a ser seguida por muitos outros líderes de extrema-direita. Todos eles são cópia de um líder que também foi cópia de outros líderes do seu tempo, mas que as circunstâncias da Europa das primeiras décadas do século XX permitiram que passasse de cópia a original. Refiro-me a Adolf Hitler. Apesar de serem muitas as diferenças entre o original e as diferentes cópias, penso ser adequado estabelecer a original como termo de comparação para o que observamos hoje. Uma diferença óbvia: enquanto AV foi um aluno brilhante e é altamente credenciado, Hitler nunca concluiu nenhuma formação académica, foi rejeitado duas vezes nas escolas de arte de Viena, nunca quis ter emprego fixo e, apesar de em Viena se autodesignar como pintor, ficava possesso quando lhe perguntavam se era pintor de paredes.

Se analisarmos a conduta deste austríaco que só em 1932 se naturalizou alemão, um ano antes de se candidatar à presidência da República da Alemanha, verificamos que ele catalogou um receituário que continua hoje a ser seguido por todos os aspirantes à destruição da democracia, usando para isso todos os instrumentos que a democracia lhes proporciona. Vejamos alguns componentes desse catálogo. As citações de Hitler são dos seus muitos discursos e também de Mein Kampf [A Minha Luta], escrito em 1924 nos nove meses que Hitler esteve preso depois do fracassado golpe (Putsch) de Munique em Novembro de 1923.

Sobre a natureza humana. Desde os tempos de fome e de dormida nos abrigos municipais, Hitler aprendeu algo que viria a repetir nos seus discursos: “Tudo o que o homem conseguiu deveu-se à sua originalidade e brutalidade.” Astúcia, habilidade para mentir, distorcer, enganar, eliminar qualquer sentimentalidade ou lealdade em favor da crueldade eram os ingredientes básicos da afirmação fundamental: a vontade. A desigualdade entre os seres humanos e entre as raças é uma lei da natureza. AV não proclama o eugenismo racista, mas estabelece o portuguesismo como um privilégio a que só alguns têm acesso, sugerindo que mesmo alguns desses só são portugueses, não por pertencerem a “nós”, mas pela corrupção ou complacência de funcionários que deleteriamente destroem a “alma portuguesa”. O nacionalismo excludente serve para naturalizar a exclusão social e o colonialismo interno nos nossos dias, por exemplo nos campos da agro-indústria.

A construção de um só inimigo. É necessário eleger um inimigo apenas e centrar nele toda a crítica. Segundo Hitler, a arte da liderança consiste “em consolidar a atenção do povo contra um só adversário e tudo fazer para que nada distraia essa atenção. O líder de génio é aquele que tem a capacidade de fazer com que os seus diferentes adversários pareçam um só, pertençam todos a uma só categoria”. Para Hitler, o inimigo é o Marxismo (a social-democracia, o comunismo) e os judeus. Não são dois inimigos, são um só. Num discurso em 27 de Fevereiro de 1926, Hitler afirmou “Se necessário, um só inimigo significa vários inimigos”. Esse inimigo é responsável por todos os males da sociedade. A rendição (traição) da Alemanha em 1918 e todo o desastre socioeconómico e político que se lhe seguiu na República de Weimar foi obra do mesmo inimigo. Esse inimigo conspira contra a sociedade, não apenas pelo que faz, mas também pelo que é. É uma raça inferior. Os judeus não são seres humanos; são a incarnação do mal. Por isso, não há nacionalismo sem racismo.  Hoje, como sabemos, o inimigo de eleição é a esquerda e os imigrantes. Parecem dois inimigos, mas são um só.

O principal inimigo é o inimigo interno. A Alemanha tinha perdido a Primeira Guerra Mundial porque não se tinha sabido sobrepor aos seus inimigos. Para Hitler, a Alemanha não perdeu a guerra, o exército, a que pertenceu como sargento, manteve a sua integridade. A Alemanha foi atraiçoada pelos inimigos internos que provocaram a sua rendição. No discurso de Fevereiro de 1926, Hitler invoca o passado glorioso do império e das colónias alemãs para concluir que os males que sobrevieram foram devidos aos revoltosos internos. “Esses não eram cidadãos; eram escumalha, uma escumalha de traidores”. Nos anos que se seguiram ao fim de guerra, a militância política do operariado comunista era intensa e exprimia com violência o mal-estar do país. Era reprimido com maior violência ainda, tanto por forças de direita, como pelos socialistas. Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht foram assassinados em 1919 com a cumplicidade do governo socialista. Falou-se então da fracassada revolução alemã (1918-1923). Foi nesse contexto, que Hitler soube substituir o ódio de classe pelo apelo à cidadania racista.

