Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
domingo, 6 de setembro de 2026
Daniel Oliveira - Os conservadores não voltaram, entregaram-se
segunda-feira, 27 de julho de 2026
Daniel Oliveira ~ Smart Glasses are watching you!
* Daniel Oliveira
Os óculos inteligentes da Meta, que gravam sem se notar, são o novo negócio assente na erosão de um luxo que a humanidade levou séculos a conquistar e está a morrer: a privacidade. Já não é o Estado quem nos vigia, mas quem lucra com os nossos dados.
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Dilara,
de 21 anos, estava na hora de almoço quando um homem puxou conversa e a filmou.
O vídeo foi parar ao TikTok, chegou a 1,3 milhões de visualizações e incluía o
número de telefone dela. Foi inundada de chamadas e mensagens, e chegou a ter
homens desconhecidos a aparecer no seu local de trabalho. Denunciou o vídeo ao
TikTok e a resposta foi que não tinha sido encontrada "nenhuma
violação". Kim,
de 56 anos, foi filmada numa praia, numa conversa em que partilhou pormenores
sobre a entidade patronal e a família que nunca teria revelado se soubesse que
a câmara estava ligada. O vídeo ultrapassou os 6,9 milhões de visualizações no
TikTok e recebeu mais de 100 mil gostos no Instagram, e Kim descreveu sentir-se
"como um pedaço de carne". Nenhuma das duas consentiu.
quinta-feira, 23 de julho de 2026
Daniel Oliveira - Os Estados Unidos eram mesmo um modelo de democracia?
* Daniel Oliveira
"A shining city upon a
hill." Era assim que os Estados Unidos se viam e queriam que o mundo os
visse — um modelo, um farol, uma democracia exemplar. Durante décadas, o mundo
acreditou. Trump não criou as fragilidades que esta narrativa escondia. Mas
tornou impossível continuar a ignorá-las. Um exercício de memória e de factos
sobre o maior mito político do século XX
"City upon a hill." A
expressão vem de um sermão de 1630, antes ainda de existir nação. John Winthrop
usou-a para descrever uma comunidade cristã exemplar. Ronald Reagan
ressuscitou-a, acrescentou-lhe “shining” e transformou-a em marca geopolítica: os
Estados Unidos como farol do mundo livre, modelo que os outros deviam imitar.
Durante décadas, o mundo — e os próprios americanos — aceitou a narrativa com
uma deferência que raramente se concede a outros países. Havia razões para
isso.
quinta-feira, 2 de julho de 2026
Daniel Oliveira - Arrábida: a areia que sobra
* Daniel Oliveira
A polémica dos
chapéus de sol em frente às concessões foi só um episódio de uma guerra que mal
começou. A praia é um dos últimos redutos de propriedade pública disponível
para todos. Num país que fez do litoral um resort para não residentes, em que a
praia deve ser exclusiva, o domínio público marítimo é visto como um obstáculo
económico. Na Arrábida, a família Mirpuri foi a tribunal reclamar cinco praias.
Se não resistirmos, a areia que é nossa pode não sobrar por muito tempo
Durante anos,
milhares de portugueses chegaram à praia, olharam para a frente das concessões
privadas e pensaram: "Aqui não posso pôr o chapéu." A feliz surpresa
veio quando o presidente da APA classificou como "abuso" a proibição
de colocar chapéus de sol em frente às concessões. Este braço de ferro é o
mesmo que se trava um pouco por toda a costa: entre a
pressão privada para retirar à maioria o que é de todos e a resistência de uma
instituição pública que os portugueses parecem valorizar mais do que qualquer
outra.
segunda-feira, 29 de junho de 2026
Daniel Oliveira - Imigração: foi a economia, estúpido!
* Daniel Oliveira
(Expresso 2026 06 29)
Foi a economia,
mais do que a lei, que determinou as oscilações migratórias. Mesmo assim,
envelhecemos e a população ativa só cresceu graças aos imigrantes. A questão
não é se 14% é demais. É o que seríamos sem eles. Pressionam serviços públicos
porque os preparámos para o deserto demográfico. Recebemos imigração pouco
qualificada e desintegrada porque é isso que o modelo económico extrativista e
com pouco valor acrescentado absorve. A questão não é quem entra. É mudar o que
o país oferece. A eles e a nós
A mudança de
metodologia usada pelo INE pôs fim ao apagão estatístico. Portugal terá
11,4 milhões de residentes, 1,6 milhões estrangeiros — 14% da população total.
