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sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Marcelo Mazzoni - Revolta ao cubo




Pra deixar com ‘sangue no zóio’/Aqueles da classe mais baixa. 
Por Marcelo Mazzoni
O poeta subiu na caixa
Para bradar rimas de ódio
Pra deixar com ‘sangue no zóio’
Aqueles da classe mais baixa
Os sussurros secos do centro
Multiplicados por mil transeuntes
Tornavam as rimas transparentes
“A política, do vil, tornou-se antro
Resistir, resistir e resistir,”
Rimas que ecoavam no abismo
Sombrias ondas sonoras, a partir;
Nem a caixa deu-se a resistir
Ao chão jogou todo lirismo,
Que sobre risos pôs-se a fugir.
A imagem que ilustra o soneto é de Kasimir Malevich (1915)
http://passapalavra.info/2016/09/109464

sábado, 23 de abril de 2016

Alfred Lord Tennyson - The Charge of the Light Brigade

The Charge of the Light Brigade (poema)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.


Charge of the Light Brigade de Richard Caton Woodville (1825-1855)
The Charge of The Light Brigade é um poema escrito   por Alfred Lord Tennyson no século XIX, que conta a história da Carga da Brigada Ligeira durante a Batalha de Balaclava, que aconteceu em 1854, na Guerra da Crimeia, e envolveu os impérios britânico e russo.
O poema é destaque no filme de 1936 The Charge of the Light Brigade do diretor Michael Curtiz.
Original:
I
Half a league, half a league,
Half a league onward,
All in the valley of Death
Rode the six hundred.
“Forward, the Light Brigade!
Charge for the guns!” he said.
Into the valley of Death
Rode the six hundred.

II
“Forward, the Light Brigade!”
Was there a man dismayed?
Not though the soldier knew
Someone had blundered.
Theirs not to make reply,
Theirs not to reason why,
Theirs but to do and die.
Into the valley of Death
Rode the six hundred.

III
Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon in front of them
Volleyed and thundered;
Stormed at with shot and shell,
Boldly they rode and well,
Into the jaws of Death,
Into the mouth of hell
Rode the six hundred.

IV
Flashed all their sabres bare,
Flashed as they turned in air
Sabring the gunners there,
Charging an army, while
All the world wondered.
Plunged in the battery-smoke
Right through the line they broke;
Cossack and Russian
Reeled from the sabre stroke
Shattered and sundered.
Then they rode back, but not
Not the six hundred.

V
Cannon to right of them,
Cannon to left of them,
Cannon behind them
Volleyed and thundered;
Stormed at with shot and shell,
While horse and hero fell.
They that had fought so well
Came through the jaws of Death,
Back from the mouth of hell,
All that was left of them,
Left of six hundred.

VI
When can their glory fade?
O the wild charge they made!
All the world wondered.
Honour the charge they made!
Honour the Light Brigade,
Noble six hundred!

https://pt.wikipedia.org/wiki/The_Charge_of_the_Light_Brigade_(poema)

quarta-feira, 9 de março de 2016

Adelino Torres ~ "Partida" e "Linguagem dos Pássaros"


Marc Chagall – The Blue Violinist


1 – Partida 

Para Angola

Quando morrer não quero carpideiras
frases compungidas, suspiros congelados,
nem conversa fiada sobre a minha serventia
se é que servi para alguma coisa
assunto de que tenho, aliás, dúvidas severas.
Basta-me o fogo que me devorará
e renascer depois em frias cinzas
sem carne, ossadas ou incómodos vermes,
lápides pensativas ou jazigos doentios.
Quero tudo concentrado numa macheia de pó
deitada borda-fora sem emoção inútil
embalada pelas ondas ao sabor da maresia
em dia solarengo como o antigamente
quando Luanda se mirava nas águas da baía
enquanto a criançada mergulhava dos barcos do pescado
atracados no cais da zona sul,
com um punhado de música a trepidar
ao ritmo tropical desenfreado.
Revejo agora a passagem oblíqua
entre o princípio e o fim que chega a passo
devagar ou talvez acelerado
no meio de recordações fugazes
que reviverei no último segundo
num lampejo breve que contém o mundo.
Relembrarei talvez, nem mesmo sei porquê,
paixões que tive e não cumpri
nos monótonos anos da adolescência,
os tempos mais estúpidos que vivi. 
Quero passar do ser ao mistério do não-ser
como a forca que abre no patíbulo o alçapão
com a naturalidade de uma luz que empalidece
ou de um astro que se esconde
por detrás do horizonte envergonhado
onde está, dissimulando-se agachado,
o ciclo sem remorso da repetição
cujos sonhos perseguem o vazio
do poder vacilante da ilusão.
Quando partir seguirei gaivotas
a voltejar entre terra e mar
à espera que venha o anoitecer
e com ele o silêncio ignóbil das vozes
que se calam com medo de dizer.
Dessa passagem pela vida, o que ficou
foi a sombra abandonada no caminho
da ave que passou com o sol às costas
direita ao rumo incerto do longínquo ninho…


