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domingo, 13 de março de 2016

"Livrarte/Ulmeiro"... 40 anos a resistir

17/01/09



Em Benfica, existe ainda um Alfarrabista - repleto de História e de memórias de lutas por uma Causa - que teima em Resistir, depois de 40 anos... 


Situada na Avenida do Uruguai, no Nº 13A A, a “Livrarte” iniciou, formalmente, o seu negócio na venda de livros, há cerca de 29 anos (por volta de 1969): “(...) iniciado pela “Ulmeiro”, que tinha Editora e a Livraria (...)”, como nos contou a D. Lúcia Ribeiro, proprietária desta casa.

“Editora Ulmeiro” (como se chamava, então, à loja que alguns anos mais tarde viria a dar origem à“Livrarte”) poderia ser considerada, em finais dos anos 60, como uma Editora de vanguarda, na medida em que as suas publicações eram, essencialmente, livros de carácter político e interventivo, de ideais opostos aos do regime então vigente.

Nessa época conturbada do Salazarismo, e antes do 25 de Abril de 1974, esta era uma livraria “(...) marcadamente de contestação (...)”, segundo palavras da D. Lúcia.

Enquanto que a “Editora Ulmeiro” publicava livros de carácter considerado revolucionário para o Regime, a sua Livraria assumia um papel de núcleo de concentração dos intelectuais que queriam fazer ouvir as suas vozes contra o governo.
 


“Há ali um período em que era só política, pronto. Aí foi o auge da política. A gente queria era saber alguma coisa de política (...)”, e na “Ulmeiro” começaram a realizar-se sessões culturais de cariz político-informativo.

Nesta fase em que todos estavam de algum modo ligados à política (quer quisessem ou não, pois as suas vidas eram sempre regidas pela mesma), as sessões culturais de música e teatro, em que nomes sonantes como o de Carlos Paredes, Zeca Afonso e Mário Viegas participaram, sucediam-se umas atrás das outras: “Olhe, não tem conta as sessões que nós fizemos aqui culturais!”, diz-nos a D. Lúcia Ribeiro com uma certa réstia de saudade na voz.

Apesar desta sua acção, nunca foi partidária, nem esteve ligada a nenhum movimento político ou de contestação, mas as pessoas sempre associaram a Livraria aos movimentos contra o Regime que antecederam o 25 de Abril; como nos refere a D. Lúcia, “(...) não esteve ligada a nada, embora as pessoas nos conotassem, mas isso era inevitável!”, porque “Numa fase em que (...) toda a gente estava ligada à política (...) os que eram de direita diziam que éramos de esquerda, os que eram de esquerda como não éramos do PC ou não sei quê, diziam que éramos de direita.” 

O próprio Zeca Afonso era amigo pessoal da D. Lúcia e do Sr. José Ribeiro (marido da D. Lúcia), facto que devido à importância que o seu nome teve na história do 25 de Abril fez com que a memória colectiva existente na zona de Benfica assimilasse, até aos nossos dias, a “Livrarte” como pertença de familiares do cantor. No entanto, o parentesco existente entre Zeca Afonso e o Sr. José Ribeiro era, como nos explicou a D. Lúcia e tivemos ocasião de constatar quando o seu marido entrou na loja (aquando de uma das nossas Entrevistas), “(...) só a semelhança física (...)” “(...) uma grande relação de amizade e de parecença intelectual, a postura na vida (...)” entre ambos “(...) era muito parecida”.

Depois do 25 de Abril de 1974, quando os ânimos políticos e contestatários acalmaram, estas sessões culturais deixaram de ter razão de existir e “(...) aboliu-se isso completamente”. Mas a principal questão continuava a ser “(...) intervir culturalmente (...)” na sociedade, o que só foi possível com muitas outras sessões ao nível de autógrafos de autores e de leituras de poesia. Retomando-se, assim, o prosseguimento normal de uma Editora/Livraria.

Quatro anos após o 25 de Abril, em 1978, “(...) fizeram-se duas firmas diferentes... a “Ulmeiro” remeteu-se para o seu campo de Editora, que é aqui (...) no prédio ao lado; e a Livraria constituiu-se portanto, com o nome de “Livrarte” (...) Embora ficando ligados do ponto de vista de auxílio, digamos”. A D. Lúcia Ribeiro ficou à frente da “Livrarte”, enquanto o seu marido, o Sr. José Ribeiro permaneceu mais ligado à “Ulmeiro”e ao ramo editorial.

