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domingo, 6 de setembro de 2026

Daniel Oliveira - Os conservadores não voltaram, entregaram-se

* Daniel Oliveira

Os conservadores dizem-se obrigados a transmitir, preservado, o que herdaram: a paisagem, a língua, a casa, a fé, as instituições, um modo de vida. Mas aliaram-se a quem calcula sobreviver melhor do que os outros à liquidação da própria ideia de ser humano

03 setembro 2026

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Deixando de lado a probabilidade de o conservadorismo não passar da defesa de uma hierarquia ameaçada por movimentos de emancipação vindos de baixo, sempre disposto a mudar tudo para que tudo fique na mesma, aceitemos o que os conservadores dizem sobre si mesmos. Que se sentem obrigados a transmitir, preservado, o que herdaram. A paisagem, a língua, a casa, a fé, as instituições, um modo de vida. “Move fast and break things” é a promessa contrária. E foi a esse campo que se juntaram. Assistimos à vitória de libertários que consomem as condições da sua própria existência e chamam a isso futuro. É o estertor do neoliberalismo, não a fundação de coisa alguma. E os conservadores, ou pelo menos a forma como pensam em si mesmos, estão tão derrotados como os progressistas.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Daniel Oliveira ~ Smart Glasses are watching you!


* Daniel Oliveira

Os óculos inteligentes da Meta, que gravam sem se notar, são o novo negócio assente na erosão de um luxo que a humanidade levou séculos a conquistar e está a morrer: a privacidade. Já não é o Estado quem nos vigia, mas quem lucra com os nossos dados.

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Dilara, de 21 anos, estava na hora de almoço quando um homem puxou conversa e a filmou. O vídeo foi parar ao TikTok, chegou a 1,3 milhões de visualizações e incluía o número de telefone dela. Foi inundada de chamadas e mensagens, e chegou a ter homens desconhecidos a aparecer no seu local de trabalho. Denunciou o vídeo ao TikTok e a resposta foi que não tinha sido encontrada "nenhuma violação". Kim, de 56 anos, foi filmada numa praia, numa conversa em que partilhou pormenores sobre a entidade patronal e a família que nunca teria revelado se soubesse que a câmara estava ligada. O vídeo ultrapassou os 6,9 milhões de visualizações no TikTok e recebeu mais de 100 mil gostos no Instagram, e Kim descreveu sentir-se "como um pedaço de carne". Nenhuma das duas consentiu.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Daniel Oliveira - Os Estados Unidos eram mesmo um modelo de democracia?

* Daniel Oliveira

"A shining city upon a hill." Era assim que os Estados Unidos se viam e queriam que o mundo os visse — um modelo, um farol, uma democracia exemplar. Durante décadas, o mundo acreditou. Trump não criou as fragilidades que esta narrativa escondia. Mas tornou impossível continuar a ignorá-las. Um exercício de memória e de factos sobre o maior mito político do século XX

"City upon a hill." A expressão vem de um sermão de 1630, antes ainda de existir nação. John Winthrop usou-a para descrever uma comunidade cristã exemplar. Ronald Reagan ressuscitou-a, acrescentou-lhe “shining” e transformou-a em marca geopolítica: os Estados Unidos como farol do mundo livre, modelo que os outros deviam imitar. Durante décadas, o mundo — e os próprios americanos — aceitou a narrativa com uma deferência que raramente se concede a outros países. Havia razões para isso.

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Daniel Oliveira - Arrábida: a areia que sobra

* Daniel Oliveira

A polémica dos chapéus de sol em frente às concessões foi só um episódio de uma guerra que mal começou. A praia é um dos últimos redutos de propriedade pública disponível para todos. Num país que fez do litoral um resort para não residentes, em que a praia deve ser exclusiva, o domínio público marítimo é visto como um obstáculo económico. Na Arrábida, a família Mirpuri foi a tribunal reclamar cinco praias. Se não resistirmos, a areia que é nossa pode não sobrar por muito tempo

Durante anos, milhares de portugueses chegaram à praia, olharam para a frente das concessões privadas e pensaram: "Aqui não posso pôr o chapéu." A feliz surpresa veio quando o presidente da APA classificou como "abuso" a proibição de colocar chapéus de sol em frente às concessões. Este braço de ferro é o mesmo que se trava um pouco por toda a costa: entre a pressão privada para retirar à maioria o que é de todos e a resistência de uma instituição pública que os portugueses parecem valorizar mais do que qualquer outra.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Daniel Oliveira - Imigração: foi a economia, estúpido!

* Daniel Oliveira 

(Expresso 2026 06 29)

Foi a economia, mais do que a lei, que determinou as oscilações migratórias. Mesmo assim, envelhecemos e a população ativa só cresceu graças aos imigrantes. A questão não é se 14% é demais. É o que seríamos sem eles. Pressionam serviços públicos porque os preparámos para o deserto demográfico. Recebemos imigração pouco qualificada e desintegrada porque é isso que o modelo económico extrativista e com pouco valor acrescentado absorve. A questão não é quem entra. É mudar o que o país oferece. A eles e a nós

A mudança de metodologia usada pelo INE pôs fim ao apagão estatístico. Portugal terá 11,4 milhões de residentes, 1,6 milhões estrangeiros — 14% da população total. Entre 2021 e 2025, a população estrangeira mais do que terá duplicado. E atingimos um número de habitantes surpreendente. Como estes números obrigam a rever indicadores como camas hospitalares por habitante, professores por aluno, contribuintes por beneficiário da Segurança Social (sobre o impacto que isto tem no PIB per capita e a metodologia usada, aconselho a leitura do texto de Susana Peralta) e toda a política pública, devem ser escrutinados para alem do mero debate político. Como o presidente do INE explicou, não é fácil contabilizar as saídas para o espaço Schengen (que terão sido significativas). Ainda assim, será o estudo mais robusto feito até agora.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Daniel Oliveira- Trump perdeu a guerra

» Daniel Oliveira

Trump chegou ao mesmo sítio onde estava antes da guerra. O Irão sairá com 24 mil milhões desbloqueados, petróleo a fluir, urânio em casa com a promessa que sempre fez, um plano de reconstrução e controlo claro do Estreito de Ormuz. E Trump não tem apoio interno, aliados externos e argumentos para recomeçar a guerra daqui a dois meses. Israel tentou sabotar, não conseguiu e está mais isolado do que em qualquer momento desde a sua fundaçãov

Olhemos para o que parece estar em cima da mesa para ser assinado sexta-feira em Genebra. O Irão congela o programa nuclear no estado atual, mas o urânio altamente enriquecido fica no seu território e mantem-se a promessa genérica de não desenvolver a arma nuclear, que sempre existiu e muito provavelmente terá menos garantias do que Obama tinha conseguido e que Trump rasgou. Os EUA libertam 24 mil milhões de dólares em ativos iranianos bloqueados. Levantam as sanções ao petróleo. Comprometem-se a um plano de reconstrução. O programa de mísseis balísticos não parece estar na agenda. O financiamento ao Hezbollah e aos Houthis também não. E, depois destes meses, fica claro o controlo iraniano do Estreito de Ormuz. Um país que perde uma guerra não sai com estas condições.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Daniel Oliveira - O trilionário que promove pogroms

 Opinião

As redes não são apenas espaço público digital, são sistemas de comando emocional nas mãos de milionários, onde paramilícias encontram uma nova logística para os seus pogroms. Musk não é um nome lateral no que aconteceu em Belfast. É um dos seus maiores instigadores e promotores. E Belfast não é apenas Belfast. É um aviso. Ou os governos europeus regulam as redes ou podem organizar as exéquias das suas democracias.

