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domingo, 12 de maio de 2024

André Cintra - Como os dicionários retratam os negros – nos EUA e no Brasil

 


Albert Hall e Denzel Washington, em cena do filme 'Malcolm X'

Visões racistas ou discriminatórias – que tratam o negro como “escravo”, “indivíduo sem alma” ou “indivíduo comercializável” – são invariavelmente predominantes nos dicionários de língua portuguesa

por André Cintra

Publicado 11/05/2024 11:13 | Editado 11/05/2024 12:11

Há uma sequência de Malcolm X (1992), o filmaço de Spike Lee, que mostra a natureza ideológica das palavras e das representações. A cena é ambientada no pátio da prisão norte-americana de Charleston. Baines (Albert Hall) tenta atrair Malcolm (Denzel Washington) para a Nação do Islã. Mas, antes do convite, há uma série de perorações sobre a relação entre brancos e negros.

“Você aceitou tudo o que o homem branco lhe disse. Ele disse que você era um pagão negro – e você acreditou nele”, afirma Baines. “Ele disse para você idolatrar um Jesus loiro, de olhos azuis, de pele branca – e você acreditou. Ele disse que o preto era uma maldição – e você acreditou. Você já procurou a palavra ‘preto’ no dicionário?”.

A dupla se dirige à biblioteca da cadeia, onde Baines abre um dicionário e lê diversas definições de “negro”: “destituído de luz”; “desprovido de cor”; “envolto na escuridão – logo, muito sombrio e obscuro, como em ‘futuro negro’” (…); “coberto de sujeira”; “imundo”; “lúgubre”; “hostil”; “proibido, como ‘um dia negro’”; “insensato ou extremamente perverso, como em ‘magia negra’”; “indica desgraça, desonra ou culpa”.

A estudante secundarista Franciele de Souza Meira

Baines empurra o dicionário até Malcolm e pede para que ele leia os diversos significados da palavra “branco”: “a cor da neve alva”; “o reflexo de todos os raios do espectro”; “o oposto de preto”; “sem manchas ou defeitos”; “inocente”; “puro” (…); “sem intenções malignas”; “inofensivo”; “honesto”; “negociação justa”; “honorável”.

A provocação dá certo, a ponto de Malcolm decidir ler e copiar todo o dicionário, de verbete em verbete. É o estopim para a mudança que transformará um “vigarista de Massachusetts” num dos líderes negros mais influentes do século 20.

Não sei se a jovem secundarista Franciele de Souza Meira, de 17 anos, já assistiu a Malcolm X. Moradora de Extrema (MG), essa estudante de ensino médio do Instituto Federal de São Paulo, matriculada no campus de Bragança Paulista (SP), foi premiada por uma pesquisa de iniciação científica que lembra a viagem de Malcolm pelo universo das palavras.

Para mostrar o “viés racista” da língua portuguesa, Franciele selecionou 17 dicionários, lançados em períodos distintos. Em cada um deles, buscou a definição de “preto” e “negro”, fazendo uma análise comparativa do discurso. Porém, das edições antigas (como o Rafael Bluteau, de 1712) até os contemporâneos (Aurélio e Houaiss), não houve adaptações significativas.

As visões racistas ou discriminatórias – que tratam o negro como “escravo”, “indivíduo sem alma” ou “indivíduo comercializável” – são invariavelmente predominantes. Apenas três dicionários – o da Academia Brasileira de Letras (1976), o de Biderman (1992) e o de Bechara (2011) – não associam “negro” e “preto” a padrões pejorativos.

“As definições encontradas em dicionários mais antigos eram esperadas de certa forma, pois esses dicionários foram publicados quando circulava, à época, um discurso pró-escravidão”, comenta Franciele. “Em relação aos dicionários mais recentes, realmente fiquei surpresa por ver que havia continuidade desse discurso, relacionando os indivíduos negros ao período escravocrata.”

Sob orientação do professor Rafael Prearo Lima, o estudo foi batizado de “Registro de ‘Preto’ e ‘Negro’ em Dicionários de Língua Portuguesa”. Em outubro de 2023, conquistou o primeiro lugar na Bragantec (Feira de Ciência e Tecnologia de Bragança Paulista), onde concorreu na categoria Ciências Humanas e Linguagens.

Cinco meses depois, em março deste ano, foi medalha de ouro na maior feira de iniciação científica da América Latina, a Febrace (Feira Brasileira de Ciências e Engenharia). Franciele superou outros 43 projetos finalistas da categoria “Ciências Humanas” e recebeu a premiação em cerimônia na USP (Universidade de São Paulo).

Inicialmente, a estudante secundarista pensou em usar a literatura – e não os dicionários – para denunciar esse retrato dos negros como “inferiores, menos humanos”. Ao trocar a ficção pelo “discurso oficial”, sua pesquisa ganhou força e contundência. “As coisas que são colocadas nos dicionários representam uma ideia da sociedade. Eles mostrarão as definições que servem para aquela sociedade naquele tempo”, diz Franciele. “Não esperava que todo o discurso mostrado durante o século 20 continuasse no século 21.”