Inicialmente, a “Livrarte” só vendia livro novo (de literatura e escolar), tendo também uma secção de artigos de papelaria; mas há cerca de 11 anos, em 1987, empreendeu na transformação do seu negócio original, começando a “construir” uma secção destinada a objectos e livros antigos.

A D. Lúcia Ribeiro lembra-se bem dessa altura da sua vida, pois a mesma foi pautada por um outro marco histórico, este um acontecimento de carácter muito mais pessoal e que a emocionou bastante: “(...) Até que, exactamente, há 11 anos...e aí eu sei!... Foi quando nasceu a minha neta!!”.

1987 foi, também, o ano em que abriu as suas portas ao público, na zona de Benfica, o “Centro Comercial Fonte Nova”. Para a época que então se vivia, este local apresentava-se como um dos mais audazes na competição comercial, quer em termos da variedade de produtos apresentados nas suas diversas lojas, todas concentradas num único espaço, quer nos preços apresentados. Facto esse que terá contribuído em muito para a desvalorização, por parte do público, do tipo de comércio mais tradicional em que a “Livrarte”também estava incluída.

Esta “crise” terá sido, também, um impulsionador para a mudança que a “Livrarte” veio a incutir ao seu ramo de acção. “Numa crise qualquer... foi quando abriu o “Fonte Nova” ... (...) a necessidade aguça o engenho; e vai daí e toca de fugir do foco que estava a ir mais para baixo (...) e que tínhamos, pronto, o “Fonte Nova” com uma grande qualidade na altura... Era competitivo, por isso nós tivemos que nos virar para outros lados (...)”, diz-nos a D. Lúcia.

E a “Livrarte” largou o negócio de papelaria, e enfrentando os novos tempos que se avizinhavam, passou a dar apenas destaque ao livro novo, ao livro antigo e às “velharias” (ou antiguidades).

 


O negócio parecia ser bom e rentável, tanto do ponto de vista económico (pois nunca existiu nenhuma outra loja com aquelas características particulares na zona) quanto pessoal, pois como nos relata a D. Lúcia “(...) com muito gosto pessoal nesse tipo de coisas, porque já comprava para mim”.

Há cerca de um ano atrás, abriu, também, em Benfica, mais um Centro Comercial, o “Colombo”, o que terá criado “(...) um certo impacto aqui na zona (...)”.

Este foi mais um factor específico que veio incutir a mudança social na zona de Benfica. Um factor que teve tanta importância e repercussão que, a própria Junta de Freguesia teve de instalar alguns cartazes publicitários no intuito de fortalecer o “comércio tradicional”, que via assim perigar os seus negócios em detrimento do novo Centro Comercial.

De características arrojadas e uma política de marketing cada vez mais audaz (devido aos tempos que correm), uma das principais lojas deste Centro Comercial é a FNAC, uma empresa francesa de venda de livros, CD’s e material audio e video, com preços muito mais reduzidos do que as suas congéneres.

Na altura em que esta loja abriu, a D. Lúcia ficou, desde logo, ciente do facto de que isso iria ter repercussões drásticas na “Livrarte”. De facto, “(...) escusamos de mentir!... Há muito cliente que mudou em nome dos 10% e de haver lá tudo (...)”.

Contudo, o que nem a D. Lúcia nem ninguém esperava, é que muitos dos seus clientes “desertores” começassem a regressar novamente. Tal facto só encontra justificação numa frase que muitos deles declaram à D. Lúcia e aos seus “Colaboradores” (pessoas que a ajudam na Loja): “Nunca mais!! (...) Então eu quero dar uma prenda, eu explico para quem é e ninguém me aconselha nada!”.

Porque, contrariamente ao que parece suceder no caso do atendimento na FNAC, na “Livrarte” a relação que se estabelece com o cliente é algo de muito mais “(...) personalizado (...)”: - o cliente é aconselhado sobre aquilo que poderá ou não comprar (se quiser), consoante os seus próprios gostos pessoais. Todo este processo ou relação que se vai estabelecendo com os clientes parece ser muito gratificante a nível pessoal para quem está à frente de um negócio deste género: “E isso é muito gratificante. Isso vale tudo! (...) A gente não saberia que isto era verdade se as pessoas depois não viessem cá agradecer (...) E também lemos muito! Porque senão não saberíamos recomendar!”, diz-nos uma das Colaboradoras da loja, com quem conversámos.