Entre 2021 e 2025, a população estrangeira mais do que terá duplicado. E
atingimos um número de habitantes surpreendente. Como estes números obrigam a
rever indicadores como camas hospitalares por habitante, professores por aluno,
contribuintes por beneficiário da Segurança Social (sobre o impacto que isto
tem no PIB per capita e a metodologia usada, aconselho a leitura do texto de
Susana Peralta) e toda a política pública, devem ser escrutinados para alem do
mero debate político. Como o presidente do INE explicou, não é fácil
contabilizar as saídas para o espaço Schengen (que terão sido
significativas). Ainda assim, será o estudo mais robusto feito até agora.
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Daniel Oliveira- Trump perdeu a guerra
segunda-feira, 15 de junho de 2026
Daniel Oliveira - O trilionário que promove pogroms
Opinião
As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional nas mãos de milionários, onde paramilícias encontram uma nova logística para os seus pogroms. Musk não é um nome lateral no que aconteceu em Belfast. É um dos seus maiores instigadores e promotores. E Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Ou os governos europeus regulam as redes ou podem organizar as exéquias das suas democracias.
Se há cidade europeia que sabe o
que é um motim, é Belfast. Cada bairro tem memória, cada
rua tem um lado, cada muro recorda uma ferida antiga. Por isso, as imagens
pareceram tão familiares. Casas queimadas, lojas vandalizadas, famílias
arrancadas dos seus prédios a meio da noite, um bebé de dois meses
retirado de casa pela polícia, agentes feridos, mais de duas dezenas de pessoas
sem teto. Belfast conhece de cor todas as declinações
da violência sectária. Só mudou o alvo.
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Daniel Oliveira - A bebedeira suicida do PSD
* Daniel Oliveira
Montenegro está
a cavar uma crise de identidade no PSD. Sim, pode matá-lo. A Europa
é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo
para pouca política
11 junho 2026
Ométodo diz da
função. Em poucas semanas, o Governo multiplicou-se em chico-espertices que
sintetizam a carreira da inseparável parelha Montenegro-Soares. A votação da
lei laboral foi marcada para meio do Mundial, para facilitar a negociação com o
Chega, que está mortinho por aprová-la. Uma autorização legislativa sobre a
Prestação Social Única (PSU) retira ao Parlamento o essencial do debate,
impondo a chantagem do risco de perder €620 milhões do PRR por um prazo que o
Governo conhecia há anos. O Chega apresentou a sua proposta de revisão
constitucional, a lei dava um mês para outros o fazerem, mas Aguiar-Branco,
para permitir a negociação com o PSD, não a admitiu e criou o precedente de ser
ele a definir quando começam a contar os prazos. Votar pela calada, chantagear
com urgências fabricadas, dobrar regras que incomodam.
Quanto à
política, depois dos de baixo da imigração, chegou a vez dos de baixo da
pobreza. O padrão é excitar o ressentimento que rende. Na lei da imigração o
Governo recorreu à demagogia das “portas escancaradas” e as primeiras
consequências, segundo notícias, estão a ser a partida de imigrantes de que a
economia depende. Na PSU o alvo mudou, mas a lógica mantém-se. A ideia era,
unificando 13 prestações, simplificar o acesso, reduzir a estigmatização,
tornar o sistema mais legível. O Governo complexificou o acesso, introduziu
novas formas de exclusão e transformou a reforma num instrumento de controlo.
Num país desigual, que gasta em proteção social menos percentagem do PIB do que
a Europa, a pobreza é tratada como um vício de que se suspeita, se vigia e se
pune. Está prevista uma equipa para gerir denúncias de vizinhos sobre quem tem
carro, usa smartphone e pede apoio, nada para mais acompanhamento ou inserção.
E propõe-se trabalho social obrigatório sem qualquer estratégia de
empregabilidade. Só trabalho sem salário, sem direitos, sem contrato, sem
horizonte. Não quebra nenhuma espiral de dependência com formação e acesso a
oportunidades, apenas pune quem nela está.
