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quarta-feira, 27 de maio de 2026

Manuel Cardoso - Passos Coelho não se aposenta, apresenta


Manuel Cardoso, Humorista

Pedro Passos Coelho, quando decide apresentar um livro, reflete longamente sobre quem é que poderia escrevê-lo
 
Pedro Passos Coelho concluiu que precisava de se focar no seu bem-estar. Nesse sentido, decidiu agendar sessões recorrentes em que pode falar à vontade dos seus ressentimentos durante uma hora. Infelizmente para o país, não quis gastar dinheiro em terapia e optou pelas apresentações de livros. Há autores que, quando decidem escrever um livro, põem-se a pensar em quem é que poderia apresentá-lo. Pedro Passos Coelho, quando decide apresentar um livro, reflete longamente sobre quem é que poderia escrevê-lo. Os novos aliados de Passos Coelho estão a ficar seriamente preocupados: o ex-Primeiro-Ministro tem passado muito tempo em livrarias. Por estar permanentemente rodeado de estantes com livros, temem que possa considerar adquirir um.

Nunca marquei presença nestes eventos, mas consigo imaginar a dinâmica: primeiro, o autor do livro confessa que é uma honra ter sido convidado para escrever um livro a propósito do lançamento da apresentação de Passos Coelho; depois, faz uma breve biografia do apresentador, percorrendo o longo percurso apresentadorístico do massamense; a seguir, oferece o livro aos presentes para lhes despertar interesse na apresentação. Entretanto, Pedro Passos Coelho pega no microfone e apresenta o livro. Por fim, o autor do livro vai arrumando as cadeiras enquanto Passos Coelho distribui autógrafos.

Como sempre se soube, Portugal é demasiado pequeno para Pedro Passos Coelho. O mercado editorial português não faz lançamentos suficientes para acompanhar a prolificidade das apresentações de Passos Coelho. Até agora, o ex-presidente do PSD ainda tem conseguido encontrar, para participarem nas suas apresentações, autores de ciência política ou direito constitucional. Em breve, Pedro Passos Coelho vai ser forçado a apresentar "As 100 Receitas Mais Virais do TikTok", a biografia de um agente imobiliário ou a nova sensação do soft-porn "Tudo O Que Aprendi No Pilates". Em princípio, isso beneficiará os autores. Até porque, ao contrário do que acontecia quando Passos era PM, os "livros não-educativos" já não são taxados a 23%.

2026 Maio 27

https://expresso.pt/opiniao/2026-05-27-passos-coelho-nao-se-aposenta-apresenta-4c980ba7

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Sérgio Ferreira Borges - Passos Coelho e o regresso à Idade Média (2012)

 

* Sérgio Ferreira Borges

 Quando o Marquês de Pombal chegou ao poder, encontrou um Estado ainda medieval, quase inexistente, sacrificado aos egoísmos de uma aristocracia inútil e parasitária.

Os saques - coloniais e domésticos - eram coisa corriqueira que contavam com o beneplácito régio, para, do seu produto, se alimentarem os vícios da nobreza dissoluta. Talvez por isso, o Marquês de Pombal se tenha aproveitado da tentativa de regicídio dos Távoras, para desferir um golpe inclemente, contra os privilegiados da corte.

Há um elemento passional na origem do processo dos Távoras. O rei José era amante de Teresa Leonor, a mulher do Luís Bernardo, filho de Francisco Távora. E terá sido esse, aparentemente, o móbil do crime.

Mas havia também fortes motivações políticas para eliminar o rei e, com ele, o seu chanceler-mor. E Pombal respondeu, também, politicamente, com execuções e desterros, para que a aristocracia percebesse que alguma coisa tinha mudado, no Reino de Portugal.

Atacou depois os jesuítas que, desde a restauração de 1640, controlavam grande parte do comércio colonial e daí financiavam um poder imenso que abafava o Estado: Regiam o ensino, a cultura e a ciência, abuso que Pombal não lhes tolerava. Mas nesse tempo, a Igreja via no poder a sua própria sobrevivência.