87 - Linguagem de pássaros

O famoso político passou
voando sobre os telhados
com asas douradas abertas
como um astro esplendoroso
a cobrir céus estrelados
e a tapar vestes da lua
tão alto que não ouvia
os protestos revoltados
nem via punhos cerrados
agitados com furor
lá em baixo, lá no fundo
como formigas na rua.
Nas alturas onde pairava
não lhe chegavam os ecos
e mesmo que os sons se ouvissem
ele nunca os entenderia
porque há muito que deixara
de compreender palavras
para só monologar
na linguagem dos pássaros…


Adelino Torres

Cantos do crepúsculo
(Poesias - Livro III) 


http://www.adelinotorres.com/trabalhos/Adelino%20Torres_Cantos%20do%20crepusculo%20(poesia%20III).pdf

Maria Velho da Costa - Cravo de Abril


8 DE MARÇO DE 2016
MANUEL AUGUSTO ARAUJO

No DIA INTERNACIONAL DA MULHER, um texto luminoso de Maria Velho da Costa e uma pintura de Teresa Dias Coelho. Nada melhor que recorrer a duas amigas que são duas mulheres artistas de rara qualidade.



Mãos ~ Teresa Dias Coelho 

 A relação entre o homem e a mulher

é a relação imediata, natural e necessária

do homem com o homem.

  KARL MARX



RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.

2.REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-los para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençóis com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrelaçam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.

PRODUÇÃO

Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descamar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transístor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fileira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.

SERVIÇOS

Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas da lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.

TRANSMISSÃO DE IDEOLOGIA

Coisas que elas dizem:

 – Se mexes aí, corto-ta.

– Isso não são coisas de menina.

– O meu homem não quer.

– Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.

– A mulher quer-se é em casa.

– Isto já vai do destino de cada um.

– Deus não quiz.

– Mas o senhor padre disse-me que assim não.

– Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.

– Você sabe que eu não sou dessas.

– Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.

– Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.

– Comprei uns jeans bestiais, pá.

– Sempre dá para uma televisão daquelas novas.

– Cada um no seu lugar.

– Julgas que ele depois casa contigo?

– Sempre há-de haver pobres e ricos.

– Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso.

– Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.

– Sempre é homem.



PRODUÇÃO DE DESEJO

Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elas limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.

REVOLUÇÃO

Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.


Dezembro de 1975

 in CRAVO, MARIA VELHO DA COSTA, MORAES EDITORES, 1976

https://pracadobocage.wordpress.com/2016/03/08/revolucao-e-mulheres/

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Carla Romualdo - O homem que mandou Deus passear