Esta relação que se estabelece só se torna, de algum modo, possível neste tipo de comércio mais personalizado, em que, como nos disse uma das tais Colaboradoras da “Livrarte”“(...) porque a leitura tem muito a ver com os primeiros livros que se lêem. E o que acontece muitas vezes é que há uma opinião a dar; há, no fundo, um estímulo à leitura e também ao crescimento pessoal. E uma conversa pode mudar uma vida! (...) Mudar um pouco o rumo de uma existência através do livro que se aconselha (...)”.

 


“Livrarte” é constituída por dois andares: a loja e um rés-do-chão. No piso superior apresenta-se a secção de livros novos (onde os livros de ficção e de “(...) filosofias alternativas (...)” são os mais vendidos) e de livros antigos (podendo encontrar-se nesta parte livros de História; de autores portugueses pouco conhecidos dos anos 50 e 60, de que nem a Biblioteca Nacional dispõe; livros de Teatro e de Arte, monografias de Portugal; uma colecção de livros sobre África e uma de escritores brasileiros antigos) ; no piso inferior da loja está patente a secção de “velharias” e antiguidades, das quais também podemos ver alguns exemplares logo à entrada, no piso superior, na montra.

No que concerne ao público desta Livraria-Alfarrabista tão especial, há que fazer uma distinção entre os três sectores da mesma.

Em relação ao livro novo e antigo, o seu público é constituído, essencialmente, por “(...) gente muito jovem (...) que cada vez lê mais (...)”, estudiosos e universitários que estão a fazer teses ou outros trabalhos sobre um tema específico e os outros clientes que fazem parte de “(...) um dia-a-dia vulgarzinho de bairro (...)".

No que diz respeito às “velharias”, são compradas, basicamente, nas casas de particulares que por algum motivo se pretendem ver livres de objectos tão díspares como mobiliário, peças de ourivesaria, etc. Quem está à frente desta parte do “negócio” é, especialmente, a D. Lúcia que nos exprime o que sente em relação ao mesmo desta forma: “Isso é outro mundo, isso é outro planeta! (...) E depois é a vivência a que isto nos leva, as viagens a que isto nos leva a casa das pessoas... (...) As histórias são impressionantes, são mundos que nos atravessam! (...) muitas vezes ou é a velhice, já, em que as pessoas querem vender...e depois são os seus mundos, as suas histórias que nos transportam, não é?! Atiram para cima de nós! (...) e em cada casa é um mundo e uma história! E viver esse outro lado também é um fascínio terrível!!”.

Quanto aos compradores de “velharias” podem ser clientes muito diferentes, mas gostaríamos aqui de destacar um desses casos: - muitas vezes, é usual serem procuradas peças específicas (de mobiliário ou outras) por Companhias de Teatro ou artistas que pretendem realizar espectáculos; essas “velharias” são vendidas ou alugadas aos mesmos (que, quando concluído o espectáculo as devolvem, como tivemos oportunidade de observar aquando da realização de uma das entrevistas).

Quanto a este seu tipo de negócio tão sui generis, dentro do panorama alfarrabístico de Lisboa, a D. Lúcia diz-nos: “Não somos especializados, não é?! Não temos pretensões a especialização. (...) somos diferentes, temos aquilo que mais ninguém tem! Só não temos o supra-sumo daquilo que se considera o Alfarrabista, que são aqueles livros...(...)”. Estas suas características tão particulares associadas ainda à venda de livro novo (se bem que em pequena escala) terão, de certo modo, criado uma visão pouco lisonjeira do seu negócio, dentro do próprio meio alfarrabista, ou seja, entre os seus congéneres, como nos relata: “(...) mesmo trabalhando com coisas que eles consideram vulgares, a maior parte dos alfarrabistas só alfarrabistas (...)”.

