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segunda-feira, 3 de março de 2025

Ron Garan e o “Efeito da Visão Geral”



Astronauta que passou 178 dias no espaço revela "grande mentira" que percebeu ao ver a Terra.

Ron Garan, ex-astronauta da NASA, passou 178 dias no espaço e acumulou mais de 114 milhões de quilômetros viajando em 2.842 órbitas ao redor da Terra. Sua jornada, no entanto, não foi apenas sobre números impressionantes. Durante uma dessas viagens, ele experimentou algo que poucos humanos já vivenciaram: o chamado Overview Effect, um fenômeno que transforma a maneira como enxergamos nosso planeta.

O Overview Effect — ou “Efeito da Visão Geral” — é um choque de realidade comum entre astronautas. Ao observar a Terra do espaço, eles percebem, de forma visceral, que o planeta é um sistema único, frágil e interconectado. Para Garan, essa experiência foi tão marcante que ele a descreve como um “grande despertar”. Em entrevista ao site Big Think, ele revelou: “Certas coisas se tornam inegavelmente claras quando você está lá em cima”.

De sua janela na Estação Espacial Internacional, Garan testemunhou fenômenos naturais de tirar o fôlego: tempestades com relâmpagos que pareciam flashes de paparazzi, auroras boreais dançando como cortinas brilhantes e a atmosfera terrestre, tão fina que “dava para quase tocar com as mãos”. Mas foi a finura dessa camada que o deixou em alerta. “Percebi que tudo o que mantém a vida na Terra depende de uma camada frágil, quase como papel”, explicou.

A atmosfera, com seus poucos quilômetros de espessura, é o que protege todas as formas de vida das condições hostis do espaço. Para Garan, essa visão evidenciou um paradoxo: enquanto a biosfera é vibrante e cheia de vida, os sistemas humanos tratam o planeta como um “subsidiário da economia global”. Em outras palavras, priorizamos o crescimento econômico em detrimento dos sistemas naturais que nos sustentam. “Estamos vivendo uma mentira”, afirmou.

O astronauta também destacou como problemas como aquecimento global, desmatamento e perda de biodiversidade são tratados como questões isoladas, quando, na verdade, são sintomas de um problema maior: a desconexão humana com o planeta. “Do espaço, fica claro que não nos vemos como parte de um todo. Enquanto não mudarmos essa mentalidade, continuaremos em crise”, disse.

A solução, segundo Garan, está em uma mudança radical de prioridades. Em vez de pensar em “economia, sociedade, planeta”, devemos inverter a ordem: “planeta, sociedade, economia”. Essa simples troca reflete a necessidade de colocar a saúde do meio ambiente como base para todas as outras decisões. “Só assim evoluiremos de verdade”, argumentou.

Outro ponto crucial é a interdependência. Garan comparou o Overview Effect a “uma lâmpada que se acende” — uma epifania sobre como cada ação humana, por menor que pareça, afeta o equilíbrio global. “Não teremos paz na Terra até reconhecermos que tudo está interligado”, afirmou.

Desde que retornou à Terra, Garan dedica-se a projetos que promovem sustentabilidade e cooperação global. Sua mensagem é clara: precisamos urgentemente repensar nosso lugar no mundo. E você, já parou para imaginar como seria ver a Terra dessa perspectiva? Enquanto isso não acontece, a visão de Garan nos lembra que cada escolha — do consumo de energia ao uso de recursos — é um passo para preservar (ou destruir) essa “casca” delicada que chamamos de lar."  

https://www.facebook.com/photo/?fbid=1286894222597410&set=a.223657902254386

sábado, 7 de maio de 2011

Mia Couto. "O Brasil vai ser a nossa estrela guia"