A política do
ressentimento pode garantir aplausos, mas não constrói um perfil de governo
sustentável. O PSD parece acreditar que, pegando nas bandeiras mais populares
do Chega, disputa os seus eleitores. Só que as pessoas vão aprendendo a farejar
o oportunismo. Quem queria um Governo com a agenda do Chega votou no Chega. Do
PSD esperava resultados na habitação e no SNS, duas das três principais
preocupações dos portugueses, depois da corrupção, onde a imagem também não é a
melhor. A última sondagem para o Expresso exibe o equívoco de Montenegro. Os
eleitores do PSD avaliam o Chega com 2,8 em 10 — pior do que o BE e o PCP (2,9)
e muito pior do que o PS (4,5). E quando se lhes pede uma palavra para
descrever os apoiantes do Chega, 23% escolhem “ameaça extremista”, 41% usam
termos como “fascistas”, “extremistas”, “corruptos” ou “malucos”. Montenegro
está a fazer política para um eleitorado que os seus eleitores consideram uma
ameaça. Há, claro, a possibilidade de o taticismo ser ainda mais retorcido e,
depois do bruaá, recuar na PSU para ter o voto do PS, aprovar a lei laboral com
o Chega e, limitando-se a apresentar o modelo inicial da prestação, dar a ideia
de equidistância. À hora que escrevo não o sei. Sei que é sempre o mesmo:
tática, tática e mais tática.
Costa
desbaratou a maioria absoluta de 2022 porque o cálculo esteve sempre à frente
de qualquer desígnio. O resultado foi o desastre que se seguiu e uma
dificuldade do PS em recuperar os eleitores que perdeu. De tal forma que se pôs
a hipótese de o declínio ser irreversível. Montenegro está a cometer o mesmo
erro, com um taticismo ainda mais desalmado. Só que o contexto é mais instável,
o espaço político à sua direita está em rapidíssima mutação e as consequências
podem ser mais destrutivas. O problema não é apenas estar a governar mal, ao
ponto de, ao fim de dois anos, Carneiro o ter ultrapassado nas sondagens. É
estar a cavar uma crise de identidade no PSD. Conhecemos este filme noutros
países europeus: partidos de centro-direita (e até de centro-esquerda) que
tentaram competir com a extrema-direita no seu próprio terreno acabaram por
perder dos dois lados. E o esvaziamento do PSD é até mais fácil de consumar do
que o do PS: à direita há vários partidos prontos a absorver os fugitivos e o
PS pode facilmente ocupar o centro deixado vago. Ou então o cenário
alternativo, porventura mais perigoso: um Chega com eleitorado sólido e
fidelizado, enquanto PS e PSD se vão esburacando e alternando no poder. Sim,
Montenegro pode matar o PSD. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes
da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca
política.
domingo, 7 de junho de 2026
Daniel Oliveira - Pôr os de baixo na ordem
* Daniel Oliveira
Os debates
sobre imigração, apoios sociais e produtividade foram capturados por uma elite
rentista que naturaliza a desigualdade persistente, prometendo pôr na ordem os
de baixo — imigrantes, pobres e trabalhadores —, enquanto os mobiliza contra os
que estão no degrau inferior da escada classista
04 junho 2026
Aburguesia
nacional fez-se sobretudo pela captura de rendas e pela proximidade ao poder
político. À sombra do ouro do Brasil, dos monopólios coloniais, do
condicionalismo industrial, das privatizações que lhe ofereceram monopólios ou
oligopólios, de fundos europeus desbaratados, de concessões de serviços
públicos. Em cada momento histórico açambarcou valor em vez de o criar. Hoje,
assistimos ao bloqueio a qualquer regulação da transferência massiva de capital
de áreas produtivas para o imobiliário, que não arrisca ou compete. Mas o
rentismo não produziu apenas uma estrutura económica viciada e avessa à
inovação. Produziu uma cultura.
terça-feira, 12 de maio de 2026
Sófia Puschinka - Na morte de Carlos Brito
quinta-feira, 26 de março de 2026
Daniel Oliveira - Chega nas autarquias: Sorria, foi enganado outra vez e sabia
* Daniel Oliveira
Desvinculações
do partido para ganhar pelouros, casos, nomeações escandalosas, balbúrdia entre
vereadores. Nada disto é surpreendente no partido que queria acabar com os
tachos e a bandalheira, mas é a rampa de lançamento de quem não conseguiu
lugares noutros lados. Não é provável que os seus eleitores não o saibam. Mas
não é um voto de exigência, é um voto de desistência
Em várias
autarquias houve acordos com o Chega, sobretudo em câmaras do PSD. De uma forma
ou de outra, formal (Sintra) ou informalmente (Lisboa), os vereadores do Chega
ajudaram a construir maiorias em cinco dos seis maiores concelhos do país. Isto
seria uma estratégia de poder. Mas na maior parte das câmaras talvez seja
difícil falar de estratégia.
