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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

João Rodrigues - As aparências enganam, isto não é um diário



Coimbra, sexta-feira, 5 de fevereiro de 2026 

Pus-me a caminho de Braga ao fim de almoço. Chovia, claro. Cheguei duas horas antes da hora. Braga é mais perto do que Lisboa e, no entanto, parece mais longe. Da distância à sua perceção, somos todos feitos de hábitos: afinal de contas, vivi uma dúzia de anos em Lisboa e vivo agora entre Vila Franca de Xira e Coimbra, as minhas duas cidades, Carina e Pedro. 

Planeei para ter tempo de ir rever a Sé, aproveitando uma aberta. Fui bem recebido na Almedina, a que fica no centro de Braga, ao pé da porta aberta da liberdade, monumento inaugurado a 25 de abril de 2024. 

A simpática responsável de uma livraria inaugurada há meses fez questão de me fazer uma visita, explicando a traça modernista muito bem restaurada da livraria, das estantes à escada. Tinha sido ali a livraria Vítor, de Vítor de Sá, antifascista bracarense e historiador (um dos principais prémios de História tem o seu nome). Ali estavam fotos da grande montra da livraria com buracos feitos por tiros da reação no PREC. Informou-me que as fotos tinham sido descobertas por acaso nas obras. 

Entretanto, um cidadão montanhista de oitenta anos, que tinha subido o Monte Branco há três anos, disse-me simpaticamente que lia todos os dias o blogue. Antes da sessão começar, ainda fui brevemente entrevistado por uma jornalista do Correio do Minho, perguntas diretas, como se quer: sim, o fascismo nasce do extremar do capitalismo, como titulou no dia seguinte.

Pequena digressão. Apresentar livros é uma das minhas atividades intelectuais favoritas. Tenho tido a sorte de praticamente só apresentar livros com os quais aprendi e com os quais ganhei tempo, de José Reis a António Avelãs Nunes, só para referir dois distintos intelectuais antifascistas, professores jubilados da cada vez mais neoliberal Universidade de Coimbra, com quem tenho aprendido. Há quem resista, claro. Eles resistem. 

Quem me lê sabe que tento ser mordaz na crítica, mas que também ensaio o elogio rasgado. Caldear é uma questão de justeza e uma forma de evitar o ressentimento que mata todo o conhecimento. Estou reconhecido e obviamente gosto de ser reconhecido, reciprocidade generalizada. Quem não? 

Nour Ribeiro dos comunistas de Braga, que também dinamiza sessões de apresentação de livros “insubmissos” e que me convidou, introduziu e moderou a sessão. Bruno Madeira, historiador e professor da Universidade do Minho, fez a apresentação propriamente dita. Cada um no seu estilo, mais breve um, com mais tempo o outro, tinham ambos excelentes intervenções escritas, que muito valorizaram o livro de ensaios de economia política do antifascismo. Fiquei meio sem jeito, ainda para mais são mais jovens, há mesmo progresso. 

Para disfarçar, lancei-me então ao ataque em pelo menos três frentes: ficheiros Epstein, inépcia governamental mais ou menos deliberada na catástrofe em curso e crítica do liberalismo até dizer chega. Procurei as ligações fascizantes no estado a que isto chegou em múltiplas escalas, tentando vislumbrar a alternativa antifascista, a que começa pela ação coletiva nos locais de trabalho e continua na reconstrução da economia mista, base material da soberania democrática. Houve boas intervenções da plateia e muita simpatia combativa, estava cheia a livraria. Autografei uns livros, com gosto. 

Já depois da sessão, à saída, uma estudante militante, que tinha estado a assistir e que está a fazer uma tese de mestrado em história sobre democratas bracarenses, informou-me: Vítor de Sá andava pela cidade com um carrinho de madeira a vender livros clandestinos. Recomendaram-me um ensaio dele sobre o fascismo no quotidiano. Estamos sempre a aprender.

“Nem os mortos estarão a salvo se o inimigo vencer”, escreveu Walter Benjamin em 1940. Eles ainda não venceram a guerra, embora tenham ganhado tantas batalhas. Chovia no regresso a Coimbra. Estava satisfeito por não ter faltado ao encontro, e só os encontros constantes nos podem valer, embora quem viaja por gosto também tenha o direito de se sentir cansado. 