 Hoje, para a extrema-direita portuguesa, o 25 de Abril foi uma capitulação evitável e o que se seguiu foi um desastre provocado por “gente” como Otelo Saraiva de Carvalho, Álvaro Cunhal ou Mário Soares que, entre outras coisas, escancararam as portas do país à invasão de estrangeiros que vieram pôr em perigo a integridade do país.

A solidariedade negativa. A unidade e o consenso que se promovem visam destruir o status quo – o sistema. Não há que perder tempo em elaborar soluções alternativas porque estas emergirão espontaneamente, uma vez destruído o inimigo. A união é para destruir, nunca para construir, porque só a necessidade da destruição é “óbvia”. A construção exige compromissos que devem ser mantidos na obscuridade, na ambiguidade e na conveniência do momento para conquistar o poder. Para Hitler, o importante não era o programa, mas a imagem. Em 1920, o programa do partido agradou a toda a gente, excepto aos judeus, aos capitalistas e aos que tinham ganho fortunas com a guerra. O objectivo central era mobilizar a insatisfação popular com o status quo. O importante era declarar a sociedade doente, não entrar em detalhes sobre o que seria uma sociedade saudável.

A unidade negativa deve ser tão forte quão importante é o que há a destruir.  Para isso é necessário construir o passado recente como um desastre e dramatizar sem nuances a sua dimensão, de modo a que a gravidade da situação seja considerada irremediável dentro do sistema político presente. A Alemanha não perdeu a guerra; os traidores fizeram com que ela se rendesse e se humilhasse como nação com o Tratado de Versalhes e as condições que lhe foram impostas. Compare-se hoje com o “desastre do 25 de Abril” e “toda a bandalheira de esquerda que se seguiu” (André Ventura).

A democracia é apenas um meio para atingir outros fins. Desde os tempos de Viena, Hitler cultivou um desprezo total pela democracia, pela liberdade de expressão, pela liberdade de imprensa, pelo parlamento etc. Dedicou quinze páginas de Mein Kampf para demonstrar que “a maioria representa apenas a ignorância e a cobardia… a maioria nunca pode substituir o homem”. Trata-se do homem forte que conduz as massas, elimina a corrupção e devolve a auto-estima ao país.

Temos ouvido a multiplicação retórica do homem forte como a necessidade urgente do país. Precisaríamos de “três Salazares”, um político que, aliás, nunca teve interesse em entusiasmar as massas e as conduzir. Não qualquer homem forte, mas aquele capaz de “pôr a casa em ordem”. E para que ninguém se ofenda com a referência ao passado ditatorial, mencionam-se outros homens fortes recentes que a esquerda portuguesa “normalizou”: Otelo Saraiva de Carvalho e Álvaro Cunhal. Porque o importante é a repetição do preconceito, não interessa saber que Otelo contribuiu decisivamente para o derrube da ditadura salazarista, que cometeu erros e que pagou caro por isso, enquanto Cunhal passou onze anos na prisão (oito dos quais em isolamento) pela sua luta contra a ditadura.

Hitler usou os meios legais e democráticos enquanto estes lhe ofereceram melhores oportunidades para vencer os seus inimigos. Aliás, a legalidade é uma arma ideal quando se usa para desarmar os democratas: os processos legais são lentos e com isso dão mais tempo ao tempo rápido da conquista do poder. O uso instrumental da legalidade significa, por outro lado, que ela deve ser descartada na medida em que atrapalhar.

Segundo uma sua militante, há uma “balbúrdia jurídica em que vive o Chega”, o partido de AV. Deve entender-se que essa “balbúrdia” é intencional porque o sistema judicial que a avaliar levará o tempo processual necessário até eventualmente deixar de ter efeito útil.