Em apenas cinco
meses fora oito os vereadores eleitos pelo Chega que abandonaram o partido
e passaram a independentes: em Lisboa, Ana Simões
Silva (eleita por um voto de diferença) desfiliou-se e integrou o
executivo de Carlos Moedas, assumindo os pelouros da Saúde e do Desperdício
Alimentar. Em Vila Nova de Gaia, António Barbosa seguiu o
mesmo caminho e entrou no executivo de Luís Filipe Menezes com
pelouros das Feiras, Mercados, Ambiente e Bem-Estar Animal. Em Coimbra,
Maria Lencastre Portugal desfiliou-se e foi nomeada para funções executivas
numa empresa municipal de Ana Abrunhosa, do PS. Em Mirandela,
Luís Saraiva conseguiu sair do partido ainda antes da tomada de
posse, deixando claro ao que vinha. No Funchal, Luís Filipe Santos
e Jorge Afonso Freitas saíram do partido, mas mantiveram-se sem pelouros. O
mesmo aconteceu na Marinha Grande, com Emanuel
Vindeirinho. E em Ourém, Rita Sousa renunciou ao mandato,
o que é um pouco diferente.
Em poucos
meses, o Chega já soma mais casos de demissões, desvinculações e
ruturas do que partidos com muito mais vereadores e presidências de
câmara. Mais do que divergências, é gente à procura de um lugar ao sol.
Em São
Vicente, na Madeira (outro dos três concelhos
conquistados pelo Chega), o presidente retirou os pelouros aos outros
vereadores do seu partido e governa sozinho. Em Portimão, 19 eleitos
do Chega a ameaçarem demitir-se em bloco porque dois dos três vereadores
do partido viabilizaram o orçamento do PS. Dizem que o fizeram porque o
orçamento é bom. Permitam-me duvidar.
Em Lisboa,
o vereador que não abandonou o partido queimou-se com
a nomeação da Mafalda Livermore para a administração dos
Serviços Sociais da Câmara. A sua namorada é alvo de investigação por
burla e exploração de imigrantes. Mas as nomeações de pessoas demasiado
próximas é um clássico no partido que ia lutar contra o nepotismo – Rui
Cristina, presidente da Câmara de Albufeira, levou a irmã para assessora.
Explicou-se: “Sei que todos os presidentes de câmara gostariam de ter uma
irmã qualificada como esta para trabalhar em prol dos munícipes”.
Onde não há
debandada há balbúrdia.
Tudo contrasta
com o partido que promete acabar com a bandalheira, o oportunismo e os
arranjinhos do sistema. Mal se aproximam dos únicos tachos a que
já têm acesso, ninguém lhes ensina nada. Porque o Chega não
passa de uma rampa de lançamento para quem foi rejeitado por outros
partidos. Cresceu muito e depressa, tem falta de quadros e recebeu o refugo
de carreiristas que, chegados ao poder, tratam da vidinha. Sejamos
justos: estando longe do poder nacional, ainda são carreiras de pouca ambição.
Nada
disto deveria surpreender os eleitores. Já no mandato
anterior o Chega acumulava episódios nas autarquias e na
Assembleia da República. O deputado Miguel Arruda foi só o mais
mediático, por ser risível. Num recorde absoluto de problemas com a justiça,
há dirigentes e deputados do partido da “lei e da
ordem” envolvidos em processos que vão da condução sob efeito de
álcool a abuso de menores – esta semana já vai no quinto suspeito de
pedofilia.
Não
é provável que a maioria dos eleitores do Chega desconheça
estes casos. Que não saiba que os vereadores que elegeu saltaram para
fora do partido para chegar ao pote. Que viva a leste do destino do seu voto.
Alguns estarão de tal forma fanatizados que
ou justificarão o injustificável ou
encontrarão consolo no burocrático distanciamento do líder cada
vez que algum caso chega aos jornais. O eleitorado do Chega é o sonho
de qualquer político: dá tudo sem exigir nada.