De qualquer modo, o aspecto que considera mais importante, acima de tudo, nesta profissão, é o gosto pessoal, como exprimem bem estas suas afirmações: “(...) De qualquer modo somos diferentes e ainda vivemos no meio desta bagunçada toda e disto tudo... e é muito giro! Estar aqui é muito giro, para nós e para uma grande parte dos nossos clientes. É muito gratificante!! (...) pelo menos ter gosto naquilo que se faz (...)”. 

Em relação ao futuro do seu negócio, afirma mesmo: “Projectos nunca nos faltam. Por isso é que não acabamos, se não, já tínhamos fechado esta “porcaria” toda e mudado de ramo...e passado para um Banco!”. Uma última alusão implícita ao facto de, actualmente, na zona de Benfica, quase todas as casas comerciais, que não dão lucro e fecham o seu negócio, estarem a ser compradas por Bancos, para aí se instalarem.

Actualmente, e como nos disse, a D. Lúcia só mudaria este seu negócio para mais uma coisa que muito a cativa: a criação de uma Galeria de Arte, para vender obras de Pintura Moderna de alguns jovens artistas ainda em início de carreira e pouco conhecidos.

Relembrando a acção interventiva que desenvolveram no passado, e como nos disse a D. Lúcia: “(...) aí é um gosto pessoal, também! Porque esta casa, há muitos anos, teve uma galeria de arte lá em baixo. E esse bichinho ficou”.

Publicada por Alexa à(s) 20:06 

http://mercadodebemfica.blogspot.pt/2009/01/livrarte-40-anos-resistir.

António Cotrim - 50 anos depois, Livraria Espaço Ulmeiro em risco de fechar

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A livraria Espaço Ulmeiro, em Lisboa, corre o risco de encerrar, ao fim de quase 50 anos de atividade, e tenta agora os últimos esforços para reverter a situação, realizando esta semana uma feira do livro.
ANTÓNIO COTRIM/LUSA

 A livraria Espaço Ulmeiro, em Lisboa, corre o risco de encerrar, ao fim de quase 50 anos de atividade, e tenta agora os últimos esforços para reverter a situação, realizando esta semana uma feira do livro.

José Antunes Ribeiro, fundador da editora Ulmeiro e da livraria que mantém desde 1969, no bairro de Benfica, impôs a si próprio uma decisão, até ao começo da primavera, porque são mais as despesas do que as receitas e os clientes não abundam. É tudo uma questão de dinheiro.
Os últimos quatro anos foram absolutamente desastrosos. Quando a classe média perdeu poder de compra, aquilo que já era difícil tornou-se insustentável”. E a isso juntou-se o aumento das rendas, contou o livreiro, em entrevista à agência Lusa, no espaço Ulmeiro.
Muitos dos livros estarão com preços reduzidos, a partir desta semana, para reunir as verbas que talvez evitem um encerramento definitivo da livraria.
Sou de origem camponesa, não tenho muito esse feitio de estender a mão. Não gosto, não está no meu caráter. Há pessoal que me tem dito ‘fazemos isto e aquilo’. Eu jamais aceitaria qualquer coisa do estilo de esmola. A única coisa que estamos disponíveis é para vender barato. Isso não me importo, para ajudar a resolver o problema”, contou.