 
“Jonas e a baleia”, ilustração no “Jami’ al-tawarikh” (Pérsia, c. 1400)
Jonas era um tipo ponderado, reflexivo, avesso a que lhe desordenassem os dias e ainda mais a receber ordens. Deus embirrou logo com ele. Ou não fosse Ele hábil a identificar os problemáticos, os que insistiam em pensar e duvidar e ver além. Jonas tinha de ser domado. E por isso, estando o homem posto em sossego, Deus foi ter com ele e mandou-o ir a Nínive, a cidade assíria do culto a Ishtar, deusa da fertilidade, do amor e do sexo. Vai lá e avisa-os de que o fim está próximo, diz-lhes que destruirei a cidade e todos os seus habitantes, ordena.
Jonas, que esperava a divina visita e adivinhava o desfecho de tal incumbência, correu para o porto mais próximo e apanhou o primeiro barco que saía, que por acaso ia para Társis, mas, sobretudo, não ia para Nínive.
A viagem começou bem e Jonas adormeceu tranquilamente no porão, escondido, a salvo de Deus. Mas logo as ondas começaram a agitar-se, uma tempestade violenta irrompeu, sacudiu o barco que parecia a ponto de estrancilhar-se. A tripulação apavorada adivinhou que aquela súbita fúria dos elementos não podia ser coisa terrena, e foi despertar o viajante que lhes parecera suspeito. Jonas, que dormia o sono dos justos que escapam a Deus, percebeu tudo nada mais abrir os olhos e confessou que a tempestade a ele se devia. Disse à tripulação que o lançasse borda fora, que dessa forma as suas vidas seriam poupadas. Os marinheiros não hesitaram e num instante Jonas debatia-se com as ondas geladas. Deteve-se então a fúria dos ventos e das ondas, mas apareceu uma titânica criatura, uma baleia, que engoliu Jonas. No ventre do bicho passou ele três dias tormentosos, negros dias e negras noites que mal podemos imaginar, e acabou a pedir perdão a Deus e a aceitar o encargo, que remédio. Deus não brinca: coacção, chantagem, tortura. Arrancada a cedência a Jonas, ordenou Deus à baleia que cuspisse o desgraçado homem para terra.
Lá foi Jonas a Nínive, sabendo no que aquilo ia dar. Os habitantes ouviram-no, acreditaram nas suas palavras, arrependeram-se e converteram-se. Deus, apaziguado o orgulho ofendido, comunicou a Jonas que tinha desistido da destruição. Que ficavam sem efeito as catástrofes programadas. E Jonas indignou-se. Porque já sabia que aquilo haveria de acontecer. Porque raios tinha sido mandado ali se Deus nunca quis, de verdade, destruir Nínive? O que Ele queria era exibir a grandeza, demonstrar quão fácil seria reduzi-los a cinza e desfrutar depois da sua conversão resignada, do arrependimento alimentado pelo medo, do choro e ranger de dentes que apenas Ele podia deter. Porque havia Jonas de ser um fantoche a cumprir ordens inúteis? Porque não tinha ido o próprio Deus interpelar os nínivenses, enumerar os seus tantíssimos pecados, ameaçá-los com o fogo eterno, mostrar-lhes a Sua fúria tremenda, o Seu poder infinito?
Era sempre a mesma coisa. Tinha ele deixado tudo para trás, tinha arriscado a vida, três dias passara nas entranhas de um bicho medonho para satisfazer um capricho, nada mais que um capricho de Quem não sabia deixar de exercer o poder absoluto, a todas as horas, por toda a eternidade. Um dependente emotivo, um tipo infantil, no fundo, e pensar que a Ele tinham sido confiadas todas as chaves do universo, que lástima.
Tão enfadado estava que decidiu ficar nos arredores, numa precária cabana por si construída, onde pudesse observar, bem de longe, a cidade. Para protegê-lo do sol, Deus fez nascer uma aboboreira para que as folhas lançassem sombra sobre a sua cabeça. Jonas alegrou-se. Vá lá, um gesto de delicadeza, finalmente. Deus mandou então um verme que em pouco tempo secou a aboboreira. Quando Jonas se despertou pela manhã e viu as folhas mirradas, a pobre planta corroída, pontapeou a areia, ergueu os braços aos céus e anunciou que desistia. Podia Deus matá-lo, sem mais manigâncias, que ele desistia.
Deus, numa refinada manifestação de sonsice, perguntou-lhe, de lá de cima:
– Fazes bem que assim te ires por causa da aboboreira?
E Jonas, libertando-se, para todo o sempre, das grilhetas, respondeu, imenso:
– Faço bem que me revolte até à morte.
A história de Jonas termina com a pergunta de Deus: se tens tu compaixão da aboboreira, não deveria eu ter compaixão dos homens e mulheres de Nínive?
Da resposta de Jonas nada se diz nas Escrituras. Nem do que a seguir lhe aconteceu. Porventura porque a resposta tenha deixado Deus embasbacado com a audácia da miserável criatura, ou talvez Jonas nem se tenha dado ao incómodo de responder. Mandou o Senhor ir dar uma volta, mais os seus planos de destruição massiva, as suas aboboreiras, os bichos gigantes que sulcam os mares, tantos e tão desproporcionados recursos para fazer ceder a vontade de um homem. Jonas, herói renitente, perdera o medo e encontrara um sentido profundo na revolta. Recusava-se a consagrar a existência a ser marioneta. Jonas tinha mais que fazer, e o seu mais que fazer era viver, a seu modo, a vida que lhe tocara, sem ingerências, sem acatar ordens. Já não se calaria, nem seria instrumento de uma vontade que operasse através dele, que o reduzisse a ferramenta. Por tudo isto, Deus entendeu que a sua história deveria ser interrompida naquele instante, frente a Nínive. Afinal, Deus soube sempre aquilo que o Orson Welles nos contou não vai há muito: “Um final feliz depende, naturalmente, de onde é que se pára de contar a história.”
Jonas morreu, como todos, mas mais livre do que quase todos.
https://ergoressunt.wordpress.com/2015/11/25/o-efeito-boomerang-jornal-tornado/