Mas a maioria
apenas confirma a tese que tenho há algum tempo: o voto no Chega não é dos
desiludidos da democracia, mas dos que desistiram dela. Não é um voto
de exigência, é um voto de desistência. Não querem abalar o sistema,
aceitam a caricatura do sistema, porque “eles são todos
iguais”. Estão-se nas tintas. Já não esperam nada. Sobretudo daqueles
em quem votam.
2026 03 26
sábado, 14 de março de 2026
Daniel Oliveira - A Gestapo e a Stasi globais
* Daniel Oliveira
A Anthropic recusou permitir o uso
da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão
humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá
consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo
será tecnológico
12 março 2026
Enquanto o mundo acompanha a
guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais
profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA),
criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas
e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proibição de vigilância em massa
dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão
humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de
esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar
guerras.
A resposta da Administração foi
declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma
designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem,
como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que
nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a
Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é
a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a
guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo
Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado
pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi
com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no
Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento
que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.
Ninguém compra um tanque e aceita
que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump.
Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com
consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic,
que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são
na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A
Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar
imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a
contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada
norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra
que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir
conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos.
Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.
Roberto Schmidt/Getty Images
As leis, os regulamentos e as
salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não
controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e
ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos
construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos.
Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para
não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um
contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do
concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta
insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio
nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas
mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização
de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis
acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.
Já sabemos que chegue para
perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade
impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas
levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento social. Temo
que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade
existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o
seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não
formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e
aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as
escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas
mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A
diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um
suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido,
deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma
construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será
tecnológico. E ele aí está.
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
Daniel Oliveira - Ontem não houve festa
*Daniel Oliveira
Ao tentar
equiparar o 25 de Novembro ao 25 de Abril, a direita celebra-o à revelia de boa
parte dos seus autores. Inventa uma rutura procurando a revanche derrotada. A
clarificação com alguma esquerda foi a revisão constitucional de 1983 e a
adesão à CEE, mais relevantes do que mais uma curva no sinuoso processo
revolucionário. Procuram um substituto do 25 de Abril porque a festa exclui
aliados de que precisam. Só que essa aliança também foi derrotada em novembro.
O 25 de
Novembro não era tema nem cisma. A forma como, cinquenta anos
depois, e aproveitando o crescimento da extrema-direita (a própria coincidência
é um insulto à data), se força até ao limite a equiparação simbólica com o 25
de Abril, nada tem a ver, como acontece em Espanha, com um problema
por resolver com a nossa memória coletiva e com a disputa entre a esquerda e a
direita pela história. Tem a ver com um problema interno que a direita precisa
de resolver. Porque a unidade em torno da data fundadora da democracia inclui
quem eles não queriam e exclui aqueles de quem precisam. Para o conseguir,
inventaram um 25 de Novembro que não aconteceu. De tal forma, que o celebram
contra boa parte dos seus autores.
O CDS e o
Chega, com a anuência de um PSD liderado por gente sem cultura política ou
histórica, estão a reinventar o 25 de Novembro como uma data de rutura, quase
refundadora. Houve atropelos, sedes queimadas, ocupações, terrorismo de direita
e violência de esquerda e luta intensa pelo poder, mas as primeiras
eleições livres aconteceram antes, a 25 de abril de 1975, e a censura e
as liberdades cívicas foram conquistadas ainda em 1974.
A esquerda
comunista e, ainda mais, a extrema-esquerda (num tempo em que ela existia)
foram contidas, a 25 de novembro, assim como os saudosistas
que sonhavam impedir a liberdade e a
descolonização plenas o foram, a 28 de setembro, data que não
celebramos. Tudo compreensível, à distância,
num processo que foi revolucionário, não de mera transição. Quem
queira perceber melhor, pode ler o último artigo de
Pacheco Pereira.
Como já
explicaram vários autores do 25 de Novembro, houve um reequilíbrio de forças,
como já tinha acontecido a 11 de março ou 28 de setembro. Se dúvidas
houvesse, o governo, o Presidente, o Conselho da Revolução, as leis e
as instituições mantiveram-se. Houve apenas, e a isso se resume aquela
crise militar, uma mudança na correlação de forças políticas e militares.