Há cerca de um ano, José Antunes Ribeiro começou a fazer leilões dos livros através do Facebook, para espevitar as vendas e divulgar a livraria. Se o Espaço Ulmeiro fechar portas, o livreiro manterá os leilões. “Hei de encontrar um cantinho em qualquer lado, de preferência sem renda, porque foram as rendas que me tramaram”.
José Antunes Ribeiro passa grande parte dos dias na livraria, acompanhado da mulher, Lúcia, e de Salvador, um gato de pelo ruivo que se passeia entre livros e dormita na montra. Aos três juntam-se mais de 200.000 livros e publicações, repartidos por dois pisos.
No fundo da livraria, atrás de um muro de livros, José Antunes Ribeiro ocupa-se dos leilões e da gestão do espaço, enquanto Lúcia organiza, põe e dispõe os livros. O gato tem um papel fundamental, diz José Antunes Ribeiro, é “o diretor de marketing”, que faz com que muita gente pare na livraria.
José Antunes Ribeiro, nascido em 1942 numa aldeia perto de Ourém, passou pelas edições Itaú, pela livraria Obelisco, fundou a editora Ulmeiro e depois a Assírio & Alvim, escreveu para o Diário de Lisboa e para O Tempo e o Modo. Se o Espaço Ulmeiro tem 47 anos, José Antunes Ribeiro já soma mais de 50 anos ligado aos livros.
Um puto que nasceu numa aldeia onde não se lia, como era o meu caso, numa casa onde não havia livros, com pais analfabetos, que descobriu as bibliotecas [itinerantes] da Fundação Gulbenkian e teve uma professora primária, que teve uma influência enorme, opta por ir para Lisboa para ser livreiro, editor. E assim foi”, resumiu.
A editora Ulmeiro está praticamente inativa – recentemente foi reeditado o primeiro título, “Isto anda tudo ligado”, de Eduardo Guerra Carneiro -, e a livraria de Benfica foi-se especializando em alfarrabista.
José Antunes Ribeiro recorda, com saudade, os tempos em que se faziam projeções de cinema para crianças, em que havia um clube juvenil “com cartão e tudo”, e sessões de poesia e de música. Por lá passaram Agostinho da Silva, editado pela Ulmeiro, José Afonso, Carlos Paredes, António Lobo Antunes.
Foi uma editora e uma livraria de resistência, no final do Estado Novo, onde foram apreendidos milhares de livros. “Houve as conspiratas, [estive] ligado a algumas iniciativas dos católicos progressistas; assinei o manifesto contra a guerra colonial, pela liberdade de expressão, em 1972”, contou.
A PIDE nunca foi… Era, evidentemente, um obstáculo, uma chatice. Mas não foi pela PIDE. Na altura até se vendiam mais livros [risos], havia aquela coisa dos livros que as pessoas sabiam que nós tínhamos. A PIDE nunca descobriu coisas várias. O esconderijo onde tínhamos livros nunca foi descoberto”, afirmou José Antunes Ribeiro.
Em meio século, José Antunes Ribeiro faz um “mea culpa” a propósito das fragilidades financeiras da livraria e fala em várias metamorfoses do negócio livreiro, da própria Ulmeiro e da dinâmica de vida do bairro.
“Eu não estou a ver muito bem o dia em que eu desço e afinal não tenho a chave da porta, e afinal a luz está apagada. Vai ser um choque maior para mim. E, para esta avenida [avenida do Uruguai], é uma perda que esta livraria vá por água abaixo”, lamentou.
Texto de Agência Lusa.