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Carla Romualdo - Está dizendo viva, viva


09/10/2015 por  
Sábado à tarde há iscas, bifanas, papas de sarrabulho. Não desfazendo, eu vou pelo convívio. É uma gente tímida, mas tímida também sou eu, e de tanto darmos um jeito para que caiba mais um acabamos por meter conversa.
A casa tem um canto, mais reservado, onde só há uma mesa grande, partilhada por desconhecidos ou disponível para grupos numerosos. Era lá que estavam eles e eu sentei-me por perto com o meu mais reduzido grupo. Eles eram dez, todos homens, todos velhotes, todos castigados por bastante mais do que os anos que tinham passado. Tinham pendurado os bonés no cabide atrás deles, alguns já não se atreviam a tirar o casaco. Um tamborilava os dedos sobre o tampo da mesa, que é uma forma, já se sabe, de marcar o compasso do que se evoca, e os seus olhos húmidos e enevoados confirmavam quão longe ele estava. Os outros seguravam os copos, cada um com o seu, como se houvesse que segurá-lo, não fosse a mesa virar a qualquer momento. Tem destas coisas, a casa, faz-nos sentir no mar alto.
Falavam alto, riam, contavam piadas. Ao segundo ou terceiro copo, um deles começou a cantarolar. Juntou-se logo outro, e outro, e outro. O que começara tinha boa voz, os outros desafinavam. Calaram-se logo em seguida, pediram mais vinho, mais iscas. Mas já se tinham soltado, estavam prontos. O cantor bateu com o copo, sinal de ordem à mesa, os outros calaram-se, a tasca calou-se também, sem saber por que o fazia, e ouviu-se, vinda do canto, uma voz sem rosto:
“No alto daquela serra / no alto daquela serra / está um lenço / está um lenço a acenar”
Os outros juntaram-se-lhe, um coro eufórico e desentoado. Noutra mesa, uma mulher abanou a cabeça para o marido e disse entredentes: “Cambada de bêbados”.
E eram. Uma estupenda cambada de bêbados, velhotes com colesterol alto, triglicerídeos em flecha, hipertensão, flebites nas pernas, diabetes, arritmia. Havia ali caras que pareciam saídas de uma unidade de cuidados intensivos. Se calhar, para a semana já não se levantavam da cama, ou seria para o ano, talvez num par de anos. Se calhar, estavam rijos como um pêro e ainda tinham muitas tardes de sábado. Ou talvez aquele grupo, com cada um dos desafinados, já não se juntasse mais, porque bastaria que faltasse um para que não fosse igual.
Seriam amigos antigos ou recentes, que a velhice traz também amigos, circunstanciais, os que se descobrem por perto apenas na ausência dos outros. Lembrei-me que o meu pai fez amigos até ao fim, o último terá sido uma semana antes, e nem por ser tão recente lhe faltou na despedida.
Chegaram mais iscas, mais jarros de vinho, e nem por isso eles se calaram. Cantavam cada vez mais alto, enchiam a sala, sem vergonha das senhoras com os maridos, nem do turista a gravá-los para o youtube, cantavam com todo o vigor, e no dia seguinte haveriam de acordar sem voz, ou com uma pontada nos pulmões, que diabo importava isso agora?
Encostei-me à parede de granito, ao lado da mesa grande. A algazarra era tanta que havia já quem saísse para não ter de aguentá-los. Ocorreu-me que o meu pai poderia estar ali, ele que até se recusava a cantar, mas que soube sempre tão bem gozar a amizade e as alegrias simples. E pareceu-me que sim, de alguma forma estava, podemos sempre acreditar que estamos onde nos recordam.
Quis sair antes deles, não quis ver o fim da festa, os abraços de despedida. Deixei atrás o coro desafinado e a voz ainda límpida do cantor que, dei-me conta então, era o único cujo rosto eu não tinha visto. Ainda o ouvi repetir os versos do começo:
“Está dizendo viva viva / está dizendo viva viva / morra quem / morra quem não sabe amar”.
Ilustração: Mariano Fortuny y Marsal, “Viejo desnudo al sol” (detalhe), 1863