Basta recordar
que o PPD, que queria colocar-se claramente à esquerda, começou por concordar
com a grande vaga de nacionalizações, para perceber que as dicotomias claras
que hoje se descrevem eram muitíssimo mais complicadas e contraditórias na
altura. Até o papel do PCP no 25 de Novembro não é, ainda hoje, evidente. Nem
há qualquer consenso histórico sobre a tentativa ou capacidade de o PCP
tomar o poder no extremo ocidental da Europa e num país da NATO. Desde
a Primavera de Praga que se sabia que a divisão da Europa era aceite pelas duas
potências globais.
A direita
também está a reinventar o 25 de Nnovembro à luz dos desejos de alguns, à
época. Os que Chega, IL e CDS têm como heróis do 25 de Novembro foram
derrotados por Melo Antunes ou Vasco Lourenço, que impediram que o
golpe se transformasse numa revanche de sentido contrário, na caça ao
comunista, na ilegalização do PCP e na redução de liberdades, que, aos seus
olhos, teriam sido excessivas. Se o 25 de Novembro tivesse sido o que queriam,
seria a antítese do 25 de Abril. Não foi. A aliança que se fez para
celebrar o 25 de Novembro, que a direita agressiva queria transformar num
recuo, foi derrotada há 50 anos.
A história sempre
foi lugar de combate. Está sempre a ser reescrita, porque é
um olhar do presente, nas suas circunstâncias e com as suas necessidades, sobre
o passado. É por ter sido reescrita pela conveniência que Otelo
deu lugar a Salgueiro Maia, no lugar de herói de Abril, apesar de o primeiro
ter sido muitíssimo mais determinante do que o segundo. Foi o que Otelo
fez depois que determinou o seu lugar histórico em acontecimentos
anteriores. É também por isso que a direita tenta que Jaime
Neves substitua Vasco Lourenço, mas sem sucesso. Estas comemorações à revelia
de boa parte dos seus autores conseguiram o feito de não ter a
presença e apoio de ninguém do Grupo dos Nove, os militares
moderados que foram o motor político do 25 de Novembro.
A tentativa
de reescrever aquele momento é tal, que ouvi, na
TSF, Paulo Núncio dizer que Vasco Lourenço nunca
acreditou na democracia que teríamos conquistado naquele
dia. Chegámos ao ponto de ver quem nada teve a ver
com o 25 de Novembro tratar a data como uma derrota de
quem a preparou, executou e celebrou.
Mas
esta reescrita da história do país é, antes de tudo, uma
reescrita da história da direita. Não é uma tentativa de excluir
o PCP da festa democrática. Como escreveu Henrique
Raposo num texto nada centrista, esses momentos estão na revisão constitucional
de 1983 ou na adesão à CEE, muitíssimo mais
significativas do que mais uma curva no sinuoso processo
revolucionário. E essa é uma disputa antiga e resolvida. O que se
tenta é integrar na festa democrática quem se sente derrotado por Abril. Porque
estes saudosistas são necessários para haver uma maioria de direita.
Os que nunca
quiseram usar o cravo ao peito não querem corrigir a nossa
história, querem corrigir a sua. E esta celebração serve
para tentar relativizar a data que parte desta
direita (o Chega e até o CDS, que se autoexcluiu do arco
constitucional), nunca suportou. Não se sentem excluídos da festa que
realmente une o país (como se viu pela impressionante manifestação do 50º
aniversário) por terem sido empurrados para fora dela,
mas porque parte nunca lá esteve, nem de facto, nem de coração.
Procuram o seu 25 de Abril.
Ontem, como se
esperava, não houve festa. Porque a equiparação é impossível.
O 25 de Abril é, pela sua natureza única e admirada em todo o
mundo, uma festa popular. Não há povo em novembro. Não
porque a data não seja importante (já escrevi várias vezes que o
25 de Novembro e o PREC fazem parte, com as suas
contradições, do ADN necessario à nossa democracia), mas porque,
contra a vontade dos seus autores, querem que ela seja o que não foi. E se
querem substituir uma data de todos por uma para cada um dos lados, vão ficar a
perder.