Postado por João Rodrigues às 10.2.26

sexta-feira, 4 de maio de 2018

O desaparecimento das livrarias-alfarrabistas de Lisboa


OPINIÃO
António Bento
As mortandades trazidas pela peste do turismo selvagem na Baixa turística de Lisboa são tantas e tão cruéis que o meu lado de arqueólogo da cidade quase me põe na situação de ter de escrever uma narrativa chamada O Último Alfarrabista de Lisboa. Que Deus me livre.

3 de Maio de 2018, 17:34

 “Onde quer que se queimem livros, mais cedo ou mais tarde hão-de queimar-se também seres humanos”
Heinrich Heine

Pedindo a benevolência do leitor para as palavras que se seguem, partilho com o público uma preocupação relativa à cidade de Lisboa que me aflige muito. Preocupação com o património físico e cultural da cidade de Lisboa, mas preocupação cívica em primeiro lugar. Refiro-me ao desaparecimento dos alfarrabistas e livreiros da Baixa turística de Lisboa, a qual se encontra sob uma pressão imobiliária global cega.

Ignoro se o leitor tem passeado na Lisboa turística nos últimos 12 meses. Eu faço-o alternadamente a cada semana, a cada 15 dias, a cada três semanas ou a cada mês. A cidade está numa profunda modificação. O processo de turistificação nas chamadas zonas históricas acentua-se a um ponto-limite e os seus efeitos, para o bem e para o mal, são tremendos.

Por exemplo, num dia que não deve estar tão distante assim, acabado de chegar de um passeio nas varandas do miradouro do Jardim de São Pedro de Alcântara, vou deixar de poder escolher e de beber calmamente o meu cálice de Porto Tawny de 40 anos no Solar do Vinho do Porto enquanto folheio um livro comprado num alfarrábio da zona. Aparentemente porque o imóvel em questão já foi vendido a franceses que ali pretendem construir um hotel, num edifício cujos ricos tectos de madeira são de um conhecido arquitecto alemão, antigo dono da casa, contratado pelo marquês de Pombal para a reconstrução de Lisboa após o Terramoto de 1755.
Como sou um frequentador e um conhecedor do meandro dos livreiros-alfarrabistas de Lisboa, e como na condição de cliente conheço nalguns casos os proprietários, posso dizer, com conhecimento de causa, que o que actualmente se passa na Baixa turística de Lisboa neste ramo de actividade é deveras alarmante. “Oh, Lisboa, meu lar!”.

Alguns lisboetas sabem vagamente do elo mítico de Lisboa a Ulisses, mas não sabem que a palavra “património” tem a sua origem no grego e que se refere ao pai e ao verbo moneo, que significa “fazer recordar para fazer saber”. Não sabem que património” significa “o que recorda o pai”, e “matrimónio” “o que recorda a mãe”. Não estão matrimoniados com a alma de Lisboa.

Percorrendo a cidade de oriente para ocidente, e só para falar do espaço que vai da colina de São Jorge à colina de São Francisco, e desta até aos baixios de Santa Catarina, a pressão do encerramento e o garrote da condenação das livrarias-alfarrabistas da Baixa de Lisboa é deveras assassino, tal o seu furor destrutivo! As autoridades continuam a ignorar a razão por que a palavra “alfarrábio” significa na nossa língua portuguesa (e em mais nenhuma outra da Europa) “livro”. Na Lisboa Medieval, foi pelo culto judaico da leitura e pelo culto muçulmano da caligrafia que os cristãos autóctones “apreenderam” a ler e a estudar. Al-Farabi é nome de filósofo. Com a actual demonização do Islão, esquecemos demasiado facilmente que foi pelos judeus e pelos muçulmanos que nós, os cristãos “europeus”, nos familiarizámos com os gregos e de alguma maneira nos tornámos gregos. Aqui se fecha o círculo entre Ulisses, Lisboa e os alfarrabistas.

Quem hoje se lembra há quanto tempo fechou já, na Rua do Carmo, a Livraria Portugal, talvez a única livraria de História decente na cidade? Foi só há alguns anos, mas parece que já passou uma eternidade. Esta perda de uma livraria central digna não poderia augurar nada de bom num futuro próximo. Onde antes se poderia encontrar uma edição rara da História Trágico-Marítima, uma certa edição comentada de uma determinada Crónica de Fernão Lopes, ou uma edição rara da Lírica de Camões, ou ainda um improvável Brasonário português de cultura hebraica, para me ficar por aqui, está agora uma reles Loja Aleh Op, com uma estúpida de uma vaca preta e branca em tamanho natural à porta à espera do cliente de bugigangas universais. Pode alguém imaginar o olhar de um bibliófilo que ali vai em busca de uma hipotética edição do Itinerário da Terra Santa e Suas Particularidades, de Frey Pantaleão de Aveiro, que subitamente se depara com uma vaca de plástico?