Se há cidade europeia que sabe o que é um motim, é Belfast. Cada bairro tem memória, cada rua tem um lado, cada muro recorda uma ferida antiga. Por isso, as imagens pareceram tão familiares. Casas queimadas, lojas vandalizadas, famílias arrancadas dos seus prédios a meio da noite, um bebé de dois meses retirado de casa pela polícia, agentes feridos, mais de duas dezenas de pessoas sem teto. Belfast conhece de cor todas as declinações da violência sectária. Só mudou o alvo.

sexta-feira, 12 de junho de 2026

Daniel Oliveira - A bebedeira suicida do PSD

* Daniel Oliveira

Montenegro está a cavar uma crise de identidade no PSD. Sim, pode matá-lo. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca política

11 junho 2026  

Ométodo diz da função. Em poucas semanas, o Governo multiplicou-se em chico-espertices que sintetizam a carreira da inseparável parelha Montenegro-Soares. A votação da lei laboral foi marcada para meio do Mundial, para facilitar a negociação com o Chega, que está mortinho por aprová-la. Uma autorização legislativa sobre a Prestação Social Única (PSU) retira ao Parlamento o essencial do debate, impondo a chantagem do risco de perder €620 milhões do PRR por um prazo que o Governo conhecia há anos. O Chega apresentou a sua proposta de revisão constitucional, a lei dava um mês para outros o fazerem, mas Aguiar-Branco, para permitir a negociação com o PSD, não a admitiu e criou o precedente de ser ele a definir quando começam a contar os prazos. Votar pela calada, chantagear com urgências fabricadas, dobrar regras que incomodam.

Quanto à política, depois dos de baixo da imigração, chegou a vez dos de baixo da pobreza. O padrão é excitar o ressentimento que rende. Na lei da imigração o Governo recorreu à demagogia das “portas escancaradas” e as primeiras consequências, segundo notícias, estão a ser a partida de imigrantes de que a economia depende. Na PSU o alvo mudou, mas a lógica mantém-se. A ideia era, unificando 13 prestações, simplificar o acesso, reduzir a estigmatização, tornar o sistema mais legível. O Governo complexificou o acesso, introduziu novas formas de exclusão e transformou a reforma num instrumento de controlo. Num país desigual, que gasta em proteção social menos percentagem do PIB do que a Europa, a pobreza é tratada como um vício de que se suspeita, se vigia e se pune. Está prevista uma equipa para gerir denúncias de vizinhos sobre quem tem carro, usa smartphone e pede apoio, nada para mais acompanhamento ou inserção. E propõe-se trabalho social obrigatório sem qualquer estratégia de empregabilidade. Só trabalho sem salário, sem direitos, sem contrato, sem horizonte. Não quebra nenhuma espiral de dependência com formação e acesso a oportunidades, apenas pune quem nela está.

A política do ressentimento pode garantir aplausos, mas não constrói um perfil de governo sustentável. O PSD parece acreditar que, pegando nas bandeiras mais populares do Chega, disputa os seus eleitores. Só que as pessoas vão aprendendo a farejar o oportunismo. Quem queria um Governo com a agenda do Chega votou no Chega. Do PSD esperava resultados na habitação e no SNS, duas das três principais preocupações dos portugueses, depois da corrupção, onde a imagem também não é a melhor. A última sondagem para o Expresso exibe o equívoco de Montenegro. Os eleitores do PSD avaliam o Chega com 2,8 em 10 — pior do que o BE e o PCP (2,9) e muito pior do que o PS (4,5). E quando se lhes pede uma palavra para descrever os apoiantes do Chega, 23% escolhem “ameaça extremista”, 41% usam termos como “fascistas”, “extremistas”, “corruptos” ou “malucos”. Montenegro está a fazer política para um eleitorado que os seus eleitores consideram uma ameaça. Há, claro, a possibilidade de o taticismo ser ainda mais retorcido e, depois do bruaá, recuar na PSU para ter o voto do PS, aprovar a lei laboral com o Chega e, limitando-se a apresentar o modelo inicial da prestação, dar a ideia de equidistância. À hora que escrevo não o sei. Sei que é sempre o mesmo: tática, tática e mais tática.

Costa desbaratou a maioria absoluta de 2022 porque o cálculo esteve sempre à frente de qualquer desígnio. O resultado foi o desastre que se seguiu e uma dificuldade do PS em recuperar os eleitores que perdeu. De tal forma que se pôs a hipótese de o declínio ser irreversível. Montenegro está a cometer o mesmo erro, com um taticismo ainda mais desalmado. Só que o contexto é mais instável, o espaço político à sua direita está em rapidíssima mutação e as consequências podem ser mais destrutivas. O problema não é apenas estar a governar mal, ao ponto de, ao fim de dois anos, Carneiro o ter ultrapassado nas sondagens. É estar a cavar uma crise de identidade no PSD. Conhecemos este filme noutros países europeus: partidos de centro-direita (e até de centro-esquerda) que tentaram competir com a extrema-direita no seu próprio terreno acabaram por perder dos dois lados. E o esvaziamento do PSD é até mais fácil de consumar do que o do PS: à direita há vários partidos prontos a absorver os fugitivos e o PS pode facilmente ocupar o centro deixado vago. Ou então o cenário alternativo, porventura mais perigoso: um Chega com eleitorado sólido e fidelizado, enquanto PS e PSD se vão esburacando e alternando no poder. Sim, Montenegro pode matar o PSD. A Europa é um cemitério de partidos estruturantes da democracia. E a forca foi, quase sempre, demasiado cálculo para pouca política.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-06-11-a-bebedeira-suicida-do-psd 


domingo, 7 de junho de 2026

Daniel Oliveira - Pôr os de baixo na ordem

 


Foto Tiago Miranda


* Daniel Oliveira

Os debates sobre imigração, apoios sociais e produtividade foram capturados por uma elite rentista que naturaliza a desigualdade persistente, prometendo pôr na ordem os de baixo — imigrantes, pobres e trabalhadores —, enquanto os mobiliza contra os que estão no degrau inferior da escada classista

04 junho 2026  

Aburguesia nacional fez-se sobretudo pela captura de rendas e pela proximidade ao poder político. À sombra do ouro do Brasil, dos monopólios coloniais, do condicionalismo industrial, das privatizações que lhe ofereceram monopólios ou oligopólios, de fundos europeus desbaratados, de concessões de serviços públicos. Em cada momento histórico açambarcou valor em vez de o criar. Hoje, assistimos ao bloqueio a qualquer regulação da transferência massiva de capital de áreas produtivas para o imobiliário, que não arrisca ou compete. Mas o rentismo não produziu apenas uma estrutura económica viciada e avessa à inovação. Produziu uma cultura.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Sófia Puschinka - Na morte de Carlos Brito

 * Sófia Puschinka :

Claro que o frustrado do Daniel tinha que escrever algo hehehehe

Não conhece mesmo o PCP esse pobre homem.

Bem… Eu pessoalmente nem entendo o sentido que ele dá à “traição” como se fosse algo bom ou desculpável.

Eu que nunca vivi em ditadura e que não sou “o PCP “ não desculpo traições, na minha vida, no quotidiano… E se até posso ignorar as traições de quem não me diz nada, até porque geralmente conto com elas à priori, jamais desculpo a traição de pessoas em quem confio e que para mim são importantes, seja um amigo, amiga ou familiar. É fim de linha, jamais volta a ser o que era, não me vingo, não refilo, não vou tirar satisfações, faço um risco, como se a pessoa já não existisse mais, desprezo completo. Ate porque, neste monte de imperfeição que eu sou, jamais trai alguém que me era querido e exijo o mesmo nível de lealdade aos meus amigos como a que tenho com eles, é carácter. É decência.

Mas adiante…. Ora para quem conhece a História do PCP sabe, ou deveria saber que o PCP não sobrevive há mais de um século com traidores e sim com pessoas leais, sabe ou deveria saber que durante a ditadura a traição colocava em causa a vida de muitos camaradas. Já não vivemos em ditadura é facto, mas o carácter dos comunistas continua igual, apesar de vivermos em democracia os comunistas continuam a resistir contra tudo e todos porque, 52 anos após o 25 de abril, continuam a ser alvo de discriminação, ódio, inveja e mais um par de botas…

É por isso que por muito que tentem deitar abaixo ou acabar com o PCP não conseguem.