Lucinda Canelas - Os livros não têm prazo de validade

A vida da Livrarte e da Ulmeiro confunde-se com a de José Antunes Ribeiro há quase 50 anos. Entramos nesta livraria/editora de Lisboa que corre o risco de fechar à procura dos seus autores e encontramos um bocadinho da história do país. Os livros ainda podem ser uma forma de resistir.

 Há milhares de livros por toda a parte, em estantes, amontoados em balcões estreitos e cadeiras ou empilhados no chão. Pelo meio há vinis, pinturas, desenhos emoldurados, vidros decorativos e outros objectosvintage, a lembrar que a Livrarte não é só uma livraria e não é, sobretudo, uma livraria qualquer. Quem quer chegar às prateleiras da “Arte”, onde é possível encontrar grande álbuns de pintura francesa, roteiros muito antigos do Louvre e de Arte Antiga e biografias de El Greco, Fragonard ou Delacroix, precisa de contornar uma mesa com ficção portuguesa e estrangeira, uma mala de viagem em cartão, e caixotes e caixotes de livros de bolso e revistas dos anos 1960 e 70. Um pequeno labirinto que deixará a muitos saudades se as portas deste espaço no bairro de Benfica, em Lisboa, abertas há quase 50 anos, vierem a fechar. 
José Antunes Ribeiro, o proprietário e editor da Ulmeiro (as duas casas confundem-se, sempre se confundiram), tudo fará para que esta livraria, misto de loja de “coisas antigas” e alfarrabista, se mantenha em actividade. E isso passa por dar entrevistas a jornais e revistas, por receber “clientes ilustres” como o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, o poeta e crítico Pedro Mexia ou o humorista Ricardo Araújo Pereira, e por atender os “amigos de sempre”, que nunca deixam de aparecer para comprar livros. Isso passa, inclusive, por reuniões com o ministro da Cultura, João Soares, com quem ficou de voltar a conversar sobre eventuais apoios aos livreiros independentes.
“O negócio mudou muito nos últimos tempos e os portugueses perderam poder de compra, o que não é novidade para ninguém. Aquilo que já era difícil de segurar tornou-se nos últimos três, quatro anos, impossível de manter”, diz ao PÚBLICO, numa tarde de semana em que são muitos os que entram na loja, de estudantes africanos de Economia a professores de Direito que procuram poesia, passando pela Carminho e a avó, que vêm à procura de Salvador, o grande gato ruivo que costuma dormir na montra. “Esta é uma livraria de bairro que se orgulha muito de ser uma livraria de bairro. Muitos dos que entram na porta são nossos vizinhos, nossos amigos”, assume José Antunes Ribeiro, garantindo que naquele espaço “os livros não são coisa sagrada” que só se visita às vezes.
“Para muitas pessoas parece que o livro está numa espécie de capela onde só entram os fiéis, os eleitos. E a pensar assim não vamos lá. O livro tem de ser uma coisa que nos faz falta no dia-a-dia, é preciso dessacralizá-lo, dinamizar o acesso, baixar os preços. É preciso mostrar que os livros não mordem e não têm prazo de validade. Temos a vida toda para ler um grande romance ou um grande poeta.”
Foi no início de Fevereiro que se tornou pública a difícil situação da Livrarte, indissociável da Ulmeiro, e desde aí as manifestações de apoio têm-se sucedido, na Internet e fora dela. Pessoas do Algarve e do Alentejo que nunca tinham estado na livraria deslocaram-se de propósito a Lisboa para as feiras que o editor tem organizado – não foi só Marcelo Rebelo de Sousa que comprou dezenas de livros, embora seja bem provável que só o chefe de Estado tenha juntado num mesmo lote antigos volumes de Direito Constitucional, folhetos políticos dos anos 1960 e 70 e clássicos juvenis intemporais de Enid Blyton – e até a Câmara de Lisboa já enviou um técnico para tentar perceber como se pode associar aos esforços para salvar aquele espaço ou, pelo menos, o que ele representa, diz José Antunes Ribeiro.
Na análise da situação a que a Livrarte chegou, o editor não poupa críticas à sua própria gestão nem à forma como os pequenos livreiros, “os poucos independentes que ainda restam”, trabalham: “Eu não sou o último dos livreiros, sou apenas um dos últimos. E o que vejo é que, mesmo sendo uma comunidade pequenina, cada um cultiva o seu quintal, sem olhar para os outros, o que não ajuda. Numa altura em que os livros praticamente desapareceram das televisões, em que já não há suplementos especializados nos jornais, e em que nós não temos dinheiro para anunciar como fazem os grandes conglomerados de editoras, temos de nos juntar para criar um circuito alternativo.”
Desse circuito alternativo fariam parte, por exemplo, feiras espalhadas pelo país – “há tanta pequena cidade que não tem uma livraria…” –, com livros “a bons preços”, que poderiam incluir leituras com os autores e concertos. “Tenho a certeza de que cada um dos milhares de livros que aqui estão têm no mundo um interessado. Tenho a certeza de que com livrarias e editores independentes teremos um mercado do livro que arrisca mais.”
Uma casa sem livros
José Antunes Ribeiro tem 73 anos e uma vida dedicada aos livros, com uma passagem breve pela propaganda médica, “um engano” que só teve a vantagem de lhe trazer um amigo, o compositor e guitarrista Carlos Paredes. A escolha de carreira, reconhece, não foi a mais óbvia para quem nasceu numa aldeia entre Tomar e Ourém, numa casa muito humilde, educado por uma mãe austera de fortes convicções religiosas, que o obrigava a rezar o terço todos os dias e que não sabia ler. “O meu pai, que trabalhava para a CP, lia alguma coisa, mas nós só tínhamos três livros lá em casa: um com uma ida à lua, que naquela altura só podia ser ficção, outro do Júlio Verne, Viagem ao Centro da Terra, e um outro, que nunca compreenderei como lá foi parar de tão erudito, Décadas da Ásia, de João de Barros [considerado um dos primeiros historiadores portugueses, nascido ainda no século XV]. O do Júlio Verne, claro, era o meu favorito.”