O estudo também mostra a falta que faz a efetivação da Lei 10.639/2003, que obriga escolas de ensino fundamental e médio a incluírem no currículo conteúdos sobre a história e a cultura afro-brasileiras. Não dá para mudar conceitos enraizados onde faltam novos paradigmas. A pesquisa de Franciele dá pistas do longo caminho a percorrer.

https://vermelho.org.br/2024/05/11/como-os-dicionarios-retratam-os-negros-nos-eua-e-no-brasil/

sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

André Cintra - Nem The Crown nos convence de que precisamos de monarquias no mundo moderno


Dos 194 Estados reconhecidos pela comunidade internacional, 43 são regidos por monarquia.

por André Cintra
Publicado 17/01/2024 17:34 | Editado 22/01/2024 16:05



Volta e meia, os criadores de The Crown são acusados – com razão – de edulcorarem a imagem da monarquia britânica, em especial a da rainha Elizabeth 2ª (1926-2022). Mas um episódio da sexta e última temporada da série, lançada pela Netflix em novembro passado, deixa a condescendência de lado e expõe em detalhes um dos muitos anacronismos que cercam a família real.  

O capítulo é batizado de “Ruritânia”. Nele, Elizabeth, incomodada com os elevados índices de aprovação do primeiro-ministro Tony Blair, quer entender por que a monarquia não goza mais de prestígio semelhante. Um conselheiro tenta dissuadi-la: “A Coroa não faz perguntas existenciais sobre si mesma”. Mas a monarca não desiste.

Após encomendar uma ampla pesquisa de opinião pública, a Corte pede ajuda ao próprio Blair. Em resposta, ouve conselhos que vão da mudança nas regras de sucessão à demanda por mais transparência. O premiê insiste particularmente no que chama de “pompa e esplendor”. Para exemplificar essas aberrações, cita um punhado de profissionais que servem à casa real com “papéis cerimoniais” obsoletos.

Lá estão, entre outros, o caçador de falcões hereditário, o espalhador de ervas da rainha, o lavador de mãos do soberano, o guardião dos cisnes e o arauto de cerimônias. “Acho que estamos sugerindo uma purga de honoríficos. Uma extinção de sinecuras pode ser uma concessão bastante útil – e uma vitória das relações públicas”, diz Blair para uma rainha estupefata.

Numa das cenas seguintes, a família real discute as propostas do premiê em tom de ironia e desprezo. Apenas Charles concorda que fazer “uma ou duas concessões” beneficiaria a imagem pública da realeza. “Vai nos deixar menos aberto a acusações de elitismo e grandiosidade”, diz o primogênito da rainha. “Não há nada de errado em administrar a monarquia de uma maneira mais racional ou democrática.”

É nesse ponto que Elizabeth abre mão da ideia de burilar a reputação real. Contrapondo-se ao filho, a rainha conclui que a monarquia “não é racional, ou democrática, ou lógica, ou justa”. Seu discurso atribui uma espécie de missão espiritual – quase sagrada – aos ocupantes do Palácio de Buckingham.

“As pessoas não querem vir ao palácio real e ter o que já têm em casa”, filosofa. “Quando vêm para uma investidura ou uma visita de Estado, quando nos encontram, querem magia e mistério – e o secreto, o excêntrico, o simbólico e o transcendente. Querem sentir como se tivessem entrado em outro mundo. Este é o nosso dever: elevar e transportar as pessoas para outro reino, e não trazê-las de volta à terra e lembrá-las o que já possuem.”

The Crown é uma obra de ficção, ainda que livremente inspirada em fatos verídicos. Não sabemos se o vaivém da rainha Elizabeth realmente ocorreu – da inclinação inicial em remodelar a monarquia até o abortamento completo do plano. Mas é inegável que a família real tem de se preocupar não apenas com sua popularidade – mas, acima de tudo, com sua razão de existir.

Entre os séculos 18 e 19, as revoluções burguesas ajudaram a exterminar a monarquia em diversos países europeus, como a França, a Itália e a Alemanha. O comunismo também deu sua contribuição no século 20, ao depor reis, imperadores e czares na Rússia, na Iugoslávia, na Romênia e em outras nações. Mesmo assim, o sistema monárquico sobreviveu na Europa, onde famílias reais continuam à frente de sete países e cinco principados.

Um levantamento Deutsche Welle mostra que, dos 194 Estados reconhecidos pela comunidade internacional, 43 são regidos por monarquia. Na Europa, reis e rainhas com décadas de trono têm abdicado nos últimos anos, mas a coroa continua em família. São funções representativas e, por vezes, decorativas – o termo “rainha da Inglaterra” é usado há décadas para descrever políticos que têm cargos, mas pouco poder.

Ora, para que servem, então, as monarquias no mundo moderno – e, em especial, as monarquias parlamentaristas europeias? Qual o sentido de mantê-las para além de valores como “magia e mistério – e o secreto, o excêntrico, o simbólico e o transcendente”? O dia e a dia em um e outro palácio real pode render até filmes e séries atraentes, a exemplo de The Crown. Mas podemos viver felizes sem essas produções, assim como o mundo não tem exatamente o que perder se as dinastias hereditárias chegarem ao fim.

https://www.vermelho.org.br/2024/01/17/nem-the-crown-nos-convence-de-que-precisamos-monarquias-no-mundo-moderno/