por Pedro Vaz Marques, Publicado em 06 de Maio de 2011   
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O escritor acha que a grafia é uma distracção, a crise uma oportunidade e o clima está fora do nosso alcance
É um dos escritores de língua portuguesa com maior destaque a nível mundial. Pensa que a nossa língua é o nosso maior bem?
Não sei muito bem. Acho que nós provavelmente glorificamos e veneramos esta entidade a que chamamos língua portuguesa. Ela existe num contexto de história, de partilha de saberes, de partilha de culturas, de histórias com "h" minúsculo que me parece que não podem ser separadas. Normalmente, pensamos neste entidade como um corpo que depois se autonomiza e é tratado por linguistas e é objecto de acordos e desacordos. Acho que essa fusão de pequenas histórias, de coisas, vai para além desse corpo a que chamamos língua. É uma carga de sentimento, está incorporado, constitui uma memória genética. Não é que eu não queira celebrar a língua portuguesa como um património que evidentemente é importante e nos coloca no mundo como um corpo colectivo que é a comunidade dos países de língua portuguesa, mas acho que não devemos ficar prisioneiros desse elemento redutor.

O Brasil é visto como uma das grandes potências de futuro e é já uma das maiores economias a nível mundial. É pelo Brasil que passa o futuro de países como Portugal, mas também Angola e Moçambique?
É praticamente inevitável, pela força económica e pela vitalidade do Brasil. Não se trata apenas de uma potência económica, mas também cultural e demográfica. O Brasil será a nossa estrela guia, para o bem e para o mal, e eu não vejo problema nenhum nisso. Felizmente, sou de um país pequenino, que não tem pretensão nem nunca teve de ser líder de qualquer coisa.

Falemos então do acordo, ou desacordo ortográfico. Como natural de Moçambique e falante da língua portuguesa, o que acha deste acordo, que já está em vigor, para o bem ou para o mal?
Não sou um militante contra o acordo. Não me reconheci em algumas da razões que foram invocadas para chegar a este acordo, como por exemplo que este acordo facilitaria um melhor entendimento entre a língua. Sempre li livros do Brasil e com o maior prazer, pelo facto de eles terem uma grafia ligeiramente diferente. Os meus livros e os de Saramago são publicados com a grafia original e nunca ninguém se queixou. Acho inclusivamente que há uma diferença na grafia que só traz valor. Mas não faço guerra ao acordo. As nossas guerras são outras, é perceber porque é que nós, países de língua portuguesa como Portugal ou Moçambique, estamos tão distantes do Brasil, porque é que o Brasil está tão distante de nós. Por que razão é que um filme português no Brasil tem de ser legendado. Porque é que quando eu chego ao Brasil e digo que sou de Moçambique, ninguém sabe onde é ou o que é Moçambique.

É ecologista e biólogo de formação. Diz-se muito que não estamos a tratar bem o nosso planeta. Quais são então os grandes desafios, o que temos que fazer para salvar a Terra?
Há aqui uma fabricação de medo, uma visão de apocalipse na qual eu não alinho e a presunção de que nós somos o centro. A ideia de que o homem tem de proteger o planeta e salvar a natureza é uma concepção quase infantil. O nosso primeiro dever é perceber determinadas coisas que vão muito para além da arrogância do ser humano. Falamos com uma facilidade enorme do clima, das previsões sobre as mudanças climáticas, mas a verdade é que grande parte das razões que regem o nosso clima estão para além do nosso alcance. Por outro lado, as notícias apocalípticas vendem bem. Uma notícia que diga que ainda não sabemos bem os efeitos dos raios ultravioletas ou do dióxido de carbono não vende.

A sua escrita fala muito de sensações, da pele, do ser humano. Numa altura em só ouvimos falar de agências de rating, acha que temos de voltar à nossa essência?
Estamos no caminho errado, mas não sei se o verbo seria "voltar". Temos de avançar e construir uma outra visão do mundo. Aquilo que chamamos "a grande crise" vai ser muito produtiva, porque nos vai pôr perante novas soluções, novas emergências, novos enquadramentos.
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Por exemplo, fora dos contextos tradicionais das assembleias e dos partidos, jovens em várias partes do mundo pegaram nas rédeas, usando mecanismos modernos, como a internet, o twitter, o facebook, e criaram um movimento de mobilização. De repente é tudo imprevisível. Não sabemos e temos muito medo de não saber.
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Fomos educados para pensar que o mundo é previsível e quando não é ficamos aterrorizadíssimos. Há uma grande alegria de dizer não sei hoje. Temos de reaprender coisas que são básicas, como por exemplo a distinção entre saber e sentir. Valorizamos o saber como coisa masculina e desvalorizamos o sentir como coisa feminina. Isso é absurdo. São fronteiras que arbitrariamente construímos. Não sei onde termina o saber e começa o sentir. São fundamentos do nosso conhecimento que temos de contestar.
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Sou um optimista sem esperança. Penso que não chegámos ao fim e há sempre algo a fazer.
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http://www.ionline.pt/conteudo/121362-mia-couto-o-brasil-vai-ser-nossa-estrela-guia

sábado, 20 de março de 2010

«Apeixonados», por José e Catarina Pinheiro


19.3.10


Apeixonados ()