Quase no seu começo, para quem sobe a Rua do Carmo pela esquerda, a Aillaud & Lellos, que nos últimos dez anos já só era um repositório de livros não vendidos por um conjunto de editoras falidas associadas que entretanto alugaram o espaço, fechou há menos de seis meses. Na última vez em que para lá me dirigi e me dei conta de que a livraria tinha sido encerrada pude ao menos sorrir diante de um grafito escrito por entre as belas colunas de Art Déco da porta da livraria onde se podia ler: “Turismo=Terrorismo”. Passado pouco tempo a frase foi apagada e o lamento e o queixume “vaporizados”.

Prossigo com este breve relato da destruição de livrarias-alfarrabistas em Lisboa. Só na bela, serpenteante e luminosa Calçada do Duque fecharam num ai três casas de livros velhos ou três livrarias que negociavam com livros fora do mercado. Por sua vez, a Livraria Barateira, quase em frente ao Teatro Trindade, tendo sido fundada em 1914, desapareceu também há coisa de quatro ou cinco anos. Podiam encontrar-se por lá livros de todas as áreas do saber em cinco ou seis línguas. Esta livraria popular, com funcionários atentos e devotos, era especializada em livros, por assim dizer, correntes, mas ainda assim essenciais, digamos que por livros e revistas cuja idade poderia ir até aos cem anos, que são quatro gerações de livreiros e outras tantas vidas. Hoje está lá um restaurante, creio que do jovem chefe Avillez, e uma barbearia moderna tal qual as que se podem ver em Londres e no Novo Mundo…

Ao lado da Livraria Barateira, na porta de entrada da Academia de Amadores de Música, a livreira, uma jovem com quem quase cheguei a namorar quando era estudante universitário, e hoje naturalmente uma vetusta senhora da minha idade, fechou a venda já lá vão pelo menos três anos. O pai morreu-lhe e a filha não foi capaz de continuar o negócio. Na Rua do Alecrim, se descontarmos as livrarias dos primos António Trindade e Bernardo Trindade, com o funeral marcado para o próximo mês de Setembro, sobrevive a Livraria Bizantina, mas creio que a família Bobone, que a explora, não fará senão andar de leilão em leilão pelas casas de uma classe média alta burguesa, hoje praticamente analfabeta, cujos descendentes já quase despareceram, pelo que não lhe profetizo muitos mais anos de negócio.

Na Rua do Alecrim, um pouco abaixo da Livraria Bizantina, o velho Sr. Holtreman quase morreu de pé a trabalhar, cego de todo. Nos últimos anos, o pó e a poeira dentro da livraria eram tais que só um bibliófilo um pouco louco é que poderia pensar em demorar-se por lá muito tempo à espera de desencantar uma separata rara num maço velho de papéis secos. Lembro-me muito dele de cada vez que conto uma nova destruição de livros. A Livraria Luís Burnay, na Calçada do Combro, conheceu os seus últimos dias já em 2012. O proprietário, conhecedor do negócio, recordar-se-á certamente daquele cliente que em tempos lhe comprou a um preço muito razoável os sete tomos dos Discursos e Notas Políticas, de Oliveira Salazar, já então a preços proibitivos, ou mesmo o Tratado da Verdade da Lei de Moisés do rabino Saul Levi Morteira, o chefe do tribunal que excomungou Espinosa. Actualmente está retirado, embora se mantenha residualmente na Internet.

Poderia continuar com outros exemplos, mas fico-me por aqui para não maçar mais o leitor com o relambório e a elegia fúnebre.

Uma coisa me parece. As mortandades trazidas pela peste do turismo selvagem na Baixa turística de Lisboa são tantas e tão cruéis que o meu lado de arqueólogo da cidade quase me põe na situação de ter de escrever uma narrativa chamada O Último Alfarrabista de Lisboa. Que Deus me livre.