popular : No alto daquela serra

Letra e música: popularjj

No alto daquela serra
no alto daquela serra
está um lenço
está um lenço a acenar

Está dizendo viva viva
está dizendo viva viva
morra quem
morra quem não sabe amar

Do outro lado do monte
do outro lado do monte
tem meu pai
tem meu pai um castanheiro

Dá castanhas em outubro
dá castanhas em outubro
uvas brancas
uvas brancas em janeiro



domingo, 12 de janeiro de 2014

Alexandre O'Neill - POEMA POUCO ORIGINAL DO MEDO



O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado 
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos Sim
a ratos

~~~~~~~~
quadro - O Grito, de Edgar Munch
 — .
12

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

o domingo na poesia segundo vários escritores - 19 - os bobos e truões - 04

29 de Novembro de 2013 às 0:21
* Egito Gonçalves - Sobre os poemas
* Carles Baudelaire - La Betarice
* Guerra Junqueiro - Parasitas
* Manuel Bandeira - Bacanal

~~~~~~~~~~

* Egito Gonçalves

Sobre os poemas

         1

     Há poetas que constróem o mundo nos cafés,
     outros que o fazem no claro-escuro
     entre as prisões e os intervalos.

     Há poetas que aguardam cartas de apresentação
     nem eles sabem para onde:
     para a vida que falhou?, para a manteiga
     que lhes foi negada?

     Mas todos têm um sonho, todos
     se esforçam por valer o pão que amassam
     — lançam seu delicado peso na balança.

     Eles sabem, esses poetas,
     que nada é eterno e imutável.


        2

     Tal a "Cadeia de Santo Onofre:
     Copie o texto: envie a cinco amigos"...
     há poetas que se multiplicam, fendem
     a vaga limite, impedem o suicídio,
     explicam a vida, argamassam
     dedicação e raiva.

     Girassóis, rodam sobre si mesmos,
     indicam o ponto onde a luz se abre.


        3

     Há poetas cuja poesia reagrupa, fornece
     uma canção à cidade, martela
     os que dormem alheios, move-se
     silenciosamente ao jeito das estátuas.

     Pacífica vaca ruminando na linha do rumo;
     rosto impreciso solidificando breve;
     tênue tinta azul no papel claro ...

     Os poetas têm
     como os peles-vermelhas do cinema
     o seu fumo e os seus cobertores.


        4

     Há poetas que renegam cartas
     de apresentação para o arrivismo;
     recusam a mão ao salário da trampa;
     não enfeixam o nome e a desonra
     nos telegramas do medo.


     Enquanto bebem o café um histrião noturno
     arenga; executa o seu número; recebe
     por nova pirueta uma ajuda de custo.