É com imenso carinho que estamos a criar alguns personagens animados para a dinamização do livro APEIXONADOS a decorrer dia 27 no 1º Encontro Poetas do Mundo em Almada.






'O livro Apeixonados é um livro da autoria de José Pinheiro com ilustrações de sua filha Catarina Pinheiro, uma magica cumplicidade entre pai e filha.
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Apeixonados é um livro-jogo, líquido e compósito, a quatro mãos, que resulta do entrelaço entre os jogos de palavras do pai e dos desenhos da filha, com o objectivo de multiplicar a ternura partilhada e a paixão única pela biodiversidade existente nos rios e nos mares.
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Nesta viagem, os leitores - pais, filhos, professores, educadores, alunos, animadores, artistas e outros, no mínimo em pares - são convidados a descobrir e a identificar, em espaços-tempo de diálogo e de ternura partilhada, os seres viventes nos rios, nos mares e nos oceanos.
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O carácter inovador da obra, a temática central do livro em torno da água, da preservação e conservação em equilíbrio da natureza, a importância do desenvolvimento da ligação Escola-Família-Comunidade a que se liga a Celebração de 2010 como o Ano Internacional da Biodiversidade, são factores, que julgamos assaz importantes, para que este livro seja partilhado pela comunidade educativa.'



Aqui fica registo do processo criativo;-)



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Contribuições para a reflexão – O capitalismo e a Natureza - Miguel Tiago

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Contribuições para a reflexão – O capitalismo e a Natureza