O PCP é constituído por gente de carácter, os comunistas não são perfeitos mas, procuram e tentam ser o mais perfeitos possível em tudo o que fazem, colocam alma, amor, dádiva em tudo. São leais aos seus camaradas, dão a vida por eles.

Ora sempre que alguém deixa o PCP, sobretudo pessoas que tiveram relevo , fosse por terem funções de direção, por terem lutado contra a ditadura de forma heróica ou simplesmente porque eram camaradas, o que os comunistas sentem logo é uma facada no peito, uma dor lacerante, sentem-na calados, porque numa coisa o Daniel tem razão, no PCP há emoções fortes, profundas, como não haverá em nenhum outro partido, por questões óbvias, os comunistas são rijos, resistem a tudo de cabeça erguida e sem vergarem mas sabem que nunca estão sós, que há milhares de outros que os resgatam e dão a vida por eles se tal for necessário, no PCP há fraternidade, há abraços como não existem em mais nenhum partido, há amizade pura e sem interesse, há respeito e integração. Nenhum comunista o é por interesse pessoal ou ambição, os comunistas não ganham nada nem com a política nem com o Partido, muito pelo contrário, os comunistas pagam para serem comunistas, trabalham de borla, doam, e fazem-no felizes.

Mas ninguém se questiona quando lêem estes disparates como os que escreveu o Daniel e outros, que acusam o PCP de falta de democracia entre outros disparates, porque raio os comunistas são leais toda uma vida, trabalham de borla e com vontade, doam, levam porrada de todo o lado e resistem? 😄

Porque aquilo que existe no PCP é muito superior a tudo aquilo que os comuns mortais possam imaginar, alguns até percebem isso e é por isso que têm tanto ressabiamento.

O que se vive ali é pureza, altruísmo, amor, amizade, vida, resistência, luta, tudo no estado mais puro e honesto, para o bem e para o mal, algo que a maioria nem faz ideia o que é, são incapazes de serem fiéis até a eles próprios.

O que o PCP faz quando um dos seus abandona o barco é calar-se e sofrer a dor porque deixam dor, porque só não há dor quando as pessoas não são importantes e no PCP todos são importantes, todos, desde a base à direção. Nos outros partidos é normal que não sintam nada, mais um menos um aquilo é o normal, tenho dúvidas que nos outros partidos alguém confie a própria vida nos outros 😂, no PCP garanto que confiam, é gente credível e de confiança.

No caso específico de Carlos Brito, ele rompeu com as regras que ele próprio ajudou a criar, esquecendo-se que no PCP não há individualidades, não há orgulho, não ha egos, há um colectivo e decide a maioria. Desrespeitou as regras e foi suspenso como acontece noutros partidos, ficou melindrado, provavelmente foi influenciado, quando estamos sensíveis ou melindrados nem sempre devemos ouvir conselhos, mas não sei se terá sido assim, o que sei é que decidiu afastar-se, acabou por declarar que já não era leninista ou seja deixou de ser comunista, de esquerda sim mas não comunista. Qual é a dúvida? Se deixou dor ao PCP? Claro. Se o PCP reconhece o seu passado? Obviamente

Se o PCP tinha de homenagear? Não, até porque ao fazê-lo estava a chamar a si (PCP) a individualidade “Carlos Brito” e Carlos Brito já não era do PCP há mais de 20 anos.

O PCP não se aproveita de ninguém em vida muito menos na morte.

https://www.facebook.com/jose.russell

quinta-feira, 26 de março de 2026

Daniel Oliveira - Chega nas autarquias: Sorria, foi enganado outra vez e sabia

* Daniel Oliveira

Desvinculações do partido para ganhar pelouros, casos, nomeações escandalosas, balbúrdia entre vereadores. Nada disto é surpreendente no partido que queria acabar com os tachos e a bandalheira, mas é a rampa de lançamento de quem não conseguiu lugares noutros lados. Não é provável que os seus eleitores não o saibam. Mas não é um voto de exigência, é um voto de desistência

Em várias autarquias houve acordos com o Chega, sobretudo em câmaras do PSD. De uma forma ou de outra, formal (Sintra) ou informalmente (Lisboa), os vereadores do Chega ajudaram a construir maiorias em cinco dos seis maiores concelhos do país. Isto seria uma estratégia de poder. Mas na maior parte das câmaras talvez seja difícil falar de estratégia.

Em apenas cinco meses fora oito os vereadores eleitos pelo Chega que abandonaram o partido e passaram a independentes: em Lisboa, Ana Simões Silva (eleita por um voto de diferença) desfiliou-se e integrou o executivo de Carlos Moedas, assumindo os pelouros da Saúde e do Desperdício Alimentar. Em Vila Nova de Gaia, António Barbosa seguiu o mesmo caminho e entrou no executivo de Luís Filipe Menezes com pelouros das Feiras, Mercados, Ambiente e Bem-Estar Animal. Em Coimbra, Maria Lencastre Portugal desfiliou-se e foi nomeada para funções executivas numa empresa municipal de Ana Abrunhosa, do PS. Em Mirandela, Luís Saraiva conseguiu sair do partido ainda antes da tomada de posse, deixando claro ao que vinha. No Funchal, Luís Filipe Santos e Jorge Afonso Freitas saíram do partido, mas mantiveram-se sem pelouros. O mesmo aconteceu na Marinha Grande, com Emanuel Vindeirinho. E em Ourém, Rita Sousa renunciou ao mandato, o que é um pouco diferente.

Em poucos meses, o Chega já soma mais casos de demissões, desvinculações e ruturas do que partidos com muito mais vereadores e presidências de câmara. Mais do que divergências, é gente à procura de um lugar ao sol.

Em São Vicente, na Madeira (outro dos três concelhos conquistados pelo Chega), o presidente retirou os pelouros aos outros vereadores do seu partido e governa sozinho. Em Portimão, 19 eleitos do Chega a ameaçarem demitir-se em bloco porque dois dos três vereadores do partido viabilizaram o orçamento do PS. Dizem que o fizeram porque o orçamento é bom. Permitam-me duvidar.

Em Lisboa, o vereador que não abandonou o partido queimou-se com a nomeação da Mafalda Livermore para a administração dos Serviços Sociais da Câmara. A sua namorada é alvo de investigação por burla e exploração de imigrantes. Mas as nomeações de pessoas demasiado próximas é um clássico no partido que ia lutar contra o nepotismo – Rui Cristina, presidente da Câmara de Albufeira, levou a irmã para assessora. Explicou-se: “Sei que todos os presidentes de câmara gostariam de ter uma irmã qualificada como esta para trabalhar em prol dos munícipes”.

Onde não há debandada há balbúrdia.

Tudo contrasta com o partido que promete acabar com a bandalheira, o oportunismo e os arranjinhos do sistema. Mal se aproximam dos únicos tachos a que já têm acesso, ninguém lhes ensina nada. Porque o Chega não passa de uma rampa de lançamento para quem foi rejeitado por outros partidos. Cresceu muito e depressa, tem falta de quadros e recebeu o refugo de carreiristas que, chegados ao poder, tratam da vidinha. Sejamos justos: estando longe do poder nacional, ainda são carreiras de pouca ambição.

Nada disto deveria surpreender os eleitores. Já no mandato anterior o Chega acumulava episódios nas autarquias e na Assembleia da República. O deputado Miguel Arruda foi só o mais mediático, por ser risível. Num recorde absoluto de problemas com a justiça, há dirigentes e deputados do partido da “lei e da ordem” envolvidos em processos que vão da condução sob efeito de álcool a abuso de menores – esta semana já vai no quinto suspeito de pedofilia.