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* Charles Baudelaire

La Betarice

Dans des terrains cendreux, calcinés, sans verdure,
Comme je me plaignais un jour à la nature,
Et que de ma pensée, en vaguant au hasard,
J'aiguisais lentement sur mon coeur le poignard,
Je vis en plein midi descendre sur ma tête
Un nuage funèbre et gros d'une tempête,
Qui portait un troupeau de démons vicieux,
Semblables à des nains cruels et curieux.
À me considérer froidement ils se mirent,
Et, comme des passants sur un fou qu'ils admirent,
Je les entendis rire et chuchoter entre eux,
En échangeant maint signe et maint clignement d'yeux:
— «Contemplons à loisir cette caricature
Et cette ombre d'Hamlet imitant sa posture,
Le regard indécis et les cheveux au vent.
N'est-ce pas grand'pitié de voir ce bon vivant,
Ce gueux, cet histrion en vacances, ce drôle,
Parce qu'il sait jouer artistement son rôle,
Vouloir intéresser au chant de ses douleurs
Les aigles, les grillons, les ruisseaux et les fleurs,
Et même à nous, auteurs de ces vieilles rubriques,
Réciter en hurlant ses tirades publiques?»
J'aurais pu (mon orgueil aussi haut que les monts
Domine la nuée et le cri des démons)
Détourner simplement ma tête souveraine,
Si je n'eusse pas vu parmi leur troupe obscène,
Crime qui n'a pas fait chanceler le soleil!
La reine de mon coeur au regard nonpareil
Qui riait avec eux de ma sombre détresse
Et leur versait parfois quelque sale caresse.


— Charles Baudelaire



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* Guerra Junqueiro

Parasitas

No meio duma feira, uns poucos de palhaços
Andavam a mostrar, em cima dum jumento
Um aborto infeliz, sem mãos, sem pés, sem braços,
Aborto que lhes dava um grande rendimento.
Os magros histriões, hipócritas, devassos,
Exploravam assim a flor do sentimento,
E o monstro arregalava os grandes olhos baços,
Uns olhos sem calor e sem entendimento.
E toda a gente deu esmola aos tais ciganos:
Deram esmola até mendigos quase nus.
E eu, ao ver este quadro, apóstolos romanos,
Eu lembrei-me de vós, funâmbulos da Cruz,
Que andais pelo universo há mil e tantos anos,
Exibindo, explorando o corpo de Jesus.

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*  Manuel Bandeira

    Bacanal

    Quero beber! cantar asneiras
    No esto brutal das bebedeiras
    que tudo emborca e faz caco...

    Quero beber! cantar asneiras
    No esto brutal das bebedeiras
    que tudo emborca e faz caco...
          Evoe' Baco!

    La se me parte a alma lavada
    No torvelim da mascarada,
    A gargalhar em doudo assomo...
         Evoe' Momo!

    Lacem-na toda, multicores,
    As serpentinas dos amores,
    Cobras de lividos venenos ...
         Evoe' Venus!

    Se perguntarem: Que mais queres,
    Alem de versos e mulheres?...
    - Vinhos!... o vinho que é meu fraco!...
         Evoe' Baco!

    O alfange rutilo da lua,
    Por degolar a nuca nua
    Que me alucina e que eu nao domo!...
         Evoe' Momo!

    A Lira etérea, a grande Lira!...
    Por que eu extatico desfira
    Em seu louvor versos obscenos,
         Evoe' Venus!


               Manoel Bandeira (publicada em 1918)

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vem de o domingo na poesia segundo vários escritores - 18 - os bobos e truões - 03

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Diogo Rivera -- Revolução Mexicana
Diogo Rivera -- Revolução Mexicana



Caravaggio - Os trapaceiros
Caravaggio - Os trapaceiros



Caravaggio - Baco

Caravaggio - Baco

Vigee Lebrun - Bacchante

Vigee Lebrun - Bacchante

Frieze in Seefeld (Zürich) por A. Meyer (1900)

Frieze in Seefeld (Zürich) por A. Meyer (1900)

O jovem Baco e seus seguidores, (1884) de William-Adolphe Bouguereau

O jovem Baco e seus seguidores, (1884) de William-Adolphe Bouguereau

A Bacanal, de Peter Paul Rubens.

A Bacanal, de Peter Paul Rubens.