Fevereiro 1, 2010
Escrito por Miguel Tiago   
01-Jan-2010 - O Militante
A Natureza é o substrato do desenvolvimento e o meio em que se desenvolve a luta de classes. É também na relação com os recursos naturais que se trava uma disputa de interesses de classe antagónicos, na medida em que a utilização desses recursos é uma base fundamental da construção da sociedade humana.
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A actual fase do capitalismo, de evidente aproximação dos seus limites históricos, tem agravado os impactos da exploração capitalista também no quadro da relação entre as sociedades e a Natureza. A apropriação da produção é acompanhada por uma apropriação directa dos recursos, mercantilizando mesmo os bens ambientais, o que bem demonstra o carácter predatório do sistema capitalista e a urgente necessidade de o ultrapassar, na medida em que a Natureza contém o conjunto de recursos finitos que são fundamentais para o desenvolvimento integrado da Humanidade. O seu esgotamento, ou destruição têm implicações directas sobretudo nas camadas trabalhadoras, tendo em conta a elitização galopante do acesso à qualidade de vida e ambiental. A luta dos trabalhadores e dos comunistas é, por isso mesmo, também uma luta em defesa da preservação e da gestão racional dos recursos naturais, subordinando a sua gestão aos interesses comuns e não à acumulação de lucros.
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A actual campanha mediática e política em torno das preocupações ambientais não deve pois passar ao lado das preocupações do Partido, numa abordagem crítica e transformadora. Um dos eixos principais daquilo a que a Resolução Política do XVIII Congresso do PCP descreve como o «dogma ambientalista» é a campanha política em torno das «alterações climáticas». Significará essa nossa análise uma secundarização das preocupações ambientais? Antes pelo contrário, a desmistificação desse «dogma» é a única forma de intervir realmente sobre os problemas que cada vez mais se agudizam na relação capitalismo – Natureza. Esses problemas, traduzidos na delapidação dos recursos e no consequente empobrecimento das camadas trabalhadoras que deles dependem directa ou indirectamente, são fruto de características intrínsecas ao funcionamento do sistema capitalista. Decorre da lei da baixa tendencial da taxa de lucro e das suas contradições internas, a necessidade de o capital (1) continuar permanentemente o seu esforço de expansão – o que é bem sintetizado por Engels quando afirma «[O Capital] tem de permanecer em crescimento e expansão, ou terá de morrer.» (2), permitindo assim a continuidade da sua força motriz: a taxa de lucro. Isso tem implicações muito concretas na gestão de recursos naturais e na sua apropriação, sendo que são, em grande medida, a fonte de toda a matéria-prima ou elementos fundamentais à vida de todos os seres humanos. Nesse caminho de crescimento e acumulação, os bens ambientais tornaram-se mercadorias à luz da perspectiva da classe dominante.
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É neste quadro que se torna decisiva a inclusão das questões ambientais na luta de massas e na luta dos trabalhadores. No actual cenário de crise global da economia capitalista, o próprio sistema é confrontado com um momento de decisões críticas em torno dos paradigmas produtivos, económicos e financeiros que sustentam o capitalismo na sua fase de desenvolvimento actual. Depois de ampla e claramente falhada qualquer consequência positiva visível do Protocolo de Quioto, seria de esperar uma reavaliação dos instrumentos de intervenção por parte dos organismos internacionais, nomeadamente da Convenção Quadro para as Alterações Climáticas (UNFCCC), organismo das Nações Unidas. Ao invés disso, a Conferência das Partes dessa Convenção em Copenhaga assume-se como a clara sucessora de Quioto e Bali, mantendo precisamente os mesmos instrumentos, e centrando a intervenção das sociedades humanas nos aspectos meramente financeiros, sem assumir e, mais grave ainda, mascarando a necessidade urgente de proceder a profundas transformações de natureza anticapitalista..
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É certo que após a explosão da crise económica e estrutural do capitalismo, muitos são os que falam de «novo paradigma» e de «maior intervenção e regulação» do Sistema, acompanhados dos que supostamente promovem o «novo paradigma energético». No entanto, é revelador que sejam esses os primeiros a dogmatizar o funcionamento da economia capitalista como ponto de partida para qualquer «novo paradigma». Na esteira dos ensaios em torno de «sustentabilidade», «desenvolvimento sustentável» (ver Relatório Brundtland (3)), surgem as novas diversões ideológicas do sistema capitalista orientadas no essencial sempre pelo mesmo objectivo central: permitir a continuidade e aprofundamento da apropriação de mais-valias através da exploração do Trabalho. O equilíbrio em que o capital vai jogando estes novos «trunfos» da ofensiva ideológica é, porém, cada vez mais instável, tendo em conta as flagrantes assimetrias na distribuição dos benefícios tecnológicos, dos recursos naturais e da riqueza produzida.