Controle absoluto sobre o partido. A ascensão política de Hitler foi um processo longo e tortuoso, desde a entrada no Partido dos Operários Alemães de Anton Drexler até chegar ao líder incontestado do Partido Nacional Socialista (o partido nazi). A sua notável persistência foi o seu maior segredo ante o desprezo ou a indiferença de muitos. Habituou-se a testar os seus argumentos em infindáveis reuniões nas cervejarias de Munique. A sua política começou por ser a política da rua. Mas desde cedo se convenceu de que o líder não deve tolerar divergências internas porque elas dão armas a um inimigo já de si muito poderoso. Depois do fracassado Putsch de Munique em 1923 e da prisão de Hitler, o Partido Nacional Socialista ficou reduzido a muito pouco. No norte da Alemanha e na Renânia, o partido era dominado pelos irmãos Strasser e, na concepção destes, as duas bandeiras principais do partido eram o anticapitalismo e o nacionalismo, e eram igualmente prioritárias. As tensões com Hitler eram evidentes, uma vez que Hitler pretendia uma aliança com o capitalismo. Nessa altura (1925-26), os Strassers tinham contratado um jovem que ainda não tinha 30 anos para as tarefas de propaganda. Chamava-se Paul Josef Goebbels. A tensão com Hitler era tão grande que o jovem Goebbels chegou a pedir a expulsão do partido do “pequeno burguês”. Hitler manobrou o partido, em parte recorrendo aos seus indiscutíveis dotes de orador. Pouco tempo depois, Goebbels passou-se para o lado de Hitler depois de o ouvir num discurso inflamado durante duas horas. Alguns anos depois os irmãos Strasser foram expulsos do partido. Em 1926, Hitler instituiu a Uschla (Comité para a investigação e resolução) que pôs ao seu serviço para manter o controle total sobre o partido. O outro lado do controle total do partido é o carácter excepcional do líder. Hitler cultivou a sua excentricidade, o exagero e a surpresa do seu comportamento. O poder à parte só pode vir de um ser à parte.

A trajectória de AV e o modo como tem gerido as divergências dentro do partido mostram como ele se julga (e efectivamente está) muito acima da média dos seus correligionários. A sua excentricidade e os seus excessos de linguagem são calculados ao milímetro.

Não há verdade nem mentira. Há a repetição do que nos convém até que seja verdade. Uma das maiores aprendizagens de Hitler foi aprender a mentir com convicção. Exerceu-a durante toda a vida. No final, foi-lhe fatal. Levou-o ao suicídio. Para Hitler, o exercício da força física, apesar de fundamental, nunca é suficiente se não for acompanhado pela força espiritual. Escreveu ele: “A força que combate um poder espiritual permanece como força defensiva se os que a detêm não são também os apóstolos de uma nova doutrina espiritual”. Quando se mente deve dizer-se grandes mentiras. Escreveu: “uma mentira grosseiramente impudica deixa sempre rastro mesmo depois de ser denunciada”. O colapso de uma nação só pode ser evitado por uma “tempestade de brilhante paixão, mas só os apaixonados são capazes de despertar a paixão dos outros”.

Quem já ouviu AV certamente sentiu isso.

De bem com as massas e com o dinheiro. Hitler sempre cultivou um desprezo enorme pelas “massas”. As “massas” tinham sido a sua companhia em Viena e a falta do que Hitler julgava ter (cultura) tornava-as repugnantes a seus olhos. Escreveu em Mein Kampf : “Não sei o que mais me repugnou naquele tempo: a miséria económica dos meus companheiros, a rudeza da sua moral e dos seus costumes ou o baixo nível da sua cultura intelectual”. Odiava toda a ideologia do operariado: desprezo pela nação e pela pátria, pelo direito, pela religião e pela moral. Segundo ele, o pobre operariado tinha sido envenenado pela doutrinação dos socialistas que exploravam para seu benefício as difíceis condições em que os operários eram forçados a viver.

Hitler escreveu: “Ser um líder significa ser capaz de mover as massas”. Mas também anotou: “Aprendi que as massas só são atraídas por quem é forte e intransigente…Não sabem como fazer uma escolha liberal e tendem a sentir que foram abandonados… Também cheguei à conclusão de que a intimidação física é importante tanto para as massas como para os indivíduos …O poder das massas para compreender é fraco. Por outro lado, elas esquecem rapidamente. Sendo assim, a propaganda eficaz deve limitar-se a necessidades básicas e exprimir-se em poucas fórmulas estereotipadas”.

Se as massas significavam votos, o dinheiro era fundamental para alimentar a propaganda e manter a organização. Por isso, Hitler quis sempre ser todas as coisas para todos aqueles que via como instrumentos para atingir o poder. Por isso, arreou a bandeira do anticapitalismo e enviou Goering para Berlim a fim de estreitar os laços com o grande capital. Em 1929, Hitler já era saudado pelo grande capital e pela grande indústria que via nas suas qualidades de agitador o futuro que mais convinha ao capital numa situação de crise, uma política antidemocrática e anticlasse operária.

Certamente serão os portugueses mais vulneráveis ou mais ressentidos com as ameaças de descer de classe que encherão as urnas de votos no Chega, mas não serão eles que pagarão os custos de uma organização que exibe tamanha abundância de propaganda, tanto no mundo tradicional da publicidade, como no mundo novo das redes sociais.