Não é provável que a maioria dos eleitores do Chega desconheça estes casos. Que não saiba que os vereadores que elegeu saltaram para fora do partido para chegar ao pote. Que viva a leste do destino do seu voto. Alguns estarão de tal forma fanatizados que ou justificarão o injustificável ou encontrarão consolo no burocrático distanciamento do líder cada vez que algum caso chega aos jornais. O eleitorado do Chega é o sonho de qualquer político: dá tudo sem exigir nada.

Mas a maioria apenas confirma a tese que tenho há algum tempo: o voto no Chega não é dos desiludidos da democracia, mas dos que desistiram dela. Não é um voto de exigência, é um voto de desistência. Não querem abalar o sistema, aceitam a caricatura do sistema, porque “eles são todos iguais”. Estão-se nas tintas. Já não esperam nada. Sobretudo daqueles em quem votam.

2026 03 26

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-26-chega-nas-autarquias-sorria-foi-enganado-outra-vez-e-sabia

sábado, 14 de março de 2026

Daniel Oliveira - A Gestapo e a Stasi globais

*  Daniel Oliveira

A Anthropic recusou permitir o uso da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo será tecnológico

12 março 2026  

Enquanto o mundo acompanha a guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA), criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proi­bição de vigilância em massa dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar guerras.

A resposta da Administração foi declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem, como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.

Ninguém compra um tanque e aceita que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump. Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic, que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos. Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.

Roberto Schmidt/Getty Images

As leis, os regulamentos e as salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos. Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.

Já sabemos que chegue para perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento so­cial. Temo que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido, deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será tecnológico. E ele aí está.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-12-a-gestapo-e-a-stasi-globais-1bcaf1a4

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Daniel Oliveira - Ontem não houve festa

*Daniel Oliveira 

Ao tentar equiparar o 25 de Novembro ao 25 de Abril, a direita celebra-o à revelia de boa parte dos seus autores. Inventa uma rutura procurando a revanche derrotada. A clarificação com alguma esquerda foi a revisão constitucional de 1983 e a adesão à CEE, mais relevantes do que mais uma curva no sinuoso processo revolucionário. Procuram um substituto do 25 de Abril porque a festa exclui aliados de que precisam. Só que essa aliança também foi derrotada em novembro.

O 25 de Novembro não era tema nem cisma. A forma como, cinquenta anos depois, e aproveitando o crescimento da extrema-direita (a própria coincidência é um insulto à data), se força até ao limite a equiparação simbólica com o 25 de Abril, nada tem a ver, como acontece em Espanha, com um problema por resolver com a nossa memória coletiva e com a disputa entre a esquerda e a direita pela história. Tem a ver com um problema interno que a direita precisa de resolver. Porque a unidade em torno da data fundadora da democracia inclui quem eles não queriam e exclui aqueles de quem precisam. Para o conseguir, inventaram um 25 de Novembro que não aconteceu. De tal forma, que o celebram contra boa parte dos seus autores.

O CDS e o Chega, com a anuência de um PSD liderado por gente sem cultura política ou histórica, estão a reinventar o 25 de Novembro como uma data de rutura, quase refundadora. Houve atropelos, sedes queimadas, ocupações, terrorismo de direita e violência de esquerda e luta intensa pelo poder, mas as primeiras eleições livres aconteceram antes, a 25 de abril de 1975, e a censura e as liberdades cívicas foram conquistadas ainda em 1974.

A esquerda comunista e, ainda mais, a extrema-esquerda (num tempo em que ela existia) foram contidas, a 25 de novembro, assim como os saudosistas que sonhavam impedir a liberdade e a descolonização plenas o foram, a 28 de setembro, data que não celebramos. Tudo compreensível, à distância, num processo que foi revolucionário, não de mera transição. Quem queira perceber melhor, pode ler o último artigo de Pacheco Pereira.

Como já explicaram vários autores do 25 de Novembro, houve um reequilíbrio de forças, como já tinha acontecido a 11 de março ou 28 de setembro. Se dúvidas houvesse, o governo, o Presidente, o Conselho da Revolução, as leis e as instituições mantiveram-se. Houve apenas, e a isso se resume aquela crise militar, uma mudança na correlação de forças políticas e militares.

Basta recordar que o PPD, que queria colocar-se claramente à esquerda, começou por concordar com a grande vaga de nacionalizações, para perceber que as dicotomias claras que hoje se descrevem eram muitíssimo mais complicadas e contraditórias na altura. Até o papel do PCP no 25 de Novembro não é, ainda hoje, evidente. Nem há qualquer consenso histórico sobre a tentativa ou capacidade de o PCP tomar o poder no extremo ocidental da Europa e num país da NATO. Desde a Primavera de Praga que se sabia que a divisão da Europa era aceite pelas duas potências globais.

A direita também está a reinventar o 25 de Nnovembro à luz dos desejos de alguns, à época. Os que Chega, IL e CDS têm como heróis do 25 de Novembro foram derrotados por Melo Antunes ou Vasco Lourenço, que impediram que o golpe se transformasse numa revanche de sentido contrário, na caça ao comunista, na ilegalização do PCP e na redução de liberdades, que, aos seus olhos, teriam sido excessivas. Se o 25 de Novembro tivesse sido o que queriam, seria a antítese do 25 de Abril. Não foi. A aliança que se fez para celebrar o 25 de Novembro, que a direita agressiva queria transformar num recuo, foi derrotada há 50 anos.

A história sempre foi lugar de combate. Está sempre a ser reescrita, porque é um olhar do presente, nas suas circunstâncias e com as suas necessidades, sobre o passado. É por ter sido reescrita pela conveniência que Otelo deu lugar a Salgueiro Maia, no lugar de herói de Abril, apesar de o primeiro ter sido muitíssimo mais determinante do que o segundo. Foi o que Otelo fez depois que determinou o seu lugar histórico em acontecimentos anteriores. É também por isso que a direita tenta que Jaime Neves substitua Vasco Lourenço, mas sem sucesso. Estas comemorações à revelia de boa parte dos seus autores conseguiram o feito de não ter a presença e apoio de ninguém do Grupo dos Nove, os militares moderados que foram o motor político do 25 de Novembro.

A tentativa de reescrever aquele momento é tal, que ouvi, na TSF, Paulo Núncio dizer que Vasco Lourenço nunca acreditou na democracia que teríamos conquistado naquele dia. Chegámos ao ponto de ver quem nada teve a ver com o 25 de Novembro tratar a data como uma derrota de quem a preparou, executou e celebrou.

Mas esta reescrita da história do país é, antes de tudo, uma reescrita da história da direita. Não é uma tentativa de excluir o PCP da festa democrática. Como escreveu Henrique Raposo num texto nada centrista, esses momentos estão na revisão constitucional de 1983 ou na adesão à CEE, muitíssimo mais significativas do que mais uma curva no sinuoso processo revolucionário. E essa é uma disputa antiga e resolvida. O que se tenta é integrar na festa democrática quem se sente derrotado por Abril. Porque estes saudosistas são necessários para haver uma maioria de direita.

Os que nunca quiseram usar o cravo ao peito não querem corrigir a nossa história, querem corrigir a sua. E esta celebração serve para tentar relativizar a data que parte desta direita (o Chega e até o CDS, que se autoexcluiu do arco constitucional), nunca suportou. Não se sentem excluídos da festa que realmente une o país (como se viu pela impressionante manifestação do 50º aniversário) por terem sido empurrados para fora dela, mas porque parte nunca lá esteve, nem de facto, nem de coração. Procuram o seu 25 de Abril.

Ontem, como se esperava, não houve festa. Porque a equiparação é impossível. O 25 de Abril é, pela sua natureza única e admirada em todo o mundo, uma festa popular. Não há povo em novembro. Não porque a data não seja importante (já escrevi várias vezes que o 25 de Novembro e o PREC fazem parte, com as suas contradições, do ADN necessario à nossa democracia), mas porque, contra a vontade dos seus autores, querem que ela seja o que não foi. E se querem substituir uma data de todos por uma para cada um dos lados, vão ficar a perder.