Professor na Universidade da Beira Interior



sábado, 9 de fevereiro de 2013

Janelas verdes para o centro de Lisboa



A mais nova editora em Portugal vai nascer num velho armazém onde o cheiro a livros está entranhado. Fica no centro de Lisboa e entrar ali é ir numa viagem pelo tempo. Estamos no princípio de tudo, ou seja, na génese da Divina Comédia. Desta vez sem Dante, mas com Dante a espreitar as palavras de Alexandre Vasconcelos e Sá. Ele é o homem entre paredes altas e janelas verdes.
Para quem gosta de livros e de tudo o que os rodeia, entrar aqui é como passar a porta para um mundo encantado. A chuva, o frio, os pés molhados, as pernas moídas de subir a calçada íngreme, tudo é esquecido. Fecha-se o guarda-chuva e os olhos já se perderam naquele lugar marcado por umas janelas imensas que vão do chão ao tecto, em arco, e quadrícula estreita, com pequenas vidraças a deixar passar a luz que resta de um dia de Inverno quase a chegar ao fim, quase a ser noite. Lá dentro é quente. O chão é de madeira, tábua corrida e cheia a livros, um cheiro antigo que não é mofo, não é pó. É papel para ler ou que já foi lido.
Estantes, caixotes, secretárias, armários cuja função se perdeu no tempo, escadas que vão dar a uma mezzanine, mais estantes, objectos que, retirados do lugar, parecem peças de museu, um armário de gavetas minúsculas que, quando se abrem, se descobrem capazes de compor palavras. São letras. Todo o abecedário em minúsculos pedaços de chumbo de quando cada página de livro era composta com a paciência e a precisão de um tipógrafo, que lia como quem está demasiado próximo da palavra para entender todo o sentido do texto. Letra a letra. A imaginação procura algumas e encontra. Primeiro o D, maiúsculo, e segue, sempre em maiúsculo até à composição final. DIVINA COMÉDIA. Encontrados todos os caracteres, dispostos lado a lado, a palavra assume um significado. É a mais recente editora fundada em Portugal e em processo de construção ali, num velho armazém no centro de Lisboa. 
O lugar
Alexandre Vasconcelos e Sá não tem dúvidas de que aquele é o lugar. “Este espaço reflecte o que queremos fazer”, sublinha numa sala, que será a de reuniões e já vai sendo, a única forrada a papel novo, as lombadas da obra que antecipou um nascimento que não foi prematuro, mas cheio de significado, segundo o fundador desta editora que quer pôr no mercado entre 80 a 100 livros já este ano, mesmo em tempo de crise.


Saído da Objectiva, Vasconcelos e Sá foi à Feira de Frankfurt, quando estava a ser anunciado o nome do Nobel da Literatura, e encontrou disponíveis os direitos de publicação para Portugal de Mudanças, uma obra autobiográfica de Mo Yan, o chinês que em 2012 conquistou a Academia Sueca e foi anunciado ali mesmo, andava Alexandre às compras, o Nobel. Um livro pequeno que podia colocar no mercado, se acelerasse o processo de edição. Assim foi. Entregou a tradução a Vasco Gato e antes do Natal os portugueses tinham dois livros do Nobel chinês Peito Grande Ancas Largas, que a Ulisseia já tinha editado e que voltou a reeditar, e este Mudanças, capa branca com o símbolo de uma nova chancela. Era a estreia da Divina Comédia.
O editor fala do lugar, do livro que já nasceu, do que vai ser a editora que está a construir com o entusiasmo a contagiar os olhos, enquanto vai pedindo quase desculpa pelo caos à volta. Estamos num antigo armazém de uma antiga editora, um espaço que ele quer construir e adaptar às necessidades da sua nova casa: um lugar aberto ao público, com sessões de debate, lançamentos, festa à volta do livro, onde toda a gente pode entrar.
“As portas vão estar sempre abertas”, garante numa altura em que ainda há muita coisa em segredo, como o catálogo a lançar, os nomes que o compõem, a data precisa para a inauguração. “Gostávamos muito que a festa já pudesse acontecer aqui”, mas não quer prometer. Está quase tudo por fazer, ainda que muita coisa seja para fazer.
O cicerone
Os serviços editoriais, de uma equipa que à partida será de sete pessoas, irão funcionar na mezzanine para libertar o espaço em baixo para o público. Não vai haver livraria, mas há a vontade de receber “amigos” e de fazer exposições, de circular.