Se as condições do povo melhoram, nega-se esse facto ou declara-se que é precário e vai durar pouco tempo. O projecto de Hitler beneficiou de condições iniciais muito especiais. Quando, em 1923, um país humilhado pelas condições da rendição que lhe tinham sido impostas se declarou impossibilitado de continuar a pagar as indemnizações de guerra, a França ocupou a rica região do Ruhr, o coração energético e industrial da Alemanha. Para além da humilhação, degradou-se ainda mais a situação económica. A desvalorização do marco aumentou, e, com ela, aprofundou-se a crise económica, o desemprego e o desespero de milhões de trabalhadores e suas famílias. Hitler aproveitou astutamente todos os elementos desta crise, juntando-os num só diagnóstico contra um só inimigo. Em 1923, 30% dos membros do partido estavam desempregados. A sua leitura manteve-se inflexível: “Enquanto a nação não se livrar dos assassinos dentro das suas fronteiras, nenhum êxito externo será possível”. O ódio de Hitler, em vez de se dirigir aos franceses, dirigia-se ao bando corrupto que governava o regime. Este foi o contexto que levou ao golpe de Munique. No tribunal, Hitler assumiu toda a responsabilidade, mas acrescentou: “não sou por essa razão um criminoso. Se hoje estou aqui como revolucionário é porque sou um revolucionário contra a Revolução. Não existe alta traição contra os traidores de 1918”. E os traidores são sempre os mesmos: socialistas, comunistas e judeus.

A partir de 1925, as condições da Alemanha começaram a melhorar e a Alemanha foi admitida na Liga das Nações (1926) (da qual saiu dez anos mais tarde por decisão de Hitler). As profecias do apocalipse e do desastre iminente deixaram de ser eficazes. A partir de então, Hitler passou a insistir no carácter precário e passageiro das melhorias. Por puro instinto de propaganda, esta era a melhor maneira de persistir na sua caminhada para o poder. A Grande Depressão de 1929 viria a dar-lhe razão.

As circunstâncias epocais

Os líderes de extrema-direita criam muita realidade artificial, mas fazem-no, em geral, a partir de fragmentos da realidade real. Há circunstâncias que favorecem o salto autoritário e há condições que, pelo contrário, o impedem. A partir de 1924, a Alemanha começou a recuperar e, como vimos, Hitler sentiu que era necessário assumir posições mais centristas. Talvez tudo ficasse por aí se, entretanto, não ocorresse a Grande Depressão de 1929. O desemprego massivo, a proliferação das greves, em suma, a profunda crise social que se seguiu foram o grande impulso para a clarificação e ressurgimento do partido. Ao mesmo tempo que as milícias do partido (as SA, Sturmabteilung) faziam agitação social, Hitler declarava-se contra as greves para não perder o apoio dos grandes capitalistas que já então assegurara. Quando em 1930, Strasser, líder da ala radical do partido, lhe perguntava (pouco antes de ser expulso do partido) se, no caso de conquistar o poder, nacionalizaria o grande grupo capitalista Krupp, Hitler respondeu-lhe: “Claro que o deixaria em paz. Julgas que eu seria louco ao ponto de destruir a economia do país?”. Pouco depois, Goebbels escrevia, “não somos contra o capitalismo, somos contra o seu abuso…Para nós a propriedade é sagrada”. Em Setembro de 1930, o partido Nazi, para espanto do mundo, tinha um êxito eleitoral estrondoso. Depois, foi o tapete vermelho que conhecemos. Primeiro, o vermelho da glória; depois, o vermelho do sangue inocente de milhões.

A democracia portuguesa não corre neste momento nenhum perigo existencial, mas os tempos que se avizinham não auguram nada de bom para o mundo, para a Europa e, portanto, para Portugal.  O crescimento global da extrema-direita é um sintoma (não a causa) do que está para acontecer. Não vou aqui discutir a questão mais geral da incompatibilidade entre o capitalismo (assente na acumulação capitalista infinita) e a democracia (assente no princípio da soberania popular). Limito-me a afirmar que o neoliberalismo (a versão globalmente dominante do capitalismo desde a década de 1980) tem vindo a destruir tudo o que na democracia significava bem-estar e segurança humana (viver sem medo e sem carências básicas) para as grandes maiorias (digamos, sem excesso de rigor, para as classes populares). Essa destruição está a atingir limites que se expressam na passagem do Estado de bem-estar para o Estado de mal-estar. É dessa passagem que a extrema-direita se alimenta.