Não é por acaso que as cerimónias de ontem aconteceram sem boa parte dos construtores desta ação militar. É porque esta celebração forçada nada tem a ver com o país. É a direita a resolver as suas próprias mágoas e ausências históricas. Só que, mesmo em novembro, tiveram um papel secundário. Também aí, foi a esquerda, nos seus combates internos, que liderou. A direita democrática estava, como disse Marcos Perestello, “enfraquecida, amedrontada e desorientada e com as lideranças ausentes ou paralisadas”. E os saudosistas mais ou menos explícitos do Estado Novo, que o resto da direita agora quer juntar à sua festa, para poder normalizá-los, também foram derrotados.

 (Expresso 2025 11 26)

https://expresso.pt/opiniao/2025-11-26-ontem-nao-houve-festa 

domingo, 21 de setembro de 2025

Daniel Oliveira - Vítima não é herói

* Daniel Oliveira

18 setembro 2025

O assassínio de Kirk não é encarado como mais um triste episódio de violência política nos EUA, onde 76% foram vítimas da extrema-direita. É uma oportunidade para repetir um guião: semear a violência e a desordem para, quando as sociedades se entregam a esta bebedeira, impor a ordem autoritária

Uma morte é uma morte, e a violência política é sempre um ataque à democracia, mesmo quando a vítima é inimiga da democracia. Isso não permite erguer uma estátua a Charlie Kirk. Porque uma vítima não é obrigatoriamente um herói. Kirk não era um ativista conservador, como tenho lido por aí. Defendia a teoria da “grande substituição”, que os negros viviam melhor quando eram escravos, que as execuções deveriam ser televisionadas, patrocinadas e vistas por menores, que a pena de morte devia ser aplicada a alguns opositores de Trump e que as mortes de crianças em tiroteios escolares eram um custo aceitável de “direitos dados por Deus”.

Não é todos os dias que se vê um assassínio político em direto. Em minutos, o vídeo do disparo já circulava no TikTok, no Instagram, no X, no Facebook, em grupos de WhatsApp... Sangue, morte e likes. Os algoritmos privilegiaram os ví­deos mais grotescos, as músicas mais dramáticas, as teorias da conspiração. Um deles, com milhões de visualizações no TikTok, mostrava a bala a atingir, num plano fechado e numa excruciante câmara lenta, o pescoço da vítima. O autoplay das redes disparou mais rápido do que a bala. Milhões foram apanhados desprevenidos pela violência que lhes tomou os ecrãs. Investigadores citados pela “Wired” garantem que a maior parte dos vídeos não tinha qualquer aviso sobre o seu carácter violento e, vários dias depois, continuavam a circular livremente. Controlar a emoção é controlar a reação.

Em 2020, o FBI travou um plano para raptar Gretchen Whitmer, governadora do Michigan. Em 2022, o marido de Nancy Pelosi teve o crânio fraturado por um invasor da sua casa. Em 2025, bombas caseiras foram lançadas sobre a casa do governador Josh Shapiro. Melissa Hortman, antiga presidente da Câmara dos Representantes do Minnesota, e o seu marido foram assassinados. O senador John Hoffman e a sua mulher foram alvejados. Em todos os casos, com uma fração da atenção agora dada a Charlie Kirk. 76% das vítimas de atentados cometidos por extremistas, na última década, nos EUA, foram mortas por grupos ou indivíduos ligados à extrema-direita. Mas, questionado pela Fox sobre a necessidade de unir o país quando existirão grupos radicais dos dois lados, Trump respondeu que “os radicais da direita são radicais porque não querem ver crime, os radicais da esquerda são o problema, a pior coisa que aconteceu a este país”. Anunciou que vai classificar Antifa e outros grupos de esquerda como terroristas. Como já tem acontecido em relação à imprensa, a instituições públicas, à justiça e às universidades, isto quer dizer censura, repressão e limpeza cultural.

Adam Berry/Getty Images

Em poucos dias, várias pessoas foram despedidas por terem feito publicações desagradáveis sobre Kirk, tendo sido criado um site para expor quem critique o novo mártir. A ABC suspendeu o “Jimmy Kimmel Live” por comentários bastante comedidos do humorista, porque a liberdade de expressão sem limites defendida por Kirk e Trump acaba, como é evidente, em Kirk e Trump. Em cinco dias, o congressista do Wisconsin Derrick Van Orden escreveu 550 tweets sobre uma “segunda Guerra Civil” e apelando à violência contra democratas e jornalistas. Musk passou uma semana a promover a manifestação da extrema-direita que espalhou o caos pelas ruas de Londres e, à distância, defendeu a violência como resposta e a queda de um Governo democraticamente eleito. O assassínio de Kirk não é mais um triste episódio de violência política nos EUA. É, para a extrema-direita, Trump e Musk, uma oportunidade.

Ao sair, há uns dias, do Museu do Centro de Documentação de Munique para a História do Nacional-Socialismo, mesmo ao lado da antiga sede do NSDAP, senti-me oprimido. Pela evidência de que a História não se repete, mas rima. No racismo, na xenofobia, no antifeminismo, na homofobia, na escolha de grupos vulneráveis como fonte de todos os males, no ódio à “arte degenerada”, nos de bem e nos demais, na tibieza da reação, na normalização pública, na infiltração nas instituições, na instrumentalização das forças de segurança, no financiamento de milionários para que a revolta se vire para os de baixo, na cumplicidade da direita conservadora. E é porque a História rima que acabaremos por ter o incêndio do Reichstag, provocado pelos próprios ou por crimes de outros. O guião da extrema-direita, pelo menos desde a ascensão ao poder de Mussolini ou Hitler, foi sempre o mesmo: semear a violência e a desordem para, quando as sociedades se entregam a esta bebedeira, imporem a sua ordem autoritária. Estamos a entrar na segunda fase.

 https://expresso.pt/opiniao/2025-09-18- 

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Daniel Oliveira - Violência doméstica: o crime sem “outro”

* Daniel Oliveira 

 A violência doméstica não nos apanha desprevenidos, na rua. Não nos assusta. E não tem classe, credo, cultura ou cor. De tão democrática, conseguimos integrá-la, ignorando as suas vítimas, que tantas vezes nos são próximas. Desde que fique invisível. Quando é mostrado, o país com pouco crime e que fala tanto dele, com tanta violência doméstica e que tão pouco fala dela, olha-se ao espelho

Éimpressionante o poder da imagem mediada. Por vários dias, as televisões transmitiram uma cena de violência doméstica, em que um bombeiro de Machico espancava a mulher à frente do filho de nove anos, que suplicava pelo fim da tortura de que também ele era vítima. Este vídeo, captado graças a uma câmara de segurança, retrata uma cena quotidiana. Uma cena banal num país que passa o tempo a debater o choque com culturas imigrantes que não respeitam as mulheres. O padrão é o de sempre: um homem que ficou “cego” depois de ler umas mensagens e está profundamente arrependido, até voltar a ficar cego.

No ano passado, a APAV apoiou 12 mil vítimas (mais de 80% mulheres), o que corresponde, como sabemos, a uma gota num oceano de silêncio. Mais de metade vivia em situação de violência continuada. Foram assassinadas 22 pessoas (19 mulheres) em contexto de violência doméstica. A PSP e a GNR registaram mais de 30 mil queixas, mais outra gota no oceano. Basta pensar que, das 12 mil vítimas apoiadas pela APAV, só metade apresentou queixa – são condenados, anualmente, de dois a quatro mil agressores. E, ao contrário do que já pensámos, as coisas não estão com ar de melhorar. 66% dos jovens que já namoraram dizem ter sofrido, pelo menos, uma forma de violência no namoro.