Na realidade, o Estado não existia. Havia uma corte e, à sua volta, um conjunto imenso de privilégios que ninguém sabia justificar.

Hoje, o Estado está a caminhar para a mesma irrelevância que teve, até ao advento do Marquês de Pombal. Está pobre e falido, mas os privilegiados que o cercam estão ricos, prósperos, apoderando-se cada vez mais de um poder ilegítimo, que não lhes pertence. São os "Catrogas" que, além de meios financeiros, dispõem de influências enormes que lhes colocaram nas mãos todo o poder que devia ser público. Assim eram também os Távoras.

Reduzir o Estado, como eles dizem, não é nada de moderno, bem pelo contrário. É antes um regresso ao medieval, para manter os privilégios de uma horda que, sem pejo nem vergonha, à custa das mais escandalosas mentiras, vai usurpando o poder. E aqui, está uma questão nuclear: o poder tem de existir, mas resta saber se o queremos no domínio público, isto é, no Estado, ou nas mãos dos privilegiados, para serviço dos seus interesses privados.

Passos Coelho já optou pela segunda premissa. É um servidor de interesses privados, como ele próprio tem dito, por entre algumas inverdades. Repare-se na incongruência dele, quando pede mais investimentos aos investidores e mais poupança aos consumidores. As duas coisas não podem coexistir. Isto é uma enorme falácia, porque Passos Coelho sabe que, só o consumo pode remunerar o investimento. E sem remuneração, nenhum investidor está na disposição de malbaratar o seu capital.

Ele serve os interesses privados, como se pode ver pelos resultados da Caixa Geral de Depósitos. No último ano, pela primeira vez, registou prejuízos da ordem dos 488 milhões de euros. Dinheiro que foi tapar as falcatruas do Banco Português de Negócios e do Banco Privado Português. Trafulhices que se tomaram em lucro, para uma minoria. Para os Távoras do século XXI. A modernidade apregoada por este governo é um retrocesso, um regresso à idade média!

(in Diário de Coimbra, 12/02/2012)

23.02.26 | Manuel

https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/passos-coelho-e-o-regresso-a-idade-246462

domingo, 4 de março de 2018

DISCURSO DO CATEDRÁTICO A HAVER

(em quadrinhas de mal dizer, para cantar à esquina)



* José Gabriel


        I
Com todo este saber
(Isto é axiomático)
Quando for grande vou ser
Um professor catedrático.

Não sou de grande ciência
Mas sou muito carismático
Vou ser, tenham paciência,
Um professor catedrático

Graças a vistosa finta
Com um drible burocrático
Vou ser, e com grande pinta,
Um professor catedrático.

Não tenho modos de mestre
Sou mais para o autocrático
Mas vou, ao jeito rupestre,
Ser professor catedrático.

A gestão da Tecnoforma
De um modo automático
Só por si, já me transforma
Em professor catedrático.

                    II
E esta minha voz sonora?
E este meu jeito enfático?
E a minha arte canora?
Sou ou não sou catedrático?

E o meu pendor dogmático?
E o meu pin emblemático?
E o meu talento empático?
E o meu dom democrático?

E o meu quadro idiossincrático?
E o fôlego psicossomático?
E o olhar electrostático?
E o sorriso simpático?

III
Não serei um bom gramático
– Sou até muito assintático –
Resolvo de modo prático
Metendo um ano sabático

Queixo-me de reumático
E de um problema hepático
P’ra não falar no ciático
E no síndroma prostático

As escolas são como selvas
Para quem tem dotes escassos
Bem me vai dizendo o Relvas:
“Vai mas é estudar, ó Passos!”

Não gostaram do meu esquema?
(Eu sou um tipo esquemático)
É vosso, esse problema.
Por mim, vou ser catedrático


03/03/2018
https://estatuadesal.com/2018/03/03/discurso-do-catedratico-a-haver-em-quadrinhas-de-mal-dizer-para-cantar-a-esquina/