As respostas dos governos do arco da governação (direita, centro e centro-esquerda) não se têm oposto a esta destruição e procuram responder ao mal-estar com medidas repressivas, em vez de medidas que garantam a reposição do bem-estar. Como mostrei, a repressão e a solidariedade negativa são o DNA da extrema-direita e por isso não admira que ela cresça menos pelo seu mérito do que pelo demérito das forças que se lhe deviam opor. Esta últimas “esqueceram-se” que sem tributação progressiva não há o bem-estar social relativo no capitalismo. Esqueceram-se de que no imediato pós-guerra os rendimentos mais altos chegaram a ser tributados em mais de 80% e nem por isso ficaram pobres ou deixaram de continuar a prosperar. Esqueceram-se de que sem políticas públicas sociais de qualidade (educação, saúde e pensões e transportes) não é possível garantir o bem-estar das populações, e que essa garantia em caso algum pode ser dada pelo sector privado, cujo objectivo legítimo é acumular riqueza, não distribuí-la.

A democracia tem vindo a ser desfigurada e substituída por um novo tipo de regime, o autoritarismo eleitoral vigente em países tão diferentes como a Índia, a Rússia, os EUA, a Turquia, El Salvador e a Hungria. A extrema-direita prefere o autoritarismo eleitoral à ditadura por um simples cálculo político: é aparentemente mais legítimo, sobretudo num mundo ainda bem lembrado das ditaduras. Mas para se manter este regime tem de desviar a atenção das verdadeiras causas do mal-estar (um capitalismo em grande medida auto-regulado, sobretudo no sector financeiro), transformando consequências em causas. A imigração é hoje o caso paradigmático desta transformação. Mas, como dizia Hitler, o uso da repressão nunca é eficaz se não for animado por um desígnio espiritual, seja ele Make America Great Again (MAGA) ou o orgulho de ser português e cristão. A corrupção é o outro caso de transformação de consequências em causas. A corrupção é endémica ao neoliberalismo porque este assenta na promiscuidade entre o mercado dos valores políticos (que não se compram nem se vendem) e o mercado dos valores económicos (os valores que têm preço e que se compram e se vendem). Viola assim o princípio central da teoria da democracia liberal desde John Locke que propunha a separação total entre os dois mercados de valores. A corrupção é, assim, tão endémica ao neoliberalismo quanto a luta contra ela.

O importante é que se ocultem as verdadeiras causas do mal-estar da população: sejam elas o aumento do custo de vida, a estagnação dos salários e a asfixia do poder sindical, o aumento do custo da habitação que pode consumir mais de metade do rendimento familiar, a liberalização escandalosa do preço dos medicamentos, que se tornam progressivamente inacessíveis, sobretudo a doentes crónicos.

No actual tempo europeu inventaram-se dois inimigos para distrair a atenção dos problemas reais. O inimigo interno é o imigrante, sobretudo se for islâmico; o inimigo externo é a Rússia. Nenhum europeu é capaz de imaginar a vida no seu país sem a participação dos imigrantes. Nenhum cidadão europeu é capaz de ver na Rússia uma ameaça, sobretudo se se lembrar que a Rússia foi invadida duas vezes por europeus (Napoleão e Hitler) e nunca se propôs invadir a Europa. A invasão da Ucrânia tem razões históricas antigas e recentes. É condenável a todos os títulos, mas não significa a invasão da Europa. Hoje, os europeus sabem que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia podia ter terminado três meses depois de ter começado se os EUA e os seus lacaios (Boris Johnson, aparentemente bem pago para isso) não tivessem impedido a assinatura do acordo de paz praticamente concluído. Os europeus sabem hoje que o objectivo da guerra foi inicialmente duplo. Por um lado, visou amputar a Europa de uma das suas regiões, a Rússia, com o fim de impedir o acesso da Europa à energia barata vinda da Rússia e com isso acelerar o declínio e a dependência da Europa em relação ao império declinante dos EUA. Por outro lado, visou bloquear o acesso da China à Europa e ao mundo ocidental por via da Rússia.

Mais tarde, os empresários da guerra, os lobistas da indústria de armamento, com as suas embaixadas em Bruxelas, convenceram uma classe política medíocre e ignorante a promover a guerra por sua própria iniciativa. Esta classe política nem sequer se deu conta de que todos os benefícios iriam para a indústria norte-americana, enquanto os custos recairiam exclusivamente sobre os europeus. De repente, os europeus ouviram os seus líderes a falar de guerra como se fosse a mais importante missão política dos próximos anos. Os europeus mais velhos lembram-se do passado recente e perguntam-se perplexos e impotentes. A Europa ocidental foi, depois da Segunda Guerra Mundial, o grande promotor global da paz, tendo intermediado activamente a resolução de várias guerras locais. Foi o berço do grande movimento pela paz. Mais tarde, assumiu pioneirismo na preocupação ecológica e foi o berço do movimento ecologista global. Como é que, de repente, desaparecem tanto o movimento pela paz como o movimento ecológico, e a Europa passa a ser um continente em guerra contra uma ameaça que só a classe política vê?