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Chegados a este ponto da História, dos seres humanos e do planeta, torna-se evidente a necessidade de harmonização entre as actividades humanas e a dinâmica da Natureza mas, ainda assim, muitas dúvidas, nomeadamente científicas, persistem sobre as formas e a extensão das influências de cada uma das actividades humanas na Natureza e, particularmente, no clima, sobre o qual recai grande parte do arsenal ideológico do capitalismo. Nesta sua fase de desenvolvimento, no limiar desse «novo paradigma económico e energético», importa essencialmente desmontar as suas contradições inerentes.
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No seguimento do Protocolo de Quioto, da criação dos mercados de licenças de emissão de Gases com Efeito Estufa (GEE), das negociações internacionais, surgem novas ofensivas globais que visam essencialmente apropriar a Natureza e o Meio Ambiente como mercadoria e filão de negócios absolutamente incomensuráveis, por um lado e servir de argumento para-científico de chantagem e de diversão ideológica, por outro. O sistema capitalista busca agora em cenários de alterações climáticas (depois de «aquecimento global» se ter revelado um termo equívoco) o elemento de distracção sobre os reais problemas que se colocam no plano político e económico-social. A solução para os problemas da relação entre o ser humano e a Natureza não reside em alterações de fachada no sistema, mas sim na ruptura radical com o próprio funcionamento do sistema, superando-o historicamente.
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A comunicação social tem desempenhado um papel fundamental na difusão de um dogma ambientalista que, não funcionando como argumento em si mesmo, é revelador das pressões que existem para a criação de uma cultura supostamente científica em torno de um alarmismo e histeria que é contraditada por dúvidas e outros estudos científicos convenientemente escondidos pela comunicação social dominante. É importante ter a consciência de que a Investigação Científica é também um processo social, sujeito a instrumentalização pela classe dominante. Não é descartável o facto de existirem estudos diversos que não reconhecem existência de relação causa-efeito entre a concentração atmosférica de CO2 e a temperatura à superfície da Terra, da mesma forma que devemos ter presente a evidência segura de muitas variações climáticas ao longo da história do planeta, determinadas por factores muito diversos. No que toca ao Árctico, por exemplo, o actual alarmismo deve ser questionado quando olhamos para a série de dados que retrata os mínimos de área de mar gelado e verificamos que não existe uma tendência tão alarmante quanto isso, sendo que o mínimo de 2007 (cerca de 4.200.000 km2) é bem inferior ao mínimo de 2009 (5.249.844 km2)(4). Na verdade, muitos outros dados apontam para uma variabilidade climática do planeta muito significativa ao longo da sua história de mais de 4,6 mil milhões de anos, sem qualquer ligação que comprove dependência relativa às concentrações de CO2.
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A climatologia e a paleo-climatologia não são propriamente ciências simplistas como se tem vindo a tentar fazer crer e não se compadecem com modelações baseadas em «regras de três simples» tão elementares quanto as que deram origem à tese ultrapassada do aquecimento global em «hockey-stick» (a primeira hipótese de subida de temperatura quase como se fosse directamente proporcional às concentrações atmosféricas de CO2). É também urgente denunciar que, ao contrário do que se assume muitas vezes publicamente, o IPCC (Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas) – ainda que constituído por uma vasta rede de investigadores – não é um organismo científico, mas político, do qual não resultam necessariamente conclusões científicas na verdadeira acepção do conceito, ou seja, os relatórios finais do IPCC não são alvo de avaliação independente nem sujeitos a confronto em testes experimentais, como se exige a qualquer trabalho científico para ser validado.
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A mercantilização dos bens ambientais, a diversão ideológica, o branqueamento das responsabilidades de classe são todos efeitos directos da histeria de massas que se pretende agudizar com a generalização do «dogma».