Como em casa, Alexandre faz de cicerone. Chega à porta que dá para um pátio agora atulhado de tralha, mas que será liberto para mesas e cadeiras e que se adivinha venha a ser uma sombra no Verão quente de Lisboa. É uma palavra quase sempre presente no discurso do editor. Lisboa. Gosta tanto de livros quanto da cidade onde nasceu e vive e para o centro da qual agora se vê regressar enquanto editor em tempo de crise.
Claro que calculou o risco. Anda nisto há muito anos, como gosta de dizer, apesar de ser novo. Na D. Quixote, primeiro. Foi lá que começou no que viria a ser um “vício” que ganhou ao Direito e a outras possibilidades de vida mais “seguras”. Ele continua a ir pelo risco. Agora sozinho, com a ajuda de uma equipa que trouxe com ele do último sítio por onde passou e que lhe garante a qualidade para avançar num tempo em que quase todos recuam.
“Arriscar num momento destes é dramático, mas já pensei mil vezes no que estou a fazer.” E não pensa a curto prazo. “Queremos que esta marca dure muito anos”, vai dizendo, e é como se o espaço em volta lhe desse algumas garantias. Tudo ali é sólido e é dessa solidez que anda à procura. É com ela que quer construir o catálogo dividido em duas marcas: uma “mais literária, se assim se pode dizer, voltada para um público que não é grande, mas que é fiel aos bons livros em Portugal e que contempla a ficção e o ensaio literários”, e outra "mais de entretenimento, livros bem feitos e a pensar em maior números de vendas."
Descobrir
Ainda não abriu e já lhe vão chegando originais. Quer publicar nomes conhecidos, mas descobrir outros, gente nova, em português, e também gente que merece ser publicada por cá e nunca foi. Descobrir é um verbo a conjugar. Outra nota que vinca sempre: “Tratar muito bem os livros. Editorialmente, graficamente, e ter uma grande proximidade com os autores. Se eles quiserem vir de vez em quando para aqui escrever, queremos que isso seja possível. Esta também é a casa deles.”


Na única mesa de trabalho que ainda existe, as pilhas de papéis são grandes, os computadores pedem licença uns aos outros, tudo se amontoa. Viram-se capas, nada é ainda para revelar. Apenas que já há muito que fazer e muito para ler e decidir no que se refere à edição.
Os olhos, mais uma vez, brilham. Há emoções mais difíceis de esconder do que um nome num quadro. “Por agora é assim. Temos de trabalhar neste cantinho. Muitas vezes levamos as coisas para fazer em casa.
A falta de espaço e o barulho das obras que vão começar assim o exigem, mas é aqui que vamos estar todos, neste primeiro piso”, revela Alexandre com uma panorâmica sobre o espaço que é grande visto dali, pé-direito alto a antecipar dias de luz. E cheio de livros. Outra frase quase tão dita quanto o bom que é regressar ao centro de Lisboa. "É tão bom regressar ao centro da cidade!” Não é ponto final. É exclamação mesmo. E ver gente a passar e a entrar e poder vir a pé de casa, desde o Cais do Sodré, num percurso que tanto pode ser feito pela Rua da Prata dos Douradores, passar pala casa de Carlos Botelho, “o grande pinto de Lisboa”, de que tanto gosta. Ou variar, seguir pelo Príncipe Real, parar nos alfarrabistas da Rua da Misericórdia, descer o Chiado, a Rua do Alecrim. “Percurso inspirador”, ri o editor que quer dar uma gargalhada daqui a uns anos, naquele espaço, aliviado de um dia ter tido a ideia de abrir uma editora só sua, num tempo em que tudo e todos o desaconselhavam a fazê-lo. Porque acredita nos livros. E não vamos agora falar de formato. Estamos num armazém de uma antiga tipografia. para já, é papel.

quarta-feira, 28 de março de 2012

Única livraria de poesia do país fecha as portas “sem dívidas”

[Livraria.JPG]
  • Poesia Incompleta funcionava em Lisboa há quase três anos e meio

     

    27.03.2012 - 17:59 Por Hugo Torres
Mário Guerra, único responsável pela Poesia Incompleta, que abriu portas em Novembro de 2008Mário Guerra, único responsável pela Poesia Incompleta, que abriu portas em Novembro de 2008 (João Gaspar/arquivo)
 Lisboa perdeu a sua única livraria exclusivamente dedicada à poesia. Lisboa e o país. A Poesia Incompleta era caso sem-par em Portugal até hoje, terça-feira, dia em que fechou as portas. O proprietário, Mário Guerra, admite reabrir num outro espaço, mas não consegue esconder a profunda desilusão com o rumo do país.
“Está a respirar-se mal neste país. Este país não é para velhos, nem para novos, nem para os do meio. Estou a pensar emigrar, como sugeriu um ministro qualquer”, afirma ao PÚBLICO, num tom irónico que o leva a dizer que vai “doar” os volumes de poesia que sobraram na livraria ao ministro adjunto e dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas.