Não é por acaso
que as cerimónias de ontem aconteceram sem boa parte dos construtores desta
ação militar. É porque esta celebração forçada nada tem a ver com o país. É
a direita a resolver as suas próprias mágoas e ausências históricas. Só que,
mesmo em novembro, tiveram um papel secundário. Também aí, foi a esquerda,
nos seus combates internos, que liderou. A direita democrática estava, como
disse Marcos Perestello, “enfraquecida, amedrontada e desorientada e com as
lideranças ausentes ou paralisadas”. E os saudosistas mais ou menos
explícitos do Estado Novo, que o resto da direita agora quer juntar à sua
festa, para poder normalizá-los, também foram derrotados.
domingo, 21 de setembro de 2025
Daniel Oliveira - Vítima não é herói
* Daniel Oliveira
18 setembro
2025
O assassínio de
Kirk não é encarado como mais um triste episódio de violência política nos EUA,
onde 76% foram vítimas da extrema-direita. É uma oportunidade para repetir um
guião: semear a violência e a desordem para, quando as sociedades se entregam a
esta bebedeira, impor a ordem autoritária
Uma morte é uma
morte, e a violência política é sempre um ataque à democracia, mesmo quando a
vítima é inimiga da democracia. Isso não permite erguer uma estátua a Charlie
Kirk. Porque uma vítima não é obrigatoriamente um herói. Kirk não era um
ativista conservador, como tenho lido por aí. Defendia a teoria da “grande
substituição”, que os negros viviam melhor quando eram escravos, que as
execuções deveriam ser televisionadas, patrocinadas e vistas por menores, que a
pena de morte devia ser aplicada a alguns opositores de Trump e que as mortes
de crianças em tiroteios escolares eram um custo aceitável de “direitos dados
por Deus”.
Não é todos os
dias que se vê um assassínio político em direto. Em minutos, o vídeo do disparo
já circulava no TikTok, no Instagram, no X, no Facebook, em grupos de
WhatsApp... Sangue, morte e likes. Os algoritmos privilegiaram os vídeos mais
grotescos, as músicas mais dramáticas, as teorias da conspiração. Um deles, com
milhões de visualizações no TikTok, mostrava a bala a atingir, num plano
fechado e numa excruciante câmara lenta, o pescoço da vítima. O autoplay das
redes disparou mais rápido do que a bala. Milhões foram apanhados desprevenidos
pela violência que lhes tomou os ecrãs. Investigadores citados pela “Wired”
garantem que a maior parte dos vídeos não tinha qualquer aviso sobre o seu
carácter violento e, vários dias depois, continuavam a circular livremente.
Controlar a emoção é controlar a reação.
Em 2020, o FBI
travou um plano para raptar Gretchen Whitmer, governadora do Michigan. Em 2022,
o marido de Nancy Pelosi teve o crânio fraturado por um invasor da sua casa. Em
2025, bombas caseiras foram lançadas sobre a casa do governador Josh Shapiro. Melissa
Hortman, antiga presidente da Câmara dos Representantes do Minnesota, e o seu
marido foram assassinados. O senador John Hoffman e a sua mulher foram
alvejados. Em todos os casos, com uma fração da atenção agora dada a Charlie
Kirk. 76% das vítimas de atentados cometidos por extremistas, na última década,
nos EUA, foram mortas por grupos ou indivíduos ligados à extrema-direita. Mas,
questionado pela Fox sobre a necessidade de unir o país quando existirão grupos
radicais dos dois lados, Trump respondeu que “os radicais da direita são
radicais porque não querem ver crime, os radicais da esquerda são o problema, a
pior coisa que aconteceu a este país”. Anunciou que vai classificar Antifa e
outros grupos de esquerda como terroristas. Como já tem acontecido em relação à
imprensa, a instituições públicas, à justiça e às universidades, isto quer
dizer censura, repressão e limpeza cultural.
Adam
Berry/Getty Images
Em poucos dias,
várias pessoas foram despedidas por terem feito publicações desagradáveis sobre
Kirk, tendo sido criado um site para expor quem critique o novo mártir. A ABC
suspendeu o “Jimmy Kimmel Live” por comentários bastante comedidos do
humorista, porque a liberdade de expressão sem limites defendida por Kirk e
Trump acaba, como é evidente, em Kirk e Trump. Em cinco dias, o congressista do
Wisconsin Derrick Van Orden escreveu 550 tweets sobre uma “segunda Guerra
Civil” e apelando à violência contra democratas e jornalistas. Musk passou uma
semana a promover a manifestação da extrema-direita que espalhou o caos pelas
ruas de Londres e, à distância, defendeu a violência como resposta e a queda de
um Governo democraticamente eleito. O assassínio de Kirk não é mais um triste
episódio de violência política nos EUA. É, para a extrema-direita, Trump e
Musk, uma oportunidade.