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É, por exemplo, paradoxal que mesmo quando os custos de produção energética são menores cresçam os seus custos finais. Essa relação entre custos de produção e preço revela bem o inquantificável aumento de lucro que as companhias de produção energética obtêm da chantagem ambientalista, importante componente desse aumento de preço, aliada obviamente à pressão especulativa que controla todo o mercado dos combustíveis fósseis com repercussões nos custos da produção e distribuição de energia final. A alteração de «paradigma económico e energético» de que a classe dominante tanto fala é, no essencial, resumida a um conjunto de alterações na produção, mas mantendo perfeitamente intocada a matriz que reside, não na produção mas na organização e posse dos meios de produção, ou seja, no modo de produção. O que está hoje em causa é mais do que saber se a energia pode ou não ser obtida de fontes renováveis e limpas, mas sim até que ponto o capital se apropria da produção energética proveniente dessas fontes. O grau de apropriação capitalista determinará o grau de utilização dessas fontes e dessas tecnologias e é essa barreira que os trabalhadores de todo o mundo devem vencer, sob pena de subsistir, não apenas a injustiça inerente à exploração capitalista, mas também a delapidação da Natureza e dos seus recursos na medida em que constituem, não recursos económicos comuns, mas apenas mercadorias a valorizar e a gerar lucro.
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O mecanismo subjacente ao Protocolo de Quioto e, ao que tudo indica, ao futuro de Copenhaga está longe de ser uma solução para a diminuição da emissão de GEE, mas poderá vir a ser, sem dúvida, um dos mais importantes mercados da actualidade, na medida em que a bolsa de carbono poderá representar a curto prazo um mercado de mais de 700 mil milhões de dólares. Não podemos ignorar que a constituição de uma bolsa de licenças de emissão significa a transferência de riqueza entre diferentes sectores sociais e produtivos, bem como o aumento dos custos do consumo da energia, através da transferência de custos em torno de mecanismos não produtivos (como a transacção em bolsa de licenças de emissões) para o consumidor.
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Com esta política, não só se escamoteiam as reais responsabilidades de classe, como se dão os primeiros passos para a privatização dos recursos atmosféricos, como é o ar que respiramos. É absolutamente inaceitável que a resposta a uma hipotética influência antropogénica no clima seja resolvida com a privatização da atmosfera. Com essa estratégia o capital também encobre os mais graves impactos da poluição atmosférica, que são bastante mais vastos que os que se crêem existir sobre o clima, nomeadamente no que toca à saúde, aos equilíbrios ecológicos, à qualidade das águas e do ar. Pretende a classe dominante que se ignore que o uso dos solos, as impermeabilizações, as desflorestações, a desertificação, são causas muito significativas no que toca às transferências de calor entre atmosfera, geosfera e Sol, assim contribuindo também para a agudização de fenómenos climáticos extremos.
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Abordar as «alterações climáticas» deve, da nossa parte, ser uma tarefa de capital importância desde que desvendemos desde já as «armadilhas ideológicas» que estão montadas na tese catastorfista e da sua origem antropogénica.
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A encruzilhada em que a Humanidade se encontra é a que resulta das limitações históricas do capitalismo e que serão apenas solucionadas pelo poder criativo dos homens e das mulheres, superando a forma de organização social, económica e política do capitalismo e capitalizando todos os meios já hoje disponíveis e os que mais possamos desenvolver no caminho da luta para substituir o capitalismo pelo socialismo, rumo ao comunismo. Não será outra senão essa a resposta que os trabalhadores poderão dar aos grandes problemas que hoje se nos colocam. É essencial, pois, colocar a discussão da relação do Humanidade com a Natureza no espaço a que pertence: no espaço da luta de classes e da disputa do poder político e da posse dos bens e recursos naturais, com a plena consciência de que só o socialismo poderá criar as condições para a construção de uma relação harmoniosa entre a Humanidade e a Natureza.
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Notas
(1) Marx, Karl – O Capital, Vol III, Livro III, Capítulo XV.
(2) Engels, Friederich – Prefácio à Segunda Edição Alemã (1892) de «A situação da Classe Trabalhadora em Inglaterra» (1845).
(3) Relatório da ONU, sob o título «O Nosso Futuro Comum, onde se define pela primeira vez o conceito de «desenvolvimento sustentável».
(4) De acordo com os dados IARC (International Arctic Research Center) – JAXA (Japanese Aeorospace Exploration Agency), com análise de dados no IJIS (sistema de computação da IARC-JAXA), disponíveis em http://www.ijis.iarc.uaf.edu/en/data/index.htm e http://www.ijis.iarc.uaf.edu/en/home/seaice_extent.htm
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“O Militante” – 304 – Jan/Fev 2010
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quarta-feira, 16 de abril de 2008