O que é dizer muito. A Poesia Incompleta tem um fundo de oito a dez mil volumes de e sobre poesia, em mais de 30 línguas, e com mais de 260 editoras, segundo a Lusa. A livraria, que estava aberta ao público desde Novembro de 2008, tinha três salas por onde se espalhava todo este espólio, que incluía raridades e antiguidades.



Mário Guerra partilhou os títulos que foram chegando à livraria ao longo destes quase três anos e meio no blogue onde, nesta segunda-feira, anunciou o fim da linha para a Poesia Incompleta. A curtíssima nota acabava com a possibilidade de abrir num outro espaço: “Amanhã, a PI fechará portas. Espera-se que as reabra em breve, num novo local.”



Questionado pelo PÚBLICO sobre a eventual reabertura, volta a ironizar: “Vamos reabrir no estádio nacional”. O que Mário Guerra enfatiza é que a Poesia Incompleta chega ao fim “sem uma única dívida”. “A Poesia Incompleta fecha sem ninguém poder dizer que temos sequer uma dívida. E isso é óptimo. E raro.”



“Não quero relacionar de maneira nenhuma o fecho da minha livraria com o fecho das outras. A Poesia Incompleta fecha porque tem de fechar”, acrescenta. “Não me queixo de nada. A crise é espiritual.”

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Livraria Sá da Costa à venda por 175 mil euros em 2010







RUAS DE LISBOA COM ALGUMA HISTÓRIA





Rua Garrett, 100 e 102 - (2005) Foto Cristina Garcia (Livraria Sé da Costa) in cristinagarcia.no.sapo.pt
~



Rua Garrett - (1913) Foto Alberto Carlos Lima (Interior da Livraria Sá da Costa na época) i
n almanaquerepublicano




Cinco meses depois, Sá da Costa à venda pelo triplo do preço


14 de Março, 2011
Cinco meses depois de ter estado à venda por 175 mil euros, a Livraria Sá da Costa inaugurada há 68 anos na Rua Garrett, em Lisboa, volta à praça por 415.498 euros.Em Outubro de 2010, a Livraria Sá da Costa foi posta à venda, sem sucesso, no Portal das Finanças com uma base de licitação de 175 mil euros e agora o tribunal decretou a venda judicial pelo mínimo de 415 498 euros, mediante proposta em carta fechada.
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As propostas podem ser entregues até às 15h de sexta-feira, após o que serão abertas, lê-se no anúncio publicado após a decisão judicial que decretou a venda da livraria, precisou hoje à Lusa fonte da leiloeira.
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De acordo com o anúncio, o que está a ser leiloado é o direito ao trespasse e arrendamento do estabelecimento, composto por cave e loja e do qual fazem parte todos os armários /prateleiras existentes em todas as paredes do rés-do-chão do estabelecimento e que cobrem toda a sua extensão.
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Ainda de acordo com o anúncio, que menciona como valor actual de renda 179 euros, o proprietário do imóvel será ouvido quanto ao direito legal de preferência.
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Segundo um funcionário da Sá e Costa, a livraria mantém apenas dois empregados, que já terão pedido a suspensão dos contratos de trabalho para poderem beneficiar de apoio da segurança social.
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A gestão da Livraria Sá da Costa – fundada em 1913 e a funcionar na Rua Garrett desde 1943 – era assegurada desde 2008 pela Fundação Agostinho Fernandes (FAF), de Dinis e Sérgio Nazareth Fernandes, netos de Agostinho Fernandes, fundador das conservas Algarve Explorador e da Portugália Editora (1942).


 


Livraria Sá da Costa à venda 

por 175 mil euros


19.10.2010 - 11:00 Por Lusa


A livraria Sá da Costa, em Lisboa, está à venda por uma licitação base de 175 mil euros, em carta fechada, até 8 de Novembro, informa o Portal das Finanças


A venda deste estabelecimento comercial inclui “as respetivas licenças, alvarás e demais elementos que o constituem, designadamente o respetivo arrendamento e trespasse”, lê-se no Portal das Finanças. 

“Do estabelecimento fazem parte todos os armários/prateleiras, existentes em todas as paredes do r/ch [rés do chão] do estabelecimento e que cobrem as mesmas em toda a sua extensão”, acrescenta a nota. 

As propostas de compra serão aceites até às 11H00 de 8 de Novembro deste ano e serão abertas em Lisboa às 11h30 do mesmo dia.