A invenção dos inimigos é, assim fundamental para ocultar a grande causa do mal-estar dos europeus nos próximos anos: os orçamentos militares aumentam à custa da diminuição das políticas sociais. Os políticos europeus viram-se “forçados” a mentir aos seus cidadãos. Quando estes se derem conta, haverá agitação social e a resposta será repressiva, uma vez que, neste sistema, não é possível outra resposta. Por isso, quem se diz contra o sistema é quem mais investe na vigência integral e, portanto, repressiva deste sistema. Mente duplamente, e é por isso que a sua mentira se confunde tanto com a verdade.

Neste contexto, surge uma preocupação especificamente portuguesa. Portugal é um dos países europeus com menos tradição democrática. É também um dos países com mais desigualdade social e maiores índices de pobreza. A combinação destas duas condições torna Portugal uma presa fácil de qualquer demagogia de extrema-direita. A democracia sobreviverá? Bastará a sua transformação num autoritarismo eleitoral?

A história não se repete. Isto não quer dizer que os ecos do passado não nos soem estranhamente familiares. Nem as diferenças nem as semelhanças são pura coincidência.

https://aviagemdosargonautas.net/2025/11/13/o-kampf-de-andre-ventura-por-boaventura-de-sousa-santos/

sábado, 11 de outubro de 2025

Flávio Almada - Reflexão “Erradicar a Cova da Moura”


Militarizar as subjetividades significa implodir todos os vínculos possíveis de solidariedade, pois estamos numa guerra de todos contra todos. A candidata da coligação PSD/CDS à Câmara da Amadora, Suzana Garcia, acompanhada pelo dirigente do PSD e ministro das Infraestruturas e Habitação, Miguel Pinto Luz, durante uma visita à Cova da Moura, na Amadora, 1 de Setembro de 2025 (fotografia de José Sena Goulão/Lusa)

Reflexão “Erradicar a Cova da Moura”: entre o léxico do genocídio e a militarização das subjectividades

No passado dia 25 de agosto de 2025, a candidata à Câmara Municipal da Amadora Suzana Garcia afirmou já ter um programa elaborado com o Ministério das Infraestruturas para a “erradicação da Cova da Moura”. Para além de “vou mesmo erradicar aquilo tudo”, a higiene urbana que considerou na sua linguagem – “um dos piores cancros da cidade” – também faz parte das prioridades da candidata, apoiada pelo PSD, CDS, PPM, RIR e MPT.

No dia seguinte, o Ministério das Infraestruturas e Habitação desmentiu a candidata do PSD, negando a existência de qualquer acordo relativamente à  “erradicação” da Cova da Moura.

No entanto, Miguel Pinto Luz, o ministro que desmentiu Susana Garcia, marcou presença na campanha eleitoral desta candidata no dia 1 de Setembro. Uma visita que era para ser na Cova da Moura, mas não saiu do parque de estacionamento, localizado fora do bairro, junto ao Polidesportivo.

Seguindo, antes mesmo da candidata Susana Garcia, o partido fascista Chega espalhou diversos outdoors em toda a Amadora, apresentando a imagem do seu candidato à Câmara Municipal, Rui Paulo Sousa, ao lado de André Ventura.

A maioria desses outdoors está localizada nas entradas dos bairros habitados maioritariamente por pessoas racializadas, empobrecidas e economicamente mais vulneráveis, ostentando a seguinte inscrição: “vamos limpar a Amadora“. 

Em sequência, Rui Paulo Sousa expressou a mesma opinião, com a seguinte declaração na sua página do Facebook: “Vamos limpar a Amadora da bandidagem, da violência gratuita e devolver o município aos Amadorenses de bem!”.

Perante tudo isto, propomo-nos aqui fazer algumas considerações.

Em primeiro lugar, é preciso dizer que não existem “barracas” no bairro Alto da Cova da Moura. Isto revela, já em si, que o teor da linguagem utilizada procura ludibriar a mente milhares de pessoas que vivem atarefadas, na batalha pela sobrevivência e a dos seus filhos que desconhecem a Cova da Moura.