A violência doméstica é o crime violento mais comum em Portugal. No entanto, não povoa o discurso dos políticos que vivem do medo e do alarmismo nem a comunicação social que faz disso negócio. Porque não permite alimentar o ódio ao outro: ao que vive no bairro social, ao cigano, ao imigrante. É um crime democrático. Cometido pelos nossos vizinhos, familiares, gente de todas as classes e credos, culturas e cores.

Nem é um crime cometido pelo "outro", nem nos pode apanhar desprevenidos, na rua. Não povoa os nossos medos, não nos assusta. Não alimenta o terror do cidadão comum. De tão democrático, conseguimos mantê-lo integrado no nosso quotidiano, ignorando as suas vítimas, que tantas vezes nos são próximas. Desde que, claro, fique invisível. Quando é mostrado, num país com pouco crime e que fala tanto dele, com tanta violência doméstica e que tão pouco fala dela, acordamos para o nosso quotidiano, para os nossos verdadeiros "valores", sem estrangeiros, pobres ou ciganos para culpar. E o espelho é lixado.


(Expresso 2025 09 03)

segunda-feira, 1 de setembro de 2025

Daniel Oliveira - Perceções, pacotes e vídeos: a regressão da propaganda

* Daniel Oliveira

Depois do Pontal, Montenegro pôs a gravata preta e, em poucos dias, passámos de sete minutos num discurso de quase uma hora para uma estratégia para a floresta para os próximos 25 anos. Quase tudo rebranding. Se Montenegro caça com pacotes, Ventura caça com vídeos em que ataca uma pequena labareda, gozando com quem lutou contra os incêndios. A demagogia e a manipulação nada têm de novo. Mas nunca com tanto desrespeito intelectual pelos destinatários. Enganem as pessoas, mas não as tratem como imbecis

Poucos dias depois de ter feito uma longa intervenção, na qual dedicou poucos minutos aos incêndios, em parte para se queixar de estar a estragar a transmissão televisiva da festa do Pontal, Montenegro deve ter sido aconselhado pela sua agência de comunicação a marcar um Conselho de Ministros especial para aprovar mais um pacote. É isto que faz há quase dois anos. Nada há que um PowerPoint não resolva.

Pôs a gravata preta, aceitou responder a umas perguntas, assumiu a sua responsabilidade pela percepção injusta sobre a sua responsabilidade (que é uma forma muito particular de assumir responsabilidades) e aqui vai disto: em poucos dias, passámos de sete minutos num discurso de quase uma hora para uma estratégia para a floresta para os próximos 25 anos. Como não há milagres, era, em grande parte, rebranding de matéria herdada para ocupar o sonoro até mais uma crise de perceções passar.

Um dia depois de se ter percebido que nenhuma das 45 medidas incluía os bombeiros, o governo anunciou uma medida para os bombeiros – uma majoração nos seus rendimentos e promessas sobre o estatuto dos bombeiros. Ao rebrandingteve de ir fazer acrescentos, à medida que se notaram as falhas da pressa.

Poucos dias antes, foi Ventura que saiu das redes e acordou para um tema pelo qual não podia responsabilizar os imigrantes – mais tarde, depois de puxar pela cabeça, lá apareceu a comparação entre os supostos subsídios dados aos imigrantes e o que recebem os bombeiros voluntários. Se Montenegro caça com pacotes, Ventura caça com vídeos. E desta vez esmerou-se.

No primeiro que vi, recebia, na sede do partido, mantimentos para quem combatia os fogos. Atendia jovens e transportava os mantimentos de forma mais ou menos irracional. Anotava o que faltava, limpando da testa suor inexistente, depois de tanto esforço de notário. Descia escadas transportando pesos, apesar de o elevador do prédio ser visível. E enchia carrinhas, sendo que filmavam lá de dentro. O esforço de realismo era semelhante ao de uma novela venezuelana dobrada. Nenhuma pessoa com cérebro funcional podia sequer ter dúvidas da encenação.

No segundo vídeo que vi, o Super Ventura, que há poucos dias ainda mal tinha dado pelos incêndios, saiu do estúdio e foi para o “terreno”. Ele e um estagiário, de cócoras, camisas impecáveis, atacaram afanosamente uma pequena labareda na base de um eucalipto. Não fosse um momento heroico, poderia pensar-se que era um gozo a bombeiros e cidadãos que andaram a lutar contra os fogos para salvar casas e vidas. No fim, depois de um dia de luta contra os incêndios, Ventura teve o seu momento sentimental para dar festas a um cão que, com faro infalível, não se aproximou da farsa. A ele, o algoritmo não engana. Uns dias depois, ainda vi mais um momento de ação do líder do TikTok, a transportar fardos de palha.

Depois de ver o seu líder apagar uma perigosa labareda, os trolls da extrema-direita nas redes sociais dedicaram-se a tentar desmentir a participação de imigrantes no verdadeiro combate às chamas. Aquele que não se faz de camisinha para o funcionário que trata das redes filmar.

Olha-se para aquilo e pergunta-se se alguém pode realmente acreditar no que vê. Depois, lembramo-nos de que a versão portuguesa do ataque à faca a Bolsonaro e o ataque a tiro a Trump foi o ataque de azia a Ventura, que lhe valeu uma cobertura exaustiva nas televisões e um crescimento imparável nas intenções de voto. Se o espetáculo que deu naqueles dias resultou, porque não havia de resultar a Leni Riefenstahl em versão “Duarte e Companhia”? Parece que o eleitorado aceita que, na nossa pequenez, merecemos uma versão de baixo custo.

Os governos sempre fizeram que faziam para responder aos momentos mediáticos. A oposição sempre tentou fazer que faria melhor se governasse. A demagogia e a manipulação nada têm de novo e a nossa direita, liderada pelo refugo político, parece ter-lhe um gosto especial – vejam como Carlos Moedas governa a capital há quatro anos, sem pegar na Câmara e largar a câmara. Mas nunca nada disto foi feito com tanto desrespeito intelectual pelos destinatários. Enganem as pessoas, mas não as tratem como imbecis. Esforcem-se.

A direita está mais estúpida? Os eleitores são mais ingénuos? Não. O escrutínio jornalístico é que tornava este tipo de exercício mais exigente. Se não fosse feito com o mínimo de profissionalismo, morria à nascença. Não é que o escrutínio já não se faça. Mas deixou de funcionar. Poucos querem saber do “jornalixo”. Agora, procuram a manipulação direta, sem intermediários óbvios. É por isso que não estamos a assistir apenas a um retrocesso político e ético. O retrocesso é estético e cognitivo. Duas décadas de expansão das redes sociais parecem ter garantido uma notável involução da espécie. Para quem é, isto basta.

(Expresso  2025 09 01)

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Daniel Oliveira - Um dia olharemos para uma criança com um 'smartphone' como se estivesse a fumar

Opinião 

* Daniel Oliveira  

Menores entre os 4 e os 18 anos passam, em média, 4 horas diárias em frente a ecrãs. Horas que nunca mais se repetirão, deixando mazelas irreversíveis. A nossa negligência pode ser responsável por uma geração menos preparada, dotada e empática do que as anteriores, o que terá efeitos sociais, culturais e políticos devastadores. Basta cumprirmos a nossa função. Ou deixar que a escola cumpra a sua

Segundo um estudo do Quostodio, tendo como objeto 400 mil famílias de Espanha, EUA, Reino Unido e Austrália, os menores entre os 4 e os 18 anos passam, em média, quatro horas por dia em frente aos ecrãs. Dois meses do ano.Horas que nunca mais se repetirão no seu desenvolvimento cerebral e físico. Definitivamente perdidas e irrecuperáveis. Perdas que deixarão mazelas irreversíveis. Porque nós, os seus pais, somos coletivamente negligentes. Talvez por estarmos tão viciados como eles, não conseguimos cortar-lhes a droga. Talvez porque essas horas nos tirem peso de cima. Talvez por ignorância.
  