Ao sair, há uns
dias, do Museu do Centro de Documentação de Munique para a História do
Nacional-Socialismo, mesmo ao lado da antiga sede do NSDAP, senti-me oprimido.
Pela evidência de que a História não se repete, mas rima. No racismo, na
xenofobia, no antifeminismo, na homofobia, na escolha de grupos vulneráveis
como fonte de todos os males, no ódio à “arte degenerada”, nos de bem e nos
demais, na tibieza da reação, na normalização pública, na infiltração nas
instituições, na instrumentalização das forças de segurança, no financiamento
de milionários para que a revolta se vire para os de baixo, na cumplicidade da
direita conservadora. E é porque a História rima que acabaremos por ter o
incêndio do Reichstag, provocado pelos próprios ou por crimes de outros. O
guião da extrema-direita, pelo menos desde a ascensão ao poder de Mussolini ou
Hitler, foi sempre o mesmo: semear a violência e a desordem para, quando as
sociedades se entregam a esta bebedeira, imporem a sua ordem autoritária.
Estamos a entrar na segunda fase.
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
Daniel Oliveira - Violência doméstica: o crime sem “outro”
* Daniel Oliveira
A violência doméstica não nos apanha desprevenidos, na rua. Não nos assusta. E não tem classe, credo, cultura ou cor. De tão democrática, conseguimos integrá-la, ignorando as suas vítimas, que tantas vezes nos são próximas. Desde que fique invisível. Quando é mostrado, o país com pouco crime e que fala tanto dele, com tanta violência doméstica e que tão pouco fala dela, olha-se ao espelho
Éimpressionante o poder da imagem mediada. Por vários dias,
as televisões transmitiram uma cena de violência doméstica, em que um
bombeiro de Machico espancava a mulher à frente do filho de nove anos, que
suplicava pelo fim da tortura de que também ele era vítima. Este vídeo,
captado graças a uma câmara de segurança, retrata uma cena quotidiana. Uma cena
banal num país que passa o tempo a debater o choque com culturas imigrantes que
não respeitam as mulheres. O padrão é o de sempre: um homem que ficou “cego”
depois de ler umas mensagens e está profundamente arrependido, até voltar a
ficar cego.
No ano passado, a APAV apoiou 12 mil vítimas (mais de 80%
mulheres), o que corresponde, como sabemos, a uma gota num oceano de silêncio.
Mais de metade vivia em situação de violência continuada. Foram assassinadas
22 pessoas (19 mulheres) em contexto de violência doméstica. A PSP e a
GNR registaram mais de 30 mil queixas, mais outra gota no oceano.
Basta pensar que, das 12 mil vítimas apoiadas pela APAV, só metade apresentou
queixa – são condenados, anualmente, de dois a quatro mil agressores. E, ao
contrário do que já pensámos, as coisas não estão com ar de melhorar. 66% dos
jovens que já namoraram dizem ter sofrido, pelo menos, uma forma de
violência no namoro.
A violência doméstica é o crime violento mais comum em
Portugal. No
entanto, não povoa o discurso dos políticos que vivem do medo e do alarmismo
nem a comunicação social que faz disso negócio. Porque não permite
alimentar o ódio ao outro: ao que vive no bairro social, ao cigano, ao
imigrante. É um crime democrático. Cometido pelos nossos vizinhos, familiares,
gente de todas as classes e credos, culturas e cores.
Nem é um crime cometido pelo "outro", nem nos pode apanhar desprevenidos, na rua. Não povoa os nossos medos, não nos assusta. Não alimenta o terror do cidadão comum. De tão democrático, conseguimos mantê-lo integrado no nosso quotidiano, ignorando as suas vítimas, que tantas vezes nos são próximas. Desde que, claro, fique invisível. Quando é mostrado, num país com pouco crime e que fala tanto dele, com tanta violência doméstica e que tão pouco fala dela, acordamos para o nosso quotidiano, para os nossos verdadeiros "valores", sem estrangeiros, pobres ou ciganos para culpar. E o espelho é lixado.