É preciso também dizer, pelo que sabemos à data [1 de Setembro], que não houve nunca nenhuma conversa entre a Suzana Garcia e os moradores da Cova da Moura, o que revela o hábito do paternalismo racista de quem se sente no direito de decidir o futuro de milhares de pessoas, sem que estas tenham uma única palavra a dizer sobre as suas vidas.

Tanto Suzana Garcia, como Rui Paulo Sousa deram grandes dentadas aos discursos coloniais dos séculos passados, conjugando romantismo nacionalista com visões teleológicas da história,  prognosticadoras da realização dos destinos da nação e da raça, sob a incumbência de um suposto trabalho sacrificial de salvar e expiar os males do “indígena”.

Expressões como “limpar a Amadora” ou “erradicação da Cova da Moura” revelam com notável clareza como a linguagem zoológica está presente, geralmente, no discurso da direita e da extrema-direita, relativamente aos imigrantes, pessoas racializadas e pobres, inserindo-se naquilo que Frantz Fanon chamou de “vocabulário colonial”.

São discursos higienistas que associam a Cova da Moura, os bairros empobrecidos e racializados aos corpos patogénicos. Só faltava recomendar abertamente a pulverização de antiparasitários e outros químicos para extirpar os vetores das doenças.

Em segundo lugar, embora possa parecer estranho (e em verdade não deveria ser), mas insinuar “limpar Amadora” e/ou “vou mesmo erradicar aquilo tudo” indiciam que os efeitos do genocídio em curso na Palestina já se fazem sentir em Portugal, quando olhamos para a carga semântica das expressões e dos léxicos supracitados.

Quanto a nós, essas expressões ecoam com “limpar Gaza”, pronunciado pelo fascista e narcisista Donald Trump, ou “Gaza deve ser terraplenado”, dito pelo fascista ministro israelita Bezalel Smotrich e outros nazi-sionistas de Israel que neste preciso momento prosseguem com o genocídio, em livestream, sobre o povo palestiniano.

Importa enfatizar que Susana Garcia fez um vídeo intitulado “Vamos erradicar a Cova da Moura” onde aparece a conduzir um buldózer, numa sequência de imagens das casas da Cova da Moura, afirmando: “estou aqui para arrasar com o clandestino […]

Esse vídeo remeteu-nos para o genocídio que está em curso na Palestina, conduzido pelo macabro estado de Israel, com a cumplicidade do Governo português.

Em Gaza, para quem não sabe ou finge não saber, os buldózeres foram transformados pelas Forças de Defesa de Israel (IDF) num instrumento de destruição em massa. Em particular, os D9s, fornecidos pela empresa norte-americana Caterpilar, foram blindados e equipados com metralhadoras e espingardas. E inclusive houve ofertas de emprego aos condutores de buldózeres para a demolição de Gaza e cujo valor oscilava entre 800 e 1000 euros, por dia.  

O nazi-sionista Rabbi Avrahma Zarbiv, da Brigada Givati das Forças de Defesa de Israel, por exemplo, tornou-se numa celebridade quando admitiu numa entrevista para uma televisão israelita que, como condutor de um D9, demoliu 50 edifícios por semana em Gaza, entre os quais hospitais, escolas, casas particulares, centros de ajuda humanitária e outras infraestruturas da Palestina.

Foram essas razões que levaram a organização The Hind Rajab Foundation (HRF) a pedir a sua prisão imediata por violações graves da Convenção de Genebra de 1949 e do Estatuto de Roma de 1998.

Ademais, o atual genocídio na Palestiniana configura-se (para a história do presente e a memória da geração futura) como o primeiro genocídio em livestream. Isto é, vê-se em direto e em qualquer parte do globo na televisão, nos jornais, nos telemóveis, o que demonstra que o mundo está submetido a um experimento: a industrialização da chacina, a espetacularização da violência sanguinária, o genocídio difundido ao vivo e cuja indignação, salvo raras exceções, deixa muito a desejar.

Numa entrevista no Sumud Podcast, a psiquiatra e psicanalista palestiniana Samah Jabr disse o seguinte: “o que está a acontecer na Palestina e o facto de ser televisionado, o facto de a lei internacional e os direitos humanos não conseguirem parar esta carnificina, está a abalar a crença de muitas pessoas à volta do mundo na humanidade. Isto é traumatizante para além das fronteiras da Palestina ocupada. Não apenas na violência, no silêncio, no choque, na cumplicidade internacional – não diria da comunidade internacional, mas na cumplicidade essencialmente do Ocidente, na cumplicidade dos Estados Unidos, dos Britânicos e no silêncio de muitos países europeus e africanos. O facto de os instrumentos que foram criados para prevenir as atrocidades humanas e o genocídio não se aplicarem aos palestinianos e tornaram-se disfuncionais, isto está a abalar o sistema de crença de muitos grupos vulnerabilizados em todo o mundo”.