Não é por acaso que os pais de Silicon Valley procuravam (pelo menos em 2018) escolas com acesso limitado a tecnologia e contratam amas que se comprometem a não deixar os seus filhos usar telemóveis. Sabem o que produzem. Nós, menos avisados, deixámos que se viciassem e, agora, não fazemos ideia o que fazer com o mal que permitimos. Droga e vício não são metáforas. É mesmo um vício, é mesmo uma droga.

Matilde Sobral e Mariana Reis, fundadoras da Associação Mirabilis Portugal, explicaram-no aqui no Expresso: “Como as drogas leves e pesadas, o álcool ou as apostas a dinheiro, também o consumo abusivo de ecrãs provoca libertação de quantidades excessivas de dopamina. Ainda que a dopamina seja um neurotransmissor necessário para a sobrevivência, caso circule em excesso no nosso cérebro, repetidamente, pode causar dependência. A dopamina em excesso é o fator subjacente a todos os vícios. E os ecrãs interativos, pela forma como estão desenhados, provocam libertação desequilibrada de dopamina, tal como as outras drogas.”

Marc Massip compara os smartphones à heroína porque, quando ela surgiu, também se desconheciam os seus riscos. Como sabe quem tem filhos adictos ao telemóvel (ou é adicto), até existe a síndrome de abstinência. Mas continuamos tão a leste da dimensão do problema que a proposta do psicólogo espanhol, que defende que não se tenha estes aparelhos até aos 16 anos, até o cérebro estar suficientemente desenvolvido para lidar com ele, nos parecerá lunática.

Estamos a léguas disto. Mais de 60% das crianças portuguesas recebe o primeiro telemóvel entre os 10 e os 12 anos. E a partir dos 13 ou 14 anos, praticamente todos o têm. 15%, mais do que um. Não vale a pena continuar a fazer a comparação com o passado e o que se dizia sobre a televisão. Os smartphones e tablets estão sempre disponíveis;permitem uma interação que leva ao vício e dão à criança o controlo do que querem ver, evitando o tédio.

A LISTA DAS MAZELAS
Não se ensina uma criança a gerir um vício. Porque lhe faltam capacidades de gestão dos seus impulsos. Ter um tempo no dia em que os telemóveis estão inacessíveis é a forma de a ensinar a gerir a frustração e a ansiedade, levando-a a descobrir outras formas de divertimento. Coisa que inevitavelmente acontecerá. A mais antiga de todas: interagirem entre si, expressando emoções com o instrumento que naturalmente temos para o fazer (o corpo), reforçado lanços empatia. Serem, enfim, seres humanos. Isso também se aprende. E não se aprende no meio de zoombeis virados para ecrãs, perdendo capacidades indispensáveis para animais gregários como nós.

A Sociedade Portuguesa de Neuropediatria fez a lista de efeitos da utilização precoce de ecrãs: aumento do tempo em atividades sedentárias, com limitação do desenvolvimento motor; dificuldade em focar a atenção, gerir adversidades e enfrentar o tédio (reduzindo a criatividade), o que aumenta o risco da hiperatividade e défice de atenção; redução do tempo de interação com adultos e outras crianças, com riscos para o comportamento social e atraso na linguagem; perda de qualidade do sono; e aumento do risco de se sentir fisicamente inferior, com o aumento do risco de perturbações do comportamento alimentar, depressões e ansiedade. Deixo de fora o cyberbullying ou acesso fácil a pornografia, numa idade em que ela não é compreendida pela criança. Acho, aliás, delicioso ver pais que temem as aulas de educação cívica e dão telemóveis aos seus filhos. Confiam mais em algoritmos de empresas do que num professor.

Como escreveram, neste jornal, as duas fundadoras da Associação Mirabilis Portugal, “não há uma única atividade necessária ao desenvolvimento do cérebro que precise de um ecrã.” É por isso que a SPN recomenda que não se usem ecrãs até aos 3 anos, exceto para videochamadas (excluindo a televisão, na presença de adulto e para conteúdo adequado, até à meia hora diária). Entre os 4 e os 6 anos, o uso deve ser limitado a meia hora de programação de alta qualidade, na presença de adultos e sem controlo da mudança de canais ou vídeos. Entre os 7 e os 11 anos, uma hora por dia. E entre os 12 e os 15, duas horas, com cautelas várias. Redes sociais? Só depois dos 16. Em nenhum caso ou idade, se deve usar para resolver problemas de comportamento, seja para comerem ou não fazerem birras. Nunca à refeição. Nunca no quarto. Perante estas recomendações, ainda discutimos se miúdos do terceiro ciclo podem dispensar smartphones sempre disponíveis, na escola.

COMEÇAR NA ESCOLA
Mas olhemos para o copo meio cheio. O facto do livro de Jonathan Haidt, “A Geração Ansiosa”, ser um best-seller diz-nos que as pessoas começam a perceber que estão a fazer qualquer coisa incrivelmente errada. E a razão porque me tornei obcecado pela proibição dos telemóveis na escola é por achar que podemos, enquanto sociedade, ajudar as famílias ultrapassar esta fase inicial de correção do primeiro impacto. Cinco ou seis horas por dia sem ter acesso ao telemóvel é a primeira cura de privação, a primeira oportunidade para viverem parte do seu tempo sem esta droga. E para redescobrirem tudo o que precisam para virem a ser adultos.

Será a partir da escola que se determinará o que serão aquelas pessoas enquanto adultos. É ali que se aprende a brincar e brincar é a preparação para coisas sérias. Nas escolas, os telemóveis substituem a formação das primeiras amizades, o exercício físico, as conversas, a socialização, aprendizagem de gestão de conflitos, o tédio. Tudo o que é necessário para a infância e a adolescência prepararem a vida adulta.

Claro que a escola não pode ser um espaço anacrónico, onde a tecnologia está interdita. Mas a tecnologia, a que a escola garante a todos, deve ser usada quando é necessária, fazendo aquilo que a escola faz: pedagogia. Nenhum miúdo deixa de aprender a usar novas tecnologias por não estar sempre com um aparelho ao lado. A escola não pode ser uma bolha no quotidiano de crianças e jovens, mas também não pode ser a repetição do que os pais fazem de errado. Por isso, mesmo que haja crianças que só comem porcaria em casa, a escola só deve ter disponível alimentação equilibrada, saudável e de qualidade. Porque a saúde também se educa, com a experiência. É isso que devia acontecer na relação com os telemóveis e os tablets.

COMEÇA A REAÇÃO
Os primeiros passos, ainda minoritários, começam a ser dados pelos pais. A pressão de vários grupos de pais já permitiu que, em Portugal, várias escolas públicas avançassem na interdição de telemóveis no terceiro ciclo. Mas não me parece que se tenha de esperar pelos pais. Também não se esperou por eles para decidir que alimentos se vendem nas escolas ou para proibir fumar.

Há pais que foram mais longe. Para vencer a pressão dos colegas, que todas as gerações conheceram em tantas coisas, nasceu, no Reino Unido (onde 89% das crianças de 12 anos têm seu próprio smartphone), o movimento Smartphone Free Childhood, que lançou um pacto online: em cada escola, comprometerem-se a não dar smartphones aos filhos até aos 14 anos. Ainda é um movimento minoritário, mas 37 mil pais de 56 mil crianças que estão em oito mil escolas britânicas já o assinaram. Em vez do smartphone, dão-lhes um “tijolo”, para estarem contactáveis. Pelo menos sentem que não estão a condenar os seus filhos ao degredo.

Lamento se regresso recorrentemente a este tema. Não quero ensinar a educar. Não sou um ludita. Não vivo em pânico com cada geração será pior do que a seguinte. Apenas percebi, como milhões de pais já perceberam, que a nossa negligência coletiva pode ser responsável por uma geração menos preparada, dotada e empática do que as anteriores. Que isto terá efeitos sociais, culturais e políticos devastadores. E que, no entanto, isto é incrivelmente fácil de resolver. Basta aprender uma palavra mágica: “não”. Basta cumprirmos a nossa função. Ou, pelo menos, deixar que a escola cumpra a sua. 