Foi graças à professora Maria dos Anjos e às bibliotecas itinerantes da Gulbenkian, que apareciam na aldeia de Alburitel de 15 em 15 dias, que se apaixonou pela leitura. “Ficava à espera que a carrinha da Gulbenkian chegasse a saltava logo lá para dentro. Eles traziam livros de propósito para mim e tudo.”
O percurso nos livros começou na livraria Obelisco, na Amadora, e passou também pela fundação da Assírio & Alvim, no início da década de 1970, embora hoje o seu nome nem sempre apareça associado à história desta editora que tanto tem feito pela divulgação dos grandes nomes da poesia portuguesa e que desde 2012 integra o Grupo Porto Editora.
“No começo, a Assírio era uma editora muito contestatária”, diz, recordando que os primeiros comunicados que saíram da intersindical foram lá impressos. A contestação era, aliás, algo que partilhava com a Ulmeiro, que José Antunes Ribeiro cria em 1970. A edição, diz, via-a – parece vê-la ainda – como uma forma de militância.
Assumindo-se como um homem claramente de esquerda, nunca foi filiado em partido algum, mas sempre deixou claras as suas convicções, assinando em 1965, por exemplo, o manifesto contra a guerra colonial, em que o grupo dos chamados católicos progressistas, de que também faziam parte Nuno Teotónio Pereira, João Bénard da Costa ou Luís Salgado de Matos, denunciavam a cumplicidade entre a Igreja e o regime no que dizia respeito à guerra em África.
Por isso a Livrarte, que começou por ser o Espaço Ulmeiro, foi, desde que abriu, em 1969, um território de debate e de encontro entre escritores, artistas, poetas, críticos e outros intelectuais que se opunham ao Estado Novo. Nas suas tertúlias, onde se podiam encontrar músicos como Carlos Paredes, José Afonso e Vitorino, autores como Luiz Pacheco e Agostinho da Silva, discutia-se política “sem limitações”, conta.
A sua aposta na edição – “a militância contra a guerra colonial orientou muitas das escolhas”, diz – passava por autores africanos que considerava fundamentais para pensar a relação Europa-África, numa altura em que o governo português insistia “na ideia de um império ultramarino, contra tudo e contra todos”.
Esta atitude de resistência fazia com que, no final dos anos 1960, início dos 70, a PIDE, a polícia política do Estado Novo, entrasse com frequência na Ulmeiro e levasse edições inteiras, muitas vezes sem sequer um auto de apreensão. “Era uma coisa completamente abusiva e sem critérios minimamente lógicos. Eu costumava dizer que a trindade era sempre a mesma – Lenine, Estaline e Racine”, brinca José Antunes Ribeiro, garantindo que a terminação dos nomes dos autores e os títulos das obras, por mais inócuo que fosse o seu conteúdo, contava muito. A prová-lo, exemplifica, estão dois dos livros que a polícia do regime apreendeu: A Vida de Nijinsky e O Betão Armado. “Podia ser um livro técnico, de Engenharia, mas tinha 'armado' no título. E, para eles, o Nijinsky [bailarino e coreógrafo russo de origem polaca que foi um dos maiores e mais trágicos nomes da dança do século XX] só poderia ser um perigoso comunista, assim como o Racine [poeta e dramaturgo francês do século XVII]. A censura não olhava para o que lá estava escrito.”
Nesses anos, explica, a Ulmeiro era relevante em termos de “resistência e contestação” pelo que editava, mas também pelo que distribuía na língua original, sobretudo no que toca à literatura em castelhano, de autores como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Julio Cortázar.
Em tribunal por um livro
José Antunes Ribeiro, que colaborara com jornais e revistas como oComércio do FunchalO Tempo e o Modo O Diário de Lisboa,publica o primeiro livro na Ulmeiro em Janeiro de 1970Isto Anda Tudo Ligado, do jornalista e poeta Eduardo Guerra Carneiro, foi o título inicial da colecção Cadernos Peninsulares, que haveria de continuar com A Poesia Deve Ser Feita por Todos, obra de Carlos Loures que viria a figurar na extensa lista de obras da editora que foram apreendidas.