Samah Jabr alerta-nos que a naturalização da violência absoluta, despersonalização do povo palestiniano, cujo níveis de ilegalidades e indiferençaseriam inaceitáveis em outra situação, terá a  longo prazo os seus efeitos nefastos.

E podemos dizer que já o sentimos por essas bandas em coisas que apenas os fascistas segredavam baixinho nos seus grupelhos, nas caixas de comentários de internet, mas que hoje são ditas como se fossem normais, inclusive com direito a entrevista no horário nobre da televisão.

Em terceiro lugar, essas duas campanhas fazem parte do projecto neoliberal segundo o qual é preciso fazer uma cruzada de um nós, que invoca o espectro da raça (com todos os seus delírios e fantasias que vêm no pacote), contra eles, instalando o medo, a desconfiança e, consequentemente, “a militarização das subjectividades”.

A militarização da subjetividade tem como objetivo principal “naturalizar a paranoia como modo geral de socialização. Ou seja, construir subjetividades a partir de narrativas de complô dos mais improváveis, das lutas contínuas contra inimigos sempre inesperados, de preservação de fronteiras, dos riscos de contágio e de contato. O que por sua vez pede um modelo de personalidade rígida, fixa, como uma ‘tipologia’.

Trata-se de uma tática que reforça o individualismo inculcado na sociedade, estimulando o princípio salva-se quem puder, cada um faz por si, cada um sabe de si, do qual as indústrias culturais nos acostumaram.

Militarizar as subjetividades significa também implodir todos os vínculos possíveis de solidariedade, pois estamos numa guerra de todos contra todos, que pode inclusive receber nomes como “empreendedorismo”.

Isto acontece porque estamos perante uma crise do capital que exigiria que houvesse uma transformação profunda das condições que geram essas múltiplas crises sistémicas – políticas, ecológicas, económicas, sociais e até de ideias.

Com efeito, como escreveu Vladimir Safatle a propósito do fascismo, a gestão dos problemas “consiste em dizer, nas entrelinhas: não há́ como gerir mais as crises do sistema capitalista a partir do próprio sistema capitalista. No entanto, como não há́ outra alternativa possível, o que resta é salvar uma parte da sociedade e deixar o resto perecer, expulsar o resto de nossas fronteiras, deixá-los na mais absoluta miséria, submete-los a máxima espoliação através do aumento exponencial da violência policial, da precariedade de suas vidas.

Essa política identitária procura inculcar ou/e mobilizar o imaginário racista e classista, que remonta à época colonial, oleada pela atual maquinaria neoliberal.

 

E, com efeito inventar ou/e reatualizar a figura de um inimigo interno, neste caso a Cova a Moura, historicamente criminalizado, para ser usado como bode expiatório, ao qual é atribuído a paternidade dos problemas sociais.

Isto é, camufla-se, portanto, os verdadeiros motivos das frustrações das pessoas da Amadora que trabalham, arduamente, mas que estão cada vez mais empobrecidas, sufocadas pelo aumento estrondoso das rendas e dos bens essenciais de alimentação, culpabilizando outros pobres.

Em quarto lugar, “erradicar a Cova da Moura”,  tal como Suzana Garcia propala, é uma operação que esconde os verdadeiros propósitos e interesses: realizar o antigo desejo das imobiliárias que há décadas cobiçam os terrenos da Cova da Moura.

Pois, os terrenos da Cova a Moura são valiosos devido à localização – perto do centro da cidade – com vias de rápido acesso às autoestradas para sul e norte do país, existência de transportes próximos (autocarros, comboios e metro com a estação da Reboleira), aeroporto, praias, sem esquecer a sua bela vista.

Uma vez que a turistificação, a colonização do espaço pelo capital, transformou Lisboa numa cidade-hotel, expulsando quem não tem dinheiro para as periferias das periferias, a Cova da Moura tornou-se ainda mais apetecível às classes médias e às empresas imobiliárias.

E aos olhos da Susana Garcia e dos seus avatares políticos, os moradores da Cova da Moura serão meros objetos e espetadores da “erradicação”. Ela está redondamente enganada.

Para fechar, aproveitamos para lembrar que a Suzana Garcia terá de mostrar onde há barracas na Cova da Moura. Essa distorção do real só comprova que ela não conhece sequer o lugar sobre o qual fala e quer governar.

https://lisboaparapessoas.pt/2025/10/08/erradicar-cova-da-moura/