Expresso 05 dezembro 2024

Daniel Oliveira - Todos os homens como ilhas

Opinião   

* Daniel Oliveira 

Nos EUA, o tempo passado a socializar presencialmente caiu mais de 20% em 20 anos. Na Europa, os jovens que não socializam uma vez por semana passaram de um em cada dez para um em cada quatro. O efeito político deste século antissocial é o crescimento da extrema-direita. Porque a solidão e o isolamento reforçam a crença na ameaça externa. É necessário retirar a oligarquia tecnológica do volante e reconstruir o espaço público como espaço de encontro físico. Salvar o que de humano existe na humanidade

Os pais de Sewell Setzer, um adolescente suicida, processaram uma plataforma online. Conta a família que o jovem de 14 anos passou os últimos dez meses da sua vida em diálogo com bots criados por Inteligência Artificial, a quem contava tudo, incluindo os problemas de saúde mental que escondia dos pais.

Os processos contra estas empresas avolumam-se, com relatos de casos em que estes “amigos” fictícios disseram a um jovem para matar os seus pais depois deles terem limitado o tempo de telefone, ou com conselhos agravam o risco de anorexia. Os utilizadores destas plataformas passam, em média, 93 minutos diários à conversa com bots e a maior destas plataformas, a Character.AI, tem dezenas de milhões de utilizadores. A forma como a empresa anuncia os seus serviços é esclarecedora: “converse com milhões de personagens de IA a qualquer hora e em qualquer lugar. Bots de conversação superinteligentes que o ouvem, o compreendem e se lembram de si”.

No século antissocial, como lhe chamou Derek Thompson, num magnífico e detalhado trabalho jornalístico na revista “The Atlantic”, essas promessas encontram um eco crescente em milhões de pessoas desligadas fisicamente de qualquer rede de amizade.

Um estudo anual do Departamento de Estatísticas do Trabalho dos EUA mostra que o tempo passado a socializar presencialmente caiu, entre 2003 e 2023, mais de 20%. Um declínio superior a 35% entre homens solteiros e jovens com menos de 25 anos. O fenómeno não é episódico nem resulta apenas da pandemia. A tendência é anterior e continua a acelerar. Na Europa é igual: nos últimos vinte anos, os jovens europeus que não socializam uma vez por semana passaram de um em cada dez para um em cada quatro. Os adolescentes e jovens na casa dos vinte têm hoje os mesmos níveis de socialização presencial que as pessoas com mais de 30 anos tinham há apenas uma década ou duas.

O isolamento reflete-se até nos hábitos mais banais. Nos EUA, o número de reservas para apenas uma pessoa efetuadas em restaurantes cresceu 29%. Um estudo recente de Patrick Sharkey, sociólogo da Universidade de Princeton, concluiu que os americanos passam mais 99 minutos em casa, a cada dia da semana, quando comparado com 2002. Para onde quer que olhemos, há sinais de que a sociedade se está a reorganizar para que cada um possa viver no seu casulo, sem precisar de interagir presencialmente com ninguém.

A falta de interação social tem consequências devastadoras. Um jovem que cresce sem um espaço real para partilhar emoções, dúvidas e frustrações é presa fácil da ansiedade, da depressão e da baixa autoestima. O aumento do tempo passado sozinho correlaciona-se diretamente com o declínio da satisfação com a vida entre jovens adultos nos últimos 15 anos, como indica o Financial Times com uma profusa sucessão de gráficos e dados. E os jovens até aos 30 anos sabem-no. As atividades que lhes consomem cada vez mais tempo, como os jogos e interação online, são exatamente a que eles indicam como dando-lhes menor satisfação.

Adolescentes e jovens estão presos numa armadilha digital que os condiciona a repetir um comportamento que os faz sentir pior. Como acontece com qualquer adição. Porque a economia digital da atenção é orientada por algoritmos desenvolvidos para hiperestimular o cérebro e ativar o seu circuito de recompensa através da libertação de dopamina. E é uma adição coletiva e é como tal que temos de a enfrentar.


UM EXÉRCITO DE SOLITÁRIOS FURIOSOS

Os efeitos deste século antissocial não se ficam pelo seu impacto no bem-estar e saúde mental, especialmente dos mais jovens. Quando milhões passam pelo mesmo processo, os impactos tornam-se políticos. A frustração acumulada, a ausência de conexões reais e a perceção de que o mundo os abandonou fazem crescer uma raiva latente que se transforma em ressentimento. E essa raiva, explorada pela extrema-direita, ajuda a explicar a atração da juventude pela desumanização do outro. Indivíduos isolados têm maior predisposição para culpar terceiros pela sua insatisfação e a desenvolver atitudes agressivas em relação a grupos que percecionam como “inimigos”. Esta predisposição para procurar bodes expiatórios e abraçar teorias da conspiração é amplificada pelos algoritmos das redes sociais, que apresentam conteúdos cada vez mais polarizados e extremados.

Michael Bang Petersen, um cientista político dinamarquês citado pela “The Atlantic”, diz que são os que tendem a sentir-se socialmente isolados que mais reforçavam uma necessidade de caos e destruição. A política deixa de ser um exercício de construção e passa a ser um palco de destruição. O outro não é um adversário, mas um inimigo. E quando a única via de escape parece ser a implosão do sistema, o populismo radical oferece exatamente isso: um refúgio emocional, uma catarse coletiva, a promessa de que o caos será a resposta para a dor.


Um estudo recente, desenvolvido por investigadores da Universidade de Amesterdão e Instituto de Psicologia Leibniz, com 41 mil participantes de nove países europeus, indica que os solitários têm uma maior propensão para apoiar a extrema-direita. A solidão e o isolamento reforçam o sentimento de alerta e a crença na ameaça externa, gerando indivíduos mais recetivos ao discurso nativista (que vê imigrantes e minorias como ameaças) e populista (que culpa as elites políticas e económicas). A oferta de uma ideia de comunidade, que se vem perdendo com o declínio das formas tradicionais de intermediação como a religião, sindicatos e estruturas associativas, cria um sentimento de pertença atraente para quem se sente isolado.

O mecanismo pode ser bidirecional: a solidão tanto pode aumentar a predisposição para apoiar a extrema-direita, como ser o apoio a grupos radicais aumentar o isolamento social, devido à estigmatizarão social dos apoiantes desses grupos. É um ciclo dinâmico, onde fatores emocionais e políticos se alimentam mutuamente.

Tenho defendido de forma crescentemente empenhada a necessidade de limitar os telefones nas escolas. Faço-o, consciente que a dopamina libertada pela economia da atenção das redes sociais limita a capacidade de atenção necessária para pensamentos complexos, mas também para impedir que as crianças cresçam sem desenvolver interações sociais reais. Os dados que começam a surgir nos revelam que temos de o fazer também para proteger o bem-estar da comunidade. Ou enfrentamos o problema de frente, ou entregamos o futuro a uma geração de jovens isolados, viciados em dopamina digital e prontos para se agarrar à primeira ideologia que lhes oferecer um sentido de pertença – mesmo que esse sentido venha embrulhado em ódio. Se não reconstruirmos o tecido social, a extrema-direita fá-lo-á por nós. 

De pouco vale tentar travar a extrema-direita e o ódio se não retomarmos os espaços de socialização que nos permitem viver em comunidades empáticas. A radicalidade democrática passa pelo desmame, no espaço escolar e familiar, de uma adição coletiva feita para nos escravizar. A começar pelos nossos filhos e netos. Depois, pela regulação da IA e das redes, retirando a oligarquia tecnológica do volante das nossas sociedades. Por fim, a reconstrução do espaço público como espaço de encontro físico. Tudo isto seria absolutamente revolucionário. E já não se trata de construir um mundo novo, mas de salvar o que de humano existe na humanidade.

(Expresso 2025 02 12)