Entre os livros que editava e os que vendia na livraria, títulos houve, no entanto, que a PIDE terá considerado como ainda mais desafiadores do regime e dos seus valores, como Portugal Sem Salazar, de Mário Mesquita, O Casamento dos Padres, do padre Felicidade Alves, eAntologia das Mulheres-Poetas Portuguesas, organizada pelo também poeta António Salvado, que neste volume tinha a “veleidade” de mostrar, diz José Antunes Ribeiro, “que o lugar da mulher portuguesa não era a cozinha, ao contrário do que defendia o Estado Novo”.
A polícia chegava a levar 2500 livros, o que acaba por afectar economicamente a editora, recorda. “Queriam acabar com a editora e a livraria. E depois levavam-me também. A minha mulher ficava em pânico, mas a conversa era sempre a mesma: ‘Você é um comunista disfarçado de comerciante’, diziam-me eles.” Numa das vezes, “só para desafiar”, recusou-se a assinar o relatório da sua detenção, justificando-se com o facto de o português em que estava escrito ser mau de mais.
As apreensões foram muitas, mas nenhum dos livros da Ulmeiro, ou por ela distribuídos, teve tanta exposição mediática como o que levou o editor a tribunal militar. E já no pós-25 de Abril. Massacres na Guerra Colonial: Tete, um exemplo, volume com organização, introdução e notas de José Amaro, poeta e jornalista, foi publicado em 1976 e reúne um conjunto de documentos marcados como “secretos” e que dizem respeito a operações das tropas portuguesas na província de Tete, na região central de Moçambique, em Dezembro de 1972. Massacres “desde sempre negados e dissimulados pelo Governo português”, lê-se nas primeiras páginas, e que deixaram para trás centenas de mortos, muitos deles mulheres e crianças.
“Ainda hoje me orgulho de ter editado esse livro. Ainda hoje me lembro bem de algumas passagens dos relatórios dos padres que deram conta dos massacres, da crueldade dos militares… É muito difícil esquecer as imagens que esses relatórios nos obrigam a criar na nossa cabeça”, acrescenta José Antunes Ribeiro, lembrando que o processo em tribunal acabou com ele amnistiado porque o que era preciso, diz, era tirar o livro e o que nele se mostrava das páginas dos jornais. “A imprensa pegava muito naquilo para responsabilizar os militares que tinham sido coniventes com o regime e o que interessava era calar-nos. Irritado, na altura, eu cheguei a dizer que queria ser absolvido ou condenado – que uma amnistia não era nada.”
Teotónio Pereira e frei Bento Domingues estavam entre as suas testemunhas de defesa, num julgamento que foi militar porque os documentos que a edição reproduzia deviam ter permanecido secretos. “Ainda hoje há muita coisa por discutir dessa guerra”, defende, com o espírito inquieto e insatisfeito que diz ser uma das marcas da sua personalidade. “Mas se calhar há quem ainda não esteja pronto para essa discussão.”
A Ulmeiro continua
Só “dentro de uma ou duas semanas” é que José Antunes Ribeiro saberá se tem condições para manter a livraria aberta em Benfica. Tem propostas para a levar para outras paragens, mas preferia ficar no bairro. Para já, a única certeza é a de que a editora, que publicou o seu título mais recente há já cerca de seis anos, vai continuar. Com ela gostaria de publicar ainda alguns dos seus autores de sempre, como Antero de Quental, Hélia Correia, Marguerite Duras e Ruy Belo.

Para fazer um bom livro, diz, o escritor não precisa de ter apenas uma boa história – “os melhores livros não têm só uma história, têm muitas, mesmo quando não parece” , precisa de dominar a sua gramática, que não é só a da língua. O que é a gramática do livro? “Uma série de recursos, de conhecimentos, que o autor vai sedimentando depois de ter lido muitos outros. Não conheço nenhum grande escritor que não seja um grande leitor.”
Para já, José Antunes Ribeiro tem praticamente pronta uma nova revista, dirigida pelo poeta e pintor Hugo Beja, “homem de ciência que Portugal infelizmente não conhece como devia”, e que reúne poesia, conto, ensaio e desenho, tendo neste primeiro número colaboradores como Lídia Martinez, Juan Carlos Mestre, António Serra e Mário Rui Cordeiro.
Esta publicação, cujo lançamento não está ainda marcado, vai chamar-se O Voo da Coruja, a lembrar uma casa no meio da floresta, onde durante mais de 20 anos José Antunes Ribeiro criou estas rapinas que, diz ele, não se podem domesticar. “São como eu, sempre inquietas.” 
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