Meio Ambiente & Geopolítico

por Eron Bezerra*
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O Instituto Mauricio Grabois -IMG e o Partido Comunista do Brasil - PCdoB, através da Secretaria Nacional de Meio Ambiente, acabam de realizar um seminário para tratar da questão do meio ambiente e as suas implicações ecológicas e geopolíticas.


A realização do evento, por si só, já é digna de registro. Demonstra uma prática política contemporânea, de debater os grandes temas, tanto dos de natureza essencialmente teóricos quanto os temas que polemizam e antagonizam as variadas correntes de pensamento.


O evento foi aberto pelo Presidente Nacional do PCdoB, Renato Rabelo, pelo Secretário Nacional de Meio Ambiente, Aldo Arantes, e pelo Presidente do IMG, Adalberto Monteiro, que situaram as pretensões e os limites daquele debate, alertando especialmente para as implicações ideológicas que esse debate enseja.


As mesas que se sucederam trataram do marxismo e meio ambiente, do aquecimento global e de Amazônia e Biodiesel.


Nossa modesta contribuição, numa mesa com o Professor Enio Candoti e o ilustre Presidente da ANP, Haroldo Lima, foi sobre o caráter ideológico desse debate, destacando que ela se insere dentro de uma estratégia global do imperialismo.


Do ponto de vista teórico iniciei sublinhando que “na natureza, como na sociedade, todos os fenômenos estão interligados, interconectados e são interdependentes”, de onde se conclui que não há desenvolvimento sem sustentabilidade e nem sustentabilidade sem desenvolvimento.


A sustentabilidade ambiental, portanto, é uma exigência produtiva e não um mero capricho ecológico. Mas não se pode ter ilusões quanto ao seu uso ideológico. Muitos atores esgrimam a questão ambiental por mera motivação geopolítica.


Para os países imperialistas a questão ambiental é predominantemente ideológica. Faz parte de toda uma tática, usada ao longo dos tempos, como forma de se assenhorear de áreas que eles entendem como reservas estratégicas de recursos naturais, como a Amazônia, por exemplo. O imperialismo já utilizou o militarismo, a ciência, a teoria do arrendamento, a economia, a “defesa” dos povos indígenas e, atualmente, o ambientalismo.


Assim, a negativa de utilização do espaço amazônico não está associada, necessariamente, a questões ambientais. Expressa, na maioria dos casos, um posicionamento ideológico, assentado na concepção “santuarista”, que entende a Amazônia como “patrimônio da humanidade”.


Da “Companhia Comercial Londrina” (1832) até a recente declaração do presidente alemão, Horst Kohler (2007), defendendo a gestão compartilhada de nossas florestas, a Amazônia sempre foi vista como reserva estratégica do imperialismo.


Quanto a polemica em si, se há ou não aquecimento global, a mim parece resolvido. O mundo aquece e, talvez, tenda a aquecer ainda mais. O que não há unanimidade é quanto às causas que levaram a esse aquecimento. Enquanto o Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC) sustenta que o aquecimento decorre da emissão de CO2, dezenas de outros pesquisadores argumentam que o aquecimento decorre da própria mutação solar. É uma polêmica que promete.


Mas, igualmente importante, é saber quem polui. O mundo, com seus 6,5 bilhões de habitantes, produzem 49 bilhões de toneladas de CO2 por ano, com uma média de 7,5 tonelada/habitante. Um americano ou europeu é responsável por uma média de 17 toneladas dessa poluição, enquanto brasileiro ou chinês responde por menos de 03 toneladas.



Mesmo assim os “ricos” exigem, para reduzirem suas emissões, que os países em “desenvolvimento”, especialmente Brasil e China, reduzam na mesma proporção. Em verdade não querem é competidores. O encontro do G8, recém concluído na Alemanha, remeteu para até 2050 a data limite para que os países ricos adotem medidas para reduzirem em 50% suas emissões de CO2, o que evidencia o descompromisso desses países com a questão ambiental.


A pressão sobre a Amazônia em particular é claramente de natureza geopolítica. Considerando que a Amazônia “queime” 1 milhão de hectares por ano ela seria responsável por uma emissão de 100 milhões de toneladas de CO2 (0,2% da emissão total). Sua floresta, entretanto, seqüestra algo como 350 milhões de toneladas de CO2. O saldo é de 250 milhões de toneladas de CO2. Significa que a Amazônia limpa e não polui o meio ambiente como de maneira geral nós somos levados a acreditar pela propaganda unilateral. Em boa parte essa propaganda é estimulada pelo unilateralismo dos financiadores de projetos de caráter ambiental na Amazônia. Como regra, bancada por capital estrangeiro.


É possível usar a Amazônia com sustentabilidade, especialmente pelos seus diversos biomas. A Amazônia pode ser desde uma grande produtora de alimentos a partir dos milhões de hectares de várzea que possui até um grande centro de biotecnologia, em decorrência de sua extraordinária biodiversidade. Pode, também, fornecer peixe para o mundo, suprir boa parte de nossa dependência energética, gerar milhares de reais com a atividade turística e, inclusive, reflorestar boa parte de suas áreas degradadas com o dendê e substituir usinas a diesel por biodiesel. As alternativas são várias e, creio, o seminário ajudou a abrir essa polêmica.




*Eron Bezerra, Engenheiro Agrônomo, Professor da UFAM, Deputado Estadual Licenciado, Secretário de Agricultura do Estado do Amazonas, Membro do CC do PCdoB.


* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho - 15 DE ABRIL DE 2008 - 20h10
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